«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS - HOMILIA

Evangelho: Lucas 2,16-21

Naquele tempo, os pastores 2,16 foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura. 
17 Vendo-o, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino. 
18 Todos os que os ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. 
19 Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração. 
20 Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, e que estava de acordo com o que lhes fora dito. 
21 Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. 

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Tela "Adoração dos Pastores" - Giorgione (1477-1510), pintor italiano do período renascentista

A MÃE

A muitos pode parecer estranho que a Igreja faça coincidir o primeiro dia do novo ano civil com a festa de Santa Maria, Mãe de Deus. No entanto, é significativo que, desde o século quarto, a Igreja, depois de celebrar solenemente o nascimento do Salvador, deseje começar o ano novo sob a proteção maternal de Maria, Mãe do Salvador e Mãe nossa.

Os cristãos de hoje devemos nos perguntar o que temos feito de Maria nestes últimos anos, pois provavelmente empobrecemos nossa fé eliminando-a, demasiadamente, de nossa vida!

Movidos, sem dúvida, por uma vontade sincera de purificar nossa vivência religiosa e encontrar uma fé mais sólida, abandonamos excessos de piedade, devoções exageradas, costumes superficiais e extraviados.

Tratamos de superar uma falsa mariolatria na qual, talvez, substituíamos Cristo por Maria e víamos nela a salvação, o perdão e a redenção os quais, na realidade, devemos acolher a partir de seu Filho.

Se tudo foi corrigir desvios e colocar Maria em seu autêntico lugar que corresponde ao de Mãe de Jesus Cristo e Mãe da Igreja, teríamos de nos alegrar e reafirmar a nossa postura.

Porém, foi exatamente assim? Não a esquecemos excessivamente? Não a encurralamos em algum lugar obscuro da alma junto às coisas que nos parecem de pouca utilidade?

Abandonar Maria, sem aprofundarmos mais em sua missão e no lugar que deve ocupar em nossa vida, não enriquecerá jamais nossa vivência cristã, mas a empobrecerá. Provavelmente, cometemos excessos de mariolatria no passado, porém, agora, corremos o risco de nos empobrecermos com sua ausência, quase total, de nossas vidas.

Maria é a Mãe de Cristo. Porém, aquele Cristo que nasceu de seu seio estava destinado a crescer e incorporar a si numerosos seres humanos, homens e mulheres que viveriam, um dia, de sua Palavra e de sua graça. Hoje, Maria não é somente a Mãe de Jesus. É a Mãe do Cristo total. É a Mãe de todos os crentes.

É bom que, ao começar um ano novo, o façamos elevando nossos olhos para Maria. Ela nos acompanhará ao longo dos dias com cuidado e ternura de mãe. Ela cuidará de nossa fé e nossa esperança. Não a esqueçamos ao longo deste ano.
DIANTE DE UM NOVO ANO

Disse o teólogo Ladislau Boros em algum de seus escritos que um dos princípios cardeais da vida cristã consiste em que "Deus começa sempre de novo". Com ele nada existe de definitivamente perdido. Nele tudo é começo e renovação.

Dizendo isso de modo simples, Deus não se deixa desanimar pela nossa mediocridade. A força renovadora de seu perdão e de sua graça é mais vigorosa que nossos erros e nosso pecado. Com ele, tudo pode começar de novo.

Por isso, é bom começar o ano com vontade de renovação. Cada ano que nos é oferecido de vida é um tempo aberto a novas possibilidades, um tempo de graça e de salvação em que somos convidados a viver de maneira nova. Por isso, é importante escutar as perguntas que podem brotar de nosso interior.

O que eu espero do ano novo? Será um ano dedicado a "fazer coisas", resolver assuntos, acumular tensão, nervosismo e mal humor ou será um ano em que aprenderei a viver de modo mais humano?

O que é que, realmente, desejo este ano? A que dedicarei o tempo mais precioso e importante? Será, mais uma vez, um ano vazio, superficial e rotineiro, ou um ano em que amarei a vida com alegria e gratidão?

Que tempo reservarei para o descanso, o silêncio, a música, a oração, o encontro com Deus? Alimentarei minha vida interior ou viverei de maneira agitada, em permanente atividade, correndo de uma ocupação para outra, sem saber exatamente o que desejo nem para que vivo?

Que tempo dedicarei para desfrutar da intimidade com meu cônjuge e a convivência com os filhos? Viverei fora de casa organizando a vida do meu jeito ou saberei amar com mais dedicação e ternura os meus?

Com quem me encontrarei neste ano novo? De quais pessoas me aproximarei? Depositarei nelas alegria, vida, esperança ou transmitirei desalento, tristeza e morte? Por onde eu passar, a vida será mais alegre e leve ou mais dura ou penosa?

Viverei este ano preocupado somente com o meu pequeno bem-estar ou me interessarei, também, por tornar felizes aos demais? Fechar-me-ei em meu velho egoísmo de sempre ou viverei de modo criativo, buscando fazer com que o mundo ao meu redor seja mais humano e habitável?

Continuarei vivendo de costas para Deus ou me atreverei a crer que ele é meu melhor Amigo? Permanecerei mudo diante dele, sem abrir os meus lábios nem meu coração, ou finalmente brotará do meu interior uma invocação humilde, porém sincera?

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia - Sopelana - Bizkaia (Espanha) - 1º de janeiro de 2008 - Internet: clique aqui.

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO 47º DIA MUNDIAL DA PAZ

FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E 
CAMINHO PARA A PAZ

Destaco abaixo alguns trechos mais significativos, ao meu ver, 
desta importante e oportuna Mensagem do Santo Padre Francisco.

1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indivíduos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperança. Com efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.

Na realidade, a fraternidade é uma dimensão essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consciência viva desta dimensão relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão; sem tal consciência, torna-se impossível a construção duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E convém desde já lembrar que a fraternidade se começa a aprender habitualmente no seio da família, graças sobretudo às funções responsáveis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da mãe. A família é a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo também o fundamento e o caminho primário para a paz, já que, por vocação, deveria contagiar o mundo com o seu amor.

Em muitas partes do mundo, parece não conhecer tréguas a grave lesão dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos à vida e à liberdade de religião. Exemplo preocupante disso mesmo é o dramático fenômeno do tráfico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escrúpulos. Às guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem nos campos econômico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de famílias, de empresas.

A globalização, como afirmou Bento XVI, torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. As inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des pragmático e egoísta.

