«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Domingo de Ramos e da Paixão – Ano “B”

Evangelho: Marcos 14,1–15,47

José Antonio Pagola

IDENTIFICADO COM AS VÍTIMAS

Nem o poder de Roma nem as autoridades do Templo puderam suportar a novidade de Jesus. Sua forma de entender e de viver Deus era perigosa. Não defendia o império de Tibério, chamava todos para buscar o Reino de Deus e sua justiça. Não considerava importante quebrar as leis do sábado nem as tradições religiosas; somente lhe preocupava aliviar as dores das pessoas enfermas e desnutridas da Galileia.


Mas isso não foi perdoado. Ele se identificava demais com as vítimas inocentes do império e com os esquecidos pela religião do templo. Executado sem piedade numa cruz, nele Deus revela-se a nós sempre identificado com todas as vítimas inocentes da história. Junto ao grito de todos eles, unem-se agora o grito de dor do próprio Deus.
Nesse rosto desfigurado do Crucificado revela-se a nós um Deus surpreendente, que quebra nossas imagens convencionais de Deus e põe em questão toda prática religiosa que tente dar culto a Deus, esquecendo o drama de um mundo no qual se continua crucificando aos mais frágeis e indefesos.


Se Deus foi morto identificado com as vítimas, sua crucifixão converte-se num desafio inquietante para os seguidores de Jesus. Não podemos separar Deus do sofrimento dos inocentes. Não podemos adorar o Crucificado e viver dando as costas ao sofrimento de tantos seres humanos destruídos pela fome, guerras e miséria.


Deus continua nos interpelando a partir de todos os crucificados do nosso tempo. Não podemos continuar vivendo como expectadores desse sofrimento tão grande, alimentando nossa ingênua ilusão de inocência. Temos que nos rebelar contra essa cultura do esquecimento que permite nos isolarmos dos crucificados, deslocando o sofrimento injusto que há no mundo para uma distância onde desapareça  o clamor, o gemido e o pranto.


Não podemos nos  fechar em nossa “sociedade do bem-estar”, ignorando essa outra sociedade do mal-estar na qual milhares de pessoas nascem somente para extinguir-se aos poucos, durante os anos de uma vida que somente foi morte. Não é humano nem cristão nos instalar na segurança, esquecendo-se dos que somente conhecem uma vida insegura e continuamente ameaçada.


Quando os cristãos dirigem seus olhos para o rosto do Crucificado, eles contemplam o amor insondável de Deus que se entregou até a morte pela nossa salvação. Se o olharmos mais detidamente, logo descobriremos nesse rosto aquele de muitos crucificados que, longe ou perto de nós, estão reclamando nosso amor de solidariedade e compaixão.


Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - 27 de março de 2012 - 10h19 - Internet:http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

quinta-feira, 29 de março de 2012

''Não tenham medo do sexo''

Diálogo com Carlo Maria Martini 

L'Espresso
29.03.2012

"A sexualidade humana é percorrida por um 'dinamismo vertical' ou 'ascendente', por uma força interior que a leva a ser, pouco a pouco, instrumento e lugar de amizade profunda e de intimidade de almas, até se tornar, na visão cristã, uma preparação para aquela grande comunhão dos corações que é o fim da humanidade a caminho"

Publicamos aqui algumas páginas do livro Credere e conoscere [Crer e conhecer], diálogo entre o senador e cirurgião italiano Ignazio Marino e o cardeal Carlo Maria Martini, ilustre biblista e ex-arcebispo de Milão, prestes a ser publicado pela editora Einaudi (84 páginas).


Ignazio Marino - senador e cirurgião italiano
Eis o diálogo.


Carlo Maria Martini – A sexualidade é um assunto muito complexo, sobre o qual existe até um "conflito de interpretações". É um campo obscuro, profundo, magmático, difícil de definir. É uma parte da existência em que entra em jogo, particularmente, o subconsciente (e o inconsciente?), em que as explicações racionais podem encontrar nos indivíduos, mas também nos grupos sociais e nas culturas, uma resistência interior que não se deixa convencer. Isso também se deve ao fato de que certamente existem dentro de nós cavernas escuras e labirintos impenetráveis. Além disso, o filão evolutivo que toca também o homem não se esgotou, e, por isso, não podemos prever facilmente os desdobramentos dos próximos milênios. São dados de natureza nova, que de algum modo nos dão medo. Pessoalmente, não sou competente sobre esse assunto e aqui eu o abordo apenas para tentar dizer com simplicidade o que a vida me ensinou. Mas sobretudo gostaria de ouvir quem tem conhecimentos científicos para, de alguma forma, partir deles.


Ignazio Marino – A sexualidade, por definição, é uma relação interpessoal e, como tal, deve ser assumida plenamente como troca e como dom, e tem um papel muito importante para os seres humanos, qualquer que seja a idade, o gênero, as origens, a cultura. Do ponto de vista biológico, ela representa um aspecto fundamental da vida, assim como o dormir e o comer. Muito se deve à produção de hormônios por parte de órgãos como as gônadas, a hipófise, o córtex adrenal e o hipotálamo que solicitam e regulam a atividade sexual. Certamente, ao lado dos aspectos biológicos que se relacionam com a sexualidade, deve-se colocar a dimensão cognitiva e a cultural, que também compreende os éticos e morais. São esferas muitas vezes difíceis de sondar e, inevitavelmente, influenciadas pela educação de cada um e pela vivência psicológica.


Por muito tempo, a ciência se ocupou do estudo dos comportamentos sexuais dos seres humanos por motivos diferentes: da regulação dos nascimentos à transmissão de doenças, passando pela compreensão das diferenças entre a sexualidade humana e a das outras espécies animais. A maior parte dos animais, de fato, busca um parceiro para fins reprodutivos, enquanto entre os seres humanos os comportamentos sexuais não são biologicamente ligados apenas à reprodução, assim como são exclusivamente determinados pelos hormônios. O cérebro, de fato, tem um papel-chave que contribui para aumentar ou diminuir a resposta a um estímulo sexual, por exemplo, através da aprendizagem, que desempenha um papel decisivo nas orientações sexuais. 


