«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 29 de março de 2012

''Não tenham medo do sexo''

Diálogo com Carlo Maria Martini 

L'Espresso
29.03.2012

"A sexualidade humana é percorrida por um 'dinamismo vertical' ou 'ascendente', por uma força interior que a leva a ser, pouco a pouco, instrumento e lugar de amizade profunda e de intimidade de almas, até se tornar, na visão cristã, uma preparação para aquela grande comunhão dos corações que é o fim da humanidade a caminho"

Publicamos aqui algumas páginas do livro Credere e conoscere [Crer e conhecer], diálogo entre o senador e cirurgião italiano Ignazio Marino e o cardeal Carlo Maria Martini, ilustre biblista e ex-arcebispo de Milão, prestes a ser publicado pela editora Einaudi (84 páginas).


Ignazio Marino - senador e cirurgião italiano
Eis o diálogo.


Carlo Maria Martini – A sexualidade é um assunto muito complexo, sobre o qual existe até um "conflito de interpretações". É um campo obscuro, profundo, magmático, difícil de definir. É uma parte da existência em que entra em jogo, particularmente, o subconsciente (e o inconsciente?), em que as explicações racionais podem encontrar nos indivíduos, mas também nos grupos sociais e nas culturas, uma resistência interior que não se deixa convencer. Isso também se deve ao fato de que certamente existem dentro de nós cavernas escuras e labirintos impenetráveis. Além disso, o filão evolutivo que toca também o homem não se esgotou, e, por isso, não podemos prever facilmente os desdobramentos dos próximos milênios. São dados de natureza nova, que de algum modo nos dão medo. Pessoalmente, não sou competente sobre esse assunto e aqui eu o abordo apenas para tentar dizer com simplicidade o que a vida me ensinou. Mas sobretudo gostaria de ouvir quem tem conhecimentos científicos para, de alguma forma, partir deles.


Ignazio Marino – A sexualidade, por definição, é uma relação interpessoal e, como tal, deve ser assumida plenamente como troca e como dom, e tem um papel muito importante para os seres humanos, qualquer que seja a idade, o gênero, as origens, a cultura. Do ponto de vista biológico, ela representa um aspecto fundamental da vida, assim como o dormir e o comer. Muito se deve à produção de hormônios por parte de órgãos como as gônadas, a hipófise, o córtex adrenal e o hipotálamo que solicitam e regulam a atividade sexual. Certamente, ao lado dos aspectos biológicos que se relacionam com a sexualidade, deve-se colocar a dimensão cognitiva e a cultural, que também compreende os éticos e morais. São esferas muitas vezes difíceis de sondar e, inevitavelmente, influenciadas pela educação de cada um e pela vivência psicológica.


Por muito tempo, a ciência se ocupou do estudo dos comportamentos sexuais dos seres humanos por motivos diferentes: da regulação dos nascimentos à transmissão de doenças, passando pela compreensão das diferenças entre a sexualidade humana e a das outras espécies animais. A maior parte dos animais, de fato, busca um parceiro para fins reprodutivos, enquanto entre os seres humanos os comportamentos sexuais não são biologicamente ligados apenas à reprodução, assim como são exclusivamente determinados pelos hormônios. O cérebro, de fato, tem um papel-chave que contribui para aumentar ou diminuir a resposta a um estímulo sexual, por exemplo, através da aprendizagem, que desempenha um papel decisivo nas orientações sexuais. 


E é precisamente por esse motivo que se deve prestar muita atenção a uma educação sexual completa e correta nas fases do crescimento, para evitar a criação de sentimentos de culpa ou de atitudes punitivas contra o próprio corpo e a própria sexualidade. É evidente, e a meu ver incompreensível, como a Igreja Católica, durante os longos séculos da sua história, muitas vezes ignorou o tema da sexualidade, ou o abordou com uma visão voltada a fazer com que nascesse nos fiéis um sentimento de culpa com relação à atividade sexual desvinculada dos fins reprodutivos. Acredito que essa abordagem deveria ser ao menos discutida porque, como confirmam os conhecimentos científicos, o sexo não pode ser considerado um elemento estranho ao ser humano, mas sim um fato natural.
Cardeal Carlo Maria Martini


Carlo Maria Martini – Acima de tudo, trata-se de algo muito pessoal e difícil de expressar em palavras. A poesia ou o que se chamou de "linguagem do amor" falam melhor a respeito. De fato, toda a matéria faz parte do grande tema do amor, como bem observa o Papa Bento XVI. No início da sua encíclica Deus é amor (25 de dezembro de 2005), ele fala de eros e de ágape, ligando-se ao grande tema da literatura clássica. Parece-me que a sexualidade humana é percorrida por um "dinamismo vertical" ou "ascendente", por uma força interior que a leva a ser, pouco a pouco, instrumento e lugar de amizade profunda e de intimidade de almas, até se tornar, na visão cristã, uma preparação para aquela grande comunhão dos corações que é o fim da humanidade a caminho. 


