«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Não é uma guerra entre religiões ! ! !

"Não é uma cruzada.
É uma guerra moderna e totalmente ideológica”

Entrevista com Franco Cardini
Historiador, especialista em Cruzadas

Roberto Zunini
Jornal “Il Fatto Quotidiano”
27-07-2016

Um padre capturado no altar e assassinado:
é realmente uma guerra religiosa? 
FRANCO CARDINI

O Estado Islâmico fala de "a guerra contra os cruzados cristãos". No Ocidente, somente algumas direitas ou alguns fundamentalismos aceitavam essa linguagem. Estão aumentando?

Franco Cardini: A "Internacional" dos imbecis é ampla: a Guerra Santa é imaginária, não tem nada a ver com as Cruzadas históricas nem com a jihad. Poderia ter uma relação com as guerras descritas por Saint-Just no discurso para a Convenção de 1793, "as guerras do povo devem ser cruéis e totais", ou com os furores bélicos que animavam os cristeros no México, ou falangistas e anarquistas na guerra da Espanha...

Mas, desta vez, quem foi atacado foi um padre na igreja: algo muda?

Franco Cardini: Matar um padre enquanto ele celebra é uma declaração de guerra, não uma declaração islâmica. Precedentes históricos existem, e não é preciso voltar às Cruzadas: São Thomas Beckett foi morto no altar por sicários do seu rei; os assassinos do regime em El Salvador pegaram Dom Romero na sua igreja. Houve mortes de muçulmanos nas mesquitas em Jerusalém e mortes de cristãos por parte de muçulmanos em Otranto, em 1480... Mas assim, a frio, esses dois, armados apenas com uma arma branca, fizeram uma paródia blasfema do ato de Abraão. Uma coisa horrível, mas que não tem nada de cristão ou de muçulmano: é um ato de loucura política.

Mas não é diferente matar alguém no Bataclan [boate de Paris] ou em uma igreja?

Franco Cardini: Sim, mas é um ato de guerra também religiosa somente na sua mentalidade. Na realidade, são assassinatos infames, ponto.
NICOLAS SARKOZY
Pregando uma "resposta impiedosa" aos atos terroristas na França!

E a resposta da França? Agora, o ex-presidente Sarkozy pede uma “resposta impiedosa”. E é a direita gaullista, não a lepenista...

Franco Cardini: Isso significa que vão atacar o califa no coração do seu poder, em Mosul? Precisamos nos preocupar com o fato de que um homem como Sarkozy tenha sido presidente, e da França, não de San Marino. Até hoje, a França matou impiedosamente centenas de mulheres e crianças que não tinham nada a ver, depois que Hollande ordenou os bombardeios na Síria.

Bombardear é uma coisa. Mas como impedir que alguém que está sob prisão domiciliar circule por aí com uma faca?

Franco Cardini: Esta seria uma resposta rigorosa, não impiedosa: eu não acho que Sarkozy quer entrar na mesquita de Paris e atirar contra os fiéis, ou fazer blitzes indiscriminadas nas banlieue [periferias]. Seria justamente o que o califa quer de nós: reações insanas. Até mesmo os militares não diriam "resposta impiedosa". Resposta rigorosa, sim, mas dentro do Estado de direito. Apertar os controles, sim, mas civil e legalmente. E isso requer um compromisso sério.

A Europa tem os recursos para enfrentar esses ataques sem sofrer uma modificação genética?

Franco Cardini: Historicamente, essas ameaças muitas vezes despertam o senso cívico. É necessária uma resposta séria e compacta de todo o povo francês, das instituições aos seus cidadãos, que deve passar, em primeira linha, pelos cidadãos muçulmanos. O califa quer que nós isolemos os muçulmanos, que os nossos jovens batam nos jovens muçulmanos na escola. É isso que é preciso evitar. A linguagem da resposta impiedosa serve apenas para agradar um pouco ao subproletariado que está no bar e diz: "Eu iria lá e mataria todos". Depois, você lhe pergunta: "Lá onde?", e ele não sabe responder.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original desta entrevista, clicando aqui.

Oriente Médio:
quem instrumentaliza as religiões

Entrevista com Georges Corm
Economista e historiador libanês, consultor de diversas organizações internacionais

Chiara Zappa
Jornal “Avvenire” (Itália)
27-07-2016
GEORGES CORM

Dhaka, Istambul, Nice. E, mais uma vez, as vítimas de Bruxelas, assim como as de Tunis, o Bataclan, assim como o bar Pulse, em Orlando: a atualidade nos obriga a uma terrível contabilidade de morte que parece não se esgotar nunca. O rastro de terror de matriz fundamentalista que está ensanguentando o mundo causa vertigens e inevitavelmente traz argumentos para a interpretação daqueles que, das salas de TV aos think tank geopolíticos, relacionam a violência com um irreconciliável conflito entre culturas e religiões.

A teoria do choque de civilizações, exposta por Samuel Huntington no seu ensaio de 1996 e que, depois, se difundiu com uma sorte surpreendente do mundo acadêmico ao da mídia, está hoje na base de todas as leituras mais credenciadas das tensões que atravessam o presente, que se encobrem de motivações confessionais e afirmações identitárias.

"Mas cair nessa armadilha significa fazer justamente o jogo dos terroristas": a convicção é de Georges Corm, economista e historiador libanês, consultor de diversas organizações internacionais (incluindo a União Europeia e o Banco Mundial), que dedicou décadas de estudo para analisar as dinâmicas da área mediterrânea.

