«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Nutricionista lista os 10 piores alimentos para sua saúde


Que atire a primeira pedra quem não se rende a um fast food, salgadinho ou cachorro-quente e depois fica preocupado com as calorias que ingeriu. 

Mas o que pouca gente sabe é que os perigos desses alimentos vão muito além da questão estética e podem ser um risco para a saúde. 


Para esclarecer esses problemas, 
a nutricionista Michelle Schoffro Cook * [foto ao lado] 
listou os dez piores alimentos de todos os tempos.











10º lugar: Sorvete


Apesar de existirem versões mais saudáveis que os tradicionais sorvetes industrializados, a nutricionista adverte que esse alimento geralmente possui altos níveis de açúcar e gorduras trans, além de corantes e saborizantes artificiais, muitos dos quais possuem neurotoxinas – substâncias químicas que podem causar danos no cérebro e no sistema nervoso.

9º lugar: Salgadinho de milho


De acordo com Michelle, desde o surgimento dos alimentos transgênicos a maior parte do milho que comemos é um “Frankenfood”, ou “comida Frankenstein”. Ela aponta que esse alimento por causar flutuação dos níveis de açúcar no sangue, levando a mudanças no humor, ganho de peso, irritabilidade, entre outros sintomas. Além disso, a maior parte desses salgadinhos é frita em óleo, que vira ranço e está ligado a processos inflamatórios.

8º lugar: Pizza


Michelle destaca que nem todas as pizzas são ruins para a saúde, mas a maioria das que são vendidas congeladas em supermercados está cheia de condicionadores de massa artificiais e conservantes. Feitas farinha branca, essas pizzas são absorvidas pelo organismo e transformadas em açúcar puro, causando aumento de peso e desequilíbrio dos níveis de glicose no sangue.

7º lugar: Batata frita


Batatas fritas contêm não apenas gorduras trans, que já foram relacionadas a uma longa lista de doenças, como também uma das mais potentes substâncias cancerígenas presentes em alimentos: a acrilamida, que é formada quando batatas brancas são aquecidas em altas temperaturas. Além disso, a maioria dos óleos utilizados para fritar as batatas se torna rançosa na presença do oxigênio ou em altas temperaturas, gerando alimentos que podem causar inflamações no corpo e agravar problemas cardíacos, câncer e artrite.


6º lugar: Salgadinhos de batata


Além de causarem todos os danos das batatas fritas comuns e não trazerem nenhum benefício nutricional, esses salgadinhos contêm níveis mais altos de acrilamida, que também é cancerígena.

5º lugar: Bacon



Segundo a nutricionista, o consumo diário de carnes processadas, como bacon, pode aumentar o risco de doenças cardíacas em 42% e de diabetes em 19%. Um estudo da Universidade de Columbia descobriu ainda que comer 14 porções de bacon por mês pode danificar a função pulmonar e aumentar o risco de doenças ligadas ao órgão.

4º lugar: Cachorro-quente


Michelle cita um estudo da Universidade do Havaí, que mostrou que o consumo de cachorros-quentes e outras carnes processadas pode aumentar o risco de câncer de pâncreas em 67%. Um ingrediente encontrado tanto no cachorro-quente quanto no bacon é o nitrito de sódio, uma substância cancerígena relacionada a doenças como leucemia em crianças e tumores cerebrais em bebes. Outros estudos apontam que a substância pode desencadear câncer colorretal.

3º lugar: Donuts (Rosquinhas)



Entre 35% e 40% da composição dos donuts é de gorduras trans, “o pior tipo de gordura que você pode ingerir”, alerta a nutricionista. Essa substância está relacionada a doenças cardíacas e cerebrais, além de câncer. Para completar, esses alimentos são repletos de açúcar, condicionadores de massa artificiais e aditivos alimentares, e contém, em média, 300 calorias cada.

2º lugar: Refrigerante


Michelle conta que, de acordo com uma pesquisa do Dr. Joseph Mercola, “uma lata de refrigerante possui em média 10 colheres de chá de açúcar, 150 calorias, entre 30 e 55 mg de cafeína, além de estar repleta de corantes artificiais e sulfitos”. “Somente isso já deveria fazer você repensar seu consumo de refrigerantes”, diz a nutricionista.
Além disso, essa bebida é extremamente ácida, sendo necessários 30 copos de água para neutralizar essa acidez, que pode ser muito perigosa para os rins. Para completar, ela informa que os ossos funcionam como uma reserva de minerais, como o cálcio, que são despejados no sangue para ajudar a neutralizar a acidez causada pelo refrigerante, enfraquecendo os ossos e podendo levar a doenças como osteoporose, obesidade, cáries e doenças cardíacas.

1º lugar: Refrigerante Diet


“Refrigerante Diet é a minha escolha para o Pior Alimento de Todos os Tempos”, diz Michelle. Segundo a nutricionista, além de possuir todos os problemas dos refrigerantes tradicionais, as versões diet contêm aspartame, que agora é chamado de AminoSweet. De acordo com uma pesquisa de Lynne Melcombe, essa substância está relacionada a uma lista de doenças, como ataques de ansiedade, compulsão alimentar e por açúcar, defeitos de nascimento, cegueira, tumores cerebrais, dor torácica, depressão, tonturas, epilepsia, fadiga, dores de cabeça e enxaquecas, perda auditiva, palpitações cardíacas, hiperatividade, insônia, dor nas articulações, dificuldade de aprendizagem, TPM, cãibras musculares, problemas reprodutivos e até mesmo a morte.
“Os efeitos do aspartame podem ser confundidos com a doença de Alzheimer, síndrome de fadiga crônica, epilepsia, vírus de Epstein-Barr, doença de Huntington, hipotireoidismo, doença de Lou Gehrig, síndrome de Lyme, doença de Ménière, esclerose múltipla, e pós-pólio. É por isso que eu dou ao Refrigerante Diet o prêmio de Pior Alimento de Todos os Tempos”, conclui.

* Seu site (em inglês) é: http://www.drmichellecook.com/

domingo, 29 de maio de 2011

A ''revolução silenciosa'' de Bento XVI


Uma coisa engraçada aconteceu com a história do recente fechamento de um lendário mosteiro de Roma, ordenado pelo Vaticano, na imprensa de língua inglesa. E digo isso literalmente – a história se transformou em uma piada, obscurecendo assim a sua real importância.

John L. Allen Jr.
National Catholic Reporter
27-05-2011

Para aqueles que tem olhos para ver, a supressão da abadia cisterciense na Basílica da Santa Cruz em Jerusalém (foto), um dos sete maiores locais tradicionais de peregrinação em Roma, merece muito mais do que a sua colocação em uma coluna de "notícias bizarras". Ao contrário, é o capítulo mais recente do que se poderia chamar de "Revolução Silenciosa" sob o Papa Bento XVI, referindo-se a uma reforma da cultura clerical começando por Roma e irradiando-se para muito além.

A sua essência é esta: é o fim da lógica "pelos frutos os conhecereis" que uma vez se traduzia em um passe livre, ou pelo menos em um forte benefício da dúvida, para clérigos superestrelas e grupos de alto perfil acusados de má conduta. Uma vez, a hipótese de trabalho no oficialismo eclesial geralmente era que, se alguém está fazendo um grande bem para a Igreja, então as alegações de impropriedade sexual ou financeira contra eles eram provavelmente falsas, e levá-las muito a sério apresentava o risco de incentivar os inimigos da fé.

Sem grande alarde, Bento XVI deixou claro que, hoje, uma nova regra se aplica. Não importa quão talentosa uma pessoa ou instituição possa ser, se também estiver envolvida no que o pontífice memoravelmente chamou uma vez de "sujeira" na Igreja, eles não estão fora de alcance de serem atingidos pela punição.

Esse é o profundo significado da recente ação do Vaticano com relação aos cistercienses da Basílica da Santa Cruz em Jerusalém, embora você certamente não chegaria a essa conclusão a partir da grande maioria da cobertura midiática em inglês. A manchete da BBC da quinta-feira era típica: "Papa fecha mosteiro das danças eróticas", dizia, fazendo referência ao fato de que uma ex-dançarina de casa noturna que se tornou freira católica, Anna Nobili [para saber mais, acesse: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/04/090403_freira_italiana_dg.shtml], uma vez apresentou na basílica algo chamado de "dança sacra", diante de um público que incluía dignitários vaticanos.

Na realidade, porém, a basílica dificilmente era uma piada recorrente.

Acima de tudo, os cistercienses estavam na basílica há quase cinco séculos, desde 1561, e, em um período, o Abade da Santa Cruz também foi o Abade Geral de toda a ordem. Dado o fino senso de tradição de Bento XVI, assim como sua reverência pela vida monástica, seria necessário mais do que uma freira dançarina para desencadear a supressão de toda a abadia.

