«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

ENCONTRO HISTÓRICO: o Papa e o Patriarca

Papa Francisco e patriarca Kirill da
Igreja Ortodoxa Russa se reúnem
em Havana – Cuba

Associated Press e Reuters

Igrejas do Ocidente e do Oriente, rompidas desde 1054, buscam
reaproximação e condenam ataques a fiéis na Síria e no Iraque
PATRIARCA RUSSO KIRILL E PAPA FRANCISCO
conversam em sala especial do aeroporto de Havana - Cuba
Sexta-feira, 12 de favereiro de 2016

O papa Francisco se reuniu nesta sexta-feira, 12 de fevereiro, com o patriarca ortodoxo russo Kirill [Cirilo], num histórico encontro entre os líderes das igrejas do Ocidente e do Oriente, divididas desde o cisma de 1054. O encontro ocorreu em Cuba, em uma escala da viagem do pontífice para o México. Também foi divulgado um comunicado conjunto no qual católicos e ortodoxos manifestaram sua preocupação com a situação de minorias cristãs na Síria e no Iraque, vítimas de ataques do Estado Islâmico.

“Finalmente”, exclamou Francisco ao abraçar o patriarca ortodoxo em uma sala no Aeroporto de Havana. “Somos irmãos.” Os religiosos trocaram cumprimentos e Kirill respondeu ao líder católico: “Agora as coisas serão mais fáceis.”

O encontro foi acompanhado pelo presidente cubano, Raúl Castro, e o cardeal de Havana Jaime Ortega. No total, Francisco permaneceria três horas e meia em solo cubano.

No documento divulgado após a reunião em Havana, Francisco e Kirill pediram o fim do massacre de cristãos no Oriente Médio, principalmente na Síria e Iraque, onde os fiéis são alvos de radicais do Estado Islâmico. “Apelamos à comunidade internacional para evitar o extermínio de cristãos no Oriente Médio”, diz o texto.

Segundo o porta-voz do papa, o padre Federico Lombardi, o encontro foi um momento histórico de muita alegria para o papa. Segundo ele, a reunião foi muito cordial. “Chegamos a uma meta e a um ponto de partida para um caminho de unidade e compreensão, que não é fácil, porém muito valioso”, declarou Lombardi.

O patriarca russo afirmou que o encontro lhe permitiu entender e sentir a posição de Francisco em diversos temas. Ainda de acordo com Kirill, os dois líderes religiosos concordaram com a chance de católicos e ortodoxos cooperarem na defesa do cristianismo.
“Os resultados da conversa permitem assegurar que as duas igrejas podem cooperar na defesa dos cristãos em todo o mundo”, disse Kirill.

Pouco antes de se reunir a portas fechadas com o patriarca, Francisco agradeceu ao povo cubano. “Se continuarmos assim, Cuba se converterá na capital da união”, disse o papa, que teve papel fundamental na reaproximação diplomática entre a ilha e os Estados Unidos e nas negociações de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
PATRIARCA RUSSO KIRILL E PAPA FRANCISCO
conversaram e assinaram uma Declaração Comum
O encontro durou cerca de três horas

Diplomacia

O encontro e o comunicado, negociado há décadas, evidenciam a reputação de Francisco como um líder aberto ao diálogo, à construção de laços e a reaproximação com antigos rivais. Apesar do caráter histórico do encontro, no entanto, o papa foi alvo de algumas críticas em virtude da proximidade entre Kirill e o Kremlin – o patriarca é um aliado do presidente Vladimir Putin – e da vontade dos ortodoxos russos de se reafirmarem perante outras denominações orientais.

A escolha do local do encontro, longe da Europa dividida entre católicos e ortodoxos, e próxima ao mesmo tempo da origem latino-americana do papa e do passado soviético russo, também foi escolhido com cuidado, segundo analistas.

A Igreja Ortodoxa russa reúne a maior parte dos cristãos orientais: 165 milhões de um total de 250 milhões. Para especialistas, a reunião com o papa trata-se de uma maneira de fortalecer a igreja russa perante outras denominações ortodoxas, como a grega, a maronita e outras.

“Não se trata de benevolência, nem de um desejo pela unidade cristã, mas do desejo de Kirill de se apresentar como líder dos ortodoxos”, criticou o teólogo greco-ortodoxo George Demacopoulos, da Universidade de Fordham.

