«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A (IN)SEGURANÇA PÚBLICA NO ESTADO E NO PAÍS

Portal Terra


Após denúncia de apoio policial ao PCC, Alckmin reúne cúpula da Segurança
Geraldo Alckmin - governador de São Paulo
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), se reúne, na manhã desta segunda-feira, com o secretário de Segurança Pública do Estado, Fernando Grella Vieira, e a cúpula da segurança paulista para estabelecer ações com relação à denúncia feita pelo Ministério Público paulista (MP-SP) a 175 membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) e as descobertas feitas pelo Grupo Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A reunião foi agendada para as 10h de hoje. 

A investigação do MP revelou que, pelo menos desde 2011, o PCC planeja matar o governador. Em uma interceptação telefônica feita pelo MP, um dos líderes da facção, o preso Luis Henrique Fernandes, o LH, conversa com dois outros integrantes do grupo: Rodrigo Felício, o Tiquinho, e Fabiano Alves de Sousa, conhecido como Paca. 

No diálogo ocorrido na noite de 11 de agosto de 2011, Paca manda os comparsas arrumarem "uns irmãos que não são pedidos (que não são procurados pela polícia) e treinar". 

O treinamento para a ação seria para fazer um resgate de presos ou para atacar autoridades. No meio da conversa, LH diz que o tráfico de drogas mantido pelo PCC passa por dificuldades. "Depois que esse governador (Alckmin) entrou aí o bagulho ficou doido mesmo. Você sabe de tudo o que aconteceu, cara, na época que 'nois' decretou ele (governador), então, hoje em dia, secretário de Segurança Pública, secretário de Administração, comandante dos vermes (Polícia Militar), estão todos contra 'nois'." A ordem de matar o governador foi novamente mencionada por membros da facção em escutas recentes. 

MP-SP fez maior mapeamento da história do crime organizado do País
O MP paulista denunciou 175 acusados de participar do PCC após concluir o maior mapeamento da história do crime organizado no País. Além disso, a promotoria pediu à Justiça a internação de 32 presos no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) - entre eles, toda a cúpula, hoje detida em Presidente Venceslau - e a prisão preventiva de 112 dos acusados. 

As provas reunidas pelos promotores do Gaeco abrangem escutas, documentos, depoimentos de testemunhas e informações sobre apreensões de centenas de quilos de drogas e de armas. 

O grupo foi flagrado ordenando assassinatos, encomendando armas e toneladas de cocaína e maconha. Há planos de resgate de presos e de atentados contra policiais militares e autoridades. O bando faz lobby e planeja desembarcar na política.

O mapeamento mostra que o PCC está presente em 22 Estados do Brasil e em três países (Brasil, Bolívia e Paraguai), e domina 90% dos presídios de São Paulo. O faturamento é de R$ 8 milhões por mês com o tráfico de drogas e outros R$ 2 milhões com sua loteria e com as contribuições feitas por integrantes - o faturamento anual de R$ 120 milhões a colocaria entre as 1.150 maiores empresas do País, segundo o volume de vendas. 

A droga do PCC vem do Paraguai e da Bolívia. Os três principais fornecedores de drogas seriam:
  • o traficante paraguaio Carlos Antonio Caballero, o Capilo, e 
  • os brasileiros Claudio Marcos Almeida, o Django, 
  • Rodrigo Felício, o Tiquinho, e 
  • Wilson Roberto Cuba, o Rabugento. 
O bando tem um arsenal de uma centena de fuzis em uma reserva de armas e R$ 7 milhões enterrados em partes iguais em sete imóveis comprados pela facção. Ao todo, o grupo tem 6 mil integrantes atrás das grades e 1,6 mil em liberdade em São Paulo. Esse número sobe para 3.582 em outros Estados.

Em uma das interceptações telefônicas em que o chefão do PCC Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, foi flagrado, ele orgulha-se de ter abolido o crack das cadeias de São Paulo.

"Nós paramos, na prisão ninguém usa", disse para um dos subordinados, identificado pelo apelido de Magrelo. O homem condenado pelos ataques à polícia em 2006 e pelo assassinato em março de 2003 do juiz Antonio José Machado Dias, da Vara de Execuções Penais de Presidente Prudente, afirmou ainda que "hoje pra matar alguém é a maior burocracia", referindo-se às normas impostas pela facção. Por elas, quando um bandido tem alguma queixa contra outro deve se dirigir a um tribunal do PCC. Neles, o faltoso pode ser desde repreendido até morto. Mas a sentença de morte tem de ser referendada pelo "comando". "Então quer dizer, os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí eu vejo o governador chegar lá e falar que foi ele." Em outra conversa no mesmo dia, Marcola diz para Marcio Alarido Esteves, o Turim, que é necessário contratar um advogado por R$ 100 mil para defender a facção.

Durante os três anos e meio de investigação, o MPE montou o organograma da facção e obteve o "censo" do PCC, feito pelo setor da organização denominado Sintonia Geral dos Outros Estados, considerado a cúpula do grupo e que toma todas as decisões estratégicas. Por meio do censo foi possível verificar que, além de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul são os dois Estados onde a facção tem o maior número de adeptos. Segundo as apurações do MPE, o grupo paulista negociou a paz entre as três principais facções do Rio: Amigos Dos Amigos (ADA), o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando (TC). 

Fonte: TERRA - Notícias/Brasil/Polícia - 14 de Outubro de 2013 - 10h21 - Atualizado às 10h27 - Internet: http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/apos-denuncia-de-apoio-policial-ao-pcc-alckmin-reune-cupula-da-seguranca,df2edec5d17b1410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html
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PCC cogita infiltrar bandido em protestos 
depois de denúncia do MP


Portal Terra
Membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) discutem uma série de ataques caso os chefes da organização sejam transferidos para penitenciárias de São Paulo com regras mais rígidas. A descoberta foi feita por setores de inteligência das polícias do Estado, que interceptaram ordens dados a integrantes da facção que cogitam, em última instância, infiltrar bandidos nas manifestações populares em que houver vandalismo. A ideia é aproveitar o quebra-quebra promovido por adeptos da tática de protesto Black Bloc para atacar policiais. Antes disso, no entanto, o grupo cogita uma série de pequenos protestos dentro das penitenciárias, como impedir a entrada de novos presos em alas dos presídios. As informações foram publicadas no jornal Folha de S. Paulo.

As ameaças do PCC ocorrem em reação ao pedido de prisão de 175 suspeitos de integrar a facção e de transferência de 35 chefes. As solicitações foram negadas pelo Judiciário, mas o Ministério Público recorreu. Os setores de inteligência também verificaram que o grupo estuda ainda promover o ataque direto a prédios das polícias Civil e Militar, como ocorreu em maio de 2006. Na ocasião, cerca de 500 pessoas morreram na onda de violência. A infiltração nos protestos seria, no entanto, só em caso de transferência dos 35 chefes do PCC para a penitenciária de Presidente Bernardes, onde os detentos ficam sob o regime disciplinar diferenciado (RDD). Nesse sistema, o preso não recebe visita íntima, pode ficar só duas horas no banho de sol, não há aparelhos de rádio e TV e não pode ler jornais e revistas. As conversas com visitas ocorrem uma vez por semana em um parlatório, que é monitorado. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que não se manifestaria sobre informações de inteligência policial, mas que as polícias estão prontas para combater o crime organizado.