E é precisamente por esse motivo que se deve prestar muita atenção a uma educação sexual completa e correta nas fases do crescimento, para evitar a criação de sentimentos de culpa ou de atitudes punitivas contra o próprio corpo e a própria sexualidade. É evidente, e a meu ver incompreensível, como a Igreja Católica, durante os longos séculos da sua história, muitas vezes ignorou o tema da sexualidade, ou o abordou com uma visão voltada a fazer com que nascesse nos fiéis um sentimento de culpa com relação à atividade sexual desvinculada dos fins reprodutivos. Acredito que essa abordagem deveria ser ao menos discutida porque, como confirmam os conhecimentos científicos, o sexo não pode ser considerado um elemento estranho ao ser humano, mas sim um fato natural.
Cardeal Carlo Maria Martini


Carlo Maria Martini – Acima de tudo, trata-se de algo muito pessoal e difícil de expressar em palavras. A poesia ou o que se chamou de "linguagem do amor" falam melhor a respeito. De fato, toda a matéria faz parte do grande tema do amor, como bem observa o Papa Bento XVI. No início da sua encíclica Deus é amor (25 de dezembro de 2005), ele fala de eros e de ágape, ligando-se ao grande tema da literatura clássica. Parece-me que a sexualidade humana é percorrida por um "dinamismo vertical" ou "ascendente", por uma força interior que a leva a ser, pouco a pouco, instrumento e lugar de amizade profunda e de intimidade de almas, até se tornar, na visão cristã, uma preparação para aquela grande comunhão dos corações que é o fim da humanidade a caminho. 


Um amor verdadeiro é também um amor maduro e duradouro, que, quando bem vivido, chega ao íntimo da pessoa e supera o inevitável desgaste do tempo e o aspecto puramente sensível e corpóreo para se tornar uma união de almas. E aqui eu gostaria de notar desde já que, a partir da minha experiência pessoal, tal dinamismo ainda pode levar a amar Deus "com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças" (Dt 6, 5), de tal forma a ponto de ultrapassar totalmente o fator físico e tornar-se assim amor de amizade casta e intensa


Do que se disse até aqui, parece que a sexualidade é sobretudo uma força da natureza, que tende, contudo, a prolongar a espécie. Essa é uma luta contínua, incansável contra a morte. Nesse sentido, a sexualidade não é própria apenas do ser humano. Mas como dizia acima, no homem e na mulher ela se situa no quadro de um dinamismo que tende a fazê-la subir para o alto, levando a sexualidade ao nível de uma amizade e compreensão profundas, quase incomunicável a outros, de duas pessoas.


Assim entendida, ela é fundamental para uma feliz vida matrimonial e é motivo de crescimento tanto para os dois cônjuges, quanto para os seus filhos: isso vale particularmente para os anos em que os filhos se tornarem adultos, anos que estão se alongando com o crescimento da idade média. Só quem tiver amadurecido uma séria amizade poderá se encontrar com o outro cônjuge, mesmo quando os filhos já estiverem todos fora de casa.


Nesse quadro, a sexualidade continua sendo, em si mesma, uma força que tende tanto à geração, quanto à comunhão de pessoas. O fato de também ser possível ter filhos de proveta não muda a natureza da sexualidade. Ela sempre é uma tendência natural ao dom de si entre um homem e uma mulher, em vista de uma realização de uma comunidade estável de pessoas.


Ignazio Marino – Se aceitarmos o princípio de que o sexo representa a normalidade na vida de casal, também devemos nos interrogar sobre as dramáticas situações de milhões de mulheres e de homens que vivem em países onde o ato sexual está intimamente ligado à difusão de graves doenças, principalmente a Aids. Cerca de 34 milhões de pessoas no mundo são portadoras do HIV, uma em cada três vive em um país da região subsaariana


Nos últimos 30 anos, morreram 30 milhões de pacientes e, embora a difusão do vírus tenha diminuído 25% entre 2001 e 2009, a cada ano registram-se ainda mais de 2 milhões de mortes. O HIV é a praga de um continente que gera não só doentes, mas também órfãos, pobreza, impossibilidade de melhorar as condições de vida. 


No mundo ocidental, hoje, essa doença é mantida sob controle graças às terapias farmacológicas que permitem que um soropositivo leve uma vida totalmente normal, com uma expectativa de vida semelhante à das pessoas não afetadas pelo vírus. Mas, em muitos países africanos, onde a despesa per capita com saúde não supera os 10 dólares por ano, o acesso a terapias de combate à Aids ainda é muito difícil, e o vírus continua se espalhando


Em Drodro, na República Democrática do Congo, eu vi com os meus olhos as condições em que vivem os doentes de Aids que não podem pagar os nove dólares por dia exigidos pelo hospital para a internação. Sem falar do orfanato, construído ao lado do hospital, que hospeda muitíssimas crianças que perderam seus pais. 


Sabemos que a Aids pode ser em parte combatida com a prevenção e o uso dos preservativos. Diante desse drama, como não promover a utilização da camisinha para contribuir com o controle da difusão do vírus? É ou não é um dever dos governos fazer escolhas e tomar decisões sobre esse tema? E, com relação ao ensino oficial da Igreja Católica, não se trataria, no entanto, de optar por um mal menor e contribuir com a salvação de muitas vidas humanas?


Carlo Maria Martini – Os números que você cita provocam perplexidade e desolação. No nosso mundo ocidental, é muito difícil dar-se conta do quanto se sofre em certas nações Tendo-as visitado pessoalmente, fui testemunha desse sofrimento, suportado em geral com grande dignidade e quase em silêncio. É preciso fazer de tudo para combater a Aids, como já defendi em muitas ocasiões e como também escrevemos no nosso diálogo anterior, em 2006. Certamente o uso do preservativo pode constituir, em certas situações, um mal menor


Depois, há a situação particular dos cônjuges, um dos quais está infectado com Aids. Este é obrigado a proteger o outro parceiro, e este, por sua vez, também deve poder se proteger. Mas a questão é, ao contrário, se convém que sejam as autoridades religiosas que promovam tal meio de defesa, quase considerando que os outros meios moralmente sustentáveis, incluindo a abstinência, sejam postos em um segundo plano, enquanto se corre o risco de promover uma atitude irresponsável. Uma coisa é o princípio do mal menor, aplicável em todos os casos previstos pela doutrina ética, outra coisa é o sujeito a quem cabe expressar essas coisas publicamente.


Acredito que a prudência e a consideração das diversas situações permitirá que cada um contribua eficazmente com a a luta contra a Aids, sem favorecer, com isso, os comportamentos não responsáveis.

Tradução de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quinta-feira, 29 de março de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507958-nao-tenham-medo-do-sexo-dialogo-com-carlo-maria-martini

FIDEL E O PAPA

Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Diocesano de Jales - SP

Fidel Castro e o Papa Bento XVI em visita a Cuba
Bento 16 acaba de visitar o México e Cuba. Ele já tinha visitado o Brasil em 2007. E já tem outra viagem marcada para o nosso país, no ano que vem. 
Não era conveniente visitar pela segunda vez o Brasil, sem antes ir ao menos para algum outro país da América Latina. Assim, foi ao México, e aproveitou para visitar também Cuba.


