«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ELES, AINDA, NÃO ENTENDERAM O RECADO!

CONGRESSO NACIONAL GASTA MAIS,
APESAR DO DISCURSO DE AUSTERIDADE


Eduardo Bresciani


Na Câmara de Alves, despesas com gratificações e horas extras puxam crescimento; no Senado de Renan, contratação de servidores
Dep. Fed. Henrique Eduardo Alves e Sen. Renan Calheiros
Respectivamente presidentes da Câmara e Senado Federal

A prática de gastos do Congresso Nacional contrasta com o discurso de austeridade adotado pelos peemedebistas Henrique Eduardo Alves (RN), presidente da Câmara, e Renan Calheiros (RN), presidente do Senado, quando tomaram posse de seus cargos, no início do ano.

A Câmara dos Deputados aumentou suas despesas nos primeiros meses da gestão de Alves em R$ 130 milhões, o equivalente a 9,4%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Apesar de mais tímido, o Senado também registrou aumento de despesas: R$ 7,5 milhões.

Os dados são relativos aos meses de março a junho e foram divulgados ontem pela ONG Contas Abertas. Foi descontada do cálculo a correção dos valores de 2012 pela inflação registrada no período pelo IGP-DI, da Fundação Getúlio Vargas.

Nesses quatro meses da gestão de Alves, a Câmara fez pagamentos no valor de R$ 1,516 bilhão. Em 2012, o montante pago foi de R$ 1,297 bilhão em valores nominais e de R$ 1,385 bilhão com a correção inflacionária.

Gratificações
Entre as rubricas que registraram maior aumento está a de pagamento de gratificações a servidores, que subiu de R$ 199,1 milhões para R$ 230,9 milhões, um crescimento de 15,9%. As horas extras tiveram um salto de R$ 19,7 milhões para R$ 28,4 milhões, um salto de 44,1%.

Área que sofreu mudança devido a um ato assinado por Alves em março, os gastos com despesas relacionadas à saúde cresceram 27,8%, passando de R$ 50 milhões. O ato, aprovado pela Mesa Diretora ainda na gestão de Marco Maia (PT-RS), acabou com o limite de ressarcimento aos parlamentares por despesas nesta área.

A justificativa é que havia dificuldade de sistematizar as informações necessárias para estabelecer os tetos para cada procedimento. Um novo modelo de limites teria de ser elaborado, mas não há data para que isso ocorra.

A Câmara justifica que parte do aumento de despesas deve-se a um reajuste de 5% dado ao funcionalismo público em 2013. Na Casa, estes recursos foram usados dentro do plano de carreira, incidindo também sobre algumas gratificações, o que justificaria o crescimento desta despesa.

Em relação a horas extras, a Casa disse que neste ano tem ocorrido mais sessões deliberativas na comparação com 2012. No primeiro semestre de 2013 foram realizadas 218 sessões e votadas 431 matérias, enquanto em todo o ano passado, em que os parlamentares dividiram as atenções com as eleições municipais, foram realizadas 357 sessões e votadas 666 matérias.

Usando dados relativos ainda ao ano passado, a Casa ressalta a redução dos gastos em relação à despesa total da União nos últimos anos, de 0,49% em 2008 para 0,36% em 2012. Ressalta ainda que tem reduzido a despesa com pessoal na relação com a receita corrente líquida, cálculo usado na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Casa alta
Nos quatro meses analisados, o Senado sob o comando de Renan desembolsou um montante de R$ 1,19 bilhão.

Em nota oficial, a direção da Casa afirma que as despesas maiores em 2013 devem-se à posse de 292 servidores concursados no segundo semestre de 2012, ao reajuste salarial de 5% concedido aos funcionários e a um aporte de R$ 8,6 milhões para o fundo de previdência complementar dos servidores, o Funpresp, despesa que não existiu no mesmo período do ano passado.

O Senado diz ter tomado "uma série de medidas de economia", citando a redução de funções comissionadas, não nomeação de mais concursados, renegociação de contratos de terceirização e diminuição de despesas com material de consumo, diárias e passagens aéreas. Renan também prometeu reduzir os gastos com saúde, mas não obteve sucesso.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Política - Quarta-feira, 31 de julho de 2013 - Pg. A2 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,congresso-gasta-mais-apesar-do-discurso-de-austeridade,1058945,0.htm
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CONGRESSO TEM APROVAÇÃO TOTAL DE APENAS 7%
PESQUISA CNI/IBOPE


Daiene Cardoso e Ricardo Brito
Congresso Nacional é invadido por manifestantes descontentes
Junho/2013

Apesar de terem lançado uma agenda positiva com um ritmo frenético de votações de projetos antes do recesso parlamentar, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal foram as instituições mais mal avaliadas na tentativa de reagir aos protestos das ruas. A pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira apontou que pelo menos 37% dos entrevistados desaprovaram totalmente a resposta dada pelo Parlamento às demandas das ruas.

Em relação à Câmara, a desaprovação total foi de 39% dos entrevistados. No caso do Senado, este índice alcançou 37%. Mesmo apresentando um novo pacto, que foi bombardeado por aliados do Congresso, a presidente Dilma Rousseff teve o menor porcentual de desaprovação total, com 31%.

Ao mesmo tempo, a aprovação total às decisões tomadas pela presidente foi a maior entre os gestores de instituições públicas citadas, com 14% do total. Câmara e Senado, cada um, registraram aprovação total de apenas 7%, novamente a pior.

Lembrança

A sondagem apontou que, para 4% dos entrevistados, a notícia mais lembrada do período foi a das ações tomadas pelo Congresso. Para outros 8%, a da discussão em torno da reforma política. O governo Dilma tentou sem sucesso provocar o Congresso a fazer um plebiscito para discutir esta reforma, de maneira que ela valesse para as eleições do próximo ano. Aliás, a discussão em torno do plebiscito foi a notícia mais lembrada por 5% dos entrevistados.

As manifestações contra a proposta de emenda à Constituição que diminuía os poderes de investigação do Ministério Público (PEC 37) e o posterior arquivamento da matéria pelo Congresso foram as notícias mais lembradas por, respectivamente, 4% e 3% dos entrevistados.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Política - 25 de julho de 2013 - 17h33 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,cniibope-congresso-tem-aprovacao-total-de-apenas-7,1057303,0.htm

terça-feira, 30 de julho de 2013

IDHM do Brasil avança 47,5% em 20 anos, mas educação ainda é o maior desafio

LISANDRA PARAGUASSU


Em 20 anos, municípios do País vão de baixo para alto desenvolvimento; Norte e Nordeste, mais pobres, foram os que mais evoluíram
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Em 20 anos, o Índice de Desenvolvimento Humano dos Municípios brasileiros (IDHM) avançou 47,8%. De um País dominado por municípios que não conseguiam nem mesmo alcançar um desenvolvimento médio - mais de 80% eram classificados, em 1991, como muito baixo - o Brasil hoje chegou a 1/3 altamente desenvolvido. As boas notícias, no entanto, poderiam ter sido ainda melhores se o País tivesse começado a resolver antes o seu maior gargalo, a Educação. Dos três índices que compõe o IDHM, é esse que puxa a maior parte dos municípios para baixo.

