«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 24 de junho de 2012

Suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens no mundo [Assustador!]


MARIANA VERSOLATO

Segundo a Organização Mundial da Saúde, falta prevenção

Uma série de estudos publicada no periódico "Lancet" chama a atenção para um assunto tabu: o suicídio.
Segundo um dos artigos, essa é a primeira causa de morte entre meninas de 15 a 19 anos. Entre os homens, o suicídio ocupa o terceiro lugar, depois de acidentes de trânsito e da violência.


No Brasil, o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens, ficando atrás de acidentes e homicídios.
"Antes as taxas eram maiores na terceira idade. Hoje a gente observa que, entre os jovens, elas sobem assustadoramente", afirma Alexandrina Meleiro, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP.
Entre os jovens, a taxa multiplicou-se por dez de 1980 a 2000: de 0,4 para 4 a cada 100 mil pessoas.


Segundo o estudo, os adolescentes evitam procurar ajuda por temerem o estigma e que rumores sobre seus pensamentos suicidas se espalhem pela escola.
Há outra mudança no perfil dos que cometem suicídio. O risco, que sempre foi maior entre homens, tem aumentado entre as meninas.
Segundo Meleiro, isso se deve a gestações precoces e não desejadas, prostituição e abuso de drogas.


SILÊNCIO


O problema, porém, é negligenciado, como mostram dados da OMS (Organização Mundial da Saúde). A entidade afirma que os casos de suicídio aumentaram 60% nos últimos 45 anos e que 1 milhão de pessoas no mundo morrem dessa forma por ano.


No Brasil, estima-se que ocorram 24 suicídios por dia. O número de tentativas é até 20 vezes maior que o de mortes. "O suicídio é uma epidemia silenciosa", diz Meleiro.


Segundo a OMS, pouco tem sido feito em termos de prevenção. Os pesquisadores, da Universidade de Oxford e da Universidade Stirling, na Escócia, dizem que mais pesquisas são necessárias para compreender os fatores de risco e melhorar a prevenção.
Uma estratégia é limitar o acesso a meios que facilitem o suicídio, como armas.


"O preconceito em torno das doenças mentais faz com que as pessoas não procurem ajuda", diz Meleiro. Cerca de 90% dos suicídios estão ligados a transtornos mentais.
Ela diz que as pessoas costumam dar sinais antes de uma tentativa. "Acredita-se que perguntar se a pessoa tem pensamentos suicidas vai estimulá-la, mas isso pode levá-la a procurar ajuda."


Fonte: Folha de S. Paulo - Ciência - Sexta-feira, 22 de junho de 2012 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/50192-suicidio-e-a-segunda-maior-causa-de-morte-entre-jovens-no-mundo.shtml

Possíveis saídas para a crise da Igreja [Texto fundamental!]


 Wolfgang Beinert *

Nunca como antes, na época moderna, as comunidades cristãs estão abaladas atualmente. O que é possível fazer? Um exame de consciência teológico

Prof. Dr. Wolfgang Beinert - teólogo alemão
Onde estão as razões para o estado desastroso do cristianismo, das Igrejas? Os críticos dirigem-se espontaneamente para a congestão dos problemas, que bloqueiariam todo dinamismo. Por exemplo, para trazer sangue novo para a religião, haveria apenas a necessidade de conter o centralismo da Igreja Católica, de permitir mais feminismo, de julgar mais liberalmente as questões éticas e morais, de interpretar menos rigidamente as leis e de fazer prevalecer uma maior democracia.


Embora tal visão possa parecer plausível em seu conjunto e, portanto, possa justificar algumas propostas para os casos individuais, esse diagnóstico é muito superficial. Na realidade, as dificuldades decorrem da dualidade, da bipolaridade, que está impressa profundamente na religião de Cristo. Essa tensão pode agir como uma dialética fecunda, mas também degenerar em um dualismo pernicioso quando, dos dois princípios, um remove, subjuga ou inimiza-se com o outro.


A tensão teológica começa ainda com o conceito de Deus. Segundo a fé cristã, Deus é o Tri-Uno. O Unum, a unidade, também é essencial, igualmente importante e decisiva para a fé tanto quanto o Trinum, a triunidade. Toda a história dos dogmas mostra como foi problemático para todas as épocas pensar o momento do uno e o dos muitos considerados juntos em Deus e transferi-los para a realidade do Divino e, portanto, também para a realidade da fé. O momento da unidade encerra em si mesmo, de modo latente, o risco de um absolutismo autoritário, enquanto a triunidade parece deixar espaço para a pluralidade ilimitada em todas as dimensões.


Verdadeira catolicidade


Dentro da cristologia, a doutrina sobre Cristo, existe um outro conflito duplo. O papel e o significado de Cristo são devidos, em parte, ao fato de que ele instituiu definitivamente no seu nome o reino de Deus, através de um agir de redenção nas estruturas do mundo, dominado pelo pecado e pela decadência. O que não é cristão é sempre, nessa perspectiva, anticristão, aquilo que é inimigo e que deve ser excluído. Desse modo, encoraja-se um pensamento que se entrincheira em si mesmo. Por outro lado, a mensagem fundamental da Bíblia está no Lógos que realiza a redenção através da encarnação, a incorporação enquanto terreno, mundano, humano, portanto, mediante a solidariedade total com toda a realidade da criação.


Os Padres da Igreja afirmaram a redenção universal por obra de Cristo. A seu ver, ela também postula a recepção de Cristo nas profundezas da criaturalidade. "Quod non assumptum, non sanatum": o que o Redentor não assumiu como próprio, não é redimido. Isso se traduz em uma abertura infinita do cristianismo para a realidade não cristã, uma verdadeira catolicidade que quer se expandir em nível mundial, que tem seu limite no mal absoluto, no pecado pura e simplesmente.


Encontramos uma tensão semelhante no conceito de criação: o mundo em que vivemos e em que também está se desdobrando o destino da Igreja não é apenas bom. Mesmo no Novo Testamento aparece uma dupla noção de kósmos. O evangelista João emprega em muitas passagens a palavra "mundo", geralmente indicado como "este mundo" ("ho kósmos hutós"), como sinônimo daquilo que é contrário ao divino e ao anticristão. O destino do Redentor é determinado pelo fato de que "o mundo não o reconheceu" (cf. 1,10). O seu triunfo consiste em ter vencido o príncipe deste mundo (14,30) e, com este, o mundo (16,33). O desapego do mundo é, portanto, um objetivo fundamental da vida cristã (cf. 1Jo 2,15).


Cabeça sem membros?


