«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 24 de março de 2011

BALANÇO DA EDUCAÇÃO PAULISTA


O desempenho dos estudantes de ensino médio caiu pelo segundo ano consecutivo na avaliação do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp). As provas foram aplicadas no final de 2010 aos alunos da 3.ª, 5.ª, 7.ª e 9.ª séries do ensino fundamental e da 3.ª série do ensino médio das 5.065 escolas da rede pública paulista.

Concebido com o objetivo de subsidiar as políticas de educação do governo estadual, o Saresp já está em sua 13.ª edição. A avaliação mede os conhecimentos dos alunos em língua portuguesa, matemática e ciências. O Saresp também propicia um quadro comparativo do desempenho das escolas da rede pública e um balanço do chamado fluxo escolar - que compreende as aprovações, as reprovações e as taxas de abandono ou evasão. Com base nas notas em cada prova, as autoridades educacionais calculam o Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp), que vai de 0 a 10.

Os piores desempenhos no último Saresp foram registrados na 9.ª série do ensino fundamental e na 3.ª série do ensino médio. Essas foram as duas séries com o maior número de estudantes com conceito insuficiente - ou seja, reprovados. Entre 2009 e 2010, o desempenho dos alunos da 3.ª série do ensino médio caiu de 274,6 pontos para 265, em língua portuguesa, e de 269,4 para 269,2 pontos, em matemática. Por causa dessa queda, o Idesp da série recuou de 1,98 para 1,81. Na 9.ª série do ensino fundamental, as notas em matemática despencaram de 251,5 pontos para 243,3 e as notas em língua portuguesa passaram de 236,3 pontos para 229,2. Como consequência, o Idesp dessa série, que havia ficado em 2,84, em 2009, diminuiu para 2,52, no ano passado.

Entre as séries que tiveram melhor desempenho médio e maior número absoluto de alunos aprovados na 13.ª edição do Saresp, destacou-se o 5.º ano do ensino fundamental. Em matemática, o desempenho dos alunos saltou de 201,4 pontos para 204,6, entre 2009 e 2010. Em língua portuguesa não houve mudança no período. Nesta disciplina, os alunos obtiveram 190,4 pontos, em 2009 e em 2010. Graças à avaliação positiva em matemática, o Idesp desta série passou de 3,86 para 3,96.

O Idesp também serve para calcular o bônus dos professores das escolas estaduais com melhor desempenho, que começarão a ser pagos na próxima semana. O bônus é proporcional ao resultado obtido pela escola no Saresp e pelo cumprimento das metas de desempenho definidas pela rede pública para a escola. Professores e funcionários das escolas que atingem 100% das metas recebem 2,4 salários de prêmio.

Por causa das quedas registradas na 9.ª série do ensino fundamental e na 3.ª série do ensino básico, o número de escolas que não receberão bônus este ano triplicou. Com base no Saresp de 2010, 29,1% da rede pública - 1.474 escolas - não será contemplada, por não ter atingido as metas de desempenho. No ano passado, com base no Saresp de 2009, o porcentual foi de 9,9% - 510 escolas.

Os números mostram que, apesar de o governo estadual ter aumentando os investimentos no setor nos últimos anos, a qualidade média da educação da rede pública estadual piorou. No ensino fundamental, a maioria dos alunos continua sem saber ler e escrever e com enormes dificuldades no domínio das mais elementares técnicas matemáticas. Já na 3.ª série do ensino médio, que antecede os vestibulares, a maioria dos estudantes deixa a escola com dificuldades de leitura, sem saber fazer reflexões abstratas numa redação e sem conseguir resolver equações.

As autoridades estaduais atribuem os números negativos do Saresp de 2010 a dois fatores. Um deles é a rotatividade dos docentes, que prejudica o aprendizado dos estudantes. O segundo fator é o número insuficiente de professores. Quaisquer que sejam as explicações, o fato é que, no Estado mais rico da Federação, o ensino público básico continua muito abaixo dos padrões necessários para a formação do capital humano de que o País precisa para crescer.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Quinta-feira, 24 de março de 2011 - Pg. A3 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110324/not_imp696491,0.php

"Jeitinho" chinês para driblar antidumping assusta indústria


Fernanda Pires

Empresas de setores da indústria nacional que já foram beneficiados por medidas antidumping para produtos da China têm mapeado o aumento das importações dos mesmos bens com origem em outros países. De posse dos dados que sugerem a triangulação das mercadorias para escapar das regras brasileiras, os empresários levaram denúncias à Receita Federal e ao Ministério do Desenvolvimento, mas o descompasso entre a avalanche dos produtos que entram no Brasil dessa forma e a velocidade de ação do governo para coibir tais práticas têm colocado a indústria nacional em pânico.

Entre os setores que mais se sentem prejudicados, estão calçados, produtos magnéticos, escovas de cabelo, e armação para óculos. A Supergauss, fabricante de itens magnéticos, tem sofrido com a estratégia chinesa para driblar as barreiras antidumping e colocar no mercado doméstico imãs para alto falantes a preços abaixo dos cobrados no resto do mundo.
De acordo com o diretor-comercial da empresa, Roberto Barth, a China envia as peças a países que não produzem a carga, para evitar pagar a tarifa, fixada em 43% sobre o valor CIF da mercadoria desde 1998. A partir de um país intermediário, os imãs são redirecionados ao Brasil, onde desembarcam sem pagar a taxa, disputando no mercado doméstico em condições mais vantajosas. Hoje, o setor movimenta cerca de 500 toneladas mensais. Nos últimos dois anos, a triangulação feita pela China representou aproximadamente 25% desse universo, estima Barth.

O caso das escovas de cabelo é emblemático. Depois da imposição de Brasília de sobretaxas ao produto chinês, no fim de 2007, as compras caíram 77,6%, chegando a 132,9 toneladas em 2010. No mesmo intervalo, o fornecimento da carga com origem em Taiwan aumentou 508%, para 511,2 toneladas, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento.
"Não tem lógica esse aumento. Formosa não tem fábrica para esse volume. O que está acontecendo é a triangulação descarada. A partir de consultas com esses fornecedores, verificamos que as fábricas que estão enviando essas mercadorias têm sede na China", afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Móveis de Junco e Vime, Vassouras Escovas e Pincéis (Simvep), Manoel Miguez. De acordo com ele, há mais de um ano o setor solicitou a ampliação do antidumping imposto à China a demais países asiáticos, mas não obteve resposta.

Apesar de todas as empresas sofrerem em maior ou menor grau, para as de pequeno e médio portes é mais difícil resistir. "Nossas armas são menores", diz o executivo da Supergauss. Na década de 90 a empresa chegou a ter 400 funcionários, número que caiu pela metade. "Perdemos todos os nossos clientes de exportação para os chineses. Hoje, 95% da produção de ímãs de ferrite no mundo é de lá."

O executivo mostra uma série de e-mails trocados com uma empresa chinesa que, sem saber se tratar de um concorrente local, descreve os meandros de transferência de mercadorias para a Malásia. No texto, diz que já mantém a prática para outros clientes no Brasil. O Valor confirmou que a empresa chinesa realmente produz o bem oferecido (imãs), mas ela não atendeu à reportagem.

Nos últimos anos, a Supergauss fez mais de cinco denúncias à Receita Federal e ao Ministério do Desenvolvimento. No segundo semestre de 2010 o governo baixou uma regulamentação antielisão. No dia seguinte, o setor de magnéticos entrou com um processo no Departamento de Defesa Comercial (Decom), solicitando a extensão do antidumping aos países com os quais a China triangulava. Apesar de destacar a boa vontade dos órgãos governamentais, Barth diz que falta gente. "O efetivo é pequeno, muitas das denúncias ficam empilhadas." Para amplificar o discurso, no ano passado Barth e outros empresários criaram a Comissão de Defesa da Indústria Brasileira (CDIB). Entre os vários setores industriais, estão o de pincéis, garrafas térmicas, vidros e ferramentas para a construção civil.

No setor de calçados, houve uma escalada de importações a partir de países sem tradição de vendas ao Brasil à medida que a indústria nacional aumentava a pressão pelo antidumping às importações chinesas, oficializado somente em 2010. De acordo com números do governo, entre 2008 e 2010, as compras brasileiras da China caíram 62,4%, saindo de 18,9 mil toneladas para 7,1 mil toneladas. Paralelamente, o desembarque de calçados com origem da Malásia cresceu extraordinários 57.858% no mesmo intervalo. Saltou de 5,7 toneladas - insuficiente para lotar um contêiner - para 3,3 mil toneladas no ano passado.

O comércio de calçados com a Indonésia aumentou 238%, para 2,6 mil toneladas, e com Hong Kong, quase 75%. Para a Abicalçados, a tarifa antidumping deveria ser aplicada também a esses países. Em 18 de janeiro deste ano, a associação oficializou ao governo pedido de investigação contra produtos do Vietnã, Malásia, Hong Kong e Indonésia.

A indústria de armação de óculos também luta contra a concorrência desleal. Conseguiu aprovar a punição ao dumping chinês em 2007. A taxa por unidade é de US$ 4,70 ou US$ 270 por quilo, no caso de importações com valor declarado de até US$ 10. Mas pouco adiantou, diz o presidente do Sindicato Interestadual da Indústria de Óptica do Estado de São Paulo (Siniop), Rinaldo Dini. Segundo ele, o setor passou a sofrer mais com o contrabando.

Em 2005, as importações brasileiras totais de armações de óculos foram de 79,6 milhões de unidades. À época, a China fornecia aproximadamente 90% desse volume, afirma Dini. No ano seguinte, quando as licenças de importação da China deixaram de ser automáticas, as compras no exterior caíram para 29,1 milhões de unidades. Ao mesmo tempo, a produção brasileira, que vinha em queda, aumentou apenas 11,2% em 2006, para cerca de 6 milhões. Segundo Dini, fica claro que o "contrabando aumentou", pois a indústria brasileira não supriu a defasagem e mesmo assim não houve desabastecimento do mercado doméstico.