Desde Paulo VI, papas têm se encontrado com o patriarca ecumênico – o primeiro entre iguais entre os ortodoxos –, que fica em Istambul. As duas igrejas divergem nos ritos e na primazia do papa sobre as demais denominações.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional – Sábado, 13 de fevereiro de 2016 – Pág. A10 – Internet: clique aqui.

ENCONTRO DO PAPA FRANCISCO COM S.S. KIRILL,
PATRIARCA DE MOSCOU E DE TODA A RÚSSIA

ASSINATURA DA DECLARAÇÃO CONJUNTA

Aeroporto Internacional "José Martí" de Havana - Cuba
Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 
PAPA FRANCISCO E PATRIARCA RUSSO KIRILL
assinando a Declaração Comum

Declaração comum
do Papa Francisco
e do Patriarca Kirill de Moscou e de toda a Rússia

«A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do
Espírito Santo estejam com todos vós» (2Cor 13,13).

1. Por vontade de Deus Pai de quem provém todo o dom, no nome do Senhor nosso Jesus Cristo e com a ajuda do Espírito Santo Consolador, nós, Papa Francisco e Kirill, Patriarca de Moscou e de toda a Rússia, encontramo-nos, hoje, em Havana. Damos graças a Deus, glorificado na Trindade, por este encontro, o primeiro na história.

Com alegria, encontramo-nos como irmãos na fé cristã que se reúnem para «falar de viva voz» (2Jo 12), coração a coração, e analisar as relações mútuas entre as Igrejas, os problemas essenciais de nossos fiéis e as perspectivas de progresso da civilização humana.

2. O nosso encontro fraterno teve lugar em Cuba, encruzilhada entre Norte e Sul, entre Leste e Oeste. A partir desta ilha, símbolo das esperanças do «Novo Mundo» e dos acontecimentos dramáticos da história do século XX, dirigimos a nossa palavra a todos os povos da América Latina e dos outros continentes.

Alegramo-nos por estar a crescer aqui, de forma dinâmica, a fé cristã. O forte potencial religioso da América Latina, a sua tradição cristã secular, presente na experiência pessoal de milhões de pessoas, são a garantia dum grande futuro para esta região.

3. Encontrando-nos longe das antigas disputas do «Velho Mundo», sentimos mais fortemente a necessidade dum trabalho comum entre católicos e ortodoxos, chamados a dar ao mundo, com mansidão e respeito, razão da esperança que está em nós (cf. 1Pd 3,15).

4. Damos graças a Deus pelos dons que recebemos da vinda ao mundo do seu único Filho. Partilhamos a Tradição espiritual comum do primeiro milênio do cristianismo. As testemunhas desta Tradição são a Virgem Maria, Santíssima Mãe de Deus, e os Santos que veneramos. Entre eles, contam-se inúmeros mártires que testemunharam a sua fidelidade a Cristo e se tornaram «semente de cristãos».

5. Apesar desta Tradição comum dos primeiros dez séculos, há quase mil anos que católicos e ortodoxos estão privados da comunhão na Eucaristia. Estamos divididos por feridas causadas por conflitos dum passado distante ou recente, por divergências – herdadas dos nossos antepassados – na compreensão e explicitação da nossa fé em Deus, uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deploramos a perda da unidade, consequência da fraqueza humana e do pecado, ocorrida apesar da Oração Sacerdotal de Cristo Salvador: «Para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17,21).

6. Conscientes da permanência de numerosos obstáculos, esperamos que o nosso encontro possa contribuir para o restabelecimento desta unidade querida por Deus, pela qual Cristo rezou. Que o nosso encontro inspire os cristãos do mundo inteiro a rezar ao Senhor, com renovado fervor, pela unidade plena de todos os seus discípulos. Num mundo que espera de nós não apenas palavras, mas gestos concretos, possa este encontro ser um sinal de esperança para todos os homens de boa vontade!

7. Determinados a realizar tudo o que seja necessário para superar as divergências históricas que herdamos, queremos unir os nossos esforços para testemunhar o Evangelho de Cristo e o patrimônio comum da Igreja do primeiro milênio, respondendo em conjunto aos desafios do mundo contemporâneo. Ortodoxos e católicos devem aprender a dar um testemunho concorde da verdade, em áreas onde isso seja possível e necessário. A civilização humana entrou num período de mudança epocal. A nossa consciência cristã e a nossa responsabilidade pastoral não nos permitem ficar inertes perante os desafios que requerem uma resposta comum.

