«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Por que o Brasil está no 88º lugar no ranking mundial da educação?


Marcelo Gonzatto

A gestão ineficiente, o desprestígio do magistério e a má formação dos professores são alguns dos empecilhos ao salto educacional brasileiro

Os problemas da educação brasileira extrapolam os limites da sala de aula. O desempenho pífio revelado em avaliações internacionais se deve a uma combinação de falhas de educadores, governantes e famílias, na opinião de especialistas. Essas deficiências incluem erros de gestão, falta de recursos e pouca cobrança social por resultados que façam jus ao atual peso econômico e político do Brasil.

O desafio de alcançar um ensino de qualidade foi eleito o tema da nova campanha institucional do Grupo RBS, deflagrada na terça-feira sob o slogan A Educação Precisa de Respostas. Para investigar quais são os principais nós que comprometem a aprendizagem no país e descobrir como desatá-los, uma série de reportagens em rádios, tevês e jornais vai responder a questionamentos concretos sobre o atual cenário da educação nacional.

Claudio de Moura Castro - economista
A primeira dessas perguntas é como pode um país que alcançou a sexta posição entre as maiores economias do planeta ostentar um constrangedor 88º lugar em um ranking mundial publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no ano passado. As respostas, oferecidas por especialistas nacionais na área, resumem os principais entraves ao avanço educacional brasileiro.

Superados estes obstáculos, o país poderia experimentar nos próximos anos um acréscimo de qualidade significativo nas escolas e vencer um atraso histórico.
Temos de levar em conta que começamos a nos preocupar com educação com quatro, cinco séculos de atraso em relação a outros países. É impossível recuperar isso do dia para a noite, mas temos de investir melhor para não perdermos mais tempo — observa o economista Claudio de Moura Castro.
Confira, a seguir, alguns dos principais empecilhos ao salto educacional brasileiro.

1 - GESTÃO INEFICIENTE

Especialistas em educação sustentam que não basta apenas despejar mais dinheiro no sistema educacional brasileiro. Outra disciplina em que o país encontra dificuldades é como aplicar bem os recursos disponíveis — que este ano devem somar R$ 114 bilhões.
Há mau gerenciamento, e não é porque as pessoas são incompetentes. As estruturas são viciadas por clientelismo e corporativismo. Há nomeações políticas de diretores, em muitos lugares há dois professores para cada classe, tem muita gente que não trabalha. É uma cultura gerencial difícil de desmontar — avalia o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista Oliveira.

Exercício
A proporção de alunos por professor é ruim em muitas regiões do país. Conforme informações da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, em cidades do Piauí, por exemplo, há apenas oito alunos para cada professor — o que torna o sistema caro e pouco eficiente.
No Rio Grande do Sul, um estudo da especialista em Educação e ex-secretária estadual Mariza Abreu aponta que há 17 alunos por professor na rede estadual — mas, considerando os educadores que estão fora de aula, cedidos para outras atividades, essa média cai para 15 por um. A própria CNTE entende que esse indicador deveria ficar entre 18 e 23 para um.

Tema de casa
O Brasil deve aprimorar a gestão da educação, melhorar a administração escolar, evitar interferências políticas e qualificar a distribuição de recursos e pessoal para aumentar a eficiência das redes de ensino.

2 - DESPRESTÍGIO DO MAGISTÉRIO

Falhas na gestão do ensino explicam, em parte, a dificuldade para desatar outro nó da educação brasileira: a baixa remuneração dos professores — tanto na rede pública quanto na particular. Os baixos salários têm duplo impacto: além de oferecerem pouco estímulo aos profissionais em ação, afugentam da carreira muitos dos melhores alunos.
– A baixa aprendizagem decorre da ausência de professores com qualidade. Tornar o magistério um objeto de desejo dos jovens é fundamental. Nos países com boa educação, ser professor tem bom retorno financeiro e reconhecimento social — avalia Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos pela Educação.

No Painel RBS realizado na terça, o especialista observou que, enquanto um professor ganha, em média, R$ 1,8 mil, outro profissional com titulação equivalente recebe R$ 2,8 mil. Países que estão no topo da educação mundial, como Coreia do Sul e Finlândia, pagam bem seus professores, o que lhes permite atrair mais interessados e selecionar os melhores.

Exercício
No Brasil, um professor que receba o piso nacional de R$ 1.451 acumula ao longo de um ano, incluindo o 13º salário, o equivalente a cerca de US$ 9,3 mil.

Tema de casa
Para melhorar as condições de vida dos professores e atrair profissionais mais capazes, o país precisa elevar a remuneração dos educadores. A média dos países da OCDE, por exemplo, fica ao redor de US$ 30 mil anuais, cerca de três vezes mais do que o piso brasileiro em dólar.

3 - MÁ FORMAÇÃO DOS PROFESSORES

Para especialistas, o modelo de treinamento dos mestres brasileiros é uma das razões principais para o desempenho pífio dos estudantes nas avaliações nacionais e internacionais. A principal crítica é de que os cursos não preparam adequadamente.
— Em primeiro lugar, para se formar um bom professor, você tem de aprender o conteúdo a ser ensinado. Em segundo, você tem de aprender a dar aula. O terceiro é tudo mais, ou seja, cultura, ideologia, identidade do professor, antropologia e sociologia da educação, legislação, tudo o que é periférico. No Brasil, as faculdades só ensinam o “tudo mais”, o periférico. Faltam os temas centrais — diz o economista e especialista em educação Claudio de Moura Castro.

Exercício
Além da má formação, em muitos casos o professor brasileiro não tem a graduação exigida para dar aula.

Tema de casa
Na avaliação de especialistas, o Brasil precisa revisar a formação dos professores, agregando mais prática à teoria, e ampliar o acesso dos educadores aos cursos superiores de licenciatura.