Apesar de um avanço de 128%, o IDHM de Educação continua sendo apenas médio. O avanço é inegável. O mapa da evolução dos IDHMs mostra que, em 1991, quando o índice foi publicado pela primeira vez, o Brasil não apenas tinha um perfil muito ruim, era também extremamente desigual, com as poucas cidades mais desenvolvidas concentradas totalmente no Sul e Sudeste.

Os dados deste ano mostram que os mais pobres conseguiram avançar mais. Estão nas Regiões Norte e Nordeste as cidades que tiveram o maior crescimento do IDH - como Mateiros (TO), que alcançou 0,607, um IDH médio, mas 0,326 pontos maior do que há 20 anos.
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É na Educação que as disparidades mostram sua força. Apenas cinco cidades alcançaram um IDHM acima de 0,800, muito alto, em Educação. Nenhum dos Estados chegou lá. Os melhores, Distrito Federal e São Paulo, foram classificados como Alto IDHM. Mais de 90% dos municípios do Norte e Nordeste têm índices baixos ou muito baixos, enquanto no Sul e Sudeste mais da metade das cidades têm números nas faixas média e alta.

A comparação entre Águas de São Pedro (SP), a cidade com melhor IDHM de Educação do País, e Melgaço (PA), com o pior IDHM, tanto geral quanto em Educação, é um exemplo dos extremos do País. Em Melgaço, a 290 quilômetros de Belém, chega-se apenas de helicóptero ou barco, em uma viagem que pode durar 8 horas. Dos seus 24 mil habitantes, apenas 12,3% dos adultos têm o ensino fundamental completo. Entre crianças de 5 e 6 anos, 59% estão na escola, mas só 5% dos jovens de 18 a 20 anos completaram o ensino médio.

Águas de São Pedro, a 187 quilômetros da capital paulista, tem 100% das crianças na escola e 75% dos jovens terminaram o ensino médio. Em 1991, mesmo considerando os critérios educacionais mais rígidos do IDHM atuais, o município já era o 12.º melhor do País. Melgaço, era o 97.º pior, o que mostra que melhorou menos do que poderia.

A Educação é onde os municípios brasileiros estão mais longe de alcançar o IDH absoluto, 1. Os números mostram que o País melhorou mais no fluxo escolar - mais crianças estão na escola e na idade correta -, mas mantém um estoque alto de adultos com escolaridade baixa e, mais grave, parece ainda estar criando jovens sem estudo.

A população de crianças de 5 e 6 anos que frequentam a escola atinge mais de 90%. Entre os jovens de 15 a 17 anos, apenas 57% completaram o ensino fundamental. Entre 18 e 20, 41% concluíram o ensino médio. Em 15% das cidades brasileiras menos de 20% da população terminou o ensino fundamental.

Análises

"O que pesa mais é o estoque de pessoas com pouca formação na população adulta. Se você olhar com atenção, verá que nas pontas, acima dos 15 anos, os indicadores já não são tão bons quanto nos anos iniciais", disse Maria Luiza Marques, coordenadora do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil pela Fundação João Pinheiro, uma das entidades organizadoras.

O presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Marcelo Néri, considera o avanço na Educação "muito interessante". "A Educação é a mãe de todas as políticas, mas é difícil de mudar, porque tem uma herança muito grande para resolver. A Educação é a base de tudo e hoje está no topo das prioridades. Mudou a cabeça dos brasileiros."


Para ter acesso aos dados de cada município brasileiro,
bem como, outros gráficos com os resultados do IDH-M 2010,
clique nos links abaixo:

Apenas 32 cidades têm IDH municipal muito baixo; em 2000 eram 2328:
Ranking do IDH-M para todos os municípios do Brasil:
Veja a evolução do desenvolvimento humano no Brasil, por UF e municípios:
Nordeste e Norte tiveram os maiores avanços no IDH Municipal na década:

Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Terça-feira, 30 de julho de 2013 - Pg. A15 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,idhm-avanca-47-mas-freia-na-educacao-,1058661,0.htm
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SÓ VIOLÊNCIA REDUZ A LONGEVIDADE NACIONAL

Lisandra Paraguassu

Melhora envolve diminuição da mortalidade infantil e queda na fecundidade

Existe uma área em que o Brasil conseguiu chegar ao desenvolvimento muito alto: a expectativa de vida. A cada ano, os brasileiros vivem mais, em todo o País. Dos 5.565 municípios brasileiros, 3.176 têm o IDHM Longevidade muito alto. Nenhuma cidade está na faixa "baixo" ou "muito baixo".

A diminuição significativa da mortalidade infantil e a queda na fecundidade são as causas do sucesso no índice. O avanço só não é ainda maior por uma razão: a violência, que se espalha das grandes metrópoles para as cidades pequenas e centra fogo especialmente nos jovens.

Hoje, mais de 50% dos municípios brasileiros têm taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição da população. Somado a isso, quase 60% das cidades conseguiram baixar para menos de 19 por mil nascidos vivos a mortalidade infantil, meta que deveria ser atingida pelo País, de acordo com os Objetivos do Milênio, em 2015.

A ameaça à expectativa de vida no Brasil hoje é menos o que ataca as crianças, e mais o que atinge os jovens: a violência. "Dificilmente vamos avançar tanto ainda na mortalidade infantil. Agora temos de enfrentar a agenda dos jovens. A violência ainda é uma fonte importante de mortes que pode gerar crescimento na expectativa de vida", afirmou o presidente do Ipea, Marcelo Nery.

A expectativa de vida no Brasil hoje varia entre 65 anos, nas cidades de Cacimbas, na Paraíba, e Roteiro, em Alagoas, a 79 anos, nos municípios catarinenses de Balneário Camboriú, Blumenau, Brusque e Rio do Sul.

Extermínio

O crescimento na expectativa de vida nos últimos dez anos – 46% no Brasil e 58% no Nordeste – poderia ser ainda maior se não fosse o impacto da violência entre os jovens. O Brasil tem uma alta taxa de mortes violentas na população em geral, mas a concentração das mortes entre jovens deixa o País na mesma linha de países que passam por guerras civis e outros conflitos violentos.

De acordo com o último Mapa da Violência, preparado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, a taxa chegou a 134 por 100 mil habitantes, mais do que o dobro do já alto índice da população em geral, de 54 por 100 mil. Nas palavras do autor, um extermínio juvenil. "Nós não teremos grandes impactos mais por tratamentos médicos. Mas uma criança que deixa de morrer em um ano dá um impacto gigantesco. Um jovem que deixa de morrer cria um impacto enorme", avalia Marcelo Nery.