2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4,9)
A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição. Disso mesmo dá testemunho o egoísmo diário, que está na base de muitas guerras e injustiças: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela mão de irmãos e irmãs que não sabem reconhecer-se como tais, isto é, como seres feitos para a reciprocidade, a comunhão e a doação.

3. «E vós sois todos irmãos» (Mt 23,8)
Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos dá: dado que há um só Pai, que é Deus, vós sois todos irmãos (cf. Mt 23,8-9). A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genérica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf. Mt 6,25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando é acolhido, torna-se no mais admirável agente de transformação da vida e das relações com o outro, abrindo os seres humanos à solidariedade e à partilha activa.

Quem aceita a vida de Cristo e vive n’Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado vê, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, é solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro é acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã, e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo. Na família de Deus, onde todos são filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo, filhos no Filho, não há «vidas descartáveis». Todos gozam de igual e inviolável dignidade; todos são amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta é a razão pela qual não se pode ficar indiferente perante a sorte dos irmãos.

4. A fraternidade, fundamento e caminho para a paz
Ora, da mesma forma que se considera a paz como opus solidarietatis [fruto da solidariedade], é impossível não pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma João Paulo II, é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não o é de ninguém. Na realidade, a paz só pode ser conquistada e usufruída como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustentável, se estiver viva, em todos, «a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum». Isto implica não deixar-se guiar pela «avidez do lucro» e pela «sede do poder». É preciso estar pronto a «“perder-se” em benefício do próximo em vez de o explorar, e a “servi-lo” em vez de o oprimir para proveito próprio (...). O “outro” – pessoa, povo ou nação – [não deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalhar e a resistência física, para o abandonar quando já não serve; mas sim como um nosso “semelhante”, um “auxílio”».

A solidariedade cristã pressupõe que o próximo seja amado não só como «um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em relação a todos os demais, mas [como] a imagem viva de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da ação permanente do Espírito Santo», como um irmão. «Então a consciência da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, “filhos no Filho”, e da presença e da ação vivificante do Espírito Santo conferirá – lembra João Paulo II – ao nosso olhar sobre o mundo como que um novo critério para o interpretar», para o transformar.

5. A fraternidade, premissa para vencer a pobreza
Na Caritas in veritate, o meu Predecessor lembrava ao mundo que uma causa importante da pobreza é a falta de fraternidade entre os povos e entre os homens. Em muitas sociedades, sentimos uma profunda pobreza relacional, devido à carência de sólidas relações familiares e comunitárias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de carências, marginalização, solidão e de várias formas de dependência patológica. Uma tal pobreza só pode ser superada através da redescoberta e valorização de relações fraternas no seio das famílias e das comunidades, através da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.

6. A redescoberta da fraternidade na economia
As sucessivas crises econômicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento econômico e a mudar os estilos de vida. A crise atual, com pesadas consequências na vida das pessoas, pode ser também uma ocasião propícia para recuperar as virtudes da prudência, temperança, justiça e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos difíceis e a redescobrir os laços fraternos que nos unem uns aos outros, com a confiança profunda de que o homem tem necessidade e é capaz de algo mais do que a maximização do próprio lucro individual. As referidas virtudes são necessárias sobretudo para construir e manter uma sociedade à medida da dignidade humana.

7. A fraternidade extingue a guerra
[...]  desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam violência e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irmão e detende a vossa mão! Renunciai à via das armas e ide ao encontro do outro com o diálogo, o perdão e a reconciliação para reconstruir a justiça, a confiança e esperança ao vosso redor! «Nesta ótica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas econômicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu».

Não podemos, porém, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necessários e altamente desejáveis, por si sós não bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos.

8. A corrupção e o crime organizado contrastam a fraternidade
Um autêntico espírito de fraternidade vence o egoísmo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal egoísmo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrupção que hoje se difunde de maneira capilar, quer na formação de organizações criminosas – desde os pequenos grupos até àqueles organizados à escala global – que, minando profundamente a legalidade e a justiça, ferem no coração a dignidade da pessoa. Estas organizações ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irmãos e lesam a criação, revestindo-se duma gravidade ainda maior se têm conotações religiosas.

Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devastação dos recursos naturais e na poluição em curso, na tragédia da exploração do trabalho; penso nos tráficos ilícitos de dinheiro como também na especulação financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas econômicos e sociais, lançando na pobreza milhões de homens e mulheres; penso na prostituição que diariamente ceifa vítimas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abomínio do tráfico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravidão que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na tragédia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu João XXIII: «Uma convivência baseada unicamente em relações de força nada tem de humano: nela veem as pessoas coarctada a própria liberdade, quando, pelo contrário, deveriam ser postas em condição tal que se sentissem estimuladas a procurar o próprio desenvolvimento e aperfeiçoamento». Mas o homem pode converter-se, e não se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confiança para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18,23).

9. A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza
Em suma, a natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela ganância, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; não guardamos a natureza, não a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao serviço dos irmãos, incluindo as gerações futuras.

10. Conclusão
Há necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas só o amor dado por Deus é que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.

Quando falta esta abertura a Deus, toda a atividade humana se torna mais pobre, e as pessoas são reduzidas a objeto passível de exploração. Somente se a política e a economia aceitarem mover-se no amplo espaço assegurado por esta abertura Àquele que ama todo o homem e mulher, é que conseguirão estruturar-se com base num verdadeiro espírito de caridade fraterna e poderão ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.

Deste modo, cada atividade deve ser caracterizada por uma atitude de serviço às pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

Que Maria, a Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do coração do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.

Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.


FRANCISCUS


Para ler, copiar ou imprimir a Mensagem na íntegra,
acesse aqui.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

VISÕES SOBRE 2013 QUE SE VAI...

Reproduzo, abaixo, três artigos interessantes que 
fazem uma análise de três aspectos do ano que, agora, termina:
1º) os nove meses de pontificado do Papa Francisco, a "personalidade do ano";
2º) os casos de Snowden e Assange que agitaram o mundo com suas revelações;
3º) o Brasil com suas urgências a resolver.

Podemos não concordar com todas as opiniões expressas pelos seus autores, mas é bom nos confrontarmos com suas ideias, e refletirmos a partir de outros pontos de vista.

Boa leitura!

