«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A IGREJA SOFRE HOJE "AS DORES DO PARTO" - DIAS MELHORES VIRÃO!

Em novos escândalos, o catolicismo sente as
dores do parto da reforma

John L. Allen Jr.
Crux
12-01-2016

Agora é a própria Igreja Católica que está indo fundo na investigação
e denúncia de abusos sexuais e outros crimes em seu interior. 
CORAL DOMSPATZEN DE REGENSBURG (ALEMANHA):
Na foto, à frente do coral, estão o Papa Bento XVI com seu irmão padre Georg Ratzinger e o
arcebispo Piero Marini, depois de um concerto pelo coro dos meninos na Capela Sistina (Vaticano), em 2005.
(Getty Images)

Recentemente na Alemanha surgiram notícias sobre o abuso sexual e físico generalizado em um coro católico bem-conhecido, notícia que ricocheteou ao redor do mundo porque, quando o abuso ocorreu, o coro era conduzido pelo padre Georg Ratzinger, irmão do Papa Emérito Bento XVI.

A informação era realmente chocante: pelo menos 231 crianças abusadas ao longo de quatro décadas, desde os anos 1950 à década de 1990, representando um em cada três meninos do coro “Domspatzen” de Regensburg.

O advogado que compilou o relatório disse que, embora não haja acusações de abuso contra Ratzinger, que hoje está com 91 anos, a investigação o leva a crer que o irmão do papa emérito deva ter tido conhecimento do que estava acontecendo.

Em torno da mesma época, o Vaticano estava sofrendo com as reviravoltas da saga “Vatileaks 2.0”, centrando-se nos vazamentos de documentos papais sigilosos que revelaram vários tipos de corrupção financeira ou gastos dúbios: cardeais vivendo em apartamentos luxuosos, dinheiro sendo usado para influenciar nas causas de santidade, todos os tipos de pessoas que não deveriam ter acesso a produtos de baixo custo no Vaticano tais como cigarro e gasolina, e assim por diante.

As duas histórias são embaraçosas para o Vaticano e para a Igreja, e ambas levantam perguntas perturbadoras: Como uma má-conduta como esta pôde continuar por tanto tempo sem ser detectada, e que tipo de responsabilização poderá ser imposta de forma que não aconteça novamente?

Perdido nessa situação toda, no entanto, está um outro ponto que tanto a história alemã de abuso quanto o Vatileaks 2.0 têm em comum: nem um dos dois teria vindo à tona caso a própria Igreja não tivesse tomado a decisão de ir a fundo neles.

No caso do coro, o advogado que apresentou o recente relatório estava assim procedendo em nome da Diocese de Regensburg, na Baviera. A diocese o contratou depois que surgiram as primeiras acusações de abuso. O intuito era descobrir o que havia acontecido e quem era o responsável.
 
LIVROS PUBLICADOS NA ITÁLIA EM 2015
Denunciando esquemas de abuso do uso do dinheiro e outros
benefícios por parte de membros do Vaticano.
Escândalo que recebeu a denominação de Vatileaks 2.0
Da mesma forma, os documentos em questão do caso Vatileaks 2.0 vieram de uma comissão criada pelo Papa Francisco logo após a sua eleição, conhecida pela sigla italiana COSEA, cujo objetivo era examinar as operações financeiras do Vaticano detalhadamente e fazer propostas de reforma.

A comissão apresentou o seu relatório final em 2014, incluindo mais ou menos 20 casos específicos de irregularidades financeiras.

É isso o que faz estas situações serem diferentes, digamos, da primeira crise em torno dos escândalos de abusos sexuais cometidos pelo clero, quando vítimas, advogados e jornalistas investigativos traziam segredos à luz do dia e as autoridades católicas se esforçavam ao máximo para cancelá-los [leia matéria abaixo]. Nos casos mais recentes, a Igreja era quem os estava revelando, e não o contrário

Um outro jeito de ver tanto o escândalo do coral juvenil quanto o Vatileaks 2.0, portanto, é que eles são as dores do parto da reforma.

“Dores do parto” é uma imagem bíblica, tirada de Mateus 24, onde Jesus discute o fim dos tempos: “De fato, uma nação lutará contra outra, e um reino contra outro reino”, diz ele. “Haverá fome e terremotos em vários lugares”. “Mas tudo isso”, continua, “é o começo das dores [do parto] (...) Mas quem perseverar até o fim, será salvo”.

Sem ir muito longe na esteira da especulação apocalíptica, a sabedoria contida nessa passagem é que os períodos de transição são, normalmente, marcados por um grande tumulto, mas a turbulência pode ser um arauto de algo melhor por vir.