Além disso, até muito recentemente, a basílica era vista, na realidade, como uma grande história de sucesso. O consenso era de que um renascimento se desdobrava sob o abade cisterciense Simone Maria Fioraso, uma influente figura eclesiástica. As vocações eram crescentes, e a basílica se tornou um ponto de encontro para a nobreza italiana, VIPs políticos e ícones da cultura pop.

No outono de 2008, Fioraso fez a sua maior ação bem-sucedida de relações públicas. Ele organizou uma leitura de seis dias de toda a Bíblia, chamada "A Bíblia, dia e noite", transmitido ao vivo pela TV estatal italiana. A maratona foi lançada por Bento XVI e concluída pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Tarcisio Bertone. Uma série de outros potentados vaticanos participaram, junto com celebridades como o ator Roberto Benigni e o ex-presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi. (Os cardeais norte-americanos William Joseph Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Daniel DiNardo, de Houston, também participaram. DiNardo estava na cidade para Sínodo sobre a Bíblia, que foi a ocasião para o festival de leitura da Bíblia).

É difícil superestimar a impressão midiática que o evento constituiu na Itália. As manchetes proclamavam: "Santa Cruz em Jerusalém torna-se uma superestrela".

“Relações inapropriadas”

No entanto, nessa mesma época, começaram a surgir boatos de que algo não estava muito certo. Alguns críticos acusaram Fioraso de parecer mais interessado em adular as elites sociais do que as tradicionais disciplinas da vida monástica, enquanto outros levantavam questões sobre a gestão do dinheiro, especialmente levando em conta que os monges administravam uma loja e um hotel de sucesso, aparentemente sem uma clara contabilidade do fluxos de receita. E, o que é pior, havia rumores de "relações inapropriadas" praticadas por alguns monges, entendendo-se como o código para algum tipo de má conduta sexual.

Tudo isso, antes, podia ser descartado como inveja ou difamação, especialmente dada a reputação de Fioraso como uma estrela em ascensão, mas não desta vez. A Congregação vaticana para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica lançaram uma Visitação Apostólica, que terminou com a dramática decisão de suprimir completamente a abadia e de mandar embora os cerca de 30 monges. O decreto foi assinado pelo arcebispo brasileiro João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e pelo arcebispo norte-americano Joseph Tobin, seu secretário, e foi aprovado por Bento XVI.

Como é sua prática, o Vaticano não forneceu uma explicação pública. No jargão tipicamente eufemístico, as autoridades dizem apenas que há "inúmeras alegações de conduta incompatível com a vida consagrada". O ponto principal é que houve problemas reais na abadia, tanto em termos de responsabilidade financeira, quanto de personalidade moral.

Um padrão de conduta para “limpar a casa”

A supressão faz parte de um padrão de Bento XVI, que começou com a repressão contra os clérigos de alto perfil como Gino Burresi, fundador das Servas do Coração Imaculado de Maria [acesse: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=30759], e Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo. Mais recentemente, em setembro de 2008, Bento laicizou um padre muito conhecido de Florença, Lelio Cantini, cuja paróquia Rainha da Paz foi considerada uma das mais dinâmicas do país. No início deste ano, Bento removeu Fernando Karadima permanentemente do ministério, um lendário padre do Chile conhecido como guia espiritual para uma grande parte do clero e do episcopado.

Todos esses casos, e outros como esses que poderiam ser mencionados, centravam-se na acusação de má conduta e abuso sexual.

Também fazem parte desse quadro as medidas políticas de Bento XVI para agilizar os procedimentos para remover os abusadores do sacerdócio, incluindo um recente conjunto de revisões do Direito Canônico, assim como a sua decisão no início deste ano de criar uma nova autoridade de fiscalização financeira, com o poder de supervisionar as entidades uma vez intocáveis como o Banco do Vaticano ou a Propaganda Fide. A impressão geral é que este é um papa cansado de escândalos, fazendo o que pode para limpar a casa.

Os críticos, naturalmente, irão objetar que essa revolução silenciosa permanecerá incompleta enquanto não chegar ao episcopado – isto é, enquanto os bispos que presidiram a crise dos abusos sexuais, ou os vários escândalos financeiros, ou outras formas de "sujeira" na Igreja, não forem, eles mesmos, responsabilizados.

Seja quem for que fizer essa objeção, a verdade é que, mesmo uma revolução incompleta, ainda é uma revolução. E isso não é uma piada.

* A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 29/05/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=43749

Quando a Igreja se reduz a ser uma agência ética


O desvio moralista nos impede de ver a mudança radical que está ocorrendo na humanidade de hoje. Mais do que de antropologia, se deveria falar de antropogênese. As mudanças de paradigma são radicais. E isso exige não uma eclesiologia, mas sim uma eclesiogênese, não uma teologia, mas sim um teogênese. Em síntese: não a exibição do nome de Deus, mas sim o seu silêncio.

Publicamos aqui a carta do teólogo e eremita camaldulense italiano Paolo Giannoni [foto ao lado], professor emérito da Faculdade Teológica da Itália Central, ao diretor da revista italiana Settimana, nº. 20, 22-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro diretor,

Gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre a atual situação da nossa Igreja. Devo ser sincero. Vejo muitas razões para deixar sepultado aquilo que já está morto. Pressinto a necessidade crescente de uma Igreja com mais silêncio, mais reflexão, maior disponibilidade à transformação, a viver a riqueza da pobreza e da paixão de Cristo. Exatamente o contrário do que acontece.

Aqueles que têm responsabilidades diretivas na Igreja conseguirão entender que vamos rumo a uma Igreja mais pobre, pobre de pessoas e pobre de dinheiro? Conseguirão entender que não podemos nos ajustar só sobre o valor da moral, ou principalmente sobre ele? Não se reduz o Evangelho a um valor ético, e a moral, a obra eclesial. Quando insistimos sobre a prevalência de sermos um corpo ético ou uma agência ética sacrificamos inevitavelmente a animação espiritual e nos candidatamos a uma presunção de hegemonia que já não tem qualquer parâmetro na realidade secular. A mentalidade geral hoje tem seus próprios códigos éticos, diferentes dos do patrimônio eclesial. Forçar a coincidência entre os nossos códigos e os difundidos por vias políticas significa colocar em risco a credibilidade do Evangelho e a própria possibilidade de entendimento sobre a ética.

A questão antropológica ou o desastre antropológico não são enfrentados com o recurso à política e com a pretensão de escrever as leis do Estado, mas sim participando no debate público sobre a base do Evangelho. Caso contrário, entramos em contradições insolúveis. Certamente, é necessário o respeito e o amor pela vida, mas o comércio das armas não vai contra a vida? Certamente, é apreciável o respeito pelos embriões, mas é aceitável que uma criança seja impossibilitada de acompanhar a escola? Certamente, somos contra o aborto, mas a recusa a quem pede asilo não equivale ao aborto? Não sermos opostos à abolição da fraude contábil não significa falhar na defesa do sétimo mandamento? Sim à defesa da família, mas não por parte de quem vive e legitima a prostituição. E o que dizer do silêncio – felizmente interrompido pela Cáritas – sobre o financiamento estatal de caráter social que passou de 1,520 bilhões em 2008 para 349 milhões em 2011?

São reflexões que o Pe. Severino Dianich expressou muito bem na revista Il Regno (20, 2010) e que eu havia intuído de alguma forma em um artigo nesta mesma revista em 1991, quando falei do "cisma informal", denunciando um crescente desinteresse pelo caminho em geral da nossa Igreja. Renunciar ao confronto paciente ou se esconder atrás de um muro de incenso para proteger seus seus atalhos não leva a lugar algum.

Entre a uniformidade de uma homologação impossível e o desgaste anarquista, existe a possibilidade de uma unidade da Igreja como veste de Cristo tecido em uma única peça, mas de muitas cores, como a veste de José. A literatura subsequente sobre o "cisma submerso" mostra suficientemente os dano já provocados (cf. Il Regno, 2, 2011, p.43).

O desvio moralista nos impede de ver a mudança radical que está ocorrendo na humanidade de hoje. Mais do que de antropologia, se deveria falar de antropogênese. As mudanças de paradigma são radicais. E isso exige não uma eclesiologia, mas sim uma eclesiogênese, não uma teologia, mas sim um teogênese. Em síntese: não a exibição do nome de Deus, mas sim o seu silêncio.

