«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 8 de março de 2016

O "Fantástico" Dia Internacional das Mulheres!

RITA LISAUSKAS

É dia de flores, bombons e do machismo de sempre

Você acorda com o despertador às seis da manhã do dia 8 de março e ganha abraços, beijos, flores e bombons. Na sequência, seu marido pergunta se o café está pronto. Sim, está. Você colocou o vasinho na varanda e os bombons na geladeira enquanto passava o uniforme do filho. Depois arrumou a lancheira, a mochila, trocou a fralda, vestiu o bebê. Arrumou ainda o berço do guri e sua cama, já que seu marido, coitado, não fazia nada da casa da mãe, faz ainda menos na casa de vocês. Depois de tudo isso, já exausta, tem que tomar banho e se ajeitar rápido. Deixar filho no berçário e chegar na hora ao escritório. Lá mais flores e bombons sobre uma pilha de trabalho na sua mesa. O colega da mesa ao lado da sua – que ganha um salário maior que o seu mesmo exercendo a mesma função – ainda não chegou, claro. Engraçado que a última vez que você pediu equiparação salarial com ele seu chefe explicou, de um jeito tatibitati, que fulano ganha mais que você porque pode se dedicar mais ao escritório. São 8 horas e você já está aqui. Ele não.

Ele também tem filhos, como você, mas não é ele quem os busca na escola. Também não é ele quem corre ao hospital quando uma das crianças cai na hora do recreio e tem de levar pontos, ou engessar o braço. É a mulher dele, advogada como ele e como você. Mas nem o fato do seu colega de trabalho e vizinho de mesa também ter filhos faz com que entenda sua vida cronometrada. Ele não se opôs à mudança da reunião de hoje para o horário que você tem de sair para buscar seu bebê no berçário. Você até tentou que seu marido apanhasse o filho de vocês mas, imagina, o pai dos seus filhos é um executivo de sucesso e não pode “dar esse mole” no escritório. Ele também abriu mão dos míseros cinco dias de licença paternidade, “o que vão pensar de mim se eu ficar uma semana fora?”, disse. Você vai perder a apresentação do relatório e seu colega parecerá muito mais comprometido com a empresa. A você caberá o papel de advogada relapsa que não pode fazer hora extra. De novo.

Na hora do almoço você abre mão de almoçar. Corre para o salão porque não deu tempo de lavar o cabelo e fazer uma escova, advogada tem de estar com o cabelo sempre liso. Queria muito assumir os cachos, tem orgulho deles, mas já ouviu do chefe “vai à audiência com esse cabelo armado? Isso não passa credibilidade!” Aproveita para pintar as unhas, deixar de fazê-las pode demonstrar desleixo. Está morrendo de fome, mas tem de correr de volta pro escritório porque se atrasar um minuto, já viu. Todos vão perceber. E comentar.

Chegando à sua mesa recebe um e-mail do RH convidando todas as mulheres do escritório para uma massagem relaxante de graça, “em comemoração ao Dia da Mulher!” Começam as piadas. “Essa mulherada precisa de massagem mesmo, parecem que estão sempre de TPM!” Risos descontrolados dos machos da repartição. “Quem sabe assim não ficam mais calmas?” Mais risos. Você bem que queria algo do tipo, o pescoço anda meio travado, mas acabou de chegar do almoço. Sair da mesa de novo? Pode pegar mal. Os homens em peso aproveitam a massagem.
RITA DE CÁSSIA LISAUSKAS
Ela tem 39 anos, é jornalista e trabalha na TV

A tarde voa e você não se dá ao luxo nem para um cafezinho. Faz tudo o que tinha que fazer, ainda adianta um pouco um relatório que é para amanhã. A galera se apronta para a tal reunião e você voa para o estacionamento. O trânsito tá meio congestionado e você chega à escola em cima da hora. Não há vagas para estacionar. As mulheres, estressadas, começam a parar em fila dupla, ou param os carros em lugares proibidos. Muitos motoristas passam xingando: “Tinha de ser mulher mesmo!” Dá para ver que muitas estão exaustas. Uma delas, mãe da melhor amiguinha do seu filho, fala: “Feliz dia da mulher!” Você agradece. Mas tem vontade de gritar ao ver que seu carro foi multado mais uma vez.

Chegando em casa, filho cansado, pensa na rotina que tem pela frente. Banho no guri, lavar uniforme, fazer jantar, lavar louça, retornar as cinco ligações perdidas do escritório no celular. Pega o elevador e o vizinho de cima, aquele que vive gritando palavrões para a esposa, está simpático: “Parabéns pelo seu dia!”, deseja. Você agradece e pensa que bom seria se chegasse em casa e pudesse ler aquele livro que ensaia há tempos, da Simone de Beauvoir. Está cansada demais, acha que não vai dar tempo. Quem sabe amanhã?

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – Blog: Ser mãe é padecer na internet – 08 de março de 2016 – 10h40 – Internet: clique aqui.

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