«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 10 de março de 2012

3º Domingo da Quaresma - Ano "B" - Homilia

Evangelho: João 2,13-25

José Antonio Pagola*
A INDIGNAÇÃO DE JESUS


Acompanhado pelos seus discípulos, Jesus sobe pela primeira vez a Jerusalém para celebrar as festas da Páscoa. Ao aproximar-se do recinto que rodeia o templo, encontra-se com um espetáculo inesperado. Vendedores de bois, ovelhas e pombas oferecendo aos peregrinos os animais que necessitam para sacrificá-los em honra de Deus. Cambistas instalados em suas mesas negociando com a troca de moedas pagãs pela única moeda oficial aceita pelos sacerdotes.


Jesus enche-se de indignação. O narrador descreve a sua reação de forma muito gráfica: com um chicote, expulsa do recinto sagrado os animais, vira as mesas dos cambistas deitando por terra as suas moedas e, então, grita:Não convertais num mercado a casa de meu Pai.


Jesus sente-se como um estranho naquele lugar. O que veem os seus olhos nada tem a ver com o verdadeiro culto ao seu Pai. A religião do templo converteu-se num negócio onde os sacerdotes procuram bons rendimentos, e onde os peregrinos tratam de “comprar” Deus com as suas oferendas. Jesus recorda, com certeza, umas palavras do profeta Oseias que repetirá mais de uma vez ao longo da sua vida: Assim diz Deus: Eu quero amor e não sacrifícios.


Aquele templo não é a casa de um Deus Pai em que todos se acolhem mutuamente como irmãos e irmãs. Jesus não pode ver ali essa “família de Deus” que quer formar com os seus seguidores. Aquilo não é senão um mercado onde cada um procura o seu negócio.


Não pensemos que Jesus condena uma religião primitiva, pouco evoluída. A sua crítica é mais profunda. Deus não pode ser o protetor e encobridor de uma religião tecida de interesses e egoísmos. Deus é um Pai ao qual somente se pode cultuar trabalhando por uma comunidade humana mais solidária e fraterna.


Quase sem nos darmos conta, todos podemos nos converter, hoje, em “vendedores e cambistas” que não sabem viver senão procurando o seu próprio interesse. Estamos convertendo o mundo num grande mercado onde tudo se compra e se vende, e corremos o risco de viver, inclusive, a relação com o Mistério de Deus de maneira mercantil.


Temos de fazer das nossas comunidades cristãs um espaço em que todos possamos nos sentir na “casa do Pai”. Uma casa acolhedora e quente onde a ninguém se cerram as portas, onde a ninguém se exclui nem descrimina. Uma casa na qual aprendemos a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não só o nosso próprio interesse. Uma casa onde podemos invocar a Deus como Pai porque nos sentimos os Seus filhos e procuramos viver como irmãos.


SEM LUGAR PARA DEUS


"O zelo pela tua casa me devora".


Cada vez mais pessoas observam esse dado que destacava, há alguns anos, Pablo Richard: Deus está presente nos povos pobres e marginalizados da Terra, e se está ocultando lentamente nos povos ricos e poderosos. Os países do Terceiro Mundo são pobres em poder, dinheiro e tecnologia, porém são mais ricos em humanidade e espiritualidade que as sociedades que os marginalizam.


Talvez, o velho relato de Jesus expulsando do Templo os mercadores nos coloque no caminho certo (não o único) que possa explicar o motivo deste ocultamento de Deus precisamente na sociedade do progresso e do bem-estar. O conteúdo essencial da cena evangélica pode ser resumido assim: lá onde se busca o próprio benefício não há lugar para um Deus que é Pai de todos os homens.


Quando Jesus chega a Jerusalém não encontra gente que busca a Deus, mas sim comércio. Mesmo o Templo se converteu num grande mercado. Tudo se compra e se vende. A religião continua funcionando, porém ninguém escuta a Deus. Sua voz é silenciada pelo culto ao dinheiro. A única coisa que interessa é o próprio benefício.