Certamente, o anúncio de um Deus trinitário não pode se limitar a afirmar sua subsistência, mas sim a ilustrar sua relação, não a sua totalidade malvada, mas sim a sua “alietas” libertadora, a sua diversidade inalcançável, que porém anima todas as criaturas. Permanece a dificuldade impossível de anunciar a santidade de Deus

Esse é o primeiro testemunho, a primeira oferta que, como Igreja, temos que receber, viver e anunciar. Se não permanece entre nós a primeira e principal forma da santidade de Deus, nos tornamos uma Igreja heterodoxa. Quando a ética torna-se "teologia antes", já estamos na heterodoxia. A santidade de Deus é uma santidade dramática, como bem intuiu Dostoiévski. No "caso grave de Deus" e "caso grave do homem", a estética teológica supera a maravilha, porque magnifica a verdade divina do estupor. A maravilha pode implodir na cosmética; o estupor traz a santidade divina na beleza do coração humano.

Voltar à reflexão sobre Deus e à vida espiritual não é impotência e fuga. Foi o poder que sustentou a Igreja Ortodoxa na Rússia e a Igreja Católica de rito bizantino na Ucrânia. É o poder que sustenta as pequenas Igrejas do Oriente Médio. É o poder que sustenta a fraqueza dos eremitas e das testemunhas. Volta a profecia de Bonhoeffer, a luz silenciosa de Nazaré intuída por Charles de Foucauld e a caridade despedaçada dos "santos (que) vão para o inferno", de G. Cesbron. É a atitude que Dianich indica como mansidão.

Para levar tudo isso ao coração dos crentes, dos fiéis, é necessário retomar o estilo sinodal. Até na Igreja, assim como no mundo, ganham força os sistemas de medo e, portanto, de violências, de frustrações desiludidas, de excessos de rancor. A esperança hoje, além de animar, também pode cuidar e medicar. E, além disso, tudo isso já não estava contido na Gaudium et Spes do Vaticano II?

Luigi Sartori sempre insistiu na conciliação dos diferentes, e, de M. de Certeau, recebemos a pontual urgência de reconhecer o estrangeiro. É tolice excluir a diferença para nos fixarmos em uma uniformização bloqueadora. Quem exclui a união das diferenças também exclui a si mesmo. O perene pentecostes do Espírito é o desejo de Deus (Gn 1, 2) e o desejo da Esposa (Ap 22, 17) de uma comunhão universal da qual devemos ser o sacramento.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 29/05/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=43748

“Nós pega o peixe”? [Não dá para ficar indiferente!]


Maria Clara Lucchetti Bingemer *

Sinceramente, como professora, a notícia me deu um verdadeiro choque. Ao saber que o Ministério da Educação distribuiu a quase 500 mil estudantes do ensino fundamental e médio um livro que afirma não haver problema incorporar a linguagem popular, mesmo incorreta, na língua portuguesa, senti-me triste e desanimada.

Posso perfeitamente concordar em que não se deve discriminar quem fala de forma diferente de nós. Sobretudo quando essa diferença se deve ao fato de que tal pessoa não frequentou os bancos da escola e vive em um meio onde essa forma de falar é usual. Posso até concordar com a distinção entre "errado" e "inadequado" e entre "certo" e "adequado".

Já participei de muitas reuniões de pastoral com comunidades populares, onde a fala popular é considerada e valorizada dentro do conjunto do evento. E pude apreciar falas cheias de sabedoria e profundidade ainda que dentro de formas incorretas de expressar-se. Eram falas, sim, "adequadas" à situação e ao ambiente no qual ocorriam. Jamais pensaria que alguém - mesmo o assessor ou o coordenador da reunião – devesse levantar-se e corrigir a pessoa que assim se expressava. Isso seria uma demonstração de preconceito, sem dúvida alguma.

Concordaria, igualmente, em que um artista ou escritor pudesse compor uma canção ou escrever um conto ou um livro usando expressões populares que seriam incorretas desde o ponto de vista formal ou colocando-as em boca de seus personagens ou mesmo inventando neologismos que não existem no dicionário. A escrita magistral de Guimarães Rosa, a poesia de Adélia Prado, os sambas de Adoniran Barbosa entre outros exemplificam bem o que tento dizer.

No entanto, aqui e agora, trata-se de outra coisa. É em um livro didático, distribuído pelo órgão governamental que deve cuidar do aprendizado da língua portuguesa falada no Brasil que se faz a defesa da linguagem incorreta. E se legitima expressões erradas como certas, ensinando distorcidamente aos jovens que vão à escola e usam o livro para aprender a falar e escrever corretamente. Não estamos diante de inadequação, mas sim de erro. Não estamos em um ambiente de uma reunião de pastoral ou de movimento popular, onde todos têm o direito de expressar-se como sabem e como podem. Nosso assunto é educação, é ensino, é iniciação do aluno à língua de seu país e de seu povo.

Não me parece que tal prática ajude o estudante. Ao contrário, dá-me a impressão de que confirma sua ignorância, sua exclusão do falar correto, sua situação de inferioridade frente àqueles que dominam o instrumental lingüístico. Certamente a intenção da autora não é esta, nem muito menos a do Ministério da Educação, ao admitir o livro e distribuí-lo oficialmente. Entretanto, parece-me que infelizmente é isso que conseguem, afinal de contas.

Dá-me a impressão de estarmos, aqui, diante de uma posição basista, anti-intelectual, que qualifica o errado como certo e desqualifica o correto como elitista. Distorce, assim, a evidência objetiva do código que utilizamos para expressar-nos e que constitui o salvo-conduto primeiro da comunicação entre os cidadãos de um mesmo grupo linguístico.

Pois, se isso fosse a atitude a tomar, por que enviamos nossos filhos à logopedista ou à fonoaudióloga quando apresentam dislexia na escola? Ou por que nós, professores, nos debruçamos sobre os trabalhos escritos de nossos alunos e ali gastamos horas corrigindo cada erro gramatical? Trata-se de serviço indispensável, a meu ver, na missão de um professor. Mesmo no ensino superior. Que dirá no ensino fundamental e médio, onde crianças e jovens estão entrando apenas em relação com a língua e necessitam dominar seus sinais e códigos.

Com todo respeito e sem nenhum sentimento de superioridade e arrogância. "Nós pega o peixe" não dá. Se a educação já é o problema número 1 do Brasil com vistas a seu futuro, se os responsáveis por ela começarem a ensinar a escrever e falar errado, onde vamos parar? "Nós pegamos o peixe", assim como "dois mais dois são quatro" e não cinco, como bem lembrou a acadêmica Ana Maria Machado.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor" (Ed. Rocco).

Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br).

Fonte: Correio da Cidadania - 24/05/2011 - Internet: http://www.correiocidadania.com.br/content/view/5858/9/

O que está por trás do Kit Gay


Luciano Alvarenga *

O kit anti homofóbico, popularizado como kit gay, é uma questão que revela muito da atual situação no Brasil. Com mais de 80% de sua população morando nas cidades, e um moderno sistema de telecomunicações que ao mesmo tempo em que homogeneiza comportamentos, ditos liberais, faz com que todos se sintam de certa maneira partícipes da mesma cena urbana, coloca, entretanto, novas questões e problemáticas advindas destas novas realidades.

O crescimento do tecido urbano ao invés de criar uma sociedade coesa e homogênea, aumenta na verdade a fragmentação, a divisão e o distanciamento, característica inegável das cidades à medida que crescem e se desenvolvem. O que antes era uma sociedade que partilhava valores, comportamentos, ritos sociais e religiosos, comuns nas comunidades rurais e em cidades pequenas do interior do país, passa a ver, por outro lado, o surgimento de grupos e tendências que extrapolam a cultura comum herdada e, defensores de novos etos societários.

A questão quente dos kits gays nas escolas estaduais se enquadra perfeitamente nessa questão. A Escola Pública que sempre foi o lócus de reprodução de comportamentos socialmente aceitos e padronizados como norma, é hoje um lugar disforme, sem vocação nem identidade e que recebe diariamente milhões de crianças e jovens não raras vezes provenientes de ambientes sociais e familiares desestruturados. Estas crianças e jovens carregam mais as características da desestrutura urbana, marcantes em espaços de pobreza, do que uma identidade clara e definida do que são. Nesse sentido, a Escola é mais um espaço de reunião de milhões de jovens em situação social e cultural semelhante e, precária, do que um lugar de reprodução de saber e educação.

Descendentes de famílias marcadas pelo abandono paterno ou, pai em situação de semi emprego, pela presença marcante da delinquência juvenil, precariedade econômica, ausência materna dada à exigência de ser ao mesmo tempo mãe e provedora, o envolvimento dos jovens na economia do crime como forma de resolver uma crise ao mesmo tempo de não formação educacional, mas também uma resposta para uma identidade em formação, tudo isso está contido nesse jovem, aluno da Escola Pública. Bem se observam que crianças e jovens de periferia ou de bairros pobres travam uma brava luta pela sobrevivência identitária e psíquica. Aponte-se que a questão não é meramente sexual, mas do Ser em sua totalidade.

