«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Alzheimer, uma doença política

Philippe Baqué
Jornalista

A rápida multiplicação dos diagnósticos de doença de Alzheimer representa um desafio inédito para a humanidade. De olho em um gigantesco mercado potencial, a indústria pesquisa freneticamente um medicamento ou vacina milagrosa. O interesse dos doentes e seus familiares convida a repensar as políticas públicas e a abordagem terapêutica 
O MAL DE ALZHEIMER É BEM MAIS COMPLEXO DO QUE PARECE!
HÁ MÉDICOS PREFERINDO MUDAR O NOME E AS
ESTATÍSTICAS NÃO PARECEM CORRETAS!!!

ALZHEIMER, O QUE É?

A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que traz o nome do médico alemão Alois Alzheimer (1864-1915), o qual, em 1906, estudou o caso de uma mulher de 51 anos vítima de uma demência “pré-senil”. Ele foi o primeiro a observar a relação entre esse estado e as placas de proteínas beta-amiloides, bem como degenerescências neurofibrilares encontradas durante a autópsia do cérebro de sua paciente falecida. Essa descoberta alimentou os debates na área da psiquiatria e depois caiu no esquecimento.
DR. ALOIS ALZHEIMER (1864-1915)
Médico alemão

As sociedades ocidentais, confrontadas com o envelhecimento de suas populações, viram-na reaparecer nos anos 1970. A doença não ataca mais apenas pessoas relativamente jovens, como a paciente de Alois Alzheimer, mas sobretudo idosos com problemas cognitivos e até então considerados vítimas de “demência senil”. O diagnóstico é feito com um simples teste de avaliação cognitiva.

Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), a doença de Alzheimer afetaria atualmente, só na França, 900 mil pessoas; 225 mil novos casos seriam diagnosticados por ano e 1,3 milhão de pessoas deverão ter a doença em 2020. Ela atingiria 0,5% das pessoas com menos de 65 anos, de 2% a 4% das com 65 a 80 anos e 15% das com mais de 80 anos. O relatório publicado em 2010 pela organização Alzheimer’s Disease International calcula em 35 milhões o número de pessoas afetadas no mundo e prevê que elas serão 66 milhões em 2030. Mas esses números devem ser vistos com precaução. Assim, na França, as estimativas da Seguridade Social são bem mais modestas que as do Inserm: haveria 385 mil pessoas com a doença em 2007 e 440 mil em 2011.

As despesas médicas e médico-sociais com a doença de Alzheimer foram estimadas em 10 bilhões de euros em 2005. A maior parte do custo médico foi paga pela Seguridade Social. O acompanhamento e os cuidados com os pacientes são financiados, em 50%, por eles mesmos e suas famílias; o resto é coberto pelo seguro-saúde e pelos conselhos gerais. A associação France-Alzheimer estima que o montante global do custo da doença será de 20 bilhões em 2020.

* * *   *  * * *

A sra. M. chega de cadeira de rodas ao complexo hospitalar de Marmande-Tonneins, na Aquitânia (França). “Aos 78 anos, ela foi diagnosticada com Alzheimer por um neurologista”, conta a filha. “Tomava vários remédios, perdeu logo a autonomia e ficou muito agitada. Era cansativo cuidar dela.” No final dos anos 2000, a filha resolveu colocar a mãe naquela unidade especial que acolhe, por prazo indeterminado, os pacientes graves. “Lá, ela pôde conviver com outras pessoas e foi bem tratada. Três semanas depois, já andava e comia sem ajuda.”

Geriatra e diretor desse estabelecimento até 2011, François Bonnevay decidira utilizar apenas os medicamentos estritamente necessários entre os muitos que eram prescritos aos novos pacientes internados, às vezes com sérios efeitos colaterais. “Há outros métodos além de camisas de força químicas para os doentes agitados”, explica. “Os cuidadores precisam conhecer estratégias de comunicação que lhes permitam entrar em sintonia com os pacientes. Estes devem ser considerados seres humanos, com desejos e emoções.” O principal, naquela unidade, era respeitar o bem-estar e o ritmo de vida dos doentes. A equipe seguia o método Humanitude, filosofia terapêutica criada e ensinada por dois psicogerontologistas que “faz desaparecer grande parte dos problemas psicocomportamentais”, explica o médico. A abordagem benevolente posta em prática no setor de Bonnevay traduziu-se, de 2002 a 2011, no quase desaparecimento de pacientes graves, na diminuição da perda de peso, no controle dos processos infecciosos e na menor frequência de hospitalizações a longo prazo. 
COMPLEXO HOSPITALAR MARMANDE-TONNEINS
na Aquitânia (França): investindo mais em acompanhamento pessoal que em medicação no
tratamento do Alzheimer

