«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Que "lobby" é este que há no Vaticano?

Decodificando a linguagem do Vaticano

John L. Allen Jr.
Crux
15-01-2016

Talvez o idioma mais desafiador, no entanto, é o que poderíamos chamar de “vaticanês”, com o que se quer dizer um conjunto de termos e frases frequentemente desconcertantes que tomam forma a todo instante e que, em geral, só possuem sentido claro aos “iniciados”.
PADRES DIANTE DA PRAÇA E DA BASÍLICA DE S. PEDRO - VATICANO

Dado que o Vaticano é uma instituição global, compreendê-lo exige muitas vezes uma familiaridade com línguas estrangeiras. O italiano é importante, o latim ainda ajuda e, na era do Papa Francisco, o espanhol nos auxilia e muito – especialmente o “porteño”, versão do espanhol falado na Argentina, terra natal de Bergoglio.

Talvez o idioma mais desafiador, no entanto, é o que poderíamos chamar de “vaticanês”, com o que se quer dizer um conjunto de termos e frases frequentemente desconcertantes que tomam forma a todo instante e que, em geral, só possuem sentido claro aos “iniciados”.

Um termo que recentemente entrou para o léxico é o lobby gay, tendo surgido durante o primeiro escândalo de vazamentos de documentos sigilosos sob o comando do Papa Bento XVI em 2012 e que ainda pululam as manchetes da imprensa italiana.

Logo após a sua eleição, Francisco teria dito que precisava “ver o que podemos fazer” sobre este “lobby gay” em uma sessão informal junto aos líderes das ordens religiosas masculinas. Mais recentemente, o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga [ver foto abaixo], coordenador do Conselho dos Cardeais, disse em entrevista a um jornal existir, realmente, um tal “lobby gay” e que Francisco está tentando desfazê-lo aos poucos.

E aqui vem o que confunde a todos: quando os italianos dizem “lobby gay”, eles não querem dizer lobby no sentido político convencional e, em geral, não querem dizer “gay” no sentido sexual estritamente.

Em geral, um “lobby” é um grupo de pressão política com um conjunto claro de objetivos. Como exemplo podemos citar a luta contra o controle de armas empreendida pela Associação Nacional de Rifles (National Rifle Association), ou a defesa dos direitos abortistas do grupo Federação de Planejamento Familiar (Planned Parenthood), ambas nos Estados Unidos da América (EUA).

No entanto, quando os italianos dizem existir um lobby gay no Vaticano, eles não têm em mente um grupo organizado com o objetivo de mudar o ensino católico sobre a homossexualidade ou o matrimônio homoafetivo.

Diferentemente, o que querem dizer é uma rede informal, vagamente organizada, de sacerdotes que apoiam uns aos outros, guardam os seus segredos e ajudam-se na subida da ladeira [carreira]. Tem-se que o grupo possui um interesse em frustrar as tentativas de reforma, posto que eles se beneficiam do sigilo e do modus operandi da velha guarda.
Em entrevista publicada em 12 de janeiro deste ano, concedida ao jornal hondurenho "El Heraldo",
o arcebispo de Tegucigalpa (Honduras), cardeal ÓSCAR RODRÍGUES MARADIAGA,
confirmou a presença de um “lobby gay” no Vaticano e afirmou que o
Papa Francisco está tentando “purificar tudo isso”.

É chamado de “gay” porque, segundo consta, a homossexualidade de uma autoridade vaticana pode ser um segredo muito poderoso, especialmente se a pessoa é sexualmente ativa, e a prática de ameaçar expô-la pode ser uma maneira eficiente de mantê-lo na linha. Dificilmente esta é a única possibilidade, no entanto, e, de qualquer forma, a ênfase não está no sexo, mas no sigilo, bem como na impressão de as pessoas receberem promoções ou de decisões estarem sendo feitas com base em favorecimentos pessoais.

Isso não quer dizer que a percepção de uma presença generalizada de gays no clero não seja parte importante do quadro geral, em especial à luz do furor em torno do monsenhor polonês Krzysztof Charamsa, ex-autoridade vaticana que assumiu sua homossexualidade na dianteira de um polêmico Sínodo dos Bispos sobre a família.

De qualquer forma, as especulações sobre um “lobby” não estão, de fato, sobre a orientação sexual, mas na impressão de um sistema em que as pessoas que vivem vidas pessoalmente conflitivas vão cuidar umas das outras. Nesse sentido, o termo “lobby gay” é sinônimo de corrupção, sigilo e um tipo imoral de proteção pessoal.

Pensemos da seguinte maneira: suponhamos que você tenha duas autoridades vaticanas, um das quais é um defraudador e o outro, uma pessoa que fez acordos dúbios para ser promovido. Eles acabam sabendo dos segredos um do outro, e forjam um pacto de se ajudarem para expandir a sua influência.

A maioria dos italianos diriam que eles são membros do “lobby gay”, muito embora nenhum dos envolvidos sejam gays.

Assim, por exemplo, quando apresentam a teoria conspiratória popular de que o Papa Bento XVI foi destituído pelo “lobby gay”, eles não querem dizer um grupo que visou Bento com base nas opiniões dele sobre os direitos homoafetivos, ou que havia somente sacerdotes gays envolvidos.

Em vez disso, querem dizer que uma velha rede sombria estava aflita com o desejo de Bento pela “purificação”, e fizeram o que puderam para dificultar o seu papado e sabotá-lo; alguns membros dessa rede podem ser gays, mas certamente nem todos o são.

É esse o sentido no qual muitos italianos ainda se veem convencidos de que Paolo Gabriele, o ex-mordomo papal condenado e, mais tarde, perdoado por furtar documentos da mesa de Bento e vazá-los a jornalistas, foi um bode expiatório agindo para o “lobby gay.

Da mesma forma, quando as pessoas – às vezes incluindo o próprio pontífice – dizem que Francisco está tentando erradicar o “lobby gay”, não estão querendo dizer que ele está lançando uma caçada às bruxas contra o clero gay, ou que ele está traçando limites contra qualquer alteração na doutrina.

Diferentemente disso tudo, em vaticanês lobby gay” é um termo amplo para significar todo o tipo de corrupção e ajuda mútua, e erradicá-lo significa uma busca por transparência, responsabilização e fazer as coisas à luz do dia, em vez de fazê-las sob o véu da escuridão.

Em resumo: o suposto “lobby gay” do Vaticano não é um lobby, e não diz respeito exclusivamente aos gays. Não é de se maravilhar, no entanto, que este termo acabe confundindo os que não acompanham de perto a cidade-Estado... e, às vezes, até mesmo os que o acompanham.

Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 19 de janeiro de 2016 – Internet: clique aqui.

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