Para o que está em tela nessa discussão basta dizer que, estas pessoas encontram-se sem referência familiar, sem referência de valores e princípios norteadores, sem referência de políticas públicas estruturantes (Escola abandonada), e por consequência sem referência emocional e identitária. As crianças e jovens pobres, para não dizer os jovens de classe média, são hoje a cartografia da desestrutura social que toma conta das cidades brasileiras.

Resulta disso que, incapazes de se pensarem a si mesmos, no caso dos jovens, nem ao menos de viverem espontaneamente a infância que deveriam, no caso das crianças, o que vemos é a instalação da violência como forma última de afirmação social e a tentativa, via economia da criminalidade, de ocupar um lugar no mundo do consumo. A violência nesse caso talvez seja menos contra os Gays e mais uma reação contra a violência objetiva da realidade que são obrigados a viver.

 É nesse contexto que surge a proposta de distribuição do Kit anti homofóbico. Uma proposta que visa combater a violência e o preconceito contra este grupo social. A completa ineficácia do projeto, ainda que a intenção seja nobre, está no fato de que o grupo social a que se destina, jovens em idade escolar, está em sua maioria esmagadora desaparelhada para pensar sobre tão sofisticada questão que é esta da sexualidade e seus desdobramentos, num contexto de vida em que outras exigências são prementes e prioritárias. Isso significa dizer que se a Escola Pública, nesse caso do Kit, fosse o objetivo central da luta GLBT e, dentro deste processo emergisse as demandas individuais deste grupo, ela seria legítima. Mas como está colocada, sugere mais uma campanha em prol de um grupo específico do que uma luta por uma sociedade mais justa e solidária.

Resulta do fato que, mais parece que os grupos GLBT pretendem marcar terreno político e publicitário com o Kit do que propriamente debater a realidade de crianças e jovens das Escolas Públicas, que por si só já vivem uma realidade violenta.

Por último, a discussão da sexualidade tal qual vem sendo colocada não apenas pelos grupos homossexuais, é sempre com um viés individualista e privatizante. Quando o que estamos vivendo é o agravamento do modelo de vida privado, individualista que descarta o coletivo e o espaço público, com seu corolário que é uma sociedade de corte profundamente egoísta.

Entre uma Escola Pública falida e o que tudo isso implica de prejuízos coletivos para o país e para as famílias, e o direito individual a expressão sexual sem nenhum valor maior que simplesmente a expressão de um desejo individual, eu penso que o coletivo deve sobrepor o indivíduo.

* Luciano Alvarenga [foto acima] é sociólogo e mestre em economia pela UNESP, atua e reside na região de São José do Rio Preto, interior paulista.

Fonte: Blog "Cama de Prego" de Luciano Alvarenga - Publicado pelo autor em 20/05/2011 - Internet: http://lucianoalvarenga.blogspot.com/2011/05/o-que-esta-por-tras-do-kit-gay.html

sábado, 28 de maio de 2011

Unesco vai preservar arquivos da ditadura


Wilson Tosta

A Unesco aprovou a transformação de arquivos da repressão política brasileira em Memória do Mundo.

O projeto apresentado pelo Brasil, sob o título Rede de informações e Contrainformação do Regime Militar no Brasil (1964-1985), foi aprovado pelo Comitê Consultivo Internacional do Programa Memória do Mundo (MoW - Memory of the World), em reunião em Manchester, no Reino Unido. O material, porém, inclui documentação de outras épocas, recuando, em alguns casos, a 1920, ou avançando até 1991, porque algumas agências repressivas "herdaram" fichas de outras, extintas.

"Essa inclusão significa uma obrigação de preservar, divulgar e dar acesso aos documentos", disse a socióloga Sílvia de Moura, funcionária do Arquivo Nacional que participou da equipe que preparou o projeto.

Ela explicou que a aceitação da Unesco dá, por exemplo, mais peso a eventuais pedidos de auxílio para os arquivos. Segundo o Arquivo Nacional, a vitória da candidatura brasileira assegura "visibilidade mundial" aos documentos, ajudando na sua preservação. "Alguns países da América Latina já tinham recebido essa classificação, mas seus acervos são muito pequenos em relação ao do Brasil."

O projeto aprovado incorpora material de órgãos centrais do Sistema Nacional de Informações (Sisni, que era coordenado pelo Serviço Nacional de Informações durante a ditadura). Também inclui documentos de órgãos de informação de Estados da Federação guardados em arquivos estaduais ou por outras entidades parceiras do projeto Memórias Reveladas - Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985), criado em 2009.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Nacional - Sábado, 28 de maio de 2011 - Pg. A8 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110528/not_imp724994,0.php

Interferência de Lula expõe fragilidade política de Dilma [O que não é novidade!]


Gabriel Manzano
Colaborou Luciana Xavier

Estudiosos veem riscos na ação de ex-presidente para aplacar crise política gerada pelas denúncias contra o ministro Palocci

A intervenção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva [foto acima] para superar a crise do governo, durante a semana, evidenciou as dificuldades de Dilma Rousseff para gerir conflitos, o que prejudica sua imagem de boa administradora. Essa é a avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Estado - ainda que, para alguns, o eleitorado possa considerar isso normal e até legitimar a ação de Lula.

"O benefício é de curtíssimo prazo. No longo, Dilma simplesmente perdeu a autoridade e o custo será gigantesco", resume Amaury de Souza, do Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade, Iets, no Rio. "O fato é que Lula não tem nenhum mandato, é um elemento perturbador, que entrou falando em nome próprio", acrescenta.

Com ele concorda José Álvaro Moisés, da USP. A ação de Lula "foi algo inteiramente fora do ponto", define Moisés. "Ao ocupar o centro da cena, do modo como fez, ele projetou a debilidade da liderança da presidente."

Amaury de Souza acredita que Dilma "jogou pela janela" os cinco meses de benefício da dúvida que o País lhe concedeu. "O episódio bate em sua imagem como grande administradora", pondera, juntando os estragos causados pelo Código Florestal, os ganhos pessoais do ministro Antonio Palocci e a negociação da cartilha anti-homofóbica do MEC. "Agora há dúvidas quanto à sua capacidade de orientar o governo. E ela tem pela frente três anos e meio de governo".

Souza e Moisés também veem, na ação de Lula, uma certa intenção de "deixar o recado" de que, se ela não está preparada para governar, "ele está aí para retornar". Souza até arrisca afirmar que Lula "já descobriu que o povo esquece rápido, não gostou e quer ser lembrado".

"Normal". Para o cientista político Humberto Dantas, porém, "tudo depende de como o público vai olhar para isso". O eleitorado de Dilma "votou no prolongamento do governo Lula. Para esses cidadãos, o que ocorreu é o esperado". Falta saber, acrescenta, "como a oposição vai tratar o caso. Ela pode se calar se perceber que a sociedade legitima o episódio".

O diretor do Eurasia Group, Christopher Garman, fica a meio caminho. "A entrada de Lula revela, sim, certa fragilidade da base aliada do governo. Mas não é o mesmo que dizer que a atuação de Lula enfraquece Dilma". Ele admite, no entanto, que ela "precisa mostrar mais tato para se relacionar com sua base".

Fonte: O Estado de S. Paulo - Nacional - Sábado, 28 de maio de 2011 - Pg. A6 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110528/not_imp725002,0.php

Aumento súbito de investimento no país é "suspeito", diz FMI


PATRÍCIA CAMPOS MELLO
ENVIADA ESPECIAL AO RIO
Colaborou PEDRO SOARES, do Rio


Para o economista-chefe do fundo, governo deveria taxar esse tipo de fluxo de capital

O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard [foto ao lado], afirmou ontem que o aumento súbito do investimento estrangeiro direto no Brasil é "suspeito" e que o governo deveria taxar esse tipo de fluxo de capital.

"Os números de investimento estrangeiro no Brasil são bastante suspeitos. O investimento começa a subir muito justamente quando ele fica de fora do imposto (IOF)Talvez esse dinheiro não seja mesmo investimento", disse Blanchard ontem, após seminário sobre fluxos de capital.

O governo elevou a cobrança de IOF sobre fluxos de capital de curto prazo para desestimular a entrada dessas aplicações, que têm levado à valorização do real.
A suspeita é que alguns investidores estão fazendo investimentos diretos de longo prazo para driblar o IOF.

No acumulado do ano, de janeiro a abril, a entrada líquida de investimento estrangeiro direto no Brasil foi de US$ 22,985 bilhões - o valor é quase três vezes maior que o fluxo que ingressou no país no mesmo período do ano passado.

Para Blanchard, o próximo passo do governo deveria ser aumentar o alcance das medidas "e começar a taxar o investimento direto".