O momento mais pitoresco da visita a Cuba foi, certamente, o encontro de Bento 16 com Fidel Castro. Pelos relatos, a conversa foi uma troca de amabilidades, como convinha para o momento. 
Na verdade, os recados já tinham sido dados, de maneira sutil, na homilia da missa que precedeu o encontro de ambos
O Papa aproveitou as leituras do dia, para ir direto ao assunto. 
Da história dos três jovens na fornalha, no exílio da Babilônia, sob o comando do soberano Nabucodonosor, Bento 16 tirou a lição da prioridade que a fé possui, para formar as consciências e ditar o procedimento das pessoas
os três jovens preferiam morrer queimados pelo fogo que trair a sua consciência e a sua fé”.  


Em poucas palavras, está posto o direito de todos se guiarem sua consciência pelos ditames de sua fé.  


Em seguida, Bento 16 aborda o assunto que lhe é muito caro, ao qual volta com insistência: a estreita ligação entre a verdade e a liberdade, entre a fé e a razão: 
Com efeito, a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica.” 


O Papa não perde tempo. Aborda em seguida a questão das ideologias, que cegam a inteligência humana, impedindo-a de encarar a verdade de maneira livre e ao mesmo tempo comprometida.
Primeiro estigmatiza o ceticismo e o relativismo, afirmando:
Muitos, todavia, preferem os atalhos e procuram evitar essa tarefa. Alguns, como Pôncio Pilatos, ironizam sobre a possibilidade de conhecer a verdade, proclamando a incapacidade do homem de alcançá-la ou negando que exista uma verdade para todos... como no caso do ceticismo e do relativismo”. 
Missa presidida pelo Papa Bento XVI em Santiago de Cuba - 26 de março de 2012
Em seguida, o Papa questiona o fechamento ideológico, constando que... 
Há outros que interpretam mal esta busca da verdade, levando-os à irracionalidade e ao fanatismo, pelo que se fecham na SUA verdade» e tentam impô-la aos outros. 


Aí o Papa volta ao assunto que lhe é muito caro: O relacionamento entre fé e razão: 
Fé e razão são necessárias e complementares na busca da verdade. Deus criou o homem com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotou-o de razão. Certamente não é a irracionalidade que promove a fé cristã, mas a ânsia da verdade. Todo o ser humano deve perscrutar a verdade e optar por ela quando a encontra, mesmo correndo o risco de enfrentar sacrifícios.” 


Em decorrência destes pressupostos, Bento 16 aborda a questão da ética, que se constitui em plataforma comum em torno de valores fundamentais, em cuja defesa todos podemos nos encontrar. 
A verdade sobre o homem é um pressuposto imprescindível para alcançar a liberdade, porque nela descobrimos os fundamentos duma ética com que todos se podem confrontar... É este patrimônio ético que pode aproximar todas as culturas, povos e religiões, as autoridades e os cidadãos, os cidadãos entre si, os crentes em Cristo com aqueles que não crêem n’Ele”. 


No contexto dos valores éticos, Bento 16 fundamenta o direito que o cristianismo tem, não de impor, mas de propor o chamado de Cristo “para conhecer a verdade que nos torna livres”. 
Poucas vezes um sermão foi tão bem endereçado. Não só para Fidel.  Mas para todos que desejam praticar a liberdade de pensamento, e ao mesmo tempo, assumir o compromisso com a verdade.  Assim poderemos superar o fanatismo que cega, e o descompromisso que aliena.
E quem quiser se aventurar pelo caminho da fé, sempre acompanhado pela razão, poderá encontrar Jesus Cristo, que é a verdade em pessoa e nos impele a partilhar este tesouro com os outros.


Fonte: Diocese de Jales - 29/03/2012 - Internet: http://www.diocesedejales.org.br/portal/content.php?catid=25&notid=1750

Filmes online devem superar DVDs nos EUA [Sinal da época!]

AGÊNCIAS INTERNACIONAIS 

Estudo mostra que serão comprados 1 bilhão de filmes a mais por streaming que em discos


Os DVDs e Blu-Rays estão desaparecendo. Neste ano, o consumo de filmes por streaming (assistidos diretamente da internet) deve ultrapassar os "velhos" discos no mercado americano, segundo a IHS Screen Digital. E esses números consideram somente os filmes comprados legalmente.


A diferença entre os filmes assistidos pela internet e por meio de mídias físicas pode chegar a 1 bilhão neste ano. "Isso dá fim à velha ideia de que os consumidores não aceitariam conteúdo ‘premium’ distribuído online", escreveu Dan Cryan, analista sênior da IHS. "O principal fator que impulsiona o consumo é o crescimento dos assinantes digitais do Netflix, e a mudança correspondente no consumo de filmes na direção de algo mais parecido com a televisão, com a experimentação e a amostragem que isso implica."


Enquanto o consumo de DVDs e Blu-Rays deve atingir 2,4 bilhões de filmes comprados, os serviços de streaming serão responsáveis por 3,4 bilhões de filmes vistos. Netflix, Hulu, Crackle e Sky são alguns dos serviços de streaming disponíveis.


Mais do que apontar a tendência pelo streaming, os dados mostram uma clara mudança comportamental em relação ao consumo de produtos de entretenimento no meio digital. No ano passado, o formato online correspondeu a 1,4 bilhão de filmes vistos. Se a previsão se confirmar, o streaming terá crescido 143% em um ano, enquanto as mídias físicas cairão de 2,6 bilhões para 2,4 bilhões (queda de 7,7%).


Segundo a IHS, o preço é o maior responsável por essa mudança. Enquanto um filme por streaming custa em média US$ 0,50, o consumo de DVDs e Blu-Rays chega a US$ 4,70.


Desafio


Essa mudança para o vídeo online pode ter um impacto na indústria. "O crescimento do vídeo sob demanda, no modelo de assinaturas, cria algumas preocupações potenciais enquanto avança: enquanto os consumidores são agraciados com um catálogo mais profundo de conteúdo para assistir, existe uma chance real de que eles não sintam a necessidade de manter o mesmo nível de gastos em entretenimento doméstico", apontou Cryan.


Nos EUA, a Netflix tem enfrentado concorrência crescente da Amazon e das próprias empresas de TV paga. Como destacou o site de notícias de tecnologia PC World, "a ascensão do vídeo online sobre os discos Blu-Ray, de qualidade superior, é outro exemplo da conveniência vencendo a qualidade". Isso já havia acontecido no caso da vitória do MP3 sobre os CDs. 