Para acessar o 
ATLAS DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO BRASIL 2013
do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
por município com todos os dados pormenorizados e em gráficos,
clique aqui:

Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Terça-feira, 30 de julho de 2013 - Pg. A18 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,so-violencia-reduz-a-longevidade-nacional,1058632,0.htm

segunda-feira, 29 de julho de 2013

QUEM MUDARÁ: A IGREJA OU OS JOVENS? [Leia!!!]

FREI BETTO *
Frei Betto - frade dominicano brasileiro

A JMJ [Jornada Mundial da Juventude], que terminou hoje, é um evento criado para atrair jovens à Igreja Católica e despertar neles o espírito missionário.

Pesquisas indicam que o número de católicos se reduz em todo o mundo, especialmente entre jovens. No início do século XX, quase 90% da população da Europa Ocidental se assumiam como católica. Hoje, apenas 24%.

No Brasil, o DataPopular constatou que, em apenas três anos, o índice de jovens católicos se reduziu em 30,6%. Em 2010, 63% dos jovens entre 16 e 24 anos se declaravam católicos. Hoje, apenas 44,2%.

Quais as causas desse desinteresse dos jovens pela Igreja? Por que eles são presença rara nas missas de domingo?

Há dois fatores a serem considerados

[1º] Primeiro, o crescente desinteresse das famílias católicas em cuidar da educação religiosa de seus filhos e netos. Com frequência, amigos me indagam: "Minha filha tem 18 anos, meu filho 16, e nenhuma motivação religiosa. O que fazer?” Dou sempre a mesma resposta: "A pergunta chegou com 10 anos de atraso. Se seus filhos tivessem 8 e 6 anos, eu saberia o que responder”.
  • O que esperar de um jovem que, na infância, jamais viu os pais participarem da Igreja, orar em família, comentar um texto bíblico? 
  • O que esperar se, na Semana Santa, se aproveita para viajar, e não para celebrar a morte e ressurreição de Jesus? 
  • E o Natal é comemorado em família em torno da figura consumista de Papai Noel ou como festa do nascimento de Jesus?
[2º] Os próprios anacronismos e rigores da Igreja são outro fator de afastamento dos jovens do catolicismo. Como atrair jovens se pesa sobre eles as exigências de manter a virgindade até o casamento, jamais usar preservativo e, uma vez casados, não ter relações sexuais exceto se houver intenção de procriar?

Soma-se a isso o despreparo de muitos padres e freiras. No afã de cobrir o déficit de sacerdotes, pois há cada vez menos vocações e muitas evasões (padres que se casam e ficam impedidos de rezar missa), a formação dos seminaristas no Brasil é, em geral, de péssima qualidade, salvo raras exceções.

A filosofia é estudada em apostilas e cópias de sites, sem contato com fontes primárias e textos integrais. A teologia é quase um curso de catequese para adultos, mera retransmissão da tradição doutrinária, sem debates e pesquisas sobre temas da atualidade.

As freiras nem curso superior costumam fazer, como se a dedicação com que se entregam à pastoral fosse suficiente para uma eficaz evangelização. Há bispos e padres que as encaram como meras coadjuvantes, adultas infantilizadas que devem ser mantidas distantes dos temas teológicos.

A Igreja, para atrair jovens, deve renovar sua postura nesse mundo globalizado, pós-moderno, do século XXI. Para isso basta aplicar as decisões do Concilio Vaticano II e valorizar o protagonismo dos leigos, sobretudo dos jovens, na missão evangelizadora.

Caso contrário, haverá, sim, jovens da Igreja, fechados em movimentos espiritualistas, descolados da realidade, subjugados por um moralismo que centraliza o pecado na sexualidade, indiferentes aos apelos do papa Francisco de não transformar a Igreja em uma ONG, mas fazê-la sair pra fora, ser fermento na massa, participar, como Jesus, da conflitividade e dos desafios do mundo em que vivemos.

Não custa recordar que todos nós, cristãos, somos discípulos de um prisioneiro político. Jesus não morreu de doença ou de acidente em Jerusalém. Foi preso, torturado e condenado à morte na cruz por dois poderes políticos.

* Frei Betto é frade dominicano, teólogo, escritor, autor de "Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros. Para mais informações sobre o autor, acesse: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frei_Betto. Para saber sobre sua obra e atividades, acesse: http://www.freibetto.org/

Fonte: ADITAL - Notícias da América Latina e Caribe - Segunda-feira, 29 de julho de 2013 - Internet: http://www.adital.com.br/site//noticia.asp?boletim=1&cod=76655&lang=PT

PAPA FRANCISCO CONCEDE LONGA ENTREVISTA EM VIAGEM DE RETORNO A ROMA

JAMIL CHADE

Sem tabus, pontífice respondeu por mais de uma hora perguntas de
jornalistas durante o voo entre Rio e Roma
Papa Francisco concede entrevista em voo de retorno a Roma
28 de julho de 2013
A Igreja não pode julgar os gays por sua opção sexual e nem marginalizá-los. O alerta é do papa Francisco que, quebrando um verdadeiro tabu, deixa claro que estende sua mão a esse segmento da sociedade. “Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu pra julgá-lo”, declarou. “O catecismo da Igreja explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser marginalizados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade”, insistiu.

As declarações foram dadas em uma entrevista concedida pelo papa aos jornalistas que o acompanharam no avião, entre eles a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. Na conversa, a garantia do argentino de que o Vaticano tem como papa uma “pessoa normal”, um “pecador” e que vive junto com os demais religiosos porque morar no Palácio Apostólico o geraria problemas psicológicos.

30 minutos depois de o voo decolar do Rio, o papa deixou sua primeira classe e cumpriu uma promessa que havia feito no voo de ida de Roma ao Brasil: responderia perguntas dos jornalistas. Mas poucos imaginaram que a conversa duraria quase uma hora e meia.

Para o papa, o problema não é a existência do “lobby gay” dentro da Igreja, mas de qualquer lobby. “o problema não é ter essa tendência. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessas tendências de pessoas gananciosas, lobby político, maçons e tantos outros lobbies. Esse é o principal problema”, disse.

Pela primeira vez, Francisco ainda deixa claro que, para ele, abusos sexuais contra menores por parte de religiosos não são apenas pecados, mas crimes que devem ser julgados.

Mas se a posição sobre os gays e sobre o abuso sexual pode representar uma mudança, Francisco deixa claro que não haverá uma nova opinião do Vaticano sobre a presença das mulheres na Igreja, sobre o aborto ou sobre o casamento homossexual.

O papa aproveitou a conversa para anunciar que vai exigir transparência e honestidade no Vaticano e garantiu que sua reforma vai continuar. “Esses escândalos fazem muito mal”, disse.

