«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

PAPA FAZ HISTÓRIA A DEZ MIL METROS DE ALTITUDE!

Dentro do avião papal

Andrea Tornielli
Vatican Insider / La Stampa
(Itália)
28-09-2015 
PAPA FRANCISCO
Dentro do avião que o conduzia da Filadélfia a Roma
Domingo, 27 de setembro de 2015

Pensando no Air Force One, ele foi rebatizado de Shepherd One, ou seja, "Pastor Um". É o avião da American Airlines que levou Francisco sobre os céus dos Estados Unidos e, depois, para Roma. A frase era exibida orgulhosamente até mesmo pelos técnicos em terra, costurada nos seus coletes amarelos. Mas tanto o Boeing 777 da American Airlines quanto o Airbus 330 da Alitalia usado para o voo de ida de Roma a Cuba têm pouco ou nada a ver com o avião dos presidentes dos EUA.

O papa não possui um avião próprio, e aquele que ele usa de vez em quando para as suas viagens não apresenta nenhuma preparação especial. Não há salas de reuniões nem quartos, embora, até alguns anos atrás, quando os bancos podiam ser desmontados com mais facilidade, porque não continham cabos e fios, para os voos mais longos, era preparada uma cama.

Hoje, Francisco pode repousar na poltroninha branca da Business Class que fica logo ao lado da porta de entrada e ele não tem nenhuma dificuldade para dormir. Na parede que fica na frente, é posto um ícone de Maria.

O voo Alitalia de número AZ4000 acompanha o papa na ida. A companhia aérea nacional do país visitado providencia o retorno. Quando ela não existe ou a que existe não é suficientemente segura, é a companhia italiana que faz tudo.

A BORDO

Com Francisco, viaja uma comitiva composta por cerca de 20 colaboradores. Há o assistente de quarto, Sandro Mariotti, o cardeal secretário de Estado e o substituto, o porta-voz, padre Federico Lombardi, o diretor do Centro Televisivo Vaticano, Dario Viganò, o médico pessoal do papa.

Outros dois personagens que nunca faltam são o organizador das viagens papais, Alberto Gasbarri, cavalheiro alto e discreto, e o comandante dos gendarmes vaticanos, Domenico Giani, à frente da equipe responsável pela segurança do pontífice.

A bagagem de Francisco é carregada no porão do avião. Ela inclui não só as suas roupas, mas também alguns paramentos, o bastão pastoral e os presentes, às vezes volumosos, que o papa dará aos chefes de Estado e aos bispos. Desta vez, havia também os livros e os CDs para Fidel Castro.

Bergoglio traz consigo, na cabine, a velha pasta preta com bens pessoais, incluindo o barbeador, que ele usa duas vezes por dia: de manhã, às 4h30, quando acorda, e no início da tarde, depois da sesta. Ele não quer a barba machuque as crianças que ele cumprimenta.

Sinais distintivos do voo papal são o encosto de cabeça e as almofadas brancas com o brasão pontifício bordado em relevo. O menu, impresso em papelão, também traz impresso o brasão do pontífice.

As comissárias e comissários de bordo são escolhidos entre o pessoal com mais experiência. Cada voo termina, para cada um deles, com uma foto sentados ao lado do papa, que nunca deixa de entrar no cockpit [cabine de controle do avião] para cumprimentar os pilotos.

Com Francisco, também voam cerca de 70 jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas das principais TVs e publicações do mundo. Eles contribuem substancialmente para os custos do voo: pagam uma passagem inteira de primeira classe, mesmo que viajem na parte de trás. Há apenas alguns lugares pré-atribuídos para fotógrafos, cinegrafistas, rádios e agências. A maioria é livre, e quem sobe primeiro no avião se senta melhor. 
Papa Francisco ouve pergunta que lhe é dirigida por um jornalista no interior do avião
que o levou de Filadélfia (EUA) a Roma (Itália)
Domingo, 27 de setembro de 2015

RESPOSTAS LIVRES

Bento XVI fazia logo depois da decolagem uma pequena coletiva de imprensa, nos últimos anos com perguntas enviadas previamente e selecionadas por Lombardi. Francisco prefere fazer isso no voo de volta, para evitar que uma resposta mal interpretada desvie a atenção dos conteúdos da viagem.

Ele não quer conhecer as perguntas antes e dialoga sem obstáculos, em italiano, com os repórteres por mais de uma hora: geralmente, para interrompê-lo, é usada a desculpa do jantar que será servido.

Os jornalistas são divididos por grupos linguísticos, dentro dos quais escolhem entre si, cada um por vez, quem vai fazer as perguntas, tentando evitar duplicações desnecessárias.
[ . . . ]

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.

Entrevista com Papa Francisco
A bordo do avião que o levava de volta à Itália

Andrés Beltramo Álvarez
Vatican Insider
(Itália)
28-09-2015

“Todos os muros vão cair. Hoje, amanhã ou daqui a cem anos,
mas todos vão cair. Não são uma solução para a crise migratória.”
PAPA FRANCISCO
responde às perguntas colocadas por jornalistas de todo o mundo a bordo do avião que
o levava de Filadélfia (EUA) a Roma (Itália)
Domingo, 27 de setembro de 2015

Esta foi sua primeira visita aos Estados Unidos: o que lhe surpreendeu e o que foi diferente do esperado? Quais são os desafios que a Igreja dos Estados Unidos enfrenta?

Papa Francisco: Sim, foi a primeira visita, nunca estive aqui. Surpreenderam-me os olhares, o calor humano, um povo tão amável, uma coisa bela e também diferente. Em Washington (tive) uma acolhida calorosa, mas um pouco mais formal, em Nova York um pouco excessiva e na Filadélfia, muito expressivo. Três modalidades diferentes, mas a mesma acolhida. Fiquei muito impressionado com a acolhida nas cerimônias religiosas e também com a piedade, a religiosidade. Era possível ver as pessoas rezarem e isto me impressionou muito, muito, era bonito.

Houve alguma provocação, algum fato indesejável?

Papa Francisco: Não, graças a Deus, não. Tudo transcorreu bem, não houve nenhuma provocação, todos foram educados. Nenhum insulto, não, nenhuma coisa feia. Não, não. Temos que continuar trabalhando com este povo fiel e como trabalharam até agora, acompanhando o povo no crescimento de suas coisas boas e em suas dificuldades, acompanhando-os na alegria, nas horas ruins, nas dificuldades, quando não há trabalho, existem as doenças. O desafio da Igreja, agora compreendo bem, é ser como sempre foi: próxima das pessoas, próxima ao povo dos Estados Unidos, com proximidade. Não uma Igreja separada do povo, mas próxima. Este é um desafio que a Igreja dos Estados Unidos entendeu bem.

Filadélfia passou por momentos muitos difíceis por causa dos abusos sexuais. Muitos se surpreenderam com o fato de que no discurso aos bispos em Washington você tenha oferecido consolação à Igreja. Por que sentiu a necessidade de oferecer compaixão aos bispos?