Outro segmento que encolheu foi o de guarda-chuvas. A fábrica da SunGap chegou a ter 200 colaboradores diretos nos anos 90, quando produzia até 150 mil unidade por mês. Hoje, são 16 funcionários e a fabricação mensal é de 5 mil unidades, em média. "A China consegue colocar um guarda-chuva no Brasil por R$ 0,80. Nosso custo de produção não sai por menos de R$ 7", diz o dono da SunGap, João Henrique Larivzati. Diante da impossibilidade de concorrer com os chineses, a empresa decidiu apostar no filão de guarda-chuvas e guarda-sóis promocionais. E quando a encomenda é grande, Larivzati recorre às importações chinesas para aproveitar apenas a armação.

Fonte: Valor Econômico - Quinta-feira, 24 de março de 2011 - Pg. 6 - Internet: http://portosenavios.com.br/site/noticiario/geral/8788-qjeitinhoq-chines-para-driblar-antidumping-assusta-industria

Alta do etanol derruba consumo em 40%


Álcool sobe 22% desde novembro; em São Paulo, principal centro produtor,
alguns postos vendem o litro a R$ 2,30
Reação da demanda foi mais tardia neste ano; apesar da migração do consumo,
preço só deve cair a partir de maio

TATIANA FREITAS
DE SÃO PAULO

O consumidor responde à disparada dos preços do álcool. Na semana passada, as vendas pelas distribuidoras caíram 40% no país, em relação à média semanal de janeiro e fevereiro, de cerca de 160 milhões de litros.

Os dados, referentes a 60% do mercado, são do Sindicom (sindicato dos distribuidores de combustíveis).
A menor demanda também chegou aos postos de combustíveis. Segundo o presidente do Sincopetro (sindicato dos postos de São Paulo), José Alberto Gouveia, entre 36% e 40% do consumo de etanol passou para a gasolina na última semana.

A retração em março ocorre após relativa estabilidade em fevereiro. Em janeiro, as vendas de etanol caíram 26% ante dezembro, mas o menor volume foi insuficiente para equilibrar o mercado.

Os preços continuaram a subir em março e o valor médio do litro atingiu R$ 2,07 na semana encerrada no último sábado, alta de 9% ante fevereiro, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo).

Do início da entressafra, em novembro, até a semana passada, os preços do álcool subiram 22% no país. Em São Paulo, berço do setor, o consumidor já encontra o litro a R$ 2,30 em alguns postos.

REAÇÃO TARDIA

Nos períodos de entressafra, marcados por queda na oferta de álcool, a demanda historicamente cai. Neste ano, a reação foi mais tardia.

Para o consumidor, compensa abastecer com álcool se o seu preço for igual ou inferior a 70% do valor da gasolina. "Na maior parte dos Estados, essa relação foi ultrapassada e o consumo se manteve aquecido, o que surpreendeu", diz Alívio Vaz, presidente do Sindicom.

A Unica (associação dos produtores) afirma que o movimento atípico deve-se ao aumento do poder aquisitivo. "Todos erraram em planejamento de demanda. A economia está em outro patamar, e a reação à menor oferta foi, de fato, tardia", diz Antonio de Pádua Rodrigues, diretor da associação.

Com a recente queda na demanda, a consultoria Datagro quase dobrou a sua estimativa para os estoques de etanol no prazo de um mês. Agora, a previsão é de 1 bilhão de litros, equivalentes a 20 dias de consumo.

No entanto, os preços devem continuar altos até maio. "Os preços só vão voltar com a combinação de redução da demanda e oferta da nova safra", diz Pádua. A partir da segunda quinzena de abril, segundo ele, cerca de 50% a 60% das usinas estarão em produção.

O fato é que desde a crise de 2008 houve poucos investimentos em aumento de capacidade e a oferta de álcool não acompanha o ritmo de crescimento da demanda.
Na última safra, a oferta aumentou 2,7 bilhões de litros. "Mas isso ficou muito aquém da demanda", diz Pádua. "Não conseguimos responder à velocidade da demanda com a mesma agilidade", completa o secretário de Agroenergia do Ministério da Agricultura, Manoel Bertone.

Fonte: Folha de S. Paulo - Quinta-feira, 24 de março de 2011 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2403201103.htm

Nota da CNBB em defesa da Lei Maria da Penha



“Deus os criou homem e mulher” (Gn 1,27).

Nós, Bispos do Conselho Episcopal de Pastoral, reunidos em Brasília, nos dias 21 e 22 de março de 2011, manifestamos apoio à mobilização nacional em defesa da Lei Maria da Penha, sancionada pelo Presidente da República no dia 07 de agosto de 2006. Após cinco anos de vigência, a lei recebeu grande apoio da sociedade e merece ampliar seu alcance, assegurando todos os mecanismos e instrumentos nela previstos de modo que todas as mulheres vítimas de violência tenham seus direitos e sua cidadania garantidos.

A Lei representa uma grande conquista para as mulheres brasileiras, pois incorporou o avanço legislativo internacional e se transformou no principal instrumento legal no enfrentamento da violência doméstica contra a mulher no Brasil, inclusive com reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), como uma das melhores legislações do mundo.

As estatísticas, no entanto, revelam que o país ocupa a 12ª posição no ranking mundial de homicídios femininos (Mapa da violência - 2010, Datasus). No período de 1997 a 2007, 10 mulheres foram assassinadas por dia no Brasil. Isso merece nosso repúdio e indignação.

São, portanto, motivo de preocupação as interpretações restritivas e as tentativas de revisão dos artigos 16 e 41 da lei que diminuem sua eficácia e representam um significativo retrocesso na sua implementação e aplicabilidade. Tais restrições acarretam menor punição aos agressores, aumento do arquivamento dos processos, o desestímulo das mulheres em denunciar e exigir prosseguimento das investigações.

A Lei Maria da Penha é instrumento que levou a sociedade a realizar ações positivas no enfrentamento dos atos de violência contra a mulher. Cabe aos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo cuidar pela sua manutenção tal como aprovada, não permitindo nenhum tipo de retrocesso ou omissão.

A Igreja, comprometida na defesa dos Direitos Humanos, manifesta-se, mais uma vez, a favor do respeito à dignidade da mulher, incentiva os esforços de instituições e da sociedade na luta pela superação de todo e qualquer tipo de violência, possibilitando a construção de uma cultura de paz no ambiente familiar e social. 

Brasília-DF, 22 de março de 2011.

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 24/03/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41672

terça-feira, 22 de março de 2011

''Pré-sal" é a palavra-chave para entender a viagem de Obama ao Brasil



"Pré-sal": essa é a palavra-chave para decifrar a viagem de Barack Obama ao Brasil. "Pré-sal" é o nome que os geólogos deram às novas reservas offshore descobertas ao longo das costas brasileiras, em uma longa faixa submarina que corre paralelamente às áreas de maior industrialização: do Rio a Minas Gerais a São Paulo.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica [Roma, Itália], 21-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ficam a mais de 250 km de distância das costas e são muito profundas, mas essas jazidas contêm até 100 bilhões de barris. "Vocês têm o dobro de todas as reservas petrolíferas dos Estados Unidos", reconhece Obama em um encontro com os executivos-chefes das grandes empresas brasileiras. Ou seja, o Brasil tem mais petróleo do que EUA, Canadá e México juntos.

Quando as novas jazidas forem plenamente exploradas, ele saltará para o quatro lugar mundial entre os exportadores de petróleo e de gás natural. É uma superpotência energética aquela que Obama veio cortejar nas duas etapas de Brasília e do Rio, justamente enquanto enfurece a intervenção militar na Líbia, comprovando o quanto é instável a outra zona do mundo da qual os EUA dependem historicamente por causa de uma cota substancial da seu própria necessidade.

Por isso, Obama decidiu dedicar ao Brasil a sua primeira viagem presidencial à América do Sul. Foi ao Brasil apesar da guerra que, segundo alguns críticos, deveria tê-lo segurado em Washington. Ele viajou à frente de uma superdelegação, com dois secretários, do Tesouro (Tim Geithner) e do Comércio (Gary Locke), acompanhados por um exército de empresários.

Aos seus interlocutores brasileiros, Obama não economiza as lisonjas: "Vocês são a sétima economia do mundo", anuncia, oficializando assim a ultrapassagem do PIB brasileiro ao da Itália (e bem logo ao da França, também por causa do efeito da supervalorização do real).

Ele se orgulha do milagre econômico de rosto humano: "Vocês retiraram dezenas de milhões de pessoas da pobreza. Quase a metade da sua população já é classe média. Vocês demonstraram que o espírito de empreendimento capitalista pode desenvolver-se junto com a justiça social".

Ele lembra também que o Brasil de hoje não é só uma superpotência agrícola e em matérias-primas, mas sim um gigante industrial: "As suas multinacionais empregam 42 mil funcionários nos EUA". Depois, Obama enfrenta o núcleo duro do seu interesse estratégico para o Brasil: "Em um momento como este – diz o presidente norte-americano – em que os eventos nos lembram como a instabilidade em outras partes do mundo pode condicionar o preço do petróleo, os EUA só podem saudar com satisfação o seu papel como nova e estável fonte de energia".

É uma proposta de aliança de longo prazo: o governo dos EUA corteja a gigante petrolífera pública Petrobras na esperança de obter contratos de fornecimento de longo prazo. Obama lembra que o Brasil é uma superpotência energética também em outros setores. Com relação à "Green Economy", o Brasil é um mestre com o qual os EUA poderiam aprender muito. "Cerca de 80% da sua energia é gerada pelas centrais hidrelétricas". E isso apesar do fato de o desenvolvimento das centrais estar ainda no estágio da infância: calcula-se que só 30% do potencial hídrico é explorado.

"Vocês são os líderes mundiais em biocombustíveis", admite Obama. E aqui ele se aventura em um dos campos minados, em que o diálogo entre os dois gigantes do continente americano é marcado por incompreensões e conflitos. O Brasil, com efeito, gera 45% da sua energia (incluindo combustíveis) do bioetanol. O seu é, há muito tempo, o mais "verde", o menos poluente e o mais eficiente na utilização dos recursos naturais, porque é produzido a partir da cana-de-açúcar. Mas contra esse bioetanol multiplicaram-se, de Washington, os obstáculos protecionistas.

O próprio Obama, quando estava em campanha eleitoral no seu Midwest, defendeu extrenuamente os subsídios públicos norte-americanos aos produtores de biocombustíveis à base de milho e de outros cereais: um combustível muito menos "verde", mais dispendioso no uso de recursos naturais e que faz concorrência à alimentação humana.

