«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O QUE A POPULAÇÃO, DE FATO, ESTÁ QUERENDO?

Cobrança acima das classes
 
ROLDÃO ARRUDA
 
Ricos ou pobres tem o mesmo discurso para saúde, transporte ou segurança
Estação de metrô, em São Paulo, na hora de pico

Existe uma diferença enorme entre as expectativas políticas e administrativas de um eleitor de baixa renda e outro mais rico em relação ao próximo governo. Quando se pergunta a um e outro, por exemplo, se os gastos sociais devem ser ampliados, o número de respostas positivas entre os pobres é quase cinco vezes maior do que o registrado entre os entrevistados de renda mais alta, segundo a mais recente pesquisa Ibope/CNI. Essa disparidade se estende a várias outros temas, como geração de emprego, salário mínimo, habitação popular. Em algumas áreas, porém, há uma expressiva convergência de interesses. A mais nítida é a da saúde. Das regiões mais pobres do País às mais ricas, as pesquisas apontam uma crescente preocupação da população com o tema.
 
Outro assunto que causa preocupação em todos os níveis, embora com índices menos significativos, é o da segurança pública. Em São Paulo, os eleitores dão hoje mais atenção à questão da segurança do que à educação, segundo outra pesquisa do Ibope, contratada pela Rede Nossa São Paulo.

No conjunto das expectativas e preocupações dos cidadãos, o trânsito e o transporte coletivo não aparecem com tanto destaque e de forma tão nivelada nas diferentes camadas de renda. Quando se aborda o tema de maneira mais específica, porém, com perguntas aos pesquisados sobre formas de solucionar os problemas, observa-se novamente a convergência de opiniões.

A mesma pesquisa Ibope/Rede Nossa São Paulo mostrou, por exemplo, que 70% dos paulistanos consideram o trânsito ruim. E quando se pergunta a eles o que pode ser feito para melhorar a circulação, 64% pedem mais investimento em transporte público - e 90% apoiam a criação de faixas exclusivas para ônibus.

Marcos Bicalho - ANTP
Mudança de percepção
 
Na avaliação de Marcos Bicalho, consultor em planejamento de transporte e assessor da Associação Nacional de Transportes Públicos, a preocupação das pessoas em relação ao transporte está relacionada a dois fatores:

  • De um lado existe uma enorme insatisfação com o sistema em vigor.
  • De outro, já se começa a perceber que as soluções encontradas até agora não funcionam mais. É um momento de mudança e de insegurança.
“O sofrimento causado pelo trânsito e pelo transporte público, com perdas de horas e horas, desconforto e custo elevado, mesmo com ubsídios para as tarifas, afeta todos os moradores há muito tempo”, observa. “A diferença é que só recentemente se começou a discutir a prioridade nos investimentos. Não se trata necessariamente de destinar mais dinheiro, mas de definir onde aplicá-lo. Quando o cidadão discute se deve haver ou não faixas exclusivas para ônibus ou bicicleta, está falando claramente em privilegiar um tipo de usuário da via pública em detrimento de outro.”

Bicalho acredita que o número de pessoas dispostas a deixar o carro em casa e usar coletivos ou bicicletas é menor do que os que declaram apoiar faixas exclusivas, mas ele vê no resultado das pesquisas um emblemático início de mudança de foco.

Até recentemente, segundo o especialista, os moradores das metrópoles viam o metrô como uma espécie de solução mágica para o problema: melhoraria a circulação, sem entrar em conflito com os carros e os ônibus. “Aos poucos estão percebendo, porém, que isso não acontecerá, porque o custo do metrô é altíssimo. Diante disso vamos ter que discutir cada vez mais como compartilhar o espaço público disponível.”

Guaracy Mingardi - cientista político
Distorção
 
Na área da segurança, os eleitores têm uma visão mais distorcida dos problemas e das soluções, na avaliação do cientista político Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública. “O debate eleitoral nem sempre ajuda. A maioria das pessoas tem uma noção mais ou menos imprecisa do que fazem a União, o Estado e a Prefeitura. E sempre acham que a União, por ser a instituição que tem mais poder, é quem deve resolver tudo. O cidadão quer a Polícia Federal e o Exército na rua da sua casa, para se sentir seguro”, observa.

Embora ache que a União precisa participar de maneira mais ativa das questões de segurança, vigiando melhor as fronteiras, por exemplo, Mingardi afirma que a solução pode estar mais próxima do que o eleitor imagina. “Está sendo debatida no Congresso uma legislação que, se vingar, pode valorizar o papel da Guarda Municipal, o que é muito bom. Para o policiamento comunitário, o controle do trânsito e outras atividades urbanas, a Guarda Municipal é melhor que a Polícia Militar. As pessoas vão perceber com o tempo que não precisam de uma marreta para matar uma formiga.”

Gonzalo Vecina Neto - USP/Hospital Sírio-Libanês
Modelo atrasado

Na questão da saúde, que paira ano após ano no topo das preocupações do eleitorado, um aspecto que chama a atenção dos especialistas é o fato de ter dimensões semelhantes tanto para quem utiliza o sistema público, o chamado Sistema Único de Saúde (SUS), quanto para os cidadãos que recorrem a convênios médicos. Na avaliação do médico Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e superintendente do Hospital Sírio-Libanês, isso ocorre porque os dois sistemas utilizam modelos de atendimento ultrapassados.

“Há um estado geral de perplexidade”, diz Vecina. “Isso se deve, em grande parte, a mudanças que ocorreram no País e que não foram acompanhadas pelo setor público e a iniciativa privada. Nos últimos 30 anos, o número de doenças infectocontagiosas diminuiu em todo o País. As campanhas de vacinação deram certo, o acesso à água tratada aumentou, a taxa de natalidade caiu, a população envelheceu. Nesse meio tempo, doenças que não apareciam como causa importante de mortalidade começaram a se destacar.”

Segundo Vecina, hoje no Brasil 60% da mortalidade é representada por dois grupos de doenças:

  • 35% de cardiovasculares,
  • 25% de câncer.
“Apesar dessa mudança, na qual as doenças crônico-degenerativas ganharam importância, o modelo de atendimento não mudou. Daí a insegurança. Enquanto você atende a uma infecção com duas ou três consultas, a doença crônica degenerativa é pelo resto da vida.”

Nesse novo cenário, o País precisa aumentar o número de médicos, alterar a formação nas escolas e mudar todo o sistema de atendimento, segundo Vecina.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Desafios Eleição 2014 / Serviços – Segunda-feira, 29 de setembro de 2014 – Pg. H3 – Internet: clique aqui.

A insatisfação é geral

 LISANDRA PARAGUASSU E ANGELA LACERDA
 
Membros de diversas classes sociais reclamam dos mesmos serviços públicos fornecidos pelo Estado

Filas longas para atendimento hospitalar pelo SUS
Servidor aposentado, morador do Plano Piloto, região de classe alta de Brasília, Rogério Bastos vive aflito com a precariedade dos transportes da cidade. Como dono de carro, sofre com os congestionamentos. Como empresário, tem prejuízos porque os ônibus vivem dando problema, seus funcionários não aparecem e ele tem prejuízo. “Nunca usei ônibus em Brasília, mas é claro que os problemas me afetam”, resume. “Se o transporte público tivesse qualidade, não estariam todos querendo ter carro particular”.