4 - BAIXO INVESTIMENTO NA EDUCAÇÃO BÁSICA

Mozart Neves Ramos
Um dos problemas que o país precisa resolver para elevar a qualidade do seu ensino é de matemática. O Brasil aplica, em média, um valor muito baixo para cada estudante da educação básica. O gasto público, em 2010, era de apenas R$ 3,5 mil ao longo de um ano. Isso representa todo o investimento estatal feito diretamente em educação dividido pelo número de alunos.

— Ainda investimos menos do que países como Argentina, México ou Chile — compara Mozart Neves Ramos, conselheiro do movimento Todos Pela Educação.

Uma comparação internacional feita com base nas cifras aplicadas em 2008 convertidas para dólar demonstra que, em uma lista de 34 países, o Brasil só aplicou mais dinheiro por aluno de qualquer nível de ensino do que a China. Outro problema é o desequilíbrio entre os níveis educacionais. Enquanto há R$ 17,9 mil disponíveis ao ano para cada universitário, o estudante do Fundamental ao Médio conta com cinco vezes menos.

Tema de casa
O Brasil está discutindo para quanto deve se elevar o gasto nacional em educação. Atualmente em 5,1% do PIB, o novo Plano Nacional de Educação prevê um crescimento para até 10%.

5 - POUCA INOVAÇÃO NA SALA DE AULA

As dificuldades de formação e remuneração dos profissionais da educação, somadas às restrições de orçamento, resultam em outro problema: a dificuldade para apresentar um sistema de ensino renovado, inovador e capaz de despertar o interesse dos estudantes.
— Temos hoje uma situação em que a escola é do século 19, o professor é do século 20, mas o aluno é do século 21. Precisamos colocar todos no mesmo século. Para isso, é preciso ter um currículo atraente, com inovação e criação de mecanismos que estimulem a pesquisa. O aluno do século 21 não quer coisa pronta, enlatada – analisa Mozart Neves Ramos.

Exercício
A pesquisa O Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Escolas Brasileiras, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, mostrou no ano passado que 92% das escolas públicas urbanas têm computador conectado à internet, mas...
...apenas 4% dos equipamentos estão presentes na sala de aula.
...64% dos professores acreditam que os alunos sabem mais do que eles sobre uso da informática.
...75% dos educadores dependem de apoio informal para usar a informática na educação.

Tema de casa
O país precisa realizar uma combinação de mais investimento, melhor formação e estímulo à renovação das práticas de ensino a fim de torná-lo mais atraente, interativo e adequado ao mundo digital do século 21.

6 - BAIXA PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE

Os problemas da educação brasileira não estão apenas dentro do colégio. Um dos elementos apontados para o mau desempenho internacional é o pouco envolvimento de quem está do lado de fora dos muros escolares no universo da educação. A pouca intimidade foi demonstrada pela pesquisa Educar Para Crescer, realizada pelo Ibope: 72% das famílias brasileiras se dizem “satisfeitas”com a educação nacional, e dão uma média 7 (em uma escala de zero a 10) para as escolas públicas e privadas.

Exercício
Confira indícios da pouca importância que a educação tem no imaginário da população brasileira:
— 70% não sabem o que o prefeito está fazendo para melhorar a qualidade do ensino
— 1% dos eleitores considera as propostas de educação determinantes na hora do voto
— 89% não veem a educação como principal problema do país
— 20% acreditam que a educação também é responsabilidade da população
— 7% acham que educação é responsabilidade dos pais
— 68% pensam que a responsabilidade é do governo

Fonte: Zero Hora - A Educação Precisa de Respostas - 30/08/2012 - 05h05 - Internet:http://www.clicrbs.com.br/especial/rs/precisamosderespostas/19,1430,3869663,Por-que-o-Brasil-esta-no-88-lugar-no-ranking-mundial-da-educacao.html

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

"Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro" [Excelente!]


Entrevista com o Filósofo:
Giorgio Agamben

Peppe Salvà
Ragusa News
16-08-2012

Giorgio Agamben - filósofo italiano
Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, Giorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista à Ragusa News.

O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itáli. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

Giorgio Agamben: “Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas - assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

Walter Benjamin (1892-1940) - filósofo alemão
A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

Giorgio Agamben: A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história  e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar)  têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim,  da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Alexandre Kojève (1902-1968)
Filósofo russo
Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Giorgio Agamben: Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua  (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo,  foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder.  Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.  O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se põe frente  ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável? 

Giorgio Agamben: Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência.  As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Giorgio Agamben: Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Giorgio Agamben: Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: "a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança".

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Piero Guccione - pintor siciliano
Giorgio Agamben: Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea,  as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made?  Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte.  Naturalmente - a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança  aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio,  infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com  não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

(A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC)

Fonte: domtotal.com - 30/08/2012 - Internet: http://domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=496782

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O desperdício de alimentos custa caro aos EUA [No Brasil não é diferente!]


DINA EL-BOGHDADY
THE WASHINGTON POST 

Prejuízo chega a US$ 165 bilhões por ano
Os americanos desperdiçam até 40% de sua comida a cada ano, enchendo aterros sanitários com pelo menos US$ 165 bilhões em hortifrutigranjeiros e carnes numa época em que centenas de milhões de pessoas passam fome em todo o mundo, segundo análise divulgada na terça-feira pelo Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC, na sigla em inglês).

A análise, uma compilação de estudos e estatísticas, revela que há desperdício desde a fazenda até o garfo, mesmo agora que a seca ameaça elevar o preço dos alimentos. Os recursos que o governo dedicou para identificar onde estão as deficiências e como combatê-las são irrisórios em comparação com os esforços em curso na Europa.

