«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"O Papa não tolera maus-tratos ao povo"

Entrevista com Gianni Valente

Riccardo Benotti
Servizio Informazione Religiosa – SIR
22-02-2016

A reflexão de um jornalista após a visita de
Papa Francisco ao México 
GIANNI VALENTE
Jornalista italiano

"Francisco valoriza e aplaude os que vivem a vocação como serviço ao povo de Deus, e adverte aqueles que reduzem a vocação religiosa a um trabalho, ou pior, a um instrumento de dominação. É uma experiência que ele mesmo viveu como sacerdote e bispo".

Assim o jornalista Gianni Valente reflete alguns dos principais temas emersos na visita apostólica do Papa ao México:
* questão migratória,
* tráfico de drogas,
* fronteiras,
* fé do povo,
* prisões,
* figura do padre e dos religiosos,
* abusos sexuais,
* China.

"Exercer o juízo é próprio do papel do Papa, mas não se trata de afirmar seu poder político: a referência é o Evangelho. Na simplificação feita pelos meios de comunicação, as palavras de Francisco foram lidas como excomunhão direta de um personagem político. Mas na verdade expressavam um critério aplicável a todos, ou seja, que um certo tipo de abordagem do fenômeno da migração não é cristã. Isso não leva automaticamente a um repúdio de caráter político".

Esta é a convicção do jornalista Gianni Valente, comentando a resposta dada pelo papa Francisco, durante o voo de regresso da viagem apostólica ao México (12-18 de Fevereiro), a uma pergunta a respeito de Donald Trump, candidato republicano para a presidência dos Estados Unidos da América (EUA): "uma pessoa que só pensa em fazer muros, esteja onde estiver, e não em fazer pontes, não é cristã".

Eis a entrevista.

A gestão dos fluxos migratórios sempre foi uma preocupação do Papa.

Gianni Valente: Acolher o estrangeiro é uma das obras de misericórdia corporal. É um critério que pode ser aplicado às escolhas políticas europeias. Trata-se de um problema epocal de dimensões globais. Neste sentido, a viagem ao México estava cheia de mensagens ao mundo. A abordagem do Papa foi realista, sem perseguir idealismos abstratos ou falsos voluntarismos. Francisco recorda o acolhimento como única solução possível para gerir politicamente o fenômeno migratório.
PAPA FRANCISCO
Embarcando no avião que o conduziu pelo México em sua visita apostólica de 12 a 17 de fevereiro

Que razões levaram Francisco a enfrentar uma viagem ao México?

Gianni Valente: O México está no coração do Papa. A devoção mariana, característica da América Latina, encontra uma das mais altas expressões em Nossa Senhora de Guadalupe. Além disso, o México é um lugar de fronteira, perpassado por guerras de vários tipos. Francisco conhece a influência do tráfico de drogas sobre a economia mundial, desde quando era arcebispo de Buenos Aires. É um dos temas mais recorrentes em suas reflexões, juntamente com o tráfico de armas.

Na Argentina, não media esforços para dar suporte aos sacerdotes que, nas áreas marginais, nas villas miseria, levavam adiante projetos de assistência e prevenção às novas gerações. Buenos Aires era um território no qual a indústria do narcotráfico vendia o lixo do processamento.

A droga mais popular era o "paco", substância de baixo preço, mas de grande agressividade.

O México também é um país de maioria católica ...

Gianni Valente: Não obstante, é um lugar de contradição. Por um lado, é evidente a fé autêntica do povo, da qual Francisco, como peregrino, queria beber. Por outro lado, no entanto, a devoção tão visceral a Jesus e Maria choca-se com o fenômeno da desumanização, contra o qual um povo inteiro não consegue encontrar contramedida. Também por isso o Papa convidou a olhar para Cristo e para o exemplo da Virgem Maria como fontes de uma nova humanidade.

Antes de voltar para o Vaticano o Papa encontrou-se com os prisioneiros em Ciudad Juárez. O tema das prisões é recorrente no seu pensamento?

Gianni Valente: Também visitar os prisioneiros é uma das obras de misericórdia corporal. No ano do Jubileu extraordinário, Francisco quer acompanhar toda a Igreja neste caminho. O discurso aos presos foi um dos momentos mais tocantes da visita: o Papa reiterou a dinâmica da misericórdia, que não força de fora, mas que cuida das situações difíceis, e abre para um futuro nunca totalmente perdido.

À Nossa Senhora de Guadalupe o Papa pediu "para que os padres sejam verdadeiros padres, as religiosas, verdadeiras religiosas e os bispos, verdadeiros bispos".

Gianni Valente: A conversão pastoral da Igreja é a base. No lembrete constante para serem autênticos sacerdotes, freiras e bispos não há fúria rigorista. Simplesmente o Papa sugere que todos possam reconhecer a fonte da vocação. É preciso lembrar-se que no início havia uma força atrativa, e romper com a dinâmica da atrofia.

Francisco valoriza e aplaude aqueles que vivem a vocação como serviço ao povo de Deus, e adverte aqueles que reduzem a vocação religiosa a um trabalho, ou pior, a um instrumento de dominação.

É uma experiência que ele mesmo viveu como sacerdote e bispo. A imagem de um povo fiel e bom oprimido pelo clero. O Papa não tolera que o povo seja maltratado. Daí o convite de sempre seguir o sensus fidei do povo, porque ali age a graça de Cristo. Aos Bispos do México disse: "Não se deixem apanhar pela vã procura de mudar o povo, como se o amor de Deus não tivesse força suficiente para isso".

Ao falar sobre o flagelo da pedofilia na viagem de volta, o Papa disse que "um bispo que transfere um padre de paróquia, quando se verifica um caso de abuso infantil, é um inconsciente, e a melhor coisa que poderia fazer é apresentar sua renúncia".

Gianni Valente: É significativo que o Papa aproxime o tema da pedofilia ao das missas negras. O abuso de menores, em sua percepção, especialmente quando cometidos por religiosos, recordam um sacrifício humano com traços diabólicos.

Não se trata de insistência voltada a agradar as dinâmicas midiáticas. Para Francisco, na pedofilia se toca o coração do mistério do mal, que é ainda mais devastador quanto perturba a relação de confiança entre as novas gerações e aqueles que deviam testemunhar-lhes o amor de Jesus.

"A China ... ir para lá: Gostaria muito", disse o Papa. É uma hipótese viável, mas em que prazo?

Gianni Valente: Os tempos, não os conhecemos. Francisco mandou uma mensagem clara à China: ele está pronto para ir. Estima a civilização chinesa e sente-se próximo ao povo. Católicos e bispos chineses estão contentes com a pregação do Papa, seguido com facilidade por meio dos novos meios de comunicação.

É incrível o que acontece na China no Ano de Misericórdia: abrem-se centenas de Portas Santas, até nas pequenas aldeias, e os bispos escrevem cartas pastorais retomando o conteúdo do Misericordiae Vultus. Todos esperam que se encontre o caminho para a normalização das relações entre a Santa Sé e o Governo, para que seja mais fácil para os católicos viverem sua fé na dimensão quotidiana.

Traduzido do italiano por Ramiro Mincato. Para acessar a versão original desta matéria, clique aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016 –Internet: clique aqui.

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