ESTILO OU SUBSTÂNCIA

Paolo Flores d'Arcais*

A guinada colossal do modo de vida do papa Francisco em relação a Bento XVI corresponderá a uma mudança da Igreja, da estrutura do Vaticano e suas relações com o mundo secular?
Paolo Flores d"Arcais - filósofo italiano

O papa Francisco foi eleito pela revista Time o Homem do Ano "pela rapidez com que conquistou a imaginação de milhões de pessoas que haviam abandonado toda esperança em relação à Igreja". Ratzinger também recebeu um reconhecimento análogo: não da Time, mas da revista Esquire, em 2007, como accessorizer of the year, ou seja, o homem que usava os acessórios mais elegantes do planeta. Esquire é uma publicação masculina mensal cuja apresentação é um programa em si: "Guia para homens que procuram uma vida mais cheia, rica, informada e compensadora. Estilo, etiqueta, dinheiro, cultura e culinária". A escolha deveu-se aos mocassins vermelhos extremamente macios de Ratzinger, feitos sob medida por um dos sapateiros mais famosos e caros do mundo (com os quais, aliás, ele presenteou o papa), o italiano Adriano Stefanelli de Novara, que atende também Silvio Berlusconi [ex-primeiro ministro italiano e rico empresário]. Os dois reconhecimentos revelam claramente a diferença abissal de estilo dos dois papas.

Aliás, Bento XVI já fora notado e admirado por usar o camauro, um tipo de gorro muito utilizado pelos papas da Renascença, de veludo vermelho debruado com arminho branco ou plumas de cisne; o saturno, chamado chapéu romano, vermelho com bordados dourados; e a mozzetta, uma pelerine de veludo vermelho às vezes debruada com arminho.

Francisco, ao contrário, caracterizou-se imediatamente por recusar a cruz de ouro, substituída por uma de ferro; renunciar ao apartamento em São Pedro (ele vive no alojamento de Santa Maria, uma espécie de pousada vaticana, com outras dezenas de pessoas); usar um velho Renault 4 bem rodado (300 mil quilômetros), presente de um pároco da Província de Verona, com o qual ele se desloca no Vaticano; e, recentemente, por ter comemorado o aniversário com três sem-teto. Enfim, por levar uma vida que toma a sério o voto de pobreza que fazem, em tese, todos os sacerdotes ao se ordenarem.

Portanto, a pergunta que paira no ar é: a essa guinada colossal do estilo de vida do pontífice corresponderá uma guinada do governo da Igreja, das estruturas da Cúria, da renovação pastoral e doutrinal, das relações com o mundo secular? 
  • É o que se indagam os católicos, cada vez mais divididos entre os que gostariam de continuar a cruzada de Ratzinger contra o iluminismo e as liberdades civis em expansão no Ocidente (aborto, eutanásia, casamento homossexual) e os que esperam de fato a conversão da Igreja à pobreza e ao espírito do Evangelho. 
  • É o que se indagam os cristãos de outras confissões, eles também divididos entre o populismo dos milagres dos pregadores evangélicos da televisão (que experimentam um verdadeiro boom na América Latina) e as esperanças ecumênicas dos protestantes europeus e dos greco-ortodoxos do mundo eslavo e oriental. 
  • É o que se indagam os não crentes, entre os quais é enorme a esperança (quase certamente excessiva) no que se refere à vontade de Francisco de abrir um autêntico diálogo. 
  • Mas certamente também os expoentes das outras grandes religiões, os muçulmanos em primeiro lugar, interessados principalmente em ampliar o espaço e o peso da própria fé e o reconhecimento de seus costumes (familiares e sexuais) nas legislações e na prática jurídica das sociedades secularizadas.
Em suma, estilo ou substância? A pergunta é em parte enganadora. O estilo de um papa já é substância, tem efeitos práticos. Por outro lado, em entrevista ao jornal La Stampa, de Turim, publicada no dia 15, o papa Bergoglio, consciente disso, ressalta, pragmático: "Um cardeal idoso me disse, meses atrás: ‘O sr. já começou a reforma da Cúria com a missa diária em Santa Marta... A reforma se inicia sempre com iniciativas espirituais e pastorais, mais que com mudanças estruturais’".

Numa longa entrevista à revista Civilização Católica [em italiano: Civiltà cattolica], dos jesuítas, depois de um apelo à doutrina da Igreja a respeito dos "valores não negociáveis", como os definia Ratzinger (em outras palavras, o sexo e a bioética), Francisco afirma que "os ensinamentos, tanto dogmáticos quanto morais, não são todos equivalentes. Uma pastoral missionária não é obcecada pela transmissão desarticulada de uma multidão de doutrinas que devam ser impostas com insistência".

Mas enquanto permanecem essenciais, na atitude cristã, a caridade e o perdão, e, aliás, a ternura (talvez a palavra que o papa mais usou até hoje), é inevitável que sua crítica enérgica à "obsessão" dogmática seja entendida como uma tentativa de despi-la de legitimidade por aqueles que fizeram dos "valores não negociáveis" uma bandeira e uma cruzada. Por exemplo, setores consideráveis da conferência episcopal dos Estados Unidos.
Papa Francisco (acima) e Papa Bento XVI - diferenças no estilo e na proposta

De fato, as consequências práticas foram imediatas. No dia 10 de setembro, a Câmara do Estado de Illinois aprovou a lei que consente o casamento entre homossexuais, por 61 votos, apenas 1 a mais que a maioria exigida. Graças também à intervenção do influente presidente da Câmara, o católico Michael Madigan, anteriormente contrário, que justificou da seguinte maneira a mudança do seu voto: "Quem sou eu para julgar que pessoas que descobriram ser gays e vivem um relacionamento rico de harmonia deveriam permanecer na ilegalidade?". Ele reproduziu exatamente as palavras de Francisco aos jornalistas, retomadas e "canonizadas" pelo papa na entrevista a Civilização Católica. Graças às palavras do papa, Madison foi decisivo em convencer pelo menos outros cinco colegas, inclusive a republicana Linda Chapa LaVia, que declara: "Como católica que segue Jesus e o papa, para mim está claro que a essência da doutrina católica é o amor, a compaixão e justiça para todos, indistintamente".

Não que o papa Francisco goste necessariamente desses "efeitos colaterais" de suas palavras. Em 2010, quando era arcebispo de Buenos Aires, deu pleno apoio à "manifestação contra a possível aprovação de uma lei sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo" organizada pelos leigos católicos. Ressaltou que a "benevolência" em relação a quem queria introduzi-la não poderia permitir que se esquecesse o fato de que "a aprovação do projeto de lei implicaria um real e grave retrocesso antropológico", pois "a essência do ser humano tende à união do homem e da mulher como realização recíproca, como atenção e assistência, como caminho natural para a procriação". Em suma, e em termos mais diretos: o casamento homossexual (e a homossexualidade enquanto tal) é contrário à natureza.