Esses resultados só foram possíveis graças à presença de um pessoal em número suficiente. A taxa de acompanhamento era de 0,8, ou seja, oito cuidadores para dez pacientes. Essa taxa continua ainda hoje excepcional: “Quase todos os estabelecimentos para idosos dependentes têm hoje uma taxa entre 0,3 e 0,6, mas não param de acolher novos pacientes”, constata Philippe Masquelier, médico coordenador de três estabelecimentos da região de Lille. “Por razões econômicas, nivelam-se os meios por baixo. Como ainda não existem medicamentos eficazes, precisa-se sobretudo da presença humana – e é justamente o que falta!” Em 2006, o Plano de Solidariedade à Velhice, apresentado por Philippe Bas, ministro encarregado dos idosos, previa alinhar em cinco anos a taxa de acompanhamento das casas de repouso à dos estabelecimentos para deficientes físicos, isto é, um profissional para cada pessoa em tratamento. Esse objetivo nunca foi alcançado, e o Plano Alzheimer 2008-2012 de Nicolas Sarkozy não o retomou.

“O que está em jogo aqui é a humanidade de nossa sociedade!”, declarou Sarkozy no dia 10 de março de 2014 em Nice, na inauguração do Instituto Claude-Pompidou (ICP), consagrado à doença de Alzheimer. [1] A cerimônia, espalhafatosa, foi orquestrada por Bernadette Chirac, presidenta da Fundação Claude-Pompidou. O edifício de quatro andares, com ar de residência luxuosa e segura, reúne diversas estruturas envolvidas no diagnóstico, pesquisa e cuidados, em diversas etapas, das pessoas afetadas. Como se o Estado não pudesse financiar sozinho esse ambicioso projeto de interesse público, que custou 22 milhões de euros, a Fundação Claude-Pompidou apelou para a generosidade de seus amigos: a bilionária monegasca Lily Safra – nascida em Porto Alegre e cujo retrato se destaca no saguão de entrada –, a Conny-Maeva Charitable Foundation, o grupo de Bernard Arnault, LVMH, o estilista Karl Lagerfeld... Na inauguração, o ICP foi apresentado como um modelo de sucesso na política de luta contra a doença de Alzheimer empreendida por Sarkozy durante seu quinquênio. Mas, terminada a festa, ele teve de encarar uma realidade bem diferente.

“Em seis meses, quinze pacientes morreram! As condições de trabalho do pessoal eram tão difíceis que as demissões se multiplicaram”, conta Monique Dinelli, que foi enfermeira no setor do ICP gerido pela Mutualité Française. Ela mesma se demitiu ao fim de seis meses, denunciando a incompetência da direção e dos médicos. “A inauguração foi antecipada por motivos políticos. Nada estava pronto!” Danielle Maroselli internou ali seu pai desde a inauguração; ele morreu três meses depois. “Nunca consegui falar com os médicos. Tinha a impressão de ser ignorada e desprezada.” Ela se aproximou então de outras famílias de pacientes em conflito com os responsáveis pelo estabelecimento. “Escrevemos à direção da Mutualité Française, à sra. Chirac e ao prefeito de Nice para informá-los de tudo pelo que estávamos passando. Nunca recebemos resposta!” As famílias denunciavam a insuficiência de pessoal, uma série de erros com consequências trágicas, maus-tratos e má vontade da direção. No início de dezembro de 2014, cerca de dez delas apresentaram queixa (ainda em curso) contra a Mutualité Française junto ao promotor de Nice. Um ano depois da inauguração do ICP, Joël Derrives, diretor-geral da Mutualité Française Provença-Alpes-Côte d’Azur, viu-se obrigado a demitir a diretora e o médico do estabelecimento, sem na verdade levar em consideração as reclamações das famílias. “Apenas cometemos um pequeno erro de seleção”, admitiu.
 [ . . . ]

