«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

PAPA EM ASSIS: APELO PELA PAZ!

“Paz para as vítimas das guerras que poluem
os povos de ódio"

Andrea Tornielli

As meditações de Francisco, Bartolomeu e Welby durante a oração cristã
na Basílica Inferior de Assis:
“Quem se importa com eles?
Eles encontram, muitas vezes, a frieza daqueles que desligam seu clamor
por ajuda com a facilidade com que mudam um canal de televisão”
PAPA FRANCISCO

Papa Francisco pronuncia a sua meditação durante a oração ecumênica dos cristãos na Basílica Inferior de São Francisco em Assis (Itália). É um dos momentos de oração que viu os fiéis de diversas religiões orar em grupos separados, cada um de acordo com as próprias tradições.

Iniciou-se, assim, a tarde da visita papal à cidade de Francisco. Bergoglio havia chegado às 11h30 e tinha cumprimentado um a um dos duzentos participantes da mesa-redonda do encontro organizado pela Comunidade de Santo Egídio no trigésimo ano daquela jornada convocada por João Paulo II. Em seguida, houve um almoço no interior do convento franciscano, com quatrocentas pessoas, do qual participaram também alguns refugiados e se celebrou com um bolo, os 25 anos da eleição de Bartolomeu I como Patriarca Ecumênico de Constantinopla.

O Papa, depois, encontrou pessoalmente o próprio Bartolomeu, o patriarca sírio-ortodoxo de Antioquia Aphrem II, o arcebispo de Canterbury Justin Welby, o filósofo Zygmunt Bauman, o presidente dos ulemás indonésios Din Syamsuddin e o grande rabino David Rosen. Para depois, dirigir-se aos cristãos reunidos na Basílica Inferior para a oração comum.
JUSTIN WELBY
Arcebispo de Canterbury, primaz anglicano, presente em Assis

O primaz anglicano, Justin Welby, disse que «vivemos em um mundo que tem dificuldade em distinguir aquilo que custa daquilo que vale... Olhemos ao redor da Europa hoje», as «nossas economias podem permitir-nos gastar muito, mas não são outra coisa que fundamentos de areia. Apesar de tudo, somos ainda vítimas da insatisfação e do desespero: na desagregação das famílias; na fome e nas desigualdades; em voltar-nos para os extremismos». «Devemos escutar Deus» que frequentemente nos fala «através da voz dos mais abandonados e dos mais pobres».
PATRIARCA ECUMÊNICO DE CONSTANTINOPLA BARTOLOMEU I
saúda Papa Francisco em Assis

O Patriarca Bartolomeu, em sua meditação, disse: «Marana-Thá – “Vem, Senhor Jesus” é o máximo testemunho de todo cristão... e mais do que nunca ressoa hoje em muitas áreas do mundo e, sobretudo, no Oriente Médio. Mas para poder gritar, também nós, “Vem, Senhor Jesus” com os nossos irmãos sedentos de paz, devemos como Igrejas atravessar uma metanoia, ou seja, uma conversão intrínseca, uma mudança radical de mentalidade, um profundo arrependimento, e sermos capazes, como cristãos, de colocar em prática aquilo que em síntese nos recorda o livro do Apocalipse: escuta, conversão, testemunho profético».

Tomando a palavra, Papa Francisco disse: «As palavras de Jesus nos interpelam, pedem acolhida no coração e resposta com a vida. Em seu “Tenho sede” podemos ouvir a voz dos sofredores, o grito escondido dos pequenos inocentes dos quais é privada a luz deste mundo, a sentida súplica dos pobres e dos mais necessitados de paz. Imploram paz as vítimas das guerras, que poluem os povos de ódio e a Terra de armas; imploram paz os nossos irmãos e irmãs que vivem sob a ameaça dos bombardeios ou são forçados a deixar sua casa e migrar para o desconhecido, despojados de tudo. Todos estes são irmãos e irmãs do Crucificado, pequenos do seu Reino, membros feridos e ressecados de sua carne. Têm sede».