Papa Francisco: Em Washington, falei a todos os bispos dos Estados Unidos, que vieram de todas as partes. Senti a necessidade de expressar compaixão porque lhes aconteceu uma coisa terrível. E muitos sofreram porque não sabiam, e quando os fatos vieram à tona sofreram muito: eles são homens de Igreja, de oração, verdadeiros pastores. Usando uma passagem da Bíblia, do Apocalipse, eu disse: “vocês estão vindo da grande tribulação”. E foi o que aconteceu, foi uma grande tribulação, mas não apenas pelo sofrimento afetivo. Foi o que eu disse hoje ao grupo de pessoas vítimas de abusos, foi, não digo uma apostasia, mas quase um sacrilégio.

Os abusos, e sabemos disso, estão por todas as partes: na família, no bairro, nas escolas, nos ginásios... Mas quando um padre comete um abuso é gravíssimo, porque a vocação do padre é fazer crescer esse menino, essa menina, no amor de Deus, na maturidade afetiva ou no bem. E em vez de fazer isso, induziu-o ao mal, e por isso é quase um sacrilégio. Ele traiu a vocação, o chamado do Senhor. Por isso, na Igreja, neste momento, também não se deve encobrir esses casos. Também são culpados aqueles que acobertaram essas coisas, inclusive alguns bispos que acobertaram isto. É uma coisa terrível e as palavras de consolo não são dizer: não se preocupem, não foi nada. Não, não, não. Foi uma coisa terrível. Imagino que muitos de vocês choraram. E hoje falei duro.

O senhor falou muito do perdão, que Deus nos perdoa. Mas existem muitos padres que não pediram perdão às vítimas pelos pecados que cometeram.  Por outro lado, o senhor entende as famílias que não querem ou não conseguem perdoar?

Papa Francisco: Se uma pessoa agiu mal, está consciente do que fez e não pede perdão, eu peço a Deus que o tenha em conta. Eu a perdoo, mas ele não recebe o perdão. Está fechado ao perdão. Uma coisa é dar o perdão. Todos somos obrigados a perdoar, porque todos fomos perdoados, mas outra coisa é receber o perdão. E se esse padre está fechado ao perdão não o recebe porque ele fechou a porta com a chave do lado de dentro e resta rezar para que o Senhor lhe abra essa porta. Ou seja, para dar o perdão é preciso estar disposto, mas nem todos podem recebê-lo, sabem recebê-lo ou não estão dispostos a recebê-lo. É duro o que estou dizendo e assim se explica que haja gente que termina sua vida dura, mal, sem receber a carícia de Deus. Qual é a segunda pergunta?

O senhor entende as vítimas e suas famílias que não conseguiram perdoar ou não querem perdoar?

Papa Francisco: Sim, eu as compreendo, rezo por elas e não as julgo. Uma vez, em uma destas reuniões, me encontrei com várias pessoas e uma mulher me disse: “quando minha mãe ficou sabendo que tinham abusado de mim, blasfemou contra Deus, perdeu a fé e morreu ateia”. Eu compreendo essa mulher. Eu a compreendo. E Deus, que é melhor do que eu, a compreende. E estou certo de que essa mulher Deus a recebeu, porque o que foi destroçado e quebrado foi sua própria carne, a carne da sua filha. Eu a compreendo. Não julgo aqueles que não conseguem perdoar. Rezo e peço a Deus porque Deus é um campeão em buscar caminhos de solução. 
O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, à esquerda, apertou as mãos
do líder das FARC Rodrigo Londoño, à direita, na frente de Raúl Castro presidente de Cuba, em Havana.

Quarta-feira, 23 de setembro de 2015.
Foto: LUIS ACOSTA / AGENCE FRANCE-PRESSE / GETTY IMAGES

Padre, sobretudo obrigado por este momento. Ouvimos muita coisa sobre o processo de paz na Colômbia, entre as FARC e o governo. Agora há um acordo histórico. O senhor se sente um pouco parte deste acordo? O senhor disse que iria à Colômbia quando houvesse um acordo. Agora, muitos colombianos estão esperando sua visita. E outra pequenininha: o que está pensando agora, no final desta visita tão longa, quando o avião já está retornando a Roma?

Papa Francisco: A primeira. Quando tive a notícia de que em março seria assinado o acordo disse ao Senhor: “Senhor, faze que cheguemos em março, que se chegue com esta bela intenção, porque faltam pequenas coisas, mas a vontade existe, de ambas as partes. Existe. Também no pequeno grupo, portanto, estão de acordo. Temos que chegar em março ao acordo definitivo. Resta o ponto da justiça internacional. Eu fiquei muito contente e me senti parte no sentido de que eu sempre quis isto. Falei três vezes com o presidente Santos [da Colômbia] sobre este problema, e a Santa Sé está muito aberta a ajudar como pode.

Sobra a outra [pergunta], isto é um pouco pessoal, mas deve ser sincero. Quando o avião parte depois de uma visita, vem-me à mente o olhar de tantas pessoas, vem-me a vontade de rezar por elas, dizer ao Senhor: “Eu vim aqui para fazer algo, para fazer o bem. Talvez, fiz mal, perdoa-me, mas protege toda essa gente que me viu, que pensou nas coisas que eu falei, que me escutou, inclusive aqueles que me criticaram e em relação a todos sinto isso. Não sei, é o que me ocorre, é um pouco pessoal. Isto não se pode dizer nos jornais”.

Santo Padre, queria fazer uma pergunta sobre as relações da Santa Sé com a China e sobre a situação neste país, que é bastante difícil também para a Igreja Católica. O que pensa sobre isso?

Papa Francisco: A China é um grande país que traz ao mundo uma grande cultura e tantas coisas boas. Eu disse certa vez, no avião, quando estávamos sobrevoando [a China], retornando da Coreia do Sul, que gostaria muito de visitar a China. Eu amo o povo chinês, quero-o muito. Eu desejo que existam as possibilidades de ter boas relações, boas relações. Temos contatos, falamos e vamos em frente. Para mim, ter um grande país amigo como a China, que tem tanta cultura e tanta possibilidade de fazer o bem, seria uma alegria. 
Migrantes caminham ao lado da cerca de arame farpado,
enquanto a polícia fica de guarda no lado húngaro.

Queria perguntá-lo sobre a crise migratória. Muitos países estão construindo as novas cercas de arame farpado. O que tem a dizer sobre isso?

Papa Francisco: Você usou uma palavra: crise. Converte-se em um estado de crise depois de um longo processo. Isto é o resultado de um processo de anos, porque as guerras das quais aquela gente foge são guerras de anos. A fome é a fome de anos. Quando eu penso na África, isto é um pouco simples, eh, mas digo-o como exemplo. Penso na África, o continente explorado e agora vêm as guerras rivais, mas têm por trás interesses econômicos. Eu penso que antes de explorar um continente, um país, uma guerra, se poderiam fazer investimentos para que essa gente tivesse trabalho, e assim evitaria esta crise. É verdade, é uma crise de refugiados, como eu disse no Congresso, nunca antes vista desde a Segunda Guerra Mundial.

E você me pergunta sobre as cercas. Você sabe como acabam os muros. Todos os muros caem. Hoje, amanhã, ou daqui a cem anos, mas todos caem. Não são uma solução. O muro não é uma solução. Neste momento, a Europa está em dificuldades, é verdade. Temos de ser inteligentes, porque chega esta grande onda migratória e não é fácil encontrar soluções. Mas só e sempre através do diálogo é que os países da Europa se devem entender. Os muros nunca são a solução. Pelo contrário, as pontes, sim. Sempre. Sempre. É isso que eu penso sobre os muros e as cercas. Não são uma solução. O problema permanece e permanece com mais ódio.