O economista deixou claro que o FMI vê com bons olhos o uso de taxação para desestimular a entrada excessiva de capitais estrangeiros, que podem causar sobrevalorização da moeda e perda de competitividade da indústria. Mas afirmou que, provavelmente, o Brasil e outros países "não estão usando esses instrumentos da forma mais eficiente".
"Se estiverem dispostos a adotar uma ampla gama de controles de capital, aí sim funciona", avaliou.

MUDANÇA

A posição é uma mudança e tanto para o fundo, que até pouco tempo condenava o uso de instrumentos que restringissem a entrada ou saída de capitais estrangeiros.

No ano passado, o FMI passou a "aceitar" o uso instrumentos de controle, desde que antes fossem esgotadas todas as outras opções, como medidas de política fiscal e macroeconômica.

"Nós mudamos nossa posição. Não necessariamente o controle de capital tem de ser só o último recurso - às vezes é preciso adotá-lo como primeira linha de defesa", disse Blanchard.

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Sábado, 28 de maio de 2011 - Pg. A12 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2805201118.htm

Sem-terra que combatia madeireiros é morto em RO [Preocupante!]


MATHEUS MAGENTA
SÍLVIA FREIRE
DE SÃO PAULO


Adelino Ramos estava em lista de ameaçados de morte da Pastoral

O agricultor Adelino Ramos [foto ao lado], líder do MCC (Movimento Camponês Corumbiara), considerado um dos movimentos sociais agrários mais radicais do país, foi morto a tiros ontem em Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho (RO).

Foi o terceiro assassinato, só nesta semana, de pessoas que estão no levantamento de ameaçados de morte feito pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), ligada à Igreja Católica. Na terça-feira, um casal de líderes extrativistas foi morto em Nova Ipixuna (PA).

Ramos era um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara, que ocorreu em 1995 durante a desocupação de uma fazenda em Rondônia. No conflito, foram mortos dez sem-terra e dois PMs.

Os ministros Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) divulgaram nota repudiando o assassinato do agricultor e cobrando da polícia uma investigação rigorosa.

Eles atribuem a morte a uma provável perseguição aos movimentos sociais.

Segundo a CPT, Ramos denunciava a ação de madeireiros na região da divisa entre Acre, Amazonas e Rondônia.

Ele e um grupo de trabalhadores rurais reivindicavam a criação de um assentamento agrário no local.
No início do mês, o Ibama apreendeu cabeças de gado e madeira no local, que é área de preservação ambiental.
"Isso leva a crer que esse tenha sido o motivo de sua morte", disse a CPT, em nota.

Em 2009, Ramos disse à Ouvidoria Agrária Nacional que sofria ameaças de morte.

Segundo a Polícia Civil de Rondônia, o agricultor foi morto a tiros por um motociclista enquanto vendia verduras produzidas no acampamento onde vivia.

O delegado Talles Beiruth, responsável pelo caso, afirmou que não falaria sobre os possíveis motivos do crime para não "atrapalhar as investigações".

Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Sábado, 28 de maio de 2011 - Pg. A21 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2805201121.htm

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Brasil reduz a intensidade da pobreza, mas não acaba com a miséria


Entrevista especial com 
Lena Lavinas  *

 
“O Brasil não tem política pública para acabar com a pobreza, nem política para acabar com a desigualdade”, constata a economista, em entrevista concedida, pessoalmente, à IHU On-Line, na última segunda-feira, quando esteve no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, participando do Ciclo de Palestras Renda Básica de Cidadania. Segundo a pesquisadora, a instituição de programas de distribuição de renda mínima como o Bolsa Família demonstra que o país está mais consciente com as questões sociais e isso ocorre porque o Brasil retomou o crescimento econômico após trinta anos de estagnação. “Quando um país cresce, a renda média aumenta, então, tende-se a reduzir a pobreza”, esclarece.

Na entrevista que segue, ela explica a necessidade de os países capitalistas adotarem políticas de distribuição de renda, fala sobre a proposta da presidente Dilma de erradicar a miséria e ressalta que “é necessário entender a pobreza não apenas como um déficit monetário, mas como um déficit de bem-estar e, neste sentido, praticamente 40% da população brasileira vive em condições muito ruins de moradia. Além disso, nem todos têm o acesso que mereceriam ao sistema de saúde e têm um sistema de educação muito ruim”. A partir desta conjuntura social, argumenta, “o Brasil está longe de realmente poder alcançar a meta de erradicar a miséria e a desigualdade”.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line - Quais são as possibilidades e os limites de implantar um programa de Renda Básica de Cidadania no Brasil?

Lena Lavinas – Há pouquíssimas probabilidades de nosso país implantar um programa de Renda Básica. A Lei 2835, de janeiro de 2004, aprovou a ideia de uma Renda Básica, porém, ela é muito restrita e contraditória. A Renda Básica tem o princípio da incondicionalidade, ou seja, distribuir o mesmo valor para todos, sem fazer distinção entre ricos e pobres. No entanto, a Lei 2835 já nasce com um viés muito grave: o de começar pelos pobres e só ser implementada se houver recursos orçamentários disponíveis. Esses já são pressupostos que comprometem a ideia da incondicionalidade da Renda Básica.

O Brasil é um paradoxo porque é o único país do mundo que tem uma lei de Renda Básica. Os demais países nunca adotaram uma lei porque existe um grande debate internacional que discute se o melhor é ter uma Renda Básica ou se é ter mais políticas sociais, programas de transferências de renda, de auxilio saúde e de educação. A Renda Básica só existe no Alasca, um estado estadunidense, justamente em um país onde o nível de provisão social é muito pequeno, onde o nível de desigualdade social é muito alto para um país desenvolvido, e onde as pessoas têm um sistema de proteção social muito residual. O Brasil tem este paradoxo, entre muitos outros, que é o de ter uma lei de Renda Básica, cuja probabilidade de implementação me parece ser muito pequena.

IHU On-Line - Em outra entrevista que nos concedeu, a senhora disse que o Brasil conseguiu instituir um sistema de cobertura ampliada em termos de segurança social a partir dos programas de distribuição de renda. Em que aspectos o país ainda pode avançar nesse sentido? Qual seria o próximo passo para retirar mais cidadãos da miséria?

Lena Lavinas – O Brasil institucionalizou, com a Constituição de 1988, a assistência social como um direito a todos aqueles que são vulneráveis. Isto é uma grande revolução porque na maioria dos países em desenvolvimento, a assistência social é discricionária, ou seja, é implementada segundo a vontade dos governantes, com métodos não muito “católicos”. Portanto, o Brasil tem um diferencial: ao refundar o sistema de proteção social, criando a seguridade social em 1988, o país estabeleceu o seguinte tripé: a saúde, um direito universal com o financiamento de todos; o seguro social, que são as aposentadorias, pensões e outros direitos previdenciários que reúnem um financiamento contributivo específico daqueles que contribuem; e, finalmente, a assistência social voltada aos necessitados com financiamento proveniente das contribuições sociais que incidem sobre o consumo da população em geral, inclusive dos mais pobres.

O Brasil cria, portanto, a institucionalidade da assistência social introduzindo imediatamente um primeiro mecanismo de transferência de renda que é o Benefício de Prestação Continuada – BPC. Este passa a ser implementado a partir de 1993 para as pessoas portadoras de deficiência e idosos que vivem em famílias cuja renda familiar per capita é inferior a um quarto do salário mínimo. Desde a sua origem, este novo sistema de proteção social garante um mínimo social, porém poucas pessoas eram cobertas por este mínimo social - hoje, cerca de 3,5 milhões de pessoas recebem este benefício. Portanto, foi necessário expandir essa segurança mínima monetária, e aí surgiu o programa Bolsa Família, que uniu vários pequenos programas fragmentados que existiam. Hoje, sua cobertura alcança 12 milhões e 900 mil famílias, alguma coisa como 44 milhões de pessoas.

Novas iniciativas

Essa política de distribuição de renda mínima é muito importante. Diferente do governo anterior, houve um reconhecimento, por parte do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, de que muitas pessoas não estavam contempladas no Bolsa Família, e, portanto a meta do governo Dilma é avançar no sentido de garantir essa cobertura a todos que sejam necessitados. Segundo a estimativa do governo, há mais ou menos um milhão de pessoas fora da cobertura, o meu calculo é bem maior, em torno de nove milhões.

De qualquer modo, o fato de as pessoas receberem o Bolsa Família não garante que elas saiam da miséria. Sabemos que o programa é pouco efetivo na redução da miséria, ou seja, ele reduz a intensidade da miséria, que algo bem diferente. Com o benefício do Bolsa Família, poucas pessoas vão para além da linha da pobreza, mas elas  reduzem a distância, o hiato, que as separa da linha da pobreza. Portanto, temos de entender que este programa tem um mérito muito grande, que não é de reduzir a pobreza, mas a intensidade. Para tirar as pessoas da pobreza precisa de mais coisas.