Segundo o evangelista, Jesus atua movido pelo "zelo da casa de Deus". O termo grego significa ardor, paixão. Jesus é uma "apaixonado" pela causa do verdadeiro Deus e, quando vê que está sendo desfigurado por interesses econômicos, reage com paixão denunciando essa religião equivocada e hipócrita.


A atuação de Jesus recorda as terríveis condenações pronunciadas, no passado, pelos profetas de Israel. Somente citarei as palavras que Isaías põe na boca de Deus: "Estou farto de holocaustos... Não me tragais mais oferendas vazias nem incenso execrável... Eu detesto vossas solenidades e festas; me fizeram um fardo que eu não suporto. Quando estendeis as mãos para mim, fecho os olhos; ainda que multipliqueis as orações, não escutarei. Vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, tirai de minha vista vossas más ações. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem. Buscai a justiça, levantai o oprimido; defendei o órfão, protegei a viúva. Depois, vinde" (Isaías 1,11-18).


Não é estranho que na "Europa dos mercadores" se fale hoje de "crise de Deus". Ali onde se busca a própria vantagem ou ganância sem ter em conta o sofrimento dos necessitados, não há lugar para o verdadeiro Deus.


Lá o desejo da transcendência se apaga e as exigências do amor são esquecidas. Esta Europa do bem-estar, onde a crise de Deus está já gerando uma profunda crise do ser humano, necessita escutar uma mensagem clara e apaixonada: "Quem não pratica a justiça, e quem não ama seu irmão, não é de Deus".


"Não convertais num mercado a casa de meu Pai".


Na década dos anos 60, os chamados "teólogos da morte de Deus" profetizaram a rápida desaparição da fé em Deus e o espetacular colapso do religioso na sociedade moderna.


Apenas se passaram alguns anos, e já perdeu toda a atualidade aquela moda teológica. Deus não morreu. O fenômeno religioso continua persistindo, e a fé não parece fadada a uma rápida extinção.
Sem dúvida, a crise religiosa é profunda e se estabelece nas próprias raízes de nossa civilização. Porém, não se pode afirmar, rapidamente, que o religioso esteja desaparecendo para sempre. Se escutarmos o parecer de sociólogos e teólogos, se diria o contrário. "A partir do ponto de vista dos dados da realidade, não há razões para se pensar que a religiosidade em geral, e a prática religiosa em concreto, estejam em vias de extinção, mas, justamente o contrário".


O interesse pelo mistério, a atração por certas práticas de piedade, a aproximação aos sacramentos nos momentos mais decisivos da vida (Batismo, Matrimônio, funerais) não caíram como se esperava.


Porém, alguém não pode deixar de fazer-se a seguinte pergunta: o que há atrás dessa religiosidade? o que se esconde nessa liturgia? o que se busca através desse culto? com que Deus estes homens e mulheres se encontram no templo?


A atuação de Jesus no templo de Jerusalém nos adverte contra possíveis ambiguidades, ambivalências e manipulações do cultual.
Nós, também, devemos nos perguntar em que convertemos "a casa do Pai". Nossas igrejas são lugares onde nos encontramos com o Pai de todos, que nos urge preocupar-nos com os irmãos, ou é o lugar em que tratamos de colocar Deus a serviço de nossos interesses egoístas?


O que são nossas celebrações? Um encontro com o Deus vivo de Jesus Cristo que nos impulsiona a construir seu reino e buscar a sua justiça, ou a implementação de mecanismos dos quais esperamos obter efeitos tranquilizadores?
O que são nossos encontros dominicais? Uma escuta sincera das exigências e das promessas do Evangelho e uma celebração do nosso compromisso de fraternidade, ou o cumprimento de uma obrigação rotineira e aborrecida que nos permite uma "certa segurança" perante Deus?


Somente há uma maneira para que nossas igrejas sejam a "casa do Pai": celebrar um culto que nos comprometa a viver como irmãos!


Tradução de Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.


Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - Dia 6 de março de 2012 - 09h47 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

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