Numa entrevista ao agnóstico Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, Francisco afirmou que "a Igreja não tratará de política ... A Igreja nunca irá além da tarefa de exprimir e difundir seus valores, pelo menos enquanto eu permanecer aqui". Acaso significará que, como bispo de Roma, ele não procurará mais influir na legislação civil, contrariamente ao que fez quando foi bispo de Buenos Aires? Ou a famosa "ambiguidade" jesuítica, que enchia de indignação cristã o afável Blaise Pascal, permitirá que ele contradiga com fatos as promessas contidas em suas palavras ?

Se as palavras do papa Francisco soam claras, os fatos, nem tanto. Se ele parece aplicar perfeitamente o que diz Mateus 5,37 - "Seja o seu sim, sim, e o seu não, não, porque o que passa disso vem do Maligno" -, não pode esquecer Lucas 6,43-44: "Não há árvore boa que dê fruto ruim, nem árvore doente que dê fruto bom; cada árvore se conhece pelo fruto". Portanto seu pontificado não será julgado pelas palavras, ainda que cristalinas do ponto de vista evangélico, mas pelos atos (e pelas omissões).

Francisco reiterou a Scalfari que "o ideal de uma Igreja missionária e pobre continua mais que válido. Essa, aliás, é a Igreja que pregaram Jesus e seus discípulos". Portanto os católicos, e em primeiro lugar os sacerdotes, terão de ser "pobres entre os pobres", enquanto "o chamado liberalismo selvagem continua tornando os fortes mais fortes, os fracos mais fracos e os excluídos, mais excluídos", sendo assim incompatível com o cristianismo. Conceitos solenemente reafirmados na exortação apostólica Evangelii Gaudium.

Por que então as autoridades financeiras do Vaticano, nomeadas recentemente pelo novo papa, se recusaram a fornecer à receita italiana os nomes de alguns milhares de cidadãos que, com certeza, utilizaram a fronteira da Rua Leão IV e as contas correntes do Instituto para as Obras da Religião (IOR)para sonegar cifras colossais em impostos? Em suma, as novas nomeações, aparentemente, não prenunciam uma operação de transparência que lance alguma luz sobre os verdadeiros crimes de natureza financeira e fiscal (inclusive lavagem de dinheiro) perpetrados durante anos sob a proteção do IOR. Prenunciam apenas um comportamento mais correto no futuro, que evite embaraçosas sanções internacionais e, enquanto isso, permita redistribuir de maneira mais equilibrada o poder financeiro vaticano entre a ala americana dos Cavaleiros de Colombo (Carl Anderson, Peter Brian Wells e a professora Mary Ann Glendon) e a ala europeia próxima aos Cavaleiros de Malta (cardeal Jean-Louis Tauran, o atual presidente do IOR, Ernst von Freyberg, o bispo espanhol Juan Ignacio Arrieta Ochoa de Chinchetru, membro da Opus Dei).

O papa prometeu medidas rigorosas na questão da pedofilia, mas a única verdadeira guinada seria a obrigação dos bispos de denunciar todo caso suspeito às respectivas autoridades civis, entregando o assunto a César, ou seja, à polícia e aos magistrados, e não a Deus, isto é, à severidade ou à caridade dos episcopados. Mas uma decisão nesse caso específico ainda está demorando.

No "não fazer política" estará incluída a confirmação da beatificação dos 552 mártires espanhóis justiçados pela República da Espanha durante a guerra civil desencadeada por Francisco Franco? Mártires que, na videomensagem transmitida por ocasião da cerimônia de beatificação coletiva de Tarragona, Francisco apontou como exemplo "para os que querem ser concretamente cristãos, cristãos pelas obras, não pelas palavras; e não ser cristãos medíocres, cristãos com um verniz de cristianismo, mas sem substância... cristãos até a morte". A citação suscitou indignação da monja beneditina Teresa Forcades, teóloga muito conhecida, e de todos os católicos espanhóis democratas. E, se "a Cúria é a lepra do papado" (como disse na entrevista a Scalfari), por que Francisco insiste na santificação de Karol Wojtyla, que moldou essa "lepra" a sua imagem e semelhança em um pontificado de mais de um quarto de século?

Em suma, o papa Francisco, Jorge María Bergoglio, é ainda um enigma. Vamos esperar. Cada árvore se conhece pelo fruto. 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA.

* PAOLO FLORES D’ARCAIS, FILÓSOFO E JORNALISTA ITALIANO, É EDITOR DA REVISTA MICROMEGA E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ETICA SENZA FEDE (EINAUDI).

Fonte: O Estado de S. Paulo - Suplemento ALIÁS - Domingo, 29 de dezembro de 2013 - Pg. E10 - Internet: clique aqui.
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RADICAIS SEM RAIZ


Lee Siegel*

O que os snowdens não entendem é que, se o segredo foi o sangue vital do regime de Stalin,
também o foi para os grupos que se opuseram a ele
Lee Siegel - jornalista norte-americano
Um estranho desdobramento está ocorrendo na política americana. À medida que a ideologia de direita endurece nas fileiras do Tea Party, a de esquerda está desaparecendo. Embora os seguidores do Tea Party estejam constantemente chamando o presidente Obama e os democratas de socialistas empedernidos, está claro que estão meramente projetando a própria militância ideológica nos oponentes. A verdade é que os liberais americanos há muito vêm sendo uma mistura "centrista" de pragmatismo e oportunismo que tem nas muitas concessões de Obama aos críticos do seu plano de saúde seu exemplo mais vívido.

O resultado do ecletismo liberal em face do dogmatismo conservador é uma quase total falta do espírito de protesto que precisa animar qualquer reforma política. Reforma é protesto, e o protesto tem um requisito fundamental para ser eficaz. Ele precisa ser uma reação contra uma autoridade complacente ou corrupta muito específica. Nos Estados Unidos de hoje, contudo, ficou quase impossível concentrar o protesto numa autoridade específica. Isso porque toda autoridade se tornou suspeita.

Considerem-se as duas figuras hoje mais associadas ao espírito de protesto: Edward Snowden e Julian Assange. O fato é que nenhum dos dois está protestando contra algo em particular. Ambos estão protestando contra tudo em geral. O que eles parecem odiar é a autoridade em si, independentemente de ela ser benigna ou maligna.