Antes de responder às perguntas, ele elogiou o “grande coração dos brasileiros”, disse que a viagem “fez bem para sua espiritualidade” e ainda disse que a organização do evento foi excelente. “Parecia um cronômetro”. Eis os principais trechos da entrevista:
Papa Francisco na porta do avião que o levaria a Roma (28/07/2013)

Nestes quatro meses de pontificado, o senhor criou várias comissões. Que tipo de reforma do Vaticano o sr. tem em mente? O sr. quer suprimir o Banco do Vaticano?

Papa Francisco – Os passos que eu fui dando nestes quatro meses e meio vão em duas vertentes. O conteúdo do que quero fazer vem da congregação dos cardeais. Me lembro que os cardeais pediam muitas coisas para o novo papa, antes do conclave. Lembro-me que tinha muita coisa. Por exemplo, a comissão de oito cardeais, a importância de que ter uma consulta de alguém de fora, e não uma consulta apenas interna. Isso vai na linha do amadurecimento da sinonalidade e do primado. Os vários episcopados do mundo vão se expressando e muitas propostas foram feitas, como a reforma da secretaria dos sínodos, para que a comissão sinodal tenha característica consultiva  como o consistório cardinalício com temáticas específicas, como a canonização. A vertente dos conteúdos vem daí. A segunda é a oportunidade. A formação da primeira comissão não me custou mais de um mês. Já a parte econômica, eu pensava em tratar no ano que vem, porque não é a mais importante. Mas a agenda mudou devido a circunstâncias que vocês conhecem que é domínio público. O primeiro é o problema do Ior (Banco do Vaticano), como encaminhá-lo, como reformá-lo, como sanear o que há de ser sanado. E essa foi então a primeira comissão. Depois tivemos a comissão dos 15 cardeais que se ocupam dos assuntos econômicos da Santa Sé. E por isso decidimos fazer uma comissão para toda a economia da Santa Sé, uma única comissão de referência. Se notou que o problema econômico estava fora da agenda. Mas estas coisas acontecem. Quando estamos no governo, vamos por um lado, mas se chutam e fazem um golaço por outro lado, temos que atacar. A vida é assim. Eu não sei como o Ior vai ficar. Alguns acham melhor que seja um banco, outros acham que deveria ser um fundo, uma instituição de ajuda. Eu não sei. Eu confio no trabalho das pessoas que estão trabalhando sobre isso. O presidente do Ior permanece, o tesoureiro também, enquanto o diretor e o vice-diretor pediram demissão. Não sei como vai terminar essa história. E isso é bom. Não somos máquinas. Temos que achar o melhor. Mas o fato é que, seja o que for, tem que ser feita com transparência e honestidade.

Uma fotografia do sr. deu a volta ao mundo, quando o sr. desceu as escadas do helicóptero em Roma para embarcar para o Brasil carregando sua mala preta. Reportagens levantaram hipóteses também sobre o conteúdo da mala. Porque o sr. saiu carregando a maleta preta e não um de seus colaboradores? E o sr. poderia dizer o que tinha dentro?

Papa Francisco – Não tinha a chave da bomba atômica. Eu sempre fiz isso, Quando viajo, levo minhas coisas. E dentro o que tem? Um barbeador, um breviário (livro de orações), uma agenda, tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei eu mesmo minha maleta. É normal. Nós temos que ser normais. É um pouco estranho isso que você me diz que a foto deu a volta ao mundo. Mas temos de nos habituar a sermos normais, à normalidade da vida.

Por que o senhor pede tanto para que rezem pelo senhor ? Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele.

Papa Francisco – Sempre pedi isso. Quanto era padre pedia, mas nem tanto e nem tão frequentemente. Comecei a pedir mais frequentemente quando passei a ser bispo. Porque eu sinto que se o senhor não ajuda nesse trabalho de ajudar aos outros, não se pode realizá-lo. Preciso da ajuda do senhor. Eu, de verdade, me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também pecador. Peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Eu sinto que devo pedir. Não sei…

Na busca de fazer as mudanças no Vaticano, o sr. disse que existem muitos santos que trabalham e outros um pouco menos santos. O sr. enfrenta resistências a essa sua vontade de mudar as coisas no Vaticano? O sr. vive num ambiente muito austero, da casa Santa Marta. Os seus colaboradores também vivem essa austeridade? Isso é algo apenas do sr. ou da comunidade?

Papa Francisco – As mudanças vem de duas vertentes: do que pediram os cardeais e também o que vem da minha personalidade. Você falou que eu fico na Santa Marta. Eu não poderia viver sozinho do Palácio, que não é luxuoso. O apartamento pontifício é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não posso viver sozinho. Preciso de gente, falar com gente, trabalhar com as pessoas. Porque é que quando os meninos da escola jesuíta me perguntaram se eu estava aqui pela austeridade e pobreza, eu respondi: não, não. É por motivos psiquiátricos. Psicologicamente, não posso. Cada um deve levar adiante sua vida, seguir seu modo de vida. Os cardeais que trabalham na Cúria não vivem como ricos. Tem apartamentos pequenos. São austeros. Os que eu conheço tem apartamentos pequenos. Cada um tem que viver como o senhor disse que tem que viver. A austeridade é necessária para todos. Trabalhamos à serviço da Igreja. É verdade que há sacerdotes e padres santos, gente que prega, que trabalha tanto, que trabalha e vai aos pobres, se preocupam em garantir que os pobres comam. Tem santos na Cúria. Também tem alguns que não são muito santos. E são estes que fazem mais barulho. Faz mais barulho uma árvore que cai do que uma floresta que nasce. Isso me dói. Porque são alguns que causam escândalos. Temos o monsenhor que foi para a cadeia (por lavagem de dinheiro). São escândalos que fazem mal. Uma coisa que nunca disse: a Cúria deveria ter o nível que tinham os velhos padres, pessoas que trabalham. Os velhos membros da Cúria. Precisamos deles. Precisamos o perfil do velho da Cúria. Sobre a resistência, se tem, eu ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: eu encontrei ajuda, encontrei pessoas leais. Por exemplo, eu gosto quando alguém me diz: “eu não estou de acordo”. Esse é um verdadeiro colaborador. Mas quando vejo alguém que diz: “ah, que belo, que belo”, e depois dizem o contrario por trás, isso não ajuda.

O mundo mudou, os jovens mudaram. Temos no Brasil muitos jovens, mas o senhor não falou de aborto, da posição do Vaticano sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para estes casamentos em relação ao aborto. Por que o senhor não falou sobre isso?

Papa Francisco – A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Eu não queria voltar sobre isso. Não era necessário, como também não falei sobre outros assuntos. Eu também não falei sobre o roubo, sobre a mentira. Para isso, a Igreja tem um doutrina clara. Queria falar de coisas positivas, que abrem caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual a posição da igreja.

E qual é a do Papa?

Papa Francisco – É a da Igreja. Eu sou filho da Igreja.

Qual o sentido mais profundo de se apresentar como o bispo de Roma?

Papa Francisco – Não se deve andar mais adiante do que o que se fala. O papa é bispo de Roma e por isso é papa, que é sucessor de Pedro. Pensar que isso quer dizer que é o primeiro, não é o caso. Não é esse o sentido. O primeiro sentido do papa é ser o bispo de Roma.