8. O nosso olhar dirige-se, em primeiro lugar, para as regiões do mundo onde os cristãos são vítimas de perseguição. Em muitos países do Oriente Médio e do Norte de África, os nossos irmãos e irmãs em Cristo veem exterminadas as suas famílias, aldeias e cidades inteiras. As suas igrejas são barbaramente devastadas e saqueadas; os seus objetos sagrados profanados, os seus monumentos destruídos. Na Síria, no Iraque e noutros países do Oriente Médio, constatamos, com amargura, o êxodo maciço dos cristãos da terra onde começou a espalhar-se a nossa fé e onde eles viveram, desde o tempo dos apóstolos, em conjunto com outras comunidades religiosas.

9. Pedimos a ação urgente da comunidade internacional para prevenir nova expulsão dos cristãos do Oriente Médio. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, queremos expressar a nossa compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis doutras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista.

10. Na Síria e no Iraque, a violência já causou milhares de vítimas, deixando milhões de pessoas sem casa nem meios de subsistência. Exortamos a comunidade internacional a unir-se para pôr termo à violência e ao terrorismo e, ao mesmo tempo, a contribuir através do diálogo para um rápido restabelecimento da paz civil. É essencial garantir uma ajuda humanitária em larga escala às populações martirizadas e a tantos refugiados nos países vizinhos.

Pedimos a quantos possam influir sobre o destino das pessoas raptadas, entre as quais se contam os Metropolitas de Alepo, Paulo e João Ibrahim, sequestrados no mês de Abril de 2013, que façam tudo o que é necessário para a sua rápida libertação.

11. Elevamos as nossas súplicas a Cristo, Salvador do mundo, pelo restabelecimento da paz no Oriente Médio, que é «fruto da justiça» (Is 32,17), a fim de que se reforce a convivência fraterna entre as várias populações, as Igrejas e as religiões lá presentes, pelo regresso dos refugiados às suas casas, a cura dos feridos e o repouso da alma dos inocentes que morreram.

Com um ardente apelo, dirigimo-nos a todas as partes que possam estar envolvidas nos conflitos pedindo-lhes que deem prova de boa vontade e se sentem à mesa das negociações. Ao mesmo tempo, é preciso que a comunidade internacional faça todos os esforços possíveis para pôr fim ao terrorismo valendo-se de ações comuns, conjuntas e coordenadas. Apelamos a todos os países envolvidos na luta contra o terrorismo, para que atuem de maneira responsável e prudente. Exortamos todos os cristãos e todos os crentes em Deus a suplicarem, fervorosamente, ao Criador providente do mundo que proteja a sua criação da destruição e não permita uma nova guerra mundial. Para que a paz seja duradoura e esperançosa, são necessários esforços específicos tendentes a redescobrir os valores comuns que nos unem, fundados no Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

12. Curvamo-nos perante o martírio daqueles que, à custa da própria vida, testemunham a verdade do Evangelho, preferindo a morte à apostasia de Cristo. Acreditamos que estes mártires do nosso tempo, pertencentes a várias Igrejas, mas unidos por uma tribulação comum, são um penhor da unidade dos cristãos. É a vós, que sofreis por Cristo, que se dirige a palavra do Apóstolo: «Caríssimos, (...) alegrai-vos, pois assim como participais dos padecimentos de Cristo, assim também rejubilareis de alegria na altura da revelação da sua glória» (1Pd 4,12-13).

13. Nesta época preocupante, é indispensável o diálogo inter-religioso. As diferenças na compreensão das verdades religiosas não devem impedir que pessoas de crenças diversas vivam em paz e harmonia. Nas circunstâncias atuais, os líderes religiosos têm a responsabilidade particular de educar os seus fiéis num espírito respeitador das convicções daqueles que pertencem a outras tradições religiosas. São absolutamente inaceitáveis as tentativas de justificar ações criminosas com slogans religiosos. Nenhum crime pode ser cometido em nome de Deus, «porque Deus não é um Deus de desordem, mas de paz» (1Cor 14,33).