Deixemos de lado a questão de se a Agência de Segurança Nacional (NSA, pelas iniciais em inglês) de Obama cometeu atos ilegais ao espionar líderes estrangeiros e seus próprios cidadãos. (Mas, agora que um conselho de especialistas jurídicos nomeados pelo próprio Obama decidiu que a NSA violou a Constituição, Snowden deveria seguramente ter permissão de voltar para casa sem ser processado.) Os motivos de Snowden para vazar essa informação não tiveram nada a ver com sua visão de uma sociedade justa, seu ultraje com um particular sistema político ou econômico, sua indignação com uma particular injustiça. Ele simplesmente não gostou do fato de que pessoas com autoridade agissem secretamente. Não pareceu se preocupar se o que elas fizeram foi legítimo ou não.

O mesmo vale para Julian Assange, cujos vazamentos, diferentemente dos de Snowden, com frequência não revelaram nenhum possível abuso de poder. Assange vazou segredos oficiais meramente porque eles eram oficiais, e secretos. Isso me fez pensar no famoso ladrão de banco Willie Sutton, a quem perguntaram, depois que ele foi preso, julgado e condenado, por que ele roubava bancos. "Porque", explicou Sutten, "é onde está o dinheiro." A confidencialidade oficial é onde a autoridade está.
Julian Assange (esquerda) e Edward Snowden

De novo, não estou interessado na legalidade ou mesmo na ética do que Snowden e Assange fizeram. Os advogados e políticos que cuidem disso. O que me interessa é como ambos refletem a política de protestos contemporânea, e o modo com que eles a afetam.

Pois, enquanto os primeiros radicais políticos tomaram as ruas para protestar contra abusos de poder muito particulares - direitos civis, pobreza, a Guerra do Vietnã, direitos de mulheres -, os radicais de hoje não são, estritamente falando, radicais. Ser radical significa querer mudar algo na raiz; é por isso que os radicais do passado enchiam as ruas, porque era nas ruas que eles podiam encontrar as raízes da existência cotidiana. Para encontrar uma raiz, porém, é preciso primeiro identificar as estruturas que cresceram dela. Só podemos erradicar o preconceito racial, a miséria econômica, a guerra ilegal, se nos concentrarmos nas particulares instituições por meio das quais elas prosperam. Mas, como os dissidentes políticos de hoje não são focados em alguma instituição particular, falta-lhes a capacidade de encontrar algo para desenraizar. É por isso que, mesmo no auge do movimento Occupy, nenhum corpo significativo de manifestantes tomou as ruas.

Segredo, opacidade: são essas as formas atuais de autoridade que os dissidentes políticos tomaram como alvo. E eles as perseguem onde quer que as encontrem. O problema é que essas são qualidades abstratas que se podem encontrar incorporadas em tudo, de agências governamentais ao relacionamento íntimo entre cidadãos comuns. O segredo foi o sangue vital do regime de Stalin, por exemplo; foi também o sangue vital de todos os grupos que se opuseram a ele. Para os radicais de ontem, o segredo de governos ruins foi ruim porque os governos eram ruins. Para os dissidentes políticos de hoje, o segredo de um governo, mesmo se esse for um governo benigno, é ruim, ponto.

Ao que parece, o que enfurece os snowdens de hoje é que as formas de poder não se adaptaram às novas formas de comunicação; o que os enfurece é o fato de que a transparência da internet não se tornou universal. Mas eles não poderiam se importar menos com a natureza moral de alguma forma de poder particular. Parafraseando Groucho Marx, seja ele qual for, eles são contra. Meu medo é que, quando toda autoridade é suspeita, não haverá nenhuma distinção entre tipos de autoridade. Quando telegramas diplomáticos secretos provocam tanta ira quanto os assassinos secretos a mando de um tirano, o tirano agirá com impunidade em meio a toda distração. Em vez do ressoar dos gritos de protestos, as ruas estão silenciosas, exceto pelos cliques de um milhão de teclados abelhudos. 

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.


* LEE SIEGEL É ESCRITOR, CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA THE NEW YORK, TIMES, THE WALL STREET JOURNAL.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Suplemento ALIÁS - Domingo, 29 de dezembro de 2013 - Pg. E11 - Internet: clique aqui.
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A PAUTA ESCAMOTEADA

José de Souza Martins*

Educação e saúde entraram mais nas respostas do governo às ruas 
do que no próprio protesto
José de Souza Martins - sociólogo
Apesar das suposições, educação e saúde não tiveram forte visibilidade no elenco das demandas das manifestações de rua. Os protestos elegeram a elevação das tarifas de ônibus, a corrupção política evidenciada, sobretudo, no caso do mensalão, as despesas astronômicas com a infraestrutura de eventos grandiosos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 e a má qualidade dos serviços públicos. A educação e a saúde públicas entraram nesse último item, aparecendo em Brasília, mas não aparecendo no Rio.

Como é compreensível nos chamados movimentos coletivos, o comportamento de multidão tende a ser o das demandas difusas, surgidas no acaso dos reclamos suscitados na ocasião, um assunto puxando outro. Mas tende a ser também o momento da síntese expressiva dos tópicos de uma agenda de reclamações que todos carregam na memória à espera da oportunidade para torná-las visíveis e audíveis. Demandas sociais não explodem de repente.

A importância política dessas manifestações coletivas está no fato de que deram voz e visibilidade à maioria silenciosa, diferente do que ocorre nos chamados movimentos sociais. A quebra do silêncio se torna nessa hora um fato político, sobretudo porque contraria o coro dos cúmplices e bajuladores de voz programada para o amém que alegra os poderosos. Durante o regime militar um novo sujeito político emergiu no cenário nacional, com demandas tópicas que incluíam reformas sociais. No decênio do petismo outro sujeito político começou a germinar em silêncio, claramente antipartidário, o que bem indica a natureza da crise que protagoniza. Expressa o descrédito da política. Sendo os participantes desse novo movimento majoritariamente jovens, com acesso à internet e às redes sociais, é bastante evidente que se trate de manifestações da classe média que já não reclama educação, mas se motiva na educação para o protesto. A educação gerou os manifestantes de agora, em vários momentos de sua ação indicando o protagonismo do manifestante contra o do militante.