O sr. teve sua primeira experiência de massas no Rio. Como o sr. se sente como papa? É muito trabalho?

Papa Francisco – Ser bispo é lindo. O problema é quando um pessoa busca ter esse trabalho. Assim não é tão belo. Mas quando o Senhor chama para ser bispo, isso é belo. Tem sempre o perigo e pecado de pensar com superioridade, como ser um príncipe. Mas o trabalho é belo. Ajudar o irmão a ir adiante. Têm o filtro da estrada. O bispo tem que indicar o caminho. Eu gosto de ser bispo. Em Buenos Aires, eu era tão feliz. Como padre eu era feliz. Como bispo, eu era feliz e isso me faz bem.

E como papa?

Papa Francisco – Se você faz o que o Senhor quer, você é feliz. Esse é o meu sentimento.

Vimos o sr. cheio de energia e, agora, enquanto o avião se mexe muito, vemos agora com muita tranquilidade de pé. Fala-se muito das próximas viagens. O sr. já tem um calendário?

Papa Francisco – Definido, definido não há nada. Mas posso dizer algumas coisas que estamos pensando. No dia 22 de setembro, Cagliari [Itália]. Depois, no 4 de outubro, para Assis. Tenho em mente dentro da Itália ir ver minha família. Pegar um avião pela manhã e voltar com outro pela noite. Meus familiares, pobres, me ligam. Temos una boa relação com eles. Fora da Itália o patriarca Bartolomeu I quer fazer um encontro para comemorar os 50 anos do encontro Atenágoras e Paulo VI em Jerusalém. O governo israelense nos fez um convite especial. O governo da Autoridade Palestina acredito que fez o mesmo. Isso está sendo pensado. Na América Latina, acredito que há possibilidades de voltar, porque o papa latino-americano, que acaba de fazer sua primeira viagem à América Latina….Adeus! Devemos esperar um pouco. Acredito que se possa ir à Ásia, mas está todo no ar. Tive convites para ir ao Sri Lanka e Filipinas. Para a Ásia precisamos ir. Bento XVI não teve tempo.

E para a Argentina?

Papa Francisco – Isso pode esperar um pouco. As outras viagens tem prioridade.

No encontro com os argentinos, o sr. disse que se sentia enjaulado. Por quê?

Papa Francisco – Vocês sabem que eu tenho vontade de passear pelas ruas de Roma? Adoro andar pelas ruas. E por isso me sinto um pouco enjaulado. Mas tenho que dizer que a Gendarmeria vaticana é boa. Agora me deixam fazer algumas coisas mais. Mas seu dever é garantir minha segurança. Enjaulado nesse sentido, de que gostaria de estar nas ruas. Mas entendo que não é possível. Em Buenos Aires, eu era um sacerdote das ruas.

A Igreja no Brasil está perdendo fiéis. A Renovação Carismática é uma possibilidade para evitar que eles sigam para as igrejas pentecostais?

Papa Francisco – É verdade, as estatísticas mostram. Falamos sobre isso ontem com os bispos brasileiros. E isso é um problema que incomoda os bispos brasileiros. Eu vou dizer uma coisa: nos anos 1970, início dos 1980, eu não podia nem vê-los. Uma vez, falando sobre eles, disse a seguinte frase: eles confundem uma celebração musical com uma escola de samba. Eu me arrependi. Vi que os movimentos bem assessorados trilharam um bom caminho. Agora, vejo que esse movimento faz muito bem à Igreja em geral. Em Buenos Aires, eu fazia uma missa com eles uma vez por ano, na catedral. Vi o bem que eles faziam. Neste momento da Igreja, creio que os movimentos são necessários. Esses movimentos são uma graça para a igreja. A Renovação Carismática não serve apenas para evitar que alguns sigam os pentecostais. Eles são importantes para a própria Igreja, a Igreja que se renova.

O senhor disse que está cansado. Há algum tratamento especial neste voo?

Papa Francisco – Sim, estou cansado. Não há nenhum tratamento especial neste voo. Na frente, tem uma bela poltrona. Escrevi para dizer que não queria tratamento especial.

A Igreja sem a mulher perde a fecundidade? Quais as medidas concretas?

Papa Francisco – Uma Igreja sem as mulheres é como o colégio apostólico sem Maria. O papal da mulher na igreja não é só maternidade, a mãe da família. É muito mais forte. A mulher ajuda a Igreja a crescer. E pensar que Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! A Igreja é feminina, esposa, mãe. O papel da mulher na Igreja não deve ser só o de mãe e com um trabalho limitado. Não, tem outra coisa. O papa Paulo 6° escreveu uma coisa belíssima sobre as mulheres. Creio que se deva ir adiante nesse papel. Não se pode entender uma Igreja sem uma mulher ativa. Um exemplo histórico: para mim, as mulheres paraguaias são as mais gloriosas da América Latina. Sobraram, depois da guerra (1864-1870), oito mulheres para cada homem. E essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil. A escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé, a língua. Na Igreja, se deve pensar nas mulheres sob essa perspectiva. Escolhas de risco, mas como mulher. Acredito que, até agora, não fizemos uma profunda teologia sobre a mulher. Somente um pouco aqui, um pouco lá. Tem a que faz a leitura, a presidente da Cáritas, mas há mais o que fazer. É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. Isso é o que eu penso.

O que sr. pensa sobre a ordenação das mulheres?

Papa Francisco – Sobre a ordenação, a Igreja já falou e disse que não. João Paulo 2° disse com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada. Nossa Senhora, Maria, é mais importante que os apóstolos. A mulher na Igreja é mais importante que os bispos e os padres. Acredito que falte uma especificação teológica.

Queremos saber qual a sua relação de trabalho com Bento 16, não a amistosa, a de colaboração. Não houve antes uma circunstância assim. Os contatos são frequentes?

Papa Francisco – A última vez que houve dois ou três papas, eles não se falavam. Estavam brigando entre si, para ver quem era o verdadeiro. Eu fiquei muito feliz quando se tornou papa. Também, quando renunciou, foi, pra mim, um exemplo muito grande. É um homem de Deus, de oração. Hoje, ele mora no Vaticano. Alguns me perguntam: como dois papas podem viver no Vaticano? Eu achei uma frase para explicar isso. É como ter um avô em casa. Um avô sábio. Na família, um avô é amado, admirado. Ele é um homem com prudência. Eu o convidei para vir comigo em algumas ocasiões. Ele prefere ficar reservado. Se eu tenho alguma dificuldade, não entendo alguma coisa, posso ir até ele. Sobre o problema grave do Vatileaks [vazamento de documentos secretos], ele me disse tudo com simplicidade. Tem uma coisa que não sei se vocês sabem: Em 8 de fevereiro, no discurso, ele falou: “Entre vocês está o próximo papa. Eu prometo obediência”. Isso é grande.

