«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Um cardeal pronuncia-se sobre o momento atual do mundo e do Brasil

Perguntas a respeito do bem e do mal

Dom Odilo Pedro Scherer
Cardeal-arcebispo de São Paulo – SP

Não é mais possível ir adiante com esquemas corruptos
na política e na administração pública resultado de
uma longa e profunda crise moral
D. ODILO PEDRO SCHERER
Cardeal-arcebispo de São Paulo - SP


Na vida, há decisões e comportamentos acertados, que merecem reconhecimento e aplauso e proporcionam paz à consciência, enquanto outras despertam a repulsa e a reprovação das pessoas e deixam o coração intranquilo.

No dia 5 de março correu a notícia do assassinato de quatro freiras por um terrorista, no Iêmen. Duas eram de Ruanda, uma da Índia e uma do Quênia. Eram Missionárias da Caridade, uma congregação fundada por Madre Teresa de Calcutá para se dedicar aos mais pobres entre os pobres; e era bem isso que as religiosas católicas assassinadas faziam no Iêmen, um pequeno país muçulmano: cuidavam de pessoas abandonadas, idosas ou com vários tipos de deficiência.

O ato violento foi qualificado como brutal, vil e diabólico; o mínimo bom senso leva a concluir que em atos semelhantes não há nada de nobre e belo que enalteça a qualidade humana de quem os praticou. Talvez até houvesse motivações políticas, sede de vingança ou desejo de chamar a atenção de potências interessadas na guerra civil daquele país; talvez tenha sido por fanatismo xenófobo e religioso, só porque aquelas religiosas católicas estrangeiras faziam algo de bom num contexto social caótico e de violência generalizada.

Elas estavam ali simplesmente por amor ao próximo, sem fazer proselitismo religioso, sem intenções políticas ou econômicas, nem mesmo tinham a pretensão de salário; viviam em pobreza voluntária, compartilhando a vida dos pobres e rejeitados do lugar. Estavam cientes do perigo que corriam, pois meses antes sua pequena capela já havia sido incendiada. Continuavam lá por escolha, para servir ao próximo nas situações extremas de abandono e insegurança, em que cada um tenta salvar-se como pode e os que não podem são abandonados e esmagados pelo rolo compressor da violência.
 
Irmãs Missionárias da Caridade - congregação religiosa fundada por Madre Teresa de Calcutá

A atitude delas foi heroica? Talvez. Mas elas não pretendiam ser heroínas, nem mulheres de ferro, corajosas a ponto de enfrentarem qualquer risco. Eram frágeis como os pobres e rejeitados assistidos por elas. O que faziam tinha uma única motivação: a prática do bem, por amor a Deus e ao próximo.

Cabe ainda alguma dúvida sobre o que foi mais belo e louvável: o ato insano de quem descarregou seu ódio e sede de vingança ou a atitude das missionárias assassinadas? É difícil imaginar que alguém louve a ação violenta e reprove a atitude das Missionárias da Caridade. A prática do bem e da virtude enobrece quem a faz e recebe o reconhecimento das outras pessoas. O bem é belo e enobrece. A prática do mal é moralmente feia, merece a reprovação e deixa marcas depreciativas em quem o faz.

Parece que estou dizendo o óbvio, mas é bom que nos perguntemos se isso ainda vale. Ou nem sabemos mais o que é bem e o que é mal? O certo e o errado? Talvez seja este um dos problemas do nosso tempo: nada vale e tudo vale. O que é visto como um bem por uns é interpretado como um mal por outros.

O que faz com que uma ação seja boa ou seja má? Embora a questão não seja totalmente objetiva e no julgamento das ações concorram muitos fatores, é certo que o bem e o mal permanecem contraditórios. Nada pode ser bom e mau ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Temos ainda parâmetros para chamar de bom o que é bom? E de mau o que é mau?

Passemos a outro cenário. O Brasil vive diversas crises ao mesmo tempo: política, econômica, social... A meu ver, esta situação de crise é resultado, sobretudo, de uma longa e profunda crise moral. Há tempos vivemos uma ambiguidade ética na vida pública e privada e chegamos agora a um momento crucial, em que se faz necessário rever algo na cultura que vamos edificando. Não é mais possível ir adiante com esquemas corruptos na política e na administração pública. Além disso, o exemplo que vem de cima tende a ser padrão de referência para comportamentos e decisões privadas dos cidadãos. Necessária é uma séria avaliação e uma tomada de consciência, para uma nova atitude.

A presente geração tem a oportunidade de realizar uma mudança nos padrões de comportamento no que se refere à:
* honestidade pública,
* à lisura na administração do bem comum,
* à sensibilidade em relação aos sofrimentos do próximo.

A crise econômica, misturada com a crise política e moral, acaba pesando mais duramente sobre as pessoas que já sofrem e são deserdadas do bem comum.

Os serviços públicos de saúde, educação, saneamento básico e segurança pública sofrem imediatamente as consequências negativas da crise econômica. E a perda do emprego acaba empurrando mais gente para a angústia, a pobreza e a miséria.

Voltemos às perguntas: é belo e louvável acumular riqueza desonesta? Desviar dinheiro público para o benefício privado? Isso não mexe em nada na consciência? Dorme tranquilo quem se apropria de bens que não lhe pertencem? Que são do Estado, destinados a promover o bem comum? Consegue olhar para as filas de doentes, rostos sofridos, nos consultórios do SUS, sem sentir calafrios e dores na alma, quem se apropriou de recursos públicos, que deveriam atender aos serviços básicos de saúde da população?

Haverá, talvez, quem continue a achar que é bobo quem tem a ocasião e não a aproveita... Será que esta lógica do jeitinho maneiro merece louvor e aprovação, mais que a administração honesta e conscienciosa do bem alheio?

Parece que temos certa timidez para chamar honesta a ação honesta e desonesta a que é desonesta. Os pequenos desvios morais abrem as portas à grande corrupção. Não seria hora de nos perguntarmos sobre o que é belo no agir humano e o que é reprovável? De chamar bem o que é bem e mal o que é mal? Ou se corrompeu também o nosso senso moral?

Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Sábado, 12 de março de 2016 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.

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