Fonte: TERRA - Notícias/Brasil/Polícia - 14 de Outubro de 2013 - 07h26 - Internet: http://noticias.terra.com.br/brasil/policia/pcc-cogita-infiltrar-bandido-em-protestos-depois-de-denuncia-do-mp,4fc90a1e366b1410VgnVCM3000009af154d0RCRD.html
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VEJA AS DIFERENÇAS ENTRE 
AS FACÇÕES CRIMINOSAS 
DE SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO

O que são e como atuam:
- o PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, 
- Comando Vermelho (RJ),
- Amigo dos Amigos (RJ) e
- Terceiro Comando Puro (RJ).

Para saber, clique aqui:

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Papa convoca um Sínodo dos Bispos extraordinário sobre a família

Religión Digital
08-10-2013
Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos em 2012
Francisco colocou em andamento a III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que ocorrerá de 5 a 19 de outubro de 2014, com o lema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”, segundo informou a Sala de Imprensa da Santa Sé.

De acordo com a imprensa italiana, o Pontífice participou pessoalmente da reunião da Secretaria do Sínodo dos Bispos, nesta segunda-feira à tarde e terça-feira pela manhã, para definir o tema da assembleia sinodal e a nova modalidade de realização.

Entre os membros do conselho da Secretaria do Sínodo estão três cardeais do G8 vaticano: o arcebispo de Bombaim (Índia), Oswald Gracias; o arcebispo de Kinshasa (República Democrática do Congo), Laurent Monsengwo, e o arcebispo de Sydney (Austrália), George Pell.

Precisamente, o Papa já abordou, na semana passada, com o Conselho de oito cardeais que o assessorarão no governo da Igreja, o novo modo de efetivação do Sínodo e o tema sobre o qual tratará, conforme informou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, o padre Federico Lombardi.

O assunto também foi tratado com o novo secretário do Sínodo dos Bispos, o arcebispo Lorenzo Baldisseri, pois sendo o Sínodo “uma prioridade”, considerou-se “urgente” começar a prepará-lo.

Segundo o que o papa Francisco adiantou, no último mês de setembro, espera-se que o tema do Sínodo também aborde a questão dos divorciados e as nulidades. Lombardi destacou a importância que o Papa dá “para a participação responsável do episcopado das diversas partes do mundo” na III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que ocorrerá com o lema “Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização”.

Lombardi apontou que “este é o modo pelo qual o Papa deseja levar adiante a reflexão e o caminho da comunidade da Igreja, com a participação responsável do episcopado das diversas partes do mundo”.

Além disso, destacou a importância de que a Igreja “se mova comunitariamente na reflexão e na oração” e defina “orientações pastorais comuns nos pontos mais importantes – como a pastoral da família – sob a condução do Papa e dos bispos”.

Nesta linha, insistiu que é necessário um caminho de plena comunhão com a comunidade eclesial para que não se proponha soluções particulares a partir das instâncias locais, algo que, segundo acrescentou, “poderia levar à confusão”.

O procedimento habitual do Sínodo prevê a realização do "Instrumentum laboris" baseado nas contribuições dos episcopados do mundo, como ocorreu no último, realizado em outubro de 2012, sobre “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”.

Tradução do Cepat.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quarta-feira, 9 de outubro de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524502-o-papa-convoca-um-sinodo-dos-bispos-extraordinario-sobre-a-familia
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Diocese de Friburgo, na Alemanha: 
sim à comunhão aos divorciados

Matteo Alviti
La Stampa
08-10-2013
Robert Zollitsch - Presidente da Conferência Episcopal Alemã

Na Alemanha, a Igreja Católica dá um passo em direção aos fiéis divorciados que optaram por se casar novamente, aos quais em breve ela irá conceder, no respeito a algumas condições, a possibilidade de receber os sacramentos e de ocupar cargos nos conselhos paroquiais. A mudança de rota vem da diocese de Friburgo, liderada pelo arcebispo Robert Zollitsch, presidente da Conferência Episcopal Alemã.

Trata-se de tornar visível a atitude humana e respeitosa de Jesus no contato com as pessoas divorciadas e com aquelas que decidiram se casar novamente em uma cerimônia civil", explicou o responsável pelo escritório para a cura de almas de Friburgo, o decano Andreas Möhrle.

"A confiança e a misericórdia de Deus também valem para aqueles cujo projeto de vida fracassou", indicou Möhrle: "Queremos oferecer um lugar aberto para as pessoas envolvidas, onde se possa ouvi-las e acompanhá-las".

A reviravolta veio através de uma carta que tem o caráter de uma diretriz válida para todo o país e que será enviada esta semana aos religiosos da diocese de Friburgo, a segunda maior em extensão da Alemanha. Não se trata de uma revolução: a indissolubilidade do matrimônio não está em discussão. Mas a porta está aberta e a mão está estendida para aqueles que, até agora, eram mantidos do lado de fora. Fora dos cargos na Igreja, longe dos sacramentos.

O novo curso chega no fim de um diálogo interno à Igreja, cerca de seis meses depois do conselho das dioceses em que se havia discutido uma revisão da atitude com relação aos fiéis em segunda união. Foi uma carta assinada por mais de 300 padres da diocese de Friburgo que abriu a questão: os religiosos, que obtiveram um grande apoio dos fiéis, pediram para mudar a disposição de fechamento da Igreja. "Eles pertencem à Igreja", dissera Zollitsch no fim de setembro, em Fulda, por ocasião do encontro da conferência episcopal.

A Igreja alemã se move, portanto, na direção indicada pelo Papa Francisco na entrevista à La Civiltà Cattolica, que Zollitsch havia definido como "um impressionante testemunho de fé".

O arcebispo de Friburgo, desde 2008 na cúpula da Conferência Episcopal Alemã, é considerado um liberal, disposto à mediação, um religioso próximo das pessoas. É conhecido pelo seu compromisso com uma aproximação entre a Igreja Católica e a Igreja Evangélica na Alemanha.

Em 2008, em uma entrevista ao jornal Spiegel, Zollitsch também havia convidado a não abordar a questão do celibato para os religiosos com uma atitude de proibição absoluta: a relação entre o sacerdócio e o celibato, dissera, não é "uma necessidade teológica".

Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Quarta-feira, 9 de outubro de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524524-friburgo-sim-a-comunhao-aos-divorciados

País não vive pleno emprego, nem há falta de mão de obra qualificada

Flávia Villela
Agência Brasil
Marcelo Neri - economista : Presidente do Ipea
O aumento da contratação de pessoas com ensino médio completo e nível superior e a queda da diferença salarial entre essas ocupações e as dos que recebem menores salários mostram que não há escassez de mão de obra qualificada no Brasil, revela boletim divulgado hoje (7) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base em dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad) - 2012.  