Por outro lado, o mundo é obra de Deus, isto é, da bondade fundamental. O próprio Evangelho de João, que é conhecido pelo seu desprezo do mundo, também reconhece que "Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único" (3,16). A ação salvífica de Cristo, portanto, pode ser descrita como a criação de um novo céu e uma nova terra (cf. Ap 21). O cristão tem uma relação com o mundo que deve ser sopesada criticamente: ele pode acolher o mundo como se fosse um presente, usufruindo dele e dando-lhe uma marca, mas sem ceder a ele. Ele deve estar bem certo de dar espaço ao "mundo novo". O pensamento cristão é orientado escatologicamente para a vinda final e definitiva de Cristo. A medida da relação com o mundo é o discernimento dos espíritos (cf. 1Cor 12,10; 1Jo 3), que pressupõe, por sua vez, uma plausível doutrina do Espírito Santo (pneumatologia).


Enfim, restam as tensões irreconciliáveis no ensino da Igreja (eclesiologia). Teologicamente é extremamente difícil descrever uma estrutura tão complexa como a da Igreja. Partindo do Novo Testamento e sendo orientados por ele, afirmaram-se inúmeros conceitos de Igreja que não são facilmente negociáveis, mas expressam pontos de vista diferentes. Até mesmo um único modelo eclesiológico conceitual pode ser em si mesmo polivalente.


De modo particularmente enérgico, impôs-se a imagem da Igreja como Corpo de Cristo. Paulo a usa no seu sentido original para extrair o sentido dos diversos dons da graça (carismas) e do seu valor igual para a Igreja. Como um corpo tem muitos membros, que têm um significado indispensável para o corpo, assim também o dom único da graça é essencial para o Corpo de Cristo. A essa ideia, conjugou-se a visão da comunidade de fé como communio, como comunidade de sujeitos fundamentalmente iguais.


Pode-se, no entanto, voltar a atenção apenas para o membro do corpo mais importante, a cabeça, que é Cristo. Se alguém perguntar especificamente onde e como a cabeça opera, é a partir da Idade Média que, com isso, faz referência ao papa, a quem se reconhece exclusivamente o título originalmente atribuído a todos os sacerdotes de "representante de Cristo" (vicarius Christi) e, desde 1983, também expresso no direito canônico.


A ideia de communio não se refere mais principalmente à comunidade como um todo, mas sim à cabeça: a comunhão é concebida exclusivamente do ponto de vista hierárquico, como união e comunhão com o papa. Dessas categorias dúplices citadas, por exemplo, cheias de tensão, derivaram-se na história da Igreja, muito frequentemente, apenas dualismos, isto é, princípios hostis entre si e reciprocamente excludentes. Um polo foi unilateralmente enfatizado a despeito do outro
Estruturas feudais condicionadas pelo tempo codeterminaram onde teologicamente os acentos são postos: sobre a unidade de Deus, sobre a unicidade de Cristo, sobre a negatividade do pecado, sobre o centralismo no governo da Igreja.


A crise atual da Igreja consiste exatamente nisto: 
que, sob a influência do espírito democrático da sociedade contemporânea, 
as unilateralidades da Igreja têm um efeito prejudicial. 
Mas as polarizações singulares, cada um dos dualismos não podem mais funcionar. 
Essa é a reviravolta epocal dos universos de conceito que se reforça na comunidade de fé. 
O futuro da Igreja e o seu destino dependem 
de como ela vai gerir e solucionar a questão.


Depois da helenização, a missão para os povos germânicos e o Iluminismo, toda a vida cristã e da Igreja está posta diante da decisão de qual direção tomar, e isso tem um significado epocal.


Papa João XXIII - convocou o Concílio Vaticano II
João XXIII e o espírito antimoderno


A verdadeira causa da difícil situação é a profunda inatualidade do ser Igreja. A modernidade foi uma palavra que despertou o horror para todos aqueles sintomas reais e percebidos de degradação, que se buscava e se tentava combater com rígidas medidas antimodernistas. Para o sociólogo Franz Xaver-Kaufmann, a principal razão da perda de influência da Igreja são "as mudanças de relação entre os aspectos culturais, organizacionais e dos âmbitos de vida daquilo que, até então, era chamado simplesmente de 'cristianismo', ou às vezes de 'religião', ou 'igreja'. A partir dos anos 1970, o significado desses três aspectos foi se desenvolvendo cada vez mais separadamente".


Também se pode dizer que a culpa é da falta de pensamento histórico dos muitos que regem o destino da Igreja. O presente não é entendido como o hoje da Igreja no caminho ao longo do tempo, que está, como todas as outras horas da história da Igreja, sob a proteção de Deus, mas sim como uma época de declínio radical, inclusivo e irreversível.


Significativamente, os grupos marginais tradicionais considerados favoravelmente pela direção da Igreja têm precisamente essa visão apocalíptica. O sentimento fundamental com relação à atitude da sua vida e da sua fé é a flutuante angústia perante o presente, que, por sua vez, torna-se terreno fértil para um fundamentalismo aberto ou insidioso. Às vezes não se vai muito além da simpatia pelos grupos politicamente de direita. No entanto, se procurarmos uma palavra que caracterize as gerações anteriores, que não se isentaram do encontro com o mundo, então essa palavra é "renascimento" (Renaissance). Com a referência da memória às origens e não com pensamentos ameaçadores de destruição e de fim do mundo, as crises foram enfrentadas. O objetivo era a renovação a partir do espírito da revelação original. A Igreja tinha que nascer de novo e dar provas na nova situação da força viva e imutável de Deus.


Franz Xaver-Kaufmann - sociólogo
Na Igreja da época moderna, também houve movimentos dinâmicos semelhantes. Com uma genial iluminação, João XXIII quis superar a fatal postergação temporal entre mundo e Igreja através de um concílio, cujo programa foi proclamado como aggiornamento [atualização], a introdução da Igreja no hoje. O início desse evento mundial se situou exatamente há meio século de distância de nós. O balanço, no entanto, foi variado. Certamente, o Concílio assumiu como próprios muitos conhecimentos a partir do pensamento iluminista: a atitude de fundo com relação ao progresso, a ciência, a democracia, a autonomia das realidades terrenas foi positiva. Os conhecimentos teológicos encontraram o seu lugar sob a forma do reconhecimento dos direitos humanos, incluindo a liberdade religiosa e de consciência. A relação com o judaísmo foi posto sobre novas bases. O Concílio também abordou a questão da Reforma. Como exemplos, basta citar o primado da Escritura, a língua nacional na liturgia, a reforma da piedade popular. O centralismo do papa, sobrevalorizado pelo Concílio Vaticano I, tornou-se um contrapeso da valorização do ministério episcopal e da ênfase posta sobre a Igreja local.