O futuro do diálogo EUA-Brasil dependerá também da capacidade de Washington de reduzir as suas barreiras. Aos brasileiros, não faltam alternativas: desde 2009, a China já depôs os EUA do papel de primeiro parceiro comercial. E se Obama homenageou Brasília e Rio com a sua primeira viagem sul-americana, a primeira turnê estrangeira da presidente Dilma Roussef, em abril, ao contrário, terá um outro destino: Pequim.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 22/03/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41599

SÉCULO DAS NOVAS LUZES


O processo histórico é hoje menos codificado e tem mais surpresas - o que o torna mais atraente

Boris Fausto *

A periodização da história, especialmente quando escalonada em séculos, é um artifício para se delimitar, de algum modo, a passagem do tempo. Assim, o historiador Eric Hobsbawn chamou de curto o século 20 porque, a rigor, o corte inicial, segundo ele, inicia-se em 1914, com a eclosão da 1ª Guerra Mundial, e o corte final ocorre em 1991, com o colapso da União Soviética.

Tomando como ponto de partida essa cronologia e com a vantagem da visão retrospectiva, podemos afirmar, em poucas palavras, que o século 20 foi marcado pela tragédia. Morticínio provocado por duas grandes guerras, emergência dos totalitarismos na Rússia, na Itália e na Alemanha, massacre dos judeus, ciganos, "deficientes" físicos ou mentais pela horda nazista.

É possível matizar essa visão profundamente negativa lembrando que, nos dias de hoje, as guerras mundiais são muito improváveis, os regimes totalitários foram derrotados e, mais ainda, que após dois conflitos sangrentos no último século, para não falar da guerra franco-prussiana de 1870-1871, Alemanha e França tornaram-se aliados, com um papel central na União Europeia.

Podemos interpretar o século 20 com ênfases diversas, ou mesmo contrastantes, mas ninguém contesta os fatos que sucederam ao longo de seu decorrer, se jogarmos na lata do lixo "os assassinos da memória", negadores do Holocausto, como os chamou o historiador francês Pierre Vidal- Nacquet.

Viremos a página para encarar o adolescente século 21, com pouco mais de 11 anos de existência. Quase 90 anos cobertos de neblina surgem diante de nós, ou melhor, das novas gerações, pois muito poucos dos vivos de hoje permanecerão vivos na próxima virada de século.

Nos dias que correm, Clio já nos preparou uma surpresa. Quem poderia prever as revoltas dos povos árabes, estendendo-se dos países do Golfo Pérsico à Argélia, no Norte da África? Certamente essas revoltas terão desfecho diverso e algumas delas poderão fracassar, como é o caso da Líbia. Mas elas vêm demonstrando a inconsistência da afirmação, tantas vezes repetida, de que a cultura dos povos árabes é incompatível com a democracia.

Certamente o ritmo da evolução democrática no mundo ocidental, apesar das ameaças crescentes ao direito das minorias, com fortes traços de xenofobia, não se compara com o quadro existente no Oriente Médio. Mas o fato é que pelo menos uma parcela dos manifestantes dos dias de hoje, além de buscar emprego e uma vida decente, luta pelo direito à livre expressão - um direito que passa pela derrubada de ditadores e tiranos.

Na esfera da economia, o século 21 aparenta ser o século da China, acompanhado de uma queda relativa dos Estados Unidos e mais acentuada dos países da União Europeia. Entretanto, os relatórios recentes dos grandes bancos divergem em seus prognósticos. Num extremo, o Citigroup prevê que já em 2020 o PIB chinês superará o dos Estados Unidos; no outro, o HSBC calcula que a ultrapassagem ocorrerá por volta de 2045. O PIB, por si só, não mede a qualidade de vida da população, pois pouco ou nada diz sobre a renda per capita e o PPP (poder paritário de compra) dos diferentes países, e aí a China tem um longo e complicado caminho a percorrer.

Entretanto, até por volta de 1980 alguns economistas e sociólogos falavam do Japão como a futura potência hegemônica, em contraste com o declínio americano. Hoje, apesar de ainda ser a terceira economia do mundo, o Japão vive uma longa recessão que a recente catástrofe sísmica, infelizmente, deverá agravar.

De uma forma ou de outra, o século 21 seria então, a partir de certo momento, o século da hegemonia chinesa? Talvez. Convém lembrar que o ranking do Citigroup coloca a Índia à frente da China em 2050, enquanto ela fica em terceiro lugar em dois outros rankings (Goldman Sachs e HSBC). A melhor projeção para o Brasil - diga-se de passagem - colocaria nosso país em terceiro lugar, e a pior, em sétimo, a mesma posição de hoje, na hipótese mais pessimista. O ascenso da China e da Índia indica que o maior polo da economia mundial, em meados do século, estará concentrado na Ásia.

Diante de tudo isso, não se trata de dizer que vivemos sob o império do acaso e de um futuro aleatório. As transformações das estruturas socioeconômicas, assim como as culturais, de longa duração, ganharam velocidade, mas permanecem de pé, condicionando e limitando o arco das possibilidades. Convém lembrar, entretanto, que certos conceitos tidos como centrais na história das sociedades contemporâneas perderam muito de seu poder explicativo, como é o caso da luta de classes - chave da história em tempos relativamente recentes.

Estamos hoje longe da crença religiosa nas leis da história e abertos a admitir o imprevisível. Aos nossos olhos, o processo histórico continua a ser um processo, mas menos codificado, mais cheio de surpresas, o que o torna mais atraente.

* BORIS FAUSTO É HISTORIADOR, PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP E AUTOR DE A REVOLUÇÃO DE 30 - HISTORIOGRAFIA E HISTÓRIA

Fonte: O Estado de S. Paulo - Supl. ALIÁS - Domingo, 20 de março de 2011 - Pg. J6 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,seculo-das-novas-luzes,694546,0.htm

Para conhecer um dos atores no Mundo Árabe: O nascimento da Irmandade Muçulmana


Com o colapso do Império Otomano, maior representante do islamismo no início do 20, muçulmanos egípcios procuraram combater a ocidentalização

Jay Winter
Los Angeles Times
[Foto acima]

Para compreender a Irmandade Muçulmana e avaliar seu papel nesse momento em que o Oriente Médio passa por mudanças, é necessário primeiro examinar as forças que ocasionaram o nascimento da organização - o que nos leva ao colapso do Império Otomano durante a 1.ª Guerra.

Antes da guerra, o Império Otomano era a mais forte e a mais visível face do Islã no mundo. No seu auge, nos séculos 16 e 17, ele controlava uma grande extensão de território que se estendia do sudeste da Europa até a Ásia e o Norte da África. Seu território diminuiu enormemente no século 20, mas foi a aliança que firmou com a Alemanha na guerra que provocou sua destruição final.

Em consequência do conflito, o que restou do Império Otomano foi dividido pelos vitoriosos, fato que deu às potências ocidentais muito mais influência no Oriente Médio e criou uma enorme tensão entre as populações islâmicas.

Na Turquia, Mustafa Kemal - que mais tarde recebeu o nome Ataturk, ou pai dos turcos - finalmente subiu ao poder. Herói de Gallipoli, que desafiou e derrotou os invasores britânicos e franceses no Estreito de Dardanelos em 1915, Kemal foi também o homem que frustrou os planos ocidentais de uma partilha da Turquia em holdings imperiais e uniu o Exército turco para vencer a invasão grega. O resultado foi uma nação em que a religião ficou separada do poder.

A Turquia de Ataturk comprometeu-se, sob sua liderança, a ingressar no mundo ocidental - em termos de língua, vestuário, engajada com o desenvolvimento do país e o poder militar. E nesse projeto, Ataturk teve êxito. A Turquia hoje é a sua maior realização.

Mas a insistência de Ataturk no sentido de um governo totalmente secular também desencadeou um movimento contrário de muçulmanos que queriam salvar o Islã do contato corruptor com o Ocidente. No Egito, esse movimento deu nascimento à Irmandade Muçulmana.

O Egito, uma monarquia constitucional a partir de 1922 e membro da Liga das Nações desde 1937, foi incapaz de estabelecer um sistema político estável, em parte por causa da presença constante das forças britânicas controlando o Canal de Suez - que influenciavam vigorosamente o Cairo.

Entre os egípcios preocupados com a ocidentalização do país estava Hassan Banna, filho de um relojoeiro, que, em 1919, aos 13 anos, participou de motins de caráter nacionalista exigindo a autodeterminação do país. Quando esse movimento fracassou, Hassan ficou cada vez mais preocupado com as consequências políticas e morais nocivas de uma ocidentalização do país. O declínio da civilização islâmica, ele achava, só poderia ser revertido com o retorno à fé.

Para isso, em 1928, em Ismailia, Hassan ajudou a organizar um grupo de professores e militantes conhecidos como Irmãos Muçulmanos. Embora em suas origens fosse um movimento de reforma islâmico mais amplo, o objetivo da Irmandade Muçulmana é fazer do Alcorão o principal ponto de referência para guiar os muçulmanos na sua vida cotidiana, dentro de suas famílias, seus povoados, cidades e nações.

Hassan foi um orador e um militante das bases, discursando onde podia, em mesquitas ou cafés.
O trabalho do grupo era beneficente e educacional, mas seus membros também defendiam um retorno às raízes islâmicas, expurgadas do contato com outras tradições. O grupo aproveitou-se do ressentimento generalizado com a presença das tropas britânicas e a riqueza ostensiva da comunidade expatriada, com a administração do Canal de Suez.

Essa mensagem anticolonialista muçulmana encontrou um público receptivo e em breve criou uma organização de massa perigosa para a dominação britânica e a monarquia egípcia.

No início dos anos 40, alguns membros da Irmandade Muçulmana criaram grupos armados, envolvidos com diversos incidentes violentos. O número de membros aumentou para 500 mil.
Em 1948, Hassan Banna convocou voluntários para combater ao lado dos palestinos. O governo egípcio agiu para dissolver o movimento, prendendo centenas de partidários da irmandade. Uma medida que não teve êxito e provocou o assassinato do primeiro-ministro egípcio por um irmão muçulmano em dezembro de 1948. Três meses depois, Hassan foi atacado também e morreu por causa dos ferimentos que, de acordo com algumas fontes, não foram deliberadamente tratados no hospital por ordem do governo. Mas seu legado não foi fácil de erradicar.