De acordo com o coordenador da pesquisa, Gabriel Ulyssea, a falta de mão de obra qualificada hoje é pontual, existindo em algumas ocupações apenas. Há uma expansão da oferta de trabalhadores mais qualificados e queda dos salários deles, disse Ulyssea. Então, ressaltou o coordenador da pesquisa, não há compatibilidade entre o aumento do volume (de mão de obra qualificada) e a queda de  preços (salários) desses trabalhadores.

Para o presidente do Ipea, Marcelo Neri, que também é secretário de Assuntos Estratégicos, o verdadeiro “apagão no mercado de trabalho” está nas ocupações pouco qualificadas, como trabalho doméstico, construção civil e agricultura. “O grande apagão está na base da pirâmide educacional”, disse Neri, destacando a falta desses profissionais no mercado. Ele lembrou que esses trabalhadores foram os que tiveram também os maiores aumentos salariais nos últimos anos.

A renda média, em 20 anos, aumentou 71,62% para quem tinha até três anos de escolaridade e recuou 4,84% para aqueles com 11 anos de estudo, ou mais. Os dados mostram que o país também não se encontra em situação de pleno emprego e que há espaço para expansão da oferta.

“A taxa de desemprego é muito baixa, mas a taxa de participação entre os que estão em idade produtiva e poderiam entrar no mercado de trabalho continua baixa e pode ser ampliada, especialmente entre as mulheres e os jovens entre 15 e 24 anos. Com isso, diminuiria um pouco a pressão sobre o mercado de trabalho”, disse Neri. Segundo ele, a queda da participação dos jovens no mercado ocorre desde 2009.

Entre 2009 e 2012, a taxa de participação entre as mulheres caiu 4,2%, contra 2,5% dos homens. Já entre os jovens na faixa de 15 a 24 anos, a queda foi de 5,9%. O estudo revelou também que, no mesmo período, aumentou o número de jovens nessa faixa etária fora do mercado de trabalho e da escola. Cerca de 23,2% dos jovens não estavam na escola, nem trabalhando em 1999, e esse percentual aumentou para 25,7%. Entre as mulheres esse percentual que era de 38,4% e, 1999 passou para 40,6%.

De acordo com o pesquisador, os determinantes dessa situação dos jovens (fora do mercado de trabalho e da escola) precisam ser estudados, mas é possível fazer algumas inferências. “Entre as mulheres, parece que boa parte disso está associada às questões [do período] de fecundidade, das que saem do mercado de trabalho para cuidar dos seus filhos”, destacou Ulyssea, citando também a falta de creches de qualidade como uma das motivações para que elas parem de trabalhar. O aumento da renda familiar também pode explicar que alguns membros deixem de trabalhar.

Marcelo Neri apontou como uma das soluções para esse problema investir em educação de alta qualidade e diminuir a diferença de salários entre homens e mulheres.

Segundo o estudo, embora a indústria quenha acumulado perdas de 6 pontos percentuais (de 27% para 21%) na participação do mercado de trabalho, foram quedas menos acentuadas que as registradas em países como os Estados Unidos. Além disso, a indústria brasileira perdeu espaço no emprego total, sobretudo, pela redução do emprego sem carteira nos últimos três anos.

“O emprego com carteira continuou subindo desde 2000, e o que houve foi uma retração do emprego sem carteira. São dados que ajudem a relativizar a magnitude desse processo”, disse Ulyssea.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Brasil tem o celular mais caro do mundo [Escandaloso!]

Jamil Chade


Custo na Espanha por minuto é cinco vezes menor
O Brasil tem a tarifa de chamadas de celular mais cara do mundo em termos absolutos. A constatação é da União Internacional de Telecomunicações [UIT], que hoje publica seu informe anual sobre o setor. Em termos gerais e contando também tarifas de telefonia fixa e internet, o Brasil também não tem um bom desempenho. Entre 161 países avaliados, o Brasil ocupa apenas a 93 posição.

Em média, um minuto no celular em horário de pico custaria US$ 0,71 entre chamadas pelo mesmo operador no Brasil A taxa sobe para US$ 0,74 por minuto em caso de chamadas entre operadores diferentes. Para fazer a comparação, a UIT usou a taxa média praticada em São Paulo.

O custo é três vezes o que um americano paga para falar ao celular ou Portugal, de onde vem uma parte importante dos investidores. Na Espanha, sede da Telefonica [proprietária da vivo], um cidadão paga cinco vezes menos pelo celular que no Brasil.

Em Hong Kong, um minuto no celular custa US$ 0,01 fora do horário de pico, 70 vezes menos que no Brasil.

Em comparação ao poder aquisitivo, o Brasil seria o quarto mais caro do mundo , superado apenas pela Bulgária, Malawi e Nicarágua.

No que se refere ao custo de banda larga, a situação é bastante melhor. Apenas 54 países tem taxas mais baratas que o Brasil. Nas Américas, o Brasil tem a terceira taxa mais baixa da região.

Mas, de uma forma geral, o País está distante das economias com os menores custos de telecomunicações. Numa cesta de preços incluindo toda a forma de comunicação, o Brasil aparece apenas na 93ª posição, superado por índia, Colômbia ou Peru. Em termos de telefonia fixa, o País ocupa a modesta posição de número 112 entre os mais caros.

Entre os celulares, levando em conta a renda e o PIB per capta, o Brasil é o 117 lugar, sem qualquer redução no preço entre 2011 e 2012.

O resultado é que, em termos gerais, o Brasil é apenas o 62º colocado no ranking dos países mais preparados para usar as tecnologias de informação no mundo, abaixo do Azerbaijão, Croácia, Arábia Saudita, Chile ou Líbano. O ranking é liderado por Coreia, Suécia e Islândia.

Avanço
Apesar dos custos, um número cada vez maior de brasileiros tem acesso a celulares e internet. Segundo a UIT, o Brasil atingiu em 2012 pela primeira vez a marca de ter metade da população usando a web e metade com computador em casa ao final de 2012. Em 2011, essa taxa era de 45%.

No que se refere aos usuários de banda larga, a taxa ainda é pequena, passando apenas de 8,6% para 9,2% entre 2011 e 2012. O número ainda está distante da média de 27% nos países ricos.

Os celulares, apesar do custo elevado, já ultrapassaram o número de brasileiros. Em média, existem 125 celulares por cem brasileiro, contra 119 em 2011.

O acesso ao 3G também vem crescendo de forma expressiva. Em 2012, 37% dos usuários de celulares tinha acesso à rede. Em 2011, essa taxa era de 21%. A expansão brasileiro segue uma tendência de outros países emergentes, que dobraram o volume de acesso ao 3G em apenas dois anos. Hoje, metade do mundo tem acesso à rede.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR/Blogs - Economia - 07/10/2013 - 08h01m18 - Internet: http://blogs.estadao.com.br/jamil-chade/2013/10/07/brasil-tem-o-celular-mais-caro-do-mundo/

Vestidos para matar

Jairo Bouer
Anderson Mamede e Maria Teresa Peregrino acusados de agredir e esfaquear um estudante na UNICAMP
Dois crimes que ocorreram nas últimas semanas em São Paulo chocaram não só pela violência e brutalidade, mas também pela frieza dos supostos autores. Eles reagiram como se as suas ações fossem naturais e até esperadas diante das circunstâncias.