14. Ao afirmar o alto valor da liberdade religiosa, damos graças a Deus pela renovação sem precedentes da fé cristã que agora está a acontecer na Rússia e em muitos países da Europa Oriental, onde, durante algumas décadas, dominaram os regimes ateus. Hoje as cadeias do ateísmo militante estão quebradas e, em muitos lugares, os cristãos podem livremente confessar a sua fé. Num quarto de século, foram construídas dezenas de milhares de novas igrejas, e abertos centenas de mosteiros e escolas teológicas. As comunidades cristãs desenvolvem uma importante atividade sociocaritativa, prestando variada assistência aos necessitados. Muitas vezes trabalham lado a lado ortodoxos e católicos; atestam a existência dos fundamentos espirituais comuns da convivência humana, ao testemunhar os valores do Evangelho.

15. Ao mesmo tempo, estamos preocupados com a situação em muitos países onde os cristãos se debatem cada vez mais frequentemente com uma restrição da liberdade religiosa, do direito de testemunhar as suas convicções e da possibilidade de viver de acordo com elas. Em particular, constatamos que a transformação de alguns países em sociedades secularizadas, alheias a qualquer referência a Deus e à sua verdade, constitui uma grave ameaça à liberdade religiosa. É fonte de inquietação para nós a limitação atual dos direitos dos cristãos, se não mesmo a sua discriminação, quando algumas forças políticas, guiadas pela ideologia dum secularismo frequentemente muito agressivo, procuram relegá-los para a margem da vida pública.

16. O processo de integração europeia, iniciado depois de séculos de sangrentos conflitos, foi acolhido por muitos com esperança, como uma garantia de paz e segurança. Todavia convidamos a manter-se vigilantes contra uma integração que não fosse respeitadora das identidades religiosas. Embora permanecendo abertos à contribuição doutras religiões para a nossa civilização, estamos convencidos de que a Europa deva permanecer fiel às suas raízes cristãs. Pedimos aos cristãos da Europa Oriental e Ocidental que se unam para testemunhar em conjunto Cristo e o Evangelho, de modo que a Europa conserve a própria alma formada por dois mil anos de tradição cristã.

17. O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu.

18. As Igrejas cristãs são chamadas a defender as exigências da justiça, o respeito pelas tradições dos povos e uma autêntica solidariedade com todos os que sofrem. Nós, cristãos, não devemos esquecer que «o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus» (1Cor 1,27-29).

19. A família é o centro natural da vida humana e da sociedade. Estamos preocupados com a crise da família em muitos países. Ortodoxos e católicos partilham a mesma concepção da família e são chamados a testemunhar que ela é um caminho de santidade, que testemunha a fidelidade dos esposos nas suas relações mútuas, a sua abertura à procriação e à educação dos filhos, a solidariedade entre as gerações e o respeito pelos mais vulneráveis.

20. A família funda-se no matrimônio, ato de amor livre e fiel entre um homem e uma mulher. É o amor que sela a sua união e os ensina a acolher-se reciprocamente como um dom. O matrimônio é uma escola de amor e fidelidade. Lamentamos que outras formas de convivência já estejam postas ao mesmo nível desta união, ao passo que o conceito, santificado pela tradição bíblica, de paternidade e de maternidade como vocação particular do homem e da mulher no matrimônio, seja banido da consciência pública.

21. Pedimos a todos que respeitem o direito inalienável à vida. Milhões de crianças são privadas da própria possibilidade de nascer no mundo. A voz do sangue das crianças não nascidas clama a Deus (cf. Gn 4,10).

O desenvolvimento da chamada eutanásia faz com que as pessoas idosas e os doentes comecem a sentir-se um peso excessivo para as suas famílias e a sociedade em geral.

Estamos preocupados também com o desenvolvimento das tecnologias reprodutivas biomédicas, porque a manipulação da vida humana é um ataque aos fundamentos da existência do homem, criado à imagem de Deus. Consideramos nosso dever lembrar a imutabilidade dos princípios morais cristãos, baseados no respeito pela dignidade do homem chamado à vida, segundo o desígnio do Criador.