Sem dúvida, é frustrante para muitos católicos que os meios de comunicação deem destaque a reportagens de escândalos, sem uma ênfase igual no fato de que alguém na Igreja tem desenterrado as falhas em um esforço em fazer as coisas certas.

Em outras palavras, a cobertura da imprensa é, muitas vezes, focada nas partes tristes, sem lembrar das boas novas.

O fato é que quanto mais a Igreja se esforçar em se confrontar com os seus erros, mais verdades desagradáveis virão à tona, o que provavelmente quer dizer mais notícias ruins.

Aos que não acompanham estas histórias de perto, pode parecer que tudo isso é terrivelmente prejudicial para a imagem da Igreja, mas quem é de dentro vai perceber que se trata do preço da mudança.

O fato de que o coro de Regensburg reconheceu o abuso, ou de que o papa fora informado das irregularidades financeiras, em si não significa que a reforma chegou para ficar.

A divulgação do que se encontrou nesses movimentos é um começo promissor, mas muito mais resta a ser feito, inclusive a justiça para as vítimas e a questão da responsabilização, tanto pelos crimes como pelo acobertamento.

Enquanto isso, os católicos podem, pelo menos, ficar felizes de que nestes dois casos, e em uma série crescente de outros, a Igreja não se viu forçada a evitar encarar os fatos. Ela fez as perguntas difíceis por si mesma e foi em busca de respostas, o que é um primeiro passo em direção a tentar fazer melhor.

Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 13 de janeiro de 2016 – Internet: clique aqui.

Filme “Spotlight” expõe entranhas da
religião e da imprensa

Otavio Frias Filho

A investigação jornalística retratada no filme "Spotlight - Segredos Revelados" foi o que deu visibilidade ao pesadelo subterrâneo dos abusos sexuais contra crianças praticados por sacerdotes católicos. Antes havia denúncias esparsas, sempre refutadas pela Igreja.

As primeiras reportagens da série publicada em 2002 pelo jornal "The Boston Globe" implicavam 70 padres na cidade [BOSTON, nos Estados Unidos], que abriga uma das maiores comunidades católicas dos Estados Unidos. Essa cifra logo se multiplicou, conforme casos semelhantes passaram a irromper em toda parte.

Em 2014, o Vaticano alegava haver aplicado sanções contra cerca de 3.500 religiosos nos últimos dez anos (quase 1%, num universo de 400 mil); os papas anteriores e o atual amontoaram pedidos de desculpas. O assunto é dramático para a instituição porque os crimes não se restringiam aos abusos cometidos, em geral por padres que cativavam meninos em situação familiar vulnerável.

Como atestaram as reportagens da equipe investigativa do jornal (chamada "spotlight", holofote), um meticuloso esquema de acobertamento dos delitos e proteção dos infratores era mobilizado por superiores hierárquicos, no caso de Boston por seu infame arcebispo, o cardeal Bernard Law, que renunciou em dezembro de 2002.

Parece óbvio que uma parcela de sacerdotes mantém alguma vida sexual, o que deve favorecer certo "silêncio obsequioso" na corporação. Além disso, embora as estatísticas não sejam conclusivas ao comparar a prática de crimes sexuais por adultos leigos e religiosos, é de se imaginar que uma profissão que recruta celibatários e lhes confere poderes supostamente mágicos corre o risco de atrair indivíduos propensos a distúrbios como a pedofilia.
BERNARD LAW
Era o cardeal-arcebispo de Boston (Estados Unidos) na época dos escândalos de abuso sexual de menores
por parte de padres de sua arquidiocese.
Por ter sido considerado conivente, ele teve de renunciar ao cargo em 2002.

O filme que o diretor Tom McCarthy fez da persistente apuração levada a cabo pelo "Globe" é sóbrio, cinzento como uma tarde bostoniana (dispensável o piano um tanto pernóstico da trilha). Em meio às inevitáveis cenas de jornalismo explícito (anotações frenéticas, portas batidas na cara de repórteres etc.), uma aura de suave heroísmo banha a equipe do jornal.

O adversário aqui não é uma ditadura sanguinária, mas a melíflua e sufocante influência que a Igreja irradia sobre Boston e que se faz sentir dentro mesmo de seu principal periódico, onde muitos editores provêm de tradicionais famílias católicas.

Foi devido à obsessão de três forasteiros – um editor-executivo judeu, um repórter de origem portuguesa e um advogado armênio – que se rompeu o circuito da inércia acomodatícia, quando o jornal, depois de tatear às cegas, decide enfim aprofundar a investigação dos indícios de abuso.