Fonte: O Estado de S. Paulo - Negócios - Quinta-feira, 29 de março de 2012 - Pg. B24 - Internet: http://economia.estadao.com.br/noticias/negocios+tecnologia,filmes-online-devem-superar-dvds-nos-eua,107765,0.htm

Ver TV é atividade preferida pelo brasileiro no tempo livre, leitura fica em sétimo

Amanda Cieglinski
Agência Brasil

O índice de brasileiros que prefere ler no seu tempo livre caiu de 36% entre 2007 para 28% em 2011. É o que aponta a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada hoje (28) pelo Instituto Pró-Livro. O estudo tem como objetivo identificar os hábitos e as preferências dos leitores brasileiros. 

  • Assistir televisão continua sendo a atividade preferida e foi escolhida por 85% dos entrevistados
  • Em seguida aparecem escutar música ou rádio (52%)
  • descansar (51%)
  • reunir-se com amigos e a família (44%)

Cada entrevistado escolheu até cinco opções.


A leitura – incluindo jornais, livros, revistas e textos na internet – aparece em sétimo lugar na lista das atividades que o brasileiro mais gosta de fazer no seu tempo livre. Enquanto o percentual de entrevistados que declara gostar de ler cai, o grupo dos que aproveitam o tempo ocioso para acessar a internet subiu de 18% para 24% entre 2007 e 2011. A pesquisa também identificou um novo comportamento que não estava no estudo anterior: acessar as redes sociais, indicado como atividade frequente por 18% dos entrevistados.


Setenta e cinco por centro dos entrevistados dizem que leem por prazer e 25% por obrigação. Entre os entrevistados, 49% disseram ler mais hoje do que no passado, 28% acreditaram ler menos e 20% avaliaram que leem na mesma quantidade. A principal razão apontada por aqueles que diminuíram o volume da leitura foi o desinteresse (78%), o que inclui a falta de tempo, a preferência por outras atividades e a “falta de paciência para ler”. Apenas 4% apontaram a dificuldade de acesso aos livros como motivo para ler menos, o que inclui o preço do livro, a falta de bibliotecas perto de casa ou de livrarias.


Entre os participantes, 64% concordaram totalmente com a afirmação “ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica”. Ao mesmo tempo, a maior parte diz que não conhece ninguém que tenha progredido na vida por ler muito.


O estudo também perguntou ao entrevistado qual era o significado da leitura para ele. Para 64%, a leitura é uma “fonte de conhecimento para a vida”. Entre as principais respostas obtidas estão ainda “fonte de conhecimento para atualização profissional” (41%) e “fonte de conhecimento para a escola” (35%). Apenas 6% consideram a leitura uma atividade cansativa e 5% acham que é entediante.

Fonte: Agência Brasil - Empresa Brasil de Comunicação - Cultura/Educação - 28/03/2012 - 15h22 - Internet: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-03-28/ver-tv-e-atividade-preferida-pelo-brasileiro-no-tempo-livre-leitura-fica-em-setimo
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Brasileiro lê, em média, quatro livros por ano

Agência Brasil

Pesquisa aponta que metade da população do país tem leitura como hábito; gênero preferido dos entrevistados é a Bíblia

O brasileiro lê em média quatro livros por ano e apenas metade da população pode ser considerada leitora. É o que aponta a pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", divulgada nesta quarta-feira (28) pelo Instituto Pró-Livro. O estudo realizado entre junho e julho de 2011 entrevistou mais de 5 mil pessoas em 315 municípios.

Em 2008, o instituto divulgou pesquisa semelhante que apontava a leitura média de 4,7 livros por ano. Entretanto, a entidade não considera que houve uma queda no índice de leitura dos brasileiros, já que a metodologia da pesquisa sofreu pequenas alterações para torná-la mais precisa.

De acordo com o levantamento, o Brasil tem hoje 50% de leitores ou 88,2 milhões de pessoas. Se encaixam nessa categoria aqueles que leram pelo menos um livro nos últimos três meses, inteiro ou em partes

Entre as mulheres, 53% são leitoras, índice maior do que o verificado entre os entrevistados do sexo masculino (43%).

Ao perguntar para os entrevistados quantos livros foram lidos nos últimos três meses, período considerado pelo estudo como de mais fácil para lembrança, a média de exemplares foi 1,85. Desse total, 1,05 exemplar foi escolhido por iniciativa própria e 0,81 indicados pela escola.

Entre os estudantes, a média de livros lidos passa para 3,41 exemplares nos últimos três meses. Os alunos leem 1,2 livro por iniciativa própria, divididos entre literatura (0,47), Bíblia (0,15), livros religiosos (0,11) e outros gêneros (0,47).

De acordo com o estudo, a Bíblia aparece em primeiro lugar entre os gêneros preferidos, seguido de livros didáticos, romances, livros religiosos, contos, literatura infantil, entre outros.

Fonte: Agência Brasil - Empresa Brasil de Comunicação - Cultura/Educação - 28/03/2012 - 14h02 - Internet: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-03-28/brasileiro-le-em-media-quatro-livros-por-ano

quarta-feira, 28 de março de 2012

Cerca de 75% dos brasileiros jamais pisaram em uma biblioteca, diz estudo

Edison Veiga e Paulo Saldana

Pesquisa do Instituto Pró-Livro mostra que 71% da população têm fácil acesso a uma biblioteca

O desempregado gaúcho Rodrigo Soares tem 31 anos e nunca foi a uma biblioteca. Na tarde desta terça-feira, ele lia uma revista na porta da Biblioteca São Paulo, zona norte da cidade. "A correria acaba nos forçando a esquecer essas coisas." E Soares não está sozinho. Cerca de 75% da população brasileira jamais pisou numa biblioteca - apesar de quase o mesmo porcentual (71%) afirmar saber da existência de uma biblioteca pública em sua cidade e ter fácil acesso a ela.


Vão à biblioteca frequentemente apenas 8% dos brasileiros, enquanto 17% o fazem de vez em quando. Além disso, o uso frequente desse espaço caiu de 11% para 7% entre 2007 e 2011. A maioria (55%) dos frequentadores é do sexo masculino.


Os dados fazem parte da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), o mais completo estudo sobre comportamento leitor. O Estado teve acesso com exclusividade a parte do levantamento, cuja íntegra será divulgada nesta quarta-feira em Brasília.


Para a presidente do IPL, Karine Pansa, os dados colhidos pelo Ibope Inteligência mostram que o desafio, em geral, não é mais possibilitar o acesso ao equipamento, mas fazer com que as pessoas o utilizem. "O maior desafio é transformar as bibliotecas em locais agradáveis, onde as pessoas gostam de estar, com prazer. Não só para estudar."