«Mas a eles – prosseguiu – é dado frequentemente, como a Jesus, o vinagre amargo da rejeição. Quem os escuta? Quem se preocupa de responder-lhes? Eles encontram, demasiadamente, o silêncio ensurdecedor da indiferença, do egoísmo de quem se sente incomodado, a frieza daqueles que apagam o seu grito de ajuda com a facilidade de quem muda um canal na televisão».
ORAÇÃO CRISTÃ
durante do Encontro Inter-religioso pela Paz em Assis - Basílica Inferior 

«Diante do Cristo crucificado, nós cristãos somos chamados a contemplar o mistério do amor não amado e a derramar misericórdia sobre o mundo... Aproximando-nos daqueles que hoje vivem como crucificados e extraindo a força de amar do Crucifixo Ressuscitado, crescerão ainda mais a harmonia e a comunhão entre nós».

No decorrer do encontro de oração, foram lidos os nomes de 27 países em guerra. Imediatamente depois, o Pontífice, juntamente com os demais líderes cristãos, chegou ao palco na praça da Basílica Inferior onde se reuniram também os outros expoentes das religiões do mundo para a cerimônia conclusiva.

Não deixe de ler e refletir sobre a Meditação, o Discurso e o Apelo a favor da Paz que Papa Francisco proferiu durante a sua visita e permanência em Assis. Eles encontram-se logo abaixo.

Traduzido do italiano por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Vatican Insider – Vaticano – Terça-feira, 20 de setembro de 2016 – Internet: clique aqui.


VISITA DO PAPA FRANCISCO A ASSIS
PARA A JORNADA DE ORAÇÃO PELA PAZ
"SEDE DE PAZ. RELIGIÕES E CULTURAS EM DIÁLOGO"

PALAVRAS DO SANTO PADRE
Terça-feira, 20 de setembro de 2016

MEDITAÇÃO

À vista de Jesus crucificado, ressoam também para nós as suas palavras: «Tenho sede!» (Jo 19,28). A sede é, ainda mais do que a fome, a necessidade extrema do ser humano, mas representa também a sua extrema miséria. Assim contemplamos o mistério do Deus Altíssimo, que Se tornou, por misericórdia, miserável entre os homens.

De que tem sede o Senhor? Certamente de água, elemento essencial para a vida; mas sobretudo de amor, elemento não menos essencial para se viver. Tem sede de nos dar a água viva do seu amor, mas também de receber o nosso amor. O profeta Jeremias expressou o comprazimento de Deus pelo nosso amor: «Recordo-Me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado» (Jr 2,2). Mas deu voz também ao sofrimento divino, quando o homem, ingrato, abandonou o amor, quando – parece dizer também hoje o Senhor – «Abandonou a mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jr 2,13). É o drama do «coração árido», do amor não correspondido; um drama que se renova no Evangelho, quando, à sede de Jesus, o homem responde com vinagre, que é vinho estragado. Como profeticamente lamentou o salmista, «deram-me (…) vinagre, quando tive sede» (Sal 69/68,22).

«O Amor não é amado»: tal era, segundo algumas crônicas, a realidade que turvava São Francisco de Assis. Por amor do Senhor que sofre, não se envergonhava de chorar e lamentar-se em voz alta (cf. Fontes Franciscanas, n. 1413). Esta mesma realidade nos deve estar a peito ao contemplarmos Deus crucificado, sedento de amor. Madre Teresa de Calcutá quis que, nas capelas de cada comunidade, estivesse escrito perto do Crucifixo: «Tenho sede». Apagar a sede de amor de Jesus na cruz, através do serviço aos mais pobres dos pobres, foi a sua resposta. Na verdade, o Senhor é saciado pelo nosso amor compassivo; é consolado quando, em nome d’Ele, nos inclinamos sobre as misérias alheias. No Juízo, chamará «benditos» aqueles que deram de beber a quem tinha sede, aqueles que ofereceram amor concreto a quem estava necessitado: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40).