A Irmandade Muçulmana surgiu em resposta ao controle britânico no Oriente Médio antes de 1948. A mesma crise também moldou os territórios palestinos. Os compromissos paralelos e contraditórios dos britânicos com movimentos nacionalistas dos árabes e movimentos nacionalistas dos judeus criaram uma mistura explosiva que ainda precisa ser desativada.

Na Galileia, oito jovens sionistas - incluindo o único armado, Joseph Trumpeldor - morreram num confronto com muçulmanos xiitas em março de 1920. Os oito deram seu nome à cidade de Kiryat Shemona, que se tornou um memorial de guerra.

Em abril de 1920, cinco judeus e quatro árabes morreram e centenas ficaram feridos em distúrbios na Cidade Velha de Jerusalém. Em maio de 1921, 48 árabes e 45 judeus - incluindo o grande escritor Yosef Haim Brenner -, foram mortos em confrontos em Jaffa. O banho de sangue que se observa no Oriente Médio moderno já é um modelo antigo, como também é o sofrimento.

Quando os gigantes caem, disse Tácito, proteja-se. Mesmo que tenha sido uma gigante enferma, a Turquia Otomana foi gigante. Seu colapso levou a uma expansão do poder imperialista do lado dos vitoriosos na guerra e a uma guerra que persiste ainda contra a manipulação ocidental da região em favor de seus interesses estratégicos e econômicos.

Hoje, quase um século depois, vemos as mesmas forças posicionadas na mesma luta crônica e sangrenta, sem um fim a vista. Se você acha que as forças explosivas da 1.ª Guerra são a essência da história antiga, pense novamente.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É PROFESSOR DE HISTÓRIA NA YALE UNIVERSITY E COAUTOR DO LIVRO "THE GREAT WAR AND THE SHAPING OF THE 20TH CENTURY"

Fonte: O Estado de S. Paulo - Domingo, 20 de março de 2011 - Pg. A26 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110320/not_imp694480,0.php

''Americanos sabem muito pouco do Brasil''


ENTREVISTA
Frank MacCann, historiador

Pesquisador acredita que Washington pensa o País como parte da América Latina e
visita de Obama será apenas um ''tour''
Wilson Tosta - Rio

Veterano pesquisador da história do Brasil e de suas relações com os Estados Unidos, o historiador norte-americano Frank McCann espera que a visita do presidente Barack Obama [foto acima] ao País ajude a aproximar mais os dois países - mas duvida que esse resultado se confirme.

Para ele, Obama, em seu tour latino-americano (que inclui El Salvador e Chile), comete o mesmo erro de ocupantes da Casa Branca que o precederam: considerar o Brasil apenas parte da América Latina, não um país com importância própria.

"A vasta maioria dos americanos sabe muito pouco, talvez nada, sobre o Brasil", lamenta o historiador, acrescentando que o relacionamento entre os dois governos, sob uma capa oficial de amizade, foi tenso desde o Brasil Império, independentemente do viés ideológico dos brasileiros no poder.

McCann avalia que, durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tanto Estados Unidos como Brasil emitiram para o outro lado sinais que contribuíram para deteriorar as relações entre os dois países. Segundo ele, os formuladores da política externa dos EUA não pensam o Brasil como um igual. "Têm dificuldade de ver o mundo da perspectiva de Brasília."

Qual é o balanço que o senhor faz da história das relações Brasil-Estados Unidos?

Densa e profunda, remontando ao fim dos anos 1700. Foram relações marcadas por comércio contínuo, suspeita americana em relação ao governo monárquico e preocupações brasileiras com subversão republicana. Medo brasileiro do interesse americano na Amazônia, dependência brasileira do mercado americano de café, preocupações americanas com a influência britânica, depois influência germânica, e finalmente subversão comunista. Os EUA têm sido uma presença contínua na mente brasileira, enquanto o Brasil tem sido uma presença um tanto vaga na mente americana. Escondida sob relações plácidas, geralmente amigáveis, tem havido tensão que nunca resultou em violência, mas nunca desapareceu completamente. Em décadas recentes, os EUA pressionaram o Brasil a encerrar seu programa atômico e mais recentemente questionaram por que o Brasil queria ter submarinos atômicos. Um dos problemas é que Washington pensa o Brasil como parte da América Latina. A realidade é que Obama está fazendo um tour latino-americano Brasil, Chile e El Salvador, não está apenas indo para ver o Brasil e seus líderes. Obama está seguindo o modelo de tour latino-americano.Essas visitas têm pouco a ver com a diplomacia real e muito com projetar uma imagem.

O que significa o fato de Obama ter dito que o presidente Lula era "o cara", mas não ter vindo ao Brasil durante seu governo?

Falando francamente, o governo Lula projetou um tom que foi sentido como um tanto hostil pelos Estados Unidos. Eu disse tom por que não houve atos de hostilidade, mas um estranho sentimento de antagonismo. Pela primeira vez em todos os anos em que tenho estudado o Brasil, pensei que os porta-vozes do governo brasileiro pareciam arrogantes. É um pouco trivial, mas é possível que a perda dos Jogos Olímpicos de Chicago para o Rio de Janeiro possa ter afetado um pouco a atitude de Obama. Acima de tudo, ele fez campanha pessoalmente por sua cidade e não gosta de perder. A aproximação de Lula com Chávez faz sentido sob a perspectiva de Brasília, mas seu entusiasmo parece estranho a Washington. O mesmo é verdade sobre suas relações com Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, como fez na tentativa quixotesca, com a Turquia, de negociar um fim ao perigo de o Irã desenvolver uma bomba atômica. A administração Obama ficou incomodada, não porque o Brasil não tivesse o direito de usar sua influência diplomática, mas pela maneira que foi feita. O tom foi fora de esquadro.

O que contribuiu para a tensão atual?

Penso que os dois lados fracassaram em entender como o outro percebia suas palavras e ações. Há uma impaciência entre algumas pessoas no governo brasileiro para ver o Brasil aceito como uma potência mundial. Imagino que a maioria dos brasileiros educados está cansada da ideia de país do futuro. Querem o futuro agora. Mas o Brasil não é um país que a maioria dos americanos pense como uma potência mundial. Na verdade, o Brasil não é um país sobre o qual a maioria dos americanos absolutamente pense. A vasta maioria sabe muito pouco, talvez nada, sobre o Brasil. Raramente se fala sobre ele em escolas e universidades. O português é raramente ensinado nas universidades. Há pouco apoio financeiro do Brasil para estudos brasileiros nos Estados Unidos, exceto em um punhado de instituições. Todos os discursos de presidentes americanos falam de amizade, de alianças, de potencial, de grandes recursos naturais, de um povo dinâmico e de crescimento econômico. Chamam o Brasil de líder regional, mas não o pensam como um igual. Têm dificuldade de ver o mundo da perspectiva de Brasília. Obama falar em "forjar novas alianças" é servir vinho velho em garrafa nova. Não consigo imaginar que frases assim excitem alguém no Itamaraty. Duvido que haja alguma realidade atrás delas.

O que causou mais estragos à relação Brasil-EUA: a iniciativa brasileira e turca junto ao Irã ou a posição do Brasil em relação à crise de Honduras?

A administração Obama reagiu friamente às iniciativas do Brasil em relação ao Irã e a Honduras. Em nenhum dos dois casos o Departamento de Estado estava esperando o envolvimento brasileiro. Pode ter havido arrogância americana, mas certamente Washington foi insensível aos interesses brasileiros nos dois casos. Dos dois casos, achei o de Honduras o mais perturbador. Washington, de fato, estava aceitando um golpe de Estado, enquanto Brasília dizia que não era aceitável.

A postura do Brasil no caso iraniano inviabilizou qualquer esperança brasileira de ir permanentemente para o Conselho de Segurança da ONU?

Esta é uma das questões mais difíceis na história diplomática brasileiro-americana. O Brasil é um dos fundadores das Nações Unidas. Mesmo nos anos sombrios da Segunda Guerra Mundial, o Departamento de Estado cuidadosamente consultou o então ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, sobre suas ideias para a nova organização. Diplomatas brasileiros foram ativos nas negociações nas conferências de formação em Chapultepec e São Francisco. Aranha foi, claro, o primeiro presidente da Assembleia Geral. Olhando para trás, é muito estranho que dois países falidos, até conquistados, França e China, tenham recebido assentos e poder de veto. Sei que britânicos e russos se opuseram à entrada do Brasil, pensando que seria um eco dos EUA.

Qual é a visão que o governo Obama tem do Brasil, hoje?

Duvido que Obama tenha pensado seriamente sobre o Brasil ou seu papel no mundo. Se ele ou seus assessores mais próximos tivessem, não estaria fazendo outro tour pela América Latina, mas um somente ao Brasil.

Quais serão os temas críticos?

A dinâmica comercial provavelmente será discutida. Os subsídios americanos à agricultura, particularmente ao algodão, devem estar sobre a mesa. Muito provavelmente, haverá discussão sobre as ambições nucleares do Irã e o que pode ser feito sobre elas. Coisas bonitas serão ditas sobre o Egito e preocupações serão expressas sobre a Líbia. Em uma perspectiva esperançosa, haverá conversas sobre importar etanol combustível brasileiro pelos EUA. Aparentemente, os americanos oferecerão assistência com segurança para a próxima Copa de 2014 e a Olimpíada de Verão de 2016. Será interessante ver o que Obama tem a oferecer em relação ao projeto FX-2. E, claro, assombrando essas conversas, está o gigante chinês. As compras chinesas de minério de ferro, outros minerais e soja esmagaram a posição americana e os brasileiros da mesma forma. Os dois lados estão preocupados e inseguros sobre o que fazer, então ambos têm razões para discutir o assunto.

Qual será o saldo dessa visita?

Honestamente, espero que aprofunde relações, mas duvido que o fará. A história dessas viagens não me anima. O modelo de tour dessas viagens necessariamente enfraquece os possíveis impactos e confunde os pensamentos dos viajantes.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Sábado, 19 de março de 2011 - Pg. A18 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110319/not_imp694111,0.php

segunda-feira, 21 de março de 2011

O HOMEM MAIS FRÁGIL DO MUNDO


Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

O refrão se repete por toda parte. Com letras garrafais na mídia escrita, com certa referência na mídia falada ou televisionada, com certo ar de mistério pelas ruas, botecos, feiras e praças do país: o presidente dos Estados Unidos é o “homem mais poderoso do mundo”.