A preocupação de Karine faz todo sentido quando se joga uma luz sobre os dados. Ao serem questionados sobre o que a biblioteca representa, 71% dos participantes responderam que o local é "para estudar". Em segundo lugar aparece "um lugar para pesquisa", seguido de "lugar para estudantes". Só 16% disseram que a biblioteca existe "para emprestar livros de literatura". "Um lugar para lazer" aparece com 12% de respostas.


Perfil
A maioria das pessoas que frequentam uma biblioteca está na vida escolar - 64% dos entrevistados usam bibliotecas de escolas ou faculdades. Dados sobre a faixa etária (mais informações nesta página) mostram que, em geral, as pessoas as utilizam nessa fase e vão abandonando esse costume ao longo da vida.
Pesquisa RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL (Ibope e Instituto Pró-Livro)
A gestora ambiental Andrea Marin, de 39 anos, gosta de livros e lê com frequência. Mas não vai a uma biblioteca desde que saiu dos bancos escolares. "A imagem que tenho é de que se trata de um lugar de pesquisa. E para pesquisar eu sempre recorro à internet", disse Andrea.


Enquanto folheava uma obra na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, na Pompeia, zona oeste, diz que prefere as livrarias. Interessada em moda, ela procurava livros que pudessem ajudá-la com o assunto. "Nem pensei em procurar uma biblioteca. Nas livrarias há muita coisa, café, facilidades. E a biblioteca, onde ela está?", questiona. Dez minutos depois, passa no caixa e paga R$ 150 por dois livros.
Pesquisa RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL (Ibope e Instituto Pró-Livro)
O estudante universitário Eduardo Vieira, de 23 anos, também não se lembra da última vez que foi a uma biblioteca. "Moro em Diadema e lá tem muita biblioteca. A livraria acaba mais atualizada", diz ele, que revela ler só obras cristãs. "Acho que nem tem esse tipo de livro nas bibliotecas." 


Fonte: O Estado de S. Paulo - Vida/Educação - Quarta-feira, 28 de março de 2012 - Pg. A14 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,cerca-de-75-dos-brasileiros-jamais-pisaram-em-uma-biblioteca-diz-estudo,854168,0.htm
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2 PERGUNTAS PARA... 
José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti

José Luiz Goldfarb
1. Nos dias de hoje,o que uma biblioteca precisa fazer para atrair leitores?

Arejar-se, colorir-se, conectar-se e, principalmente, ter pessoal alegre, provocador, orientador da leitura. É preciso abrir as bibliotecas nos horários de lazer, à noite, aos fins de semana e feriados.

2. Poucos frequentam bibliotecas porque elas ainda são vistas como obrigação escolar?

Sem dúvida. E, com essa mentalidade, a frequência por prazer fica ainda mais difícil. Infelizmente, o costume de visitar bibliotecas não faz parte da tradição de nosso povo.

O papa, o crocodilo e o regime

Yoani Sánchez*

Yoani Sánchez - jornalista e blogueira cubana
Três dias antes de a comitiva papal aterrissar em nossa ilha, chegou um curioso embaixador da defesa do meio ambiente, da paz e a solidariedade. Um belo crocodilo cubano - que tinha sido exportado ilegalmente para a Itália - e foi devolvido, tendo sido acolhido entusiasticamente em nosso Zoológico Nacional. O já famoso réptil foi doado a Bento XVI em janeiro e o papa decidiu devolvê-lo ao meio onde nasceu. Talvez para simbolizar que Cuba ainda poderá recuperar seu lugar em seu hábitat mundial, seu espaço entre as nações democráticas.


Quando o papa chegou a Santiago de Cuba, o animal ainda estava pouco a pouco se habituando à nova dieta e ao inclemente sol tropical. O crocodilo estava de volta, Joseph Ratzinger apenas de passagem.


Os católicos cubanos esperaram 14 longos anos para receber novamente um sucessor de Pedro. A visita de João Paulo II em 1998 deixou uma profunda impressão nos fiéis e conseguiu que as autoridades decretassem desde então o dia 25 de dezembro feriado nacional.
Difícil igualar o impacto causado por aquele papa polonês numa sociedade que tentava acordar da escura noite do "período especial".


Contudo, sabendo que a corrente de afeto deixada por Karol Wojtyla é insuperável, Bento XVI agora quis transcender à sua maneira. No avião que o levava ao México, ele disse que o comunismo já não funciona em Cuba, frase muito mais direta do que qualquer palavra de seu predecessor sobre o sistema cubano. Como disse um simpático cubano num clube desportivo, "este papa parece os jogadores alemães... não jogam com tanta graça e beleza como os brasileiros, mas fazem gols".


Ao longo das últimas semanas, em todas as associações de trabalhadores e de ensino foram realizadas reuniões para convocar todos, operários e estudantes, às missas na Praça Antonio Maceo e na Praça da Revolução. "Ninguém deve faltar", disseram as autoridades.


O governo, querendo passar a imagem de controle, tem feito uma meticulosa "limpeza ideológica" por toda a ilha. Os métodos empregados para isso vão desde prisões domiciliares, corte de linhas telefônicas, ameaças, deportações de uma província para outra e detenção dos dissidentes mais atuantes. A onda repressiva já é conhecida popularmente como "operação voto de silêncio". Até mendigos e pedintes que perambulam pelas ruas de Santiago e Havana foram recolhidos até o fim da visita papal. Tudo tem de se adequar a um roteiro escrito com antecipação e não exatamente nas salas do Vaticano.


Mas os imprevistos não param de surgir. No dia 13, um grupo de 13 pessoas entrou no templo da Virgem da Caridade do Cobre, em Havana, e exigiu que os padres fizessem chegar um documento com demandas ao papa. Dois dias depois, em torno da meia-noite, a hierarquia religiosa autorizou a entrada no local de um comando - não armado - que retirou à força os ocupantes. Embora vários dissidentes tenham se manifestado contrários à ocupação com fins políticos da paróquia, a retirada dos manifestantes recebeu um repúdio avassalador. A ponto de muitas pessoas assegurarem que, com aquele comportamento, foi jogado - e perdido - o futuro papel da alta hierarquia da Igreja em nossa transição. As Damas de Branco por seu lado, pediram ao papa que lhes concedesse ao menos um minuto do seu tempo para apresentarem a outra Cuba que a versão oficial nunca mostrará. Até agora não há nenhum sinal de que Sua Santidade vá recebê-las. Tampouco receberá outros ativistas da sociedade civil.


