«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 30 de julho de 2011

Carta aberta ao Papa Bento XVI e aos Bispos da Austrália

Catholica
08/07/2011

"Agora é a hora para que os católicos comuns se pronunciem sobre as suas preocupações com a sua Igreja 
e para que os seus pastores os ouçam" 

Assim afirma a Carta Aberta dirigida ao Papa Bento XVI e aos bispos católicos da Austrália, que publicamos abaixo.

O Catholics for Renewal [Católicos para a renovação], um grupo comunitário de base recém-formado que preparou a Carta Aberta, indica que, de acordo com o Direito Canônico, todos os fiéis de Cristo têm o direito e o dever de dar voz às suas preocupações pelo bem da Igreja.

Eis a carta.

Caro Papa Bento XVI e Bispos da Austrália,


Nós, os/as católicos/as abaixo-assinados da Austrália, escrevemos para vocês a respeito das nossas preocupações pela Igreja. Pedimos que vocês considerem estas questões durante a visita Ad Limina de 2011.


Como fiéis de Cristo, temos que nos pronunciar. De acordo com o Direito Canônico, temos um direito e um dever, de acordo com o nosso conhecimento, competência e posição, para manifestar aos nossos pastores nossos pontos de vista sobre questões que concernem ao bem da Igreja (cânon 212.2-3).


A Igreja já não inspira mais adequadamente muitas de nossas comunidades. Ela afastou muitos adultos que nasceram em famílias católicas, que frequentaram escolas católicas e que viviam uma vida sacramental. Ela se tornou desconectada e irrelevante para as vidas de muitos de nossos filhos.


Com menos padres, sua capacidade de providenciar a Eucaristia regular em nossas paróquias, especialmente nas zonas rurais, tornou-se cada vez mais limitada. Como instituição, ela ainda não encarna a visão do Concílio Vaticano II de uma Igreja verdadeiramente colegial, em que as decisões respeitam as culturas, comunidades e circunstâncias locais.


Ao contrário, ela se parece a uma instituição focada no centralismo, no legalismo e no controle, com poucas estruturas eficazes de escuta e de diálogo, e, muitas vezes, mais preocupada com a sua imagem e interesses institucionais do que com o espírito de Cristo.


Nossa Igreja tem sido contaminada pela injustiça e manchada por más decisões. Ainda nos recuperamos do escândalo do abuso sexual, em que a resposta inicial da Igreja foi manifestamente inadequada, e em que algumas autoridades, em suas tentativas de proteger a instituição, expuseram jovens inocentes a um grave dano.


Ficamos chocados com a falta do devido processo na forma como Dom Morris [foto acima: ver matéria neste blog - dia 3 de maio de 2011], um pastor dedicado, foi removido de sua diocese. 


Ficamos desanimados com a falta de consulta apropriada sobre as novas traduções ao inglês da nossa liturgia. Não podemos mais aceitar a atitude patriarcal para com as mulheres dentro da nossa Igreja e tememos que uma reivindicação expandida à infalibilidade esteja sufocando a discussão sobre muitas questões importantes. Essas questões incluem alguns ensinamentos sobre a sexualidade humana, assim como sobre as novas formas de ministério para mulheres e homens casados; sendo que este último é uma anomalia para uma Igreja comprometida com a igualdade e que acolhe ministros casados de outras tradições cristãs. Essas preocupações minam a confiança e a confidência em vocês, nossos líderes.


Queremos e rezamos por uma Igreja renovada que siga a Cristo mais de perto em todos os sentidos. Precisamos de uma Igreja comprometida com a colegialidade e subsidiariedade autênticas. Buscamos uma Igreja aberta, transparente e responsável, que respeite o devido processo, rejeite toda forma de discriminação, ouça seu povo, promova a corresponsabilidade em todas as facetas da sua missão e do seu ministério, e seja compassiva até o fim.


Pedimos uma Igreja voltada ao exterior, totalmente comprometida com a justiça, a paz, o ecumenismo e o diálogo com outras fés, e que defenda de forma inequívoca os direitos dos oprimidos e dos desfavorecidos, enquanto se volta praticamente para as suas necessidades.


Precisamos e queremos uma Igreja em que sejamos "todos um em Cristo, sem mais diferenças (...) entre homem e mulher" (Gálatas 3,28) e cujos líderes leiam bem os sinais dos tempos e os interpretem à luz do Evangelho.


Como um primeiro passo para a colegialidade e a subsidiariedade, pedimos que cada bispo diocesano convoque, para uma data próxima, um sínodo em sua diocese, nos termos do Direito Canônico (cânon 460-468), para discutir como a Igreja local pode ser uma testemunha mais autêntica no século XXI. Também pedimos que o Papa Bento permita um retorno a um processo mais responsável e consultivo para a nomeação de bispos, dando aos sacerdotes e ao povo uma voz real, como era a prática da Igreja primitiva. Isso poderia começar com a nomeação do próximo bispo de Toowoomba.


Para todos nós, Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Como Povo de Deus e seus irmãos e irmãs em Cristo, que, juntos, buscam o Reino de Deus, rezamos para que o Espírito guie a todos nós para cada vez mais perto de Jesus na crítica tarefa da renovação.


Católicos/as da Austrália

Tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 30/07/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=45851

Tradicionalismo e conservadorismo católicos: as ideologias em jogo

Entrevista especial com:
Rodrigo Coppe Caldeira

Retorno da missa em latim segundo o missal tridentino, revalorização da adoração ao Santíssimo, defesa de que a Comunhão deve ser recebida na boca e de joelhos. 
Sinais de tradicionalismo, conservadorismo, reacionarismo ou antimodernismo?

Para o historiador Rodrigo Coppe Caldeira, explicando as origens do tradicionalismo (“uma heresia relacionada com a questão da possibilidade do conhecimento de Deus”) e suas diferenças com os demais conceitos, ambos os movimentos “se realizam em contraposição a outra concepção, a revolução, o progressismo”.

No Brasil, o tradicionalismo católico teve seus principais nomes em Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da Associação para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (a TFP), Orlando Fedeli, que constitui a Associação Cultural Montfort, e Clá Dias, fundador dos Arautos do Evangelho.

No entanto, “os estudos históricos sobre o catolicismo nestes anos foram marcados por certa militância política, o que deixou de fora, propositalmente, outras personagens importantes para se compreender o panorama católico no Brasil”, aponta. Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Caldeira busca exatamente “compreender de forma mais acurada as ideologias que estão em jogo e, além disso, como o progressismo católico se aproxima de seu opositor em algumas falas e posições”.

Rodrigo Coppe Caldeira é graduado em História pela PUC-Minas com mestrado e doutorado em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Neste ano, iniciou a graduação em Direito na PUC-Minas, onde é professor adjunto de Cultura Religiosa e Fenomenologia da Religião. É autor de Os baluartes da tradição: O conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II (Ed. CRV, 2011). No segundo semestre deste ano, está previsto para ser publicado o seu novo livro, coorganizado por Gizele Zanotto, intitulado As facetas do tradicionalismo católico no Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que podemos entender por tradicionalismo católico? Quais são suas principais características ao longo da história no contexto brasileiro?

Rodrigo Coppe Caldeira – Um primeiro ponto de que devemos estar cientes é que a palavra tradicionalismo, no contexto católico, significou outra coisa do que se entende contemporaneamente. Na verdade, na sua concepção primeira, no século XIX, tradicionalismo é uma heresia e está relacionado com a questão da possibilidade do conhecimento de Deus.
Esse tradicionalismo, assim, é um movimento filosófico-teológico de reação ao movimento racionalista que se impunha no período e que considera a fé ou a tradição como definitiva fonte de certeza, e de nenhum modo a razão humana. Por isso também sua aproximação com o chamado fideísmo. O tradicionalismo, de matizes diversos, afirma a incapacidade da razão de conhecer verdadeiramente as realidades espirituais.

A palavra aparece num documento pontifício que trata das “teses subscritadas por Louis-Eugène Bautain por ordem do seu bispo, 18 nov. 1835 e 8 set. 1840” (Denzinger, 2751-2756). Também aparece em um documento, um decreto da S. Congregação do índex de junho de 1855 contra as teses de Augustin Bonnetty, que sustentava um “tradicionalismo moderado”. O Concílio Vaticano I o condenou, como também o fideísmo.

