«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"O medo e o ódio têm a mesma origem"

Entrevista com Zygmunt Bauman
Filósofo e escritor polonês

Francesca Paci
Jornal “La Stampa” – Turim – Itália
11-07-2016

O filósofo: a xenofobia na Europa e em Dallas são filhas da crônica incerteza 
ZYGMUNT BAUMAN

«O medo é o demônio mais sinistro do nosso tempo», alertava há muitos anos o filósofo polonês Zygmunt Bauman. Olhando para o mundo ocidental, que, dos Estados Unidos da América (EUA) à envelhecida Europa, parece ter sucumbido às pulsões mais furiosas como se tivesse se tornado o Oriente Médio, os fantasmas evocados pelo teórico da sociedade líquida, além de uma das mentes mais afiadas do pensamento contemporâneo, assumem dimensões épicas.

La Stampa: Dallas, mas também os episódios xenófobos que se repetiram no Reino Unido depois do Brexit e, na Itália, porto dos migrantes, o refugiado nigeriano morto em Fermo. Professor Bauman, estamos passando da era do medo para a era do ódio?

Zygmunt Bauman – Não há nenhuma passagem dos medos nascidos da nossa incerteza crônica à exibição de ódio em Dallas ou aos minipogroms [manifestações violentas contra estrangeiros ou minorias] ocorridos depois do Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] nas ruas inglesas: são contemporâneos, só raramente eles são experimentados separadamente. Medo e ódio têm as mesmas origens e se alimentam da mesma comida: eles lembram os gêmeos siameses condenados a passar toda a vida na companhia recíproca. Em muitos casos, não apenas nasceram juntos, mas também só podem morrer juntos. O medo deve necessariamente buscar, inventar e construir os objetivos sobre os quais deve descarregar o ódio, enquanto o ódio precisa da qualidade assustadora dos seus objetivos como razão de ser: eles se entrechocam reciprocamente, só podem sobreviver assim.

LS: Há uma relação de causalidade entre a difusão do "hate speech" (discurso de ódio) e as novas tensões étnicas e raciais?

Zygmunt Bauman – A sua coincidência não é casual, mas nem predeterminada. Como toda aliança, é uma escolha política. Pelo que estamos vivendo, a escolha foi ditada pela simultaneidade de dois fenômenos. O primeiro, identificado pelo sociólogo alemão Ulrich Beck, é a estridente discrepância entre o fato de se ser destinado a viver em uma "situação cosmopolita" na ausência de uma "consciência cosmopolita" e sem os instrumentos adequados para geri-la.

O choque consequente entre instrumentos de controle político territorialmente limitados e poderes extraterritoriais incontroláveis e imprevisíveis produziu a "desregulamentação" multidirecional das condições de vida e saturou as nossas vidas de medo pelo futuro nosso e dos nossos filhos.

Esse medo era e continua sendo uma trindade envenenada, o encontro de três sentimentos obsessivos: ignorância, impotência e humilhação. Os poderes distantes e obscuros que nos condicionam vão além do nosso olhar e da nossa influência, assim como os nossos medos se movem entre forças que somos incapazes de domesticar ou conter. Se não sabemos rejeitar essas forças que ameaçam tudo o que nos é caro, não poderíamos, ao menos, mantê-los longe, proibir-lhes o acesso às nossas casas e aos locais de trabalho?
MANIFESTANTE DESAFIA O CORDÃO POLICIAL  EM PHOENIX - ARIZONA (ESTADOS UNIDOS)
Sábado, 9 de julho de 2016

LS: Não poderíamos, professor?

Zygmunt Bauman – A entrada massiva e sem precedentes de refugiados é o segundo fenômeno a que eu me referia e contribuiu para dar a essa pergunta uma resposta credível e "de bom senso", embora falsa e enganosa, uma resposta elevada ao status de dogma de aspirantes políticos que farejam a chance de um forte apoio popular. É bálsamo para as almas atormentadas: os medos sem desafogo e, por isso, tóxicos não podem ser derramados sobre as suas verdadeiras causas – forças poderosas e tão distantes a ponto de serem imunes ao nosso ressentimento – mas podem, fácil e tangivelmente, ser derramados sobre aqueles que se parecem e se comportam como estrangeiro, dos vendedores ambulantes aos mendigos. As agressões étnicas e raciais são o remédio dos pobres contra a própria miséria. A sua eficácia é medida não pelo fato de resolverem a fragilidade da vida, mas de darem um alívio temporário ao tormento psicológico da impotência e da humilhação.

LS: O medo, é claro. Mas não têm responsabilidade também a disseminação das armas nos EUA, a inanidade europeia sobre os migrantes, a internet?

Zygmunt Bauman – Essas não são causas: elas facilitam, até mesmo muito, ações que aquelas causas produzem. A internet e as mídias sociais podem servir, igualmente de forma eficaz, à inclusão assim como à exclusão, ao respeito e ao desprezo, à amizade e ao ódio. A responsabilidade de escolher recai diretamente sobre os nossos ombros de navegadores. Podemos usar a mesma faca para cortar pão ou gargantas: para qualquer uso que ela se destine, quem a detém a quer afiada. A web afia os instrumentos, mas nós escolhemos a sua aplicação.

LS: Ainda é o "sono da razão"?

Zygmunt Bauman – Como dizia o filósofo alemão Leo Strauss, sempre houve e sempre haverá mudanças inesperadas de ponto de vista que modificam radicalmente o saber anterior: toda doutrina, por mais definitiva que pareça, será, mais cedo ou mais tarde, suplantada por outra. Outros já disseram isto: o tribalismo é a resposta para o porquê as diferenças entre grupos da população são sempre reduzidos a uma relação inferior/superior.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 12 de julho de 2016 – Internet: clique aqui.

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