IHU On-Line – Existe um projeto de imposto sobre riquezas. Qual a sua opinião?

Lena Lavinas – Não há uma mínima chance de que esse projeto passe no Brasil, porque não há nenhum imposto de renda progressivo. Não precisamos chegar a um imposto sobre riquezas, basta mudar o imposto de renda aplicado atualmente, que tem quatro/cinco alíquotas, ou seja, qualquer pessoa que recebe acima de R$ 3,800 paga a mesma alíquota de imposto de renda de alguém que ganha R$ 500 mil por mês. Isso é um absurdo completo.

O patrimônio também não é tributado no Brasil. Então, antes de pensarmos em um imposto sobre a fortuna, podemos começar a tributar corretamente o patrimônio, que não deixa de ser uma forma de fortuna. Também seria interessante tornar o imposto de renda progressivo.

IHU On-Line - Os programas de Distribuição de renda permitiram que parte da população tivesse acesso ao consumo. Mas, pensando em desenvolvimento, que avanços é possível constatar a partir de programas de distribuição de renda como Bolsa Família? Percebe-se mais desenvolvimento nas famílias ou apenas ascensão econômica?

Lena Lavinas – Em todos os países do mundo, os governos e a sociedade optam por garantir uma renda mínima aos mais pobres não porque têm pena deles - se fosse por pena e questão de justiça social, dificilmente se garantiria uma renda mínima para 45 milhões de brasileiros -, mas porque pessoas sem rendimento econômico geram uma série de distorções na economia. Por exemplo, se a pessoa não tem dinheiro para pagar a energia elétrica, ela vai fazer um “gato”; se não tem onde morar, vai ocupar uma zona e isso tem impactos na sociedade.

A regulação da pobreza começou no século XIV, não tem nada de novo, e é uma forma de reduzir o conjunto de externalidades que são muito ruins em termos de mercado. A economia precisa funcionar e quem não tem o mínimo de recurso, não consegue nem pegar um ônibus para tentar um emprego. É necessário, para a economia funcionar, que as pessoas possam ter uma renda mínima, e é por isso que existem programas de distribuição de renda em todos os países capitalistas.

IHU On-Line - Por um lado, o governo manteve uma postura relutante na negociação do salário mínimo, não aceitando aumento maior de R$545,00 e, por outro, aumentou o valor do Bolsa Família. O que essas duas medidas significam, considerando o compromisso de Dilma em erradicar a miséria no país? 

Lena Lavinas – O governo não teve um comportamento relutante. O Brasil criou um princípio de reajuste anual do salário mínimo, ou seja, uma regra geral. Entretanto, essa regra não foi votada, mas ela já era adotada na prática.

Essa regra de reajuste prevê que o salário mínimo seja indexado a cada primeiro de janeiro, considerando a inflação acumulada no ano anterior e a taxa de crescimento de dois anos antes. Essa é uma regra muito importante, porque mostra que além de recuperar o poder de compra do salário mínimo - porque se vai incorporar à inflação -, também se garante que, se houver crescimento econômico, haverá um aumento real nos salários.

O governo não tergiversou sobre esta regra e embora ela não tenha sido votada, é vigente. Por isso, no próximo ano, embora se tenha uma inflação de 5,5%, será considerado o aumento de 7% da taxa de crescimento de 2010, o que irá resultar em um aumento significativo do salário mínimo, algo em torno de 14%, que não é pouca coisa.

Temos de viver dentro de uma institucionalidade, e, nesse sentido, o salário mínimo é uma institucionalidade, é uma forma de regulação das relações de trabalho. Portanto, o governo fez muito bem em avançar neste sentido. O Bolsa Família foi reajustado acima da inflação, e isso é bom porque melhora a qualidade de vida das pessoa. Porém, ele continua sem ter uma regra definitiva de reajuste, não tem data, não tem prazo, não tem modalidade, e, evidentemente, os reajustes dos benefícios assistenciais continuam a mercê do governo federal.

IHU On-Line - O ajuste fiscal anunciado no início do governo pode prejudicar a continuidade das políticas públicas brasileiras?

Lena Lavinas – Sem dúvida. Um país que tem educação de tão má qualidade, que tem um sistema de saúde, que, embora seja universal, não consegue prover todo o serviço na quantidade e qualidade necessária, tem um déficit acumulado muito grande e isso implica gastos superiores. O Brasil gasta pouco em educação, em saúde, em segurança e gasta mal. Além disso, se gasta praticamente nada com política habitacional - o país está há 50 anos sem política habitacional.

Este ajuste fiscal que o governo começou a fazer, embora tenha preservado os valores do Bolsa Família, mostra que o país continua na mesma direção: investe em uma política de combate à pobreza, que na verdade é uma política de redução da intensidade da pobreza, em detrimento da consolidação de um sistema de preservação social, que é muito mais amplo.

IHU On-Line – Pode-se dizer que, historicamente, no Brasil entende-se desigualdade social como sinônimo de pobreza? Ou que as políticas sociais visam muito mais acabar com a pobreza do que de fato com a desigualdade social?

Lena Lavinas – Não penso que confundimos desigualdade social com pobreza. Sempre vai haver pessoas pobres em relação ao outro, porque a pobreza é medida não somente em termos absolutos (pessoas que não tem dinheiro para comer, para pagar o aluguel), mas ela é sempre vista como lugar de alguns indivíduos na sociedade, vis-à-vis outros que conseguem se beneficiar mais com o modo de vida que aquela sociedade construiu para si. Podemos supor que os pobres são aqueles que hoje não têm condições de se beneficiar com o bem-estar acumulado de uma determinada sociedade. A ideia de desigualdade é outra: Cuba, por exemplo, é uma sociedade pouquíssima desigual, relativamente igualitária, mas onde o nível de destituição de grande parcela da população é muito grande. As pessoas são relativamente pobres se comparadas com outras sociedades do mundo capitalista.

O que se pode dizer é que a pobreza relativa, como este beneficiar-se de uma qualidade de vida, é uma abordagem que tende a relacionar os que não conseguem fazer com os que conseguem. A ideia de desigualdade não é exatamente esta, é a apropriação que cada parcela da população faz da renda nacional ou do patrimônio nacional. Neste aspecto, em termos de desigualdade, a situação é muito mais grave do que se pode imaginar.

IHU On-Line - Pode-se dizer que, em alguma medida, as políticas públicas brasileiras visam acabar com a pobreza e não com a desigualdade? Por que isso ocorre? 

Lena Lavinas – O Brasil não tem política pública para acabar com a pobreza, nem política para acabar com a desigualdade. O país está mais consciente, porque retomou o crescimento econômico, que estava estagnado há trinta anos. Para reduzir a pobreza, é necessário crescer. O caso mais evidente é o da China, que reduziu muito a pobreza, tirou mais de 400 milhões de chineses da miséria. Quando um país cresce, a renda média aumenta, então, tende-se a reduzir a pobreza. Mas é necessário entender a pobreza não apenas como déficit monetário, mas como déficit de bem-estar e, neste sentido, praticamente 40% da população brasileira vive em condições muito ruins de moradia. Além disso, nem todos têm o acesso que mereceriam ao sistema de saúde e têm um sistema de educação muito ruim. Então, pelo lado da acessibilidade aos serviços básicos que podem elevar as dotações dos indivíduos, o Brasil está longe de realmente poder alcançar a meta de erradicar a miséria e a desigualdade.

IHU On-Line - Segundo dados do IBGE, o Brasil tem 16 milhões de pobres. O que esse valor representa para o país considerando o crescimento econômico dos últimos anos, a má distribuição de renda e a “luta” pela redução da desigualdade no país?

Lena Lavinas – O Brasil não tem uma luta histórica pela redução da desigualdade, muito pelo contrário, se tivesse, nós não estaríamos onde estamos hoje, com 16 milhões de pessoas que vivem em níveis de grande miséria e privação. Além disto, o Brasil continua tendo um índice Gini de 0,51, que é altíssimo. O país caiu do terceiro lugar dos mais desiguais para o 12º, então está longe de ser uma diferença boa. Ainda não temos o que comemorar.

Estes 16 milhões representam uma estimativa reajustada em função dos dados recentes que o senso demográfico nos trouxe. A média que o governo tinha, com base do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2009, era de 10 milhões de indigentes e agora o número ampliou para 16 milhões. Então, evidentemente, vai ficar mais caro cuidar deles. Penso que o importante é esperar que o governo seja capaz, de fato, de tornar o Bolsa Família um direito de todos estes indivíduos. Hoje, o Bolsa Família não é considerado um direito, e é por isso que milhões de indigentes miseráveis não são alcançados pelo programa.

IHU On-Line - Como a senhora avalia o discurso da presidente Dilma em relação à erradicação da pobreza e da miséria no país? Que políticas sociais são necessárias para atingir esse objetivo? E que políticas não podem faltar no plano de combate à miséria, que será lançado no fim do semestre?