Atualmente, entende-se tradicionalismo como um tipo-ideal para caracterizar alguns grupos no orbe católico e que, especialmente, distanciam-se das determinações do Concílio Vaticano II, interpretado como ruptura com a tradição da Igreja Católica. Opõem-se ao Missal de Paulo VI (1969), negam a concepção conciliar sobre a questão da liberdade religiosa, tendo como principal apoio as encíclicas e documentos pontifícios do século XIX e início do XX, como o Syllabus Errorum Modernorum e as encíclicas Mirari vos arbitramun e Quanta Cura e defendem com fervor o primado do papa.

Se entendermos tradicionalismo como reação ao Vaticano II, podemos falar sobre ele apenas no momento posterior, obviamente, ao evento. Dessa forma, temos como um de seus principais baluartes a figura do bispo de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, que, junto de Marcel Lefebvre, foi excomungado em 1988 por ter radicalizado o discurso contra as determinações do concílio e, especialmente, por ter sagrado quatro bispos sem a autorização de Roma.

Porém, um tradicionalismo católico que se manteve na comunhão com Roma também se desenvolveu no Brasil, tendo como seus principais nomes Plínio Corrêa de Oliveira [foto ao lado], fundador da Associação para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (a TFP), Orlando Fedeli, egresso da TFP e que constitui a Associação Cultural Montfort, e Clá Dias, também egresso da TFP e fundador dos Arautos do Evangelho. De fato, estes três grupos, adversários entre si, devido aos desentendimentos de seus fundadores, mesmo afirmando-se como em estrita obediência a Roma, deixam transparecer críticas contínuas ao Vaticano II em alguns de seus aspectos. Uns mais, como a Montfort, outros menos, como os Arautos. É importante dizer que estes grupos, mesmo se assemelhando em alguns pontos, divergem em tantos outros. Por isso a dificuldade de classificação.

Não podemos esquecer também, por exemplo, a Administração Apostólica São João Maria Vianney, que com D. Fernando Áreas Rifan, bispo e administrador apostólico, publicou uma Orientação em 2005 com o objetivo expresso, diz ele, de “purificar o nosso ‘tradicionalismo’, corrigindo distorções, imprecisões e até desvios doutrinários, para que, assim purificados, possamos realmente prestar serviço à Hierarquia da Igreja, combatendo eficazmente, ao lado dela e sob sua autoridade, a ‘autodemolição’ da Igreja” (p. 4). Nota-se que Rifan se vale de conceitos utilizados especialmente pelos tradicionalistas, mas visa afastar-se do cisma de Castro Mayer e Lefebvre, colocando-se sobre a égide romana.

IHU On-Line – Que paralelos podem ser feitos entre o tradicionalismo e os usos de conceitos como conservadorismo, reacionarismo e antimodernismo?

Rodrigo Coppe Caldeira – Karl Mannhein afirmava, em seu importante texto O significado do conservantismo, que tradicionalismo é uma tendência humana, um “conservadorismo natural” de todos os homens, já que todos eles visam conservar, o mínimo que seja, seu mundo de significados. O sociólogo conceitua o “tradicionalismo” como uma “atitude psicológica geral que se expressa em diferentes indivíduos como uma tendência a agarrarem-se ao passado e como um medo de inovações”. Já o conservantismo, ou conservadorismo, seria um movimento consciente e reflexivo desde o início, surgindo como oposição a um movimento progressista sistemático e coerente, dotado de organização.

Para Mannheim o conservadorismo é um “tradicionalismo tornado consciente”. Nota-se que a questão da taxonomia é complexa. O antimodernismo, assim, pode ser claramente compreendido como um movimento conservador na medida em que visa combater o modernismo. Sabe-se que o “inventor” do conceito “modernismo”, de acordo com o historiador francês Jacques le Goff, foi Pio X, quando escreveu sua encíclica Pascendi Domenici Gregis, contra os erros modernistas, em 1907. Dessa forma, o antimodernismo surge como reação ao modernismo – movimento teológico de vanguarda do final do século XIX – podendo ser considerado como um movimento conservador.

Já o termo reação aparece nas falas dos revolucionários franceses esporadicamente e é, segundo Jean Starobinski, “a resposta, a ação no sentido contrário, de um partido precedentemente ‘oprimido’, ou de uma causa atacada, quaisquer que estes sejam”. Contudo, com o passar do tempo, a “contrarrevolução”, o oposto da revolução, desdobrou-se em “reação”. A emergência do sentido moderno de reação, como intenção defensiva, está ligada à ideia de progresso nas instituições.

Assim, o termo passa por inúmeros significados durante o processo revolucionário francês, chegando então a significar a restauração do Antigo Regime. Foi Benjamin Constant que deu o significado à palavra que vigora ainda hoje. Na brochura de 1797, intitulada Des Réactions politiques, afirma que na falta de princípios, de um governo firmemente engajado em seus princípios, os sujeitos “se veem entregues ao arbítrio, ou seja, à violência, que suscita inevitavelmente as reações”. Chegamos, então, na compreensão atual: reação consiste em querer restaurar alguma situação que não existe mais, uma “resposta suscitada por um excesso nas novas disposições estabelecidas”.

O filósofo Emil Cioran também deixou algumas palavras sobre o fenômeno em seu Joseph de Maistre. Ensaio sobre o pensamento reacionário, reeditado pela Rocco para a comemoração dos 100 anos do filósofo romeno em “Exercícios de admiração. Ensaios e perfis”. Nele, Cioran afirma que a “idolatria dos inícios, do paraíso já realizado, esta obsessão pelas origens é a própria marca do pensamento ‘reacionário’ ou, se preferir, ‘tradicional’”. Dessa forma, o reacionário é aquele que se liga a um tempo pretérito idealizado e que a ele deseja retornar. O que o também aproxima, de certa forma, do revolucionário, que em vez do passado idealizado, pensa num futuro de beleza e harmonia, e que ambiciona construir.

O que deve ficar dessa breve explanação é que seja o conservadorismo, seja a reação, ambos se realizam em contraposição a outra concepção, a revolução, o progressismo. Porém, no contexto atual, as duas primeiras são eivadas de sentido pejorativo, enquanto as duas últimas, corriqueiramente, são vistas positivamente, inclusive porque ligadas à “mudança”, “evolução” e “progresso”, palavras-chave da sensibilidade moderna.

IHU On-Line – Quais são os principais focos da pesquisa sobre o tradicionalismo católico brasileiro? Como esse estudo nos ajuda a compreender o contexto sócio-histórico do nosso país?

Rodrigo Coppe Caldeira – No Simpósio Temático organizado por mim e pela a professora Gizele Zanotto para o XXVI Simpósio Nacional de História - ANPUH realizado na USP, observou-se o interesse crescente suscitado por este filão de pesquisa. Surgem algumas pesquisas sobre a atuação de bispos e leigos conservadores, de jornais católicos e, especialmente, um interesse pelo anticomunismo católico.

De fato, estudar o tradicionalismo católico no Brasil não é fácil. Nota-se nos últimos 30 anos uma historiografia do catolicismo no país marcada pela chave interpretativa que vem da “Igreja da libertação” e sua “opção preferencial pelos pobres”. Dessa forma, os estudos históricos sobre o catolicismo nestes anos foram marcados por certa militância política, o que deixou de fora, propositalmente, outras personagens importantes para se compreender o panorama católico no Brasil. Falou-se exaustivamente da “Igreja da libertação”, das CEBs e de outros grupos ligados à dita “esquerda”, não raramente em tom laudatório, calcado na crença de suas potencialidades revolucionárias advindos de sua tomada de “consciência de classe”.

Como este tipo de estudo dominou as universidades, e ainda domina, mesmo que em menor grau, sempre que se fala em “tradicionalismo católico” ou “conservadorismo”, mesmo em âmbito acadêmico, rapidamente se levantam espantados aqueles que gostariam que seus opositores no campo da militância fossem levados ao esquecimento. Geralmente deslegitimados em suas posições religiosas e políticas por seus opositores, estes grupos, com seus principais representantes, falam muito profundamente sobre a realidade eclesial brasileira e seus dilemas, e também, curiosamente, de seus opositores.

De fato, entendo que, ao se estudar o tradicionalismo e o conservadorismo católico, é possível se passar a compreender de forma mais acurada as ideologias que estão em jogo e, além disso, como o progressismo católico se aproxima de seu opositor em algumas falas e posições.

Assim, pergunto-me: como, por exemplo, apenas concentrar nossos esforços em compreender o papel de D. Hélder Câmara no Concílio Vaticano II sem também atentarmos para D. Geraldo de Proença Sigaud [foto ao lado] e sua importante atuação na organização da minoria conciliar, como tentei demonstrar de alguma forma em meu livro Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II?