Por enquanto, os preços americanos relativamente baixos facilitam o desperdício de comida, o que pode explicar a razão porque a família americana média de quatro pessoas termina jogando no lixo o equivalente a US$ 2.275 em comida todo ano, diz o relatório. Essa tendência perdulária piorara como tempo e hoje o americano médio desperdiça 10 vezes mais comida do que um consumidor do Sudeste Asiático e 50% mais do que nos anos 70.

"Não surpreende que a comida seja o maior componente do lixo sólido nos aterros", disse Dana Gunders, cientista do NRDC que assina o estudo. A frustração dos ambientalistas é que recursos naturais - água, terra e energia - são usados para produzir todo esse alimento não consumido. "Estamos jogando fora quase a metade da comida que cruza nosso caminho", disse Gunders. "É dinheiro jogado no ralo."

A análise cita pontos fracos em cada etapa da cadeia produtiva. Na fazenda, os plantadores, às vezes, não colhem alimentos em razão dos preços ruins do mercado, que dificultam a recuperação dos custos.

O mercado também obriga os plantadores a selecionar as plantas que colhem, removendo alimentos com manchas ou outros defeitos cosméticos. O relatório cita um fazendeiro que estima que 75% dos pepinos que ele joga fora são comestíveis e uma empresa embaladora de tomate que afirma poder encher um caminhão de lixo com cerca de 10 mil quilos de tomates descartados a cada 40 minutos.

Quando bens perecíveis são embarcados de navio, eles também são rejeitados por distribuidores responsáveis por levá-los ao comércio local e por bancos de alimentos, que, às vezes, recebem quantidades maiores do que podem usar.

No entanto, muitos estudos sugerem que a maior parte do desperdício ocorre nas lojas e casas. O governo estima que supermercados percam US$ 15 bilhões por ano só em frutas e legumes não vendidos. O NRDC atribui parte dessas perdas ao excesso de produtos estocados para impressionar consumidores.

Em restaurantes, que também sofrem prejuízos com o desperdício de alimentos, tamanhos de porções que excedem os recomendados pelo governo desempenham papel importante. Ano passado, associações industriais lançaram uma iniciativa para ajudá-los a doar mais comida e reduzir os 36 milhões de toneladas de alimentos enviados aos lixões a cada ano.

A Europa, porém, saiu na frente. O Parlamento Europeu adotou uma resolução que cortará o desperdício pela metade até 2020. Na Grã-Bretanha, há cinco anos, alguns varejistas já estão usando promoções para desencorajar consumidores a comprar mais do que precisam - do tipo "compre a metade", em vez da tática de "compre um e leve dois" usada nos EUA.

Segundo pesquisa do Shelton Group, 39% dos americanos classificaram o desperdício de comida como sua principal "culpa" - bem acima de deixar as luzes acesas ao sair (27%) ou não reciclar (21%). Suzanne Shelton, fundadora do grupo, disse que as pessoas têm as melhores intenções ao encher as sacolas de supermercado, mas a vida acaba interferindo. "Ficamos atolados no trabalho e nos vemos comprando uma pizza na volta para casa", disse. "No fim de semana, jogamos fora a comida estragada da geladeira."

Fonte: O Estado de S. Paulo - Internacional - Domingo, 26 de agosto de 2012 - Pg. A24 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-desperdicio-de--alimentos-custa--caro-aos-eua--,921811,0.htm
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Veja algumas dicas para evitar o desperdício de alimentos dentro de casa

  • Faça uma lista de compras: em média, um terço do que compramos em alimentos vai direto para o lixo, porque compramos a mais e estraga. Cada família média brasileira acumula um desperdício anual de 255,5 kg de comida, o que significa que se poupasse o valor jogado fora, a mesma família acumularia quase R$ 1 milhão ao longo da vida;
  • Não valorize apenas a aparência: ao preferir legumes com um pouco de terra, você terá um produto que durará mais. Lembre-se de lavá-los apenas na hora de comer. Outra boa dica é escolher produtos cultivados na sua região, pois isso reduz o custo de transporte e o desperdício;
  • Mesa farta e consciente: primeiro faça uma estimativa do consumo real que a família vai fazer em certo tempo. Então, compre apenas essa quantidade de alimentos e bebidas, para evitar o desperdício.
Fonte: Mercado Ético - 21/10/2011 - 11h50m51s - Internet: http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/%E2%80%9Cagricultura-mundial-esta-em-apuros%E2%80%9D-diz-relatorio-estado-do-mundo-2011/

Ser humano pode guardar informações externas durante o sono


Jornal O Globo

Teste mostra que pessoas podem reconhecer, mesmo inconscientemente, sons e cheiros enquanto dormem

É possível aprender enquanto dorme? 
Um estudo do Instituto Weizmann mostra que se certos cheiros e barulhos rodearem um indivíduo durante o sono, este começará a suspirar se ouvir o mesmo som outras vezes (mesmo sem o odor que geraria a reação), esteja dormindo ou acordado. As pessoas podem, portanto, guardar informações durante o período, o que afeta o comportamento, mesmo inconscientemente.

Durante os testes, as pessoas dormiam em um laboratório especial onde o estado do sono era constantemente monitorado. Se acordassem durante os exames, mesmo que por um momento, eram desqualificadas. Durante o período, um som era exposto, seguido imediatamente de um odor, agradável ou não. Então um outro som era tocado, seguido por um odor oposto ao anterior (se era um cheiro bom, colocava-se um cheiro ruim, e vice-versa).

Durante a noite, várias combinações eram usadas. Os voluntários passavam a reagir aos barulhos mesmo sem um odor logo após, dando longos suspiros. No dia seguinte, as pessoas, já acordadas, ouviam os sons mais uma vez, sem o cheiro que viria após. Apesar de não terem noção do que se passou com elas enquanto dormiam, também passavam a suspirar constantemente.