No primeiro caso, há duas semanas, o estudante de Engenharia Dênis Papa Casagrande, de 21 anos, foi assassinado em uma festa na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas, SP]. Dênis teria ido ao banheiro quando, por motivos ainda pouco claros, foi esfaqueado por Maria Tereza Peregrino, de 20, e agredido por um grupo de jovens (entre eles Anderson Mamede, de 20 anos, namorado da garota).

O casal, que continua preso em Campinas, alega que Dênis teria tentado agarrar a moça à força e ela teria agido em legítima defesa. Os amigos do estudante contestam a versão. Em primeiro lugar, pela sua índole e comportamento. Em segundo, porque ele se recuperava de uma cirurgia no joelho, feita há um mês, e mal caminhava sozinho. Maria e o namorado fazem parte de um grupo punk e teriam ido à festa com facas.

Por que alguém que pretende ir a uma festa para se divertir leva uma faca escondida no bolso? O argumento de se defender de uma ameaça parece o mais óbvio e, também, o menos crível. Nessa situação, não seria melhor nem sair de casa? Parece já haver uma predisposição para se envolver em confusão e até um certo orgulho em estar preparado para qualquer tipo de situação.

Quem assistiu à entrevista de Anderson (disponível na internet), dada logo após o crime, se impressiona com os maneirismos, linguagem e frieza. É quase como se esfaquear e agredir fossem a única saída possível. Curioso notar que ele, que inicialmente disse ter sido esfaqueado na perna durante a briga, depois voltou atrás e assumiu que havia se ferido intencionalmente, para tentar evitar um linchamento.
Veículo pertencente a Reginaldo Ferreira da Silva envolvido num racha
No segundo caso, há uma semana, um racha em uma avenida apertada e escura da periferia de Mogi das Cruzes deixou seis jovens mortos e dois feridos. Reginaldo Ferreira da Silva, de 41 anos, depois de ter bebido duas garrafas de cerveja em uma festa, disse que foi provocado por outro motorista. Em uma via em que o limite de velocidade era de 50 km/h, ele teria acelerado a até 120 km/h, perdido o controle do carro e atropelado um grupo de jovens, que se reuniam com frequência na rua. Fugiu sem prestar socorro e foi preso no dia seguinte. O outro motorista, Paulo Henrique Batista, de 23, se apresentou à polícia na última semana, mas negou ter participado de um racha. Para Silva, no calor do momento, aceitar o desafio parece ter sido a atitude mais natural.

Guiar um carro depois de beber e se envolver em uma disputa perigosa, em alta velocidade, é assumir um grande risco. Guardadas as proporções é como ir a uma festa levando uma faca no bolso. O ponto a se pensar é por que, semana após semana, temos assistido ao que parece ser um escalonamento de violência gratuita, às custas de comportamentos sabidamente perigosos (dirigir embriagado ou carregar armas).

No Brasil de hoje, quase 3 em cada 4 mortes de jovens são provocadas por causas externas evitáveis. Homicídio em primeiro lugar, acidentes com carros e motos em seguida. É bem comum que o álcool (em geral, em excesso) esteja associado a essas duas situações. Se a bebida é uma potente alteradora da nossa capacidade de avaliar riscos e de fazer crítica, detonando explosões de violência, armas e carros são o uniforme perfeito para se usar nessas noites de selvageria.

Sem repensar essa agressividade gratuita e a forma de se relacionar com os outros, vamos ficar cada vez mais acostumados com cenas de brutalidade e com a indiferença dos criminosos. E muitos jovens que, por mero acaso, decidam ir ao banheiro ou conversam em uma esquina qualquer da cidade vão pagar com a sua vida por isso!

Fonte: O Estado de S. Paulo - Metrópole - Domingo, 6 de outubro de 2013 - Pg. A28 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,vestidos-para-matar-,1082549,0.htm

BERGOGLIO: CHOQUE DE PERIFERIA

Entrevista com Francesco Strazzari

José Maria Mayrink


O contato com os pobres foi aos poucos transformando Bergoglio e suas opções, 
diz autor de livro sobre o papa
Papa Francisco
Do papa Francisco só se deve esperar surpresas, adverte Francesco Strazzari, de 69 anos, pároco da pequena Sovizzo, localizada nas montanhas vizinhas de Vicenza, no norte da Itália. Strazzari acredita que, após a criação do Conselho de Cardeais para ajudá-lo a governar a Igreja, Francisco tomará medidas radicais e inovadoras, apesar da resistência indisfarçável de parte da Cúria Romana, "a lepra do papado", como ele afirmou numa entrevista ao jornal La Repubblica, divulgada na semana passada. Funcionários eclesiásticos do Vaticano que não reconhecem o "cheiro das ovelhas" serão devolvidos às suas dioceses de origem ou às congregações religiosas.

Francisco poderá permitir o diaconato para as mulheres e a ordenação sacerdotal de homens casados. Na visão de Strazzari, no entanto, o papa não mudará a doutrina clássica da Igreja com relação ao aborto, embora olhe com compaixão a pessoa que aborta. Autor do livro Na Argentina para Conhecer o Papa Bergoglio, a ser lançado nas próximas semanas, com apresentação do brasileiro José Oscar Beozzo, o historiador, teólogo e jornalista Strazzari trabalha na revista Il Regno, de Bolonha, pela qual correu boa parte do mundo para escrever dossiês sobre Vietnã, Laos, Camboja, China, Irã, Iraque e Líbano, além de países europeus no tempo do comunismo.

Na Argentina, chegou à conclusão de que não é possível ter uma imagem objetiva de Bergoglio sem inseri-lo no contexto do peronismo, da posição da hierarquia da Igreja no tempo da ditadura militar, da crise dos jesuítas argentinos e da situação econômica dos Kirchners. "Minha avaliação é que Bergoglio foi caminhando progressivamente, amadurecendo e fortalecendo a opção por uma Igreja dos pobres e para os pobres", afirma Strazzari em entrevista ao Aliás. As periferias, de que o papa Francisco tanto fala, o transformaram.

Quais as principais marcas desses sete primeiros meses do pontificado de Francisco?

Strazzari: Acredito que as características principais do papa argentino podem se resumir numa palavra: estilo. Se, como dizia em 1753 o escritor francês Buffon, o estilo é o homem, pode-se captar de seu estilo quem é o papa Francisco. Ele não é filósofo nem teólogo no sentido estrito, mas um pastoralista que carrega no coração a aventura humana nas suas múltiplas periferias. É um bispo da grande Igreja que tem solicitude por todas as igrejas. É um apóstolo, segundo as cartas de Paulo a Timóteo. E é um papa que enfim rompe com os esquemas tradicionais e tradicionalistas que tinham feito do ofício petrino uma função anacrônica e incapaz de respirar a plenos pulmões.

A pregação de uma Igreja pobre para os pobres está conquistando adeptos na hierarquia?

Strazzari: Pela conversa que tive com pessoas próximas dele, o papa Francisco tem duas palavras-chave: Jesus Cristo e os pobres. Tudo gira em torno dessa sua preocupação, que por sinal é a opção dos jesuítas, a partir do grande e mítico Arrupe, o superior geral dos jesuítas nos anos 1980 que enfrentou não poucas dificuldades até da parte do papa João Paulo II, que lhe impôs a destituição, perturbando toda a Companhia de Jesus. E essas duas palavras-chave remetem de imediato ao povo. Basta ver sua opção: não à residência renascentista no Palácio Pontifício. Mas não somente isso.