IHU On-Line – Qual a importância do conservadorismo católico na configuração teológica e litúrgica na Igreja do Brasil?

Rodrigo Coppe Caldeira – Difícil de responder. Tomando-se do Vaticano II para cá, quase nenhuma, já que, como se sabe, os grupos que conseguiram galgar maiores espaços foram aqueles ligados ou próximos à “Igreja da libertação”. Parece que, no final dos anos 1980, com a reconfiguração política global devido ao fim do socialismo real, houve uma nova movimentação dos teólogos em relação aos seus temas. O pobre continua central, mas outras questões aparecem ou se firmam, como a ecologia e a pluralidade religiosa. Penso que agora, nessa primeira década do século XXI, é possível notar uma outra movimentação, e aí quero chamar atenção para a liturgia.

Com a Summorum Pontificum dizem alguns que estamos observando o nascimento de um Novus Motus Liturgicus, que tentará colocar as duas formas de celebrar em diálogo. Missas no rito antigo espalham-se por todo o Brasil, causando estupor em alguns bispos de tendências mais liberalizantes, que veem nesse movimento o signo do “retorno ao pré-Vaticano II”.

Dessa forma, no campo litúrgico, algo de novo acontece. Seria, inclusive, muito interessante um levantamento sobre essas missas no Brasil e quais os motivos por observarmos tantos jovens se interessando por elas.

IHU On-Line – Uma tese clássica publicada nos anos 1980 defendia que as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs eram tributárias do conservadorismo católico (Trata-se da tese de doutorado de Roberto Romano, hoje professor na Unicamp). Qual é a sua posição em relação a este tema?

Rodrigo Coppe Caldeira – Acho bastante interessante a abordagem do Roberto Romano nesta importante obra. Toda reflexão que possa demonstrar a complexidade – especialmente a partir do dissenso – do que estamos tratando é sempre bem vinda, já que existe um barateamento da discussão ao percebermos que estes conceitos são corriqueiramente levantados em sua mais rasa compreensão, se não em total incompreensão. Bem, Romano, no momento que escrevia seu trabalho, vivia o período auge da Teologia da Libertação e, por conseguinte, das CEBs.

Se li corretamente a tese, a ideia defendida pelo professor é que este grupo do catolicismo, ao se utilizar amplamente de conceitos como “pobres e oprimidos”, estavam falando a partir de um registro populista e mais: de uma tradição que remontava a De Maistre, De Bonald e Donoso Cortés, alguns dos principais nomes do conservadorismo do século XIX e que viravam suas baterias contra a liberdade burguesa.

Assim, para Romano, a polêmica antiburguesa daquele período oferece elementos de reforço do catolicismo do século XX e, afirma, “enquista, ainda hoje, no pensamento da vanguarda teológica da Igreja [...]”, o que tenta demonstrar em um de seus capítulos. De fato, tanto a “Igreja da libertação” brasileira do século XX quanto a Igreja Ultramontana do século XIX utilizaram-se da palavra “povo” contra o mundo burguês, estando assim, ligadas, em tese, pelo registro do romantismo e, como fala Roberto Romano, “sempre buscando alimento na alma popular, escondida na noite dos tempos”.

Faço minhas as palavras da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís em um de seus ensaios: “Quando se pretende comover o campo das ações humanas ao nível mais simplista, utiliza-se a palavra povo”.

IHU On-Line – Qual o impacto político e social do conservadorismo católico no atual contexto social e cultural brasileiro?

Rodrigo Coppe Caldeira – Acho que o impacto, se ele existe, é mínimo. De fato, sabe-se que a cultura brasileira, mesmo rica em diversidade e marcada por inúmeras raízes religiosas e por marcante trânsito religioso, passa por um aprofundamento do processo de secularização em algumas camadas sociais, o que leva a certo indiferentismo religioso. Certo é que, mesmo no âmbito político, não existem aqueles que se declaram expressamente como “conservadores”, pois, como dito acima, na conjuntura política e cultural brasileira isso é “palavrão”.

No geral, pensar no próximo e ser altruísta é ser de “esquerda”. Esquerda relaciona-se com “povo” e suas demandas, direita com elite e seus “mesquinhos interesses”. Uma equação maniqueísta corriqueira, mas nada plausível quando lemos os teóricos e nos atentamos para a realidade circundante. Palavras como conservadorismo e direita são relacionadas usualmente no país com os representantes mais retrógrados de certo coronelismo que insiste em permanecer ativo no cenário político.

Por outro lado, se tomamos a emergência de grupos organizados como os “evangélicos” e alguns setores católicos, notamos a emergência e a consolidação de um embate cada vez mais claro entre estes e forças progressistas – aquelas que defendem a união civil de pessoas do mesmo sexo, a descriminalização do aborto, a retirada de símbolos religiosos do espaço público...

IHU On-Line – Quais são as figuras históricas típicas, além de Gustavo Corção e Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, que representam o conservadorismo católico brasileiro?

Rodrigo Coppe Caldeira – Poderíamos dizer que o primeiro representante do chamado conservadorismo católico brasileiro foi o leigo Jackson de Figueiredo [foto ao lado]. Além, claro, dos bispos Antônio de Castro Mayer e Geraldo de Proença Sigaud, entre outros poucos bispos, e dos já citados Plínio Corrêa de Oliveira e Gustavo Corção, os grandes representantes dessa corrente no Brasil.

IHU On-Line – Alguns movimentos fundados no Brasil, como os Arautos do Evangelho, podem ser considerados como expressão do conservadorismo católico brasileiro? Quais são as principais características deste e de outros movimentos conservadores?

Rodrigo Coppe Caldeira – Sim. Os Arautos do Evangelho são um típico movimento conservador católico, porém, não mais da forma como se apresentava no movimento que se espelhou e nasceu, a TFP. De fato, os Arautos estão atualmente muito mais envolvidos com questões religiosas do que com questões de âmbito político, como era o caso de sua congênere nas décadas de 1960, 70 e 80, que desempenhava papel político evidente e marcante.

Uma das características dos Arautos relaciona-se ao grau de fidelidade ao papa. Preocupam-se bastante com isso e afirmam esta fidelidade sempre quando podem, ainda mais que foram erigidos como “Associação Internacional de Fiéis de Direito Pontifício” em fevereiro de 2001.

Além disso, um certo tom escatológico e persecutório também é possível de ser notado, o que leva o grupo a se autocompreender como imbuído de uma missão especial em defesa da Igreja, interpretada como ameaçada pelo mundo circundante (bem parecido com a TFP, no caso). Tal perspectiva esteve sempre presente nos grupos católicos mais conservadores.

Já se notou que, mesmo entre estudiosos do catolicismo, há uma confusão em torno desse tipo de grupo. Observa-se, por exemplo, alguns se referindo a Opus Dei, Comunhão e Libertação, FSSPX [Fraternidade Sacerdotal São Pio X] e Toca de Assis como se falassem de um mesmo tipo de grupo, o que não é verossímil. Podemos dizer que, mesmo que estes grupos tenham alguns elementos que denominamos conservadores ou tradicionalistas, não é permitido colocarmos todos num mesmo saco.

Vemos, por exemplo, a Opus Dei, que tem uma relação de estrita obediência ao papa, sendo Prelazia Pessoal, mas não se preocupa tanto com a questão litúrgica como outros grupos, como a FSSPX e alguns de seus desertores, muito menos coloca em xeque as decisões do Vaticano II, mas as aceitam e as propagam.

IHU On-Line – Que outros sinais e movimentos podem ser percebidos na Igreja mundial e brasileira de hoje possíveis de serem entendidos à luz do conceito de tradicionalismo?

Rodrigo Coppe Caldeira – Bento XVI liberou a “missa antiga” com o motu proprio Summorum Pontificum. Muitos interpretam essa atitude do papa como conservadora, e mesmo reacionária. Além, claro, de “tradicionalista”. Não entendo assim.

Como já disse outra vez, penso que Ratzinger visa sanar o cisma de 1988, e isso a partir da liturgia, um dos pontos nodais para os tradicionalistas, além de reequilibrar as forças no interior do catolicismo contemporâneo. Penso ser uma posição lícita – mesmo porque está no exercício de seu cargo –, além de um aceno convidativo para os radicais estarem novamente em plena comunhão com Roma. Os diálogos continuam, levados a cabo pela Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, porém, sem muito sucesso.