A junção do som e do odor tem certas vantagens. Nenhum dos sentidos pode acordar o indivíduo, mas pode gerar reações do cérebro. O odor ainda pode gerar um tipo de comunicação não verbal, que é o suspiro. Neste caso, durante a soneca ocorre o mesmo que geralmente ocorre quando a pessoa está acordada. Inspira-se cheiros agradáveis e se suspende a inalação com um cheiro ruim.

Testes sobre aprendizagem no sono são notoriamente difíceis de serem realizados. O pesquisador precisa ter certeza de que o objeto de estudo realmente dorme e não vai acordar durante os testes. Testes para averiguar o ensino verbal neste período, por exemplo, nunca conseguiram chegar a um resultado conclusivo. A falta de dados concretos tem frustrado cientistas que defendem a importância do sono para consolidação do aprendizado.

Fonte: O Globo - Saúde - 27/08/2012 - 7h00 - Atualizado em 27/08/2012 - 11h08 - Internet: http://oglobo.globo.com/saude/ser-humano-pode-guardar-informacoes-externas-durante-sono-5886536 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

LANÇADO SITE DO ANO DA FÉ



Calendário e documentos disponíveis on-line

Acaba de ser lançado o site oficial do Ano da Fé do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização
O site ( http://www.annusfidei.va/) está disponível em Italiano e Inglês.

Destaca-se o calendário do Ano da Fé (11 de outubro de 2012 - 24 de Novembro de 2013), que será atualizado regularmente pelo dicastério.
Entre os documentos e reflexões para aprofundamento oferecido pelo site estão: 
  • o Catecismo da Igreja Católica
  • os Atos do Concílio Vaticano II
  • a catequese de Bento XVI sobre os apóstolos, os Padres da Igreja, a oração, os teólogos medievais e as grandes mulheres da Igreja
  • Conta também com várias apresentações do Ano da Fé.
Cada diocese pode também marcar junto à Secretaria Organizadora iniciativas a nível de Igreja local. Serão publicados os eventos mais importantes.
É possível baixar a partitura do hino oficial Credo, Domine, composto para o Ano da Fé e também o logotipo representando o barco da Igreja com um sol no fundo que evoca a Eucaristia.
A página inicial oferece a contagem regressiva do tempo restante até 11 de outubro de 2012.

Fonte: ZENIT.ORG - Terça-feira, 28 de agosto de 2012 - Internet: http://www.zenit.org/article-31145?l=portuguese

VATICANO: Tudo o que não se sabia e que agora se sabe

Sandro Magister
Chiesa
27-08-2012
São as informações inéditas contidas no relatório que a Santa Sé publica anualmente sobre suas próprias atividades. Roubos, processos, indulgências, esmolas, doações. Há também o relato de uma invasão de porcos-espinhos que foi erradicada.

“A atividade da Santa Sé” é o título de grosso volume que anualmente oferece o relatório das ações realizadas pelo Papa, pela cúria romana e pelos outros organismos vaticanos. É uma “publicação não oficial”, como se especifica no frontispício, mas – compilada pela Secretaria de Estado – que contém uma substancial quantidade de informações e não poucas curiosidades, muitas vezes inéditas.

A última edição, referida às atividades de 2011, foi publicada no final de junho pela Libreria Editrice Vaticana. Consta de 1.366 páginas e custa 80 euros.

Através dela tomamos conhecimento, por exemplo:

- de que entre as atividades da Congregação para a Doutrina da Fé se inclui também a reprodução no L’Osservatore Romano de 30 de novembro de 2011 de um texto do então cardeal Joseph Ratzinger, publicado em 1998 em um volume intitulado “Sobre a pastoral dos divorciados em segunda união”. Essa reprodução – explica-se – tinha como intenção “chamar a atenção dos pastores” sobre esse texto, “lamentavelmente pouco conhecido”, que confirma a posição católica sobre este tema e no qual, entre outras coisas, se confirma que a práxis das Igrejas Ortodoxas de admitir sob certas condições um segundo e um terceiro matrimônio depois do fracasso do primeiro segue sendo “inaceitável por motivos doutrinais”.

- de que no ano passado a oficina disciplinar da Congregação para a Doutrina da Fé abriu 599 novos procedimentos, 440 dos quais se referem a “delicta graviora” e que os mais numerosos dentre eles – exatamente 404 – são casos de abusos perpetrados por clérigos que prejudicaram menores. Em relação a isto o volume assinala que “em 2011, em comparação com 2010, a oficina disciplinar recebeu menos informes”, mas que de qualquer modo “em relação aos anos anteriores (por exemplo, o quinquênio 2005-2009) o número de casos aumentou consideravelmente”. Sempre neste campo, além disso, a Congregação para a Doutrina da Fé submeteu ao Papa o pedido de demissão “ex officio” do estado clerical para 125 indivíduos e para outros 135 o pedido de dispensa das obrigações sacerdotais.

- de que no mesmo período a Congregação para o Clero – por motivos diferentes aos “delicta graviora” – emitiu 540 editos de dispensa das obrigações sacerdotais para 49 diáconos diocesanos, 26 diáconos religiosos, 280 sacerdotes seculares e 185 religiosos.

- de que a Congregação para o Culto Divino, além da administração ordinária, declara que “está acompanhando de perto a proposta das ‘homilias temáticas’ em acordo com a Congregação para a Doutrina da Fé e a Congregação para o Clero”, evidentemente com a intenção de melhorar os conteúdos das pregações durante as Missas.

- de que a Congregação para a Evangelização dos Povos concedeu, através da obra pontifícia da Propagação da Fé, mais de 75 milhões de dólares em ajuda às dioceses em território de missão (em 2010 haviam sido mais de 85 milhões). Outros 30 milhões foram distribuídos, além disso, através da Pontifícia Obra de São Pedro Apóstolo (foram cerca de 33 milhões em 2010). E mais de 19 milhões através da Pontifícia Obra da Infância Missionária (20,6 milhões em 2010).