Lena Lavinas – Ainda não sabemos qual é a proposta da presidente. Existe uma intenção do governo federal expressa nas eleições, e desde que Dilma chegou ao governo, fala-se em erradicar a miséria. Sabemos que não é possível acabar com a miséria, mas se conseguirmos torná-la residual, seria o suficiente.

Hoje em dia, praticamente 8,5% da população é considerada indigente. Se esse número diminuir para 2%, será melhor. Sei que a presidente reuniu uma equipe muito boa, coordenada pela Dra. Ana Fonseca (Unicamp), uma pessoa muito séria e correta, que tem princípios universalistas. Tenho certeza de que ela fará o melhor.

IHU On-Line – O que a gente pode pescar dos discursos de Dilma?

Lena Lavinas – Existe uma sensibilidade nova no governo para tentar, aproveitando a retomada do crescimento, minimizar os efeitos da miséria e promover a inclusão social.

IHU On-Line – Que políticas sociais são necessárias, então, para minimizar a miséria?

Lena Lavinas – O Brasil precisa de uma política de transferência de renda e ao mesmo tempo garantir a acessibilidade destes indivíduos a tudo aquilo que é necessário para eles terem uma vida digna, terem iniciativa, aproveitarem outras oportunidades. O país tem de garantir que os serviços básicos como saneamento, moradias de qualidade, saúde, educação cheguem a essa população.

IHU On-Line - Os jornais estão polemizando em torno do discurso da presidente enquanto candidata e o discurso atual em relação à pobreza. Antes, se considerava que o Brasil tinha 19,6 milhões de pobres, considerando a renda de R$ 70,00. Hoje, a medida é um quarto do salário mínimo, R$ 136,00, o que significa que o país tem 16 milhões de pobres. Por estes cálculos e discursos, hoje, ficam de fora da linha da pobreza cerca de 3 milhões de pessoas. Como vê essa polêmica?  

Lena Lavinas – A medida continua sendo de R$70. A linha de pobreza não pode estar ligada ao salário mínimo, porque toda vez que o salário mínimo sobe, mais pessoas serão consideradas pobres. A linha de pobreza tem de estar associada à renda média da população. A linha de R$70 da indigência e de até R$200 reais de pobreza não está associada ao salário mínimo, é um valor a partir da renda média.

IHU On-Line - O que significa um Brasil sem miséria? Em que medida o Brasil se encaminha para atingir esse cenário?

Lena Lavinas – Não é possível prever quando isso vai acontecer, até porque o processo de inclusão social implica uma sistemática de garantias. O país tem que ter um horizonte, e precisa, antes de tudo, garantir a toda população o direito de receber o benefício monetário. Hoje isto não é garantido a toda a população. É preciso ter uma linha de pobreza que esteja compatível com a realidade, a linha de pobreza e de indigentes que o Brasil tem hoje é muito baixa, deveriam ser maior. Também precisamos ter uma política de elevação do gasto público nestas áreas básicas prioritárias necessárias para o conjunto da população e hoje a política orçamentária vem contestar esta prioridade. Temos ainda uma série de coisas para acertar antes de pensarmos que iremos erradicar a miséria.

* Lena Lavinas é graduada em Economia pelo Institut d'Etudes pour le Développement Economique (França). É mestre e doutora em Estudos sobre a América Latina pelo Institut de Hautes Etudes d'Amérique Latine (França). Realizou o pós-doutorado no Centre de Sociologie Urbaine. É membro do comitê editorial do Feminist Economics (EUA) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Entre seus livros estão Programas Sociais de Combate à Fome: o legado dos anos de estabilização econômica (Rio de Janeiro: Editora UFRJ - Ipea, 2004) e Emprego Feminino no Brasil: mudanças institucionais e novas inserções no mercado de trabalho (Santiago do Chile: Cepal, 2002).

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 25/05/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=43602

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ativistas ambientais são executados no Pará


Carlos Mendes
Belém/PA

Casal, que era conhecido como ''defensor da floresta'', foi surpreendido por pistoleiros e morto a tiros na cabeça e no peito; polícia ainda não tem pistas
 
Um casal que desde 2008 lutava contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba, sudeste do Pará, foi assassinado na manhã de ontem em uma estrada da região. José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo [foto ao lado] foram atingidos por tiros na cabeça e no peito. A polícia abriu inquérito para apurar o caso, mas ainda não tem pistas dos crime.

De acordo com testemunhas, o casal foi surpreendido por pistoleiros na estrada que leva ao assentamento agroextrativista Praia Alta Pirandeira, uma área de 22 mil hectares à margem do lago da usina hidrelétrica de Tucuruí. No local vivem cerca de 500 famílias. José Cláudio e Maria eram conhecidos na região como defensores da floresta.

Familiares afirmaram que nos últimos dias alguns homens "em atitudes estranhas" estavam rondando a residência do casal, principalmente à noite. Eles contaram ainda que, para intimidar, os suspeitos disparavam tiros para o alto e depois desapareciam.

Há suspeita de que os homens estariam a serviço de madeireiros incomodados com a vigilância que o casal exercia para que as florestas em volta do assentamento não fossem derrubadas. Segundo os familiares, até animais da propriedade do casal foram mortos como aviso para que eles parassem com as denúncias de desmatamento.

O secretário de Segurança Pública, Luiz Fernandes Rocha, enviou uma equipe de peritos e um grupo de policiais civis para apurar as circunstâncias dos crimes. Segundo Rocha, o governo do Pará realizará todos os esforços necessários para que os assassinatos não fiquem impunes.

"O Estado não vai tolerar mais esse tipo de violência em nosso território. Mobilizamos uma grande equipe para ir até o local e investigar o problema e, se possível, voltar com os responsáveis presos", afirmou o secretário. O delegado-geral adjunto de Polícia Civil, Rilmar Firmino, está coordenando a equipe e chefiará pessoalmente as investigações.

Vigilância

Toda a área da reserva extrativista do assentamento é rica em espécies de madeira nobre, como angelim e jatobá. A propriedade do casal tinha 80% da mata preservada. Eles viviam há 24 anos na região e faziam parte da Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), uma organização não governamental criada por Chico Mendes, assassinado no Acre na década de 80 por também defender a floresta amazônica.

Para o diretor da Regional Belém do CNS, Atanagildo Matos, as vítimas deixam uma lição: permitir que o povo da floresta possa viver com qualidade, de forma sustentável, com o meio ambiente. Ele pediu que o Ministério Público Federal e a Polícia Federal investiguem o caso.

Em nota, o Fórum da Amazônia Oriental (FAOR) condenou o assassinato, afirmando que o casal estava "marcado" para morrer. "Mais uma vez tombam aqueles que insistem em defender a floresta", diz o manifesto, exigindo que as autoridades investiguem com seriedade o crime e prendam os mandantes e executores para que o fato "não faça parte da imensa lista de impunidade que assola o Pará".

Investigação

O Ministério Público Federal enviou ofício para a Polícia Federal pedindo que acompanhe as investigações sobre o assassinato do castanheiro José Cláudio Ribeiro da Silva e de sua mulher.

Fonte: O Estado de S. Paulo - 25/05/2011 - 0h00 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110525/not_imp723706,0.php

Veja os principais pontos da proposta do novo Código Florestal [Não deixe de ler!]


O Código Florestal em vigor no País foi elaborado em setembro de 1965, mas já passou por várias alterações. O Legislativo tenta construir um texto novo há 12 anos. Veja quais são os principais pontos do texto aprovado pela Câmara dos Deputados em 24 de maio e que será analisado pelo Senado:

Reserva legal
Lei atual: determina que a manutenção de florestas e outras formas de vegetação nativa deve ser de 80% em propriedades em área de floresta na Amazônia Legal, 35% nas propriedades em área de cerrado na Amazônia Legal e 20% nas demais regiões. Se a área da reserva for menor que o previsto em lei, o proprietário deve promover a recomposição.

Texto votado: pequenos produtores rurais, cujas propriedades sejam de até quatro módulos fiscais (medida variável que vai até 400 hectares) não precisarão recompor as reservas legais.

Margem de rios
Lei atual: prevê proteção da vegetação até 30 m de distância das margens dos rios mais estreitos, com menos de 10 m de largura.

Texto votado: no caso de áreas já desmatadas, a recomposição deverá ser de 15 m de distância da margem. Permanece a exigência de 30 m para as áreas que se mantiveram preservadas.

Anistia
Lei atual: elenca uma série de contravenções passíveis de punição de três meses a um ano de prisão ou multa de 1 a 100 salários mínimos. O decreto 7.029/2009 prevê multa para quem não registrar a reserva legal até o próximo dia 11 de junho. Se as áreas desmatadas forem recuperadas até essa data, ficarão livres das multas.