Para o eclético intelectual cristão nascido em Alexandria em 1940, ministro da Economia do Líbano de 1998 a 2000, professor em várias universidades também europeias – atualmente na Saint Joseph University, em Beirute –, exatamente a 100 anos dos acordos de Sykes-Picot que dividiram entre a França e o Reino Unido as províncias árabes do Império Otomano, os efeitos nefastos da famosa "linha na areia" que lançou as bases geopolíticas do atual Oriente Médio continuam evidentes no caos endêmicas da região.

Uma instabilidade que tem muito pouco a ver com as supostas diferenças irredutíveis entre civilizações, como ele defendeu em textos como Oriente Occidente. Il mito di una frattura [Oriente-Ocidente. O mito de uma fratura] (Vallecchi, 2003), Il mondo arabo in conflitto [O mundo árabe em conflito] (Jaca Book, 2005), ou o mais recente Il nuovo governo del mondo [O novo governo do mundo] (Vita e Pensiero, 2013).

Mas é no ensaio Contro il conflitto di civiltà. Sul "ritorno del religioso" nei conflitti contemporanei del Medio Oriente [Contra o choque de civilizações. Sobre o "retorno do religioso" nos conflitos contemporâneos do Oriente Médio], agora traduzido pela editora Guerini e Associati (234 páginas), que Corm se dedica de modo sistemático a refutar leituras considerados simplistas e "cômodas" demais de fenômenos com uma complexidade histórica, econômica e política muito mais profunda.

Eis a entrevista.

O senhor cita alguns eventos da história recente que efetivamente trouxeram a religião novamente para o cenário global: por que defende que estamos diante não de um "retorno do religioso", mas de um "recurso ao religioso" para fins instrumentais?

Georges Corm: Depois da Segunda Guerra Mundial, assistimos à emergência de Estados que pretendiam ser porta-vozes de uma religião: pensemos no Paquistão, baseado no Islã, ou em Israel, constituído sobre o judaísmo, apesar do fato de os fundadores se sentirem laicos. Mas também a Arábia Saudita, onde o apoio dos Estados Unidos permitiu que a família Saud, em aliança com a corrente wahhabita, criasse um reino fundado sobre o radicalismo sunita, cuja riqueza devida ao petróleo, depois, influenciou fortemente as políticas na região.

É a mesma lógica que explica o treinamento, por parte dos Estados Unidos, de combatentes islamistas em função antissoviética no Afeganistão, que, depois, lançou as bases da Al-Qaeda: um fruto da estratégia do consultor de Jimmy Carter para a segurança nacional, Zbigniew Brzezinski, que visava a instrumentalizar a religião contra o comunismo. Eis o ponto: em todos esses casos, a fé é posta em causa para ser posta a serviço de outros interesses.

A análise política hoje, no entanto, se concentra sobre fatores como a identidade e a cultura, mais do que nas causas profanas dos conflitos...

Georges Corm: Embora seja um dado de bom senso o fato de que as guerras provêm da ambição humana – pelo acesso aos recursos, às rotas estratégicas, às trocas econômicas internacionais –, o marco intelectual fornecido por Huntington – essencialmente, uma revisita à velha tese racista do século XIX, que via a contraposição entre arianos e semitas – deu legitimidade a uma série de escolhas geopolíticas, principalmente as invasões estadunidenses do Afeganistão e do Iraque. Nesse contexto, os princípios do direito internacional já são aplicados de forma diferente dependendo da identidade confessional dos diversos Estados e da sua relação com as potências ocidentais.

Sem falar daqueles que usam a fé para mobilizar as massas...

Georges Corm: Exato. Com a agravante de que, quanto mais ela [a religião, a fé] é utilizada como legitimação para atos de governo, internos ou internacionais, menos os cidadãos ousam pôr tais atos em discussão. Trata-se de um método eficaz para paralisar o espírito crítico do povo em relação ao poder, no Ocidente e no Oriente Médio.

Depois do choque das guerras mundiais no século XX, quando nos confrontamos dramaticamente com os limites dos valores iluministas e marxistas, verificou-se um deslocamento para o multiculturalismo: o conceito de igualdade perante a lei foi abandonado em favor do "direito de ser diferente", como uma forma avançada de democracia capaz de acomodar as especificidades étnicas ou religiosas dos cidadãos.

No entanto, isso abre caminho para muitas ambiguidades. Por exemplo, de acordo com alguns, os imigrantes não têm o dever de se integrar nos contextos de acolhida, porque é preciso permitir que eles afirmem a própria identidade. Mas é um conceito perigoso.

É o que o senhor define como o risco da comunitarização do mundo: o que significa?

Georges Corm: A história demonstra que, quando as diferenças de cada comunidade individual são organizadas politicamente dentro de uma sociedade, vai-se de encontro com tensões permanentes: observamos isso em contextos que vão da Bélgica (com os contrastes entre flamengos e valões) ao Irã (com a fossilização da identidade xiita depois da revolução de 1979) e, de modo marcante, no meu Líbano, onde vigora uma divisão até institucional entre cristãos, muçulmanos e grupos diversos que se referem ao Islã. Um mecanismo que, mais do que proteger as diversidades, no fim, parece favorecer o divide et impera [divide e domina]. Eu defendo, por experiência, que, se, por um lado, é sacrossanto perorar os direitos das minorias, por exemplo, as minorias hoje ameaçadas no Oriente Médio, por outro, o marco de um Estado laico é indispensável para a democracia.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original desta entrevista, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 28 de julho de 2016 – Internet: clique aqui; e aqui.

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