- de que a Congregação para os Religiosos autorizou em 2011 o ingresso à vida consagrada de cinco pessoas casadas e com o cônjuge ainda vivo.

- de que a Congregação para a Educação Católica está preparando um documento sobre o uso da internet na formação sacerdotal.

- de que em 2011 a Penitenciária Apostólica concedeu a doação de 1.315 indulgências e de que o país mais beneficiado foi a pátria de Martinho Lutero, a Alemanha, com 329 concessões, seguida pela Itália com 260.

- de que a Rota Romana, cuja jurisprudência se constitui como modelo para todos os tribunais eclesiásticos do mundo, no ano judicial de 2011 emitiu 179 sentenças definitivas sobre casos de nulidade matrimonial, a maioria dos quais (94) não são a favor, mas contra o reconhecimento da nulidade (em 2010 havia acontecido o contrário, sobre 175 sentenças definitivas 93 haviam sido a favor da nulidade e 82 contra).

- de que o Pontifício Conselho Cor Unum distribuiu diretamente, em nome do Papa, 1,8 milhão de dólares para populações castigadas por calamidades e 2,3 milhões de dólares em subsídios para apoiar projetos de promoção humana e cristã. Além disso, as duas fundações vinculadas ao dicastério – a João Paulo II para o Sahel e a “Populorum Progressio” para a América Latina – destinaram respectivamente 1,86 milhão e 2,1 milhões de dólares para financiar projetos humanitários nesses continentes.

- de que prossegue o trabalho do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, que revisa algumas matérias do Código de Direito Canônico, sobre questões de direito penal, direito processual, direito matrimonial e direito patrimonial, e as relações entre o Código da Igreja Latina e o das Igrejas Orientais. Particularmente avançado está o processo sobre a reforma do direito penal.

- de que em 2011 foram concedidas 1.321 entradas ao Arquivo Secreto Vaticano, para estudiosos provenientes de 54 países. Os mais numerosos foram os italianos (673), seguidos pelos espanhóis e alemães (102 cada um), norte-americanos e franceses (64 cada um), britânicos (30) e poloneses (35). Também chegaram estudiosos do Azerbaijão, China, Síria, Togo e Turquia, mas ninguém de Israel.

- de que o pessoal da Rádio Vaticana é composto por 352 indivíduos, dos quais 307 são leigos. Na prática, trabalha ali mais de 12% de todo o pessoal da Santa Sé, que soma 2.832 indivíduos.

- de que a Esmolaria Apostólica – com um pessoal interno de 10 indivíduos e 17 calígrafos externos – em resposta a quase sete mil cartas (mesmo número que em 2010) de pedidos de ajuda provenientes “de necessitados, tanto cristãos como de outras religiões”, doou “com discrição” e “cotidianamente”, em nome do Papa, uma soma “em torno de 900 mil euros” (em 2010 esteve próximo de um milhão de euros”). Soma coberta em sua totalidade com as contribuições recebidas pelos pergaminhos com uma bênção apostólica pedida pelos fiéis: 120 mil pergaminhos provenientes diretamente da Esmolaria (foram 115 mil em 2010), e 108 mil os distribuídos através de 70 entidades escolhidas (foram 112 mil em 2010).

- de que enquanto está em curso o exame da Congregação para a Doutrina da Fé sobre as aparições marianas em Medjugorje, através de uma comissão internacional de investigação que em 2011 se reuniu quatro vezes, chegaram à Pontifícia Academia da Imaculada – para a qual “se torna cada vez mais agudo o problema da falta de acadêmicos” – muitos pedidos provenientes de grupos de oração que, “nascidos por causa de Medjugorje, não têm nenhum ponto de referência para canalizar a graça da conversão obtida nesse lugar santo”.

- de que havia, no dia 31 de dezembro de 2011, 594 pessoas com cidadania vaticana: 71 cardeais, 307 eclesiásticos com estado diplomático, outros 51 eclesiásticos, uma religiosa, 109 guardas suíços, e outros 55 leigos. Nessa mesma data as pessoas autorizadas a residir no Estado da Cidade do Vaticano conservando sua cidadania de origem eram 238, ao passo que havia 3.500 residentes em imóveis extraterritoriais ou isentos de expropriação e tributos.

- de que durante 2011 a polícia efetuou 96 contravenções por violações às normas de circulação veicular no Estado da Cidade do Vaticano. Depois de “uma incisiva atividade da policia judicial”, se declara “afastado” (“à exceção de algum episódio isolado”) o fenômeno dos roubos “bastaste comum nos museus vaticanos, mas especialmente na Praça São Pedro”.

- de que em 2011 “os museus vaticanos entraram no seletíssimo clube dos “over five millions” [mais de cinco milhões], graças ao conjunto de procedimentos “garantidos pelo delegado monsenhor Paolo Nicolini”. Além disso, graças à licença de exportação definitiva concedida pelo Ministério Italiano para os Bens Culturais, os museus vaticanos puderam adquirir a coleção Francesco Pagano, doada pelos herdeiros em 1998, incluindo 94 objetos datados do século IV a.C. até a época romana. Em 2011, a atividade editorial dos museus foi assumida por uma nova oficina de publicações, com o novo selo Edições dos Museus Vaticanos, cuja titularidade pertence à direção. Esta iniciativa é continuação dessa outra de 2009, a criação da oficina Bookshop, em colaboração com a Obra de Trabalhadores Florentinos Spa [Sociedade por Ações, quer dizer, Sociedade Anônima].

- de que em 2011 o Estado da Cidade do Vaticano consumiu 32 milhões de kw de eletricidade, mais de 4,5 milhões para as zonas extraterritoriais e 1,8 milhões para as vilas pontifícias. Ao passo que para calefação a central térmica vaticana teve a necessidade de quase 1,2 milhão de metros cúbicos de gás metano. Aparecem como fornecedores: a ACEA, a Italgas e a divisão Gas & Power do ENI.