Por outro lado, nota-se que a possibilidade aberta pelo motu proprio está sendo utilizada por alguns grupos tradicionalistas como uma brecha na arquitetura vaticana para se continuar a lançar críticas deslegitimadoras ao Concílio Vaticano II e suas determinações. Assim, alguns destes grupos mais intransigentes em seus posicionamentos, como é o caso da FSSPX, parecem não estar satisfeitos com a possibilidade oferecida pelo papa, mas ainda exigem que o Vaticano II seja totalmente cancelado e suprimido. O que parece ser inadmissível para Bento XVI.

IHU On-Line – Prospectivamente, pode-se dizer que o conservadorismo católico brasileiro tem chances de crescimento no âmbito eclesial e/ou no contexto político e cultural brasileiro?

Rodrigo Coppe Caldeira – Acredito que sim, já que, como afirmei acima, o conservadorismo é uma reação a qualquer força, especialmente as mais pró-ativas que visem transformar um cenário consolidado. Sabemos que estas forças estão em movimento no Brasil e, como toda ação gera uma reação, nada mais natural do que a emergência de certo conservadorismo.

(Por Moisés Sbardelotto)

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 30/07/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=45840

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Cresce número de alunos "atrasados"

 Luiza Bandeira
de São Paulo

Segundo dados do Ministério da Educação, 7 milhões de estudantes não estão na série adequada para a sua idade
Entre as razões que levam a esse atraso estão entrada na escola após a idade correta, reprovação e abandono

O percentual de alunos do ensino fundamental que não está na série adequada para a sua idade voltou a crescer nos últimos dois anos.

Dados do Ministério da Educação mostram que, no ano passado, o percentual chegou a 23,6%, ou cerca de 7 milhões de alunos. Em 2008, estava em 22,1%.

Uma criança deve ingressar no 1º ano do ensino fundamental aos seis anos de idade e concluir a etapa aos 14. Segundo o MEC, a defasagem ocorre quando o aluno está com três anos a mais do que o ideal para a série.

Entre as razões que levam ao atraso estão a entrada na escola após a idade correta, a reprovação e o abandono.

Para Jaqueline Moll, da Secretaria de Educação Básica do MEC, é preciso modificar metodologias de ensino e fazer recuperação paralela para que a repetência seja a última alternativa.

A presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Cleuza Repulho, afirma que a alta é significativa. "Em um país grande como o Brasil, um aumento de 1% já é preocupante."

Maria Helena Guimarães de Castro, ex-secretária de Educação de SP, diz que a leve alta pode ser interpretada como estagnação. "Isso pode refletir uma acomodação de municípios e Estados no combate à defasagem."

Entre os Estados, a pior situação é a do Pará, onde quase 40% dos alunos estão atrasados. Segundo a Secretaria de Educação, isso ocorre devido a trabalho infantil, gravidez precoce e problemas com drogas. A secretaria diz que tem programas de aceleração para melhorar a situação.

Fonte: Folha de S. Paulo - Cotidiano - Sexta-feira, 29 de julho de 2011 - Pg. C6 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2907201115.htm

Dieta do brasileiro é pobre em nutrientes e rica em calorias [Isso é grave!]


ANTÔNIO GOIS
DENISE MENCHEN
DO RIO


Pesquisa do IBGE mostra que o prato mais comum ainda é o arroz com feijão e carne, mas faltam frutas e verduras

Refrigerante é o quinto produto mais consumido; ingestão de vitaminas, cálcio e fibras é insuficiente

O brasileiro consome menos frutas, verduras, legumes, leite e alimentos com fibras do que o recomendado.

Ao mesmo tempo, ingere excesso de biscoitos, refrigerantes e outros produtos industrializados com muitas calorias e poucos nutrientes.

O resultado dessa dieta é que brasileiros a partir de dez anos apresentam padrões altos demais de ingestão de sódio (oriundo do sal), açúcar e gordura saturada - substâncias associadas ao desenvolvimento de hipertensão, diabetes e até câncer.

O consumo de vitaminas A, D e E, cálcio e fibras está abaixo do recomendado.

A constatação é do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que ouviu 34 mil pessoas entre 2008 e 2009 para o primeiro estudo de abrangência nacional sobre consumo individual de alimentos.
Foram considerados os produtos ingeridos dentro e fora de casa.

"Embora tenha uma alimentação ainda à base de arroz e feijão, que têm teores de nutrientes bons, o brasileiro precisa melhorar o consumo de frutas, legumes e verduras e diminuir o de sódio e de açúcar", diz André Martins, técnico do IBGE e um dos responsáveis pelo estudo.

FALTA VITAMINA
De acordo com o endocrinologista Isaac Benchimol, especializado em nutrologia, o baixo consumo de vitaminas e cálcio constatado pela pesquisa pode levar ao desenvolvimento de osteoporose e a problemas nos olhos, na pele e nos cabelos, entre outros.

Um dos "vilões" apontados por André Martins, do IBGE, é o refrigerante, que já aparece entre os cinco produtos mais consumidos pelos brasileiros, atrás do café, do feijão, do arroz e dos sucos e refrescos. Mesmo ingeridos em quantidades menores, biscoitos, salgadinhos, pizzas e doces também preocupam.

Outro problema é a escassez de frutas, verduras e legumes - alimentos que,
segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), deveriam somar ao menos 400 g por dia.

De acordo com a pesquisa, mais de 90% da população com dez anos ou mais de idade consome menos do que isso. Metade sequer atinge 69 g diários - ou seja, pouco mais de um sexto do ideal.

CAMPANHA
Para a coordenadora geral de alimentação e nutrição do Ministério da Saúde, Patrícia Constante Jaime, os dados do estudo confirmam a "urgência" de políticas públicas para a promoção da alimentação saudável no país.

Segundo ela, o governo está desenvolvendo um plano nacional de combate à obesidade e outro para o combate às doenças crônicas. Ambos devem ser lançados até o fim deste ano.

O objetivo é não só conscientizar os consumidores para a necessidade de fazer escolhas mais saudáveis mas também adotar medidas que permitam elevar a qualidade dos alimentos disponíveis para consumo.
Exemplos dessa estratégia são acordos com a indústria para a redução dos teores de sódio dos alimentos processados e o fomento da agricultura familiar.

Para corrigir o deficit generalizado de nutrientes, porém, a melhor receita é dar preferência a alimentos naturais e montar um prato colorido, como ensina o endocrinologista Isaac Benchimol.

Confira interessantes gráficos com a proporção de consumo de certos alimentos, bem como, 
os dez alimentos mais consumidos pelos brasileiros,
aqueles mais consumidos fora de casa,
o consumo de acordo com o sexo e
o consumo de alimentos segundo a renda das pessoas:

Fonte: Folha de S. Paulo - Saúde - Sexta-feira, 29 de julho de 2011 - Pg. C12 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2907201101.htm
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ANÁLISE

Falta de tempo deixa comida de verdade fora da mesa

DANIEL MAGNONI *

A situação nutricional do brasileiro é compatível com as piores expectativas da atualidade, assim como observamos em outros países em desenvolvimento e do Primeiro Mundo.

O maior tempo dedicado ao trabalho leva a um consumo crescente de alimentos industrializados, prontos e com excesso de sal, açúcar e gordura saturada, além da opção pelo fast food.

A manipulação dos alimentos na forma natural, principalmente frutas, legumes e verduras, está sendo relegada ao segundo plano do planejamento doméstico.

Ao mesmo tempo, cada vez mais observamos a popularização do uso de suplementos de minerais, como cálcio, potássio e zinco, ou de vitaminas, na tentativa de suprir uma necessidade artificial, criada pela publicidade.

É mais fácil tomar uma pílula do que comer três porções de frutas e vegetais todos os dias.

Grupos específicos, como idosos, podem precisar dessa suplementação, em forma de produtos farmacêuticos ou de alimentos fortificados com fibras solúveis, ômega-3 etc.
Mas o que as pesquisas mostram é a necessidade de projetos educacionais para a alimentação saudável, que ataquem tanto a desnutrição infantil quanto a obesidade.

Seria necessário um pacto incluindo a indústria da alimentação e as esferas de governo em prol dessas ações educativas. Por que não um projeto "Obesidade Zero"?

* DANIEL MAGNONI, cardiologista e nutrólogo, é diretor de nutrição do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Fonte: Folha de S. Paulo - Saúde - Sexta-feira, 29 de julho de 2011 - Pg. C12 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2907201102.htm
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Adolescentes comem pior que os adultos

DO RIO

Se o padrão alimentar do brasileiro tem baixa qualidade, ele é ainda pior entre crianças e adolescentes de dez a 18 anos.