Um empresário defender bom transporte público - uma causa em comum com seus funcionários - é um comportamento mais frequente em novos tempos nos quais, dada a extensão dos problemas, uma reivindicação por melhores serviços torna-se geral. Na saúde, essa convergência aproxima a classe média - que sempre buscou bons planos de saúde -, da classe C, que passou a sonhar com esses planos, a conhecê-los e desejar menor dependência do serviço público. No caso do empresário Bastos, ele discorda também dos estímulos que o governo dá à indústria automobilística. “Não ajuda o governo ficar dando incentivo, redução de impostos”.

“Falta tudo”

Aos 80 anos, o office-boy Luiz Soares da Silva, também de Brasília, sofre na pele o que Bastos analisa. Ele tem passe livre, mas sobram razões para queixas. “É muito ruim. A qualidade dos ônibus até melhorou, mas não se respeita horário, faltam linhas e ônibus. No entorno falta tudo, tem ônibus que dá vergonha de ver”. Se ele tivesse de pagar, gastaria R$ 10 por dia.

Em situação parecida, mas pagando, a brasiliense Gabriela Nascimento, 18 anos, chega quase sempre atrasada na escola, sem almoçar, e aguarda longo tempo em pontos onde só passa um ônibus por hora. “E quando vem, está lotado”, queixa-se ela. Tanto a estudante quanto o office-boy assistem sem esperanças à campanha eleitoral sem acreditar que um próximo governador traga soluções. “Eles falam muito, mas nunca se resolve”, diz Gabriela. “Cada um quer fazer tudo novo, não continua o que o outro estava fazendo.”

No Recife

A doméstica da Julia Damiana da Conceição e o inspetor de polícia Augusto Santana, moradores de Olinda, Pernambuco, também são exemplos de que a precariedade dos serviços leva pessoas de diferentes níveis de renda a discursos parecidos. Julia, de 47 anos, foi três vezes deixada na mão pelo sistema de saúde. Na primeira, passou por quatro emergências em busca de atendimento para a filha de 14 anos, picada três vezes por um escorpião. Há dois anos, Julia teve trombose e não conseguiu atendimento. Hoje, recorre ao SUS para resolver um problema de visão do filho de 9 anos. “Posso dizer que tenho sorte, pois conheço uma funcionária que coloca meu nome na lista”, diz.

Em 1988, o inspetor Augusto, já com 78 anos, teve uma experiência inviável a alguém de renda mais modesta: reuniu-se a um grupo de 40 profissionais em um plano de saúde privado. Foi uma promoção. Por bom tempo as famílias receberam um bom serviço - mas, quatro anos atrás, a empresa foi comprada. Sofrendo hoje de Alzheimer, ele é ajudado pela mulher, Maria Nicácia Lopes. “Já disseram que o nosso custo é muito alto, dá prejuízo, e querem aumentar em 70% o preço do plano”, diz Maria Nicácia. A saúde, por outros caminhos, é também um problema sem saída para os dois.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Desafios Eleição 2014 / Serviços – Segunda-feira, 29 de setembro de 2014 – Pg. H3 – Internet: clique aqui.

Rede social ELLO desafia Facebook

Lígia Aguilhar
Para participar da rede é preciso ter convite
 
 Uma semana antes do Orkut encerrar suas atividades em definitivo no Brasil, uma nova rede social começa a fazer barulho em todo o mundo. A Ello é uma rede social livre de anúncios e que se apresenta por meio de um manifesto no qual garante que se manterá sem anunciantes e métricas. “Acreditamos que redes sociais podem ser uma ferramenta de empoderamento. Não uma ferramenta para enganar, coagir e manipular – um lugar para conectar, criar e celebrar a vida. Você não é um produto”, diz trecho do texto do manifesto.

Além do posicionamento anti-Facebook, a Ello está gerando curiosidade e interesse por outra característica: a rede só aceita convidados. Bem-vindo ao Orkut de anos atrás! A disputa está grande. As redes sociais já estão lotadas de pessoas pedindo convites para a Ello e tem até quem esteja vendendo convites no eBay.

 
Como funciona?

 
A Ello foi lançada em março por um grupo de artistas e designers que inicialmente desenvolveu o sistema para uso próprio, mas depois decidiu expandir o sistema para mais usuários. “Éramos um grupo de amigos de saco cheio de outras redes sociais, exaustos e geralmente cansados da publicidade, desordem e de nos sentir manipulados e enganados por empresas que claramente não têm os nossos interesses por definição”, explicou o cofundador da rede, Paul Budnitz, ao site Motherboard.

 
A interface do site é clean. Do lado esquerdo, mostra a lista de amigos, e do direito, o que eles estão postando.

 
Dá para organizar os amigos em listas, postar mensagens, adicionar fotos e links. Quem já está na rede tem o poder de enviar convites para outras pessoas entrarem no site. Para os demais mortais, resta o cadastro no site e aguardar a liberação por novos convites.

 
Segundo o TechCrunch, o site recebeu um investimento-anjo de US$ 400 mil do fundo FreshTracks Capital para entrar no ar.


Site tem interface clean



Anti-Facebook

A Ello não é a primeira rede criada para confrontar o Facebook, mas está conseguindo atrair uma atenção incomum em relação aos seus concorrentes indies. “Nós criamos a rede especificamente pensando em pessoas criativas, pessoas que valorizam conteúdo, com bastante discussão e diálogo acontecendo ao redor do conteúdo”, disse Budnitz, na entrevista ao Motherboard. Outro motivo para a migração seria a insatisfação da comunidade LGBT pela obrigatoriedade de usar nomes verdadeiros no Facebook.

Difícil prever se o crescimento da rede continuará exponencial e chegará de fato a ameaçar o Facebook. Uma pesquisa da Universidade de Princeton, nos EUA, divulgada no início do ano, apontou que a rede social de Mark Zuckerberg [Facebook] irá perder 80% do seu público ao longo dos próximos três anos. O motivo seria o cansaço dos usuários, que tendem a perder interesse e migrar para outras redes.  ”Facebook e Tumblr não são redes sociais – são plataformas de anúncios. A missão deles é vender anúncios”, diz Budnitz.

O próprio Facebook começou sem anúncios, mas o mundo das startups exige um modelo de negócio e a alternativa para plataformas sociais tem sido a propaganda. Diante disso, como a Ello pretende se manter para sempre sem anúncios, como prega em seu manifesto?

A resposta está em FAQ no próprio site, no qual os criadores dizem que planejam lançar recursos especiais pelos quais as pessoas poderão pagar. O bom e velho modelo freemium adotado por muitos aplicativos, no qual o acesso é gratuito, mas algumas ferramentas de uso são pagas.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – link – Sexta-feira, 26 de setembro de 2014 – 18h38 – Internet: clique aqui.

 

E A ECONOMIA, COMO VAI?