E Barak Obama, com esposa e filhas, desfila entre a capital do Brasil e o Rio de Janeiro com esse qualitativo impresso no cenário coreográfico de sua passagem. Além do mais, com seus discursos aparentemente improvisados, procura esbanjar simpatia e sintonia entre o “povo brasileiro” e o “povo norte-americano”.

A Coluna de Jânio de Freitas desta segunda-feira (Folha de S. Paulo, 21/03/2011) abre leve brecha nessa imagem, mais construída que real. Se levarmos em conta a quantidade de policiais e soldados envolvidos na sua proteção; os blindados, helicópteros, carros e motos que acompanham a comitiva, o gigantesco sistema de segurança montado para receber o presidente junto com sua família e sua corte, o jogo espetacular e fantástico do palco onde o ator exibirá seu desempenho (para não falar performance) – então é preciso concluir que estamos diante do “homem mais frágil do mundo”.

Um prisioneiro de um presídio ambulante. Marcado pelo estigma da fobia, não dá um passo, sem que o terreno seja prévia e devidamente inspecionado; não ingere qualquer alimento, sem que tenha passado por uma rigorosa investigação quanto à origem e à preparação; não se desloca, sem a companhia de um batalhão de veículos motorizados e seguranças de estatura avantajada e óculos escuros; não fala, sem que seja atestada absoluto controle em todos os pontos ao alcance de sua voz. Um prisioneiro itinerante, sim, não obstante esteja rodeado de carcereiros de gravata e paletó.

Pobre homem, pobre liberdade! Expõe o medo doentio e mórbido de cada cidadão do mundo rico ou das regiões ricas do mundo pobre. Revela nossas próprias prisões, que insistimos em chamar de casas ou lares, onde nos encarceramos com a família. Habitações em que os muros se levantam cada vez mais altos, grades são chumbadas em suas extremidades, cães de guarda instalados nos jardins, câmeras espalhadas estrategicamente pelos condomínios, ruas, bairros e cidade, aumento do número de policiais privados. Os gastos com sistemas de segurança cada vez mais sofisticados, utilizando tecnologia de ponta, atestam, por um lado, uma fobia que só faz crescer e nos torna reféns de nossos jovens e adolescentes e, por outro, que nos convertemos em carcereiros de nós mesmos. Precisa acrescentar que tudo isso muitas vezes não serve para nada e que os roubos, assaltos e latrocínios registram índices que, ironicamente, parecem progredir na proporção do próprio investimento com segurança?

Voltando à passagem de Barak Obama ao Brasil, sua visita ao mesmo tempo vela e revela que “o rei está nu”, de acordo com a conclusão de Hans Christian Andersen, em A nova roupa do rei. E não só ele, mas todos nós que, diante das notícias diárias e sensacionalistas dos meios de comunicação, recheadas de violência e sangue, tiritamos de medo dentro de nossos lares profusamente revestidos com os artefatos da última moda em conforto e segurança. A sociedade está nua! Tanto mais nua quanto mais carecida de vistosas vestes para proteger-se. O presidente dos Estados Unidos aparece como um símbolo dessa nudez simultaneamente oculta e exposta. O homem mais poderoso da terra é também o mais frágil. O mais necessitado de um exército de homens, olhos eletrônicos e armas que o façam caminhar sem risco. Sua força imperial corresponde a sua fraqueza de homem encarcerado na teia de aranha de um sistema de segurança tão fantástico quanto fóbico.

Nos subterrâneos dessa liberdade prisioneira, desse luxo empobrecido, desse poder débil escondem-se relações socioeconômicas e político-culturais injustas e assimétricas. Mais do que um homem e sua família, o que esse batalhão de policiais e seguranças procura defender é uma ordem mundial que se tornou insustentável. O modelo de senhor e vassalo, império e colônia, Primeiro e Terceiro Mundo, histórica e estruturalmente consolidado e nutrido, agoniza em seu próprio esplendor. Os fogos de artifício sobem e caem com a mesma rapidez. O show pirotécnico dura poucos segundos de luzes, cores e brilho; depois tudo se converte em cinza. As multidões que erguem estátuas são as mesmas que as derrubam com o vento de sua fúria indomada. O herói de hoje costuma ser o vilão de amanhã.

A presença de Obama entre nós ajuda a refletir que não é apenas Muammar Cadaffi que se encontra nu e frágil diante das ondas turbulentas e contraditórias da história. Poder e glória são tão efêmeros quanto a moda e o humor da multidão. A figura do jovial e simpática do presidente dos Estados Unidos, hoje revestido de belas palavras, honras e poder, simboliza um amanhã de silêncio, de indignação e de fragilidade. Enquanto as torrentes subterrâneas da desigualdade socioeconômica, em nível mundial, não forem resolvidas, a calmaria da superfície tende a ser enganosa. Terremotos e tsunamis imprevisíveis ocultam-se por trás da diplomacia elegante, charmosa e sorridente. O ditado popular de que “as aparências enganam” serve como nosso ponto final.

Fonte: Província São Paulo - Padres Scalabrinianos - E-mail - Dia 21/03/2011 - Às 09h02

Vaticano cria estrutura para o diálogo com os não crentes


O presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, o cardeal Gianfranco Ravasi [foto acima], apresentou na Sala de Imprensa da Santa Sé uma nova estrutura chamada "átrio dos gentios", que tem como objetivo fomentar o diálogo entre crentes e não crentes.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 18-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essa estrutura começará suas atividades nos próximos dias 24 e 25 de março, em um congresso sobre "Iluminismo, religião e razão comum", que ocorrerá em três lugares "símbolo do espaço laico", como a sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco, o Instituto da França e a sede principal da Universidade de Sorbonne de Paris.

O presidente do dicastério vaticano explicou que o objetivo dessa nova iniciativa "não é criar uma espécie de mínimo denominador comum sobre a base de algumas realidades comuns", mas sim "mostrar o empenho da Igreja para encontrar e dialogar" com os não crentes.

Bento XVI explicará "o sentido e os objetivos dessa iniciativa" por meio de uma vídeo-mensagem que será transmitida no dia 25 de março na Catedral de Notre Dame de Paris, onde se celebrará uma "festa aberta a todos", com criações artísticas, música, cenografias e vários encontros de reflexão, segundo explicou o Pontifício Conselho da Cultura.

Além disso, essa nova iniciativa conta com uma página na Internet, http://www.atriumgentium.org/, que tem como finalidade criar "espaços reais nos quais as pessoas possam entrar em diálogo" e que está disponível em quatro idiomas: espanhol, italiano, francês e inglês.

O cardeal Ravasi explicou que o "átrio dos gentios" pretende contribuir "para que os grandes interrogantes da existência humana sejam verdadeiramente levados em conta e debatidos na sociedade atual" por meio de "uma reflexão racional comum".

No entanto, o cardeal Ravasi destacou a necessidade de "encontrar novas iniciativas" para dialogar "com formas de ateísmo contemporâneo mais agressivas, mais sarcásticas", que podem ser "quantitativamente mais relevantes" do que outras formas de ateísmo mais "intelectuais".
Essas novas formas de ateísmo, segundo destacou o cardeal Ravasi, interpelam "a comunidade cristã" porque são "provocações mais superficiais que usam formulações fundamentalistas".

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 21/03/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41546

Um novo perfil docente


Presidente da Associação Nacional de Tutores, Luis Gomes, defende que as distâncias entre os professores e os tutores serão cada vez menores.
E que cada um tem o que aprender com o outro

Marta Avancini

O avanço da educação a distância deverá gerar um sistema híbrido, no qual as novas tecnologias da comunicação serão incorporadas às salas de aula convencionais, assim como algumas características do ensino presencial serão mantidas. Com isso, a figura do tutor ganhará ainda mais importância, na medida em que ele desempenha um papel central no processo educacional.

Esta é a opinião do advogado Luis Gomes, presidente da Associação Nacional de Tutores (Anated), criada em 2009 como uma reação às resistências - que, embora estejam diminuindo, ainda existem - à educação a distância no Brasil.

Em entrevista para a revista Ensino Superior, Gomes discorre sobre o papel do professor-tutor e suas atribuições, considerando-o peça fundamental também na gestão do curso. E destaca o movimento de consolidação de um novo cenário, que impõe desafios às instituições, seja no sentido de fortalecer suas estratégias de inserção no segmento do ensino a distância, seja na valorização da figura do tutor, já que este é o responsável pela interface da instituição com os alunos.

No site da Anated, associação liderada por Gomes, é possível encontrar um banco de currículos de profissionais interessados em trabalhar como tutores.

Ensino Superior - Quais são as qualificações de um bom tutor de educação a distância?
Luis Gomes - Hoje não existe uma parametrização do que é necessário para trabalhar como tutor. Geralmente, as instituições de ensino fazem uma capacitação ou um curso de formação e a partir daí o tutor começa a atuar. Diante disso, a nossa proposta é que sejam criadas diretrizes e uma normatização para o exercício da tutoria, pois atualmente cada um faz aquilo que acha melhor para si.

ES: Quais seriam, então, os parâmetros para a tutoria?
Um bom tutor precisa de uma boa base pedagógica e metodológica. O tutor precisa de habilidades novas porque a educação a distância é uma modalidade nova. Precisa saber usar as novas tecnologias e estabelecer um bom relacionamento com os alunos. Existem professores que têm 30 anos de experiência, têm uma carreira sólida na educação presencial e quando vêm para a educação a distância não dão certo porque não estão aptos a desempenhar as funções necessárias. Não porque sejam maus profissionais, pelo contrário, mas a educação a distância exige domínio das novas tecnologias de comunicação e capacidade de potencializar a interação dessas tecnologias no campo educacional.

ES: O que diferencia um tutor de um professor?
Na verdade é a mesma coisa. O que defendemos, enquanto associação, é que o tutor seja um especialista. Não adianta a instituição ter mestres e doutores, produzir um bom material didático, fazer uma boa preparação de todo o processo acadêmico e, na hora de efetivar a aprendizagem, ter um tutor despreparado. Pois o tutor é quem aplica o conteúdo na prática. Se o tutor está mal preparado, todo o trabalho anterior cai por terra. Por isso, o tutor tem de ser um professor e, mais do que isso, um professor especialista na aplicação das novas tecnologias à educação e nas metodologias do ensino a distância.