Foi essa a faixa etária que apresentou a ingestão mais inadequada de açúcar, gordura saturada e fibras.
Crianças com até dez anos não foram entrevistadas.

Os jovens ingerem mais doces, bebidas lácteas adoçadas, biscoitos recheados, salgados fritos ou assados e refrigerantes do que os adultos. E comem menos carne, tomate, queijos e saladas.

Só 20% dos meninos e 18% das meninas de dez a 13 anos respeitam os limites de consumo de açúcar, que deve responder por até 10% das calorias ingeridas no dia. Padrões semelhantes foram observados entre os adolescentes.

No caso da gordura saturada, 17% dos meninos e 11% das meninas de até 13 anos cumpriam a recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Os médicos pregam um consumo de gordura correspondente a até 7% das calorias ingeridas por dia.

Já o consumo de fibras, que deve ser de 12,5 g por mil calorias, ficou abaixo do ideal para aproximadamente 80% dos jovens.

Mais de 70% dos adolescentes consomem muito sal.

"Eles têm disponíveis alimentos que as gerações passadas não tiveram.


Se isso não for modificado, a carga de doença que esse adolescente vai ter na idade adulta vai ser maior do que a de seus pais e seus avós", diz a coordenadora de alimentação e nutrição do Ministério da Saúde, Patrícia Constante Jaime. 

Fonte: Folha de S. Paulo - Saúde - Sexta-feira, 29 de julho de 2011 - Pg. C13 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2907201105.htm

quinta-feira, 28 de julho de 2011

EUA e Europa não mudam sistema que levou à crise [Leia!]

Entrevista:
Rubens Ricupero

Dayanne Sousa

Nenhuma das soluções econômicas e financeiras propostas até agora por Estados Unidos e Europa seriam capazes de evitar uma nova crise, afirma o ex-ministro da Fazenda e ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Rubens Ricupero [foto]. Em entrevista a Terra Magazine, ele comenta as negociações pelo aumento do teto da dívida americana e a situação de países como a Grécia e a Espanha.

Estes países estão no meio de uma crise, mas não chegaram nunca a mudar o sistema que provocou essa crise. Estão todos esperando voltar a situação como era antes. Acontece que a situação como era antes é que provocou isso - questiona Ricupero.

O diplomata, que assumiu a Fazenda durante a implantação do Plano Real, em 1994, vê um risco na pressão de congressistas republicanos por cortes de gastos do governo Obama.

Querer cortar na hora em que a economia está caindo, está praticamente prostrada, é uma coisa irracional.

Para manter as contas em dia, Obama propôs um aumento do teto da dívida, atualmente em US$ 14,3 trilhões - valor alcançado em maio deste ano. Os republicanos oferecem como solução o corte de gastos do governo. Por sua vez, o presidente defende o aumento de impostos sobre os mais ricos. A negociação já dura semanas e está próxima do prazo final. Nesta segunda-feira (25 de julho), Obama fez um pronunciamento e pediu o apoio da população.

Nesta entrevista, Ricupero ainda comenta uma tendência que se fortalece nos países desenvolvidos, ao lado da crise: a xenofobia. Ele avalia que a condição econômica não é fundamental para o fenômeno, mas conclui que o atentado que matou 76 pessoas na Noruega é uma "manifestação particularmente doentia de uma tendência que vem se generalizando no continente europeu".

Leia na íntegra.

Terra Magazine - Barack Obama fez um discurso chamando a atenção dos americanos para a questão da dívida americana. Foi um alerta? Como o senhor avalia essa negociação?
Rubens Ricupero - Eu acho que ele está procurando, com muito cuidado, fazer com que a população responsabilize os republicanos por essa atitude de intransigência. E há um precedente. Na época do presidente Clinton, os republicanos conquistaram maioria no Congresso e o obrigaram a paralisar o governo. A discussão era sobre o orçamento, obrigaram Clinton a demitir funcionários públicos. Mas Clinton soube, politicamente, instrumentalizar o caso e isso se voltou contra os republicanos. Penso que Obama está tentando fazer o mesmo, mas os dias que ele tem pela frente são poucos.

Interessante o senhor falar em precedentes, porque a maior parte dos analistas econômicos considera que seria impossível que os republicanos não terminem concordando com o aumento do teto da dívida, uma vez que isso causaria uma crise profunda...
Rubens Ricupero - Mas isso se baseia na ideia de que o ser humano é sempre racional. Se isso fosse verdade, nunca teria havido a nem a primeira nem a segunda Guerra Mundial. A história está cheia de episódios que, pela racionalidade, não teriam acontecido. O que eu posso dizer é que não é provável. Mas não é impossível.

O Brasil, em sua história, já conheceu esse dilema de falar em corte de gastos. Agora, é o mundo desenvolvido que passa pelo mesmo?
Rubens Ricupero - O caso do Brasil é diferente. Aqui, mesmo a ideia de corte de gastos tem sido apresentada num momento em que esse corte é razoável. Se recomenda corte porque a economia está se aquecendo demais. Lá é ao contrário. É muito irracional. O país ainda não saiu da crise, tem mais de 9% de desempregados. Este não é o momento de falar em equilibrar o orçamento. A melhor maneira é com crescimento econômico. Querer cortar na hora em que a economia está caindo, está praticamente prostrada, é uma coisa irracional.

Mas fato de que agora são EUA e Europa que lidam com o risco de um calote não indica que há alguma coisa estranha no sistema financeiro?
Rubens Ricupero - É verdade que estes países estão no meio de uma crise, mas não chegaram nunca a mudar o sistema que provocou essa crise. Estão todos esperando voltar a situação como era antes. Acontece que a situação como era antes é que provocou isso. As reformas que foram feitas até agora foram muito pequenas. Nenhuma delas, a longo prazo, evitaria uma repetição desse fenômeno.

A crise econômica nos EUA e na Europa está alimentando discursos reacionários, como o do atirador que assumiu a responsabilidade pelos ataques na Noruega?
Rubens Ricupero - Não tem a ver com a situação econômica, porque a Noruega não foi tocada pela crise. Os noruegueses são conhecidos como "os árabes de olhos azuis", porque a Noruega é uma grande produtora de petróleo e tem uma renda altíssima. Se isso acontecesse na Grécia, você poderia dizer que é um exemplo da crise. Mas eu não acho que o problema econômico seja um fator fundamental, esse fenômeno já vinha se manifestando muito antes. Em alguns países, a crise alimenta esse fenômeno. Mas ele tem origem mesmo na reação de populações tradicionalmente homogêneas e que de repente passam a conviver com a imigração, com a diversidade de raça e religião.

O que ocorreu na Noruega é um caso excepcional ou revela uma tendência de radicalização na Europa?
Rubens Ricupero - É uma manifestação particularmente doentia de uma tendência que vem se generalizando no continente europeu, com expressões mais perigosas em alguns países. E é surpreendente que aconteça em alguns países que sempre foram reconhecidos pela tolerância. A Holanda, a Dinamarca, a Noruega e a Finlândia sempre foram países muito progressistas e isso mudou radicalmente. Essa premissa hoje vale para a Alemanha, a França, Itália e países do Leste Europeu. Há um certo denominador comum: todas essas tendências são xenófobas e têm uma conotação racista.

Os interlocutores desse discurso xenófobo não são apenas pessoas como esse atirador. Há partidos e movimentos organizados. Esses movimentos não estimulam a violência? Como coibí-la, então?
Rubens Ricupero - É complicado. Esses movimentos e partidos não são todos iguais. Alguns até tem representação nos parlamentos. A Liga Norte italiana, embora seja contra imigrantes, tem a bandeira do federalismo. Na Bélgica, o Bloco Flamenco é um partido separatista. Nestes países, o tema nacional é que predomina. Mas o que se encontra em todos os países, inclusive na Inglaterra, é a reação contra a imigração. Acho que a forma de lidar com isso é agir como fez o primeiro ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, que declarou que esse tipo de reação não vai derrubar a democracia. É preciso usar as armas democráticas.

Fonte: TERRA MAGAZINE - Quarta-feira, 27 de julho de 2011 - 10h30 - Internet: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5262910-EI6579,00.html

A velhice dos tempos modernos

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS

A expressão "conservadores" seria mais aplicável aos que repetem "costumes flexíveis", e não os valores abraçados pelos construtores das civilizações

O desconhecimento da história e a pouca atenção que, nas grades escolares, principalmente universitárias, se dá à importância do estudo de toda espécie de acontecimentos passados, principalmente na política e nos costumes, faz com que aquele que vive o momento presente termine por repetir os mesmos erros, vícios e "novidades" pretéritas.