22. Hoje, desejamos dirigir-nos de modo particular aos jovens cristãos. Vós, jovens, tendes o dever de não esconder o talento na terra (cf. Mt 25,25), mas de usar todas as capacidades que Deus vos deu para confirmar no mundo as verdades de Cristo, encarnar na vossa vida os mandamentos evangélicos do amor de Deus e do próximo. Não tenhais medo de ir contra a corrente, defendendo a verdade de Deus, à qual estão longe de se conformar sempre as normas secularizadas de hoje.

23. Deus ama-vos e espera de cada um de vós que sejais seus discípulos e apóstolos. Sede a luz do mundo, de modo que quantos vivem ao vosso redor, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai que está no Céu (cf. Mt 5,14.16). Haveis de educar os vossos filhos na fé cristã, transmitindo-lhes a pérola preciosa da fé (cf. Mt 13,46), que recebestes dos vossos pais e antepassados. Lembrai-vos que «fostes comprados por um alto preço» (1Cor 6,20), a custo da morte na cruz do Homem-Deus Jesus Cristo.

24. Ortodoxos e católicos estão unidos não só pela Tradição comum da Igreja do primeiro milênio, mas também pela missão de pregar o Evangelho de Cristo no mundo de hoje. Esta missão exige o respeito mútuo entre os membros das comunidades cristãs e exclui qualquer forma de proselitismo.

Não somos concorrentes, mas irmãos: por esta certeza, devem ser guiadas todas as nossas ações recíprocas e em benefício do mundo exterior. Exortamos os católicos e os ortodoxos de todos os países a aprender a viver juntos na paz e no amor e a ter «os mesmos sentimentos, uns com os outros» (Rm 15,5). Por isso, é inaceitável o uso de meios desleais para incitar os crentes a passar duma Igreja para outra, negando a sua liberdade religiosa ou as suas tradições. Somos chamados a pôr em prática o preceito do apóstolo Paulo: «Tive a maior preocupação em não anunciar o Evangelho onde já era invocado o nome de Cristo, para não edificar sobre fundamento alheio» (Rm 15,20).

25. Esperamos que o nosso encontro possa contribuir também para a reconciliação, onde existirem tensões entre greco-católicos e ortodoxos. Hoje, é claro que o método do «uniatismo» do passado, entendido como a união duma comunidade à outra separando-a da sua Igreja, não é uma forma que permita restabelecer a unidade. Contudo, as comunidades eclesiais surgidas nestas circunstâncias históricas têm o direito de existir e de empreender tudo o que é necessário para satisfazer as exigências espirituais dos seus fiéis, procurando ao mesmo tempo viver em paz com os seus vizinhos. Ortodoxos e greco-católicos precisam de reconciliar-se e encontrar formas mutuamente aceitáveis de convivência.

26. Deploramos o conflito na Ucrânia que já causou muitas vítimas, provocou inúmeras tribulações à gente pacífica e lançou a sociedade numa grave crise econômica e humanitária. Convidamos todas as partes do conflito à prudência, à solidariedade social e à atividade de construir a paz. Convidamos as nossas Igrejas na Ucrânia a trabalhar por se chegar à harmonia social, abster-se de participar no conflito e não apoiar ulteriores desenvolvimentos do mesmo.

27. Esperamos que o cisma entre os fiéis ortodoxos na Ucrânia possa ser superado com base nas normas canônicas existentes, que todos os cristãos ortodoxos da Ucrânia vivam em paz e harmonia, e que as comunidades católicas do país contribuam para isso de modo que seja visível cada vez mais a nossa fraternidade cristã.

28. No mundo contemporâneo, multiforme e todavia unido por um destino comum, católicos e ortodoxos são chamados a colaborar fraternalmente no anúncio da Boa Nova da salvação, a testemunhar juntos a dignidade moral e a liberdade autêntica da pessoa, «para que o mundo creia» (Jo 17,21). Este mundo, aonde vão desaparecendo progressivamente os pilares espirituais da existência humana, espera de nós um vigoroso testemunho cristão em todas as áreas da vida pessoal e social. Nestes tempos difíceis, o futuro da humanidade depende em grande parte da nossa capacidade conjunta de darmos testemunho do Espírito de verdade.

29. Neste corajoso testemunho da verdade de Deus e da Boa Nova salvífica, possa sustentar-nos o Homem-Deus Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, que nos fortifica espiritualmente com a sua promessa infalível: «Não temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12,32).

