«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 11 de março de 2012

Um novo mapa do poder no mundo contemporâneo

Entrevista:
Zbigniew Brzezinski,
autor de Strategic Vision, discute o enfraquecimento do Ocidente

Lúcia Guimarães

Antes de ser morto no Paquistão, Osama Bin Laden tinha, sem saber, um alter ego que só aparecia nas listas de controle de acesso a edifícios de escritório americanos. Tratava-se, nada menos, do que de Zbigniew Brzezinski [foto ao lado], ex-assessor de segurança nacional do governo Jimmy Carter e um dos personagens centrais da era da Guerra Fria. Impaciente com a paranoia antiterrorista pós-11 de Setembro, Brzezinski, vez ou outra, assinava "Osama Bin Laden" quando era parado por um segurança na portaria. Nunca foi flagrado - e confirmava a inutilidade dos excessos no aparato policial.


Doses da mesma independência irreverente aparecem em seu novo livro, Strategic Vision: America and the Crisis of Global Power (Visão Estratégica: A América e a Crise do Poder Global [foto da capa - abaixo]). Este polonês filho de diplomata, que emigrou para os Estados Unidos pelo Canadá ainda menino, mantém o sotaque, mas mede o peso de cada palavra em inglês e corrige a repórter quando ouve seus comentários sofrerem a menor alteração. Os 84 anos que ele completa este mês não parecem pesar na atividade febril como acadêmico do Centro Para Estudos Internacionais e Estratégicos, em Washington, nem nas partidas de tênis que não dispensa todas as manhãs.


Zbigniew Brzezinski já teve acesso aos ouvidos de Barack Obama, porém não se ilude sobre a própria influência. Ele não acredita que a política externa seja afetada por quem não faz parte do poder executivo. Se Obama realmente leu seus livros, não se surpreendeu com a Primavera Árabe: Brzezinski previu o despertar político movido a tecnologia quando Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, entrava na segunda dentição. A emergência da China e a reação isolacionista do público americano, a decadência dos Estados Unidos provocada por transformações econômicas e extremismo político e o inexorável enfraquecimento do Ocidente foram temas que ele explorou cedo. Brzezinski percebeu que o fim da Guerra Fria não traria "o fim da história", como previram seus pares em think tanks, mas se revelou uma década de oportunidades perdidas pelos Estados Unidos, cujo papel de único superpoder, lembra o autor, deixa de existir na narrativa do século 21.


Brzezinski expressa um certo pessimismo sobre seu país adotado e lista as grandes fraquezas que aceleram o declínio americano: 

  • a ignorância sobre o mundo; 
  • a infraestrutura nacional aos pedaços; 
  • a disparidade de renda; 
  • o sistema financeiro; 
  • o endividamento e 
  • a paralisia política. 
A seguir, sua conversa com o Sabático.


Como o senhor vê a escalada de tensões com o Irã e as pressões de Israel para uma ação militar?
Acho que a situação é bastante arriscada e não só por causa da tensão entre Irã e Israel. Com a crise na Síria, pode haver um efeito cumulativo que produza violência regional. Um ataque israelense ao Irã teria consequências muito negativas para os Estados Unidos, para a região e colocaria em risco a delicada estabilidade no Iraque. E tornaria o desengajamento americano no Afeganistão mais difícil. Eu acho que os Estados Unidos devem deixar claro para Israel que um ataque constitui uma ameaça à segurança regional e aos interesse vitais americanos. Os Estados Unidos devem deixar claro para o Irã que ameaçar qualquer outro país vai ser visto como uma hostilidade dirigida aos americanos. É o tipo de compromisso que existe hoje e protege a Coreia do Sul da Coreia do Norte ou o guarda-chuva de segurança sob a OTAN. Começar uma guerra é fácil, acabar com ela, muito difícil.


O senhor foi convidado para um almoço recente com o vice-presidente Xi Jinping quando ele esteve em Washington em sua primeira visita oficial, em fevereiro. Qual a sua impressão do homem que é visto como o próximo presidente da China?
Eu me sentei à sua direita na mesa, de modo que pude ter uma conversa decente com ele. Tive uma impressão, de maneira geral, favorável. Percebi que ele é um homem muito cauteloso. Ouviu atentamente as perguntas dos convidados e os que eles diziam, mas fazia poucos comentários e falava com prudência. Ficou claro que ele está tratando de seu futuro de maneira deliberada, como alguém que espera se tornar presidente. Acho que a imprensa americana deu atenção correta a Xi Jinping [foto ao lado], mas, infelizmente, o nosso governo o submeteu a uma cantilena de 15 minutos do vice-presidente Joe Biden. Ele estava visivelmente desconfortável. A esta altura das relações entre China e Estados Unidos, é melhor colocar as queixas em outro contexto mais amplo. Senão, a opinião pública vai ser afetada dos dois lados. E devemos lembrar que há opinião pública na China.