Banco Central prevê País encalhado

Editorial

O Banco Central (BC) cortou de 1,6% para menos da metade,
0,7%, o crescimento econômico projetado para este ano –
um fecho nada triunfal para quatro anos de mandato da presidente Dilma Rousseff.
Alexandre Tombini - Presidente do Banco Central do Brasil

[Produção brasileira em queda]
O número aparece no relatório trimestral de inflação publicado ontem. Com um dos piores desempenhos do mundo, o Brasil terá acumulado a partir de 2011 uma expansão de apenas 6% em seu Produto Interno Bruto (PIB). A média anual de variação será pouco inferior a 1,5%, se confirmada a taxa de 0,7% calculada para 2014. Mas, com qualquer dos números previstos para este ano pelas várias fontes especializadas, a economia brasileira confirmará a posição de retardatária na corrida global do crescimento. Há duas semanas, o Ministério do Planejamento reduziu de 1,8% para 0,9% sua previsão. A nova estimativa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) está em 0,6%. A mediana das estimativas do mercado financeiro caiu para 0,29%, segundo a última pesquisa Focus do BC.

[Redução de investimentos em todos os setores]
Mesmo com algum impulso adicional, o avanço da economia continuará muito lento, de acordo com o relatório trimestral. O avanço ficará em apenas 1,2% nos quatro trimestres até junho do próximo ano. Além disso, o potencial de crescimento permanecerá muito baixo e, provavelmente, ainda em declínio. A expansão do produto, como nos últimos anos, será puxada principalmente pelo consumo, tanto das famílias quanto do governo. O BC estima para este ano uma redução de 6,5% na formação bruta de capital fixo, isto é, no investimento em máquinas, equipamentos, construções diversas e obras de infraestrutura. Nos 12 meses terminados em junho de 2015, a queda ainda será de 2,4% em relação ao período anterior.

A produção da indústria deve ser neste ano 1,6% menor que em 2013, segundo a projeção. Os segmentos extrativo mineral e de produção e distribuição de eletricidade, gás e água fecharão o ano com resultados positivos, mas a indústria de transformação continuará em queda, com redução de 3,3% no valor produzido. Para o segmento da construção civil, o recuo estimado é de 5,1% - mais uma indicação do fracasso dos programas de investimento. O investimento continua na vizinhança de 18% do PIB, provavelmente pouco abaixo, e muito longe da meta de 24% anunciada há anos e repetida muitas vezes pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sem investir mais em meios de produção, o Brasil continuará incapaz de acompanhar os emergentes - e até países avançados, como os Estados Unidos - no caminho do crescimento.

[Menos empregos criados]
Nem o discurso oficial sobre a criação de empregos é imune aos dados e análises do BC. Nos 12 meses terminados em abril, a redução da taxa de desemprego resultou, segundo o relatório, do recuo da taxa de atividade, isto é, da proporção entre as pessoas em atividade e a população em idade ativa. Não houve aumento da taxa de ocupação, isto é, da proporção de empregados, mas simplesmente uma diminuição porcentual das pessoas no mercado de trabalho. Dados oficiais, divulgados tanto pelo IBGE quanto pelo Ministério do Trabalho, têm mostrado menor dinamismo da economia na criação de empregos. Se o desemprego ao mesmo tempo diminuiu, foi porque a procura por trabalho também recuou.

[Inflação elevada – renda do trabalhador sendo consumida]
Mas, apesar da economia desaquecida, a inflação continua elevada e assim continuará por um bom tempo. O BC reduziu de 6,4% para 6,3% a projeção de aumento de preços para este ano - uma taxa ainda muito alta e muito distante da meta, de 4,5%. Pelas novas estimativas, o aumento do IPCA, o índice oficial, ficará em 5,8% em 2015 e em 5% nos 12 meses até o terceiro trimestre de 2016. Esse é o horizonte de projeção da política monetária. Dentro de dois anos, a inflação, portanto, estará apenas - para usar o jargão oficial - convergindo para a meta, mas os técnicos do BC ainda se abstêm de dizer quando a meta será atingida.

A candidata Dilma Rousseff continua prometendo manter, se reeleita, as grandes linhas da atual política econômica. Para essa eventualidade, parece fácil, portanto, prever mais alguns anos de inflação elevada e de baixo crescimento.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Terça-feira, 30 de setembro de 2014 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.


Com déficit primário de R$ 14,5 bi em agosto, contas públicas batem recordes negativos

CÉLIA FROUFE E VICTOR MARTINS

Déficit de agosto foi o maior para o mês na história, o maior desde dezembro de 2008 e fez com que pela 1ª vez houvesse quatro meses seguidos de saldo negativo; o déficit no ano e o porcentual em relação ao PIB também foram os piores da história

Com a divulgação das contas do setor público consolidado (Governo Central, Estados, municípios e estatais, com exceção da Petrobrás e Eletrobras) em agosto, o governo bateu vários recordes negativos. Segundo o Banco Central, em agosto houve déficit primário de R$ 14,460 bilhões, o maior saldo negativo desde dezembro de 2008, quando ficou negativo em R$ 20,951 bilhões, e também o pior para o mês da série histórica, iniciada em dezembro de 2001. Esta também é a primeira vez que o BC registra déficit no resultado do setor público por quatro meses consecutivos.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Tulio Maciel, destacou que o superávit primário [1], de R$ 10,2 bilhões no acumulado dos oito primeiros meses do ano foi o pior da série.

Em 12 meses, as contas do setor público consolidado acumulam um superávit primário de R$ 47,498 bilhões até agosto, o equivalente a 0,94% do Produto Interno Bruto (PIB). Maciel disse que o resultado é o pior para o período como proporção do PIB. Segundo os dados do BC, o indicador recuou de 1,23% em julho para 0,94% no mês passado, na quarta queda consecutiva dessa proporção. O superávit em 12 meses está abaixo da meta de 1,9% do PIB definida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Ontem, o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton, reconheceu que há o risco de a política fiscal se tornar expansionista este ano, apesar de ter mantido no Relatório Trimestral de Inflação que as projeções de inflação contemplam um cenário de neutralidade. "O que estou reconhecendo é que nós trabalhamos com a hipótese de neutralidade para a política fiscal este ano. Estou afirmando que as evidências apontam que essa hipótese não se confirmará", argumentou ontem.

Em julho, o resultado havia sido negativo em R$ 4,715 bilhões. Em agosto do ano passado, houve déficit de R$ 432 milhões. O resultado primário consolidado de agosto ficou pior do que as estimativas dos analistas do mercado financeiro ouvidos pela Agência Estado, que iam de um déficit de R$ 12,4 bilhões a um superávit de R$ 4 bilhões, com mediana negativa de R$ 5 bilhões.

Setores

O esforço fiscal do mês passado foi composto por um déficit de R$ 11,951 bilhões do Governo Central (Tesouro, Banco Central e INSS). Os governos regionais (Estados e municípios) influenciaram o resultado negativamente com R$ 2,337 bilhões no mês. Enquanto os Estados registraram um déficit de R$ 2,475 bilhões, os municípios tiveram superávit de R$ 139 milhões. Já as empresas estatais registraram déficit primário de R$ 173 milhões.