Cinquenta anos irresolvidos


De fundamental importância foi a profunda reflexão pastoral e histórica da assembleia conciliar, que é evidente em todos os documentos. Surpreendentemente, manifesta-se na constituição pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo atual, em que a conclusão diz:


"Tudo o que, tirado dos tesouros da doutrina da Igreja, é proposto por este sagrado Concílio, pretende ajudar todos os homens do nosso tempo, quer acreditem em Deus, quer não O conheçam explicitamente, a que, conhecendo mais claramente a sua vocação integral, tornem o mundo mais conforme à sublime dignidade do homem, aspirem a uma fraternidade universal mais profundamente fundada e, impelidos pelo amor, correspondam com um esforço generoso e comum às urgentes exigências da nossa era. Certamente, perante a imensa diversidade de situações e de formas de cultura existentes no mundo, esta proposição de doutrina reveste intencionalmente, em muitos pontos, apenas um carácter genérico; mais ainda: embora formule uma doutrina aceita na Igreja, todavia, como se trata frequentemente de realidades sujeitas a constante transformação, deve ainda ser continuada e ampliada" (n. 91).


O Concílio sabia que o risco da assincronia ou, posto de forma positiva, da necessidade do aggiornamento é um dado constante para todo o tempo deste mundo. Infelizmente, os padres conciliares não foram autorizados, ao menos, a discutir todas as questões que urgiam naquele momento. Essas questões são idênticas aos problemas que hoje – sempre e de novo – figuram entre as interrogações mais urgentes e de primeira ordem: por exemplo: 

  • o celibato do clero latino
  • a relação com os divorciados em segunda união
  • a atitude com relação à sexualidade e o controle de natalidade em particular, 
  • a natureza da nomeação dos bispos
  • a reforma da Cúria [Romana - Vaticano].

Mas a formação de tabus não levou a nada de novo. Os quesitos não encontraram resposta, mas se agudizaram. Enquanto isso, não se pode evitar a impressão de que o ponto de partida conciliar deveria ter ocorrido com cautela e ter se desenvolvido com reflexão. Mas isso levaria a que a crise da Igreja atingisse proporções de riscos alarmantes.


A força precisa do espírito


O que se pode fazer? O que mais a Igreja deve fazer – lá onde por Igreja não podemos entender "Roma", mas sim todo o corpo de Cristo, o povo de Deus indivisível, incluindo também nós mesmos? Aqui, não se pode criar nenhum programa de reforma global. Pode-se apenas traçar poucas linhas teológicas.


[1º] Em primeiro lugar, a Bíblia conhece uma grande tradição de liberdade, segundo a qual o Pai é o Deus do êxodo, o Filho é o Redentor, o Espírito é o instrumento de salvação. A partir daí, o cristianismo formou o conceito de pessoa, que, por sua vez, constitui a base dos direitos humanos. Nessa tradição de liberdade, deve-se proceder para além. Para a Igreja, isso implica a necessidade da solidariedade total com a humanidade.


[2º] Em segundo lugar, deve ser aprofundada a doutrina sobre o Espírito Santo (pneumatologia). De acordo com o Evangelho de João, a Igreja nunca foi a proprietária da verdade no mercado do mundo, mas é discípula do Espírito Santo, que a introduz incessantemente na verdade (16,13). Isso traz consigo o dever que Paulo convida a observar: "Não extingam o Espírito, não desprezem as profecias; examinem tudo e fiquem com o que é bom. Fiquem longe de toda espécie de mal" (1Tessalonicenses 5,19-21). O Concílio Vaticano II falou, nesse sentido, de "sinais dos tempos", que deveriam ser "interpretados à luz do Evangelho" (Gaudium et Spes 4) (cf. Lc 12 56).


[3º] Em terceiro lugar, a figura escatológica do cristianismo, o seu ser voltado ao cumprimento eterno, deve ser levada a sério. A doutrina do retorno do Senhor Jesus Cristo (parusia) pertence às tradições primitivas da religião cristã. No Credo, professamos e confessamos que ele virá para julgar os vivos e os mortos. Mas levamos isso muito pouco a sério. Nós postergamos o retorno a um momento que se encontra em uma distância nebulosa. Mas não se realiza constantemente – na morte dos indivíduos, na extinção das gerações com as suas culturas? Isso também vale para tudo o que chega até nós – o novo –, como evento do retorno: quem se defende fundamentalmente do tempo se defende do éschaton, da salvação que vem. Ele perde o encontro com o "esposo", como as desventuradas jovens fazem no relato bíblico. A escatologia é, como ensina essa história (Mateus 25,1-13), o presente.


[4º] Em quarto lugar, devemos repensar a característica essencial do serviço da Igreja, sem negar a forma e a estrutura fundamentalmente hierárquicas da Igreja de Cristo. Essa estrutura não deve ser vista como um fim em si mesma, ou até mesmo como uma descrição perfeita da Igreja, mas apenas como um momento ao lado de outros, que torna visível a constituição de base da comunidade de fé. O Concílio Vaticano II descreveu a Igreja muito felizmente como sacramento, como "sinal e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (Lumen Gentium, n. 1). Em nenhum momento a Igreja é fim, mas sempre é meio. Isso tem consequências enormes: quem se compreende como fim deve buscar uma política de poder e, uma vez adquirido, deve defendê-lo com unhas e dentes. Quem serve é capaz de doar tudo, inclusive a si mesmo.


Ralf Miggelbrink - teólogo alemão
[5º] Em quinto lugar, a estrutura da Igreja deve ser descentralizada. Um dos maiores problemas de pensamento e de governo – não só na Igreja, mas da humanidade em geral – é a relação entre unidade e pluralidade. Ambas devem ser mantidas em equilíbrio e em recíproco nivelamento. A unidade como uniformidade não seria apenas uma má compreensão do cristianismo, mas também – como contraponto à multiplicidade desintegrada – a sua destruição. "A unidade deve ser encontrada enquanto as pessoas aprendem mais profundamente e mantêm entre si a pluralidade e a diversidade do seu ser. A unidade assim alcançada vive do reconhecimento recíproco como seu princípio unificante", escreve o teólogo Ralf Miggelbrink, de Essen.


Nas relações constitutivas da Igreja, essa ideia significa um descentramento, um fortalecimento das conferências episcopais regionais, a coparticipação dos sujeitos interessados, um âmbito de projetação das Igrejas locais. O século do movimento ecumênico, por exemplo, tornou evidente que a unidade da Igreja de Cristo não pode ocorrer enfatizando uma unidade formal, superficial, mas apenas através de uma morfogênese da catolicidade no sinal de uma totalidade universal.