ES: Diante desse novo cenário e do avanço da educação a distância, o senhor acredita que o professor também terá de incorporar as habilidades de um tutor?
É fundamental superar essa distinção entre educação presencial e educação a distância que existe no Brasil e que leva as pessoas a acreditarem que a educação a distância é "inferior". Na Europa, por exemplo, isso não existe. Educação é educação. Acredito que haverá um movimento de aproximação. A educação presencial vai incorporar, cada vez mais, as novas tecnologias, e a educação a distância vai, cada vez mais, se aproximar do aluno. É, então, um sistema híbrido. Com a incorporação das novas tecnologias na educação presencial, as funções do professor vão se aproximar das funções do tutor.

ES: Como deve ser a formação de um tutor para que ele se qualifique e se consolide como um profissional?
Essa é uma questão em discussão na categoria que vai orientar todo o processo de formalização da profissão no Catálogo Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). É importante descrever essa nova ocupação porque dentro da normatização da educação a distância do Ministério da Educação existe a função do tutor, só que a profissão não foi formalmente criada. Por isso, uma das nossas frentes de atuação é a formalização da categoria junto ao Ministério do Trabalho. Mas para isso é preciso haver um consenso, o que ainda está sendo construído.

ES: Quantos tutores existem no Brasil? O senhor acredita que essa função tende a se consolidar como uma profissão?
Acredito que sim. Hoje existem cerca de 40 mil tutores no Brasil e quase três milhões de alunos na educação a distância, e o MEC estabelece o limite de 40 a 50 alunos por tutor. Muitas instituições ainda não cumprem a determinação, pois a educação a distância é muito nova no país e começou de maneira muito dispersa e desregulamentada, com uma infraestrutura muito precária. Este cenário está mudando com a gestão da Secretaria de Educação a Distância do MEC, que passou a fazer várias exigências em relação à estrutura e às condições de oferta, incluindo a definição do número de alunos por tutor e por professor. Além disso, está sendo criado o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Sinaes) para a educação a distância, que estabelece alguns contornos para o exercício da tutoria. No que diz respeito à formação, por exemplo, o ideal é que o tutor seja especialista na sua área de atuação.

ES: De que maneira a instituição de ensino pode atuar com a finalidade de fortalecer o trabalho do tutor?
Não adianta investir em publicidade, em processo seletivo, pois quando o aluno se depara com um tutor despreparado, seja no polo presencial ou no ambiente on-line, pode acabar desistindo. O tutor tem de ser muito bem preparado tanto do ponto de vista pedagógico como do da gestão.

ES: E o que é gestão no caso do tutor?
Liderança, trabalho em equipe, gestão da inadimplência, redução da evasão, aumento na capilaridade de matrículas. É preciso incorporar novas habilidades e competências ao papel do tutor e não tratá-lo apenas como alguém que coloca a videoaula no DVD ou que reporta as dúvidas ao professor. A instituição precisa perceber que o tutor pode ser um aliado no fortalecimento da EAD. Ele pode ser uma figura importante, por exemplo, para estimular o aluno a concluir o curso, a construir um espírito de grupo e aumentar o comprometimento do aluno.

ES: Como o relacionamento do tutor com o professor pode ser melhorado?
É importante que o tutor tenha autonomia para fazer adaptações de pontos que não sejam favoráveis ou que não estejam surtindo o efeito esperado. O conteúdo produzido pode ser de difícil compreensão ou inadequado, por exemplo, e quando o tutor tem autonomia pode dar esse tipo de feedback para o coor­denador de curso. Do contrário, o tutor se sente desmotivado e todo o processo acaba sendo prejudicado.

ES: Qual a sua avaliação do futuro da educação a distância?
A instituição que não está na educação a distância está ficando para trás. Toda instituição tem de ter uma operação nessa área, ainda que seja pequena. Isso porque, como já disse, vai chegar um tempo em que a distinção entre educação a distância e educação presencial vai deixar de existir. Hoje a lei já permite que 20% do conteúdo no curso presencial seja ofertado a distância. Mas é fundamental a qualidade e não focar exclusivamente o lucro. A educação a distância é um caminho sem volta.

Fonte: Revista Ensino Superior - Internet: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12727


sábado, 19 de março de 2011

A filosofia na mira do mercado


Antonio Gonçalves Filho

Livro do filósofo José Arthur Giannotti [foto acima], que convida a um mergulho no pensamento ocidental, sai no momento em que as editoras redescobrem esse filão - e preparam lançamentos de peso

Embora ostente como título Lições de Filosofia Primeira, o recém-lançado livro do filósofo paulista José Arthur Giannotti não é apenas uma introdução ao pensamento no sentido convencional do termo, mas a obra de quem se impôs uma tarefa de demolir ideias feitas num mundo em que a filosofia já começa a ser confundida com negócio. O lançamento do livro de Giannotti coincide com um movimento convergente de editoras - grandes e pequenas - em busca de um novo modo de publicar filosofia no Brasil, deixando de lado livros de consumo fácil para abarcar obras densas.

Dois exemplos do investimento pesado das editoras na área são as coleções das obras completas de Aristóteles - 75 livros que a WMF/Martins Fontes começa a publicar em maio - e a de René Girard, o mais ambicioso projeto da É Realizações, que comprou os direitos e está traduzindo 60 títulos do filósofo francês. Girard, autor da teoria do desejo mimético como forma contagiosa que leva à violência, ganha cada vez mais adeptos num território minado de pensadores cooptados - e corrompidos - pelo poder político.

Um deles, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), ameaça a supremacia de Nietzsche na lista dos best-sellers de filosofia - o criador de Zaratustra ainda lidera o ranking, segundo editores consultados. Nos últimos tempos, Heidegger tem recebido tanta atenção das editoras que a Academia Brasileira de Filosofia decidiu promover um seminário sobre ele em abril, antes de encaminhar ao governo federal sugestão de projeto de lei que obrigue suas obras publicadas no País a estampar na capa a seguinte advertência: "Este livro tem conteúdo nazista". O presidente da Academia, o professor carioca de Filosofia João Ricardo Moderno, e Giannotti fazem a mesma pergunta: como um pensador do porte de Heidegger pôde se associar ao nazismo? Giannotti vai dar sua resposta no livro que prepara como segundo volume da série iniciada com Lições de Filosofia Primeira. A obra tem o sintético título de Contraponto: Heidegger/Wittgenstein.

O filósofo Peter Sloterdijk, estrela absoluta do catálogo da Estação Liberdade, que publica seus livros no Brasil, já se manifestou há alguns anos a respeito de Heidegger no polêmico Regras Para o Parque Humano. Nele, o alemão denuncia a herança nietzschiana e heideggeriana do pastoreio e domesticação dos homens com possíveis resultados catastróficos em nossa era antropotecnológica de reforma genética. Seu mais recente manifesto chama-se Ira e Tempo e está no prelo. Nele, Sloterdijk trata da ira como forma de energia psicopolítica capaz de promover a autoafirmação humana num mundo polarizado entre fundamentalistas e liberais. "Todos os seus livros venderam muito bem", garante o diretor editorial Angel Bojadsen, prometendo para breve o primeiro volume da trilogia Esferas, opus magnum de Sloterdijk que estuda a nova experiência do espaço no interior das macroesferas sociais. O filósofo alemão, professor em Karlshue, já ameaça o "espaço" dos pensadores franceses, revela Bojadsen, atestando que o interesse pelo desconstrucionista Derrida diminuiu consideravelmente nos últimos meses.

"Hoje em dia vejo mais historiadores de filosofia do que propriamente filósofos", comenta Giannotti, acrescentando ser a crítica à sociedade contemporânea feita pelos pensadores, de modo geral, "abstrata e pessimista", tendendo a imputar a culpa ao capital por tudo o que há de errado no mundo. Se a democratização do acesso à filosofia é um fato - como prova a profusão de novos títulos nas estantes -, por outro lado, segundo o filósofo, há uma tendência a "dissociar a prática filosófica das grandes questões que hoje nos atingem". Nietzsche seduz, segundo ele, não só porque escrevia bem como pela ilusão da ideia de potência que dá ao leitor (Vontade de Potência, aliás, acaba de ganhar edição da Vozes).

"Nietzsche não é um filósofo da pacificação", diz Giannotti. "Ele pensa como um martelo", conclui, não poupando seguidores como Heidegger, leitura perigosa para quem ignora que seu discurso nazista aparece travestido na forma visceral de seu transe filosófico.

"Insisto na advertência do selo nas capas, denunciando o conteúdo da filosofia de Heidegger, porque propaganda nazista é crime no Brasil", justifica-se João Ricardo Moderno. A exemplo de outros filósofos europeus, ele lembra a simpatia de Heidegger pela SA de Röhm e as organizações estudantis que ela controlava. A filosofia dele, argumenta Moderno, é ainda mais perigosa por ter apoiado Hitler - Heidegger convocou o povo alemão às urnas para voltar no Führer, em 1933 - e ter sobrevivido à queda do Terceiro Reich, influenciando neonazistas e simpatizantes de regimes totalitários.

"As editoras, naturalmente, melhoraram muito o nível de suas traduções e o mercado se profissionalizou, mas a publicação de Heidegger obedece a uma lógica comercial, enquanto há obras clássicas, fundamentais, que são esquecidas por vender mal", observa Moderno. O fundador da Editora É, Edson Manoel de Oliveira Filho, pretende dar sua contribuição, publicando brevemente a coleção Grandes Comentadores de Platão e Aristóteles, organizada pelo professor Carlos Nougué, seis volumes que vão de um comentário à metafísica aristotélica por Alexandre de Afrodísias aos estudos de Santo Tomás de Aquino sobre a obra do filósofo - complementando, de forma indireta, a coleção de obras completas de Aristóteles, a ser publicada pela WMF/Martins Fontes. Esta começa com Os Econômicos em maio e a Retórica no segundo semestre. Segundo o editor Alexandre Martins Fontes, que publicou os cursos de Foucault e Barthes (seus maiores êxitos comerciais), 15% do seu catálogo (de 2 mil títulos) são dedicados à filosofia.