Nesta viagem, o sr. falou de misericórdia sobre o acesso aos sacramentos dos divorciados, existe a possibilidade de mudar alguma coisa na disciplina da Igreja?

Papa Francisco – Essa é uma pergunta que sempre se faz. A misericórdia é maior do que o exemplo que você deu. Essa mudança de época e também tantos problemas na Igreja, como alguns testemunhos de alguns padres, problemas de corrupção, do clericalismo… A Igreja é mãe. Ela cura os feridos. Ela não se cansa de perdoar. Os divorciados podem fazer a comunhão. Não podem quando estão na segunda união. Esse problema deve ser estudado pela pastoral matrimonial. Há 15 dias, esteve comigo o Secretário do Sínodo dos Bispos, para discutir o tema do próximo sínodo. E posso dizer que estamos a caminho de uma pastoral matrimonial mais profunda. O cardeal Guarantino disse ao meu antecessor que a metade dos matrimônios é nula. Porque as pessoas se casam sem maturidade ou porque socialmente devem se casar. Isso também entra na Pastoral do Matrimônio. A questão da anulação do casamento deve ser revisada. Também é preciso analisar os problemas judiciais de anular um matrimônio. Porque os tribunais eclesiásticos não bastam para isso. É complexo o problema da anulação do matrimônio.

Como Papa, o senhor ainda pensa como um jesuíta?

Papa Francisco – É uma pergunta teológica. Os jesuítas fazem votos de obedecer ao Papa. Mas se o Papa se torna um jesuíta, talvez devam fazer votos gerais dos jesuítas. Eu me sinto jesuíta na minha espiritualidade, a que tenho no coração. Não mudei de espiritualidade. Sou Francisco franciscano. Me sinto jesuíta e penso como jesuíta.

Em quatro meses de Pontificado, pode nos fazer um pequeno balanço e dizer o que foi o pior e o melhor de ser Papa? O que mais o surpreendeu neste período?

Papa Francisco – Não sei como responder isso, de verdade. Coisas ruins, ruins, não aconteceram. Coisas belas, sim. Por exemplo, o encontro com os bispos italianos, que foi tão bonito. Como Bispo da capital da Itália, me senti em casa com eles. Uma coisa dolorosa foi a visita a Lampedusa, me fez chorar. Me fez bem. Quando chegam estes barcos (com imigrantes), e que os deixam a algumas milhas de distância da costa e eles têm que chegar (à costa) sozinhos, isso me dói porque penso que estas pessoas são vítimas do sistema sócio-econômico mundial. Mas a coisa pior é um ciática, é verdade, tive isso no primeiro mês. É verdade! Para uma entrevista, tive que me acomodar numa poltrona e isso me fez mal, doía muito, não desejo isso a ninguém. O encontro com os seminaristas religiosos foi belíssimo. Também o encontro com os alunos do colégio jesuíta foi belíssimo. As pessoas…conheci tantas pessoas boas no Vaticano. Isso é verdade, eu faço justiça. Tantas pessoas boas, mas boas, boas, boas.

O senhor se assustou quando viu o informe sobre o Vatileaks?

Papa Francisco – Não. Vou contar uma anedota sobre o informe do Vatileaks. Quando fui ver o Papa Bento, ele disse: aqui está uma caixa com tudo o que disseram as testemunhas. Havia ainda um envelope com o resumo. E ele sabia tudo de memória. Mas não, não me assustei. São problemas grandes, mas não me assustei.

O sr. tem a esperança de que esta viagem ao Brasil contribua para trazer de volta os fiéis?

Papa Francisco – Uma viagem do Papa sempre faz bem. E creio que a viagem ao Brasil fará bem, não apenas a presença do Papa. Esta Jornada da Juventude, eles (os brasileiros) se mobilizaram e vão ajudar muito a Igreja. Tantos fiéis que foram se sentem felizes (por terem ido). Acho que vai ser positivo não só pela viagem, mas pela Jornada, que foi um evento maravilhoso.

Os argentinos se perguntam: o sr. não sente falta de estar em Buenos Aires, pegar um ônibus?

Papa Francisco – Buenos Aires, sim, sinto falta. Mas é uma saudade serena.

Hoje os ortodoxos festejam mil anos do cristianismo. Seu comentário?

Papa Francisco – As igrejas ortodoxas conservaram a liturgia tão bem, no sentido da adoração. Eles louvam Deus, adoram Deus, cantam Deus. O tempo não conta. O centro é Deus e isso é uma riqueza. Luz é o Oriente. E o Ocidente, luxos. O consumismo nos faz tão mal. Quando se lê Dostoiévski  que acho que todos nós devemos ler, precisamos deste ar fresco do Oriente, desta luz do Oriente.

O que o senhor pretende fazer em relação ao monsenhor Ricca (acusado de ter amantes) e como o sr pretende enfrentar toda esta questão do lobby gay?

Papa Francisco – Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, que é a investigação prévia. E nesta investigação, não tem nada do que o acusam. Não achamos nada. É a minha resposta. Mas eu gostaria de dizer outra coisa sobre isso. Vejo que muitas vezes na Igreja se busca os pecados de juventude, por exemplo. Abuso de menores é diferente. Mas, se uma pessoa, seja laica ou padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o Senhor perdoa, o Senhor esquece. E isso é importante para a nossa vida. Quando vamos confessar e nós dizemos que pecamos, o senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo. O que é importante é uma teologia do pecado. Tantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E este pecador foi transformado em Papa. Neste caso, nós tivemos uma rápida investigação e não encontramos nada.
Vocês veem muita coisa escrita sobre o lobby gay. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com uma carteira de identidade do Vaticano dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se vê com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay e fazer um lobby gay, porque todos os lobbys não são bons. Isso é o que é ruim. Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, pra julgá-la? O Catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas devem ser integrados na sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby, o lobby dos avaros, o lobby dos políticos, o lobby dos maçons, tantos lobbys. Esse é o pior problema.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR - Blogs - Jamil Chade - Direto da Europa - 29 de julho de 2013 - 08h00 - Internet: http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2013/07/29/entrevista-com-o-papa-francisco-quem-sou-eu-para-julgar-os-gays/

sábado, 27 de julho de 2013

17º Domingo do Tempo Comum - Ano C - HOMILIA

Evangelho: Lucas 11,1-13

11,1 Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-lhe um de seus discípulos: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 
2 Disse-lhes ele, então: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o vosso nome; venha o vosso Reino; 
3 dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento; 
4 perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos àqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação”. 
5 Em seguida, ele continuou: Se alguém de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite, e lhe disser: “Amigo, empresta-me três pães, 
6 pois um amigo meu acaba de chegar à minha casa, de uma viagem, e não tenho nada para lhe oferecer; 
7 e se ele responder lá de dentro: ‘Não me incomodes; a porta já está fechada, meus filhos e eu estamos deitados; não posso levantar-me para te dar os pães’; 
8 eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar. 
9 E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á. 
10 Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. 
11 Se um filho pedir um pão, qual o pai entre vós que lhe dará uma pedra? Se ele pedir um peixe, acaso lhe dará uma serpente? 
12 Ou se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á porventura um escorpião? 
13 Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem”. 