[6º] Em sexto lugar, quem mais se interessou pela mensagem do cristianismo o achará fascinante, promotor de vida, que escancara os horizontes. Essa é uma experiência que muitos/as cristãos/cristãs fazem. Infelizmente, também é verdade, por exemplo, que o modelo de pregação do evangelho de Cristo, em muitos casos, torna mais difícil e impede essa experiência. A proclamação oficial da Igreja por meio de documentos nas línguas latina ou nacionais, geralmente, usa uma linguagem alta, incompreensível.


A própria linguagem das pregações e do catecismo pressupõe um nível crescente de termos técnicos e de expressões que não são mais entendidas. Se – o que, infelizmente, acontece raramente – se discute e apenas se afirma, os argumentos parecem muitas vezes incompreensíveis. O desaparecimento da cultura cristã deixa buracos. Todos os responsáveis devem, portanto, fazer uma séria reflexão para saber como o cristianismo em palavras e obras pode ser razoavelmente comunicado hoje e aqui.


A tradição aponta o caminho


Em tudo isso, devemos estar cada vez mais conscientes do fato de que os temas elencados se encontram ordenados segundo uma hierarquia clara. Sem dúvida, as questões que dizem respeito à constituição da Igreja ocupam, perante a crise, o primeiro lugar nos debates internos atuais. Na temática geral da fé cristã, porém, essas questões se encontram muito mais abaixo na ordem das precedências. A Igreja é um instrumento para o fim. Não podemos nem mesmo esperar que a Igreja atraia muito quando, no anúncio, ela gira sempre em torno de suas próprias preocupações.
A Igreja é a comunhão dos seguidores e das seguidoras de Jesus. Ela aponta o caminho apontando para longe de si mesma. A Igreja não cai do céu a cada poucas gerações, mas se move segundo a lei a partir da qual começou uma vez. É a tradição. Se se mantém firme renuncia ao tradicionalismo. Se se esconde facilmente, isso é o fundamentalismo. 


Mas o tradicionalismo leva – e vemos isso cada vez mais claramente – à demolição gigantesca da própria tradição. Daí decorre que apenas se a Igreja seguir no caminho ao longo do tempo é que ela irá encontrar as pessoas e, nelas, o seu Senhor e Redentor Jesus Cristo.


* Wolfgang Beinert (nascido em 1933), sacerdote desde 1959, depois de ter sido professor de dogmática em Bochum (Alemanha). De 1978 até o fim de sua carreira acadêmica em 1998, foi professor de teologia dogmática e de história dos dogmas na Universidade de Regensburg, onde foi colega de Joseph Ratzinger. Editou o Lessico di teologia sistematica (1990) e é autor de Il Cristianesimo. Respiro di libertà (2003) e de Avrei una domanda… Informazione sulla fede dei cristiani (2004), todos pela editora Queriniana (Brescia, Itália).


Este artigo foi publicado na revista alemã Christ in der Gegenwart, 21/2012, e reproduzido no sítio Teologi@Internet. A tradução é de Moisés Sbardelotto.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sábado, 23 de junho de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/510742-possiveis-saidas-para-a-crise-da-igreja

Vaticano analisa a ''apostasia silenciosa'' dos católicos [Importante!]


Stéphanie Le Bars
Le Monde (Paris - França)
21-06-2012

Como ocorre muitas vezes nesse tipo de documentos publicados pelo Vaticano, o diagnóstico emitido sobre a situação da Igreja Católica no mundo não é nada suave. Ele poderia ser definido como severo, se não viesse de dentro da instituição

Tornado público no dia 19 de junho, o documento de trabalho preparatório para o sínodo que se realizará entre os dias 7 e 28 de outubro, dedicado à "nova evangelização para a transmissão da fé cristã", que irá coincidir com o início de um Ano da Fé e das comemorações do 50º aniversário do Concílio Vaticano II, não foge à regra.


Os redatores, que sintetizaram as análises recebidas dos bispos das várias partes do mundo, se preocupam com a "apostasia silenciosa" dos fiéis que se afastam da prática religiosa. São listadas as razões, internas e externas, dessa desafeição e questionam-se os meios para implementar a "nova evangelização" que deveria remediar a situação.


Da "insuficiência da fé" ao "afastamento dos fiéis", da "credibilidade das instituições eclesiais" às "espiritualidades individualistas", ou ao "neopaganismo", o clima em que a Igreja está imersa – tanto nos países do Norte, como nos do Sul, especificam os bispos – está longamente descrito no texto.


A situação não é nova. Antes de Bento XVI, Paulo VI, desde 1975, e João Paulo II, em 1983, em particular, haviam reconhecido as transformações sociais e culturais "que modificam profundamente a percepção que o ser humano tem de si e do mundo, e que implicam em consequências sobre o seu modo de crer em Deus", como resume o papa atual. No rastro do Concílio Vaticano II, todos enfatizaram a necessidade de repropor a "missão evangelizadora da Igreja", especialmente nos países de antiga evangelização.


Entre os elementos que tornam dificilmente audível a mensagem da Igreja, os bispos distinguem aqueles que derivam do contexto exterior: "consumismo, hedonismo, niilismo cultural, fechamento à transcendência", os "novos ídolos" (segundo a Igreja "a ciência e a tecnologia "), e aqueles que são próprios da instituição.


Fala-se, por exemplo, de uma "excessiva burocratização das estruturas eclesiásticas", das "celebrações litúrgicas formais", dos ritos repetitivos. Mais em geral, o foco das reflexões dos bispos deveria estar no fracasso da Igreja, sentido por alguns, "para dar uma resposta adequada e convincente aos desafios" econômicos, políticos ou religiosos do momento.


Muitas pessoas, em várias partes do mundo, também deploram "a insuficiência numérica do clero" para o desenvolvimento das missões da Igreja e apontam para o risco de ficar encalhados em problemas de gestão. Parece-lhes necessária uma melhor integração dos leigos. Segundo o Vaticano, "a fé passiva" ou "morna" de alguns fiéis explica também a difícil transmissão da mensagem evangélica.


O texto, contudo, quer enfatizar as vantagens que a Igreja pode obter do contexto atual. A globalização, a secularização, o debate com as outras crenças, em particular com o Islã, obrigam os cristãos "a purificar e a amadurecer a sua fé", afirmam os bispos. Eles também estão felizes com o surgimento de novas comunidades cristãs e carismáticas, especificamente voltadas para a evangelização.


Quanto às respostas, são sobretudo de ordem espiritual. Para o Vaticano, o ecumenismo deve permitir que os cristãos manifestem uma mensagem evangélica comum, enquanto o diálogo inter-religioso tem de levá-los a uma melhor compreensão da sua fé. Os católicos devem também interrogar "a qualidade da sua vida de fé" e ter "a coragem de denunciar as infidelidades e os escândalos que emergem das comunidades cristãs".