A Editora É mantém ainda uma coleção de títulos considerados de difícil comercialização, mas de fundamental importância para o entendimento do pensamento contemporâneo, a Filosofia Atual. Nela foram publicados 15 títulos, todos eles acompanhados de um DVD explicativo sobre a obra de filósofos como o canadense Bernard Lonergan (1904-1984), o espanhol Xavier Zubiri (1898-1983), o metafísico francês Louis Lavelle (1883-1951) e o alemão Eric Voegelin (1901-1985). "Temos apostado nos estudantes de pós-graduação, mas não me preocupo muito com as vendas quando gosto de um filósofo", diz o editor da É, que vai dobrar até 2012 o número de livros de seu catálogo atual (130 títulos), apostando no boom editorial de livros filosóficos no Brasil. Outra estratégia da editora é a publicação de obras completas, como a do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva e do francês René Girard, sobre quem organiza em setembro um seminário internacional, lançando nada menos do que 22 títulos de e sobre o filósofo.

Outra editora que aposta em filósofos pouco divulgados é a carioca Contraponto, a exemplo da Perspectiva, Zahar e as universitárias. Ela tem 120 títulos no catálogo e vai ampliar a oferta das obras do alemão Hans Jonas (1903-1993), do inglês John Burnett (1863-1926) e do austríaco (naturalizado inglês) Karl Popper (1902-1994), pioneiro racionalista que tematizou a ciência. O editor César Benjamin garante que Popper é o carro-chefe da Contraponto, apostando num catálogo permanente de long-sellers, como a WMF/ Martins Fontes, ou seja, títulos essenciais que vendem a longo prazo - e garantem o prestígio das editoras.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Supl. Sabático - Sábado, 19 de Março de 2011 - Pg. S3 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110319/not_imp694018,0.php

A sombra dos clássicos nos modernos

Metafísica aristotélica é usada para entender o mundo contemporâneo,
num estudo que vai dos gregos a Wittgenstein

Antonio Gonçalves Filho

O que se conhece hoje por metafísica era chamado por Aristóteles de "filosofia primeira" - e foi isso que inspirou o filósofo José Arthur Giannotti na hora de batizar seu novo livro. Por uma dessas inexplicáveis coincidências, ele sai no momento em que a WMF/Martins Fontes lança toda a obra do filósofo grego (inclusive os apócrifos) e a Editora É ultima a publicação dos comentaristas de Platão e Aristóteles. Claro que Giannotti esclarece, logo na apresentação do livro, que se trata de uma introdução "meio enviesada" à filosofia primeira de Aristóteles. Interessa ao filósofo - sobretudo - a ressonância dos clássicos na obra de dois contemporâneos, Heidegger e Wittgenstein. "Não é uma introdução, mas uma reflexão sobre a metafísica", esclarece.

E por que, então, a eleição de Heidegger e Wittgenstein? "Porque os dois recusaram o discurso tradicional da filosofia", responde. Seu livro seria uma tentativa de corrigir alguns erros de gramática filosófica - entre os quais a miopia política de Heidegger e o namoro de Wittgenstein com o totalitarismo soviético. Naturalmente, os dois não lideram o elenco principal dos filósofos estudados na obra - eles serão analisados num segundo volume -, mas o autor escolheu a dupla porque, a despeito da diferença radical entre os dois, Heidegger e Wittgenstein ainda funcionam como balizas da filosofia contemporânea - ajudando, de quebra, os editores a vender mais livros de filosofia do que imaginavam há uma década.

Giannotti admite deixar um "buraco enorme" que vai da filosofia medieval à crítica que se desenvolveu a partir de Kant. Sua "introdução ao filosofar" se detém em filósofos mais adorados do que entendidos pelas novas gerações, como Nietzsche, cuja filosofia nasceria, segundo o autor - e o próprio pensador alemão - de sua doença, de sua "falta de confiança na vida". Nietzsche, que anunciou a morte de Deus, antecipou Heidegger, mas não impediu que os europeus continuassem buscando divindades, segundo Giannotti.

Por outro lado, a imagem dos filósofos clássicos (Platão, Aristóteles) estaria em "plena decadência" em nossa era de "profissionais" da filosofia que, a exemplo dos sofistas, vendem conhecimento nos templos do saber para consumo imediato. "Os alunos querem falar mais que os mestres e a transformação do saber em mercadoria - a filosofia como ópio do povo - nos impede de fazer críticas profundas à sociedade contemporânea", diz. Temos de ser mais modestos e ligá-la à tradição, recomenda. "Não se pode ser um profissional do saber sem conhecer Plotino ou ignorar as formas de pensar extraordinárias que estão, hoje, nas mãos do grande capital, como a biologia e a astronomia."

Giannotti, 81 anos, professor emérito da USP, observa ainda que não há na filosofia contemporânea nenhum estímulo para que o pensador se comprometa com uma prática moral ou obrigações cívicas. Desde os filósofos da Escola de Frankfurt, o discurso político foi se encolhendo a ponto de cair no mesmo fosso conservador que criticava. Esse bloqueio à teoria marxista merece ser pensado, conclui.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Supl. Sabático - Sábado, 19 de Março de 2011 - Pg. S3 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110319/not_imp694019,0.php

Livro disseca números e ideias sobre energia nuclear


Obra reúne visões opostas e dados para propor uma reflexão sobre o tema

AGNALDO BRITO
DE SÃO PAULO

Oportuno. Não há outra palavra para qualificar o lançamento nesta semana, em São Paulo, de "Energia Nuclear - do Anátema ao Diálogo" (ed. Senac), justamente após os graves eventos na usina nuclear de Fukushima, no Japão. Eventos com potencial para conduzir parte do mundo a um risco sem precedentes na história.

Com textos de quatro especialistas, o livro de 131 páginas -organizado por José Eli da Veiga [foto acima], professor titular do Departamento de Economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo)- acaba de sair do forno.

Nele, duas visões diametralmente opostas e uma ponderação (a do organizador) trazem um debate rico em dados que nos instiga a responder à questão que aflige o homem desde que Otto Hahn mostrou possível um nêutron dividir o núcleo de um átomo (fissão nuclear): essa energia é uma opção para a humanidade?

O livro diz sim e diz não. Afora as incertezas (que não são poucas), a defesa de parte a parte é consistente. A sucessão de eventos pós-terremoto e pós-tsunami no Japão pesa a favor do não. Mas a defesa do sim tem argumentos que levam à reflexão.

O físico José Goldemberg e o assessor técnico da Secretaria Estadual de Meio Ambiente de São Paulo, Oswaldo dos Santos Lucon, consideram que as apostas dos governos (sobretudo os de países em desenvolvimento) são um erro.

Argumentam que o custo de um reator (de sua construção ao seu desmantelamento - uma exigência ao final da vida útil) não está devidamente mensurado no mundo. O acondicionamento de rejeitos de baixa, média e alta atividades radioativas é algo ainda não resolvido, mas sabidamente custoso.

Segundo os autores, os EUA constroem há 25 anos o único depósito geológico definitivo do mundo, em Yucca Mountain, em Nevada. O projeto já consumiu US$ 38 bilhões e não está pronto.
Mais: é projetado para 70 mil toneladas de rejeitos, mas os 104 reatores ativos nos EUA já produziram 49 mil toneladas desse lixo indesejável, hoje acondicionado em piscinas especiais espalhadas pelo território.

O Brasil nem sequer tem um plano concreto para resolver o destino definitivo dos rejeitos de Angra 1 e 2, mas o Ibama determinou que o país só poderá ligar Angra 3 (em construção) se disser como vai resolver a questão do lixo atômico.

Os autores também acham que a contabilidade sobre emissões evitadas de gases de efeito estufa com a ener- gia nuclear não é bem apurada. Era esse, aliás, o argumento mais atual para justificar a retomada dos projetos de usinas atômicas.
João Roberto Loureiro de Matos, diretor do CDTN (Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear), e Leonam dos Santos Guimarães, assistente do diretor-presidente da estatal Eletronuclear, consideram a energia nuclear a grande solução para o atendimento da demanda mundial de eletricidade.

MAIS ENERGIA

O crescimento da população mundial (que deve alcançar 9 bilhões de seres humanos em 2050) exigirá do planeta um volume estratosférico de energia. Sem uma opção tecnológica mais limpa (do ponto de vista das emissões), haverá um gran- de problema.

"A humanidade há de consumir mais energia do que o total utilizado em toda a história passada. (...) A concentração intensificada de gases de efeito estufa vai chegar a um ponto sem retorno, em direção a uma catástrofe climática", escrevem os autores.

E arrematam: "A raça humana não pode alcançar uma revolução global de energia limpa sem uma imensa expansão de energia nuclear".

Pode ser energia para os carros elétricos, mas pode ser também para garantir a produção em escala de água dessalinizada, quem sabe a única forma, no futuro, de garantir suprimento de água doce para a humanidade.
Enfim, diante de uma inoportuna catástrofe, um oportuno livro.

ENERGIA NUCLEAR - DO ANÁTEMA AO DIÁLOGO
AUTOR José Eli da Veiga (org.)
EDITORA Senac
QUANTO R$ 35 (131 págs.)

Fonte: Folha de S. Paulo - Sábado, 19 de março de 2011 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1903201107.htm

15 MITOS DA EDUCAÇÃO


Nesta reportagem, convidamos você a refletir sobre 15 ideias presentes
no dia a dia da vida do professor.
Vale a pena analisar como essas questões interferem em sua prática. Seus alunos vão agradecer.

Acesse:


Não é para concordar com tudo, mas refletir e reagir!

sexta-feira, 18 de março de 2011

Limite para estrangeiro comprar terra será de 3 mil hectares


Proposta em estudo reduz de 100 para 30 módulos fiscais acesso de
empresas de capital externo a áreas rurais no País

 
Marta Salomon / BRASÍLIA

Será de 30 quilômetros quadrados (3 mil hectares) a extensão máxima de terras que empresas com capital estrangeiro poderão comprar ou arrendar no Brasil, segundo proposta em debate no governo. O objetivo é tentar frear o avanço de investidores externos em negócios com imóveis rurais no País. Os limites da lei serão mais rigorosos na Amazônia.

Proposta de projeto de lei a que o Estado teve acesso estabelece novos limites em módulos fiscais - medida que varia, conforme o município, entre 5 e 100 hectares. Pessoas físicas poderão ter até 15 módulos fiscais, sem precisar de aval prévio do Congresso Nacional. Pessoas jurídicas - inclusive empresas brasileiras com controle de capital ou gestão em mãos de estrangeiros - poderão comprar ou arrendar até 30 módulos, em áreas contínuas ou não.