- de que encontra-se no Observatório Vaticano uma coleção de meteoritos que em 2011 foi enriquecida com novos elementos, “inclusive uma placa de 21 gramas da rara e primitiva pedra condrita NWA 6901”, proporcionada por um “anônimo provedor alemão”.

Entre as notícias menores e curiosas se pode, por fim, assinalar que no final de 2011 parece ter sido felizmente erradicada a invasão de porcos-espinhos que haviam infectado a Catacumba de Giordani, em Roma, os quais provinham do parque de Villa Ada, situado acima dela. E que “o flagelo do gorgulho vermelho” atacou também uma das quatro imponentes palmeiras do pórtico da basílica papal de São Paulo Extramuros: mas “com o auxílio de uma empresa especializada se está lutando para evitar que ela seque completamente”.

O volume sobre “A atividade da Santa Sé” não contém informações sobre a APSA [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica], o IOR [Instituto para as Obras de Religião] e a AIF [Autoridade da Informação Financeira] (desta última só se assinala que para a sede desta nova entidade serão reestruturados 170 m2 da planta elevada do Palácio São Carlos, no interior do Estado da Cidade do Vaticano).

Fonte: domtotal.com - 28/08/2012 - Internet: http://domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=495573 - Acesso em: 28/08/2012 - às 19h25

sábado, 25 de agosto de 2012

21º Domingo do Tempo Comum - Ano "B" - Homilia

Evangelho: João 6,60-69


Naquele tempo, 
60 muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”
61 Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? 
62 E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes? 
63 O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. 
64 Mas entre vós há alguns que não creem”. 
Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo. 
65 E acrescentou: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”. 
66 A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. 
67 Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?”
68 Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 
69 Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.


José Antonio Pagola
PERGUNTA DECISIVA

O evangelho de João conservou a recordação de uma forte crise entre os seguidores de Jesus. Somente não temos informações. Apenas nos é dito que resulta duro, aos discípulos, o modo de falar de Jesus. Provavelmente, parece-lhes excessiva a adesão que reclama deles. Num determinado momento, "muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele"

Pela primeira vez, Jesus experimenta que suas palavras não têm a força desejada. Sem dúvida, não as retira, mas as reafirma ainda mais: "As palavras que eu disse são espírito e vida. Entretanto, alguns de vós não creem". Suas palavras parecem duras, porém transmitem vida, fazem viver , pois contêm o Espírito de Deus.

Jesus não perde a paz. Não lhe inquieta o fracasso. Dirigindo-se aos Doze lhes faz a pergunta decisiva: “Vós também vos quereis ir embora?”. Não os quer reter pela força. Deixa-lhes a liberdade de decidir. Seus discípulos não devem ser servos, mas amigos. Se quiserem, podem voltar para suas casas. 
Uma vez mais, Pedro responde em nome de todos. Sua resposta é exemplar. Sincera, humilde, sensata, própria de um discípulo que conhece Jesus o suficiente como para não abandoná-lo. Sua atitude pode, todavia, ajudar hoje a quem, com fé vacilante, pretende prescindir de toda fé.

 A quem iremos, Senhor?". Não tem sentido abandonar Jesus de qualquer maneira, sem haver encontrado um mestre melhor e mais convincente: se não seguem a Jesus, ficarão sem saber a quem seguir. Não haverão de se precipitar. Não é bom restar sem luz nem guia na vida.Pedro é realista. É bom abandonar Jesus sem haver encontrado uma esperança mais convincente e atrativa? Basta substituí-lo por um estilo de vida baixo, sem metas nem horizonte? É melhor viver sem perguntas, propostas ou busca de qualquer tipo?

Há algo que Pedro não esquece: "Tu tens palavras de vida eterna". Sente que as palavras de Jesus não são palavras vazias nem enganosas. Junto a ele descobriram um outro modo de viver. Sua mensagem se lhes abriu para a vida eterna. Com o que poderiam substituir o Evangelho de Jesus? Onde poderiam encontrar uma Notícia melhor de Deus?

Pedro recorda, finalmente, a experiência fundamental. Ao conviver com Jesus descobriram aquilo que vem do mistério de Deus. De longe, à distância, com indiferença ou desinteresse não se pode reconhecer o mistério que se encerra em Jesus. Os Doze se relacionaram com ele de perto. Por isso, podem dizer: "Nós cremos firmemente e reconhecemos". Continuaram junto a Jesus. 

A QUEM IREMOS?

Quem se aproxima de Jesus tem, frequentemente, a impressão de encontrar-se com alguém estranhamente atual e mais presente em nossos problemas de hoje que muitos de nossos contemporâneos.
Há gestos e palavras de Jesus que nos impactam hoje porque tocam o nervo de nossos problemas e preocupações mais vitais.

São palavras que resistem à passagem dos tempos e à mudança de ideologias. Os séculos transcorridos não amortizaram a força e a vida que encerram, um pouco que estejamos atentos e abramos sinceramente nosso coração. Sem dúvida, são muitos os homens e mulheres que não conseguem encontrar-se com seu evangelho. Não tiveram jamais a sorte de escutar com simplicidade e diretamente suas palavras. Sua mensagem lhes chegou desfigurada por demasiadas capas de doutrinas, fórmulas, conceitualizações e discursos interessados.

Ao longo de vinte séculos, é muita a poeira que inevitavelmente se acumulou sobre sua pessoa, sua atuação e sua mensagem. Um cristianismo cheio de boas intenções e fervores veneráveis impediu, às vezes, a muitos cristãos simples de encontrarem-se com a frescura plena de vida daquele que perdoava as prostitutas, abraçava as crianças, chorava com os amigos, contagiava esperança e convidava os homens a viver com a liberdade e o amor dos filhos de Deus. 