No ano, a colaboração dos governos regionais foi determinante para o saldo, com um resultado positivo de R$ 9,121 bilhões. Apesar disso, Maciel destacou que o saldo desses governos também é o menor para o acumulado do ano na série.

O esforço fiscal nos 12 meses encerrados em agosto foi feito com a ajuda de um superávit de R$ 39,373 bilhões do Governo Central (0,78% do PIB). Os governos regionais (Estados e municípios) apresentaram um superávit de R$ 8,683 bilhões (0,17% do PIB). Enquanto os Estados registraram um superávit de R$ 3,994 bilhões, os municípios alcançaram um saldo positivo de R$ 4,690 bilhões. As empresas estatais, no entanto, registraram um resultado negativo de R$ 559 milhões no período.

Juro

O setor público consolidado gastou R$ 17,016 bilhões com pagamento de juros em agosto. Houve redução em relação ao gasto de R$ 27,996 bilhões registrado em julho deste ano e também ante os R$ 21,871 bilhões vistos em agosto do ano passado.

Maciel observou que apesar do déficit primário alto, os dados fiscais também têm notícias boas. As despesas com juros, segundo ele, tiveram redução significativa. Como proporção do PIB, a despesa de juros no ano atingiu 4,93% do PIB, o melhor desde julho de 2013.

O Governo Central (Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central) teve no mês passado um gasto com juros de R$ 16,581 bilhões. Já os governos regionais registraram despesa com esta conta de R$ 150 milhões, e as empresas estatais tiveram gastos de R$ 286 milhões.

No acumulado dos oito primeiros meses do ano, o gasto com juros do setor público consolidado somou R$ 165,259 bilhões, o equivalente a 4,93% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período do ano passado, o gasto com juros foi de R$ 163,358 bilhões ou 5,18% do PIB. Já nos últimos 12 meses encerrados em agosto, a despesa chegou a R$ 250,757 bilhões ou 4,97% do PIB.

Esforço para poupar

O esforço fiscal do setor público caiu 81,11% nos primeiros oito meses deste ano em relação a igual período de 2013. As contas do setor público acumulam no período um superávit primário de R$ 10,205 bilhões o equivalente a 0,30% do PIB.

No mesmo período do ano passado, o superávit primário estava maior, em R$ 54,013 bilhões ou 1,71% do PIB. O resultado verificado este ano até agora é o pior desde 2002. A série histórica do BC para esse indicador teve início em dezembro de 2001.

O esforço fiscal no acumulado deste ano foi feito com a ajuda de um superávit de
R$ 1,524 bilhões do Governo Central (0,05% do PIB). Os governos regionais Estados e municípios) apresentaram um saldo positivo de R$9,121 bilhões (0,27% do PIB).

Enquanto os Estados registraram superávit de R$ 5,286 bilhões, os municípios
alcançaram um resultado positivo de R$ 3,835 bilhões. As empresas estatais registraram um déficit de R$ 440 milhões entre janeiro e agosto deste ano (0,01% do PIB).

N O T A :
[1] - É o dinheiro que “sobra” nas contas do governo depois de pagar as despesas, exceto juros da dívida pública. Por isso ele é conhecido como a economia para pagar os juros. Para compreender, ainda, melhor: clique aqui.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Economia – 30/09/2014 – 11h19 – Internet: clique aqui.

OLHANDO POR OUTRO LADO...

Dilma, Bolsa e o aparelho excretor

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

A Bovespa [Bolsa de Valores de S. Paulo] derreteu nesta segunda-feira [ontem: 29/09/2014] por dois motivos:
1º) a expectativa da “bala de prata” contra Dilma Rousseff (PT) que fez o mercado subir na sexta mostrou-se um traque;
2º) a desvalorização da esperança de agentes do mercado na candidatura de Marina Silva (PSB), após o Datafolha de sexta-feira mostrá-la quatro pontos atrás da petista na simulação de segundo turno.

Isso não quer dizer que a Bolsa não possa voltar a subir se as pesquisas desta terça-feira, do Ibope e do Datafolha, mostrarem uma diferença menor a separar Dilma de Marina no segundo turno. O mercado é antes de tudo bipolar. Alterna humores com a velocidade e regularidade de um pisca-pisca.

[1º Motivo:]
A “bala de prata” seria uma denúncia bombástica, uma gravação incriminadora, uma prova irrefutável que ligasse a corrupção na Petrobras à presidente. O que saiu era tão frágil que virou uma antinotícia – a percepção de que a tal “bala de prata” é tão real quanto o lobisomem. Logo, metade da queda da segunda-feira foi para compensar a alta infundada da sexta-feira.

[2º Motivo:]
A outra metade da baixa desta segunda foi provocada por um choque de realidade com as contradições e fragilidades da candidatura de Marina. Percebeu-se que ela não ganhará esta eleição na base da inércia. Não existe um eleitorado que votará nela não importa o que faça ou deixe de fazer. Ao contrário, o eleitor precisa ser conquistado, e, para isso, é preciso fazer uma campanha consistente e convincente. Não tem sido o caso.

A incerteza já era grande desde o começo da semana passada, o que fez diminuir o volume de negócios voluntários – descontadas as negociações de ajustes obrigatórios e trocas de chumbo entre fundos diferentes de mesmos gestores. Com baixa liquidez [1], aumenta a volatilidade [2]. Quaisquer vendas de maior volume têm influência grande sobre o mercado e viram quedas expressivas.

A ciclotimia [3] do mercado não encontra refresco nem na hipótese de Aécio Neves (PSDB) vir a capturar eleitores que estão abandonando a canoa de Marina e, eventualmente, vir a tomar dela o segundo lugar e ir para o turno final contra Dilma. Nesse cenário, investidores e petistas concordam: seria uma reedição da eleição de 2010, e provavelmente com o mesmo desfecho.

Como em toda reação ciclotímica, há que se descontar os exageros. Esta eleição já mostrou mais de uma vez que muito pode mudar até que os votos sejam confirmados na urna eletrônica. O próprio pessimismo do mercado – que aposta deliberadamente contra Dilma – pode acabar ajudando-o a se tornar mais otimista.

Se o pessimismo continuar a desvalorizar o real frente ao dólar e isso vier a aumentar a inflação antes do segundo turno, a previsão negativa pode se autorrealizar, afetar o bolso dos eleitores e acabar atrapalhando as chances de Dilma. Ou não.

A presidente recobrou o favoritismo, não cometeu nenhum erro fundamental nas últimas semanas e ainda conta com a sorte. O “aparelho excretor” de Levy Fidélix (PRTB) foi tudo o que sobrou nas redes sociais do debate dos presidenciáveis no domingo à noite. Sua repercussão foi tão avassaladora que ninguém se lembra de eventuais gafes da petista. Quando não perde, o favorito ganha. Sem querer, a homofobia nanica ajudou Dilma.

