«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 28 de janeiro de 2012

4º Domingo do Tempo Comum – Ano “B”

Evangelho: Marcos 1,21-28
José Antonio Pagola*


CURADOR


Segundo Marcos, a primeira atuação pública de Jesus foi a cura de um homem possuído por um espírito maligno na sinagoga de Cafarnaum. É uma cena de tirar o fôlego, narrada para que, desde o começo, os leitores descubram a força curadora e libertadora de Jesus.


É sábado e o povo se encontra reunido na sinagoga para escutar o comentário da Lei explicado pelos escribas. Pela primeira vez, Jesus irá proclamar a Boa Notícia de Deus precisamente no lugar onde se ensina oficialmente ao povo as tradições religiosas de Israel.


As pessoas ficam surpresas ao escutá-lo. Têm a impressão de que, até aquele momento, haviam escutado notícias velhas, ditas sem autoridade. Jesus é diferente. Não repete o que ouviu de outros. Fala com autoridade. Anuncia com liberdade e sem medo a um Deus Bom.


De repente, um homem “começa a gritar: Vieste para nos destruir?”. Ao escutar a mensagem de Jesus, se sentiu ameaçado. Seu mundo religioso entra em colapso. É-nos dito que está possuído por um “espírito imundo”, hostil a Deus. Que forças estranhas lhe impedem de continuar a escutar Jesus? Que experiências nocivas e perversas lhe bloqueiam o caminho para o Deus Bom que ele anuncia?


Jesus não se acovarda. Vê o pobre homem oprimido pelo mal e grita: “Cala-te e sai dele!”. Ordena que se calem essas vozes malignas que não o deixam encontrar-se com Deus nem consigo mesmo. Para recuperar o silêncio que cura o mais profundo do ser humano.


O narrador descreve a cura de maneira dramática. Num último esforço para destruí-lo, o espírito “sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu”. Jesus conseguiu libertar o homem de sua violência interior. Colocou fim às trevas e ao medo de Deus. De agora em diante, poderá escutar a Boa Notícia de Jesus.


Não poucas pessoas vivem em seu interior de falsas imagens de Deus que as fazem viver sem dignidade e sem verdade. Elas sentem Deus não como uma presença amistosa que convida a viver de modo criativo, mas como uma sombra ameaçadora que controla sua existência. Jesus sempre começa a curar, libertando de um Deus opressor.


Suas palavras despertam a confiança e fazem desaparecer os medos. Suas parábolas atraem para o amor a Deus, não para a submissão cega à lei. Sua presença faz crescer a liberdade, não as servidões; suscita o amor à vida, não o ressentimento. Jesus cura porque ensina a viver somente da bondade, do perdão e do amor que não exclui ninguém. Cura porque liberta do poder das coisas, do autoengano e da egolatria. 


NECESSITAMOS DE MESTRES DE VIDA


Jesus não foi um profissional especializado em comentar a Bíblia ou interpretar corretamente seu conteúdo. Sua palavra clara, direta, autêntica, tem uma força diferente que o povo sabe captar imediatamente.


Não é um discurso aquilo que sai dos lábios de Jesus. Tampouco, uma instrução. Sua palavra é um chamamento, uma mensagem viva que provoca impacto e abre caminho no mais profundo dos corações.


O povo fica assombrado “porque não ensina como os mestres da lei, mas com autoridade”. Esta autoridade não está ligada a nenhum título ou poder social. Não provém da doutrina que ensina. A força de sua palavra é ele mesmo, sua pessoa, seu espírito, sua liberdade.


Jesus não é “um vendedor de ideologias”, nem um repetidor de lições aprendidas de antemão. É um mestre de vida que coloca o ser humano diante das questões mais decisivas e vitais. Um profeta que ensina a viver.


É duro reconhecer que, com frequência, as novas gerações não encontram “mestres de vida” a quem poder escutar. Que autoridade podem ter as palavras dos dirigentes civis ou religiosos se não estão acompanhadas de um testemunho claro de honestidade e responsabilidade pessoal?


Nossa sociedade necessita de homens e mulheres que ensinem a arte de abrir os olhos, maravilhar-se diante da vida e interrogar-se com simplicidade pelo sentido último da existência. Mestres que, com seu testemunho pessoal, semeiem inquietude, contagiem vida e ajudem a propor, sinceramente, as interrogações mais profundas do ser humano.


Fazem pensar as palavras do escritor anarquista A. Robin, pelo que podem pressagiar para a nossa sociedade:
“Suprimir-se-á a fé em nome da luz; depois se suprimirá a luz.
Suprimir-se-á a alma em nome da razão; depois se suprimirá a razão.
Suprimir-se-á a caridade em nome da justiça; depois se suprimirá a justiça.
Suprimir-se-á o espírito de verdade em nome do espírito crítico; 
depois se suprimirá o espírito crítico”.

O evangelho de Jesus não é algo supérfluo e inútil para uma sociedade que corre o risco de seguir tais caminhos.


Tradução de: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.


* José Antonio Pagola é sacerdote espanhol. Licenciado (= mestrado) em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma (1962), licenciado em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (1965), Diplomado em Ciências Bíblicas pela École Biblique de Jerusalém (1966). Professor no Seminário de San Sebastián e na Faculdade de Teologia do norte da Espanha (sede de Vitoria). Desempenhou o encargo de reitor do Seminário diocesano de San Sebastián e, sobretudo, o de Vigário Geral da diocese San Sebastián (Espanha). É autor de vários ensaios e artigos, especialmente o famoso livro: Jesus - Aproximação Histórica (publicado no Brasil pela Editora Vozes, 2010).

