«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

1º Domingo da Quaresma – Ano C – Homilia

Evangelho: Lucas 4,1-13


Naquele tempo:
1 Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito.
2 Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e depois disso, sentiu fome.
3 O diabo disse, então, a Jesus: «Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão.»
4 Jesus respondeu: «A Escritura diz: “Não só de pão vive o homem”.»
5 O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo
6 e lhe disse: «Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isso foi entregue a mim e posso dá-lo a quem eu quiser.
7 Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu.»
8 Jesus respondeu: «A Escritura diz: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás”.»
9 Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo!
10 Porque a Escritura diz: “Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!”.
11 E mais ainda: “Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.»
12 Jesus, porém, respondeu: «A Escritura diz: “Não tentarás o Senhor teu Deus”.»
13 Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

LUCIDEZ

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus não são propriamente de ordem moral. São colocações nas quais lhe são propostas maneiras falsas de entender e viver sua missão. Por isso, sua reação nos serve de modelo para nosso comportamento moral, porém, sobretudo, nos alerta para não nos desviarmos da missão que Jesus confiou aos seus seguidores.

Antes de mais nada, suas tentações nos ajudam a identificar com mais lucidez e responsabilidade aquelas que sua Igreja pode experimentar hoje e aqueles que as constituem. Como seremos uma Igreja fiel a Jesus se não somos conscientes das tentações mais perigosas que podem nos desviar hoje de seu projeto e estilo de vida?

Na primeira tentação, Jesus renuncia a utilizar Deus para «converter» as pedras em pães e saciar, desse modo, a sua fome. Não seguirá esse caminho. Não viverá buscando o seu próprio interesse. Não utilizará o Pai de maneira egoísta. Alimentar-se-á da Palavra viva de Deus. Somente «multiplicará» os pães para alimentar a fome do povo.

Esta é, provavelmente, a tentação mais grave dos cristãos dos países ricos [mas também os abastados dos países mais pobres!]: utilizar a religião para completar nosso bem-estar material, tranquilizar nossas consciências e esvaziar o cristianismo de compaixão, vivendo surdos à voz de Deus que continua gritando-nos: onde estão vossos irmãos?

Na segunda tentação, Jesus renuncia a obter «poder e glória» sob a condição de submeter-se, como todos os poderosos, aos abusos, mentiras e injustiças sobre os quais se apoia o poder inspirado pelo «diabo». O reino de Deus não se impõe, mas se oferece com amor. Somente adorará ao Deus dos pobres, fracos e indefesos.

Nestes tempos de perda de poder social, é tentador para a Igreja tentar recuperar o «poder e glória» de outros tempos, pretendendo, inclusive, um poder absoluto sobre a sociedade. Estamos perdendo uma oportunidade histórica para entrar por um caminho novo de serviço humilde e de acompanhamento fraterno ao homem e à mulher de hoje, tão necessitados de amor e de esperança.

Na terceira tentação, Jesus renuncia a cumprir sua missão recorrendo ao sucesso fácil e à ostentação. Não será um messias triunfalista. Jamais colocará Deus a serviço de sua vanglória. Estará entre os seus como aquele que serve.

Sempre será tentador, para alguns, utilizar o espaço religioso para buscar reputação, fama e prestígio. Poucas coisas são mais ridículas no seguimento de Jesus que a ostentação e a busca de honras. Provocam danos à Igreja e a esvaziam de verdade.

FIDELIDADE

Não foi fácil para Jesus manter-se fiel à missão recebida de seu Pai sem desviar-se de sua vontade. Os evangelhos recordam a sua luta interior e as provações que teve de superar, juntamente com seus discípulos, ao longo de sua vida.

Os mestres da Lei o assediavam com perguntas capciosas para submetê-lo à ordem estabelecida, esquecendo o Espírito, que o impulsionava a curar inclusive no sábado. Os fariseus lhe pediam para deixar de aliviar o sofrimento do povo e realizasse algo mais espetacular, «um sinal do céu», de proporções cósmicas, com o qual Deus lhe confirmasse diante de todos.

As tentações lhe vinham, inclusive, de seus discípulos mais queridos. Tiago e João lhe pediam que se esquecesse dos últimos e pensasse em reservar-lhes os lugares de mais honra e poder. Pedro repreende Jesus porque põe em risco a sua vida e pode terminar executado.

Sofria Jesus e sofriam também seus discípulos. Nada era fácil nem claro. Todos deveriam buscar a vontade do Pai superando provas e tentações de diversos tipos. Poucas horas antes de ser preso pelas forças de segurança do Templo, Jesus lhes disse assim: «Vós sois aqueles que perseveraram comigo em minhas provações» (Lucas 22,28).

O episódio conhecido como as «tentações de Jesus» é um relato no qual se reagrupam e resumem as tentações que Jesus teve de superar ao longo de sua vida. Mesmo vivendo movido pelo Espírito recebido no Jordão, nada lhe dispensa de sentir-se atraído para formas mais falsas de messianismo.

Há de pensar em seu próprio interesse ou escutar a vontade do Pai? Há de impor seu poder de Messias ou pôr-se a serviço daqueles que necessitam dele? Há de buscar sua própria glória ou manifestar a compaixão de Deus para os que sofrem? Há de evitar riscos e evitar a crucifixão ou entregar-se à sua missão confiando no Pai?

O relato das tentações de Jesus foi recolhido nos evangelho para alertar os seus seguidores. Temos de ser lúcidos. O Espírito de Jesus está vivo em sua Igreja, porém nós, os cristãos, não estamos a salvo de falsificar novamente a nossa identidade caindo em múltiplas tentações.

Para seguir Jesus com fidelidade, temos de identificar as tentações que os cristãos de hoje têm: a hierarquia e o povo; os dirigentes religiosos e os fiéis. Uma Igreja que não é consciente de suas tentações logo falsificará a sua identidade e sua missão. Não está nos acontecendo algo desse tipo? Não necessitamos de mais lucidez e vigilância para não cairmos na infidelidade?

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016 – 10h11 – Internet: clique aqui.

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