Se não ocorrer nenhum encontro com esse setor social, o governo de Raúl Castro procurará apresentar a viagem do papa como um gesto que legitima seu governo. A hierarquia eclesiástica, por seu lado, tentará recuperar um pouco do terreno social e educativo que lhe foi tirado a partir de 1959. Já conseguiu permissão para construir um novo seminário e transmitir as missas mais importantes pela TV nacional.


Para trás ficaram os anos de fanatismo antirreligioso nos quais as pessoas eram expulsas do emprego ou do seu centro de estudos por ter um quadro do Sagrado Coração de Jesus na sala de casa.


Contudo, a Igreja ainda está muito longe de poder ter o espaço público que tem em outros países da América Latina. A visita de Bento XVI pode ser determinante para ela alcançar esse objetivo. Mas somente o conseguirá se o papa transcender o cenário pastoral e estender seu manto protetor sobre a pluralidade que emerge em Cuba, nesta ilha com forma de crocodilo adormecido, sedado.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO.


* Yoani Sánchez é jornalista cubana, autora do blog "Generación" e colunista do "Estado". Em 2008, ganhou o prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo.


Fonte: O Estado de S. Paulo - Internacional - Quarta-feira, 28 de março de 2012 - Pg. A10 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-papa-o-crocodilo-e-o-regime-,854251,0.htm

O sonho da Rio+20

RICARDO ABRAMOVAY*

Os documentos iniciais da ONU e o do Brasil para a Rio+20 cultivam o mito do crescimento econômico perpétuo de forma completamente acrítica


Ricardo Abramovay - economista
Não é trivial que 21 cientistas de várias partes do mundo, muitos deles com um passado de importantes responsabilidades governamentais, iniciem um manifesto com a célebre frase de Luther King: nós temos um sonho.
Menos trivial ainda é que esses cientistas tenham a humildade de reconhecer que a habilidade humana de fazer foi além da capacidade humana de compreender


A civilização contemporânea vive a explosiva combinação de evolução tecnológica rápida e evolução ética e social lenta.


Essas são apenas algumas das ideias expressas pelos ganhadores de uma espécie de Nobel do Meio Ambiente (O Prêmio Planeta Azul, que existe desde a Rio-92), entre os quais José Goldemberg, ex-reitor e professor da USP.


O sonho revelado em seu texto ("Meio ambiente e os desafios do desenvolvimento: o imperativo da ação") é fundamental por se distanciar em ao menos dois pontos do pesadelo representado tanto pelo documento inicial da ONU para a Rio+20 (conhecido como "draft zero") como pela própria contribuição brasileira à conferência.


O primeiro ponto é a constatação de que o uso dos recursos materiais, energéticos e bióticos por parte do sistema econômico já compromete a qualidade da vida social em ao menos três áreas, como mostra o estudo publicado na revista "Nature" pelo grupo liderado por Johan Rockstrom: mudanças climáticas, biodiversidade e ciclo do nitrogênio.


Em outras seis áreas (acidificação dos oceanos, água, uso do solo, poluição, aerossóis e ciclo do fósforo), a ameaça é imensa.
Por esta razão, e apoiado em ciência, o documento denuncia o "mito do crescimento econômico perpétuo adotado entusiasticamente por políticos e economistas para evitar decisões difíceis".


O "draft" da ONU e o documento brasileiro para a Rio+20 cultivam este mito de forma totalmente acrítica.
Fazem isso, segundo ponto, sob o argumento de que a economia verde será capaz de compatibilizar o tamanho do sistema econômico, sempre maior, com os recursos limitados dos ecossistemas.


Os dados não corroboram esta fé na técnica. É essa a razão pela qual os cientistas do Prêmio Planeta Azul dela se distanciam.
Mas não apenas eles: documento da consultoria KPMG divulgado recentemente mostra que cada dólar do PIB global de 2011 foi obtido com 21% a menos de emissões de gases de efeito estufa e 23% a menos de materiais que em 1990.


É um progresso extraordinário, que mostra o potencial da economia verde. No entanto, a produção e o consumo aumentaram tanto que, apesar dessa queda por unidade de produto, a extração global de materiais da superfície terrestre se elevou, nos últimos vinte anos, 41%. As emissões aumentaram 39%.


O caso mais preocupante é o dos fertilizantes nitrogenados, cujo uso aumentou globalmente 135% nos últimos vinte anos, três vezes mais que a produção alimentar.


Sistemas de inovação voltados para a sustentabilidade são fundamentais. Mas achar que eles permitirão suprimir os limites é exprimir uma crença mística no poder da técnica que a ciência não autoriza e a ética não recomenda.


* RICARDO ABRAMOVAY, 58 anos, é professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP.


Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Terça-feira, 27 de março de 2012 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/33665-o-sonho-da-rio20.shtml

Sem papa

VLADIMIR SAFATLE

Nanni Moretti - cineasta italiano
Nanni Moretti é um cineasta que há tempos procura reinventar o cinema de engajamento político. Seu filme "O Crocodilo" é talvez a melhor representação da letargia da sociedade italiana diante do fenômeno Silvio Berlusconi. Agora, com "Habemus Papam", somos apresentados à história de um cardeal escolhido para se tornar papa, mas que, no momento de sua consagração, tem um ataque de pânico.


O longa não deve ser visto como uma crítica à igreja, mas como a metáfora de uma época sem líderes. "Ser papa" é uma nomeação simbólica que parece pesada demais ao protagonista. Afinal, suas incertezas, sua nostalgia das escolhas recusadas (como ser ator em vez de cardeal), seu "deficit de acolhimento" (como lhe diagnostica uma psicanalista), parecem-lhe colocar muito longe da dignidade simbólica do papado. Ele decididamente não é a pessoa certa.


No entanto, em uma época na qual toda exigência de superação de limites psicológicos tende a ser vista como produtora potencial de traumas, em que a posição de vítima do desamparo parece tocar a todos, o sentimento de estranhamento profundo em relação a papéis sociais de autoridade tende a se tornar regra.


Os diagnósticos sociais de crise de legitimidade são tanto uma constante sociológica como uma fonte de sofrimento psíquico, como o psicanalista Jacques Lacan compreendeu ao tematizar aquilo que ele chamava de "declínio da imago paterna".


O recurso à psicanálise é ainda mais correto se lembrarmos que, no filme, o papa acaba no divã. Ou melhor, ele acaba na impossibilidade de ir ao divã, já que seu psicanalista (o próprio Moretti) não consegue sequer iniciar uma sessão. A única sessão que o cardeal fará será com a ex-mulher de Moretti, também psicanalista, que tem só uma coisa a dizer a todos os pacientes: seu desamparo infantil precisa ser respeitado.