N O T A S :
[1] – Liquidez é a disponibilidade de dinheiro em caixa e/ou de valores (títulos, duplicatas, promissórias) imediatamente convertíveis em dinheiro.
[2] Volatilidade é a qualidade daquilo que não é firme ou permanente; inconstante, mudável.
[3] – Ciclotimia é o padrão de personalidade, caracterizado por períodos de excitação, euforia ou hiperatividade. Nesse caso, aplicado não a uma pessoa, mas ao mercado de ações na Bolsa de Valores.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Blogs – 29/setembro/2014 – 20h28 – Internet: clique 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

UM NOVO HOMEM E UMA NOVA MULHER

Eles por elas

Entrevista com Sérgio Flávio Barbosa*

Ivan Marsiglia

Na ONU, Emma Watson emociona o mundo ao pedir aos homens que se engajem na luta feminista.
Para filósofo, eles só têm a ganhar
Emma Watson - atriz inglesa, discursando na Assembleia-Geral da ONU (Nova York)

Quando a intérprete de Hermione na série cinematográfica Harry Potter subiu ao púlpito da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, no último dia 20, pouca gente esperava mais que as falas inócuas com que celebridades alçadas à posição de Embaixadores da Boa Vontade costumam “agregar valor” às causas da entidade. Foi, então, que a mágica se deu.

Aos 24 anos e recém-graduada em literatura inglesa, a atriz britânica Emma Watson proferiu um discurso claro, sensível e arrebatador, que viralizou imediatamente nas redes sociais. Ela abriu a campanha HeForShe [Ele por Ela], da ONU Mulheres, pela igualdade de direitos para ambos os gêneros, relatando a própria experiência com a cultura machista que se mantém arraigada mundo afora - até mesmo em sua liberal Inglaterra. E pôs de lado a “agressividade” com que certos críticos gostam de tachar as feministas para exortar os homens a que se aliem às mulheres na luta contra esse mal (ainda) moderno. Delicadeza que não impediu reações furiosas contra as suas ideias, inclusive por parte de criminosos cibernéticos que ameaçaram divulgar fotos da estrela nua para desmoralizá-la.

“Nós homens ainda estamos bem perdidos, num deserto muito grande, passando por uma crise enorme por não entender por que essa nova mulher nos ameaça”, afirma o filósofo feminista Sérgio Flávio Barbosa. Coordenador do Programa de Responsabilização para Homens Autores de Violência contra Mulheres, iniciativa pioneira na recuperação de indivíduos que chegaram ao limite do crime na expressão da cultura retrógrada do machismo, Barbosa é um observador privilegiado do comportamento do homem atual. E teve suas pesquisas publicadas em livros como Homens e Masculinidades: Outras Palavras (Editora 34, 1998, atualmente fora de catálogo).

Na entrevista a seguir, o filósofo conta por que, 60 anos após a revolução de costumes que trouxe as mulheres para o mercado de trabalho e a participação política, a ficha ainda não caiu para os homens. E explica por que a bandeira da igualdade de gênero significa, mais que o fim da opressão da mulher, a libertação de ambos os sexos.

Emma Watson exagera ao afirmar que “nenhum país no mundo pode dizer que alcançou a igualdade de gênero”?

Sérgio Barbosa: Não exagera. A desigualdade de gênero é uma questão mais sentida em países como o Brasil por causa de uma herança cultural muito forte do patriarcado. Estamos ainda distantes da igualdade na remuneração das mulheres no mercado de trabalho, em suas possibilidades de ascensão profissional e na restrita presença feminina na política. Mesmo com Dilma Rousseff e Marina Silva polarizando neste momento a disputa majoritária pela Presidência, nas demais esferas a representação feminina no Brasil é desastrosa. Homens brasileiros ainda não debatem temas como a licença-paternidade, reivindicam creches para seus filhos ou se sentem à vontade para pedir dispensa ao chefe para levar a criança ao médico. O atraso é maior. Mas em todo o mundo a igualdade entre homens e mulheres é ainda um sonho a ser conquistado. Mesmo nas sociedades mais avançadas contemporâneas permanece a discriminação sobre o comportamento de homens e mulheres. Filmes de Hollywood continuam cheios de homens que não choram, se comportam como dominadores e se colocam na vida por meio da agressividade. Apesar das bandeiras do feminismo terem transformado fortemente a sociedade já na década de 1950, considero que nós, homens, começamos a nos mexer só agora. O novo tipo de homem que esse mundo requer apenas começou a surgir.

Nos dias seguintes ao discurso, Emma sofreu ameaças por parte de criminosos virtuais que pretendiam divulgar suas fotos íntimas na internet. É sintomático que a exposição do corpo da atriz seja usada como uma represália por suas palavras?

Sérgio Barbosa: Quanto mais as mulheres falam de seus direitos, maior é a reação conservadora por parte de alguns homens. Há dois sentimentos aí: primeiro, de raiva, de não entender a perda desse poder dominante na sociedade. Já que as feministas, desde Simone de Beauvoir, passando por Joan Scott e chegando a Judith Butler, vão conquistando espaços, estão mais preparadas, estudaram mais, os homens se ressentem de perder seu lugar privilegiado. É uma reação de covardia e desespero. Outro sentimento é o de insegurança. Porque a construção da masculinidade é feita em cima de identidades não reais, de projeções de força e de poder. E a história vem mostrando que essa construção na verdade só prejudica o homem.

No discurso, Emma questiona por que “feminismo” se tornou uma palavra impopular, associada a mulheres “agressivas, anti-homens, não atraentes”. Por quê?

Sérgio Barbosa: O feminismo é uma categoria analítica que critica essa dominação masculina e uma palavra muito forte porque, uma vez tocado pelo feminismo, não é possível recuar, não é possível abrir mão. Com todos os direitos que se colocam por trás disso: direito à igualdade, à saúde, à reprodução. E a questão do corpo é tão importante na expressão do feminismo justamente porque a sociedade tenta dominar a mulher pelo uso do corpo, tentando vendê-lo e expô-lo ou criando a partir dele uma situação vexatória para a mulher. É pelo corpo que posso atingir ou reprimir. Dessa forma, o corpo, na perspectiva do feminismo, passa a ser, além do “cárcere” da mulher, seu lugar de libertação, o que aparece em slogans como “nosso corpo nos pertence” ou na declaração do corpo da mulher como não mais um objeto de uso ou de venda de produtos.

Emma contou que, aos 8 anos, era chamada de “mandona” por querer dirigir as peças de teatro na escola - o que não ocorria com os meninos. Afirmação feita também pela cantora Beyoncé na campanha I'm not Bossy; I'm the Boss (Eu não sou mandona; sou a chefe). O machismo se constrói em casa?