Nas manifestações coletivas deste ano, vimos a tensão se deslocando do centro das cidades para a periferia e retornando ao centro, com os temas do protesto se modificando, acrescentados. Como se o deslocamento fosse uma caça de temas para enriquecer a indignação dos manifestantes e dar durabilidade ao que tende naturalmente a esgotar-se. Mas indício, também, de que um invisível estoque de descontentamentos permanece à espera de novas manifestações. Não emergiram antes porque os mecanismos de controle social o impediram. Alguns emergiram agora porque esses mecanismos perderam a eficácia.

Educação e saúde entraram mais no rol das respostas do governo ao protesto do que no próprio protesto. O programa Mais Médicos acabou funcionando como tentativa de dar a volta por cima das inquietações de rua, para aplacar uma demanda permanente por saúde pública de qualidade, uma verdadeira medicina social, como há em outros países. É uma tentativa do governo de administrar o conflito, cujo acerto dependerá de tempo para que a clientela desse serviço possa experimentá-lo, testá-lo e avaliá-lo. Como técnica, esvazia esse item do protesto e adia o seu desfecho. Resta saber por quanto tempo. Médico sem satisfatória infraestrutura de saúde pública é pouco mais que um curandeiro.

Na área da educação a questão é mais complicada. Há uma crescente demanda de ensino superior, mas nenhuma explícita demanda de melhora no ensino elementar e médio. É aí que se situa o cerne da crise da educação brasileira. As avaliações anuais das escolas não permitem otimismo. Por outro lado, no contraponto do crescimento numérico das escolas superiores, o próprio ministro da Educação vetou o vestibular em mais de 200 cursos superiores, dado que aquém da qualidade que superiores os tornaria. A falta de um verdadeiro projeto nacional de educação se revela nessas incongruências. Mas se revela, também, num programa como o Ciência sem Fronteiras, que envia alunos de graduação ao exterior para uma temporada, sem clareza quanto ao que isso acrescenta a sua formação.

Na sequência das manifestações, houve finalmente a invasão da Reitoria da Universidade de São Paulo, com a ocupação e depredação de cinco andares do prédio e prejuízos avaliados em R$ 2,4 milhões. O tema foi a questão do poder na universidade, não a eventual questão do ensino e da educação. A melhor universidade brasileira foi objeto de uma manifestação que, rigorosamente falando, nada teve a ver com demanda por educação ou melhora da educação superior. Foi um desdobramento residual e antagônico das manifestações de rua e tentativa de implantar demanda ideológica e partidária no interior de um movimento justamente contrário a isso. Os manifestantes, porém, que falaram pela maioria, já haviam deixado às ruas e se calaram diante do vandalismo antieducacional e antipolítico dos militantes da minoria. Expuseram assim seus limites, insuficiências e contradições.

* JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP, AUTOR,  ENTRE OUTROS, DE A SOCIOLOGIA COMO AVENTURA (CONTEXTO).

Fonte: O Estado de S. Paulo - Suplemento ALIÁS - Domingo, 29 de dezembro de 2013 - Pg. E8 - Internet: clique aqui.

sábado, 28 de dezembro de 2013

SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS - ANO A - HOMILIA

Evangelho: Mateus 2,13-15.19-23

13 Depois que os magos partiram, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar". 
14 José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito. 
15 Ali permaneceu até a morte de Herodes para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta: "Eu chamei do Egito meu filho". 
19 Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: 
20 "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino". 
21 José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e foi para a terra de Israel. 
22 Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Avisado divinamente em sonhos, retirou-se para a província da Galileia 
23 e veio habitar na cidade de Nazaré para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: "Será chamado Nazareno".

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
"Fuga para o Egito" - pintura de Rembrandt (1627)
UMA FAMÍLIA DE REFUGIADOS

Segundo o relato de Mateus, a família de Jesus viveu a experiência trágica dos refugiados, obrigados a fugir de seu lar para buscar asilo num país estranho. Com o nascimento de Jesus não chegou a paz à sua casa. Pelo contrário, imediatamente a Sagrada Família se viu envolvida por todo tipo de ameaças, intrigas e penalidades. 

Tudo começa quando sabem que Herodes busca o menino para acabar com ele. Como acontece tantas vezes, sob o aparente bem-estar daquele reinado poderoso, perfeitamente organizado, esconde-se muita violência e crueldade. A família de Jesus busca refúgio na província romana do Egito, fora do controle de Herodes, asilo bem conhecido para aqueles que fugiam de sua perseguição. À noite, de maneira precipitada e angustiada, começa sua odisseia. 

Por um momento, parece que poderão desfrutar de paz, pois "morreram os que atentavam contra o menino". A família volta para a Judeia, porém se inteira que ali reina Arquelau, conhecido pela sua "crueldade e tirania", segundo o historiador Flávio Josefo. Novamente, a angústia, a incerteza e a fuga para a Galileia, para esconder-se num povoado desconhecido na montanha, chamado Nazaré.

Podemos imaginar um relato mais contrário à cena ingênua e idílica do nascimento de Jesus nascendo entre cantos de paz entoados por coros de anjos, em meio de uma noite maravilhosamente iluminada? Qual é a mensagem de Mateus ao pintar com traços tão sombrios os primeiros passos de Jesus?

A primeira coisa é não sonhar. A paz que traz o Messias não é um presente caído do céu. A ação salvadora de Deus abre caminho em meio a ameaças e incertezas, distante do poder e da segurança. Aqueles que trabalham para um mundo melhor com o espírito deste Messias, o farão a partir da debilidade dos ameaçados, não a partir da segurança dos poderosos. 

Por isso, Mateus não chama Jesus de "Rei dos judeus", mas de "Deus-conosco". Devemos reconhecê-lo compartilhando a sorte de quem vive na insegurança e no medo, à mercê dos poderosos. Uma coisa é clara: somente haverá paz quando desaparecerem os que atentam contra os inocentes. Trabalhar pela paz é lutar contra abusos e injustiças.

Nesse esforço, muitas vezes penoso e incerto, temos de saber que a nossa vida é sustentada e guiada pela "presença invisível" de Deus ao qual devemos buscar na obscuridade da fé. Assim busca José, entre pesadelos e terrores noturnos, luz e força para defender Jesus e a sua mãe. Assim se defende a causa de Jesus.
"Fuga para o Egito" - afresco de Giotto (1305-1306)
ABERTAS AO PROJETO DE DEUS

Os relatos do Evangelho não oferecem dúvida alguma. Segundo Jesus, Deus tem um grande projeto: construir no mundo uma grande família humana. Atraído por este projeto, Jesus se dedica inteiramente para que todos sintam a Deus como Pai e todos aprendam a viver como irmãos. Este é o caminho que conduz à salvação do gênero humano.