Santo Padre, o senhor não pode obviamente antecipar o debate dos padres sinodais. Sabemos perfeitamente, mas queríamos saber se em seu coração de pastor realmente quer uma solução para a questão do divórcio e dos divorciados recasados. Queremos saber se seu motu proprio sobre a regulação da nulidade encerrou este debate. O que responde àqueles que temem que esta reforma levará à criação de fato do chamado “divórcio católico”?

Papa Francisco: Começo pela última. A reforma dos processos encerrou a porta para a via administrativa, que era a via pela qual podia entrar o divórcio. Posso dizer que estão errados aqueles que pensam que é o “divórcio católico”, porque este último documento (de reforma dos processos) fechou as portas ao divórcio que podia entrar pela via administrativa. Sempre existe a via judicial. Depois, a maioria dos padres sinodais tinha pedido essa reforma nas reuniões do ano passado. Era preciso reduzir os processos. Havia processos que duravam 10, 15 anos. Uma sentença, e depois outra sentença, e uma apelação e outra apelação e não se terminava nunca.

A dupla sentença, quando era válida, foi introduzida por Bento XVI, porque na Europa Central, não digo o país, havia alguns abusos, e para acabar com isso ele introduziu a dupla sentença. Mas não é uma coisa essencial para o processo. Os processos mudam e a jurisprudência muda e sempre é aperfeiçoada. Este documento, este motu proprio, facilita os processos no tempo, mas não é um divórcio, porque o matrimônio é indissolúvel, pois é sacramento e isto a Igreja não pode mudar. É doutrina, é um sacramento indissolúvel.
PAPA FRANCISCO
Faz visita surpresa à casa das Irmãzinhas dos Pobres, em Nova York.
As Irmãzinhas, desde 2013, se envolveram em uma disputa legal com o governo,
já que o Obamacare (programa de saúde do presidente Obama) obriga as religiosas
a garantirem serviços contrários às suas convicções de fé e ao magistério.
Quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Santo Padre, o senhor visitou as Irmãzinhas dos Pobres, e nos disseram que você queria mostrar seu apoio para elas e seu apoio nos tribunais. E, Santo Padre, o senhor também apoia as pessoas, inclusive funcionários do governo, que, por objeção de consciência, não levariam adiante, por exemplo, uma legislação a favor do casamento homossexual? O senhor apoiaria também este tipo de reivindicação no marco da liberdade religiosa?

Papa Francisco: Eu não me lembro de todos os casos específicos de objeção de consciência. Mas posso dizer que a objeção de consciência é um direito que entra em cada direito humano. É um direito. E se uma pessoa não permite fazer objeção de consciência, nega um direito. Em cada estrutura judicial deve entrar a objeção de consciência, porque é um direito, um direito humano. Caso contrário, terminamos na seleção dos direitos: este é um direito de qualidade, esse é um direito de não qualidade, este... É um direito humano, eh.

Sempre me emocionei, quando jovem, ao ler muitas vezes o poema épico La Chanson de Roland, no qual há uma cena em que todos os muçulmanos se encontram em uma fila e na frente deles havia a pia batismal ou a espada. E tinham que escolher. A objeção de consciência estava proibida. Não, é um direito e se queremos ter paz, temos que respeitar todos os direitos.

Incluindo também funcionários de governo...

Papa Francisco: É um direito humano! Se o funcionário de governo é uma pessoa humana, tem esse direito. É um direito humano.

O senhor, na ONU, utilizou palavras muito fortes para denunciar o silêncio do mundo diante da perseguição dos cristãos que são privados de suas casas, de seus bens, escravizados e, além disso, brutalmente assassinados. Agora o presidente Hollande anunciou o início de bombardeios da França contra as bases do Estado Islâmico, na Síria. O que pensa desta ação militar? Por outro lado, também uma curiosidade: o prefeito de Roma, Ignazio Marino, o prefeito do Jubileu, declarou que veio à missa do Encontro Mundial de Famílias, porque você o convidou. Como foram as coisas?

Papa Francisco: Começo pela segunda: eu não convidei o prefeito Marino, claro? Não o fiz e perguntei aos meus colaboradores e nem mesmo eles o convidaram. Ele se diz católico e veio espontaneamente. É claro.

A outra sobre o bombardeio. Na verdade, tive a notícia antes de ontem e não estou bem a par da situação. Ouvi dizer que a Rússia tinha uma posição; para os Estados Unidos ainda não estava claro. A verdade é que não sei te dizer, não entendi bem as coisas... Mas quando ouço a palavra bombardeio, morte, sangue, repito o que disse no Congresso e nas Nações Unidas: é preciso evitar estas coisas, mas não sei. Não julgo a situação política porque não a conheço.

Santo Padre, pela primeira vez o senhor visitou os Estados Unidos, falou no Congresso, nas Nações Unidas, levou autênticos banhos de multidões. Sente-se mais poderoso? E queria perguntar também porque o ouvimos destacar o papel das mulheres, das freiras nos Estados Unidos. Veremos alguma vez sacerdotisas na Igreja Católica, como pedem grupos nos Estados Unidos e como têm outras Igrejas cristãs?

Papa Francisco: As freiras nos Estados Unidos fizeram maravilhas. No campo da educação, da saúde... O povo dos Estados Unidos ama as freiras; não sei quanto ama os padres, mas ama as freiras, ama-as muito. São boas, são mulheres estupendas, estupendas. Cada uma segue a sua congregação, suas regras, há diferenças... Mas são magníficas. E por isso eu me senti na obrigação de agradecer por tudo o que fizeram. Uma pessoa importante do governo dos Estados Unidos me disse nestes dias: “O que eu tenho de cultura, devo-o em primeiro lugar às freiras”. As freiras têm escolas em todos os bairros, ricos, pobres, trabalham com os pobres nos hospitais. Esta era a primeira, da terceira me lembro. E a segunda qual era? 
PAPA FRANCISCO
abençoa uma criança durante passagem pelas ruas da capital dos Estados Unidos, Washington
Quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sente-se poderoso depois de ter estado nos Estados Unidos com esta agenda e de ter tido tanto sucesso?

Papa Francisco: Eu não sei se tive sucesso ou não. Mas eu tenho medo de mim mesmo. Porque me sinto sempre fraco, não sei, no sentido de não ter o poder. O poder também é uma coisa passageira, hoje existe, amanhã não existe. O importante é se com ele tu podes fazer o bem. E Jesus definiu o poder: o verdadeiro poder é servir. Fazer os serviços mais humildes. E eu ainda tenho que avançar neste caminho do serviço, porque sinto que não faço tudo o que devo fazer. Esse é o sentido que eu tenho do poder.

E em terceiro lugar, as mulheres sacerdotes. Não posso fazer isso. O Papa João Paulo II, depois de um longo tempo de reflexão, deixou dito claramente. Não porque as mulheres não têm capacidade! Olha que na Igreja as mulheres são mais importantes que os homens. Porque a Igreja é mulher. A Igreja, não o Igreja. A Igreja é a esposa de Cristo. E Nossa Senhora é mais importante que os papas e os bispos, e que os padres. Há uma coisa que devo reconhecer: nós estamos um pouco atrasados na elaboração da teologia da mulher; devemos avançar nessa teologia. Isso é verdade. Obrigado.