Sérgio Barbosa: A construção da cultura machista se dá antes mesmo do nascimento da criança, na forma como os pais projetam quem serão seus filhos no futuro. A primeira regulação dos papéis de gênero se dá no ambiente familiar, se enraíza durante a infância e se cristaliza na adolescência. Fora de casa, todo um aparato na educação, na saúde e na política vem para reforçar tais valores. A ideia central é de que quem manda tem uma “postura masculina”. E que, então, não cabe à mulher mandar, pois ela tem uma “postura suave”. É por isso que se uma mulher quiser mandar ela tem que se “travestir” em homem, ou seja, se colocar como figura masculina forte para ocupar o lugar do poder. Mas não é só isso. No terreno sexual, ainda hoje é justificado e legitimado aos homens que tenham um comportamento de garanhão, a ideia de um vigor sexual incontrolável que seria quase “instintivo”. Enquanto isso, às meninas é ensinado que se reprimam, se controlem, evitem certas palavras e poses - que “não se mostrem” socialmente, em resumo. A menina que demonstra mais autonomia ou uma atitude de comando é imediatamente tachada de mandona, machona, caprichosa, difícil. Basta abrir os olhos e ver: isso ainda acontece por toda a parte, não só no Brasil. É um hábito tão arraigado que os pais, mesmo liberais, nem se dão conta do que estão reproduzindo.
 
Sérgio Flávio Barbosa - filósofo
A proposta do HeForShe - atrair os homens para a causa feminista com o argumento de que eles também seriam beneficiados pela igualdade - faz sentido?

Sérgio Barbosa: Nós, homens, sofremos de uma solidão muito grande. Em nenhum lugar há espaço para conversarmos sobre nossas fraquezas. Somos os primeiros que sofrem com a obrigatoriedade de ser durão, um John Wayne, ou alguém sem sentimentos, um Homer Simpson. O que temos a ganhar com o feminismo? Em primeiro lugar, a possibilidade de aceitar melhor as diferenças, ter uma visão mais ampla da realidade, ser mais flexível. Mas também exigir menos de nós próprios, sermos capazes de aprender com os erros e ganhar possibilidade da escuta, da sensibilidade, da participação maior na vida dos filhos. Além disso, a desigualdade de gênero afeta a qualidade de nossas relações amorosas, que se transformam em verdadeiras competições entre parceiros, em que um não pode ser também amigo do outro. Estou certo de que muitos casamentos hoje em dia só se mantêm porque a mulher acaba por ceder, se torna silenciosa, invisível, omissa. Que tipo de relacionamento pode surgir daí?

Certas vertentes do movimento feminista sustentam que o debate sobre a causa deve ser protagonizado pelas mulheres, e apenas por elas. É um contraste em relação ao HeForShe, que apela à participação masculina?

Sérgio Barbosa: Essas vertentes defendem que as mulheres tomem a iniciativa na defesa de sua luta. Mas isso não exclui a participação do homem. Pelo contrário. Claro que historicamente os papéis de gênero foram definidos por uma lógica machista, e quem precisa se libertar dessa lógica são elas. Mas os homens também vivem submetidos pela lógica da dominação. É preciso entender que a conquista dos direitos das mulheres não implica perda de direitos dos homens, mas na equidade entre os sexos.

Há uma dificuldade no entendimento das bandeiras feministas contemporâneas por parte dos homens? Na campanha Chega de Fiu Fiu, da jornalista brasileira Juliana de Faria, outra iniciativa elogiada pela ONU, o assédio de mulheres em espaços públicos era considerado por muitos mero “elogio”.

Sérgio Barbosa: Só na cabeça de um homem educado no machismo um assobio, um grito ou uma buzinada na rua podem ser considerados elogios. A mulher não é um objeto de conquista: esse é o problema. Se você quer conhecê-la, pode fazer isso com uma conversa, mostrando sua inteligência, seus argumentos. No fiu-fiu e na buzinada apenas se rebaixa e constrange a mulher, colocando-a na posição de objeto para alimentar seu ego, nada mais.

Na quarta-feira, a Anistia Internacional divulgou nota sobre recentes casos de mortes de mulheres em abortos clandestinos no Brasil e defendeu “a urgência do debate sobre o tema no país”. De que maneira a questão, tão sensível no atual período eleitoral, se articula com o tema da igualdade?

Sérgio Barbosa: A dificuldade que se tem ao abordar o aborto no Brasil decorre evidentemente da questão religiosa, que impõe uma determinada moral. Mas o fato é que a proibição priva a mulher de ter autonomia sobre o próprio corpo. A questão central é tornar a mulher livre de uma moral imposta de fora, pela sociedade. E, neste período de eleições, exatamente como ocorre com a questão da maioridade penal, o aborto reaparece sem uma argumentação séria por trás - com o único objetivo de mexer com as emoções dos eleitores.

Como quebrar a resistência que ainda existe à igualdade entre homens e mulheres?

Sérgio Barbosa: Políticas públicas de conscientização, debates nos meios de comunicação ou nas novelas são importantes. Mas, como disse, tudo começa em casa: a postura dos pais em relação aos filhos é fundamental. Se a criança vê desde cedo o pai e a mãe compartilharem tarefas domésticas, cuidarem ambos de sua educação e de sua saúde, terem voz igual nas decisões na família, o avanço é maior. Nós homens ainda estamos bem perdidos, num deserto muito grande, passando por uma crise enorme por não entender por que essa nova mulher nos ameaça. Mas a ameaça somos nós mesmos quando não entendemos a força e a libertação que elas estão propondo à sociedade. Libertação, também, de nós mesmos.

* Sérgio Flávio Barbosa é filósofo e coautor do livro: Homens e Masculinidades: outras palavras (Editora 34).

Fonte: O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 28 de setembro de 2014 – Pg. E2 – Internet: clique aqui.

O FUTURO DE NOSSA SOCIEDADE EM DEBATE...

“O capitalismo se transformará
totalmente no século XXI”

Entrevista com Jeremy Rifkin

Manuel González Pascual
Cinco Días
22-09-2014
Jeremy Rifkin

Advertiu na década de 1990 que a crescente produtividade proporcionada pelas novas tecnologias geraria um desemprego estrutural insolúvel, a menos que se reduzisse a jornada de trabalho (O fim dos empregos. Makron Books, 1995). Começou esta década falando de A Terceira Revolução Industrial (Makron Books, 2011), estágio para o qual nos precipitamos com a convergência de novas formas de comunicação e novas fontes de energia (o telefone, possível graças à eletricidade, e o petróleo, que, por sua vez, condicionou o modelo de transporte, serão ultrapassados pela combinação internet-energias renováveis).

Jeremy Rifkin (Denver, 1943) completa este ano a teoria que esboçou com seu novo livro, A sociedade de custo marginal zero (edição espanhola: Paidós), obra que acaba de apresentar em Madri, convidado pela Fundação Rafael del Pino.

O influente pensador destacou nessa ocasião que, pela primeira vez na história, os três eixos sobre os quais se apoiam os modelos de desenvolvimento (comunicação, energia e transportes) estarão entrelaçados entre si graças à internet. Esta nova situação abre as portas para o que o assessor da chanceler Angela Merkel e do primeiro ministro chinês Li Kequiang, entre outros, chama de economia colaborativa.

Eis a entrevista.

O livro começa com uma afirmação contundente. Na primeira página você diz: “...o capitalismo continuará a fazer parte do panorama social, mas duvido que seja o paradigma econômico dominante durante a segunda metade do século XXI”.