Texto votado: o compromisso de regularização do imóvel suspende eventuais punições de detenção e/ou multa que tenham sido aplicadas ao proprietário. A efetiva regularização extingue a punibilidade. A adesão ao programa de regularização deverá ocorrer em um ano (prazo que pode ser prorrogado pelo governo) a partir da criação do cadastro de regularização ambiental (CAR). O cadastro deverá ser criado até três meses após a sanção do novo código.

Topos de morro
Lei atual: proíbe utilização do solo em topos de morros, montes, montanhas e serras, encostas com declive acima de 45°, restingas fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues, bordas de chapadas, áreas com mais de 1,8 mil m de altitude.

Texto votado: o texto admite a manutenção de atividades florestais, pastoreio extensivo, culturas lenhosas perenes, como café, maçã, uva, ou de ciclo longo, como a cana de açúcar, que não estavam previstas no texto apresentado pelo relator.

Áreas consolidadas
Lei atual: a classificação de área rural consolidada inexiste no código em vigor.

Texto votado: atividades em áreas rurais consolidadas - anteriores a 22 de julho de 2008 - localizadas em Área de Preservação Permanente poderão ser mantidas se o proprietário aderir ao Programa de Regularização Ambiental. A autorização será concedida em caso de utilidade pública, de interesse social ou de baixo impacto.

Fonte: TERRA - Notícias - 25/05/2011 - Atualizado às 00h45 - Internet: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5122834-EI306,00-Veja+os+principais+pontos+da+proposta+do+novo+Codigo+Florestal.html
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Saiba quem votou contra o relatório de Aldo Rebelo

CLAUDIA ANDRADE
Direto de Brasília

Um total de 63 parlamentares votaram contra o texto principal do Código Florestal, que, entre outros pontos, deixava para um decreto presidencial indicar quais atividades poderiam ou não ser mantidas nas Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Os 12 integrantes do PV votaram "não" ao texto do relator Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
Os outros votos contrários foram os seguintes:

Brizola Neto (PDT-RJ)
Teixeira (PDT-RJ)
Paulo Rubem Santiago (PDT-PE)
Reguffe (PDT-DF)
Vieira da Cunha (PDT-RS)
Arnaldo Jordy (PPS-PA)
Roberto Freire (PPS-SP)
Dr. Paulo César (PR-RJ)
Liliam Sá (PR-RJ)
Audifax (PSB-ES)
Glauber Braga (PSB-RJ)
Luiza Erundina (PSB-SP)
Deley (PSC-RJ)
Ricardo Tripoli (PSDB-SP)
Chico Alencar (Psol-RJ)
Ivan Valente (Psol-SP)
Alessandro Molon (PT-RJ)
Amauri Teixeira (PT-BA)
Antônio Carlos Biffi (PT-MS)
Artur Bruno (PT-CE)
Chico D'Angelo (PT-RJ)
Cláudio Puty (PT-PA)
Domingos Dutra (PT-MA)
Dr. Rosinha (PT-PR)
Erika Kokay (PT-DF)
Eudes Xavier (PT-CE)
Fátima Bezerra (PT-RN)
Fernando Ferro (PT-PE)
Fernando Marroni (PT-RS)
Francisco Praciano (PT-AM)
Henrique Fontana (PT-RS)
Janete Rocha Pietá (PT-SP)
Jesus Rodrigues (PT-PI)
Jilmar Tatto (PT-SP)
João Paulo Lima (PT-PE)
Leonardo Monteiro (PT-MG)
Luiz Alberto (PT-BA)
Márcio Macêdo (PT-SE)
Marcon (PT-RS)
Marina Santanna (PT-GO)
Nazareno Fonteles (PT-PI)
Newton Lima (PT-SP)
Padre João (PT-MG)
Padre Ton (PT-RO)
Paulo Pimenta (PT-RS)
Pedro Uczai (PT-SC)
Professora Marcivania (PT-AP)
Rogério Carvalho (PT-SE)
Sibá Machado (PT-AC)
Valmir Assunção (PT-BA)
Waldenor Pereira (PT-BA)

Votaram "sim" ao texto do relator os deputados do PTdoB, PTC, PTB, PSL, PRTB, PRP, PRB, PP, PMN, PMDB, PHS, PCdoB e DEM.

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Veja quem votou contra a emenda das atividades em APPs

CLAUDIA ANDRADE
Direto de Brasília

Um total de 182 deputados votaram contra a emenda que retira do governo [federal] poder de manter atividades em Áreas de Preservação Permanente.

De 79 votantes da bancada petista, o único a votar a favor da emenda foi Taumaturgo Lima (AC). Os 12 integrantes da bancada do PV foram contra

Os outros parlamentares que votaram "não" foram os seguintes:

Fernando Torres (DEM-BA) 
Edson Pimenta (PCdoB-BA) 
Ademir Camilo (PDT-MG) 
André Figueiredo (PDT-CE) 
Brizola Neto (PDT-RJ) 
Damião Feliciano (PDT-PB) 
Dr. Jorge Silva (PDT-ES) 
Flávia Morais (PDT-GO) 
João Dado (PDT-SP) 
Marcelo Matos (PDT-RJ) 
Marcos Medrado (PDT-BA) 
Miro Teixeira (PDT-RJ) 
Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) 
Paulo Rubem Santiago (PDT-PE) 
Reguffe (PDT-DF) 
Salvador Zimbaldi (PDT-SP) 
Sueli Vidigal (PDT-ES) 
Vieira da Cunha (PDT-RS) 
Wolney Queiroz (PDT-PE) 
Camilo Cola (PMDB-ES) 
Walter Tosta (PMN-MG) 
Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) 
Arthur Lira (PP-AL) 
Eduardo da Fonte (PP-PE) 
Iracema Portella (PP-PI) 
Luiz Argôlo (PP-BA) 
Márcio Reinaldo Moreira (PP-MG) 
Rebecca Garcia (PP-AM) 
Roberto Britto (PP-BA) 
Sandes Júnior (PP-GO) 
Simão Sessim (PP-RJ) 
Waldir Maranhão (PP-MA) 
Arnaldo Jordy (PPS-PA) 
Augusto Carvalho (PPS-DF) 
Dr. Adilson Soares (PR-RJ) 
Dr. Paulo César (PR-RJ) 
Gorete Pereira (PR-CE) 
Henrique Oliveira (PR-AM) 
Inocêncio Oliveira (PR-PE) 
Izalci (PR-DF) 
João Carlos Bacelar (PR-BA) 
Liliam Sá (PR-RJ) 
Lincoln Portela (PR-MG) 
Luciano Castro (PR-RR) 
Lúcio Vale (PR-PA) 
Maurício Quintella Lessa (PR-AL) 
Neilton Mulim (PR-RJ) 
Paulo Freire (PR-SP) 
Ronaldo Fonseca (PR-DF) 
Vicente Arruda (PR-CE) 
Jorge Pinheiro (PRB-GO) 
Otoniel Lima (PRB-SP) 
Jânio Natal (PRP-BA) 
Aureo (PRTB-RJ) 
Vinicius Gurgel (PRTB-AP) 
Abelardo Caminha (PSB-SP) 
Ana Arraes (PSB-PE) 
Antonio Balhmann (PSB-CE) 
Ariosto Holanda (PSB-CE) 
Audifax (PSB-ES) 
Edson Silva (PSB-CE) 
Fernando Coelho Filho (PSB-PE) 
Gabriel Chalita (PSB-SP) 
Givaldo Carimbão (PSB-AL) 
Glauber Braga (PSB-RJ) 
Gonzaga Patriota (PSB-PE) 
Jefferson Campos (PSB-SP) 
Jonas Donizette (PSB-SP) 
José Stédile (PSB-RS) 
Júlio Delgado (PSB-MG) 
Keiko Ota (PSB-SP) 
Leopoldo Meyer (PSB-PR) 
Luiza Erundina (PSB-SP) 
Ribamar Alves (PSB-MA) 
Romário (PSB-RJ) 
Valadares Filho (PSB-SE) 
Valtenir Pereira (PSB-MT) 
Deley (PSC-RJ) 
Cesar Colnago (PSDB-ES) 
Otavio Leite (PSDB-RJ) 
Ricardo Tripoli (PSDB-SP) 
Dr. Grilo (PSL-GO) 
Chico Alencar (Psol-RJ) 
Ivan Valente (Psol-SP) 
Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) 
Arnon Bezerra (PTB-CE) 
José Augusto Maia (PTB-PE) 
Paes Landim (PTB-PI) 
Silvio Costa (PTB-PI) 
Cristiano (PTdoB-RJ) 
Lourival Mendes (PTdoB-MA) 
Luis Tibé (PTdoB-MG)