Esse aspecto do filme dissolve o maniqueísmo latente. Denúncias contra padres e bispos haviam sido recebidas antes pelo "Globe" e registradas em notas despercebidas, quando não sumiram no buraco negro que existe em toda Redação, feito de falta de tempo, recursos, paciência e incentivo para quebrar o hábito. Demorou para a notícia ser percebida, mas sua repercussão ainda ecoa.

SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS
DIREÇÃO: Tom McCarthy
ELENCO: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams
PRODUÇÃO: EUA, 2015, 12 anos
QUANDO: estreou quinta-feira passada, dia 7 de janeiro, nos cinemas

Clique sobre a imagem abaixo para assistir ao trailer legendado:


 Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustrada / Crítica – Quinta-feira, 7 de janeiro de 2016 – 02h10 – Internet: clique aqui.

"A raiz dos abusos na Igreja está no
seminário", diz terapeuta de padres

Redação

O psicoterapeuta e ex-padre americano RICHARD SIPE (1) foi conselheiro e professor de mais de 1000 padres com histórico de envolvimento sexual. Ele diz que os escândalos são apenas o sintoma de uma estrutura eclesiástica que não lida com a sexualidade humana.
RICHARD SIPE
Ex-monge e padre beneditino, sociólogo, especializou-se em atendimento de padres, religiosos e religiosas com
dificuldades psicológicas, é autor de livros sobre o assunto.

O que há na mente dos padres abusadores?

Richard Sipe: Primeiro, têm uma adaptação social imatura e evitam pessoas. São também voltados à própria satisfação e não identificam o sofrimento de sua vítima. Por outro lado, conseguem passar uma excelente imagem: se vestem de forma impecável, adoram cerimônias e tudo que os coloca no centro das atenções. Mas não têm controle interno. Nem compaixão.

Como lidar com eles?

Richard Sipe: É preciso mudar o sistema que produz esses padres. É um sistema psicopata que está tão corrompido agora como no século 12. Ele omite os crimes e muda os abusadores de paróquia em paróquia. Assim, mantém pessoas doentes e outras em perigo.

Qual a solução para padres abusadores seriais?

Richard Sipe: Ela deve atacar 3 áreas: criminal, moral - porque a Igreja ensina que todo sexo é pecado - e psiquiátrico. Se houver crime, a pessoa deve ser tratada como um criminoso. Abusadores também não devem mais trabalhar como padres, pois aproveitam sua condição de conselheiros para seduzir menores. E, se precisarem, devem receber medicamentos e terapias. Mas o mais importante é que sejam monitorados. São como os alcoólatras: se quiserem se controlar, há meios para isso. Mas estamos falando mais de controle que de cura.

Como isso pode ser feito?

Richard Sipe: Acabo de visitar um grupo de 10 ex-padres, quase todos pedófilos, que moram juntos numa casa sob a supervisão de outros padres. Não foram presos porque seu crime prescreveu, mas vivem confinados. Ali eles tentam reconstruir sua vida espiritual, mas não podem sair sem acompanhamento. O oposto é outro mosteiro que visitei, onde pedófilos podiam pegar o carro e sair sozinhos. A falta de supervisão é desastrosa, pois quem tem tal vício não consegue se controlar.

E qual a proporção de pedófilos no clero?

Richard Sipe: Coletei dados durante 25 anos (1960-1985) e a conclusão foi que, em qualquer época, não mais de 50% dos padres e bispos praticam o celibato. Uns têm relações sexuais com mulheres, outros com homens. E cerca de 6% se envolvem com crianças. Mas isso aumenta quando você estuda dioceses individuais. Na Arquidiocese de Los Angeles, 11,5% dos padres que trabalhavam em suas paróquias em 1983 foram mais tarde acusados de abuso sexual de menores.

Qual a raiz do problema?

Richard Sipe: Os padres não são bem preparados nos seminários. Muitos podem ser disciplinados nos anos de formação, mas começam a se envolver com adultos ou menores ao mudar para suas paróquias. A questão é que muitas pessoas têm a vocação para ser padre, mas não para o celibato. É aí que o conflito aparece.

A solução é o fim do celibato?

Richard Sipe: O problema vai além disso: ele reflete todo o ensino da Igreja sobre sexualidade, e o abuso de crianças pelo clero é apenas um sintoma desse sistema.

NOTA

[ 1 ] Richard Sipe participa do filme Spotlight – Segredos Revelados, em cartaz nos cinemas nacionais e comentado no artigo anterior.

Fonte: Revista Super Interessante – Edição 288 – Fevereiro de 2011 – Internet: clique aqui.

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