Mas como a Cúria Romana, "a lepra do papado", vai reagir às críticas e investidas de Francisco? Os poderosos do Vaticano tentarão barrar a ação do papa?

Strazzari: Que parte da Cúria Roma não gosta do estilo do papa Francisco salta aos olhos de todos. As resistências estão na ordem do dia. Os ataques, às vezes dissimulados, de prelados são confiados a determinados órgãos de imprensa que, nestes últimos tempos, se tornaram mais frequentes. Talvez também porque o papa Francisco dialogue e fale a jornais leigos como o La Repubblica, no qual seu fundador, Eugenio Scalfari, ateu declarado, lhe deu o espaço de três páginas em plena crise política italiana, relegando essa, por assim dizer, a segundo plano. Que muitos na Cúria pensem estar com dos dias contados é uma coisa que se diz e se constata. Há muitos "empregados" eclesiásticos no Vaticano que não sabem o que é o cheiro das ovelhas. Serão devolvidos às dioceses de origem ou às congregações e institutos religiosos.

O Conselho de Cardeais tende a ser um conselho fixo?

Strazzari: Sim, acho que um dos projetos do papa é fazer do Conselho de Cardeais (G8) uma espécie de Conselho permanente, que teve sua origem nos votos expressos dos cardeais reunidos no conclave. O papa Francisco precisa dele, neste momento, para enfrentar os muitos problemas da Igreja que se acumularam nos últimos anos. Existem outros organismos (sínodo, congregações, conselhos pontifícios, conferências episcopais) com os quais o Conselho de Cardeais deverá estar em estreito contato.

É possível prever quais serão os próximos passos desse papa tão surpreendente?

Strazzari: Do papa Francisco só se deve esperar surpresas. Chamamos de surpresas porque, no passado recente, estávamos habituados a certa monotonia.

Homens e mulheres divorciados que tornaram a casar poderão ter mais acolhida na Igreja e acesso aos sacramentos, particularmente à eucaristia?

Strazzari: Creio que o papa Francisco retomará algumas colocações de bispos, teólogos e pastoralistas que, no passado, desafiando as iras da Congregação para a Doutrina da Fé, haviam chamado atenção dos fiéis e alimentado esperanças. Refiro-me em particular ao documento dos bispos do Reno (os grandes teólogos bispos Lehmann, Kasper, Seier), que apontava um caminho corajoso, doutrinariamente correto, para enfrentar o problema. O então prefeito da Congregação, cardeal Ratzinger, estigmatizou o documento com dureza e ironia. Voltou a circular também o estudo do grande teólogo moral B. Haring, que muito sofreu da parte da Congregação romana. Estão aparecendo outras publicações que convidam a hierarquia a enfrentar o problema com carinho e misericórdia.

Pode-se esperar a ordenação de homens casados para o ministério sacerdotal?

Strazzari: Certamente sim. O problema está debaixo do tapete há muitos anos. Foi posto em evidência a partir dos anos 1980 por cardeais como Pellegrino, de Turim; Konig, de Viena; Alfrink, de Utrecht; Hume, de Londres; Lorscheider, de Fortaleza; Martini, de Milão. Para não falar de teólogos do calibre de Rahner, Congar, Schillebeeckx. Perdeu-se muito tempo discutindo sobre viri probati (homens tirados da comunidade para receber a ordenação presbiteral) e esquecendo-se, como observa o ex-mestre geral dos dominicanos Timothy Radcliffe, que o ponto de partida é o batismo, não a ordem sacra.

Uma maior participação da mulher na Igreja inclui a discussão da ordenação?

Strazzari: Com relação às sacerdotisas, muitos teólogos sérios pensam que não se trata de uma questão dogmática, mas disciplinar. Então, a exclusão (das mulheres) se baseia em elementos que não têm suporte bíblico, como, aliás, se expressou uma comissão de especialistas biblistas, nos anos 1970, da qual fazia parte o jesuíta Carlo Maria Martini. É outro o discurso para as diaconisas, a favor das quais se vão multiplicando os pedidos de reintrodução. O cardeal Kasper e parte dos bispos alemães recentemente pediram isso.

Haverá avanços com relação aos ortodoxos e evangélicos? Até que ponto?

Strazzari: Esperamos que o papa Francisco incentive o movimento ecumênico, que está vivendo um tempo de hibernação. Ele, mestre nos gestos, intervirá para encontrar-se, a dois, sobretudo com os patriarcas das Igrejas cristãs. Esperam-se e estudam-se encontros com Bartolomeu de Constantinopla e Cirilo de Moscou.

Como o papa Francisco tratará o problema do aborto?

Strazzari: O aborto é com certeza uma chaga. O papa Francisco não tem intenção de ir além do ensinamento da doutrina clássica da Igreja. Mas se compadece com a pessoa que aborta. Enfrenta o drama do aborto como pastor, não como jurista. O problema/drama do aborto, sobretudo em algumas partes do mundo, é uma chaga que vai além de um indivíduo, causada por culturas e situações de degradação. É esse o motivo pelo qual o aborto, enquanto tal, não está na ribalta. Não porque seja inegociável, mas porque está inserido em contextos mais amplos.

A pobreza inclui o combate à riqueza ou sinais de riqueza no Vaticano?

Strazzari: A pobreza da Igreja e na Igreja é um ponto-chave de Francisco. Tem dado provas disso em meio a enormes dificuldades, metendo as mãos em instituições econômico-financeiras que certamente não foram modelo de clareza. Será um trabalho duro, que em grande parte dependerá da escolha de sagazes colaboradores. A escolha do arcebispo Parolin para secretário de Estado é uma esperança.

O senhor escreveu um livro sobre Francisco chamado Na Argentina para Conhecer o Papa Bergoglio. Por que esse enfoque local?

Strazzari: Parti da ideia de que não se pode ter uma imagem objetiva do papa Bergoglio se ele não for inserido na história de seu país: o peronismo, as crises dos jesuítas argentinos, a posição da hierarquia argentina no tempo da ditadura, a situação econômica com os Kirchners. Minha avaliação é que, no curso de sua história, Bergoglio foi caminhando progressivamente, amadurecendo e fortalecendo a opção por uma Igreja dos pobres e com os pobres. Um pouco como Câmara (d. Hélder) no Brasil, Samuel Ruiz no México e Romero (Oscar) em El Salvador. No primeiro período da sua vida, como provincial dos jesuítas, não era assim, como aliás ele mesmo admitiu recentemente. As periferias o transformaram.

Fonte: O Estado de S. Paulo - Suplemento ALIÁS - Domingo, 6 de outubro de 2013 - Pg. E2 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,choque-de-periferia,1082436,0.htm

domingo, 6 de outubro de 2013

O desabafo de Francisco: "É uma vergonha!"