Porque, no fundo, a nova evangelização passa sobretudo pelo testemunho de uma vida cristã que, para algumas pessoas e em certos lugares, pode chegar até a "santidade" ou até mesmo ao "martírio". "O martírio dá precisamente credibilidade aos testemunhos", assegura o texto, que lembra, no entanto, que o esforço dos fiéis deve se referir à "caridade, uma vida sóbria, a ajuda os pobres, a implementação da doutrina social da Igreja ou o serviço da Igreja em favor da reconciliação, da justiça e da paz".


No que se refere à forma, os responsáveis católicos admitem que é preciso renovar as modalidades de anúncio do Evangelho: "A Europa hoje não deve pura e simplesmente fazer referência à sua herança cristã anterior".


As novas tecnologias devem ser exploradas evitando os desvios. Também se fala das peregrinações, da valorização dos santuários, da promoção das Jornadas Mundiais da Juventude. Mas a "urgência" está justamente na implementação de "um estilo mais missionário" de comunidades cristãs, seguras da sua fé e chamadas a ir ao encontro dos não crente e dos fiéis "mornos". Evitando todo "proselitismo agressivo".


Tradução de Moisés Sbardelotto.


Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sábado, 23 de junho de 2012 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/510740-vaticano-analisa-a-apostasia-silenciosa-dos-catolicos

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Domingo da Natividade de São João Batista

Texto do Evangelho: Lucas 1,57-66.80

57 Completou-se o tempo da gravidez de Isabel, e ela deu à luz um filho. 
58 Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela. 
59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. 
60 A mãe, porém, disse: “Não! Ele vai chamar-se João”.
61 Os outros disseram: “Não existe nenhum parente teu com esse nome!” 
62 Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. 
63 Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: “João é o seu nome”. E todos ficaram admirados. 
64 No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. 
65 Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia espalhou-se por toda a região montanhosa da Judeia. 
66 E todos os que ouviam a notícia ficavam pensando: “O que virá a ser este menino?” De fato, a mão do Senhor estava com ele. 
80 E o menino crescia e se fortalecia em espírito. Ele vivia nos lugares desertos, até o dia em que se apresentou publicamente a Israel. 

Natividade de São João Batista
Pintor veneto do séc. XVII, tela de 128 x 206 cm
José Antonio Pagola

REDESCOBRIR A FESTA


A festa de São João é o pórtico das festas que serão celebradas daqui para fente pelo nosso povo.
Mas, o que é "fazer festa"? O que diferencia o feriado de um dia normal? "Por que alguns dias são maiores do que os outros se, ao longo do ano, a luz vem do sol?", pergunta-se o livro do Eclesiástico.
Há muitos que pensam que o homem moderno está perdendo a capacidade de "celebrar festas". Alguns chegam a falar de uma "civilização sem festas".
Quando "a atividade nua e crua", o trabalho e a eficiência marcam o sistema de uma sociedade e de toda a nossa vida, a festa fica vazia de seu conteúdo mais profundo.


A festa torna-se, então, um dia "não laborativo", dia de férias. Um tempo em que, paradoxalmente, deve-se "trabalhar" e esforçar-se para conseguir uma felicidade que, costumeiramente, não é normal em nossas vidas.
Então, a festa dá lugar ao espetáculo, ao turismo, à fuga das viagens ou à embriaguez dos "salões de festa."
Mas a festa é muito mais do que uma "interrupção do trabalho" ou distensão física. O homem é muito mais que um "animal de trabalho" ou uma máquina que precisa de recuperação.

Precisamos mais do que umas férias que nos distraiam e nos façam esquecer as preocupações que, normalmente, possuem nossos dias de trabalho. Algo que não pode alcançar a "indústria do lazer" por mais fórmulas que invente para preencher ou, como diz expressivamente, para "matar o tempo".
Nascimento de São João Batista (1554 aprox.)
Pintura de Tintoretto (pintor italiano: 1518 - 1594)
Museu de S. Petersburgo - Tela de 181 x 266 cm
O importante é "viver em festa" por dentro. Saber celebrar a vida. Abrir-nos ao dom do Criador. Despertar o melhor que há em nós, e que fica obscurecido pelo esquecimento, superficialidade, atividade, e o ritmo frenético da vida cotidiana.
Viver com o coração aberto a esse Pai que dá significado e valor definitivos ao nosso viver diário. Sentir-nos irmãos dos homens e da criação inteira. Deixar falar o nosso Deus e degustar a sua presença carinhosa em nossas vidas.
Desse modo, a festa adquire um significado real, é tingida com uma alegria que não tem nada a ver com o gozo do trabalho eficaz e bem feito, nos regenera e redime-nos do tédio e do desgaste diário.

Quem não descobriu isso, continuará, infelizmente, confundindo as férias com a festa, simplesmente porque é incapaz de "viver e festa."

A QUEM SEGUIMOS?


Os Evangelhos apresentam um forte contraste entre a conduta de João e Jesus. A preocupação primordial de João é o pecado que está corrompendo todo o povo, por isso ele sai da terra prometida e vai para o deserto a fim de pregar, a partir lá, a conversão a Deus. Para Jesus, no entanto, a preocupação primeira é o sofrimento daqueles que são vítimas dessas injustiças e pecados, razão pela qual ele deixa o deserto e vai visitando as aldeias da Galileia proclamando a Boa Nova de um Deus que quer uma vida mais humana.

A tarefa de João é clara: denunciar os pecados, chamar os pecadores ao arrependimento e oferecer um batismo de conversão e perdão, por isso eles o chamam de "Batista", o batizador. O trabalho de Jesus é diferente: ele cura os doentes, acolhe os pecadores e oferece saúde e perdão gratuitos de Deus sem necessidade de se batizar no rio Jordão, por isso o chamam de curador e amigo dos pecadores.

A linguagem do Batista é dura e assustadora, fala da "ira" de Deus que vem como um lenhador empunhando um machado para cortar pela raiz as árvore estéreis; as pessoas têm de viver se preparando para a chegada do julgamento iminente desse Deus. Jesus, porém, conta parábolas que nunca teriam ocorrido ao Batista, aquele que chega é um Pai bom, próximo, compassivo e misericordioso. Sua palavra desperta confiança e alegria. As pessoas devem acolhê-lo agora, criando uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.

Batista não faz gestos de bondade . Não se compadece diante do sofrimento: não se aproxima para curar os doentes. Não vê a marginalização dos mais infelizes: não toca nos leprosos nem liberta os endemoniados. Não se fixa no fraco: não consegue abraçar as crianças da rua. Não come com pecadores: vive trancado em sua vida solitária do deserto. Jesus, porém, se dedica a curar, libertar do mal, acolher, abençoar, perdoar. A sua atuação é introduzir as pessoas na vida de saúde, perdão, paz, amizade, fraternidade.