Jeremy Rifkin: Perfeitamente. Nunca pensei que veria isto em vida. Estamos presenciando os primeiros traços da economia colaborativa. Milhões de jovens de todo o mundo são prossumidores [simultaneamente produtores e consumidores] que compartilham sua própria música, vídeos, blogs, livros e outros serviços a um custo próximo a zero. O fenômeno das universidades a distância permite assistir a aulas dos melhores professores do mundo a um custo ridículo. Os domicílios podem ser energeticamente autossuficientes e, em alguns países, vender sua energia não consumida. Em poucos anos, as crianças aprenderão a usar as impressoras 3D nas escolas. Nestes dias vimos em funcionamento o primeiro carro impresso com uma destas máquinas. Observe que em todos estes casos intervêm apenas empresas.

Acredita, então, que o capitalismo morrerá de êxito?

Rifkin: A própria essência do sistema, a famosa mão invisível, baseia-se no emprego da tecnologia para reduzir os custos marginais para aumentar a produtividade e a competitividade. Acontece que nunca ninguém imaginou que chegaríamos a uma situação em que os custos marginais fossem zero ou praticamente zero. É o grande paradoxo do capitalismo: sempre quisemos que a mão invisível fizesse seu trabalho, mas o fez tão bem que vai levar o sistema ao colapso. Trata-se da primeira mudança de paradigma desde o surgimento do capitalismo e do socialismo no século XIX. As fronteiras entre o atual sistema e a economia colaborativa são difusas; no momento, uma se beneficia da outra, mas creio que para meados do século o capitalismo terá se transformado completamente.

Você menciona no livro que empresas como a Siemens, Cisco ou a IBM se interessaram por suas teorias. O que lhe perguntaram?

Rifkin: Deram-se conta de que a Segunda Revolução Industrial está definitivamente em seus últimos ajustes. Um dos sinais foi quando, em julho de 2008, o barril do Brent atingiu os 147 dólares. O crescimento do PIB diminuiu muito e o desemprego aumentou. Estas companhias se interessaram pelo que chamo de internet das coisas [a união em uma mesma rede dos sistemas de comunicação, energia e transporte]. Os modelos comerciais verticalmente integrados e intensivos em capital, necessários para poder desenvolver infraestruturas tão caras como as que necessitava um sistema baseado no petróleo, darão lugar a sistemas distributivos que sejam acessíveis a todos. Tenha em conta que qualquer indivíduo terá acesso, graças ao Big Data, à mesma informação que até agora era entesourada pelas companhias. Trata-se de um tremendo avanço: todas as pessoas poderão participar do sistema econômico. Será a democratização da vida econômica.

O cenário que propõe soa como muito positivo.

Rifkin: Não acredite, também haverá muitos desafios. Tudo isto também representa uma ameaça à segurança, de variadas formas. O terrorismo, por exemplo, gozará de mais oportunidades que agora. E pode ser que surjam monopólios, como aconteceu, por exemplo, com a AT&T no começo do século passado, na época da implantação das linhas de telefone nos Estados Unidos. Talvez devêssemos nos perguntar se a internet pode ser considerada um bem público e, portanto, deveria ser regulada de outro modo. Participo ativamente de reuniões com a União Europeia para ver como se pode manter a neutralidade das redes. O Google, o Facebook e o Twitter são serviços sociais globais que parecem monopólios. Geram muitíssimo dinheiro e ao mesmo tempo ajudam outras indústrias a entrar em colapso, como a editorial ou a jornalística, na que você e eu trabalhamos.

Que poder de manobra teriam as companhias para não se marginalizarem?

Rifkin: Creio que têm que aprender a desenvolver-se nos dois modelos. O capitalismo não vai desaparecer. As casas podem ser impressas; na China já há máquinas capazes de levantar 10 casas em 24 horas, mas as grandes infraestruturas ainda precisam ser feitas ao modo antigo. E o mesmo acontece com muitos outros produtos. A economia digital vai se mover do mundo virtual ao físico, e muito rapidamente. Um exemplo claríssimo é a energia. Nas energias renováveis, a rentabilidade das instalações é exponencial. Têm custos fixos elevados, mas os marginais tendem a zero. Produzir um watt de energia solar custava 66 dólares em 1997. Hoje custa 66 centavos. Mas o mais significativo é que há milhões de pequenos produtores (cooperativas, domicílios, escolas...) que podem colocar em comum a própria energia e fugir do jugo das grandes companhias. Simplesmente porque é mais barato e existe a tecnologia para isso.

“O caso da Espanha é o mais trágico do mundo”.

Rifkin não oculta sua decepção com a mudança de rumo adotada por Moncloa sobre as energias renováveis quando Mariano Rajoy assumiu o poder.
Rifkin: “O caso da Espanha é, talvez, o mais trágico do mundo. Durante algum tempo esteve junto com a Alemanha liderando a promoção das energias renováveis, mas veio a grande recessão e voltou a apostar no petróleo e no gás”, lamenta aquele que foi o assessor de José Luiz Rodríguez Zapatero. “Perderam cinco preciosos anos, e se passarem outros cinco, hipotecarão uma geração inteira”, sustenta.

“Rajoy refere-se às energias renováveis como se fossem uma fantasia. Então, por que a Alemanha está apostando tão forte nelas? Ali, 27% da energia já é solar e eólica. Houve um dia de maio em que representou 75% da energia. O custo marginal foi tão baixo que se alcançaram preços negativos! A China investirá 82 bilhões de dólares em quatro anos para desenvolver uma rede de internet energética, para que os cidadãos possam produzir e compartilhar sua própria energia. Tudo isto está acontecendo”, destaca.

Traduzido do espanhol por André Langer.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 26 de setembro de 2014 – Internet: clique

A História está longe de ter
chegado ao fim

ALINA ROCHA MENOCAL*
FOREIGN POLICY

Eventos recentes mostram que as democracias, para se sustentarem, precisam mais do que direito ao voto
Francis Fukuyama - cientista político

Vinte e cinco anos atrás, poucos meses antes da queda do Muro de Berlim em novembro de 1989, Francis Fukuyama publicou o que se tornou um dos artigos mais debatidos e citados do fim do século 20.

Em O Fim da História? (o título perdeu o ponto de interrogação quando foi publicado como livro em 1992), Fukuyama celebrou o triunfo global da democracia e do capitalismo, uma tese que ele reiterou recentemente em um editorial publicado no Wall Street Journal. "A democracia liberal continua sem uma concorrência real", proclamou.

A reafirmação do otimismo original de Fukuyama é particularmente notável se pensarmos no quanto a democracia se vê combalida atualmente.

É verdade que houve uma transformação fundamental na natureza dos regimes políticos em todo o mundo. Hoje, a maioria dos países é governada por democracias eleitorais formais, correspondendo a dois terços da população mundial. E praticamente todos os países realizam eleições - e o número de mulheres nos parlamentos é o maior já visto.

