«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Shopping é um lugar bem triste

Tati Bernardi
Escritora, redatora, roteirista de cinema e televisão

O shopping é um lugar muito triste, mas nós também somos. Por isso lotamos nosso templo, ainda que, se perguntados, vamos dizer que estamos com pressa.

O shopping existe desde antes de eu nascer, mas nem por isso deixo de me maravilhar, semanalmente, com sua existência. Claro que eu falo pras pessoas que acho um troço deprê, que evito ao máximo. Pega bem odiar o shopping. "Deus me livre ir ao shopping" pode ser entendido também como "gosto mesmo é de um bom sebo".

Mas a verdade é que, por dentro, estou sempre pensando: então existe mesmo esse lugar em que você pode comer no Ráscal (apesar de achar que só vale a pena pra quem come muito), comprar mais uma sandália na Arezzo (não vou usar, mas eles vivem em promoção e são os únicos com bastante opção no 33) e pagar por uma tela decente de cinema (mesmo não curtindo a maioria dos filmes que passam no shopping e detestando os adolescentes que não calam a boca atrás de você)? Sim!

O shopping é um lugar mágico em que todas as ruas são retas e lisas e limpas e bem iluminadas. Talvez paulistano goste de shopping apenas porque odeia suas ruas. Cinco minutos andando em Perdizes, onde moro, é a certeza de dores, suores, poeiras, bostas nos sapatos e tem um mendigo na esquina da João Ramalho com a Ministro Godói que cisma em cuspir em mim.

Cada uma daquelas casinhas perfumadas e cheias de pessoas sorridentes é um convite delicioso a melhorar seu dia. Mais uma almofada pra quê? Mais uma camisa branca pra quê? Mais uma bota preta pra quê? Eu não sei, mas essas mesmas coisas que continuo comprando e essas mesmas casinhas perfumadas e essas pessoas que me adoram falsamente naquele curto espaço de tempo perdido pra sempre são como uma repetição nervosa e solitária e compulsiva que me possibilita não assassinar humanos ou me fazer pequenos cortes. Obrigada, shopping!

O shopping é um lugar muito triste, mas nós também somos. Por isso lotamos nosso templo, ainda que, se perguntados, vamos dizer que estamos com pressa. Que foi um sacrifício aquela paradinha naquele lugar terrível. Vim só resolver uma chatice de um presente. Ai, que saco, tenho que ir ao shopping! Mentira, estamos maravilhados. Estamos no castelo erguido para celebrar nossa solidão e tristeza e medo e compulsão.
TATI BERNARDI
Autora deste artigo

Lembro quando a Vivenda do Camarão chegou ao Center Norte. Eu me achava tão rica e tão fina e tão vivendo a vida loucamente quando pedia arroz à grega com camarão. E não parava por aí, não! Depois eu ia na Le Postiche e ficava louca com aquelas bolsas. Eu já amava shopping mesmo quando ainda era só um ensaio.

Tento lutar contra esse amor há anos, sempre que posso o desmereço com impropérios do tipo "lugar de gente idiota". Sou gente idiota! Corto o cabelo, almoço, compro sem parar, vejo todos os filmes, tenho enjoo com aquela pipoca amanteigada, passeio com minha cachorra, faço meus xixis, conheço vendedoras pelo nome, adoro a palavra "boulevard" apesar de não saber o que é isso. Estou velha demais pra fazer de conta que prefiro coxinha a céu aberto em boteco hypado de bairro violento. Eu gosto mesmo é do Higienópolis. Ele consegue ser Pátio e Boulevard ao mesmo tempo, ainda que eu não tenha a menor ideia do que isso significa.

Ontem tirei dinheiro, fiz design de sobrancelhas, comprei 11 pares de meias, comprei dois pares de palmilhas siliconadas, comprei um negócio que você enche de água e liga na tomada e a água ferve em segundos, almocei em um restaurante japonês, comprei uma escumadeira, comprei chocolate, comprei Tramal (ópio, meus amigos!). Tudo isso em quantos lugares? Apenas em um. Sem suar, sem sorrir. Culpada e maravilhada.

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunistas – Sexta-feira, 26 de agosto de 2016 – 02h00 – Internet: clique aqui.

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