A proposta foi elaborada por grupo de trabalho coordenado pela Advocacia-Geral da União no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Integrado também pelo Gabinete de Segurança Institucional e pelos Ministérios da Defesa e do Desenvolvimento Agrário, o grupo chegou a cogitar a edição de uma medida provisória. Mas a campanha eleitoral deixou o assunto em suspenso na agenda do governo.
Dilma Rousseff, na época chefe da Casa Civil, recebeu cópia da proposta. Depois de assumir a Presidência, ainda não indicou quando o texto irá ao Congresso. O atual governo mantém a avaliação de que a compra e o arrendamento de terras continuam crescendo e fogem ao controle dos cadastros oficiais.

Atualmente, uma empresa pode deter até 100 módulos de exploração indefinida (medida também variável de acordo com o município), sem autorização do Congresso. Em conjunto, pessoas físicas ou empresas com participação estrangeira não podem ter mais do que 25% da área total de um município. Esse limite cairá para 10% na Amazônia Legal, de acordo com a proposta em debate.

Controle. Negócios que vierem a ser celebrados fora dos limites impostos pela proposta poderão ser anulados pelo Incra, que passa a ser responsável por autorizar qualquer compra ou arrendamento de terras. O controle se estenderá também a fundos de investimentos que lidem "direta ou indiretamente" com a compra de imóveis rurais.

Medidas destinadas a estabelecer controles sobre esse avanço em terras no Brasil que não dependem de mudanças em lei já vêm sendo adotadas. Em agosto passado, a Advocacia-Geral da União enquadrou empresas brasileiras com controle de capital ou gestão em mãos de estrangeiros nos limites estabelecidos por lei no início dos anos 70.

Anteontem, conforme informou o Estado, um aviso ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio determinou que as juntas comerciais bloqueiem compras ou fusões de empresas estrangeiras com brasileiras que detenham terras. Essa é uma manobra identificada como forma de burlar o controle nos cartórios de compra e venda de imóveis.

A busca de estrangeiros por áreas para a produção de alimentos e biocombustível é o principal argumento do governo para impor restrições à propriedade de terra no País.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Quinta-feira, 17 de março de 2011 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110317/not_imp693076,0.php

O que acontece sem a energia nuclear?


O mundo aposta nos possíveis substitutos do átomo. As fontes renováveis competem com as centrais em termos de custo. A eletricidade do futuro será mais verde, mas não mais barata.

A reportagem é de Maurizio Ricci, publicada no jornal La Repubblica [Roma, Itália], 16-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto

E agora? Se o pós-Fukushima, assim como o pós-Chernobyl, inaugurasse uma segunda era pós-nuclear, o mundo estaria destinado a uma paralisia, além disso escura, fria e intoxicada por petróleo e carvão?

Na realidade, embora muitos defendam que o átomo é uma escolha conveniente, ninguém jamais disse que se trata de um caminho obrigatório. A cota da energia nuclear na oferta de energia mundial está relativamente contida. Hoje está em 16%. Na Itália, se a Enel [maior operadora de eletricidade do país] realizasse as quatro centrais que tem programada, passaríamos de zero para 12-13%. Mas, no mundo, de acordo com a maior parte das previsões, antes de Fukushima, a cota do átomo devia permanecer mais ou menos em 16%, a não ser que houvesse uma drástica reviravolta na luta contra o efeito estufa.

Outras energias

E o "renascimento nuclear" do qual se fala já há tanto tempo? Em grande medida, consiste, mais do que no alargamento do número total das centrais, na substituição das velhas instalações, construídos nos anos 60 e 70. A história da energia dos próximos anos, dizem também as companhias petrolíferas, será o boom das fontes renováveis. Painéis e turbinas já não são mais brinquedos, mas constituem megainstalações, capazes de rivalizar, em termos de eletricidade fornecida, com as centrais tradicionais.

Um gigante do petróleo como a BP prevê que, em 2030, a cota das renováveis, na oferta de energia, será igual à da nuclear. Porém, esse montante da de energia mundial, hoje fornecido pelo átomo, é uma massa conspícua, e substituí-lo não parece ser simples. Ao contrário, nos últimos meses, acumularam-se estudos e relatórios que indicam o objetivo de uma energia, toda (ou quase toda) renovável, excluindo também a nuclear, como perfeitamente possível, sem interferir no nosso modo de vida. A afirmação é de ambientalistas como WWF e Greenpeace, mas também de sérios e reconhecidos institutos como o McKinsey, uma das maiores sociedades de consultoria do mundo.

O defeito desses relatórios é que colocam o objetivo para 2050, um pouco longe demais dos problemas de hoje. O problema, porém, não é técnico. Embora saltos tecnológicos (como a introdução das películas no lugar dos custosos painéis fotovoltaicos, ou de espelhos planos, ao invés de côncavos, nas centrais termossolares) dariam um novo estímulo às energias alternativas, esses relatórios fazem as suas contas com base na técnica atual. As escolhas decisivas são, principalmente, políticas e, portanto, poderiam ser aceleradas. Além disso, para ter eletricidade nuclear na Itália também teríamos que esperar até 2025-2030.

De quais renováveis estamos falando? Os experimentos em curso são múltiplos: ondas, marés, correntes, calor da terra, salinidade do mar. De fato, as tecnologias consolidadas são três: a solar (nas duas formas dos painéis fotovoltaicos e das centrais de concentração, que produzem vapor com o calor do sol) e a eólica.

Todas as três devem o seu desenvolvimento aos incentivos públicos. Mas também a energia nuclear (sob a forma de garantias nos empréstimos ou de preços garantidos), e, em muitos países, os próprios combustíveis fósseis gozam de facilidades de vários títulos: as polêmicas entre os dois alinhamentos com relação às respectivas ajudas públicas alcançam periodicamente graus elevadíssimos. Em todo o caso, uma gigantesca conversão de gás, carvão, petróleo e energia nuclear ao sol e ao vento não seria nada gratuita. O Energy Report da WWF calcula um gasto de um trilhão de euros por ano. Parecem ser mais do que são na realidade. Uma boa parte desse dinheiro deveria ir para a melhoria da eficiência no uso da energia. Particularmente, para realizar o isolamento térmico dos edifícios que, provavelmente, deveriam ser construídos. E a maior parte do restante para construir centrais que, também elas, deveriam ser construídas, tradicionais ou não.

Grande parte do parque de instalações, pelo menos no Ocidente, é constituído pelas centrais, de carvão ou nucleares, construídas nas primeiras décadas do pós-guerra, que estão alcançando o fim da vida ativa. Desse ponto de vista, as decisões que forem tomadas nos próximos três a cinco anos sobre o tipo de centrais a serem construídas (tradicionais, nucleares, alternativas) serão determinantes para o estabelecimento do futuro da energia mundial.

Custos

No debate, será determinante o problema dos custos. A gigantesca extensão de turbinas a vento, que o governo de Londres conta instalar ao longo das costas inglesas, tem um custo mais ou menos igual ao de centrais nucleares de potência semelhante. O motivo não é que as turbinas custam tanto quanto os reatores.

Mas sim que uma central atômica produz energia 24 horas por dia, sete dias por semana, enquanto uma central eólica fornece energia, em média, durante um terço do tempo possível: depende do vento que há.

A volatilidade das provisões é, hoje, o maior obstáculo ao desenvolvimento das energias alternativas. As companhias elétricas têm dificuldade para abrir suas próprias redes a uma cota superior a 20-30% de renováveis, porque não têm certeza que teriam essa energia se dela precisassem. A taxa de incerteza está se reduzindo, na realidade. Hoje, as previsões meteorológicas permitem acertar, com 1.836 horas de antecipação, a situação do sol e do vento. Os desenvolvimentos técnicos, no caso das centrais solares de concentração, permitem, além disso, armazenar energia por sempre mais tempo, mesmo depois do pôr do sol. Mas, enquanto houver baterias a serem carregadas, quando houver muita energia de vento ou de sol, quando houver pouca, as fontes alternativas pareceriam destinadas a acrescentar sua própria eletricidade às fontes tradicionais ao invés de a substituí-las.

A menos que, como nos relatórios que circularam nestes meses, pense-se ainda maior. No fundo, se não há vento ou sol aqui, há provavelmente duas baías mais além. Ou na África ou na Escandinávia. O Desertec é um gigantesco projeto que prevê a união da eletricidade produzida por centrais solares na África e eólicas no Norte da Europa e distribuí-la, depois, em todo o continente. E também a ideia da Super-Rede, um pool europeu de energia para intercambiar as provisões das diversas energias alternativas. Mas é possível pensar também em um nível menor, contanto que se aceite algum compromisso. Quem fez isso foram ambientalistas pragmáticos, como os da Worldwatch. Segundo o seu presidente, Christopher Flavin, a verdadeira ponte para um futuro da energia totalmente de fontes alternativas é um combustível fóssil: o metano.

O gás, ao contrário da energia nuclear, produz gás carbônico – e, portanto, efeito estufa – embora em uma medida inferior do que o carvão e o petróleo. Nos últimos anos, uma série de modificações nas técnicas de extração o tornaram, surpreendentemente, econômico e abundante. Flavin destaca que uma central de gás custa cerca de um décimo da instalação nuclear equivalente. Pode ser de dimensões reduzidas.

Principalmente, ao contrário de uma nuclear atômica, que deve estar permanentemente em funcionamento, possivelmente no máximo da capacidade, ela pode ser facilmente desligada, ligada ou atuar em um regime menor. O complemento perfeito, segundo Flavin, para uma central eólica ou solar, às quais se somaria, fornecendo energia nos momentos de queda da produção.

Nada de tudo isso, juram os autores dos relatórios sobre o futuro das fontes alternativas, incidirá sobre o nosso modo de vida.

De resto, ainda hoje, se reestruturarmos nossas casas, teremos que montar janelas isolantes. E, com a tarifa bi-horária [taxas diferenciadas da energia, dependendo do horário do consumo], é conveniente ligar a lavadora de noite ou no final de semana, quando a demanda de eletricidade é mais baixa.

Os relatórios, entretanto, estão menos dispostos a abordar o tamanho das contas a serem pagas. Mas, com ou sem a energia nuclear, é difícil não pensar que as contas irão aumentar: a era da energia de baixo custo, no futuro previsível, acabou.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - Dia 17/03/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41457