Santo Padre, nos Estados Unidos você virou uma estrela. É bom para a Igreja que o Papa seja uma estrela?

Papa Francisco: Tu sabes qual era o título que os papas usavam e que se deveria usar? Servo dos servos de Deus. É um pouco diferente de uma estrela. As estrelas são bonitas para serem vistas. Eu gosto de olhar quando o céu está sereno, no verão... Mas o Papa deve ser o servo dos servos de Deus. Sim, nos meios de comunicação usa-se isto, mas não é verdade. Quantas estrelas vimos que depois se apagam e caem. É uma coisa passageira. Ao contrário, ser o servo dos servos de Deus é bom: isso não passa. Não sei, penso assim.

Traduzido do espanhol por André Langer. Para acessar a versão original desta entrevista, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.

"O papa fascinou os Estados Unidos."

Entrevista com Massimo Faggioli
Historiador do cristianismo da St. Thomas University (EUA)

Pierluigi Mele
Rai News
(Itália)
28-09-2015

A viagem aos Estados Unidos vai marcar o pontificado do 
Papa Francisco.
Quais serão as consequências imediatas para a Igreja Católica?
Multidões acolheram com entusiasmo e alegria o Papa Francisco nesta viagem aos Estados Unidos

Professor, chegamos à fase final da viagem apostólica do Papa Francisco a Cuba e aos EUA. Uma viagem que marca o pontificado de Bergoglio: a confirmação disso veio com o seu discurso na ONU, a sua liderança espiritual e "política" em nível mundial. É assim?

Massimo Faggioli: O Papa Francisco se confirmou na sua identidade teológica, espiritual e também política na viagem aos EUA, que foi a mais difícil pela distância entre a sua cultura de referência e os extremos das culturas políticas e religiosas norte-americanas. O papa é hoje a autoridade mundial sobre pobreza, justiça social e ambiente. Mas outra coisa é transformar essa autoridade em uma mudança de direção das políticas sobre questões concretas.

A viagem aos EUA, que parecia mais "complicada", foi um sucesso. Qual foi a "chave" desse sucesso?

Massimo Faggioli: A chave está no estilo simples e pastoral que o caracteriza também em Roma; uma preparação cuidadosa da viagem e dos discursos; a escolha de se encontrar com a Igreja norte-americana "onde ela está", sem pretender que seja como a italiana ou a sul-americana; ao mesmo tempo, a escolha de uma mensagem que é diferente da retórica combativa e reivindicativa dos bispos norte-americanos, especialmente sobre as questões sensíveis do casamento, da família e da homossexualidade.

O ciclone Bergoglio investiu sobre a Igreja norte-americana, uma Igreja dividida. Ele vai mudar a vida da Igreja norte-americana?

Massimo Faggioli: Veremos em breve por parte dos bispos: dos norte-americanos que estarão no Sínodo, que se abre na próxima semana, e da próxima assembleia da Conferência Episcopal Norte-Americana. Será preciso esperar. O que é certo é que os opositores de Francisco parecem ser um grupo mais abatido e isolado hoje. Aquela grande parte dos bispos norte-americanos que aprecia Francisco virá à tona.

O discurso no Congresso dos EUA foi uma obra-prima política. Como ele foi vivido pela política dos EUA? Terá uma influência na campanha presidencial?

Massimo Faggioli: Eu acho que não: a política norte-americana vive hoje em uma bolha separada, também por causa dos sistemas de financiamento e de corrupção legal. Além disso ambos os partidos hoje estão divididos no seu interior, especialmente o partido mais religioso, o Republicano. Mas o discurso do papa no Congresso lembrou aos católicos e especialmente aos políticos católicos uma série de questões – não apenas as de moral sexual – que estão na base do ensinamento moral e social da Igreja.
 
Massimo Faggioli
Historiador do Cristianismo
St. Thomas University - Estados Unidos
Como a minoria "hispânica" viveu a visita do papa?

Massimo Faggioli: Como uma bênção e uma confirmação no seu papel: é uma minoria forte que em breve se tornará maioria, mas que ainda é invisível em grande parte dos ambientes que importam da Igreja Católica norte-americana.

Qual é a mensagem que vai aos europeus a partir dessa viagem?

Massimo Faggioli: Que a Igreja global também significa uma Igreja pós-europeia e pós-norte-americana. Nisso, a Europa e a América do Norte estão em duas situações semelhantes (mesmo que a Europa esteja mais secularizada). Trata-se de reconhecer que não existe mais um monopólio cultural sobre o catolicismo global por parte de uma cultura só.

Última pergunta: o outro desafio de Bergoglio será o Sínodo... A linha de Bergoglio vai vencer?

Massimo Faggioli: Na visita aos EUA, o papa deixou clara a sua abordagem não ideológica às questões do Sínodo. Resta ver todo o resto. Acredito que o Sínodo será uma etapa importante durante um processo que não vai terminar no dia 25 de outubro.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Para acessar a versão original desta entrevista, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.


Um discurso e uma visita históricos:
Papa Francisco na sede da ONU, Nova York
Ele uniu meio ambiente com exclusão social

Victoria Ginzberg
Página/12
(Argentina)
26-09-2015

O discurso fez referências à agenda sobre o desenvolvimento sustentável e a futura cúpula do clima que se realizará em Paris. Bergoglio vinculou os problemas do ambiente aos da pobreza, da exclusão e da exploração econômica. 
PAPA FRANCISCO
Acompanhado do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon adentra à sede das Nações Unidas
e é acolhido com entusiasmo pelos funcionários
Sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O Papa Francisco entrou no recinto da Assembleia Geral das Nações Unidas pouco antes das dez da manhã. Caminhou devagar pelo corredor enquanto representantes de todo o mundo o aplaudiam de pé. Os eixos do seu discurso foram os problemas ambientais e a exclusão social. Mas não como dois temas separados, mas interligados. Também vinculado a ambos os assuntos, Jorge Mario Bergoglio assegurou que os organismos financeiros devem “velar pelo desenvolvimento sustentável e pela não submissão asfixiante aos sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza e dependência”. Os primeiros aplausos vieram quando mencionou que todos os países devem ter a mesma participação no Conselho de Segurança da ONU e nas instituições econômicas internacionais.

Foi um dia atípico na Organização das Nações Unidas (ONU). Era o início da Assembleia Geral e também da Cúpula sobre o Desenvolvimento Sustentável. O organismo, suas autoridades e trabalhadores estão acostumados com as medidas de segurança e os visitantes importantes, já que todos os setembros se reúnem aqui dezenas de chefes de Estado. Esta oportunidade, no entanto, foi especial. Quando ainda era noite e os outdoors da Times Square brilhavam, inclusive um gigante com a figura de Francisco, com o qual o governo da cidade de Nova York lhe deu as boas-vindas, já havia gente esperando para entrar na sede do organismo internacional.