O presidente Obama recentemente anunciou que vai mandar tropas para a Austrália, o que o senhor considera um exemplo de iniciativa pública que irrita a China à toa. O senhor também critica a demonização dos chineses pelos políticos americanos. Se tivesse toda a atenção de Barack Obama, o que diria a ele?
O que me preocupa é essa tendência, de ambos os lados, de escalar a crítica. É algo que se torna infeccioso e cria uma dinâmica de hostilidade. Enquanto é certo e desejável a Obama reafirmar a continuidade dos interesses americanos na Ásia, é errado colocá-los, por exemplo, no contexto do envio de um pequeno contingente de tropas. Não compreendo esta decisão porque, espero, os Estados Unidos não têm o menor interesse de se engajar em conflitos no continente. Já existe um arranjo de parceria assinado entre Obama e Hu Jintao, no ano anterior. É um acordo que deixa claro que os Estados Unidos vão continuar engajados, mais ou menos como a Grã-Bretanha, no século 19, mas não de maneira militar.


Depois de mais de dez anos de guerra e com a evidente fraqueza do governo em Cabul, qual é o melhor cenário para uma retirada americana do Afeganistão?
O melhor cenário seria a combinação de algum compromisso interno, um acordo entre os países vizinhos para a preservação da estabilidade no Afeganistão e a continuação da ajuda internacional.


O senhor critica em Strategic Vision o que considera uma falha do presidente Obama de explicar ao público a transformação do papel dos Estados Unidos no mundo. Mas estamos num ano eleitoral.
É obviamente difícil tratar disso num ano de eleição presidencial. Há uma tendência a exagerar tudo e apelar para os preconceitos do público, em vez de promover a compreensão coletiva dessas questões.


Que nota o senhor dá ao governo Obama em política externa?
De maneira geral, acho que Obama entendeu o mundo no século 21, que é um mundo de grande complexidade. Infelizmente, ele teve que enfrentar situações herdadas, por exemplo, em partes do Oriente Médio. O Iraque ainda é um problema, tanto quanto o Afeganistão.


Entre a publicação de O Grande Tabuleiro de Xadrez (1997) e o novo livro, Strategic Vision, o senhor teve de reconsiderar a durabilidade do poder americano. O que faz a ordem mundial hoje ser tão hostil a um superpoder?
A mudança fundamental que tornou a hegemonia impossível no mundo está enraizada em dois amplos fenômenos: o fim da supremacia do Ocidente, provocado pela emergência da Ásia, e o enfraquecimento dos poderes ocidentais. E o despertar político global. As massas estão politicamente ativadas, estão alertas, inquietas, ressentidas e progressivamente nacionalistas.


Como fica a América Latina num mundo em que o equilíbrio de poder se desloca para a Ásia?
Eu vejo uma oportunidade para a América Latina desenvolver seu perfil neste novo contexto. O continente pode criar algo distinto de sua origem europeia e da influência americana que teve, manter seu vínculo forte com o Ocidente enquanto se torna uma civilização afinada com a nova diversidade do mundo.


O senhor faz uma lista de pontos vulneráveis dos Estados Unidos, entre eles a ignorância sobre o restante do mundo. Qual é o preço dessa ignorância?
Ela custa muito caro e, num sentido mais amplo, é perigosa. Se ela ocorre num contexto de ansiedade, torna o eleitorado muito suscetível à demagogia. Desde o 11 de Setembro, os americanos ficaram muito nervosos com o restante do mundo. E um público nervoso cede à demagogia, como estamos vendo neste ano eleitoral. Como uma democracia, a política externa americana só pode ser tão boa quanto for a sua compreensão do mundo. Vemos um exemplo típico da ignorância no Oriente Médio, onde tudo é simplificado, na nossa perspectiva.


Vários anos antes da Primavera Árabe, o senhor previu o despertar político que acabamos de testemunhar. Em Strategic Vision, o senhor fala de uma rivalidade global sistêmica. O que essa rivalidade oferece ou provoca?
O despertar político é certamente positivo. Eventualmente, ele vai dar forma a uma nova cultura política. Mas, no começo, não devemos ter ilusões de que a Primavera Árabe seja puramente democrática. O populismo não leva necessariamente à democracia e é preciso examinar o populismo com cuidado. O Brasil é um bom exemplo de um país onde o populismo evoluiu para uma democracia. Já o populismo na Rússia ainda mantém uma democracia incipiente e pode se manifestar como nacionalismo extremo. Acho que o regime do Vladimir Putin vai representar uma transição - para algo bom ou pior. Interessa ao mundo que o populismo russo evolua. Estamos vendo lá um despertar da classe média.


O senhor conclui o livro analisando a transformação do papel do Ocidente e defendendo a importância desse papel.
Acho que a vitalidade do Ocidente é da maior importância. Apesar de todas as suas imperfeições históricas, o Ocidente ainda representa o maior grau de respeito pelos direitos humanos. É a região que mais representa um mundo democrático. A mensagem política do Ocidente deve ser preservada e continuar saudável. O Ocidente deve se tornar uma comunidade maior e abraçar a Turquia e a Rússia. Isso criaria mais estabilidade no mundo e uma parceria melhor com a Ásia para enfrentar os problemas que ameaçam ficar fora de controle, como a saúde e a injustiça social.


Fonte: O Estado de S. Paulo - Sabático - Sábado, 10 de março de 2012 - Pg. S6 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,um-novo-mapa-do-poder-no-mundo-contemporaneo,846604,0.htm

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