Na política, como procurei demonstrar em meu livro "Uma Breve Teoria do Poder", o homem pouco evoluiu. Se uma democracia formal foi conquistada a duras penas, a verdade é que nem por isso a sociedade consegue controlar a figura do detentor do poder, que quer o poder pelo poder, sendo a prestação de serviços públicos apenas efeito colateral de seu exercício.

A corrupção endêmica nas entidades estatais, nos tempos modernos, é tão velha quanto a dos primeiros tempos. Apenas mais sofisticada. Carl Schmitt ("O Conceito do Político") e Maquiavel ("O Príncipe") continuam atualíssimos.

Nos costumes, a denominada liberdade sexual, em que dar vazão aos instintos é modelo da modernidade, remonta, pelo menos, ao tempo da decadência babilônica, quando as mulheres conseguiam seus dotes para o casamento entregando-se livremente no templo, ou à decadência do Império Romano.

Políbio ("História"), este historiador grego que viveu em Roma, demonstrou que tal liberdade estava desfazendo as famílias romanas, prevendo o fim do Império pela deterioração dos costumes.
É de se lembrar que, no período anterior, quando da República, as famílias respeitavam valores e a sociedade se representava perante o Senado e os cônsules por meio do Tribunato da Plebe (Fustel de Coulanges, "A Cidade Antiga"). A cidadania romana tornou-se um bem que protegia não só os romanos, mas aqueles que a conquistavam dentro de suas fronteiras.

É de se lembrar que, antes da queda de Esparta, a liberdade sexual das mulheres espartanas faria inveja às mais desinibidas senhoras da atualidade. O próprio homossexualismo, praticado em Atenas, tornou-se bem evidente quando do início de sua decadência, que termina, de rigor, com a derrota na Guerra do Peloponeso, tão bem narrada por Tucídides.

Tais breves e perfunctórias reminiscências históricas sobre costumes e política objetivaram apenas mostrar que as denominadas conquistas dos tempos modernos são muito velhas e, quase sempre, coincidem com a decadência de civilizações formadas, como o Império Romano, à luz de valores diferentes.

Parece-me, portanto, que a denominação "conservadores" seria mais aplicável àqueles que repetem, através da história, "costumes flexíveis" - para adotar uma terminologia politicamente correta -, e não os valores abraçados pelos verdadeiros construtores das civilizações, que, como Toynbee afirma ("Um Estudo da História"), nasceram, fundamentalmente, dos preservados pelas grandes religiões.

Uma última observação, de caráter apenas explicativo.

Nos tempos de costumes condenáveis, em que as mulheres, em algumas nações, tinham um estatuto inferior, foi Cristo que abriu a perspectiva da igualdade entre o homem e a mulher, ao dar ao matrimônio a dignidade de Estado, com obrigações e direitos mútuos rigorosamente idênticos, com deveres de lealdade e fidelidade necessários para criar os valores próprios para a correta educação da prole que geravam. E elevou uma mulher à condição de mais importante figura da humanidade, para os católicos, acima de todos os homens, ou seja, santa Maria.

Política e costumes merecem sempre uma reflexão histórica.
Pouco comum, mas necessária.

* IVES GANDRA DA SILVA MARTINS, 76, advogado, professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra, é membro das Academias Paulista de História e de Letras, da Academia Brasileira de Filosofia e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa (Lisboa).

Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Quinta-feira, 28 de julho de 2011 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2807201107.htm

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Jovens da América Latina mobilizam-se para a Jornada Mundial de Juventude

Camila Maciel
Jornalista da Adital

Concursos culturais, missas de envio, jornadas locais. Muitas são as formas de organização e mobilização dos jovens da América Latina para a Jornada Mundial de Juventude (JMJ), que será realizada entre os dias 16 e 21 de agosto, em Madri (Espanha).

O encontro deve reunir cerca de dois milhões de jovens de todo o mundo, sendo considerado o maior evento de "congraçamento” da juventude católica, de acordo com o site da organização.

Do Equador, uma delegação de cerca de 2.500 jovens viajará a Madri. Como etapa de preparação, realizou-se no mês de maio a Jornada Nacional de Juventude com mais de 12 mil jovens participantes. De acordo com a organização do evento, a Jornada Nacional foi uma oportunidade para os que têm dificuldades econômicas vivam uma experiência de fé similar a que será compartilhada na capital espanhola.

A cidade brasileira do Rio de Janeiro também realizou uma pré-Jornada, assim como a experiência equatoriana. O evento contou com uma Missa de Envio dos jovens para a JMJ, além de atrações de comunidades católicas que participaram do evento. Do mesmo modo, aos 25 jovens do município do Crato, no estado do Ceará, foi realizada uma missa em ação de graças. O Brasil participará com uma delegação recorde de aproximadamente 14 mil jovens.

Na Colômbia, por sua vez, um concurso cultural mobilizou jovens a participarem da Jornada Mundial de Juventude. Promovido pelo Embaixador da Colômbia junto a Santa Sé, o concurso premiou os 18 melhores vídeos e artigos sobre a última encíclica do papa Bento XVI. Além dos jovens ganhadores, outros cinco mil jovens colombianos participarão do encontro em Madri.

Diante de algumas dificuldades para deslocamento à Espanha, uma proposta diferente foi lançada pelos jovens do município de Barbacena, no estado brasileiro de Minas Gerais. Eles optaram por realizar, simultaneamente à JMJ, a primeira Jornada Municipal de Juventude. De acordo com os organizadores, a ideia é, mesmo a distância, poderem se unir aos jovens do mundo inteiro em oração.

Jornada Mundial de Juventude

Iniciada em 1985, a Jornada Mundial de Juventude é realizada a cada três anos, em diferentes lugares, por convocação do Papa. O Brasil é candidato a receber o próximo evento, em 2014. Neste ano, o evento tem como tema a passagem bíblica: "Enraizados e Edificados em Cristo, firmes na fé". A programação contará com momentos de partilha de experiências, vigílias, celebrações e festivais, os quais devem culminar com a participação do Papa Bento XVI.

Em tom de despedida e agradecimento, a JMJ será encerrada com uma partida de futebol beneficente. A partida reunirá consagrados atletas espanhóis e de outros países, já aposentados dos gramados. Estarão na competição: a seleção de ex-jogadores espanhóis e a seleção de ex-jogadores de outras partes do mundo.

Para participar da Jornada, ainda é possível realizar inscrição pelo site do evento. Existem valores diferentes, de acordo com a escolha por alojamento e/ou alimentação, assim como a opção da programação completa ou apenas do final de semana.

Para mais informações: http://www.madrid11.com/

Com informações de imprensas locais e do site da JMJ.

Fonte: ADITAL - Notícias da América Latina e Caribe - 27/07/2011 - Internet: http://www.adital.com.br/site//noticia.asp?boletim=1&cod=58736&lang=PT

Gravidez na adolescência cai 37% em SP

ESTADÃO.COM.BR

A incidência de gravidez entre paulistas com 10 a 19 anos caiu 37% em 11 anos, afirmou ontem a Secretaria da Saúde de São Paulo, com base em dados da Fundação Seade.

Em 1998, foram 148.018 casos no Estado; em 2009, o número caiu para 92.812. A queda é constante desde o primeiro ano do levantamento.

Segundo o relatório, houve redução de 37,8% na faixa etária de 15 a 19 anos. Em 1998, foram 143.490 adolescentes nessa faixa etária grávidas no Estado. Em 2009, esse número caiu para 89.176. Entre as de 10 a 14, a queda foi de 19,7%, com 4.528 casos em 1998 e 3.636 em 2009.

A secretaria usa 1998 como base de comparação porque é o ano em que a adoção de um modelo de atendimento integral à adolescente adotado em 1996 teria começado a mostrar resultados.

O atendimento centrado nos aspectos emocionais e psicoafetivos dos adolescentes "vem contribuindo na prevenção e tratamento de doenças", afirmou o secretário da Saúde, Giovanni Guido Cerri.

Centro. O governador Geraldo Alckmin inaugurou ontem o Centro de Reprodução Humana e Centro de Diagnóstico em Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Vida - Quarta-feira, 27 de julho de 2011 - Pg. A17 - Internet: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110727/not_imp750413,0.php

Documentário mostra perigos do uso de agrotóxicos

DENISE MENCHEN
DO RIO


Filme de Silvio Tendler mostra que o Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas

Vanderlei Matos da Silva morreu aos 29 anos vítima de problemas no fígado após passar três anos e meio misturando defensivos químicos para cultivo de abacaxi.