De quem nós somos? Somos do Batista ou de Jesus? Somos "batistas" ou "cristãos"? Ficamos parados no precursor ou acolhemos a Jesus Cristo?


Tradução de: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilìas de José A. Pagola - 20 de junho de 2012 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

Que fazer com filho rebelde?


Johan Konings *


O Livro do Deuteronômio prescreve: “Se alguém tiver um filho contumaz e rebelde, que não obedece à voz de seu pai e de sua mãe e, mesmo castigado, se obstina em não obedecer, seu pai e sua mãe o tomarão e levarão aos anciãos de sua cidade, à porta do lugar. Eles dirão aos anciãos de sua cidade: ‘Este nosso filho é contumaz e rebelde, não obedece à nossa voz, é devasso e beberrão. Então todos os homens da cidade o apedrejarão até à morte, e assim extirparás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e temerá” (Dt 21,18-21).  


Jesus, no evangelho de Lucas, discorda disso: “O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me toca’. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu, partiu para um lugar distante e ali esbanjou numa vida dissoluta tudo o que possuía.[...] Então ele se pôs a caminho e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o beijou” (Lc 15,12.20).


Uma mãe me conta que seu filho, mal começou a frequentar a Faculdade, está se tornando insuportável, se revolta contra tudo, faz quebradeira em casa, diz que escolheu o mal. Pergunto: “Drogas?”. Ela responde: “Acho que sim”.  


Que caminho seguir, o do Deuteronômio ou o de Cristo? O do Deuteronômio é relativamente fácil: extirpar o mal pela raiz, isto é, pelo sujeito que o comete. O de Jesus é mais difícil. Aliás, Jesus pagou sua maneira diferente de ver e de agir com a morte.


Nossa primeira reação, geralmente, é o caminho fácil. O caminho de combater as drogas com as armas. Mas violência gera violência. E o caminho da despenalização? Talvez também este seja “fácil” demais... “Deixe eles se matarem” (pois o uso medicamente controlado é uma ilusão, pelo menos com os costumes que nós temos aqui).


Qual é o caminho difícil? Vejamos. Por trás das drogas está um mundo, uma cultura, uma mentalidade. Essa é que deve mudar. E isso é tarefa de todos nós, tarefa de paciência, não dá resultado visível de um dia para outro. É plantar para outro colher. 


Uma sociedade que não valoriza a educação, o acompanhamento cuidadoso de crianças e adolescentes que os habitue a procurar formação, conhecimento da vida, valores que promovam a vida deles mesmo e de todos, tal sociedade terá, necessariamente, de enfrentar comportamentos absurdos da parte dos seus filhos. 


Não estou dizendo que a mãe que me falou não tenha cuidado de seu filho. Creio, antes, que cuidou. Até o “confiou” a um colégio católico... O problema é que a educação não é uma tarefa individual, nem de tal ou tal escola determinada. Toda a sociedade está envolvida nisso. Vejo com desconfiança aquilo que as revistas de sempre, ultimamente, estão colocando nos holofotes: dar aos filhos ensino em casa. Evitar-lhes o contato com a realidade social. Podem até avançar bastante na matemática e na língua portuguesa, e até aprender inglês com doze anos. Mas logo mais vão ficar envolvidos com esta mesma sociedade, desprovidos de anticorpos e sujeitos a se deixarem arrastar por uma cachoeira de corrupção...


“Mal começou a frequentar a Faculdade”... Encontrou um mundo que deveria ser o sumo da educação, mas na realidade é apenas uma fábrica de diplomas, que, depois, terão o valor que o mercado lhes contribuir. 


Faculdade eivada de uma mentalidade egoísta, mera competição e gozação, onde se ridiculariza tudo o que foi ensinado como valor humano – e mais ainda aquilo que se apresenta como valor cristão. 


Mas não é só a Faculdade. É a música (aliás, o som, pois música não é) que se é obrigado a engolir o dia todo, é a alimentação de muita caloria e pouca qualidade, o modo de comer sem estilo, a dispersão mental das cibergeringonças, mil coisas que, em si, talvez poderiam ser úteis, mas que estão sendo usadas sem ordem, nem exterior, nem interior. Confusão. Pessoa virada para fora que nem casaco largado às pressas. E aí de repente encontra o caminho das pedrinhas...


Talvez haja quem ache este discurso conservador (olhando para trás, acho mesmo que recebemos algumas coisas que vale a pena conservar). Tenho, porém, a certeza de que precisamos construir uma cultura contrária à que se impõe e nos está sendo imposta. Não uma volta para trás, mas um lance à frente, ultrapassando as assim chamadas novidades. 


Então talvez os filhos se empolguem por algo que os anime e lhes abra perspectivas de mais humanidade, mais dignidade e compreensão, mas admiração e gratidão. Mais amor.


* Johan Konings nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colegio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Foi professor de exegese bíblica na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (1972-82) e na do Rio de Janeiro (1984). Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE - Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte, onde recebeu o título de Professor Emérito em 2011. Participou da fundação da Escola Superior Dom Helder Câmara.


Fonte: domtotal.com - Colunas - 13 de junho de 2012 - Internet: http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2829

segunda-feira, 18 de junho de 2012

O FIEL É DEUS - Notas sobre o mercado religioso

Antônio Flávio Pierucci

Morto de infarto no dia 8 de junho, aos 67 anos, Flávio Pierucci registra a dinâmica mercadológica da concorrência entre igrejas no Brasil e convoca os sociólogos a fazer uma crítica da cultura e da economia capitalista para entender o fim do monopólio católico no país e as disputas de evangélicos por participação no mercado

Antônio Flávio Pierucci - sociólogo - USP

O sociólogo da religião não pode continuar pensando que se pode fazer sociologia propriamente dita sem a crítica da "cultura capitalista", que passa pela crítica da economia capitalista.
Quando uma igreja visa à maximização dos lucros e ensina seus quadros a fazerem o mesmo por ela e também para si mesmos, e exorta os conversos e seguidores a fazerem o mesmo, é sinal de que a lógica da esfera econômica colonizou a lógica da esfera religiosa.


Com isso, a religião enfraquece sua principal conquista alcançada com a modernidade, que foi a autonomização das esferas da cultura, como ensinou Max Weber [1881-1961]. Volta atrás na história.


Muitos sociólogos de hoje veem acertadamente a religião como mercado - mercado de bens de salvação -, mas já é mais que isso: há outras metas a alcançar, inclusive as de conteúdo material. No mundo ocidental contemporâneo, isto é, na sociedade secularizada, há grande competição entre diferentes religiões, e o crescimento de umas e outras depende do declínio de pelo menos alguma outra, em número de seguidores, num jogo de soma zero, evidentemente.