Mas, caso um trabalho analítico realmente começasse, talvez o cardeal pudesse descobrir que, ao contrário do que pensava, ele era a única pessoa realmente adequada para ser papa. Ele era capaz de não calar o estranhamento diante de seus papéis sociais. Era capaz de suspeitar de si mesmo, o que lhe abria margens para agir sem certezas, com a consciência de sua falibilidade.


Só alguém assim pode levar a cabo grandes reformas que duram mais do que um verão. Há alguns que veriam nisso um sinal de fraqueza. Outros veriam a verdadeira força de quem tem certeza de que precisa saber, ao mesmo tempo, agir com o ímpeto da necessidade, mas sem segurança ontológica alguma.


Ou seja, alguém que, como dizia Lacan, seria capaz de dar aquilo que não tem. Talvez, no fundo, essa seja uma boa definição do que podemos esperar de um verdadeiro líder.


Fonte: Folha de S. Paulo - Opinião - Terça-feira, 27 de março de 2012 - Pg. A2 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/33663-sem-papa.shtml

segunda-feira, 26 de março de 2012

Jesus e a ética da esperança para os homens de boa vontade

Marco Ansaldo
La Repubblica (Roma - Itália)
22.03.2012

D. Vincenzo Paglia - bispo de Terni - Itália
O que resta hoje dos ensinamentos de Jesus? Da sua indignação, da sua caridade, do sacrifício? E onde está, no mundo, a compreensão, a amizade? Mas, acima de tudo, onde está o ser humano? Perguntas pesadas como rochas que são propostas por um livro denso e forte, e que também se referem ao caso italiano, com as muitas distorções da justiça, da ineficiência, da obscuridade em nível institucional.


Um alto prelado e um escritor atento aos temas da religião se puseram a caminho levando essas interrogações. E o fizeram em Jerusalém, cidade embebida por fés diversas (cujos habitantes, dizia Arthur Koestler, o autor de O Zero e o Infinito, "estão intoxicados pela religião"), em uma peregrinação bem pensada aos lugares da Paixão


Franco Scaglia - jornalista italiano
Vincenzo Paglia, bispo de Terni, conselheiro principal da Comunidade de Santo Egídio e desde sempre comprometido com uma atividade diplomática voltada à conquista da paz, e Franco Scaglia, de Camogli, homem do mar e autor de romances de sorte, optaram por dialogar na única cidade do mundo onde a espiritualidade está em movimento contínuo. Um lugar metade de peregrinos e metade de grandes escritores, de Chateaubriand a Disraeli, de Gogol a Flaubert, de Melville a Mark Twain.


E nesse Cercando Gesù [Buscando Jesus], com o subtítulo "Em um mundo cada vez mais confuso ainda somos capazes de amar?" (Ed. Piemme), continuação ideal do seu livro anterior In cerca dell'anima [Em busca da alma], vencedor do Prêmio Hemingway, tentaram juntos uma exploração da figura do profeta de Nazaré, ancorando-a na necessidade de uma nova aliança com o ser humano.


Mas se os dois autores, no seu primeiro trabalho, ilustravam o risco de uma paralisia, da inércia moral e espiritual do mundo (e acima de tudo da Itália), aqui eles mudam de passo. E Jerusalém, emblema das divisões entre os seres humanos, se torna o centro do seu colóquio, "em uma realidade contemporânea – explica Scaglia usando palavras duras – que nos atinge pela sua inércia e injustiça, e sempre pela sua sordidez".


A escolha de Jerusalém, cidade em guerra consigo mesma, não é casual. Tê-la sob seus pés, percorrê-la, acariciar as suas pedras, significa deparar-se todos os dias com a memória do passado. Portanto, a pergunta sobre Jesus, diz Paglia, "é central também para o ser humano contemporâneo. Há uma dimensão que ainda inquieta e interroga para além da simples fenomenologia histórica". Uma altura moral que o bispo, em várias passagens, lembra ter enfrentado em um diálogo com Eugenio Scalfari.


Jerusalém - vista da cidade
Nesse contexto, o artifício de fazer Jesus percorrer novamente a Via Dolorosa partindo do fim, do Gólgota, torna-se a tentativa de passar por todas as "vias dolorosas" de hoje, porque somente atravessando-as é possível projetar um futuro melhor. E a peregrinação continua, estação por estação, mas não sem ter analisado as últimas sete palavras pronunciadas por Jesus na cruz. Palavras que podem ser reinterpretados na atualidade: das revoltas dos países árabes à forma como conciliar ética e negócios. 


Assim, tornam-se fulgurantes as páginas que descrevem a coroa de espinhos posta sobre a cabeça de Jesus, comparada com o arame farpado que ainda hoje, apesar do progresso e da tecnologia cada vez mais avançada, resiste na sua brutal eficácia marcando "as fronteiras e os campos de batalha" . E poderosa é a imagem de Jesus de costas, em que o que conta não é o rosto, mas sim a figura precisamente, as costas que suportam o sofrimento e a redenção do mundo.


Paglia e Scaglia tentam uma visão do futuro para um desenvolvimento que não seja meramente econômico. E, nas raízes do cristianismo, identificam a força de um coenvolvimento oferecido a todas as pessoas de "boa vontade". Assim, na última parte, escrita quatro mãos, eles apresentam propostas concretas, identificando três palavras de ordem: integridade da Criação, perdão, gratuidade.


O que pode ajudar, defendem, é a imagem da Arca de Noé, posto como símbolo da nova Aliança de Deus com o ser humano. E, sob essa imagem, percorre um elenco de ideias concretas, para "se preparar para os desafios que a vida nos apresenta" e "suportar a dor e as adversidades sem se lamentar". 


Ao exemplo italiano são são dedicadas linhas amargas, mas cheias de esperança: "Em um país onde a inércia parece bloquear os ânimos, é urgente ter um sonho que aqueça os corações, que abra as mãos, que mova de maneira coletiva para um novo futuro. Só uma nova visão pode desfazer o nó profundo da crise de hoje". 


Mas a ética sozinha não basta. Norberto Bobbio chegou a sustentar, para a sobrevivência da democracia, a indispensabilidade da religião. E, do alto do seu magistério, o cardeal Martini alertou que "um homem não é mudado por força de prescrições éticas!". O ser humano hoje sofre por falta de visão. Invadido por luzes demais, tentou se fechar em si mesmo. Porque o futuro não se realiza apenas com a ciência. Há necessidade de profundidade e de reunir as muitas diversidades com o fim de um destino único.

