«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 24 de setembro de 2016

26º Domingo do Tempo Comum – Ano C – Homilia

Evangelho: Lucas 16,19-31


Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus:
19 «Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias.
20 Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico.
21 Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas.
22 Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado.
23 Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão,
com Lázaro ao seu lado.
24 Então gritou: “Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo
para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas”.
25 Mas Abraão respondeu: “Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado.
26 E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós”.
27 O rico insistiu: “Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai,
28 porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento”.
29 Mas Abraão respondeu: “Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!”
30 O rico insistiu: “Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter”.
31 Mas Abraão lhe disse: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão,
mesmo que alguém ressuscite dos mortos”.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA


OS POBRES TÊM SORTE

Jesus não exclui ninguém. A todos anuncia a boa notícia de Deus, porém esta notícia não pode ser ouvida por todos da mesma maneira. Todos podem entrar em seu Reino, porém nem todos da mesma maneira, pois a misericórdia de Deus está urgindo, antes de mais nada, que se faça justiça aos mais pobres e humilhados. Por isso, a vinda de Deus é uma sorte para os que vivem explorados, enquanto se converte em ameaça para os que provocam essa exploração.

Jesus declara, sem rodeios, que o Reino de Deus é para os pobres. Tem diante de seus olhos aquelas pessoas que vivem humilhadas em suas aldeias, sem poder defender-se dos poderosos donos de terra; conhece bem a fome daquelas crianças desnutridas; viu chorar de raiva e impotência aqueles camponeses quando os coletores de impostos levavam para Séforis ou Tiberíades o melhor de suas colheitas. São eles que necessitam escutar, antes de qualquer outra pessoa, a notícia do Reino: «Felizes vós que nada tendes, porque vosso é o Reino de Deus; felizes vós que agora tendes fome, porque sereis saciados; felizes vós que agora chorais, porque rireis». Jesus declara-lhes felizes, inclusive em meio a essa situação injusta que padecem, não porque logo serão ricos como os grandes proprietários daquelas terras, mas porque Deus já está vindo para suprir a miséria, terminar com a fome e fazer aflorar o sorriso em seus lábios. Ele se alegra, desde agora, com eles. Não lhes convida à resignação, mas à esperança. Não quer que tenham falsas ilusões, mas que recuperem sua dignidade. Todos têm de saber que Deus é o defensor dos pobres. Eles são seus preferidos. Se seu reinado é acolhido, tudo mudará para melhor para os últimos. Esta é a fé de Jesus, sua paixão e sua luta.

Jesus não fala da «pobreza» em abstrato, mas daqueles pobres com os quais ele encontra percorrendo as aldeias. Famílias que sobrevivem muito mal, pessoas que lutam para não perder suas terras e sua honra, crianças ameaçadas pela fome e pelas doenças, prostitutas e mendigos desprezados por todos, enfermos e endemoniados aos quais se nega o mínimo de dignidade, leprosos marginalizados pela sociedade e pela religião. Aldeias inteiras que vivem sob a opressão das elites urbanas, sofrendo o desprezo e a humilhação. Homens e mulheres sem possibilidades de um futuro melhor.

Por que o Reino de Deus se constituirá em uma boa notícia para estes pobres?
Por que eles serão os privilegiados? Deus não seria neutro? Ele não ama a todos de igual modo?

Se Jesus houvesse dito que o Reino de Deus chegava para fazer felizes os justos, teria tido a sua lógica e todos o teriam entendido, porém o fato de Deus estar a favor dos pobres, sem levar em conta seu comportamento moral, torna-se escandaloso. Os pobres seriam, então, melhores que os demais para merecer um tratamento privilegiado dentro do Reino de Deus?

Jesus nunca louvou os pobres por suas virtudes ou qualidades. Provavelmente, aqueles camponeses não eram melhores que os poderosos que os oprimiam; também eles abusavam dos outros mais fracos e exigiam o pagamento das dívidas sem compaixão alguma. Ao proclamar as bem-aventuranças, Jesus não diz que os pobres são bons ou virtuosos, mas que estão sofrendo injustamente. Se Deus de põe da parte deles, não é porque o mereçam, mas porque o necessitam. Deus, Pai misericordioso de todos, não pode reinar senão fazendo, antes de tudo, justiça àqueles aos quais ninguém o faz. Isto é o que desperta uma grande alegria em Jesus: Deus defende aqueles que ninguém defende!

Esta fé de Jesus se arraiga em uma longa tradição. O que o povo de Israel sempre esperava de seus reis era que soubessem defender os pobres e desvalidos. Um bom rei deve se preocupar de sua proteção, não porque sejam melhores cidadãos que os outros, mas simplesmente porque necessitam ser protegidos. A justiça do rei não consiste em ser «imparcial» com todos, mas em fazer justiça a favor dos que são oprimidos injustamente. Um salmo (72 [71]) diz isso com clareza ao apresentar o ideal de um bom rei: «Defenderá os humildes do povo, salvará o povo pobre e esmagará o opressor... Livrará o pobre que suplica, o miserável e ao que ninguém ampara. Terá piedade do fraco e do pobre. Salvará a vida dos pobres, a resgatará da opressão e violência. Seu sangue será precioso perante seus olhos».

A conclusão de Jesus é clara. Se algum rei sabe fazer justiça aos pobres, esse é Deus, o «amante da justiça». Não se deixa enganar pelo culto que lhe é oferecido no Templo. De nada servem os sacrifícios, os jejuns e as peregrinações a Jerusalém. Para Deus, o principal é fazer justiça aos pobres. Provavelmente, Jesus recitou mais de uma vez um salmo (146 [145], 7-9) que proclama Deus assim: «Ele faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos, liberta os condenados... o Senhor protege o imigrante, sustenta a viúva e o órfão». Se tivesse conhecido esta bela oração do livro de Judite (9,11), teria gostado: «Tu és os Deus dos humildes, o defensor dos pequenos, apoio dos fracos, refúgio dos desvalidos, salvador dos desesperados». Assim Jesus experimenta Deus.
[ . . . ]
A parábola do rico que «banqueteava-se esplendidamente todos os dias» e do mendigo Lázaro a quem não se dava nem o que sobrava da mesa, é uma grave advertência.

Nós cristãos traímos nossa fé em Deus Pai de todos os homens quando não lutamos para que se supere essa distância injusta e não-solidária entre os povos.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 19 de setembro de 2016 – 11h33 [Horário Centro-Europeu de verão] – Internet: clique aqui

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