Para alguns, a família atual está se arruinando porque perdeu o ideal tradicional de "família cristã". Para outros, qualquer novidade é um progresso para uma sociedade nova. Porém, como é uma família aberta ao projeto humanizador de Deus? Que características poderíamos destacar?

Amor entre os esposos. É a primeira característica. O lar está vivo quando os pais sabem querer-se, apoiar-se mutuamente, compartilhar dores e alegrias, perdoar-se, dialogar e confiar um no outro. A família começa a desumanizar quando cresce o egoísmo, as discussões e os mal-entendidos. 

Relação entre pais e filhos. Não basta o amor entre os esposos. Quando pais e filhos vivem enfrentando-se e sem nenhuma comunicação, a vida familiar se torna impossível, a alegria desaparece, todos sofrem. A família necessita de um clima de confiança mútua para pensar no bem de todos.

Atenção aos mais frágeis. Todos devem encontrar em seu lar acolhida, apoio e compreensão. Porém, a família se faz mais humana, sobretudo, quando nela se cuida com amor e carinho dos mais pequenos, quando se trata com amor e respeito aos maiores, quando há solicitude para os enfermos ou incapacitados, quando não se abandona quem está passando mal.

Abertura aos necessitados. Uma família trabalha para um mundo mais humano, quando não se fecha em seus problemas e interesses, mas vive aberta às necessidades de outras famílias: lares quebrados que vivem situações conflitivas e dolorosas, e necessitam de apoio e compreensão; famílias sem trabalho nem renda alguma, que necessitam ajuda material; famílias de imigrantes que pedem acolhida e amizade.

Crescimento da fé. Na família se aprende a viver as coisas mais importantes. Por isso, é o melhor lugar para aprender a crer nesse Deus bom, Pai de todos; para conhecer o estilo de vida de Jesus; para descobrir sua Boa Notícia; para rezar juntos entorno da mesa; para tomar parte na vida da comunidade de seguidores de Jesus. Estas famílias cristãs contribuem para construir esse mundo mais justo, digno e feliz desejado por Deus. São uma bênção para a sociedade.

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia - Sopelana - Bizkaia (Espanha) - 26 de dezembro de 2010 - Internet: clique aqui. E MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - Segunda-feira, 23 de dezembro de 2013 - 17h24 - Internet: clique aqui.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um balanço deste ano que termina

De impasse em impasse, da política ao futebol

Washington Novaes
E chega-se ao fim do ano com o País perplexo, mergulhado em múltiplos impasses e crises em vários setores institucionais, políticos e sociais, sem vislumbrar de onde possam vir soluções - para o Executivo, o Legislativo, o Judiciário, os sistemas eleitorais, as políticas econômicas e sociais, quase tudo.

[Consequências do Golpe Militar de 1964]
Pode-se começar pelo imbróglio mais recente: a decisão do Congresso Nacional de anular a sessão do dia 2 de abril de 1964, que declarou a "vacância" na Presidência da República e assim cassou, na prática, o mandato do então presidente João Goulart e sustentou o golpe militar e tudo o que foi consequência dele. Sem precisar entrar no mérito da decisão política, pode-se, entretanto, perguntar: e quanto a todas as decisões econômicas e políticas tomadas pelos que ocuparam o poder nos anos seguintes e que atingiram também outras pessoas? São contestáveis, têm consequências? Juristas têm argumentado com a chamada "teoria do governo de fato", que legitimaria o que veio depois - quando nada, pela dificuldade de arguir qualquer nulidade e pelo fato de a Constituição de 1988 haver legitimado o que a antecedeu: como indenizar os prejudicados, suas famílias e herdeiros? Como repor os mandatos de quem foi cassado? E assim por diante.

[Financiamento de Campanhas e Reforma Política]
Chega-se ao capítulo seguinte, das divergências entre o Judiciário e o Congresso, a respeito de doações de empresas para financiamento de partidos e campanhas eleitorais. Dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), 4 já votaram pela inconstitucionalidade das doações de empresas - o que, se aprovado pela maioria dos ministros, já impedirá em 2014 as doações ("imorais", segundo o ministro Luís Roberto Barroso; e representam 98% do financiamento de campanhas). Mas partidos políticos e líderes no Congresso não aceitam a restrição e dizem que a anularão, se for preciso. A maioria deles parece caminhar para reformas políticas que assegurariam às principais lideranças a reeleição, ao instituir um sistema em que grande parte da votação da legenda se destinaria exatamente à eleição dos líderes partidários escolhidos para encabeçar as listas de candidatos, independentemente dos votos que cada um obtenha nas urnas. Um conflito entre os Poderes mais altos, Judiciário e Legislativo. Quem o decidirá? E como? Vigorará ou não a proibição de que empresas concessionárias ou permissionárias do poder público contribuam para as campanhas? Até aqui, o PSOL já disse que lançará candidato à Presidência e apoia a proibição de contribuições empresariais. E ao eleitorado, vai-se perguntar?

[O "mensalão mineiro" do PSDB e a espionagem]
Mas tudo se pode agitar mais com o anúncio de que em 2014, finalmente, se vai chegar, depois de uma década, ao julgamento do chamado "mensalão mineiro", exatamente sobre financiamentos eleitorais (no mínimo) a membros do principal partido de oposição ao poder central, o PSDB. E para complicar o ex-secretário do Ministério da Justiça lança em livro depoimento em que acusa a própria pasta, na segunda gestão Lula, de favorecer a "fabricação" de dossiês contra seus adversários. Não bastasse, afirma que o próprio ex-presidente Lula, no seu tempo de dirigente sindical, era "informante" do Dops, regido pela ditadura militar. É muita confusão para uma área política só e para a cabeça do eleitor, que ainda vê, de longe, as discussões sobre espionagem dos órgãos secretos norte-americanos. E que, incrédulo, se pergunta se potências como os EUA, a Rússia ou a China deixarão de fazê-la, por algum caminho.

[Futebol]
Nem a velha paixão pelo futebol escapa à confusão, quando, já atônito com as notícias de corrupção na área - agora dominada por dirigentes e empresários que sobrepõem seus interesses particulares aos dos torcedores -, o cidadão toma conhecimento de uma decisão do mais alto tribunal de Justiça Desportiva que rebaixa times em lugar de outros, no nível mais alto desse esporte. Então tudo se decide, também aí, no "tapetão", como bradam os torcedores de times atingidos?