A história dele e de outros agricultores está no documentário "O Veneno Está na Mesa", lançado pelo cineasta Silvio Tendler [foto] na última segunda-feira, no Rio.

Orçado em R$ 50 mil e financiado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, o filme expõe os perigos ligados ao uso de agrotóxicos no Brasil.

Desde 2008, o país é o principal mercado no mundo para esses produtos. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o consumo anual chega a 5,2 litros por habitante. Muitas vezes, os produtos são usados de forma abusiva, segundo testes feitos pela agência.
O último deles, realizado em 2010, apontou problemas em 29% das amostras de alimentos examinadas. No caso do pimentão, esse percentual chegou a 80%.

"É um problema que incide na vida de todo mundo, mas parece que as pessoas optaram pela política de avestruz", diz Tendler, que já dirigiu documentários sobre o cineasta Glauber Rocha e o ex-presidente João Goulart.

Em 50 minutos, o filme costura depoimentos de agricultores e entrevistas com pesquisadores de universidades. Tem também denúncias de lobby da indústria contra medidas restritivas da Anvisa.

O filme estará disponível para download no site:
  http://www.caliban.com.br/ a partir da próxima semana.

Fonte: Folha de S. Paulo - Saúde - Quarta-feira, 27 de julho  de 2011 - Pg. C8 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2707201104.htm

Cultura da autoestima é contestada por psicóloga americana

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

Enquanto instituições, terapias, profissionais e livros seguem vendendo o "resgate da autoestima", a psicóloga americana Kristin Neff [foto ao lado] resolveu questionar um dos clichês mais repisados das últimas décadas.

Para ela, a cultura que incentiva em cada um a avaliação positiva de si mesmo contribuiu para a atual epidemia de narcisismo. Como alternativa, Neff, 44, defende o estímulo da autocompaixão, conceito budista que ela importa para a psicologia no livro "Self-Compassion", lançado em abril.

De sua casa, no Texas, a professora falou à Folha, pouco antes de embarcar para um retiro de meditação na Inglaterra.

Folha - Como uma autoestima elevada pode fazer mal?
Kristin Neff - Não é o fato de ter uma autoestima elevada que é prejudicial, mas o que se faz para consegui-la ou mantê-la. Você precisa ser o número um, precisa se sentir especial e melhor do que os outros. Se, por exemplo, a sua performance no trabalho está abaixo da média, você se sente abaixo da média.

Dá para manter a autoestima sempre em alta?
Não, isso não é sustentável. Para manter a autoestima em alta precisamos nos sentir melhor do que somos e achar que os outros são piores do que são. Só que não dá para ser melhor do que os outros o tempo todo. Você se sente bem quando recebe aquela promoção no trabalho, mas também se sente péssimo se não recebe. É óbvio que essa instabilidade faz mal à saúde. Pode levar à depressão e à ansiedade. Não dá para confiar na autoestima porque ela logo abandona você.

Por que a busca pela boa autoavaliação é tão prejudicial?
Porque acirra a rivalidade e pode levar à agressividade. Há quem sustente que muitas crianças praticam bullying porque têm baixa autoestima. Na verdade, elas obtêm sua autoestima colocando os outros para baixo, provocando, batendo. Assim se sentem melhores do que os outros. Pessoas preconceituosas usam critérios como raça ou religião para se dizerem melhores em relação aos que integram os outros grupos. O preconceito vem desse sentimento de que o grupo ao qual pertenço é melhor do que o outro e de que tenho que me sentir melhor do que o outro.

Como a cultura incentiva essa busca de alta autoestima?
Desde cedo, com os pais, com a escola. Numa sociedade competitiva, você dirá às crianças que é preciso ser sempre o primeiro. Elas vão ficar se comparando o tempo todo, porque têm sido educadas na ideia de que devem sempre se sentir especiais e ganhar prêmios por serem as melhores. Todas essas formas de premiação que existem nas escolas incentivam a competição.

Qual o resultado disso?
Hoje, temos os maiores índices de narcisismo registrados graças a esse tipo de educação. É uma epidemia. Sou professora universitária há 12 anos e já vejo uma mudança nos meus alunos. Eles cada vez mais se sentem incomodados se tiram um B como nota. Meu filho ouve muito rap e eu noto essas letras lotadas de narcisismo.

As pessoas são apegadas à ideia da autoestima?
Sim. Atingimos o ápice da raiva quando alguém diz algo que, de alguma forma, mexe com o nosso ego, aquilo que, se aceitássemos, colocaria em risco nossa autoestima. Nos defendemos o tempo todo para protegê-la.

Mas não é certo tentar gostar de si mesmo?
Está certo gostar de si mesmo. O problema começa quando as pessoas se perguntam por que elas devem gostar de si mesmas. Há duas formas de se responder a essa pergunta: "Eu gosto de mim mesma porque sou um ser humano, tenho valor e sentimentos e mereço atenção", e outra forma é dizer "Eu gosto de mim mesma porque sou melhor do que as outras pessoas". Na cultura ocidental, tendemos a escolher a segunda resposta.

Mas não dá para viver sem autoestima, certo?
No mundo animal, há uma hierarquia social que serve para manter a coesão do grupo. Todos aspiram pelo posto do macho alfa. Queremos estar no topo e precisamos acreditar que temos as condições para isso. Portanto, o desejo por uma autoestima elevada é natural. Mas ela não é o único sistema natural. Os mamíferos têm a capacidade de transmitir e receber carinho. Nascemos imaturos e demoramos para nos desenvolver. O nosso corpo pede carinho e temos como resposta um aumento de ocitocina [hormônio ligado à sensação de bem-estar] e diminuição dos níveis de cortisol [hormônio liberado em situações de estresse]. Quando dirigimos esse conforto físico e psicológico a nós mesmos estamos praticando autocompaixão.

A autocompaixão é a alternativa que você propõe?
Sim. Se a autoestima implica você se julgar positivamente, a autocompaixão não envolve julgamento. Diz respeito a responder com carinho para si mesmo nos momentos de sofrimento. É como a compaixão: vejo que alguém está sofrendo e me esforço para ajudar a pessoa. Tanto a autocompaixão quanto a autoestima têm os mesmos benefícios, mas a primeira não tem os prejuízos da segunda. Se a autoestima te abandona, te ignora ou te critica quando algo ruim acontece, a autocompaixão te dá apoio quando você sofre, sente medo, é rejeitado ou falha.

Como dá para praticar essa autocompaixão?
Você tem que começar notando como trata a si mesmo. Muitas pessoas são tão autocríticas que nem notam. Fiz experimentos mandando as pessoas anotarem o que diziam a si mesmas em momentos em que enfrentavam problemas - uma calça que não servia, um trabalho que não dava certo... Elas tinham um choque quando viam o que haviam escrito. Percebiam o quanto estavam sendo duras. Muitos dizem que não conseguem ser compassivos consigo mesmos, mas eu digo que isso é possível: você tem feito isso a vida toda, com amigos, com parentes. Sabemos como fazer com os outros, precisamos fazer o mesmo conosco. Requer a chamada "mindfulness", a atenção plena ao próprio sofrimento.

O que a psicologia pode aprender com o budismo?
O budismo está transformando a psicologia, é como uma terceira via da psicologia. E a compaixão está no coração do budismo. Significa ter um coração aberto para si e para os outros. O cristianismo ensina a ter compaixão pelos outros, mas não ensina nada sobre autocompaixão. No budismo, isso não faz sentido. Não é lógico separar você dos outros, todos fazemos parte de um mesmo sistema.

Fonte: FOLHA.COM - 27/07/2011 - 08h10 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/949633-cultura-da-autoestima-e-contestada-por-psicologa-americana.shtml

O PROBLEMA DO MAL

Dom Murilo Krieger *

“Você acredita em Deus?” Com essa pergunta, a jornalista terminava uma longa entrevista com um conhecido esportista nacional.

A resposta que ele lhe deu chamou minha atenção, porque expressa o que muita gente pensa a respeito do problema do mal. O drama e a angústia do esportista são a angústia e o drama de inúmeras pessoas, em situações, épocas e lugares diferentes:

“É difícil dizer que acredito em Deus. Quanto mais desgraças vejo na vida, menos acredito em Deus. É uma confusão na minha cabeça; não encontro explicação para o que acontece. Por que é que meu filho nasce em berço de ouro, enquanto outro, infeliz, nasce para sofrer, morrer de doença, e há tudo isso de triste que a gente vê na vida? É uma coisa que não entendo e, como não tenho explicação, é difícil de acreditar em um Ser superior.”