Giacomo Galeazzi
La Stampa
04-10-2013
Caixões com mortos no naufrágio de barco com imigrantes clandestinos próximo à ilha italiana de Lampedusa
"É uma vergonha", profere o pontífice em público a poucas horas da tragédia de Lampedusa. Depois, aos colaboradores mais próximos, o papa filho de imigrantes confidencia uma profunda amargura. "Três meses atrás, quando eu visitei a ilha, todos compartilharam a exigência de parar os massacres no mar, mas, ao invés, nada mudou".

Francisco está abalado, tem o coração cheio de dor pelo atroz naufrágio. "Vem-me a palavra vergonha: é uma vergonha!", grita no fim do discurso aos participantes do congresso pelos 50 anos da encíclica Pacem in terris. "Falando da desumana crise econômica mundial, que é um sintoma da falta de respeito pelo homem, recordo com grande dor das inúmeras vítimas de mais um trágico naufrágio ocorrido ao largo de Lampedusa".

Por isso, "rezemos a Deus por aqueles que perderam a vida: homens, mulheres, crianças, pelos familiares e por todos os refugiados". Por fim, a advertência papal às instituições: "Unamos os nossos esforços para que tais tragédias não se repitam. Somente uma decidida cooperação de todos pode ajudar a evitá-las".

Quem relançou o "J'accuse" de Bergoglio foi o arcebispo de Agrigento, Francesco Montenegro: "Chega da resignação passiva, não podemos continuar contando os mortos como se fôssemos simples testemunhas, não podemos apenas nos resignar passivamente".

Para parar o holocausto no Mediterrâneo, a Igreja pede corredores humanitários e a intervenção da União Europeia. A Conferência Episcopal Italiana, através da Fundação Migrantes, invoca uma conferência europeia: "Para não deixar uma mão livre aos traficantes de seres humanos, são necessários novos programas de acolhida e uma cooperação descentralizada".

Permanecer resignados com a repetição das mortes dos refugiados no mar é "criminoso, indigno e vergonhoso: salvem-se as vidas dos inocentes", invoca o padre jesuíta Giovanni La Manna, diretor do Centro Astalli, que Francisco visitou recentemente em Roma. "É criminosa a indiferença de quem tem responsabilidade: urgem canais humanitários seguros. Chega de mortes no mar", protesta o padre Manna.

Na "Igreja pobre para os pobres", Francisco coloca no centro do magistério a acolhida e a solidariedade em resposta à "globalização da indiferença". Diante do mais grave massacre de migrantes do pós-guerra, a galáxia católica mobiliza as suas estruturas: da Cáritas às associações de voluntariado. Mas o apelo "político" é dirigido em particular ao Parlamento pela reforma da lei Bossi-Fini.

As ACLI [Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos] se unem ao pontífice "ao pedir a intervenção da comunidade internacional para enfrentar as causas do tráfico dos seres humanos: deve-se agir tanto sobre as causas que forçam à fuga dos seus países massas de pobres, perseguidos, refugiados de guerra, quanto sobre um maior patrulhamento das costas meridionais da Europa para acabar com o tráfico de seres humanos e para evitar a repetição de tais tragédias".

Consternação, mas também raiva plena é o sentimento do padre Armando Zappolini, presidente da Coordenação Nacional das Comunidades de Acolhimento (CNCA). "Realmente não há outros modos para gerir o influxo – muito previsível – de pessoas que partem a cada ano das costas africanas para chegar ao nosso país?", lamenta.  "Optou-se por defender as fronteiras e não a vida, de levantar muros em vez de enfrentar as injustiças e acolher seres humanos. Se mudarmos a abordagem, encontraremos as soluções".

Tradução do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos - Notícias - Sábado, 5 de outubro de 2013 - Internet: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/524401-o-desabafo-de-francisco-uma-vergonha

sábado, 5 de outubro de 2013

27º Domingo do Tempo Comum - Ano C - HOMILIA

Evangelho: Lucas 17,5-10

17,5 Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé!” 
6 Disse o Senhor: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: ‘Arranca-te e transplanta-te no mar’, e ela vos obedecerá. 
7 Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: ‘Vem depressa sentar-te à mesa?’ 
8 E não lhe dirá ao contrário: ‘Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu?’ 
9 E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica-lhe o senhor devendo alguma obrigação? 
10 Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: ‘Somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer’”. 

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

ACREDITAMOS, MESMO?

Jesus lhes havia repetido em diversas ocasiões: "Quão pequena é a vossa fé!". Os discípulos não protestam. Sabem que ele tem razão. Passam bastante tempo junto dele. Percebem que ele está, totalmente, entregue ao Projeto de Deus; pensa somente em fazer o bem; vive apenas para fazer a vida de todos mais digna e mais humana. Poderão segui-lo até o final?

Segundo Lucas, num determinado momento, os discípulos dizem a Jesus: "Aumenta-nos a fé". Sentem que a sua fé é pequena e fraca. Necessitam confiar mais em Deus e crer mais em Jesus. Não o entendem muito bem, porém não discutem com ele. Fazem, justamente, o mais importante: pedir-lhe ajuda para que faça crescer a fé deles.

A crise religiosa de nossos dias  sequer respeita os cristãos praticantes. Nós falamos de crentes e não crentes como se fossem dois grupos bem definidos: uns têm fé, outros não. Na realidade, não é bem assim. No coração humano , quase sempre, tanto um crente quanto um não crente. Por isso, aqueles que chamamos de "cristãos" devem, também, se perguntar: Somos, realmente, crentes? Quem é Deus para nós? Nós o amamos? É ele quem dirige a nossa vida?

A fé pode enfraquecer-se em nós sem que jamais nos tenha atacado uma dúvida. Se não cuidamos dela, pode ir se diluindo pouco a pouco em nosso interior para ficar reduzida, simplesmente, a um costume que, por acaso, não nos atrevemos a abandonar. Distraídos por mil coisas, não mais conseguimos nos comunicar com Deus. Vivemos, praticamente, sem ele.

Que podemos fazer? Na verdade, não é preciso grandes coisas. É inútil que façamos propósitos extraordinários, pois seguramente não os cumpriremos. A primeira coisa é rezar como aquele desconhecido que, certo dia, aproximou-se de Jesus e lhe disse: "Creio, Senhor, mas vem em auxílio à minha incredulidade". É bom repeti-la com o coração simples. 

Deus nos entende. Ele desperta a nossa fé. Não devemos falar com Deus como se estivesse fora de nós. Está dentro. O melhor é fechar os olhos e ficarmos em silêncio para sentir e acolher a sua Presença. Tampouco, devemos nos entreter em pensar nele como se estivesse somente em nossa cabeça. Ele está no íntimo de nosso ser. Temos de buscá-lo em nosso coração. 

O importante é insistir até ter uma primeira experiência, ainda que seja pobre, mesmo por uns poucos instantes. Se um dia percebermos que não estamos sozinhos na vida, se captarmos que somos amados por Deus sem merecê-lo, tudo mudará. Não importa que tenhamos vivido esquecidos dele. Crer em Deus é, acima de tudo, confiar no amor que ele nos tem
ORAR A PARTIR DA DÚVIDA

No crente podem surgir dúvidas sobre um ou outro ponto da mensagem cristã. A pessoa se pergunta como deve entender uma determinada afirmação bíblica ou um aspecto concreto do dogma cristão. São questões que estão pedindo uma maior clareza.