Tradução de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Segunda-feira, 26 de março de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507835-jesus-e-a-etica-da-esperanca-para-os-homens-de-boa-vontade

ONU diz que 2011 foi o 11º ano mais quente da história, apesar do La Niña

BBC Brasil
23.03.2012
Organização Meteorológica, ligada às Nações Unidas, divulgou relatório. Temperatura no ano passado ficou 0,4ºC acima da média entre 1961-1990. O ano de 2011 foi o 11º mais quente da história, confirmou nesta sexta-feira a Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada às Nações Unidas (ONU).


A entidade já havia divulgado em novembro, durante a COP 17, na África do Sul, um relatório que previa temperaturas mais altas, mesmo com o resfriamento influenciado pelo fenômeno La Niña.


Michel Jarraud - Secretário-Geral da OMM
Na média, as temperaturas globais em 2011 foram menores que o nível recorde atingido no ano anterior, mas ainda ficaram 0,4ºC acima da média entre 1961-1990, afirmou o relatório. "O mundo está aquecendo por causa das atividades humanas e isto está resultando em um impacto de longo alcance e potencialmente irreversível para nossa Terra, atmosfera e oceanos", disse o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud.


O La Niña, fenômeno climático natural ligado a fortes chuvas e enchentes na região Ásia-Pacífico e América do Sul e seca na África, estava ativo no Oceano Pacífico tropical até o último mês de maio.


Chuvas no Rio foram pior desastre climático no ano
Enchentes no Estado do Rio de Janeiro - Janeiro de 2011
Em novembro passado, durante a conferência da ONU sobre mudança do clima, em Durban, a OMM disse que as enchentes do Rio de Janeiro foram consideradas o pior “evento único” do ano passado, pela sua alta letalidade, causando a morte de centenas de pessoas em poucos dias.


Os anos em que ocorrem La Niña costumam ser mais frios que aqueles que o precedem e seguem. Este padrão se repetiu em 2011, que está sendo mais frio que o ano passado, mas já num patamar acima do que se registrava anteriormente.


Outros eventos climáticos severos foram registrados ao redor do planeta este ano, como a grave seca no leste da África e as enchentes no Sudeste Asiático.


Os Estados Unidos perderam mais de US$ 1 bilhão em 14 ocorrências meteorológicas extremas, como seca no sul, incluindo o estado do Texas, e enchentes no norte, aponta a OMM. O país teve ainda uma grande quantidade de tornados. Em maio, no estado de Missouri, foram 157 mortes causadas pelos ventos, no tornado mais letal desde 1947. O Canadá registrou algumas de suas piores enchentes também, indica a OMM.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Segunda-feira, 26 de março de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507836-onu-diz-que-2011-foi-o-11o-ano-mais-quente-da-historia-apesar-do-la-nina

Os melhores professores para as piores escolas

Maria Alice Setubal*

Maria Alice Setubal
Sistema de bônus cria competição danosa e afasta bons professores dos alunos ruins; a educação não é como o mercado, em que a concorrência pode ser saudável 

No momento em que o Ministério da Educação anuncia o novo piso nacional dos professores, discutido pelos principais editoriais do país, faz-se necessária e urgente a defesa da valorização do professor, principal agente da educação. 
Sem o reconhecimento da profissão, não alcançaremos uma educação de qualidade compatível com os desafios da sociedade contemporânea e com a posição brasileira de sexta economia mundial. 


Além de dominar o conteúdo a ser ensinado, o professor precisa se responsabilizar pelo aprendizado de seus alunos. Para estimular esse compromisso, muitas secretarias de educação criaram um sistema de incentivos e bônus relacionados aos resultados dos alunos e das escolas. 
Se, a princípio, tal medida parece acertada por se basear no mérito, por outro lado ela gera uma competição por recursos entre as escolas que é danosa ao sistema educacional. A educação não deve e não pode ser tratada como o mercado, em que a concorrência pode ser saudável. 


Temos um sistema educacional extremamente desigual e, por isso, competição e incentivos, se não implementados com cautela, poderão gerar maiores desigualdades. 
Professores e outros profissionais do ensino irão buscar escolas mais bem avaliadas ou trabalharão somente com os alunos com maiores recursos culturais. Assim, receberão mais altas recompensas, gerando um fosso ainda maior entre pobres e ricos, pois as escolas da periferia dificilmente serão escolhidas por docentes estáveis e concursados


Assim, escolas localizadas nessas áreas precisam de políticas especiais, articuladas com seus territórios e comunidades. Elas precisam de apoio das outras escolas do entorno melhores avaliadas para trocar experiências, rompendo com a lógica de competição. Caso contrário, continuarão isoladas, incorporando todos os problemas da alta vulnerabilidade e da exclusão social. 


Países como o Canadá e a Finlândia, além da cidade de Xangai, três dos melhores colocados nos exames do Pisa (avaliação educacional internacional), instituem consórcios e arranjos administrativos, criando condições para que escolas de excelências e equipes de professores e diretores desenvolvam projetos e tutorias junto a seus pares com maiores dificuldades. 
Além disso, organizam mesas de negociação permanentes com entidades educacionais e alocam os melhores professores para os alunos e as escolas com as piores avaliações


É necessário atrairmos para a educação os melhores profissionais. Para isso, é imprescindível, de um lado, oferecer plano de carreira, salários dignos, formação e infraestrutura adequadas. De outro lado, é necessário acompanhar e monitorar os seus desempenhos. 
Esses profissionais de excelência precisam ser recompensados e alocados nas escolas que mais necessitam deles


Precisamos de mais cooperação e menos competição. Precisamos ter coragem e ousadia para inverter a relação meritocracia-competição para meritocracia-cooperação - algo que, aliás, está muito mais consoante com nossa cultura. 


O professor é o agente central dessa discussão. A sociedade brasileira precisa valorizá-lo de forma que ele tenha orgulho de sua profissão. Precisamos ter, como em outros países, listas de espera para o preenchimento das vagas docentes. 


Precisamos de uma educação que contribua para a diminuição das desigualdades, conciliando um sistema que valoriza os melhores professores com um investimento na promoção da equidade entre as escolas e entre os alunos. 
É necessário pensar de forma cooperativa, criando arranjos municipais educacionais e a gestão de grupos locais de escolas. Esse é o desafio para potencializarmos nossos recursos humanos para que correspondam à nossa grandeza econômica. 


* MARIA ALICE SETUBAL, 60, doutora em psicologia da educação pela PUC-SP, é presidente dos Conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, da Fundação Tide Setubal e do Instituto Democracia e Sustentabilidade. 

Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Segunda-feira, 26 de março de 2012 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/33465-os-melhores-professores-para-as-piores-escolas.shtml