JOSÉ ANTONIO PAGOLA

APRENDER O PAI-NOSSO

Recitamos, tantas vezes, o Pai-nosso e, frequentemente, de maneira tão apressada e superficial, que acabamos, às vezes, por esvaziá-lo de seu sentido mais profundo.

Esquecemo-nos que esta oração nos foi presenteada por Jesus, como a oração que melhor recolhe o que ele vivia no mais íntimo de seu ser e a que melhor expressa o sentir de seus verdadeiros discípulos. 

De certo modo, ser cristão é aprender a recitar e viver o Pai-nosso. Por isso, nas primeiras comunidades cristãs, rezar o Pai-nosso era um privilégio reservado unicamente aos que se comprometiam a seguir Jesus Cristo.

Talvez, necessitemos "aprender" de novo o Pai-nosso. Fazer que essas palavras que pronunciamos tão rotineiramente, nasçam com vida nova em nós, cresçam e se enraízem em nossa existência.

Eis aqui algumas sugestões que podem ajudar-nos a compreender melhor as palavras que pronunciamos e deixar-nos penetrar pelo seu sentido.

Pai nosso que estais nos céus. Deus não é, em primeiro lugar, nosso juiz e Senhor e, muito menos, nosso rival e inimigo. É o Pai que, das profundezas da vida, escuta o clamor de seus filhos.

Ele é nosso, de todos. Não sou eu aquele que reza a Deus. Isolados ou juntos, somos nós aqueles que invocamos o Deus e Pai de todos os homens. Impossível invocá-lo sem que cresça e aumente em nós o desejo de fraternidade.

Está nos céus como lugar aberto, de vida e plenitude, para onde se dirige o nosso olhar em meio às lutas de cada dia.

Santificado seja o vosso Nome. O único nome que não é um termo vazio. O Nome do qual vivem os homens e a criação inteira. Bendito, santificado e reconhecido seja em todas as consciências e lá onde pulsa algo de vida.

Venha a nós o vosso Reino. Não pedimos para ir, o quanto antes, ao céu. Gritamos que o Reino de Deus venha, o quanto antes, à terra e se estabeleça uma ordem nova de justiça e fraternidade onde ninguém domine ninguém, mas onde o Pai seja o único Senhor de todos.

Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. Não pedimos que Deus adapte a sua vontade à nossa. Somos nós aqueles que nos abrimos à sua vontade de libertar e irmanar os seres humanos.

O pão nosso de cada dia, dai-nos hoje. Confessamos com alegria a nossa dependência de Deus e lhe pedimos o necessário para viver, sem pretender agarrar-nos ao supérfluo e desnecessário que perverte o nosso ser e nos fecha aos necessitados.

Perdoai as nossas dívidas, egoísmos e injustiças, pois estamos dispostos a estender esse perdão que recebemos de vós a todos os que nos tenham feito algum mal.

Não nos deixeis cair na tentação de esquecer vosso rosto e explorar os nossos irmãos. Preservai-nos em vosso seio de Pai e ensinai-nos a viver como irmãos.

E livrai-nos do mal. De todo mal. Do mal que cometemos cada dia e do mal do qual somos vítimas constantes. Orienta nossa vida para o Bem e a Felicidade.

TRÊS CHAMADOS DE JESUS

"E eu vos digo: pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á". É provável que Jesus tenha pronunciado estas palavras quando se movia pelas aldeias da Galileia pedindo algo para comer, buscando acolhida e batendo à porta dos vizinhos. Ele sabia aproveitar as experiências mais simples da vida para despertar a confiança de seus seguidores no Pai Bondoso de todos. 

Curiosamente, em nenhum momento nos diz o que temos de pedir ou buscar nem a qual porta temos de bater. O importante para Jesus é a atitude. Diante do Pai temos de viver como pobres que pedem o que necessitam para viver, como pessoas perdidas que buscam o caminho que não conhecem bem, como desvalidos que batem à porta de Deus.

Os três chamados de Jesus nos convidam a despertar a confiança no Pai, porém o fazem com matizes diferentes:
  • "Pedir" é a atitude própria do pobre. A Deus devemos pedir o que não podemos dar a nós mesmos: o alento, a vida, o perdão, a paz interior, a salvação.
  • "Buscar" não é somente pedir. É, além disso, dar passos para conseguir o que não está ao nosso alcance. Desse modo, temos de buscar, antes de tudo, o Reino de Deus e sua justiça: um mundo mais humano e digno para todos.
  • "Bater" é dar golpes na porta, é insistir, gritar a Deus quando o sentimos distante. 
A confiança de Jesus no Pai é absoluta. Deseja que seus seguidores não esqueçam nunca: "todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá". Jesus não diz que recebem, concretamente, aquilo que estão pedindo, que encontram o que andam buscando ou que alcançam aquilo que gritam. Sua promessa é outra: àqueles que confiam nele, Deus lhes dá; àqueles que vão até Ele, recebem "coisas boas".

Jesus não dá explicações complicadas. Propõe três exemplos que podem ser compreendidos pelos pais e mães de todos os tempos. Que pai ou mãe, quando o filho lhe pede um pão, lhe dá uma pedra redonda, como aquelas que se podem ver pelas estradas? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma daquelas cobras d'água que, às vezes, aparecem nas redes de pesca? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião desses amontoados que se veem pelas margens do lago?

Os pais não zombam de seus filhos. Não os enganam nem lhes dão algo que possa fazer-lhes mal, mas "coisas boas". Jesus tira, rapidamente, a conclusão: "quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem". Para Jesus, aquilo de melhor que podemos pedir e receber de Deus é seu Alento que sustenta e salva a nossa vida.

"Pois todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá."

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - Segunda-feira, 22 de julho de 2013 - 19h55 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

sexta-feira, 26 de julho de 2013

POLÍTICOS FALHARAM NA RESPOSTA ÀS RUAS

José Roberto de Toledo
As respostas dos políticos aos protestos de rua não satisfizeram os brasileiros. A ação mais bem avaliada, por comparação, foi a da presidente Dilma Rousseff. Mesmo assim, 46% dos entrevistados pelo Ibope desaprovam a resposta de Dilma às manifestações, e apenas 27% aprovaram. A insatisfação popular aumenta diante da reação de governadores, prefeitos, senadores e deputados, nessa ordem.

Apesar das votações de emergência feitas pelos congressistas, a Câmara dos Deputados e o Senado tiveram a resposta mais mal avaliada pela população: 56% e 55% de desaprovação, respectivamente, contra apenas 14% de pessoas que as aprovaram. Ou seja: quatro reações negativas para cada positiva.