Quantos homens e mulheres tiveram de escutar as digressões de moralistas bem intencionados e as exposições de pregadores ilustrados, sem conseguir encontrar-se com Ele. 
Não nos deve causar estranheza a interpelação de J. Onimus: "Por que serás propriedade privada de pregadores, doutores e de alguns eruditos, tu que disseste coisas tão simples, tão diretas, palavras que continuam sendo palavras de vida para todos os homens?".

Sem dúvida, um dos maiores serviços que podemos realizar na Igreja atual é colocar a pessoa e a mensagem de Jesus ao alcance dos homens e mulheres de nossos dias. Ajudar-lhes a abrir caminho até ele. Aproximar-lhes de sua mensagem.
Muitos cristãos que se distanciaram, nesses anos, da Igreja, quem sabe por nem sempre encontrarem nela Jesus Cristo, sentiriam de novo aquilo que, um dia, Pedro expressou: "A quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos".

Tradução de: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - 21 de agosto de 2012 - 13h11 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A tentação do álcool

ROSELY SAYÃO

Não sei por que os pais têm facilitado tanto a oferta de bebida para jovens que mal saíram da infância
Tive uma conversa muito interessante com a mãe de uma garota de 15 anos. Ela me contou que a filha é extrovertida, faz sucesso em rede social, sempre é procurada por vários colegas e chamada pelo celular o dia todo.
A menina também tem alguns amigos mais chegados que estão sempre por perto.

Mesmo assim, a filha não sai. É convidada para ir a festas, ao cinema, para dormir na casa de colegas, viajar. Mas ela só sai mesmo para ir à escola. Recusa todos os convites que recebe.
Acredite, caro leitor, isso preocupou essa mãe. Curioso o fato, já que as mães de garotas dessa idade costumam se preocupar pelo motivo oposto: filhas que querem sair sempre.

Assim que o sinal amarelo acendeu para essa mãe, ela tomou uma atitude. Chamou a filha para um lanche, disposta a conversar com ela para saber o motivo da sua reclusão. Parece que é comum as duas conversarem sem muitos rodeios.

Dessa maneira, a mãe logo ficou sabendo que a filha tinha lá suas razões para preferir ficar em casa: "Se eu sair, mãe, vou ter de ficar, beijar, talvez transar; vou precisar beber, vou ter de comprar coisas que eu não sei se quero. Então, eu prefiro ficar em casa por enquanto".

É, não tem sido fácil para muitos jovens atravessar essa fase da vida. As tentações têm sido excessivas para eles. E hoje vou ficar apenas em uma delas: a ingestão de bebidas alcoólicas.
Não sei por que os pais têm facilitado tanto a oferta de bebida para esses jovens que mal saíram da infância.

Já ouvi alguns pais declararem que, apesar de serem contra o consumo de bebida alcoólica nessa idade, ofereceriam essa opção na festa de aniversário dos filhos para garantir a presença dos convidados. Isso significa que festa, para eles, não existe sem a presença de álcool?

Quem é adulto e tem controle sobre a quantidade de bebida que ingere sabe os efeitos que o álcool produz no organismo. As sensações de euforia e de segurança para correr riscos costumam ser os principais motivos que levam a garotada a beber.
É uma tentação poder viver, por alguns momentos, sem muita censura e sem grandes dúvidas a respeito do que fazer, não é? Nessa idade, tal tentação é sedutora.

O problema é que eles bebem demais - demais mesmo -, muito cedo e se esquecem de aprender a viver em grupo sem os efeitos que a bebida provoca. Falta coragem, dá medo, provoca angústia. Talvez por isso alguns adolescentes bebam até cair.
Tem sido bem impressionante a quantidade de adolescentes que passam mal, muito mal, depois de beber. É que eles costumam ser exagerados em tudo o que oferece satisfação imediata. É por isso, entre outros fatores, que perdem a medida.

Diversas mães se assustaram com o que viram nessas férias de inverno. Li o relato de uma delas que levou a filha, de 14 anos, com duas amigas para uns dias em Campos de Jordão. Ficou assustada com o que viu: crianças de 12, 13 anos vomitando em praças, caindo pelas ruas de tão bêbadas que estavam. "Onde estão os pais dessas crianças?" perguntou ela.
Provavelmente por perto, mas sem saber o que fazer.

Quem tem filhos adolescentes não deve ficar impotente, congelado, com receio de ser considerado careta. Aliás, em muitos aspectos, é papel dos pais ser careta.
E é bom saber que isso não impedirá o filho de experimentar muitas coisas. Apenas o ajudará a conhecer melhor seu nível de saciedade com a bebida alcoólica, por exemplo. Para que ela funcione como um mediador social, apenas isso.

Os pais dos adolescentes não conseguirão livrar os filhos de todas as tentações que a vida oferece.
Mas, pelo menos, devem tentar poupá-los de algumas delas. Para o bem deles. Como? Vetar a ingestão de bebida alcoólica nessa idade já é um bom começo.

* ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha).

Fonte: Folha de S. Paulo - Equilíbrio - Terça-feira, 7 de agosto de 2012 - Internet: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/59167-a-tentacao-do-alcool.shtml

domingo, 19 de agosto de 2012

A voz dos aterrorizados


Sérgio Augusto

Coletivo de economistas dissidentes levanta-se contra soluções impostas para a crise pelos mandachuvas do sistema financeiro
Sérgio Augusto - jornalista
Seriam os economistas os filósofos do nosso tempo?

Ouvi de novo essa pergunta, dias atrás, formulada dessa vez pelo escritor e diplomata madrilenho José María Ridao. Prontamente respondida: sim, são. Mas sem regozijo. Afora lastimar que os economistas desfrutem hoje o status oracular que antes pertencia aos filósofos, Ridao destes também desconfia desde que leu Les Chiens de Garde [trad.: Os cães de guarda], o panfletário ensaio do então jovem filósofo comunista francês Paul Nizan.