Porém, há pessoas que experimentam uma dúvida mais radical, que afeta a totalidade. De um lado, sentem que não podem ou não devem abandonar a sua religião, porém, por outro lado, não são capazes de pronunciar, com sinceridade, esse "sim" total que implica a fé.

Aquele que se encontra desse modo costuma experimentar, geralmente, um mal-estar interior que lhe impede de abordar sua situação de modo pacífico e sereno. Pode sentir-se, também, culpado. O que me aconteceu para eu chegar a isso? Que posso fazer nestes momentos? Talvez, a primeira atitude, seja abordar de modo positivo esta situação diante de Deus. 

A dúvida nos faz experimentar que não somos capazes de "possuir" a verdade. Nenhum ser humano "possui" a verdade última de Deus. Aqui não servem as certezas que usamos em outras ordens da vida. Diante do mistério último da existência, temos de caminhar com humildade e sinceridade.

A dúvida, por outro lado, testa minha liberdade. Ninguém pode responder em meu lugar. Sou eu que me encontro enfrentando a minha própria liberdade e sou eu que tenho de pronunciar um "sim" ou um "não".

Por isso, a dúvida pode ser a melhor alavanca para nos despertar de uma fé infantil e superar um cristianismo convencional. Em primeiro lugar, não se trata de encontrar respostas às minhas interrogações concretas, mas perguntar-me que orientação quero dar para minha vida. Desejo, realmente, encontrar a verdade? Estou disposto a deixar-me interpelar pela verdade do Evangelho? Prefiro viver sem buscar verdade alguma?

A fé brota do coração sincero que se detém a escutar Deus. Como dizia o teólogo catalão Evangelista Vilanova (1927-2005), "a fé não está em nossas afirmações ou em nossas dúvidas. Está mais além: no coração... que ninguém, exceto Deus, conhece".

O importante é ver se nosso coração busca a Deus ou o evita. Apesar de todo tipo de interrogações e incertezas, se buscamos a Deus, de verdade, sempre podemos dizer a partir do fundo de nosso coração essa oração dos discípulos: "Senhor, aumenta-nos a fé". Aquele que reza assim, já é crente!

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM - Homilías de José A. Pagola - Segunda-feira, 30 de setembro de 2013 - 18h07 - Internet: http://www.musicaliturgica.com/0000009a2106d5d04.php

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

ESCOLAS VAZIAS DE AULAS E DE JUSTIÇA

Maria Clara Lucchetti Bingemer *
Professores em greve no Rio de Janeiro
Foto: Reynaldo Vasconcelos / Futura Press
Não deixa de ser algo melancólico que em pleno mês de outubro, no qual se comemora o Dia do Mestre, estejamos vivendo esse clima surreal e iníquo dos enfrentamentos entre professores e polícia nas ruas do Rio de Janeiro. E quando a violência passa a presidir os acontecimentos, a melancolia se transforma em indignação e até mesmo em raiva.

Não é por ser professora que empenho toda a minha solidariedade aos grevistas. Até porque trabalho numa universidade privada.  E aí é outra coisa. Mas o que se passa na rede pública é, no mínimo, vergonhoso para falar de maneira delicada e discreta.  Vejo Mariana, menina de doze anos, filha de Ana, que mora aqui em casa, sem aula há mais de um mês.  A mãe se preocupa.  E realmente isso não é bom.  Mas o fato de Mariana estar sem aula é apenas a ponta de um processo que se arrasta há anos, há décadas de aviltamento do salário e da carreira daqueles que deveriam ser os profissionais mais valorizados de toda a cidade, de todo o país.

Que profissão é mais importante que a de  professor? O que pode ser mais fundamental em uma sociedade do que a educação, a formação das pessoas, do que aqueles que as ajudam a ingressar na cidadania, nos direitos humanos, no amplíssimo universo do saber?  O que pode ser mais importante do que a produção e transmissão de conhecimentos?  O que faz um país senão isso? 

O professor é a chave de uma sociedade livre, democrática, politizada e autônoma. Sem educação não se pode pretender ser povo de cabeça erguida, que analisa a realidade, tira conclusões e toma decisões.  Sem educação não se constrói uma nação. 

Muitos homens públicos têm batido nesta tecla repetidamente.  Alguns já morreram, como o grande Darcy Ribeiro.  Hoje temos Cristovam Buarque que não fala nem escreve sobre outra coisa, esperando que um dia resulte.  E os mais jovens: Chico Alencar, entre outros.  Parece não adiantar.  Tudo indica que só prosperam aqui os programas eleitoreiros, dos resultados imediatos, que não visam a transformações profundas e a longo prazo.

 As crianças vão à escola e têm uma porcentagem ínfima das aulas que deveriam ter.  Algumas vão por causa da merenda, pois o  boletim, ao final do ano, está coalhado com a maldita sigla que indica o desleixo pela educação fundamental : SP ( Sem Professor).  E um professor tem que correr cidade afora com duas ou três matrículas para trabalhar em dois ou três estabelecimentos e forçosamente prejudicar a qualidade do ensino que o aluno receberá na outra ponta.

Isso é o dia a dia triste e desanimador da educação brasileira.  Mas quando a categoria vai às ruas, faz greve por melhores salários e condições de trabalho e além de não conseguir o que reivindica apanha, aí já é demais.  É simplesmente indecente ver professores com o rosto ensanguentado por haver defendido um colega contra a truculência da polícia.  Dá vontade de chorar ver professoras com anos de sacrificado e meritório magistério sendo contidas por policiais armados e protegidos por escudos. 

Talvez muitos deles, muitas delas, tenham ensinado àqueles que hoje os atacam.  Muito provavelmente, por terem estudado em escola pública, vários desses que hoje servem a um Estado injusto e violento, sentaram-se nos bancos da sala de aula onde eles e elas ensinavam.  E o conhecimento que têm e que lhes permitiu fazer um concurso público, devem a seus professores, que com todas as dificuldades, devido às péssimas condições e baixos salários, transmitiram o que era possível.

É perfeitamente compreensível desejar a manutenção de ordem nas ruas e a ausência de arruaças e quebra-quebra.  Mas mandar a PM reprimir os professores armada com spray de pimenta, gás lacrimogêneo e cassetete... sinceramente.  Não se está lidando com criminosos, senhores.  Nem com arruaceiros profissionais.  Diante de vocês estão os trabalhadores da educação que reivindicam melhores condições para poder formar as futuras gerações de brasileiros.

O plano de cargos e salários elaborado pelo prefeito da cidade foi rejeitado.  O SEPE, sindicato da categoria, declara que atende a apenas 7% da categoria. Foi justamente esse fato que desencadeou a ocupação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No sábado, dia 28 de setembro, a PM retirou à força mais de 100 professores que ocupavam o plenário, a pedido do presidente da Casa. Hoje, o plano foi posto em votação e aprovado, sem a participação dos professores.