[Juventude que nem estuda nem trabalha e a geração de empregos]
Só que não diminuem as preocupações quando se vai para os setores econômico e social. Um em cinco jovens brasileiros entre 15 e 29 anos de idade - ou 19,6% - não estuda nem trabalha, segundo os últimos estudos divulgados (Estado, 30/11). São a geração "nem-nem". E com certeza influenciam para que as taxas de desemprego no País continuem abaixo de 5%, apesar da queda de atividades econômicas. A taxa de empregos criados em 11 meses deste ano é a menor desde 2003. Mas é alto o número dos que não procuram emprego e de idosos que se retiram e, assim, contribuem para o baixo desemprego.

[Cidades, mobilidade e protestos]
A perplexidade social - que ainda é alimentada pelos dramas da mobilidade urbana, pela ausência de macroplanos para cidades -, entretanto, parece não encontrar até aqui caminhos para se expressar e influir na política. Os protestos estimulados pelas redes sociais encolheram-se, reduziram-se, no momento em que tantos analistas - inclusive em artigos nesta página - já pareciam mostrar que a falta de projetos políticos para tornar viáveis suas reivindicações levara à exaustão. Mesmo na melhor das hipóteses, de produzirem mudanças de governos nos níveis mais altos, conduziam aos mesmos impasses, como já vem ocorrendo no Norte da África, no Oriente Médio e na Ásia.

[Desigualdade internacional]
Por aí, nossas crises, que parecem tão localizadas, parecem inserir-se no quadro geral das crises planetárias, que abrangem a política, a economia, os recursos naturais, as desigualdades sociais - tudo, independentemente de otimismo ou pessimismo. A concentração, nos países "desenvolvidos", de quase 80% da renda mundial, assim como de igual porcentagem de consumo de recursos, continua, como uma sombra, a escurecer toda a paisagem. E para elas damos a nossa contribuição. Mas países, empresas, pessoas continuam presos a lógicas que os beneficiam. E não se caminha, a não ser com acordos que apenas evitam ou adiam rompimentos.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Espaço aberto - Sexta-feira, 27 de dezembro de 2013 - Pg. A2 - Internet: clique aqui.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Evangélicos projetam aumento de 30% da bancada na eleição do ano que vem

MATEUS COUTINHO

A Frente Parlamentar Evangélica da Câmara dos Deputados projeta um crescimento de 30% nas eleições do ano que vem. Espera passar dos atuais 73 parlamentares para até 95 - ocupando algo em torno de 18% das cadeiras disponíveis. Especialistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo não acham difícil que isso ocorra, pois o grupo nunca teve tanta força. E, em ano de sucessão presidencial, o poder de fogo desse setor da sociedade deve ficar ainda maior. Nas eleições de 2010, por exemplo, temas caros aos evangélicos, como o aborto, pautaram a disputa direta entre Dilma Rousseff e Jose Serra (PSDB).

"A presença dos evangélicos nunca foi tão grande. O debate (pautado pelo grupo) cresceu em eleições e no Legislativo", afirma a cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Maria do Socorro Sousa Braga.

Para o único parlamentar assumidamente homossexual do Brasil, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), os partidos ligados aos religiosos já estão se esforçando para pautar as eleições com a temática contra o casamento gay, o aborto e a criminalização das drogas. "Querem, de maneira geral, rebaixar o debate para questões morais e comportamentais", afirma.

Os evangélicos representam atualmente 22% de toda a população brasileira, segundo o IBGE. Seu voto é marcado pela fidelidade aos seus líderes religiosos. "Há um confronto (dos evangélicos) em relação às questões morais e novos posicionamentos (de grupos LGBT). Nesse debate os evangélicos são reforçados por integrantes de outras religiões também, vários representantes católicos passam a apoiar as teses desses parlamentares", diz Maria do Socorro.

Estratégia

A professora da UFSCar lembra que, no caso dos candidatos à Presidência, sempre há uma tentativa de aproximação estratégica com os grupos religiosos. Ela ressalta, no entanto, que tal aproximação tem de ser feita de forma moderada a fim de não causar rejeição de outros eleitores.

Além de questões como o aborto e o casamento gay, os representantes dos evangélicos no Congresso têm outras áreas de interesse, como a de concessões de rádio e TV - por causa de programas e canais, comerciais e comunitários ligados a igrejas. Há ainda projetos específicos caros ao setor. Um deles é o que dá poder às igrejas para contestar leis junto ao Supremo Tribunal Federal. O texto já passou pela Comissão de Constituição e Justiça e aguarda mais uma comissão antes de ir a plenário. A aprovação desse projeto será prioridade do grupo em 2014.

O presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado João Campos (PSDB-GO), afirma que a atuação cada vez maior dos evangélicos no campo da política vai ajudar a impulsionar a expansão da bancada.
Posições

Mesmo evitando falar em um candidato à Presidência com apoio da frente evangélica, Campos afirma que o grupo não deve abrir mão de seus posicionamentos: "Sou do PSDB e meu candidato é o Aécio, mas não vou protegê-lo. Em todos os temas relacionados à defesa da vida, da família natural, à liberdade religiosa, que são valores da sociedade, os candidatos terão que se posicionar".

O pastor Marcos Feliciano (PSC-SP), que comandou este ano a Comissão de Direitos Humanos na Câmara, se coloca como um dos responsáveis pelo eventual crescimento da bancada religiosa no ano que vem. "Minha participação na comissão despertou católicos, evangélicos e espíritas", diz Feliciano, segundo quem já há uma forte procura de outros políticos para que ele apareça em parcerias em santinhos no ano que vem.

Feliciano protagonizou, na presidência da Comissão de Direitos Humanos, uma série de polêmicas, foi alvo de protestos constantes e conseguiu aprovar no colegiado até projetos tidos como homofóbicos.

O cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco Gustavo da Costa Santos lembra que, apesar da alta exposição de Feliciano, sua atuação na Comissão de Direitos Humanos também gerou uma repercussão negativa em parte do eleitorado. "Toda sua exposição explicitou o quão caricatas são essas figuras como ele - que assumiu a comissão para promover a pauta da sua visão de mundo da religião e não dos direitos humanos", afirma.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Política - 26 de dezembro de 2013 - 02h05 - Internet: clique aqui.