DESREGULAÇÃO 
A dinamização recente da concorrência entre os diferentes produtores e vendedores religiosos - diferentes religiões, igrejas e outros grupos de culto institucionalizados - pode ser entendida como consequência histórica e em linha direta da desregulação republicana da esfera religiosa. Sobretudo na América Latina, tal processo significa a perda pelo catolicismo de sua reserva de mercado. Acabou-se o monopólio católico.


Com a possibilidade assim aberta de ativação acrescida de seus agentes num mercado religioso desmonopolizado, foram sendo alcançados pouco a pouco níveis mais exigentes de pluralismo religioso, de demarcação mais nítida da diferença religiosa e, por que não, de conflitividade multidirecional, por conta dos níveis mais altos de envolvimento reflexivo dos próprios agentes religiosos com a ideia mesma de competição religiosa legítima, "natural".


Segue-se a crescente dinamização racionalizada da oferta dos bens de salvação que os profissionais da religião criam ou, cada vez mais, copiam uns dos outros, cuja distribuição reciclada administram sempre de olho na resposta dos muitos adversários.


Cresce mais quem faz melhores ofertas; criar novas necessidades religiosas é imperativo, regra do mercado. Nesse "métier", vale apontar desde já, têm se esmerado os pentecostais e neopentecostais, mas não só. A febre é altamente contagiosa. É toda uma positividade de imagem proativa que termina por granjear mais prestígio e legitimidade social para as religiões ou religiosidades que melhor souberem vender seu peixe.


E, já que liberdade religiosa hoje em dia se pratica em chave de livre-concorrência, todos os profissionais religiosos responsáveis por esse burburinho são os primeiros a dizerem-se interessados (interessados por enquanto, é só o que por enquanto faz sentido) em mais e mais liberdade de crença, culto, expressão, propaganda e marketing. Assim como em mais isenção (quando não evasão) fiscal, "que ninguém é de ferro!".


Lá na frente, os agentes da religião não passam de agentes econômicos, e as igrejas, de empresas. São, agora, também políticos, uma vez que tudo isso acarreta uma crescente necessidade, por parte das igrejas competitivas, de se fazerem representar no Parlamento, às vezes com partido próprio, de onde podem defender seus interesses com a segurança jurídica e econômica costurada na lei, que ajudam a criar ou a rejeitar.


Como resultado da desregulação, o que se tem é essa abundância de profissionais religiosos, que vemos, em inaudito ativismo, a suprir o mercado de novidades religiosas, serviços espirituais, bens simbólicos e os mais variados artigos de consumo, gerando, em decorrência, teores mais altos de participação religiosa na população, que produzem um aquecimento de todo um campo religioso, que se estrutura em moldes análogos aos de um mercado concorrencial.


Resulta que esses empreendedores religiosos aparecem - assim eles se apresentam na vida cotidiana - como se mergulhados até o pescoço numa inadiável disputa por recursos e oportunidades, por mais eficácia e sucesso na atração de novos consumidores e na fidelização dos já atraídos. Precisam, pois, de mais fundos econômicos, mais dinheiro e mais lucro para investir no negócio da religião.


A "clientela" das igrejas de hoje
SOCIOLOGIA 
Do lado dos sociólogos, para falar agora das coisas do sagrado, é necessário passar pela economia da coisa, mergulhada com certeza na cultura capitalista de uma sociedade irremediavelmente secularizada.


Uma sociedade que não precisa mais de Deus para se legitimar, se manter coesa, se governar e dar sentido à vida social, mas que, no âmbito dos indivíduos, consome e paga bem pelos serviços prestados em nome dele.


De modo tão descarado que o princípio de fidelidade dos homens, isto é, dos fiéis para com Deus, que sustentou a civilização judaico-cristã, e também a islâmica, desde as origens, agora tem sua direção invertida por essa nova cristandade que proclama que Deus é fiel, o fiel é Deus. Investimento seguro, vale dizer.


Nota:
TEXTO INÉDITO, CEDIDO PELO SOCIÓLOGO REGINALDO PRANDI, COAUTOR, COM PIERUCCI, EM LIVROS E PROJETOS DE PESQUISA.


Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustríssima - Domingo, 17 de junho de 2012 - Pg. 5 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/49211-o-fiel-e-deus.shtml

Supremo Tribunal, supremos problemas


MARCO ANTONIO VILLA *

Supremo Tribunal Federal - vista interna
Ao longo da história republicana, a atuação do Supremo Tribunal Federal esteve, quase sempre, em desacordo com valores democráticos.
Em um país como o nosso, de uma enraizada cultura autoritária, a omissão do STF foi perversa. Basta recordar o silêncio cúmplice com relação às graves violações dos direitos humanos durante o Estado Novo e durante a ditadura militar.


Em vez de o STF ser uma espécie de tribunal da cidadania, ele foi, neste mais de um século de vida, um instrumento de desprezo da ordem democrática. Fui também um elemento de reforço da impunidade, doença maligna que permeia o cotidiano brasileiro.


A Constituição de 1988 atribuiu ao STF um conjunto de competências. Ele foi transformado, na prática, em um tribunal de última instância, quando a sua função deveria ser estritamente interpretar o texto constitucional.
Assim, só em 2011 a Corte teve 102 mil decisões, das quais 89 mil foram monocráticas, ou seja, tomadas por apenas um ministro. Dentre essas, 36.754 foram exclusivamente do presidente do STF.


Mesmo com a existência da súmula vinculante, causa estranheza que um só ministro tenha proferido tantas decisões.
Imagine o leitor que se um processo tenha, em média, cem folhas - algo que, para os nossos padrões, caracterizado pela prolixidade, é considerado curto - e que o presidente tenha julgado originalmente somente um terço dos processos, cerca de dez mil, para facilitar as contas. Ele teria de ler 1 milhão de folhas. Será que leu?


O STF tem muitos outros problemas. Um deles é a escolha dos ministros, uma prerrogativa constitucional do presidente da República.
Cabe ao Senado aprová-la. As sabatinas exemplificam muito bem o descaso com a nomeação. Todos são aprovados sem que se conheça o que pensam. São elogiados de tal forma pelos senadores que fica a impressão que estão, com antecedência, desejando obter a simpatia dos futuros ministros frente a um eventual processo. Em síntese: as sabatinas são uma farsa e desmoralizam tanto o Senado como o STF.
Supremo Tribunal Federal - vista externa
No Brasil, estranhamente, os ministros acabaram virando celebridades. Dão entrevistas a toda hora e sobre qualquer assunto.
Um deles chegou a "abrir sua casa" para uma reportagem e tirou uma foto deitado na cama ao lado da sua esposa! Tem ministro poeta, outro é empresário de ensino, tem ministro que foi reprovado em concurso para juiz -duas vezes, e mesmo assim foi alçado ao posto maior da carreira, mas sem concurso, claro-, tem ministro que chegou lá devido à sorte de quem era vizinho da sua mãe. Pior ainda são aqueles que ficam alguns anos como ministros e retornam à advocacia, usando como grife a passagem pelo Supremo.