Em vez de incentivarem um acompanhamento mais humano e benevolente dos enfermos, as políticas públicas decidiram privilegiar o apoio à indústria farmacêutica em suas pesquisas para um tratamento clínico – sem resultado até hoje. O primeiro remédio que se esperava poder aliviar os efeitos da doença, a Tacrina, foi retirado do mercado em 2004 em razão de seus graves efeitos colaterais. Desde o fim dos anos 1990, quatro tratamentos considerados eficazes no alívio dos sintomas da doença estão à venda. Os três primeiros (Donepezil, Galantamina e Rivastigmina) são anticolinesterásicos que aumentam a taxa de um neurotransmissor implicado no processo da memória. O quarto (Memantina) age sobre outros transmissores e pode ser associado aos precedentes em terapia conjunta.
ESTES MEDICAMENTOS MAIS USADOS PARA O TRATAMENTO DE ALZHEIMER
PRODUZEM RESULTADOS INSUFICIENTES E SÃO PERIGOSOS

99,6% de fracasso nos testes clínicos

Desde o aparecimento dos anticolinesterásicos, a revista médica independente Prescrire denunciou sua pouca eficácia:
* seus numerosos efeitos indesejáveis,
* o risco do uso por mais de um ano e
* seu custo excessivo.

Também se colocou na defensiva em relação às interações com outros medicamentos, que aumentavam os efeitos secundários e o risco de morte. Apesar das críticas, a Haute Autorité de Santé (HAS) publicou em 2008 uma recomendação para que se mantivesse o reembolso do valor gasto com o remédio, um serviço médico considerado importante. A Formindep, Associação de Médicos “para Formação e Informação Médicas Independentes”, recorreu então ao Conselho de Estado denunciando a parcialidade dos membros do grupo de trabalho da HAS. A associação descobrira que metade dos 24 especialistas estava envolvida em conflitos de interesses maiores, pois mantinha vínculos com os laboratórios que produziam medicamentos para tratar a doença de Alzheimer.

Em 2011, a Comissão de Transparência da HAS analisou, de novo, esses remédios com outro grupo, de peritos independentes. Philippe Nicot, membro da Formindep, participou dessa reavaliação: “As notas dadas aos medicamentos despencaram vertiginosamente. Sua eficácia foi considerada fraca e a taxa de reembolso caiu para 15%. Isso foi considerado insuficiente e teve um impacto imediato, com a prescrição desses remédios diminuindo. [2] Todo ano, a Seguridade Social economiza 130 milhões de euros. Nossa associação sugeriu que esse dinheiro fosse investido na contratação de pessoal: nenhuma resposta”.

Bruno Dubois, professor de Neurologia do Hospital da Pitié-Salpêtrière e diretor do Instituto da Memória e da Doença de Alzheimer, em Paris, também reconheceu conflitos de interesses [3] antes de confidenciar, a respeito desses medicamentos: “Sei muito bem que eles não servem para nada. Mas sou obrigado a dizer que servem um pouquinho, pois do contrário o doente se desespera”. Ele conduz hoje pesquisas com o Donepezil – um dos três anticolinesterásicos –, a fim de demonstrar sua eficácia em doentes diagnosticados antes do surgimento dos primeiros sintomas. A farmacêutica norte-americana Pfizer, que comercializa o Donepezil, apoia essa pesquisa e financia também o importante estudo Insight, dirigido pelo professor.

A dependência da pesquisa em relação à indústria farmacêutica é cada vez maior, constata Bruno Toussaint, redator-chefe da Prescrire: “A pesquisa de medicamentos é confiada às farmacêuticas, que mantêm relações de dinheiro e prestação de serviços com os médicos especializados. Os poderes públicos reduzem assim suas despesas, mas enraízam os conflitos de interesses no sistema de medicamentos. E o interesse dos industriais não é forçosamente o da população...”.

A pesquisa de um tratamento contra a doença de Alzheimer está hoje em crise. De 2000 a 2012, 1.031 estudos foram feitos no mundo inteiro e 244 moléculas foram testadas com taxa de fracasso de 99,6%. [4] As vacinas e moléculas às vezes testadas com sucesso em ratos transgênicos revelaram-se uma após outra inoperantes – e até perigosas – em seres humanos. Malgrado as somas enormes tragadas pela pesquisa, não existe atualmente nenhum tratamento eficaz.