Para a média dos governadores, a desaprovação às suas respostas foi de 48%, contra 20% de aprovação. Para prefeitos, foi 47% a 21%. Mas a média oculta diferenças grandes de Estado para Estado. Em São Paulo e Rio de Janeiro, palco das maiores manifestações, as reações dos governadores foram pior avaliadas que as dos governos de Pernambuco e Ceará, por exemplo.

A nota "vermelha" generalizada dada à reação dos governantes ajuda a explicar por que quase todos eles estão tão mal avaliados pela população. Se as manifestações de rua foram o sinal de alerta, a pesquisa Ibope/CNI é o aviso de que o pior não passou. A insatisfação continua, é ampla, geral e apartidária.

Os perdedores são muitos, se não todos os governantes. Mesmo quem aparece melhor na pesquisa, como o governador pernambucano Eduardo Campos (PSB) e seus 58% de aprovação, já desfrutou de taxas de aprovação mais altas no passado.

Não por acaso, Campos foi um dos governantes que submergiram durante a crise de representação política no País. Talvez por isso tenha perdido menos do que quem deu a cara a bater, como Dilma e os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (PMDB). 
Fonte: O Estado de S. Paulo - Política - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A4 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,analise-politicos-falharam-na-resposta-as-ruas-mostra-pesquisa-,1057410,0.htm

Lama e falta de planejamento alteram principais eventos do papa no Brasil

Fábio Grellet e Leonardo Maia


Lamaçal em que se transformou o Campus Fidei, onde seriam realizadas a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude, na zona oeste do Rio, causou a transferência dos eventos para Copacabana
Campus Fidei - Campo da Fé - Guaratiba - Rio de Janeiro
O lamaçal em que se transformou o Campus Fidei, área onde seriam realizadas a vigília e a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude em Guaratiba, na zona oeste do Rio, levou os organizadores e a prefeitura a transferir os eventos para Copacabana, bairro da zona sul que já recebeu as primeiras cerimônias da JMJ. O jornal O Estado de S. Paulo adiantou quarta-feira, 24, que a área já sofria com as chuvas e a programação poderia sofrer alterações.

A mudança obriga a prefeitura a reorganizar as estruturas de transporte, segurança e atendimento médico, e aumenta as dúvidas sobre a capacidade para organizar grandes eventos. Esse foi o terceiro contratempo enfrentado pela organização da Jornada desde que o papa chegou à cidade. 
  • Primeiro, houve um erro de trajeto, que deixou o pontífice preso em um congestionamento, na segunda-feira. 
  • No dia seguinte, uma pane no metrô e a superlotação do transporte público dificultaram o deslocamento dos peregrinos que foram à abertura oficial em Copacabana.
Por causa da mudança anunciada na quinta-feira, 25, foram descartadas duas etapas da programação: a peregrinação (uma caminhada de 13 km para chegar ao Campus Fidei) e a vigília que duraria a noite inteira, entre o sábado e o domingo. Agora, a programação será interrompida no sábado, após a Vigília de Oração com o papa Francisco (que começará às 19h30 de sábado), e retomada às 10h de domingo, quando o pontífice vai celebrar a missa de encerramento. Essas cerimônias ocorrerão no mesmo palco onde Francisco esteve na noite de quinta.

Embora a região de Guaratiba seja constantemente úmida e sujeita a alagamentos, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), não considerou um erro a escolha do local. "Não podemos avaliar este evento como os outros", disse. Ele também ressaltou não ter "problemas em admitir nossos erros (citando as falhas no trajeto do papa e no sistema de transporte)". E citou a imprevisibilidade do clima, dizendo que, neste período do ano, o principal problema da cidade costuma ser a seca.

Dom Paulo Cesar Costa, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio, admitiu que a mudança na programação frustrou o papa Francisco. "É uma dor muito grande (transferir o evento de Guaratiba), por todo o trabalho que fizemos por lá", disse. Mas, ao saber dos problemas, "o papa apoiou a mudança".
Lamaçal cobre todo o "Campo da Fé" em Guaratiba - Rio de Janeiro
Prejuízo
Dom Paulo afirmou que ainda não sabe quanto foi gasto para preparar o Campus Fidei. Guaratiba foi escolhida em 2012. Além do grande espaço livre, pesou na escolha o fato de a Igreja querer promover parte da JMJ em uma área pobre do Rio. O terreno do Campus Fidei tem 2 milhões de m² e foi cedido gratuitamente por seus donos, entre eles Jacob Barata Filho, dono de empresas de ônibus.

Em troca, os donos se beneficiaram com obras de terraplanagem e de infraestrutura feitas no entorno. Paes afirmou que o único gasto da prefeitura foi com a dragagem dos rios de Guaratiba. Os outros gastos foram do Comitê Organizador Local, disse. "Mas não vou transformar a visita do papa em um jogo de contabilidade, de ganhos econômicos."

Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A13 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,lama-e-falta-de-planejamento-alteram-principais-eventos-do-papa-no-brasil,1057349,0.htm
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ANÁLISE DE UM TÉCNICO:
Sem chuva, seriam necessários 5 dias para secar lamaçal
Prof. Francisco José Corrêa Martins - UFRRJ

Mesmo se a chuva no Rio parasse agora, seriam necessários cinco dias ininterruptos de sol e vento, nas melhores condições climáticas possíveis, para que o lamaçal formado no Campus Fidei, em Guaratiba, na zona oeste da cidade, secasse e ganhasse condições de receber fiéis.

A estimativa é de Francisco Martins, professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ). Segundo o especialista, a região de Guaratiba tem origem em um manguezal que se estendia por dezenas de quilômetros nos fundos da Baía de Sepetiba, que banha a zona oeste do Rio e outros municípios da região metropolitana. Entre 20 mil e 10 mil anos atrás, essa área de baixada era ocupada pelo mar. A redução natural do nível do mar, acelerada, no século 20, pelos aglomerados urbanos que ocuparam as áreas de aterro, tornou a área seca, mas sujeita a enchentes.

Martins explica que o solo argiloso, com lençóis freáticos muito próximos da superfície, dificulta o escoamento da água da chuva. "O solo daquela região é uma mistura de camada fina de areia com muita argila. Se a argila fica impregnada de água, torna-se impermeável e não absorve a chuva", disse.

Embora julho seja um mês menos chuvoso no Rio, a escolha de Guaratiba para o Campus Fidei pode ter sido arriscada, na visão do professor. Isso porque, para preparar adequadamente o solo a fim de receber os peregrinos, seria necessário gastar até R$ 100 milhões. Seria preciso: 
  • cobrir o solo com pelo menos 40 centímetros de brita ou 
  • instalar pranchões de metal.
  • "Sem essa preparação, era previsível que haveria problemas com a chuva", afirmou. 
Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Sexta-feira, 26 de julho de 2013 - Pg. A13 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,sem-chuva-seriam-necessarios-5-dias--para-secar-lamacal-,1057383,0.htm