Antes de falar na Assembleia, o Papa teve outras atividades no edifício situado entre a Primeira Avenida e o East River: reuniu-se com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon e com outras autoridades e funcionários e depois falou para alguns trabalhadores do lugar. Os que puderam participar deste último evento foram escolhidos por sorteio. Da mesma forma foram escolhidos aqueles que puderam ver o Papa na procissão no Central Park, na missa no Madison Square Garden ou no percurso da quinta-feira pela Quinta Avenida.

O Papa falou aos funcionários da ONU em inglês: “Vocês são trabalhadores especialistas, funcionários, secretárias, intérpretes, cozinheiros, funcionários da manutenção, pessoal de segurança. Estejam tranquilos que seu trabalho contribui para a manutenção da ONU”. Destacou que vinham de diferentes partes do mundo e pediu “que se respeitem mutuamente, que se preocupem uns pelos outros, que estejam próximos”. Finalmente, pediu “que mandem saudações aos seus familiares e aos colegas que não puderam estar conosco por causa do sorteio”. Dentro do edifício, Francisco fez alguns trajetos em um carrinho tipo golfe e foi aplaudido nos corredores. Quando entrou no salão da Assembleia, também foram ouvidos gritos de apoio.

Bergoglio mencionou que não é o primeiro Papa a falar na ONU, embora Bank Ki-moon tenha dito que nenhum papa tenha participado de uma abertura da Assembleia Geral e lhe agradeceu por “fazer história”. No discurso, fez referências à agenda sobre o desenvolvimento sustentável e a futura cúpula do clima que se realizará em Paris. O tema coincide com a preocupação do Papa, que dedicou sua encíclica Laudato si’ aos problemas do ambiente e os vinculou, por sua vez, aos da pobreza, da exclusão e da exploração econômica. Francisco falou em castelhano e em seguida enviou uma mensagem interna ao organismo internacional sobre a necessidade de que todos os países sejam iguais, inclusive no Conselho de Segurança, onde cinco potências (Estados Unidos, Rússia, Grã-Bretanha, França e China) têm poder de veto. 
PAPA FRANCISCO
profere um discurso histórico para os chefes de Estado e diplomatas presentes
à Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU)

Também falou de equidade em relação ao sistema financeiro e aos organismos de crédito internacional. “A reforma e adaptação dos povos sempre é necessária, para avançar no objetivo último de conceder a todos os países, sem exceção, uma participação real e equitativa nas decisões. É necessária uma maior equidade nos órgãos com efetiva capacidade, como o Conselho de Segurança, os organismos financeiros ou os grupos especialmente criados para enfrentar crises econômicas, para ajudar a mitigar todo tipo de abuso ou usura com os países em desenvolvimento”.

E prosseguiu: “Os organismos financeiros devem velar pelo desenvolvimento sustentável dos países, evitando uma sujeição sufocante desses países a sistemas de crédito que, longe de promover o progresso, submetem as populações a mecanismos de maior pobreza, exclusão e dependência”, disse em uma menção que na Argentina não pode passar despercebida, nem estar desligada do conflito com os fundos abutres, nem do marco regulatório sobre a reestruturação da dívida soberana que foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU há três semanas. O tema, tanto a votação que se fez no organismo internacional por iniciativa da Argentina, como a alusão do Papa, será mencionado seguramente pela presidenta Cristina Fernández de Kirchner, que chegou sábado a Nova York e que falará na segunda-feira na ONU.

Em outras partes mais políticas do seu discurso, Francisco respaldou o acordo que os Estados Unidos e cinco potências fizeram com o Irã e que foi rechaçado pelos republicanos e o Estado de Israel. “É uma prova das possibilidades da vontade política. Faço votos para que seja duradouro e eficaz”.

Vestido de branco, usando os óculos e sua cruz pendurada no peito, o Papa mencionou que “a promoção da soberania do direito, sabendo que a justiça é um requisito indispensável para se realizar o ideal da fraternidade” e que “nenhum indivíduo ou grupo humano pode se considerar onipotente, autorizado a pisar a dignidade e os direitos dos outros indivíduos ou dos grupos sociais”. Disse que é necessário “consolidar a proteção do meio ambiente e acabar com a exclusão”, que “qualquer dano provocado ao ambiente é um dano causado à humanidade” e que o dano ao ambiente vem acompanhado da exclusão.

“A exclusão econômica e social é uma negação da fraternidade humana e um gravíssimo atentado à dignidade humana e ao ambiente. Os mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave motivo: são descartados pela sociedade, ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios, e devem sofrer injustamente as consequências do abuso do ambiente. Esta é a cultura do descarte”.

Convidou os líderes mundiais a adotar uma agenda para o desenvolvimento sustentável e alcançar resultados sobre a mudança climática. Mas pediu que as ações não sejam apenas declarativas. “O mundo pede vivamente a todos os governantes uma vontade efetiva, prática, constante, feita de passos concretos e medidas imediatas, para preservar e melhorar o ambiente natural e superar o mais rapidamente possível o fenômeno da exclusão social e econômica, com suas tristes consequências de tráfico de seres humanos, tráfico de órgãos e tecidos humanos, exploração sexual de meninos e meninas, trabalho escravo, incluindo a prostituição, tráfico de drogas e de armas, terrorismo e criminalidade internacional organizada”.

Também fez menções aos temas mais tradicionais da Igreja, como o “direito da família a educar e da Igreja a colaborar com as famílias” e a “liberdade religiosa”. E terminou com uma citação de Martín Fierro: “Os irmãos estejam unidos, porque esta é a primeira lei. Tenham união verdadeira em qualquer tempo que seja, porque se litigam entre si, serão devorados pelos de fora”.

O final foi com aplausos, mas ainda havia uma surpresa: um coro o esperava para cantar Dorme, negrinho, a canção de berço tradicional gravada por Atahualpa Yapanqui e popularizada por Mercedes Sosa. Depois veio Shakira com “Imagine”. Mas o Papa teve que sair, porque tinha uma agenda muito apertada para cumprir.

Traduzido do espanhol por André Langer. Para acessar a versão original deste artigo, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 29 de setembro de 2015 – Internet: clique aqui.

Enfraquecer o PMDB é uma necessidade do país

Janio de Freitas

“O PMDB faz com Dilma o que fez com Sarney, em situações política e econômica também semelhantes... Dilma é vítima apenas circunstancial, do PMDB como do PSDB, porque a verdadeira vítima é o país.”
O trio que comanda o PMDB atualmente (da esquerda para a direita):
Dep. Fed. Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
Vice-Presidente da República Michel Temer (PMDB-SP) e
Sen. Renan Calheiros (PMDB-AL).

Ainda que paradoxal, na existência já de mais de 30 partidos, a criação de outro – a ser decidida hoje – é capaz de levar a um necessário tumulto no panorama partidário. Se autorizado pela Justiça Eleitoral e cumpridos os acordos para adesão de deputados, o Partido Liberal resultará, mais do que no fortalecimento de Dilma Rousseff, no enfraquecimento do PMDB. E enfraquecer o PMDB é uma necessidade do país.

Desde a volta ao regime civil, o PMDB tem usado a sua preponderância parlamentar como fator desestabilizante. Esta é uma afirmação contrária à ideia estabelecida, mas coincidente com os fatos rememoráveis. Saído da ditadura com a aura de representante da luta e da reconstrução democráticas, o PMDB se posicionou como força orientadora e incontrastável. Cabe-lhe a responsabilidade por grande parte dos fracassos administrativos e da intranquilidade política no governo Sarney, sem que isso fosse reconhecido na época nem depois.