O mantra do diagnóstico precoce

[ . . . ]
O leitmotiv da pesquisa “pré-competitiva” é agora o “diagnóstico precoce”: trata-se de identificar pessoas com alguns problemas de memória que poderão desenvolver a doença de Alzheimer dentro de dez ou quinze anos. Essa mudança de abordagem repousa sobre uma nova definição da doença, elaborada em 2007 por uma equipe de pesquisadores internacionais dirigida pelo professor Dubois. “Até então, a doença de Alzheimer só era diagnosticada a partir de certo patamar de severidade: a fase da demência”, explica. “Agora, propomos critérios de diagnóstico que incluem todas as etapas da doença, notadamente a que existe antes do surgimento dos sintomas, chamada prodrômica.” Consequência dessa nova definição: os laboratórios concentram sua pesquisa em medicamentos destinados não mais a pessoas idosas, e sim a “doentes” jovens, com boa saúde, que poderão ser tratados preventivamente durante anos...

O diagnóstico precoce é encorajado por várias universidades e hospitais e posto em prática por centros de tratamento da memória. Assim, na Île-de-France, a rede Mémoire Aloïs pode se gabar de ter ido além dos objetivos prescritos pela Agência Regional da Saúde. Por não existir nenhum tratamento, as pessoas identificadas são encaminhadas para protocolos de estudos terapêuticos. [5]

Para estabelecer esses novos diagnósticos, os médicos especialistas devem aplicar técnicas de última geração, como a neuroimagem ou a punção lombar, a fim de descobrir no líquido cefalorraquidiano a presença de certas proteínas. Esses recursos permitem identificar as características biológicas da doença, os “bioindicadores”. Um novo mercado, amplo e rentável, se abre com os instrumentos de diagnóstico que estão sendo desenvolvidos ou à espera de liberação. Mas seu uso não conta com aprovação unânime. O professor Olivier Saint-Jean, responsável pelo setor de geriatria do hospital europeu Georges-Pompidou, em Paris, se insurge: “Se os bioindicadores são prescritos no quadro de um protocolo de pesquisa, podemos pensar que isso faz sentido. Mas praticados indiscriminadamente, como acontece em alguns centros, não têm nenhum interesse clínico para os pacientes e não devem ser utilizados! Onde trabalho, não se fala em bioindicadores!”.
 
Tradução do título deste livro:
"O mito da doença de Alzheimer -
O que não está lhe sendo dito sobre o diagnóstico mais temido de hoje"

Existem edições apenas em inglês (original), italiano e francês
[ . . . ]
Em que medida os diagnósticos da doença de Alzheimer são confiáveis? Para 1% dos pacientes, portadores de uma mutação genética que torna a doença hereditária, o diagnóstico baseado no estudo dos genes parece sólido. Trata-se, em geral, de pessoas com menos de 60 anos. Os 99% restantes estariam com a forma da doença dita “esporádica”, que aparece geralmente depois dos 70 anos, às vezes antes. No caso delas, o diagnóstico, mesmo realizado com os bioindicadores, é sempre incerto. Assim, cada vez mais vozes se erguem para contestar os diagnósticos precoces de pessoas sadias.

Outra questão: as placas de proteínas beta-amiloides, cuja presença no cérebro fundamenta grande parte dos diagnósticos e da pesquisa de novos tratamentos. Um estudo realizado durante quinze anos em religiosas de um convento nos Estados Unidos [6] mostrou que, apesar da importância das placas amiloides que recobriam o cérebro autopsiado de algumas, elas conservaram a capacidade cerebral intacta até o fim da vida. A estabilidade da existência e a atividade intelectual constante poderiam explicar sua resistência à doença. A influência do ambiente e do estilo de vida também foi demonstrada há pouco pelo estudo Paquid. “Observamos uma queda na incidência e na gravidade da doença de Alzheimer!”, proclama o professor Dartigues. “O motivo dessa queda é principalmente a melhoria global do nível de estudos das novas gerações. Essa descoberta revelou a extraordinária capacidade de reserva do cérebro.”