O mal, o sofrimento e a doença fazem parte de nosso cotidiano. As injustiças, a fome e a dor são tão frequentes em nosso mundo que parecem ser normais e obrigatórias. Fôssemos colocar em uma biblioteca todos os livros já escritos para tentar explicar o porquê dessa realidade, ficaríamos surpresos com sua quantidade.

Para o cristão, mais do que um culpado, o mal tem uma causa: a liberdade. Fomos criados livres, com a possibilidade de escolher nossos caminhos. Podemos, pois, fazer tanto o bem quanto o mal. Se não tivéssemos inteligência e vontade, não existiria o mal no mundo; se fossemos meros robôs, também não. Por outro lado, sem liberdade não haveria o bem e nem saberíamos o que é um gesto de amor. Também não conheceríamos o sentido de palavras como gratidão, amizade, solidariedade e lealdade.

O mal nasce do abuso da liberdade ou da falta de amor. Nem sempre ele é feito consciente ou voluntariamente. Quanto sofrimento acontece por imprudência! Poderíamos recordar os motoristas que abusam da velocidade ou que dirigem embriagados, e acabam mutilando e matando pessoas inocentes. Não é da vontade de Deus que isso aconteça. Mas Ele não vai corrigir cada um de nossos erros e descuidos. Não impedirá, por exemplo, que o gás que ficou ligado na casa fechada asfixie o idoso que ali dorme. Repito: Deus não intervém a todo momento para modificar as leis da natureza ou para corrigir os erros humanos.

O que mais nos angustia, talvez pela gravidade das consequências, é o mal causado pela violência, pelo ódio e egoísmo. Os assassinatos e roubos, os sequestros e acidentes, as guerras e destruições são como que pegadas da passagem do homem pelo mundo. O mal acontece porque usamos de forma errada nossa liberdade ou não aceitamos o plano de Deus, expresso nos mandamentos. Quando nos deixamos levar pelo egoísmo e seguimos nossas próprias ideias, construímos o nosso mundo, não o mundo desejado por Deus para nós.

Outro imenso campo de sofrimento é o das injustiças. Quantos se aproveitam de sua posição e de seu poder para se enriquecer sempre mais, à custa da miséria dos fracos e do sofrimento dos indefesos! Terrível poder o nosso: podemos fechar-nos em nosso próprio mundo e contemplar, indiferentes, a desgraça dos outros.

Não se pode, também, esquecer o mal causado pela natureza, quando suas leis não são respeitadas. Com muita propriedade, o povo diz: “Deus perdoa sempre; o homem, nem sempre; a natureza, nunca!” A devastação das florestas e a contaminação das águas fluviais trazem consequências inevitáveis, permanentes e dolorosas para a vida da humanidade. Culpa de Deus?...

Diante do mal, não podemos ter uma atitude de mera resignação. Cristo nos ensina a lutar, combatendo o mal em suas causas. O bom uso da liberdade e a prática do bem nos ajudarão a construir o mundo que o Pai sonhou para nós. Descobriremos, então, que somos muito mais responsáveis por nossos atos do que imaginamos. Fugir dessa responsabilidade, procurando fora de nós a culpa de nossos erros é uma atitude cômoda, ineficiente e incoerente. Assumirmos a própria história, colocando nossas capacidades a serviço dos outros, é uma tarefa exigente, sim, mas que nos dignifica e nos realiza como seres humanos e filhos de Deus.

* Dom Murilo S. R. Krieger, scj [foto acima], é arcebispo de São Salvador da Bahia.

Fonte: ZENIT.ORG - Dia 26 de julho de 2011 - Internet: http://www.zenit.org/article-28558?l=portuguese

Terra Santa: a mudança verde das religiões

Giorgio Bernardelli
Vatican Insider
22-07-2011

Nestes tempos, o fato de as três grandes religiões monoteístas em Jerusalém entrarem de acordo sobre qualquer coisa já é uma notícia. Mas que justamente nessa cidade decidam lançar um apelo conjunto aos líderes mundiais sobre a luta contra as mudanças climáticas – isto é, precisamente sobre uma das questões que hoje atormentam as diplomacias de meio mundo – é definitivamente incrível.

Esse é o objetivo de uma iniciativa que será apresentada em Jerusalém no próximo 25 de julho. Com o apoio de nomes muito respeitados das comunidades judaicas, cristãs e muçulmanas da Cidade Santa.

A iniciativa chama-se Holy Land Declaration on Climate Change [Declaração da Terra Santa sobre as Mudanças Climáticas] e visa especificamente à Conferência Internacional do Clima programada para Durban, África do Sul, no próximo mês de novembro, que será a continuação das conferências realizadas em Copenhague em 2009 e em Cancún em 2010, ambas encerradas sem aquele acordo sobre a redução das emissões de gases do efeito estufa que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – encarregado pela ONU de monitorar o fenômeno – considera indispensável para combater verdadeiramente o aquecimento global.

Em vista do encontro de Durban, um grupo de organismos de diversas confissões está se mobilizando em diversos países do mundo para solicitar que os líderes religiosos entrem em campo em favor dessa batalha. Eles gostariam de ir pessoalmente a Durban para pressionar os políticos e também escreveram uma carta com esse convite para o papa, o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, e para o Dalai Lama.

Enquanto isso – no entanto –, acolheram um primeiro resultado significativo em Jerusalém, com a adesão do Council of the Religious Institution of the Holy Land, órgão que reúne em uma mesma mesa o Grão-Rabinato de Israel, o ministério palestino dos Assuntos Religiosos, as Cortes Islâmicas e os chefes das Igrejas cristãs de Jerusalém.

Dos debates internos desse pequeno parlamento das religiões nasceu a declaração comum que, na segunda-feira 25 de julho, será apresentada oficialmente pelo patriarca latino de Jerusalém, Fouad Twal, pelo vice-ministro palestino de Assuntos Religiosos, Haj Salah Zuheika, e pelo rabino David Rosen, diretor de Assuntos Religiosos do American Jewish Committee, uma das organizações judaicas mais importantes do mundo. O evento será realizado – não por acaso – no American Colony, o hotel de Jerusalém que é o quartel general da imprensa estrangeira.

Essa ação dos líderes religiosos da Terra Santa é um verdadeiro endosso do programa do IPCC: "Reconhecemos – diz a declaração – as evidências científicas das mudanças climáticas provocadas pelo homem e a ameaça que elas representam para as sociedades humanas e para o planeta, como explicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas. E reconhecemos também as raízes espirituais dessa crise e a importância de oferecer uma resposta religiosa".

Daí o convite para realizar um "profundo repensamento sobre a própria relação espiritual e física com este planeta dado por Deus e sobre como consumimos, usamos e dispomos dos seus recursos abençoados". Mas os líderes religiosos – muito concretamente – também pedem aos fiéis que "reduzam as suas próprias emissões pessoais de gases do efeito estufa e que solicitem aos seus próprios líderes políticos que adotem objetivos fortes, vinculantes e cientificamente motivados para a redução dos gases do efeito estufa, de modo a evitar os piores perigos das crises climáticas".

Por trás dessa reviravolta verde das religiões na Terra Santa, está sobretudo a mão de um jovem rabino, nascido na Califórnia e imigrado para Israel em 2003: chama-se Yonatan Neril (foto no alto) e tem sobre as costas uma graduação na Universidade de Stanford justamente sobre as questões ambientais. Ele tem um blog ambientalista intitulado Jewcology e, em Jerusalém, é o diretor do Interfaith Center for Sustainable Development, que promoveu a declaração conjunta.

Neril olha para a Conferência do Clima de Durban, mas também para a emergência ambiental na Terra Santa, porque, no Oriente Médio, a escassez de água é um problema que se sente cada vez mais, e Israel e a Palestina poderiam, no fim, ser vítimas das mudanças climáticas.

Por esse motivo, o rabino que veio da Califórnia também tem em mente um outro projeto, ainda mais ambicioso: desenvolver em Jerusalém uma rede de jovens líderes judeus, cristãos e muçulmanos sensíveis à questão do ambiente. Para que – depois de ter sido tão contestada reciprocamente – chegue o dia em que se comece a defender esta terra que todos, da boca para fora, chamam de santa.

Tradução é de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - On-Line - 25/07/2011 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=45680