O STF padece também de um velha doença nacional: o empreguismo. São quase 3.000 funcionários, entre efetivos e terceirizados. Não é improvável que, se todos comparecerem no mesmo dia ao trabalho, as instalações da Corte não sejam suficientes para abrigá-los.


Como são 11 ministros, a média é de 272 funcionários para cada um. E o mais estranho são funcionários que não estão diretamente vinculados à função precípua de julgar, como as 235 recepcionistas e os 403 seguranças - deve ser a Corte mais segura do mundo.
Essa estrutura custa para a União uma bagatela da ordem de R$ 500 milhões ao ano.


Um bom momento para o STF reencontrar a cidadania é o julgamento do mensalão. Poderemos assistir como cada um dos 11 ministros vai agir. Pode ser que, finalmente, a Corte rompa com seu triste passado de conluio com o Executivo e seja um instrumento de defesa dos valores democráticos.


* MARCO ANTONIO VILLA, 57, é historiador, professor da Universidade Federal de São Carlos, e autor, entre outros, de "A História das Constituições Brasileiras: 200 Anos de Luta Contra o Arbítrio" (LeYa).


Fonte: Folha de S. Paulo - Tendências/Debates - Domingo, 17 de junho de 2012 - Pg. A3 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/49248-supremo-tribunal-supremos-problemas.shtml

VERDADE E ARAGUAIA


ELIO GASPARI

Na hora em que o Comando do Exército diz de novo que os papéis da ação da tropa no Araguaia foram queimados, saiu o livro “Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia”, do repórter Leonencio Nossa [Companhia das Letras]. Nele está o melhor levantamento já feito sobre o extermínio total e sistemático dos guerrilheiros, praticado depois de outubro de 1973. 


É uma narrativa capaz de abalar o dia do leitor. Leonencio colheu depoimentos de 153 pessoas, muitos deles relacionados com a matança. Curió tem um pé na mitomania e alguns detalhes podem ser contestados, mas são minúcias.
“Mata!” descreve o assassinato de 30 militantes do PC do B ou de moradores que se ligaram a eles. Ele confirma a falsidade de três afirmações.


1) Os documentos relacionados com o Araguaia não desapareceram. Queimaram muitos, mas não todos. Leonencio identifica os oficiais que comandaram a matança.
2) O extermínio dos prisioneiros não foi obra de militares indisciplinados. Foi uma decisão de governo, tomada pelos presidentes e ministros do Exército da ocasião.
3) Aquilo não foi uma guerra, foi uma operação para apagar a memória. Em maio de 1945, havia 20 pessoas no bunker de Hitler. Sumiu só uma. No Araguaia eram 49, e sumiram todos.


Aviões lançavam panfletos convidando os fugitivos à rendição. Um deles dizia: “Oferecemos a possibilidade de abandonar a aventura com vida, com tratamento digno e julgamento justo”. Mentira.
Quem passar por uma livraria e tiver disposição (muita) pode sapear seis páginas (196 a 202) com a narrativa da captura de Aurea Valadão, de 24 anos, ex-estudante de física da UFRJ, e do camponês Batista.  


Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Domingo, 17 de junho de 2012 - Pg. A13 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/49362-a-comissaria-se-esqueceu-do-passado.shtml

De choque e de cheque [Para se indignar!]


JANIO DE FREITAS

A CPI transforma-se num escândalo de imoralidade política e rejeição a princípios do Estado de Direito
Carlinhos Cachoeira - bicheiro
A CPI do Cachoeira foi rápida: já está no fundo da desmoralização. Ela é o escândalo. E por ser CPI mista do Senado e da Câmara, os seus conluios desviantes projetam a desmoralização sobre um dos três pilares institucionais do Estado democrático: o próprio Congresso. A CPI volta-se contra a democracia.


Tal situação não requer explicações. Percebê-la está ao alcance de todos. O que ainda se justifica é completar a percepção, com indicações de que grande parte da desmoralização da CPI é deliberada. E imposta pela maioria formada por PT e PMDB, coadjuvados pelos integrantes chinfrins de sua aliança. Ou melhor, sociedade.


Uma dessas indicações pode ser a omissão, durante dez horas de interrogatório, de qualquer referência a determinada conduta de Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal.


Se a compra por R$ 400 mil de uma casa avaliada em milhões (já foi dito que de três a cinco) tem sido um dos pontos considerados, por que não foi feita nem sequer uma pergunta relacionada, de uma vez só, a milhões ilegítimos e a Agnelo?


Primeiro a receber de Durval Barbosa as imagens gravadas do então governador José Roberto Arruda e vários do seu grupo, enfurnando blocos de dinheiro de corrupção, Agnelo Queiroz também enfurnou o material (nem candidato era ainda). Qual foi o objetivo da omissão? E o que aconteceu com seu patrimônio naquela época, ou um pouco mais tarde? Se teve ou se não uma de suas alterações, é significativo do mesmo modo.


Nesse quesito, aliás, também a Polícia Federal está em dívida. Era de sua obrigação, constatada a disparidade entre o valor declarado da compra e as avaliações do imóvel, examinar a eventual variação patrimonial do vendedor. Se de R$ 400 mil ou de movimentos que sugeririam recebimento maior. Ou por fora.


Ainda no início desse caso Cachoeira, comecei a insistir, e o fiz várias vezes, na afirmação de que investigar a Delta Construções e seu "dono" Fernando Cavendish era a chave para muitos esclarecimentos, relativos a Carlos Cachoeira e a muito mais. Desculpem, mas volto a fazê-lo.


Agora, para dizer que é a própria importância das intimidades da Delta que faz o comando da CPI e sua maioria fugirem de aprovar tais convocações. É o conluio dos beneficiários, diretos e indiretos, com os guardiães das aparências governamentais e partidárias. Elas se entendem: tropa de cheque, como diz o deputado Miro Teixeira, e tropa de choque.


A CPI transforma-se em um escândalo de imoralidade política e de rejeição aos princípios do Estado de Direito democrático.


Fonte: Folha de S. Paulo - Poder - Domingo, 17 de junho de 2012 - Pg. A9 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/49349-de-choque-e-de-cheque.shtml