Insatisfeitos com a ausência de participação e os resultados, os professores anunciam a manutenção da greve.  Os alunos continuam sem aula.  E o Rio continua com as escolas vazias e com uma educação de má qualidade.  Ausência de bom senso, ausência de diálogo, ausência de justiça.
Maria Clara Lucchetti Bingemer

Enquanto isso, os salários dos políticos sobem, a “evolução patrimonial” de outros atinge níveis estratosféricos.  Gastam-se milhões para fazer e desfazer estádios e enfeitar a cidade para a série de eventos que aqui tomarão lugar a partir de 2014.  E, no entanto, a educação amarga dias desanimadores e vê encurtar seus horizontes. As novas gerações não podem esperar grande coisa do futuro.  Ações extrínsecas que maquiam o rosto do país são mais importantes que uma educação séria e de qualidade a eles oferecida.  De luto por seus professores, a cidade comemora o Dia do Mestre em profunda tristeza.  Oxalá os responsáveis abram os olhos e vejam para onde estão conduzindo o futuro da nação, o amanhã de suas crianças.

* É teóloga e professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Autora, entre outros, do livro: “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

Fonte: Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br

Vamos ter de esperar por racionamentos?

Washington Novaes
Jornalista
Nordeste brasileiro: a maior seca dos últimos 50 anos
É cada vez mais frequente na sociedade a sensação de que as instituições das áreas de políticas públicas (Executivo e Legislativo - no Judiciário os problemas têm outros formatos) parecem sempre mais distantes da formulação de macropolíticas e projetos capazes de resolver nossos gravíssimos problemas sociais. Suas decisões ou são muito limitadas na abrangência ou atendem a interesses específicos dos formuladores e dos que os apoiam - não da sociedade nem da solução de graves carências que a afligem.

Ainda há poucos dias (28/9) este jornal publicou em várias páginas as gravíssimas consequências das alterações no clima do planeta enumeradas no novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, da ONU) e endossadas pela quase totalidade dos cientistas. Que consequências ou desdobramentos isso está tendo em nossas políticas internas? Que urgência está sendo dada às recomendações do IPCC, embora seu secretário-geral, Rajendra Pachauri, tenha dito que o mundo está "a cinco minutos da meia-noite"?

Não que nos faltem, internamente, informações capazes de fundamentar políticas adequadas. Ainda há poucas semanas, o próprio relatório de 345 cientistas do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas - no qual o governo federal está representado - afirmou que: 
  • a temperatura no nosso Semiárido (que já passa pela maior seca em 50 anos) poderá aumentar de 3 a 4,5 graus Celsius até o fim do século, com de 40% a 50% menos de chuvas; 
  • na Amazônia poderão ser 6 graus mais; 
  • na Mata Atlântica do Sudeste poderá haver 30% mais de chuvas, 
  • no Cerrado, 40% menos. 
Vamos mudar algo? Estudo de grupo interdisciplinar de 26 pesquisadores da Unicamp alerta (1.º/10) que, ao contrário, a expansão da cana-de-açúcar no Centro-Oeste, em razão de vantagens econômicas de curto prazo, esconde problemas sociais e ambientais que "tendem a se agravar por causa de mudanças climáticas". A necessidade de irrigação intensa, principalmente, está levando a conflitos pelo uso de recursos hídricos cada vez mais escassos - quando o conveniente seria criar variedades mais resistentes às condições locais. Enquanto isso, as administrações públicas "parecem fascinadas demais pela riqueza fácil" trazida pela cultura.

Nessa área dos recursos hídricos, não é preciso trazer de novo os dramas do saneamento:
  • com quase 90 milhões de pessoas no País sem ligação de suas casas a redes de esgotos, 
  • quase 15 milhões sem receber água tratada 
  • e com todas as nossas bacias hidrográficas, da Bahia ao Sul, em "situação crítica", segundo a Agência Nacional de Águas, por causa do despejo de esgotos sem tratamento.
Mas não é só aqui. Na recente 23.ª Semana Mundial da Água, em Estocolmo, lembrou-se (2/9) que as insuficiências no abastecimento de água provocam 5 mil mortes diárias no mundo, quase 2 milhões por ano. Reunidos no seminário Water in the Anthropocene, em Bonn, 350 cientistas asseguraram (New Scientist, 1.º/6) que "em apenas uma ou duas gerações a maioria da população da Terra sofrerá com a falta de água de boa qualidade". Mais de metade dos rios e córregos dos Estados Unidos, diz a Agência de Proteção Ambiental desse país (16/4), já tem problemas graves de contaminação dos peixes, contaminação por bactérias fecais e nutrientes contidos em fertilizantes, que fazem proliferar algas, poluem com fósforo e nitratos. A cada ano, diz o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) que 100 milhões de toneladas de nitrogênio usadas nas lavouras chegam aos oceanos. O respeitado Thomas Friedman (The New York Times) contou neste jornal (Estado, 10/5) que ao visitar o Iêmen encontrou uma cidade na região de montanhas (Taiz) onde as pessoas só podem usar as torneiras de suas casas por 36 horas a cada 30 dias, no restante do tempo têm de pagar por água transportada em caminhões que a comercializam.
A gravidade progressiva dos conflitos por água já está à vista. O volume de água necessário para produzir energia dobrará no mundo em 15 anos, segundo a Agência Internacional de Energia (O Globo, 31/3). Enquanto isso, já chegamos à perda de 50% das áreas úmidas no planeta, com o avanço da exploração agropecuária, industrial e urbana. E ainda precisaríamos aumentar o consumo de água para irrigação, de 70% do total atual para 90%, com o aumento da população. Como? No Fórum Mundial da Água, em junho, em Foz do Iguaçu, o brasileiro Benedito Braga, seu presidente, enfatizou que o Nordeste do Brasil "já precisa armazenar água". E foi ao ponto central abordado no início deste texto: "Soluções técnicas nós temos; mas a questão é política; e necessita de recursos financeiros".

Enquanto não chegamos às macropolíticas e à conjugação de projetos, vamos com ações isoladas. São Paulo lança pacote de barragens e diques urbanos, mas continuamos com centenas de milhares de pessoas morando em áreas de preservação obrigatória às margens de reservatórios para abastecimento. Enquanto se vai buscar mais água a dezenas de quilômetros de distância e a custos altíssimos, outras tantas pessoas vivem em áreas de risco, sujeitas a deslizamentos, desmoronamentos. Não se consegue evitar que dezenas de afluentes do Tietê, sepultados sob o asfalto, levem para o rio mais lixo e sedimentos; e ele tem mais de cem quilômetros de suas águas sob um mar de espuma, que o transforma no rio mais poluído do País, embora a nascente, em Salesópolis, continue a fornecer água potável (Estado, 22/9).

Aonde teremos de chegar? Todos os dias discutimos o crescimento ou recuo do produto interno bruto, o avanço ou decréscimo da dívida pública, o progresso ou retrocesso deste ou daquele setor econômico, mais ou menos empregos - mas sem discutir o que está na base física de tudo: os recursos naturais (que não são infinitos). Será preciso enfrentarmos racionamentos, penúrias? Não teremos competência para formular políticas adequadas?

Fonte: O Estado de S. Paulo - Espaço aberto - Sexta-feira, 4 de outubro de 2013 - Pg. A2 - Internet: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,vamos-ter-de-esperar-por-racionamentos-,1081888,0.htm