Ulysses Guimarães, instigado pelas correntes da divergência interna no PMDB, e sempre desejoso de ser o líder de todas, foi o portador impositivo de reivindicações e ambições peemedebistas incessantes. A estas juntaram-se as manobras de Sarney para criar áreas de domínio seu no governo, de tudo decorrendo um governo inviável. Com penosas consequências para o país como um todo e sobretudo para as classes carentes. O PMDB não governou, porque não era governo, mas também não fez oposição consequente, porque se supunha e agia como o verdadeiro governo. O poder tinha que ser do PMDB.

Foi de Collor. Graças ao PMDB. A imposição do plano anti-inflacionário tresloucado só foi possível porque o PMDB garantiu-o no Congresso. Todos os desatinos que se seguiram foram apoiados ou consentidos pelo PMDB. Mesmo quando a exacerbação dos problemas de Collor, em torno dele e no governo suscitou animosidade nacional, o PMDB tergiversou o quanto pôde, acompanhado pelo PFL (hoje DEM). O país não teria passado pela maior parte do acontecido no período Collor, não fosse a garantia inicial dada pelo PMDB, com seu longo comprometimento.

Fernando Henrique hoje posa, uma especialidade, de vestal udenista. Em seu governo entregou-se ao PMDB, mas não só: também se entregou ao PFL. O método pesado de Sérgio Motta, com as mãos nos bolsos, e, depois, a eficiência sutil de Luís Eduardo Magalhães não evitaram a sucessiva entrega ao PMDB de ministérios, de pedaços do governo, de muitas verbas altas e outras vantagens pacificadoras. Dos muitos bilhões do Proer às privatizações, ou aos bloqueios à CPI da compra de votos para reeleição e a outras CPIs, o governo Fernando Henrique pagou altos preços pelo apoio ou pelo consentimento do PMDB. Sem os quais Fernando Henrique e o governo não se aguentariam com tais escândalos, mesmo sob a proteção midiática.

O primeiro mandato de Lula foi um entregar dos pontos para todos os lados. Menos para aqueles com os quais o próprio Lula e o PT tinham o seu compromisso existencial. A CPI do mensalão e o subsequente processo apenas alargaram as portas para o alheio. No centro desse enclave invasor, o PMDB – antecipando o que seria a forte "base aliada" do segundo mandato.

O governo Lula não foi erodido por crises, passado o mensalão. Mas, em grande parte, porque o toma-lá/dá-cá com o PMDB foi executado com muito mais habilidade, talvez como contribuição da experiência de Lula nas batalhas sindicais. Mas a herança de Lula para Dilma começou e terminou na entrega da faixa presidencial. O PMDB faz com Dilma o que fez com Sarney, em situações política e econômica também semelhantes. Não é preciso mencionar o que o PMDB das pautas-bombas [aprovando projetos de lei que aumentam, irresponsavelmente, os gastos do governo] tem feito. É suficiente chamar atenção para o verdadeiro sentido da ação do PMDB: Dilma é vítima apenas circunstancial, do PMDB como do PSDB, porque a verdadeira vítima é o país.

Se o Partido Liberal nasce e recebe as adesões já combinadas, tornará possível uma aliança partidária que se equipare em número ao PMDB. Sem efeito direto sobre a crise – que a fraternidade PMDB-PSDB, com auxílio dos demais seguidores de Eduardo Cunha, é bastante para manter. Mas a nova aliança quebraria a perniciosa predominância parlamentar com que o PMDB se faz operador de crises, tanto políticas como de governabilidade. Contra o país.

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunistas – 29/09/2015 – 02h00 – Internet: clique aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

MENTIRAS SÃO DESMENTIDAS POR FATOS!

Governo cortará R$ 25 bilhões em gasto social

Murilo Rodrigues Alves e Adriana Fernandes

Apesar de ter prometido não mexer em programas sociais, Dilma se viu
obrigada a reduzir gastos na previsão de orçamento do ano que vem

A presidente Dilma Rousseff cortou R$ 25,5 bilhões dos gastos com programas sociais previstos em 2016, em relação ao orçamento deste ano, segundo levantamento feito pelo jornal O Estado de S. Paulo com números oficiais do Ministério do Planejamento. A tesourada atingiu até mesmo a construção de creches, unidades básicas de saúde e cisternas. A maior redução de aportes foi justamente em “vitrines” da gestão petista, como investimentos sociais do PAC, Minha Casa Minha Vida e Pronatec.

Durante a campanha e no início do segundo mandato, Dilma repetiu à exaustão que “em hipótese alguma” cortaria recursos dos programas sociais criados pela gestão petista. Mas foi obrigada a abrir mão da promessa para tentar recuperar a confiança dos investidores na economia brasileira. Se somados os cortes adicionais em projetos do PAC que ainda não estão definidos, mas que também atingirão a área social, o enxugamento em 2016 pode chegar a R$ 29,34 bilhões.

O corte dos programas expõe a contradição que vive a presidente e seus ministros nesse cenário de crise econômica e política. Por um lado, precisa provar que o governo está “cortando na carne” para garantir o esforço fiscal, como cobram parlamentares, economistas e empresários. No entanto, com a popularidade na mínima histórica e em meio a protestos e greves promovidos pelos movimentos sociais, evita falar sobre o sacrifício em programas sociais, bandeira de sua campanha à reeleição presidencial.

CORTES

O tamanho do corte nos programas sociais corresponde a 74% do superávit primário – economia para o pagamento dos juros da dívida – prometido pela União em 2016: R$ 34,44 bilhões. Para o economista Mansueto Almeida, especialista em finanças públicas, a presidente não teve outra saída, mesmo que tenha preferido adotar um “corte envergonhado”.

“O governo tem vergonha de mostrar que está cortando em programas considerados ‘vacas sagradas’. Por isso, fica a impressão ao Congresso e ao mercado que o corte tem sido tímido”, afirmou. Por outro lado, avalia Mansueto, mesmo com os cortes nesses programas, o orçamento engessado inviabilizará o cumprimento da meta estipulada para o ano que vem.

O corte nesses programas alimenta a briga dos gabinetes na Esplanada dos Ministérios na disputa de quem perde menos. A presidente tentou resistir à pressão, mas acabou cedendo, admitem interlocutores. “O ponto central é que os programas sociais se tornaram insustentáveis”, avalia Murillo de Aragão, cientista político da Arko Advice.

“Os programas não acabaram, vão continuar existindo, mas nos próximos anos rodarão em ritmo mais lento diante da frustração de receitas. Por mais que haja redução no ritmo, não deixaremos de atender à população”, rebate a secretária de Orçamento do Ministério do Planejamento, Esther Dweck. Ela frisou que esses programas não existiam antes da gestão petista.

EXCEÇÕES

O único dos programas sociais em que não houve corte no orçamento de 2016 na comparação com o deste ano foi o de financiamento estudantil. O aumento de 5,5% de um ano para outro não significa, porém, que o Fies não tenha sido reavaliado. O resultado do endurecimento das regras de acesso ao programa somente terá impacto nos próximos anos.