Um amor verdadeiro é também um amor maduro e duradouro, que, quando bem vivido, chega ao íntimo da pessoa e supera o inevitável desgaste do tempo e o aspecto puramente sensível e corpóreo para se tornar uma união de almas. E aqui eu gostaria de notar desde já que, a partir da minha experiência pessoal, tal dinamismo ainda pode levar a amar Deus "com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças" (Dt 6, 5), de tal forma a ponto de ultrapassar totalmente o fator físico e tornar-se assim amor de amizade casta e intensa


Do que se disse até aqui, parece que a sexualidade é sobretudo uma força da natureza, que tende, contudo, a prolongar a espécie. Essa é uma luta contínua, incansável contra a morte. Nesse sentido, a sexualidade não é própria apenas do ser humano. Mas como dizia acima, no homem e na mulher ela se situa no quadro de um dinamismo que tende a fazê-la subir para o alto, levando a sexualidade ao nível de uma amizade e compreensão profundas, quase incomunicável a outros, de duas pessoas.


Assim entendida, ela é fundamental para uma feliz vida matrimonial e é motivo de crescimento tanto para os dois cônjuges, quanto para os seus filhos: isso vale particularmente para os anos em que os filhos se tornarem adultos, anos que estão se alongando com o crescimento da idade média. Só quem tiver amadurecido uma séria amizade poderá se encontrar com o outro cônjuge, mesmo quando os filhos já estiverem todos fora de casa.


Nesse quadro, a sexualidade continua sendo, em si mesma, uma força que tende tanto à geração, quanto à comunhão de pessoas. O fato de também ser possível ter filhos de proveta não muda a natureza da sexualidade. Ela sempre é uma tendência natural ao dom de si entre um homem e uma mulher, em vista de uma realização de uma comunidade estável de pessoas.


Ignazio Marino – Se aceitarmos o princípio de que o sexo representa a normalidade na vida de casal, também devemos nos interrogar sobre as dramáticas situações de milhões de mulheres e de homens que vivem em países onde o ato sexual está intimamente ligado à difusão de graves doenças, principalmente a Aids. Cerca de 34 milhões de pessoas no mundo são portadoras do HIV, uma em cada três vive em um país da região subsaariana


Nos últimos 30 anos, morreram 30 milhões de pacientes e, embora a difusão do vírus tenha diminuído 25% entre 2001 e 2009, a cada ano registram-se ainda mais de 2 milhões de mortes. O HIV é a praga de um continente que gera não só doentes, mas também órfãos, pobreza, impossibilidade de melhorar as condições de vida. 


No mundo ocidental, hoje, essa doença é mantida sob controle graças às terapias farmacológicas que permitem que um soropositivo leve uma vida totalmente normal, com uma expectativa de vida semelhante à das pessoas não afetadas pelo vírus. Mas, em muitos países africanos, onde a despesa per capita com saúde não supera os 10 dólares por ano, o acesso a terapias de combate à Aids ainda é muito difícil, e o vírus continua se espalhando


Em Drodro, na República Democrática do Congo, eu vi com os meus olhos as condições em que vivem os doentes de Aids que não podem pagar os nove dólares por dia exigidos pelo hospital para a internação. Sem falar do orfanato, construído ao lado do hospital, que hospeda muitíssimas crianças que perderam seus pais. 


Sabemos que a Aids pode ser em parte combatida com a prevenção e o uso dos preservativos. Diante desse drama, como não promover a utilização da camisinha para contribuir com o controle da difusão do vírus? É ou não é um dever dos governos fazer escolhas e tomar decisões sobre esse tema? E, com relação ao ensino oficial da Igreja Católica, não se trataria, no entanto, de optar por um mal menor e contribuir com a salvação de muitas vidas humanas?


Carlo Maria Martini – Os números que você cita provocam perplexidade e desolação. No nosso mundo ocidental, é muito difícil dar-se conta do quanto se sofre em certas nações Tendo-as visitado pessoalmente, fui testemunha desse sofrimento, suportado em geral com grande dignidade e quase em silêncio. É preciso fazer de tudo para combater a Aids, como já defendi em muitas ocasiões e como também escrevemos no nosso diálogo anterior, em 2006. Certamente o uso do preservativo pode constituir, em certas situações, um mal menor


Depois, há a situação particular dos cônjuges, um dos quais está infectado com Aids. Este é obrigado a proteger o outro parceiro, e este, por sua vez, também deve poder se proteger. Mas a questão é, ao contrário, se convém que sejam as autoridades religiosas que promovam tal meio de defesa, quase considerando que os outros meios moralmente sustentáveis, incluindo a abstinência, sejam postos em um segundo plano, enquanto se corre o risco de promover uma atitude irresponsável. Uma coisa é o princípio do mal menor, aplicável em todos os casos previstos pela doutrina ética, outra coisa é o sujeito a quem cabe expressar essas coisas publicamente.


Acredito que a prudência e a consideração das diversas situações permitirá que cada um contribua eficazmente com a a luta contra a Aids, sem favorecer, com isso, os comportamentos não responsáveis.

Tradução de Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quinta-feira, 29 de março de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/507958-nao-tenham-medo-do-sexo-dialogo-com-carlo-maria-martini

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