Cristo é fonte de alegria e de esperança. A fé n’Ele transfigura a vida humana, enche-a de significado. Disto mesmo puderam convencer-se, por experiência própria, todos aqueles a quem é possível aplicar as palavras do apóstolo Pedro: «Vós que outrora não éreis um povo, mas sois agora povo de Deus, vós que não tínheis alcançado misericórdia e agora alcançastes misericórdia» (1Pd 2,10).

30. Cheios de gratidão pelo dom da compreensão recíproca manifestada durante o nosso encontro, levantamos os olhos agradecidos para a Santíssima Mãe de Deus, invocando-A com as palavras desta antiga oração: «Sob o abrigo da vossa misericórdia, nos refugiamos, Santa Mãe de Deus». Que a bem-aventurada Virgem Maria, com a sua intercessão, encoraje à fraternidade aqueles que A veneram, para que, no tempo estabelecido por Deus, sejam reunidos em paz e harmonia num só povo de Deus para glória da Santíssima e indivisível Trindade!

                       Francisco                                                  Kirill
                    Bispo de Roma                                      Patriarca de Moscou   
             Papa da Igreja Católica                                    e de toda Rússia
       

Havana (Cuba), 12 de Fevereiro de 2016.


Palavras do Santo Padre
após a assinatura da Declaração comum com o
Patriarca Kirill

Santidade,
Eminências,
Reverências,

Falamos como irmãos, temos o mesmo Batismo, somos bispos. Falamos das nossas Igrejas e estamos de acordo que a unidade se faz caminhando. Falamos claramente, sem meias-palavras, e confesso-vos que senti a consolação do Espírito neste diálogo. Agradeço a humildade de Sua Santidade, humildade fraterna e os seus bons desejos de unidade.

Partimos com uma série de iniciativas que penso serem viáveis e poderão realizar-se. Por isso, quero mais uma vez agradecer a Sua Santidade seu acolhimento benévolo, bem como aos colaboradores, nomeadamente, Sua Eminência o Metropolita Hilarión e Sua Eminência o Cardeal Koch, com todas respectivas equipes, que trabalharam para isto.

Não quero ir-me embora sem expressar um sentido agradecimento a Cuba, ao grande povo cubano e ao seu Presidente aqui presente. Agradeço-lhe a sua disponibilidade ativa. Se continuar assim, Cuba será a capital da unidade. E que tudo isto seja para a glória de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e para o bem do santo Povo fiel de Deus, sob o manto da Santa Mãe de Deus.

Fonte: Santa Sé – Viagem Apostólica do Papa Francisco ao México (12-18 de fevereiro de 2016) – Sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016 – Internet: clique aqui.

ANÁLISE

Putin, Francisco e o patriarca

Nina Khruscheva
Professora de Assuntos Internacionais e
Diretora da Área de Assuntos Acadêmicos na
The New School

Presidente russo busca popularidade política com a reunião
entre papa e patriarca 
PATRIARCA KIRILL E VLADIMIR PUTIN
O presidente russo apóia abertamente a Igreja Ortodoxa Russa e deseja o aumento da influência russa pelo mundo afora

O tempo que o presidente russo, Vladimir Putin, passou na KGB [serviço secreto da ex-União Soviética] o ensinou como se beneficiar à custa de outros. Na excelente biografia de Steven Lee Myers, The New Tsar, o ex-chefe da sucursal do New York Times em Moscou, descreve como, trabalhando na Alemanha Oriental nos últimos anos do comunismo, Putin usou a fraqueza de seus oponentes para promover a causa soviética.

A reunião histórica entre o papa Francisco e o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa em Cuba é mais uma ocasião que ele tentará usar em seu benefício. Essa foi a primeira reunião entre um pontífice católico e um patriarca russo desde o Grande Cisma do cristianismo, em 1054, quando divergências teológicas dividiram a fé em dois ramos, ocidental e oriental. Desde então, a Igreja Ortodoxa (em russo, a Pravoslavie, que significa literalmente “o culto correto”) é considerada a única forma certa de cristianismo na Rússia – as outras denominações são rejeitadas por apoiar o individualismo e um respeito insuficiente da alma humana.