Há exatos 80 anos, Nizan deu tchau para os estudos filosóficos com aquele ensaio, no qual acusava seus colegas de ofício de se extraviarem numa logomaquia de conceitos para manter fora de seu campo de preocupações os múltiplos problemas que acabariam desencadeando o flagelo que se abateu sobre a Europa sete anos depois. Ridao acha que chegou a hora de se repetir o mesmo gesto de Nizan com os novos cães de guarda, os economistas.

Eles até podem ser os filósofos da atualidade, já que muito especulam e palpitam - com notável margem de erro, ressalte-se. Numa gincana de futurologia patrocinada pelo Financial Times e iniciada em meados da década de 80 do século passado sobre o que aconteceria com a economia mundial dali a sete ou dez anos, os lixeiros europeus sagraram-se campeões, com a maior margem de acerto. Os economistas chegaram em terceiro ou quarto lugar.

Impossível estimar como os lixeiros, esses intuitivos arúspices do consumo e do desperdício, teriam se saído em igual pesquisa na década seguinte, mas é sabido que os economistas não foram capazes de prever a crise econômica e financeira de 2008. O que não seria de todo grave se muitos deles, justamente aqueles com maior poder decisório, não insistissem em "fortalecer a dominação dos esquemas de pensamento que orientam as políticas econômicas há 30 anos".

As aspas pertencem ao manifesto de um coletivo de economistas dissidentes criado na França e em franca expansão, Les Économistes Atterrés, que, como o nome indica, estão arrasados, aterrorizados, com as soluções impostas à crise na Europa pelos mandachuvas do sistema financeiro internacional. Clamam esses economistas que nada mudou no discurso que sustenta a ortodoxia neoliberal na economia e nas políticas que levaram à catástrofe das subprimes (créditos de alto risco), quatro anos atrás. A teoria do similia similibus curantur pode funcionar na homeopatia, não na economia.

Pressionados por instituições financeiras europeias e internacionais e agências de classificação de risco que já se mostraram incompetentes ou mal-intencionadas, governos da zona do euro estão aplicando, com renovado rigor, um chorrilho de reformas e ajustes estruturais que no passado concorreram para aumentar a instabilidade econômica e as desigualdades sociais. Seus atuais malogros não saem das primeiras páginas dos jornais.

Com a participação de estudiosos de outras áreas, Les Économistes Atterrés já têm dois anos de estrada, mas sua oficialização só se deu em fevereiro de 2011, simultaneamente à publicação do manifesto acima mencionado. No documento, pesadas críticas aos dez postulados que inspiram a atual política de austeridade à outrance, comandada desde a Alemanha, acompanhadas de 22 contrapropostas.

Outras diatribes e sugestões alternativas foram, desde então, divulgadas em intervenções públicas, artigos, num pequeno livro (L'Europe Mal-Traitée [A Europa Maltratada]), lançado em junho, e no próprio site do grupo (http://www.atterres.org/), constantemente atualizado ao que ora sucede na Europa, principalmente na Grécia e na Península Ibérica, as maiores vítimas da Sparmassnahme, que é como se diz austeridade econômica no país de Frau Merkel e Jens Weidmann, diretor do Bundesbank, o Banco Central alemão, férreo defensor do arrocho.
Jens Weidmann e Angela Merkel
As estatísticas do fracasso são de aterrar. Na Grécia, o número de suicidas quase dobrou entre 2010 e 2011. Um estudo da revista Lancet concluiu que uma alta de 1% na taxa de desemprego pode provocar um acréscimo de 0,8% na taxa de suicídios entre os que têm menos de 65 anos de idade. Os casos de distúrbios mentais também aumentaram exponencialmente nas economias mais afetadas da zona do euro, abalando a produtividade. Um círculo vicioso.

Dois fracassos europeus puseram o mundo em guerra, no século passado. Se a Europa não superar sua atual crise financeira, não teremos necessariamente uma nova guerra mundial, mas um caos econômico mundial é líquido e certo. A luta, portanto, deveria ser de todos. Somos todos aliados. Contra as forças da ortodoxia econômica. E que entre si falam alemão, conforme insinuou Hal S. Scott, na página de opinião do New York Times, quarta-feira passada.

É no mínimo curioso esse reincidente protagonismo teutônico. Pela terceira vez, a Europa estremece diante da Alemanha. Antigamente seus vizinhos temiam seu poderio militar, agora temem seu poderio econômico. Se superar discordâncias internas, ela poderá ajudar os países em crise, mas não salvar a Europa, missão multinacional que, segundo Scott e outros analistas, exigiria um esforço concentrado dos Estados Unidos, China, Japão, via FMI, eventualmente com um novo Tratado de Bretton Woods.

Em que termos? Se olharmos para o passado imediato da Europa, tão ou mais importante do que descobrir o que fazer agora é ter a noção exata do que não fazer, recomendou, em recente conferência, o Nobel de Economia Amartya Sen. Os economistas aterrorizados já haviam entendido essa sutileza.

A unificação europeia custou 100 milhões de vidas (o total de mortos das duas guerras mundiais) e começou como uma cruzada pela consolidação da paz continental, da harmonia entre antigos inimigos, gradualmente evoluindo para uma integração política. A certa altura a incorporação financeira passou à frente da unificação política, e os problemas gerados por essa inversão de prioridades estão na raiz da bananosa atual, salientou Sen na mesma conferência, dando a entender, no final, que mais urgente do que salvar o euro é salvar os europeus.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Supl. ALIÁS - Domingo, 19 de agosto de 2012 - Pg. J5 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-voz-dos-aterrorizados-,918662,0.htm