Mas, longe de chegar ao fim, a História parece estar voltando com sede de vingança. Apesar dessas guinadas importantes nas estruturas políticas formais, apenas um pequeno número das democracias que emergiram nas três décadas passadas conseguiu estabelecer raízes profundas. Em vez disso, muitas delas ficaram presas na transição, ocupando uma zona cinzenta entre o autoritarismo aberto e a democracia plena (a Rússia de Putin é apenas um exemplo notório do tipo). De acordo com a Freedom House, a liberdade global teve queda em todos os anos desde 2005, enquanto as instituições democráticas continuam ocas, rasas e fracas.

Os eventos recentes no Egito e na Líbia mostram que é mais fácil derrubar um ditador do que estabelecer uma democracia efetiva. A construção de instituições liberais se mostrou um desafio complicado e prolongado que traz a probabilidade de atrair turbulência e contestação consideráveis. O resultado nunca é garantido.

Destacando os tumultos recentes da Ucrânia à Faixa de Gaza, uma recente publicação do Fundo Carnegie para a Paz Mundial questionou se o mundo estaria ruindo. Esse pessimismo lembra mais as sombrias conclusões do historiador da economia e sociólogo Karl Polanyi em A Grande Transformação, sua clássica análise do deslocamento social, político e econômico que resultou do colapso da civilização do século 19, parecendo distante do mundo pós-ideológico cuja chegada foi anunciada por Fukuyama.

Desilusão

O que deu errado no sonho do potencial transformador da democracia? Chama a atenção a desilusão generalizada com a capacidade da democracia de oferecer bens e serviços públicos, benefícios que o povo espera de seus governos.

Enquanto a capacidade dos Estados permanece persistentemente fraca, especialmente nas democracias novas e emergentes, um número cada vez maior de cidadãos espera serviços melhores e mais capacidade de resposta às suas necessidades e exigências. Como mostram nossas pesquisas recentes no Overseas Development Institute (ODI), o público tende a valorizar a democracia e as liberdades políticas principalmente em termos instrumentais: como é o desempenho das democracias? Elas proporcionam os níveis esperados de crescimento econômico, atendimento de saúde e ensino? A incapacidade de "fazer sua parte" de muitas democracias as submeteu a um desgaste considerável.

Quando Fukuyama escreveu seu ensaio pela primeira vez, em 1989, não havia no horizonte nenhuma alternativa crível para a democracia liberal. Mas isso mudou. A extraordinária ascensão da China transformou-a num modelo de desenvolvimento concorrente. África do Sul, Etiópia e Ruanda também emergiram como exemplos das superioridades dos sistemas de partido hegemônico e governo autoritário na produção de crescimento econômico.

Mas os defensores da autocracia tendem a ocultar alguns pontos fundamentais. Não é necessariamente evidente que um sistema autoritário terá sempre o interesse de desempenhar um papel positivo no processo de desenvolvimento. A História está repleta de exemplos de Estados autoritários predadores ou antidesenvolvimentistas na África, Ásia, Leste da Europa, América Latina e ex-União Soviética. Apostar na sua suposta superioridade é um grande perigo: nunca podemos saber a priori se os fins justificarão os meios.

Na verdade, esperamos que as democracias incipientes sejam demasiadamente eficientes sem dar a elas tempo o bastante. A simples realização de eleições não pode trazer a cura para os problemas políticos e sociais mais profundos enfrentados pelos governos de muitos países em desenvolvimento. As eleições trazem o potencial de aprofundar a qualidade da governança democrática, mas são também um instrumento relativamente grosseiro para a representação e podem ter limites importantes. Como destacou a revista The Economist, freios e contrapesos robustos são tão importantes para o estabelecimento de uma democracia saudável quanto o direito ao voto.

O fortalecimento de uma cultura na qual a democracia seja valorizada enquanto processo, e não apenas nos termos do seu sucesso em proporcionar benefícios materiais, exige tempo. Vale lembrar que, quando a Europa passou pela "Primavera dos Povos", em 1848, foram necessárias várias gerações para que a democracia se instalasse de vez. O modelo democrático liberal enfrentou problemas novamente nos anos 20 e 30, quando fascismo e comunismo se tornaram modelos atraentes para muitos dos que tinham se desiludido com o funcionamento dos sistemas políticos (democráticos) - e as consequências foram horríveis.

Hoje, a democracia perdeu o brilho não apenas no mundo em desenvolvimento, mas também entre os países ricos do Ocidente. O choque da crise financeira de 2007 a 2008 e a crescente preocupação com o aprofundamento da desigualdade estão contribuindo para aumentar a insatisfação com a qualidade da representação democrática - sentimentos que encontraram expressão em todo o espectro político, desde o Tea Party americano e os movimentos Occupy em vários países até os populistas anti-Bruxelas na União Europeia.

Um novo estudo que analisa quase 2 mil iniciativas de políticas do governo americano entre 1981 e 2012 revela que os Estados Unidos se tornaram algo mais parecido com uma oligarquia do que com uma democracia. E um levantamento feito em 2012 em sete países europeus descobriu que mais da metade dos eleitores dizia "não confiar no governo". Esta alienação generalizada em relação ao establishment político, especialmente entre a classe média e a juventude, mostra que as pessoas exigem mais do que apenas eleições a intervalos de poucos anos. Elas querem ter voz para decidir o que seus governos fazem e, principalmente, como o fazem.

Isso só mostra que o caminho para forjar uma democracia é inevitavelmente difícil - uma luta contínua que envolve avanços e retrocessos. E a democracia não pode ter sucesso sem compromisso e liderança vindos de cima e de baixo.

Mas não devemos concluir que o modelo democrático perdeu seu apelo. Os processos democráticos abriram novas oportunidades para a participação e a alternância no poder, ao mesmo tempo mostrando que são capazes de produzir resultados em países tão diferentes quanto Brasil, Gana e, mais recentemente, Tunísia. Mesmo nos locais em que a democracia não conseguiu se enraizar, como no Egito, o panorama político foi alterado de maneira irrevogável e jamais voltará ao ponto de partida.
Alina Rocha Menocal

Anseios

Os cidadãos têm hoje expectativas significativamente maiores e, mesmo no Oriente Médio, isso deve levar a sistemas mais capazes de responder aos anseios populares no longo prazo. O poder de atração da China pode ser forte, mas o modelo do país também oculta os problemas mais profundos, dos quais a desigualdade é apenas um entre muitos.

Mas o triunfo da democracia está longe de ser garantido. Expectativas mais altas são também mais difíceis de atender. Os sistemas de clientela continuam existindo e podem até ser fortalecidos nos novos sistemas democráticos na ausência de freios, contrapesos e mecanismos de responsabilidade suficientemente fortes.

Assim sendo, é certo que não chegamos ao fim da História. Mas a maioria dos países do mundo atual reconhece a primazia das formas democráticas, algo que não estava muito claro algumas décadas atrás.

Por mais imperfeitas que sejam, essas democracias emergentes vieram para ficar. Descobrir como dar a elas mais substância pode se tornar o principal desafio do século 21.

* Alina Rocha Menocal é pesquisadora do Overseas Development Institute.

Traduzido do inglês por Augusto Calil.


Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional/Visão Global – Domingo, 28 de setembro de 2014 – Pg. A22 – Internet: clique aqui. Para acessar o artigo original, clique aqui.