Projeções estatísticas feitas ao acaso

Professor de Neurologia nos Estados Unidos, Peter Whitehouse foi um especialista famoso na doença antes de criticar com virulência seus pressupostos. Em sua obra O mito da doença de Alzheimer, ele procura mostrar que não existe um perfil biológico único e que o diagnóstico é apenas provável para as pessoas idosas. “Não temos prova alguma de que a doença de Alzheimer se propaga na geração do baby-boom. Sucede apenas que o mundo envelheceu e há mais pessoas de meia-idade com risco de apresentar um fenômeno de envelhecimento cerebral.” [7]

Martial van der Linden, professor de Psicopatologia e Neuropsicologia das universidades de Genebra e Liège, conduz um estudo crítico do modelo biomédico dominante. [8] Ele baniu de seu vocabulário a expressão “doença de Alzheimer” e fala apenas em “envelhecimento cerebral cognitivo problemático”. “Aplicando os critérios impostos da doença de Alzheimer, reduzimos as pessoas a uma etiqueta estigmatizante”, explica. “Nos anos 1980, eu me dei conta de que a realidade era muito mais complexa e que havia imensa diversidade de casos e de capacidades preservadas que não eram levadas em consideração. Boa parte das dificuldades cognitivas das pessoas idosas se deve a:
* problemas vasculares,
* ao diabetes e
* à hipertensão,
* mas sobretudo à idade!

Com a neuropsicóloga Anne-Claude Juillerat van der Linden, ele criou a associação Valorizar e Integrar para Envelhecer de Outra Forma (Viva, na sigla em francês), a fim de promover medidas preventivas do envelhecimento cerebral baseadas na integração social e cultural das pessoas idosas. Experiências originais com o cuidado humano dos pacientes e sua participação na vida do estabelecimento foram positivas, notadamente em Quebec, com o projeto Carpe Diem. Vendo os pacientes sorrir de novo e mesmo sair de seu mutismo, um grupo de médicos, pessoas diagnosticadas e suas famílias criou com base nesse princípio, na França, o novo estabelecimento Ama Diem, que acaba de ser inaugurado em Crolles (Isère).

O que chamamos de “doença de Alzheimer”, cujas projeções estatísticas feitas ao acaso geram um grande medo, tornou-se um desafio social importante.
[Questões que ficam em aberto:]
* Será possível, nos próximos anos, fazer uma pesquisa totalmente independente dos interesses da indústria farmacêutica?
* A pesquisa cobrirá todas as causas potenciais da doença, e não apenas as pistas biomédicas?
* Os financiamentos públicos estimularão a prevenção e darão respostas na medida das exigências?
* Estaremos à altura desse desafio e encontraremos um lugar para cada um durante a fase da velhice?

N O T A S

[ 1 ] LeParisien.fr, 12 mar. 2014.

[ 2 ] Como a doença de Alzheimer é “de longa duração”, os medicamentos continuam a ser reembolsados em 100% pela Seguridade Social.

[ 3 ] “Interception” [Intercepção], France-Inter, 11 jan. 2015.

[ 4 ] Revue de Presse de la Fondation Médéric-Alzheimer, n.105, Paris, jun. 2014. A título de comparação, de 2002 a 2012, 1.438 testes clínicos para o câncer obtiveram uma taxa de sucesso de 89%.

[ 5 ] Réseau mémoire Aloïs, “Rapport d’activités 2011” [Relatório de atividades 2011], Paris. Disponível em: www.reseau-memoire-alois.fr.

[ 6 ] Cf. L’enigme Alzheimer [O enigma Alzheimer], filme de Thomas Liesen apresentado em 12 abr. 2008 no canal francês Arte.

[ 7 ] Peter Whitehouse e Daniel George, Le Mythe de la Maladie d’Alzheimer. Ce qu’on ne vous dit pas sur ce diagnostic tant redouté [O mito da doença de Alzheimer. O que não se diz sobre esse diagnóstico tão temido], De Boeck, Paris/Louvain-la-Neuve, 2009.

[ 8 ] Martial van der Linden e Anne-Claude Juillerat van der Linden, Penser autrement le vieillissement [Pensar de outra forma o envelhecimento], Mardaga, Bruxelas, 2014.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil – O Grande Medo – Ano 9 – Número 103 – Fevereiro 2016 – Págs. 33-35 – Internet: clique aqui.

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