«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 8 de abril de 2012

Padres no divã

Rodrigo Cardoso

Sacerdotes recorrem à terapia ou a clínicas especializadas para tratar de males como depressão, alcoolismo e estresse

Sentado na ponta do banco da igreja praticamente vazia, o pároco passa a tarde com a “Bíblia” aberta sobre o colo, prestando atendimento aos fiéis. Cada palavra sussurrada ecoa pelo templo desocupado. São histórias de aflição, angústia, medo e dor de pessoas que enxergam, na figura do sacerdote, o lenitivo para seus males. Dele se espera a palavra certa, o conforto imediato, a esperança revigorante. O ofício de se ocupar dos outros é feito de graça, mas tem um custo alto. E tanta responsabilidade às vezes cobra seu preço. Muitos padres vão além dos seus limites, na ânsia de se doar, o que os faz mergulhar num mar de angústias que não há consulta com bispo ou oração que surta efeito. Por isso, a Igreja Católica tem pedido socorro à ciência e encaminhado muitos de seus servos para a terapia. 


Ênio Brito Pinto - psicoterapeuta
A questão dos padres e suas aflições de alma têm preocupado tanto a Igreja Católica que a delicada questão foi tema de um congresso, batizado Padre no Divã: Conforto e Desconforto no Trabalho Pastoral, no Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Salesiana, em Roma, na Itália, no mês passado. “Levar a sério o sofrimento psíquico de quem trabalha na pastoral deve fazer parte de uma responsabilidade comum, que também envolve leigos”, disse o padre italiano Giuseppe Crea, que participou do evento. No Brasil, há centros especializados em tratar esses religiosos. Um deles é o Instituto Acolher, de São Paulo, que tem como um dos professores o psicoterapeuta Ênio Brito Pinto, autor de Os Padres em Psicoterapia – Esclarecendo Singularidades(Ideias & Letras). “O padre suporta o sofrimento até um limite de muita dor e só então mostra que necessita de ajuda”, afirma. “Ele é educado para não reconhecer limites, o que é uma das falhas da sua educação.” Com 30 anos de experiência em consultório e atendimento prestado a cerca de 100 padres, o autor descreve 12 temas que permeiam o tratamento dos homens de batina. As queixas (leia quadro), só para citar uma peculiaridade, nunca são expressas apenas por eles – o superior hierárquico também se manifesta, quer dar informações e receber orientações do psicoterapeuta. Procedimento que torna o processo semelhante à terapia de crianças e adolescentes, na qual os pais fazem parte do trabalho. 


Responsável pela paróquia Santo Antônio, em Brejões, na Bahia, o padre Antônio Tourinho Neto, 48 anos, recebeu o apoio do bispo ao decidir se afastar de suas funções, depois de viver uma situação traumática em 2000 e passar um mês na unidade de Sergipe da Fazenda da Esperança, uma comunidade terapêutica alternativa que presta assistência espiritual sem abrir mão do auxílio de profissionais de saúde como psicanalistas e psicólogos. Então responsável por outra paróquia, padre Neto prestava atendimento espiritual a um jovem na porta da igreja. Depois de cerca de uma hora e meia de desabafo, ele viu seu interlocutor sacar uma arma e anunciar que iria se matar. 


O sacerdote ainda trocou algumas palavras com o rapaz antes de ele apertar o gatilho e se suicidar. “O choque me pôs em angústia profunda, passei a questionar o porquê de Deus permitir aquilo e fiquei decepcionado com o sacerdócio”, diz Neto. O estresse e o transtorno psicológico do pároco foram tratados por meio de conferências com um psicanalista e terapia em grupo, entre outras atividades. “Entrei lá fraco e abatido e saí forte e gordo”, afirma.


A Fazenda da Esperança, presente também em outros dez países, tem nos dependentes de drogas o seu público-alvo, mas cerca de 3% de seus pacientes são religiosos. Hoje, um de seus missionários, o padre tailandês Dekson Teope, 34, passou um ano em tratamento por conta do alcoolismo. “Cheguei a ponto de celebrar bêbado”, diz ele, que foi proibido de rezar missas. O padre Teope, porém, encarou o tratamento, livrou-se do vício e, hoje, celebra em uma comunidade brasileira da Fazenda. “Por trabalhar muito, os sacerdotes têm suas relações interpessoais prejudicadas, ao mesmo tempo que lidam mal consigo mesmos. Muitos sucumbem ao alcoolismo ou vivem crises de mau humor”, afirma o psicoterapeuta Pinto.


Pe. Dekson Teope
Temas relacionados à sexualidade também são recorrentes – e espinhosos – durante as sessões. “Em terapia, é bastante comum o padre contar sobre experiências sexuais que já teve, desde namoricos até propriamente relações sexuais”, diz Pinto. Por outro lado, há ainda em grande escala tentativas moralistas de se lidar com o celibato. Isso ocorre quando pacientes apontam a sublimação da sexualidade como uma das saídas para a obrigatoriedade da castidade. “Afetos reprimidos ou supostamente sublimados não são afetos integrados”, escreve Pinto em Os Padres em Psicoterapia...”. “Por causa disso, tendem a provocar sofrimento e crises de saúde física ou emocional, ou uma vida de aparências, com práticas sexuais escusas, culposas, dissociadas.” Representantes de Deus na Terra para os católicos, mas humanos e, portanto, falíveis e imperfeitos, os sacerdotes tornam-se pessoas melhores quando não esperam a ajuda vir do céu e encaram o diálogo entre a psicoterapia e a religião


Fonte: ISTOÉ Independente - Edição nº 2213 - 05 de abril de 2012 - 17h30 - Internet: http://www.istoe.com.br/reportagens/197721_PADRES+NO+DIVA

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