As tesouras só não atingiram mesmo o Bolsa Família, que manteve o orçamento de R$ 28,8 bilhões em 2016, o equivalente a 2,4% das despesas totais da administração federal.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia – Domingo, 27 de setembro de 2015 – Pg. B5 – Internet: clique aqui.

Tenho alívio pela oposição não ter vencido”

Entrevista com Eduardo Giannetti*

Luiz Guilherme Gerbelli

Para economista, há uma “certa justiça” no fato de que
quem provocou a crise tenha, agora, de lidar com ela 
EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA
Economista, Professor e Escritor

O economista Eduardo Giannetti esteve no centro do debate econômico nas duas últimas eleições presidenciais. Foi um dos conselheiros da candidata Marina Silva, terceira colocada nas disputas de 2010 e 2014. Hoje, na agenda do País, Giannetti vê dois grandes desafios a serem enfrentados por qualquer governo:
  • a questão fiscal e
  • o presidencialismo de coalizão.

No quadro político, Giannetti acredita que a presidente Dilma Rousseff termina o mandato de forma enfraquecida. “Parte do problema do governo Dilma é o desmascaramento entre os próprios eleitores das mentiras que vendeu durante a campanha”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Até quando a economia aguenta essa turbulência política?

Eduardo Giannetti: Vivemos uma combinação perigosa de crise econômica e política em que uma alimenta a outra. A crise econômica enfraquece o governo e derruba a popularidade da presidente, o que a deixa muito frágil do ponto de vista político, sem autoridade. E, ao mesmo tempo, a falta de coordenação e autoridade do governo dificulta a aprovação das medidas econômicas de curto prazo que o País precisaria para, pelo menos, não ter um colapso.

O sr. vê esse risco?

Eduardo Giannetti: Eu não vejo nenhum risco iminente de colapso. A situação externa do Brasil não é periclitante. Nós temos reservas cambiais de US$ 370 bilhões, que são um seguro contra a fuga de capitais. Estamos com um déficit em conta corrente num caminho de ajustamento. Não há risco de colapso iminente, mas o problema é que não se vislumbra nenhum horizonte de recuperação da economia.

Quais as consequências da falta de visão de longo prazo?

Eduardo Giannetti: Isso é o que nos deixa muito apreensivos e aumenta muito a incerteza dos agentes econômicos. Essa é quinta recessão do País desde a estabilização monetária em 1994. As quatro anteriores tiveram uma característica comum: foram recessões curtas. Passados dois a três trimestres, a economia já estava voltando a crescer. Depois de cinco a seis trimestres, a economia já tinha superado o nível de atividade do início da recessão. Desta vez, não é assim. Nós estamos diante de uma recessão de outra natureza e com caráter aparentemente crônico. Ela começou no segundo trimestre de 2014, embora, na época, nós não soubéssemos, e está se aprofundando. E o mais grave é que não há no horizonte nada que indique uma recuperação.

No curto prazo, o que o governo poderia fazer para que essa melhora fosse vislumbrada no longo prazo?

Eduardo Giannetti: O governo está mostrando repetidamente que não tem competência e força para fazer o que o Brasil precisa. Eu fiquei muito mal impressionado com o amadorismo e a improvisação do pacote fiscal. Curiosamente, faz lembrar o estilo das pedaladas fiscais e da contabilidade criativa. É uma tentativa de parecer que está se fazendo algo, o que, na realidade, não está se fazendo. Só que agora no sentido da contenção e não da expansão (de gastos). Mas é preciso olhar as árvores e a floresta. Toda a discussão está focada nas árvores e, às vezes, até na folha. Existem duas crises que o País vai ter de enfrentar independentemente de quem for governo. Nenhuma das duas crises pode-se dizer que nasceu com a Dilma, embora tenham se acelerado com ela.
1ª CRISE: ESGOTAMENTO DA EXPANSÃO DE COBRANÇA DE IMPOSTOS

Quais são as duas crises?

Eduardo Giannetti: [1ª] A primeira delas é o esgotamento da expansão fiscal que começou em 1988. A carga tributária bruta em 1988 era 24% do PIB. Hoje, estamos com 36% do PIB [Produto Interno Bruto = a soma de tudo aquilo que o país produz em um ano]. Era um carga normal para um País de renda média, mas atualmente estamos completamente fora do padrão. Isso é apenas um primeiro elemento da crise fiscal brasileira. Nós também temos um déficit nominal de 8% do PIB. Você soma a carga tributária e o déficit nominal e chega a 44% do PIB. De todo valor criado pelo trabalho dos brasileiros a cada ano, 44% transitam pelo setor público. E o Estado brasileiro não atende às necessidades mais elementares de cidadania. Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras.

Esse padrão se esgotou, então?

Eduardo Giannetti: Eles estão tentando resolver mais uma vez como sempre se resolveu desde 1988. Não dá para pagar as contas, vamos para o bolso do contribuinte. Existe um aspecto emergencial de ter um orçamento com superávit primário que segure minimamente a dívida em trajetória explosiva, mas tem um ASPECTO ESTRUTURAL que o Brasil vai ter de enfrentar: qual é o tamanho e as funções do Estado que nós desejamos preservar. Vou discordar de alguns colegas, economistas, que dizem que o que ocorreu em 1988 e causou toda essa deterioração fiscal foi o novo contrato social. Na minha avaliação, o contrato social é um pedaço do estrago. O contrato social, entendendo aqui, como aposentadoria do setor rural, o SUS, o Bolsa Família. Ninguém questiona a legitimidade disso. Não é isso que explica a gravidade do quadro fiscal em que nos metemos.

O que explica, então?

Eduardo Giannetti: O Bolsa Família é 0,5% do PIB. É o troco. O Bolsa BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – que financia projetos de empresas que investem no Brasil e, até mesmo, fora dele] é maior do que o Bolsa Família. O subsídio que o Estado transfere para empresários que obtêm crédito subsidiado supera o Bolsa Família. O BNDES não tem nada a ver com o contrato social. A criação de 1,3 mil novos municípios de 1988 para cá também não tem nada a ver. Multiplicaram-se muitas e muitas máquinas públicas e câmaras de vereadores que não agregaram resultados de bem-estar. A previdência do setor público, que é escandalosamente distorcida, não é contrato social. Tem muita coisa relevante nesse enredo que não pode ganhar o verniz de legitimidade de um novo contrato social.

E a segunda crise, qual é?

Eduardo Giannetti: Ela também é de longo prazo. [2ª] É a crise da representação política. O presidencialismo de coalizão foi praticado com certa habilidade por líderes, como foram Fernando Henrique e Lula, mas degringolou com alguém que não tem aptidão para a liderança. A Dilma cedeu 39 ministérios para dez partidos e não recebeu o apoio em troca do que ela cedeu. Estamos vendo um esgotamento de um modo de governar. Ou seja, o mandatário se sustenta com base no loteamento de fatias do poder e de verbas em troca de apoio.

No caso do contrato social, o governo tem de lidar com interesses. O sr. acha que empresas e população estão dispostas a abrir mão de benefícios?

Eduardo Giannetti: Os países que enfrentam crises como a do Brasil acabam chegando a um acordo em nome de uma possibilidade para todos de melhorar em seguida. O Brasil tem um problema de hipersensibilidade a perdas no curto prazo. Não há processo de avanço e de melhoria nos quais em alguns momentos você não tenha de aceitar sacrifícios agora em nome de benefícios futuros.