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - 24/01/2012 - 22h24 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php
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Continuando a reflexão...

De anjos e demônios 

Honorio Cadarso
Atrio
25.01.2012

Jornalista espanhol, tendo em vista a leitura do Evangelho que será proclamado no próximo domingo nas igrejas católicas, "pede a todos aqueles que pregarão nas missas de domingo 29, que tentem fugir do disco quebrado de uma leitura e interpretação do Evangelho 'ao pé da letra' ".
No domingo, 29 de janeiro [2012], os pregadores deverão explicar um texto de Marcos (Mc 1, 21-28), que conta como Jesus, na sinagoga de Cafarnaum, expulsou um demônio de um possuído e falou com autoridade.


O Novo Testamento está cheio de páginas de anjos e demônios: Miguel, Gabriel, Rafael, serafins, querubins, arcanjos.  Lúcifer, Satanás, entre outros. O Antigo Testamento começa em Gênesis com a história do demônio que se disfarçou de serpente e enganou Eva.


Se olharmos para outras religiões, quase todas estão cheias de seres intermediários entre os deuses e os humanos e o mundo natural: a cultura greco-romana fala de ninfas, sátiras, semideuses... Das religiões indígenas talvez possa se dizer alguma coisa semelhante; e as das culturas da América; a mitologia basca está cheia de lâmias e "gentis".


A cultura galega e muitas outras povoam o universo de almas penadas. As almas dos nossos falecidos continuam a viver e, falando conosco em sonhos, elas nos abordam nos momentos em que nos sentimos sós...


A cultura moderna distanciou-se dessas imagens sacralizadas e criou seus “anjos” leigos, uns seres poderosos que substituem o “deus ex machina” como Superman, Spiderman, os pitufos ou o Bob Esponja.


Como nos situar diante desses mundos pensados, ou talvez melhor dizer “sonhados“, “fantasiados”?


Vale a pena ler ou, se nós já tivermos lido, reler a história-poema de García Lorca, onde ele conta como a Guarda Civil massacrou os ciganos de Jerez: ali Nossa Senhora leva uma capa de papel de chocolate, São José uma outra de seda, e ambos se dedicam a recolher os ciganos feridos na caverna de Belém e a curá-los com salivinha de estrelas e outras pomadas maravilhosas. E logo poderíamos ler os poemas que García Lorca dedica a São Gabriel, de Granada e a São Miguel, que eu acho que é de Sevilha, e a São Rafael, que creio que é de Córdoba. E, em seguida, deveríamos ler a Ode ao Santíssimo Sacramento. Garcia Lorca aborda o tema da religião num linguajar entre sonhador e contador de histórias, no entanto, mostra um respeito e consideração muito grandes com aqueles que acreditam nisso. Não esqueçamos que, a partir da sua incredulidade e agnosticismo, Federico era um amigo íntimo do fervoroso Manuel de Falla...


Talvez os endemoniados do evangelho fossem simplesmente vítimas de ataques epiléticos... Talvez aquele episódio em que se diz que uma tropa de demônios tomou posse dos corpos de um rebanho de porcos e levaram todos eles para se afogar no mar, careça de historicidade...


A dicotomia entre anjos e demônios parece supor que no mundo governam ou lutam dois princípios opostos, o Bem e o Mal. Em qualquer caso, a superabundância de anjos em todos os cantos da vida e do universo não combina com a autonomia que nós pensamos que Deus deu ao mundo que Ele criou e que ele viu que era bom, que ficou bem feito. A gente pensa que esses seres intermediários não têm significado num mundo assim. Como entender as tentações que teve Jesus, no início da sua vida pública, quando dizemos que o diabo o levou ao pináculo do templo e a um monte muito alto?


A gente pensa que os problemas que enfrentamos neste mundo não podem ser resolvidos pela intervenção de nosso anjo da guarda ou do padroeiro dos viandantes, São Rafael. Para cada mistério e problema é preciso encontrar uma resposta e uma solução científica. A gente pensa que o mal não se cura com exorcismos, mas com tratamentos médicos ou cirúrgicos. Em lugar de pedir ao Todo-Poderoso que mande os demônios longe do Afeganistão ou do Irã ou de Wall Street e do mundo empecatado dos Mercados, do Standard and Poors e de Moodys, o que deveria ser feito é promover reformas econômicas e políticas para acabar com todas essas desordens...


Eu não me preocupei de ler no catecismo moderno o que ele diz sobre anjos e demônios. A intenção aqui também não é de dar respostas definitivas, mas sim levantar questões, hipóteses de trabalho. E pedir a todos aqueles que pregarão nas missas de domingo 29, que tentem fugir do disco quebrado de uma leitura e interpretação do Evangelho "ao pé da letra".


A gente pensa que o famoso princípio do Mal, no qual os maniqueístas parecem acreditar, é um ser fictício, que o ser humano carrega dentro de si o seu próprio demônio que o empurra ao mal, carrega em si mesmo a limitação, a finitude e a doença.


O ser humano se depara, se encontra de cara com o mundo criado e com seus pares e com o outro lado do seu próprio ser, aquele que sustenta e dá o ser à sua própria existência... Esse que alguns chamam de Deus.


Tradução de Susana Rocca.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sexta-feira, 27 de janeiro de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/506157-de-anjos-e-demonios

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