«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta-feira da Paixão - Para além do silêncio

Timothy Radcliffe
Típica entrada de sepulcro do tempo de Cristo
Agora, Jesus proferiu a sua última palavra na cruz.
Fez-se silêncio.
Temos de esperar que a ressurreição quebre o silêncio do sepulcro.
Deus deseja sempre que nós esperemos pela sua palavra.
Deus leva sempre tempo para falar.
Esta espera é dura para nós, que pertencemos à Geração do Agora. 
Nós sentimos a impaciência do atraso.
Na internet, comunicação é quase instantânea. 
Como Zygmunt Bauman escreveu, eliminamos "a espera do nosso querer".


"Por que é que estamos à espera?", como dizia a canção.
A Palavra de Deus chega-nos como um dom. Não pode ser agarrada.
Não podemos apoderar-nos dela nem dominá-la.
A Palavra vem como uma pessoa, que de fato é. 
Devemos-lhe a cortesia da atenção paciente, deixando-a entrar quando ela quiser.
Simone Weil escreveu que "nós não obtemos os presentes mais preciosos, partindo em sua busca, mas esperando por eles... Esta forma de olhar é, primeiro de tudo, atenta. A alma esvazia-se de todo o seu conteúdo a fim de receber o ser humano para o qual está a olhar, tal como ele é, em toda a sua verdade..."


Assim como uma pessoa deve dar a outra o espaço em que esta possa mostrar quem é, também nós devemos dar a Deus o espaço em que Ele nos possa dar essa Palavra, atentos ao silêncio de Sábado Santo.
Devemos esperar pela Palavra em silêncio, porque ela irrompe do interior da linguagem humana.
A Palavra não provém do exterior, mas é gerada dentro da nossa linguagem humana.
A Palavra de Deus não desce do céu como um Esperanto celestial.
Fertilizar a linguagem humana com a Palavra de Deus leva o seu tempo. A gravidez leva tempo.


Por isso, agora, há que se fazer silêncio enquanto esperamos que nos seja dada a Palavra que quebra o silêncio.
Temos de aprender a estar à espera, mas isso não é suficiente.
Também temos de lutar corpo a corpo para receber a Palavra que nos é dada agora. 
A Palavra de Deus leva tempo a ser gerada dentro de nós.
Demorou quatrocentos anos [após a sua morte] até Cristo começar a ser representado na cruz... e mais quinhentos anos para alguém se atrever a representá-lo morto.


James Alison sublinha que a Ressurreição não é apenas mais uma etapa da vida de Jesus, e que Ele pôs a morte para trás das costas.
Ele agora é o crucificado e o ressuscitado.
"A ressurreição de Jesus foi a retribuição gratuita de toda a sua vida e morte que terminara na Sexta-feira Santa: toda a humanidade de Jesus inclui a sua morte humana".
Ele continua entre nós como excluído e crucificado.
O Corpo de Cristo continua a ser um excluído dentre os pobres, e dentre todos aqueles que vivem na desolação.


Descida da Cruz - pintor: Tintoretto
O seu rosto morto desafia todos aqueles cujas imagens falam de poder e de domínio, a começar por César, cujo rosto estava cunhado nas moedas que Jesus examinava, e até tiranos tais como Saddam Hussein, cujas imagens se viam por toda a parte, no Iraque.
No Antigo Testamento, a bênção suprema é que o rosto de Deus nos sorria. 
"Brilhe sobre o teu servo a luz da tua face;
salva-me pela tua misericórdia" (Salmo 31[30],17).


Antes de Cristo, nós não podíamos ver Deus e continuar a viver.
Pedíamos que Deus nos sorrisse, mas nós não podíamos retribuir esse olhar.
Agora, no fim da vida de Cristo, olhamos para o seu rosto morto.
Agora, é Deus que não pode retribuir-nos o olhar.
Esta é a suprema vulnerabilidade de Deus em Cristo.
Toda a amizade é entre iguais.
A nossa amizade com Deus significa que a anterior desigualdade de olhares deve ser deitada por terra.
Nós não somos apenas vistos; agora também vemos.


Sepultamento de Cristo - pintor: Caravaggio
David Ford também vê neste rosto morto uma chamada à responsabilidade que nos é dirigida.
"Diante deste rosto morto nós podemos reconhecer alguém que se entregou completamente por Deus e por nós: está a ser morto por nós, está ausente por nós, apresenta-se como alguém que cria, pela sua morte, uma esfera ilimitada de responsabilidade para nós."
Ele compara isto ao retrato de Santa Teresa de Lisieux, de Jesus adormecido no barco: os discípulos devem assumir a responsabilidade, não acordá-lo.


O rosto morto chama-nos à responsabilidade porque, tal como disse Santa Teresa d'Ávila, Ele agora só tem os nossos pés, agora só tem as nossas mãos e agora só tem a nossa boca.
Depois da Ascensão, quando Jesus já não está entre nós como um ser humano, no meio de outros, nós somos aqueles que continuamos a quebrar o silêncio dos sepulcros da humanidade.


Fonte: RADCLIFFE,Timothy. As Sete Últimas palavras. Prior Velho (Portugal): Paulinas, 2010. pp. 76-84.

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