Por quase um milênio, a animosidade pareceu insuperável. Nos tempos modernos, foi preciso a ameaça de uma guerra nuclear para surgirem iniciativas com o fim de restaurar o vínculo entre Oriente e Ocidente – mesmo assim, essa aproximação foi conduzida principalmente pelas autoridades seculares da Rússia. Em 1963, o então premiê soviético, Nikita Khruchev, ateu fanático, enviou seu cunhado e assessor Alexei Adzhubei para uma audiência com o então papa João XXIII.

Mas o avanço de fato ocorreu em 1989, quando o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev encontrou-se com João Paulo II, papa polonês que passara a década anterior fazendo oposição ao regime totalitário ateu soviético. Após o colapso da União Soviética, as relações continuaram a melhorar, com Boris Yeltsin, o primeiro presidente da Federação Russa, visitando o Vaticano em 1991 e 1998. Objeções feitas pela Igreja Ortodoxa Russa, no entanto, impediram o papa de aceitar convites para visitar Moscou.

As relações entre a Rússia e a Santa Sé assumiram novo significado depois de Putin se tornar presidente. Ao contrário dos soviéticos oficialmente ateus, Putin tem uma relação muito estreita com a Igreja Ortodoxa, defendendo valores sociais conservadores e procurando ampliar a influência russa no exterior.
BIOGRAFIA DE VLADIMIR PUTIN ESCRITA POR
Steven Lee Myers
TRADUÇÃO DO TÍTULO:
"O NOVO TSAR: A ASCENSÃO DE VLADIMIR PUTIN"

Em 2007, a Igreja Ortodoxa Russa uniu-se a um ramo dissidente, a Igreja Ortodoxa Russa Fora da Rússia, que havia se separado em protesto contra os fortes vínculos da Igreja Ortodoxa Russa com os bolcheviques. “O retorno da unidade da Igreja é condição crucial para o renascimento da unidade perdida de todo o ‘mundo russo’, que sempre teve a fé ortodoxa como um de seus alicerces’”, declarou Putin em uma cerimônia marcando a ocasião.

A reunião de ontem em Cuba oferece a Putin a oportunidade de se tornar o líder russo que supervisionou o início de um diálogo entre as Igrejas Católica e Ortodoxa. A importância que ele dá a esse evento está refletida na própria improbabilidade.

Putin e Kirill, afinal, foram os líderes da crescente animosidade antiocidental e conduziram a Igreja Ortodoxa Russa na direção do conservadorismo, do nacionalismo e da intolerância. O patriarca – há rumores de que ele próprio teria pertencido à KGB – qualificou a guerra na Síria de “guerra santa”, acrescentando que “hoje, o nosso país talvez seja a força mais ativa no mundo a combater”. Francisco, pelo contrário, não só é claramente um progressista, recusando-se a caluniar os homossexuais, mas tem apelado repetidamente para uma solução pacífica do conflito sírio.

Ao deixar que essa reunião se realize – e não há dúvida de que deu sua aprovação –, Putin busca validação religiosa e popularidade política. O encontro também lhe permitirá, mais uma vez, provocar o Ocidente, indignado que está com a imposição de sanções contra seu país em razão do conflito na Ucrânia, da anexação da Crimeia e as críticas à sua intervenção na Síria.

A realização do encontro em Cuba foi uma estratégia inteligente. Em razão das sanções impostas à Rússia, a Europa era zona proibida. Mas Cuba, que recebeu assistência financeira crucial da União Soviética em troca da lealdade de Fidel Castro, é um lembrete muito forte da reivindicação da Rússia a ter uma relevância global.

Os dirigentes da ilha nunca denunciaram o Cristianismo de modo tão absoluto quanto os soviéticos e nos últimos 20 anos o país recebeu três visitas papais: João Paulo II em 1998, Bento XVI em 2012 e Francisco em 2015. Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel, já havia convidado o patriarca russo a uma visita, para ver em primeira mão que comunismo e cristianismo são compatíveis.

Para Putin, não poderia haver melhor ocasião para esse encontro. Os preços do petróleo despencando, o declínio espetacular do valor do rublo, as sanções em curso e as imagens sangrentas que chegam da Síria o deixam desesperado por notícias positivas. E que melhor oportunidade de foto do que o papa ao lado do seu mais próximo aliado político e espiritual?

Traduzido do inglês por Terezinha Martino.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Internacional / Visão Global – Sábado, 13 de fevereiro de 2016 – Pág. A10 – Internet: clique aqui.

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