Essas crises podem se arrastar até 2018 ou elas têm poderes explosivos antes da próxima eleição?

Eduardo Giannetti: Às vezes, eu me pergunto se essa é a pior crise do Brasil na Era Republicana. O Brasil viveu uma hiperinflação, o confisco da poupança e o impeachment num intervalo de dois anos na época do Collor. Nós não tivemos nesta crise nada dessa ordem até agora. Aí é que me veio um raciocínio: toda crise séria, enquanto ela se desenrola, é a pior crise, porque não se sabe até onde ela vai chegar. Isso causa muito desconforto e angústia nas pessoas. O que mais causa angústia é não vislumbrar um caminho de saída, porque, além da crise econômica e da política, tem uma outra crise, que é a da ausência de liderança.

Mas com o governo enfraquecido, o sr. acha que as duas questões conseguem ser levadas até 2018?

Eduardo Giannetti: É difícil fazer esse tipo de previsão porque o quadro está mudando muito rapidamente. Eu continuo achando que o cenário mais provável é a Dilma permanecer muito enfraquecida até o fim do mandato. Mas tem grandes imponderáveis nessa história:
  • as ruas,
  • a Lava Jato e
  • a articulação política que está se montando de grupos que estão percebendo a oportunidade de ocupar o poder sem passar pelo voto.

Na última eleição, os candidatos de oposição falavam na necessidade de ajuste. Um governo de oposição enfrentaria um cenário diferente?

Eduardo Giannetti: Seria uma situação complicadíssima. Eu confesso que, às vezes, tenho um arrepio de alívio pelo fato de a oposição não ter vencido aquela eleição. Iria ser muito difícil explicar para a população brasileira que o que está acontecendo não tinha começado com o novo governo. Foi mantida artificialmente uma situação ilusória, mas a realidade se impôs e coincidiria com o início de um novo governo. Acho que há uma certa justiça no fato de que quem provocou, agora, assuma a responsabilidade de lidar.

E houve uma deterioração muito rápida desde o início do ano.

Eduardo Giannetti: Depois de toda a euforia do governo Lula, a guinada de expectativa não tem paralelo na história brasileira. Uma coisa é como foi nos anos 80: o País se arrastando por uma década numa crise e a coisa a piorar ainda mais. Outra coisa é uma situação de vitória, de considerar que o País encontrou o padrão e, de repente, perceber que aquilo desabou tão rapidamente. Girar a catraca para trás é muito complicado, inclusive para a população que estava começando a ter acesso a um padrão de vida.

A sensação de virar a catraca começou depois da eleição?

Eduardo Giannetti: A situação já estava péssima durante a campanha, mas o governo, com muita habilidade e com a ajuda de um gênio diabólico como o João Santana, conseguiu criar uma sobrevida daquele sentimento de pleno emprego, renda crescendo e conquistas intocáveis. Foi uma campanha extremamente enganosa. E parte do problema do governo Dilma é o desmascaramento entre os próprios eleitores das mentiras que vendeu durante a campanha.

O sr. acredita que esses apoiadores vão dar sustentação para o governo?

Eduardo Giannetti: Eu tenho impressão de que, para o PT, o ideal é a Dilma renunciar. Para o Lula, inclusive. Eles vão para a oposição, podem olhar de camarote a frustração do governo que assume e desincumbem-se da responsabilidade pelo caos que implantaram.

E como seria esse governo?

Eduardo Giannetti: Seria um governo de transição até 2018, como foi o governo do Itamar e, quiçá, com alguma surpresa boa como houve durante aquele governo, de alguma iniciativa mais abrangente diante do problema fiscal e da reforma política.

Com o Temer na liderança?

Eduardo Giannetti: Tem de fazer o que manda a Constituição. O que ela manda é que o vice assume no caso da renúncia de um presidente. É a lei.

* Eduardo Giannetti nasceu em Belo Horizonte (MG), é economista formado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) e em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) ambas da Universidade de São Paulo (USP). Doutorado em economia pela Universidade de Cambridge, onde foi professor entre 1984 e 1987 e de 1988 a 2001. Lecionou na FEA/USP. Atualmente é professor integral no Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), conhecido anteriormente como Ibmec São Paulo. Nas eleições presidenciais de 2010 e 2014, foi um dos principais assessores de Marina Silva.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia – Domingo, 27 de setembro de 2015 – Pg. B4 – Internet: clique aqui.

“Crise econômica vai ficar pior
e mais profunda...
a partir de 2017, haverá substancial melhora”

Clarice Couto

Mendonça de Barros projeta uma retração da atividade de 2,5% neste ano
e de 1,4% em 2016; desemprego deve chegar a 10% ainda em 2015
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
Economista e Fundador de uma das primeiras consultorias econômicas do Brasil:
a MB Associados - São Paulo - SP

O economista e sócio da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, alertou que se a crise econômica pela qual passa o Brasil está ruim, "vai ficar pior e mais profunda do que se imaginava". "A MB Agro projeta crescimento negativo de -2,5% para o Brasil este ano e de -1,4% para o ano que vem. Até a eleição municipal do ano que vem, a situação vai ser muito difícil. A partir de 2017, haverá uma substancial melhora e uma consolidação da economia nesta transição", declarou o economista. Mendonça de Barros participou de evento em São Paulo (SP) sobre mercado de capitais e o agronegócio, promovido pela consultoria Ecoagro e pela Pinheiro Neto Advogados.

Além de crescimento negativo, o economista comentou também que a MB Associados estima que, ao fim de 2015, a taxa de desemprego deve chegar a 10% [a taxa de desocupação já está em 8,6% até julho, segundo o IBGE, clique aqui]. Como consequência deste fator, o consumo das famílias também deve cair. "A retomada vai ser devagar, mas não significa que não voltaremos a crescer", afirmou Mendonça de Barros.

Com relação à inflação, a MB Associados projeta 10% para 2015 e 5,6% em 2016. Ainda para o ano que vem, além da desaceleração da inflação no próximo ano, Mendonça de Barros projeta melhora do saldo comercial brasileiro, por conta das exportações de commodities. "Achamos que o Banco Central não vai aumentar a taxa de juros (Selic). Não tem razão para fazer isso e não deveria fazê-lo", disse. Enquanto a balança comercial brasileira deve ficar em US$ 14,4 bilhões este ano, a MB projeta, para o ano que vem, US$ 30 bilhões.

Tendo em vista as mudanças em curso no cenário político e econômico do País, o economista alertou que as empresas brasileiras precisão promover mudanças de gestão para sobreviver à crise. "Os negócios não poderão mais se basear em favores fiscais e crédito subsidiado, em todas as esferas de governo", disse. Mendonça falou ainda que as empresas precisam fazer um esforço para melhorar suas práticas internas e usar a força de seus bons balanços para buscar a consolidação. "Vamos ter uma gigantesca consolidação dos ativos brasileiros". Por fim, o economista reforçou que o agronegócio brasileiro tem posição favorável no cenário. "É um setor competitivo internacionalmente e tem em seu modelo de negócios o avanço tecnológico".

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Economia & Negócios – 25 de setembro de 2015 – 12h25 – Internet: clique aqui.