As palavras de Jesus interpelam-nos, pedem acolhimento no coração e resposta com a vida. Na sua exclamação «tenho sede», podemos ouvir a voz dos que sofrem, o grito escondido dos pequenos inocentes a quem é negada a luz deste mundo, a súplica instante dos pobres e dos mais necessitados de paz. Imploram paz as vítimas das guerras que poluem os povos de ódio e a terra de armas; imploram paz os nossos irmãos e irmãs que vivem sob a ameaça dos bombardeamentos ou são forçados a deixar a casa e emigrar para o desconhecido, despojados de tudo. Todos eles são irmãos e irmãs do Crucificado, pequeninos do seu Reino, membros feridos e sedentos da sua carne. Têm sede. Mas, frequentemente, é-lhes dado, como a Jesus, o vinagre amargo da rejeição. Quem os ouve? Quem se preocupa em responder-lhes? Deparam-se muitas vezes com o silêncio ensurdecedor da indiferença, o egoísmo de quem se sente incomodado, a frieza de quem apaga o seu grito de ajuda com mesma facilidade com que muda de canal na televisão.

À vista de Cristo crucificado, «poder e sabedoria de Deus» (1 Cor 1,24), nós, cristãos, somos chamados a contemplar o mistério do Amor não amado e a derramar misericórdia sobre o mundo. Na cruz, árvore de vida, o mal foi transformado em bem; também nós, discípulos do Crucificado, somos chamados a ser «árvores de vida», que absorvem a poluição da indiferença e restituem ao mundo o oxigênio do amor. Do lado de Cristo, na cruz, saiu água, símbolo do Espírito que dá a vida (cf. Jo 19,34); do mesmo modo saia de nós, seus fiéis, compaixão por todos os sedentos de hoje.

Como a Maria ao pé da cruz, conceda-nos o Senhor estar unidos a Ele e próximos de quem sofre. Aproximando-nos de quantos vivem hoje como crucificados e tirando a força de amar do Crucificado Ressuscitado, crescerão ainda mais a harmonia e a comunhão entre nós. «Com efeito, Ele é a nossa paz» (Ef 2,14), Ele que veio anunciar a paz àqueles que estavam perto e aos que estavam longe (cf. Ef 2, 17). Ele nos guarde a todos no amor e nos congregue na unidade, para a qual estamos a caminho, a fim de nos tornarmos o que Ele deseja: «um só» (Jo 17, 21).

DISCURSO

Vossas Santidades,
Ilustres Representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões,
Amados irmãos e irmãs!

Com grande respeito e afeto vos saúdo e agradeço a vossa presença. Agradeço à Comunidade de Santo Egídio, à diocese de Assis e às Famílias Franciscanas que prepararam esta jornada de oração. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos conosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos sobretudo necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda.

«Felizes os pacificadores» (Mt 5,9). Muitos de vós percorreram um longo caminho para chegar a este lugar abençoado. Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma; são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença. É um vírus que paralisa, torna inertes e insensíveis, um morbo que afeta o próprio centro da religiosidade produzindo um novo e tristíssimo paganismo: o paganismo da indiferença.

Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz. Em muitos países, sofre-se por guerras, tantas vezes esquecidas, mas sempre causa de sofrimento e pobreza. Em Lesbos, com o querido Patriarca Ecumênico Bartolomeu, vimos nos olhos dos refugiados o sofrimento da guerra, a angústia de povos sedentos de paz. Penso em famílias, cuja vida foi transtornada; nas crianças, que na vida só conheceram violência; nos idosos, forçados a deixar as suas terras: todos eles têm uma grande sede de paz. Não queremos que estas tragédias caiam no esquecimento. Desejamos dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta. Eles sabem bem – muitas vezes melhor do que os poderosos – que não há qualquer amanhã na guerra e que a violência das armas destrói a alegria da vida.

Nós não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Neste dia, a sede de paz fez-se imploração a Deus, para que cessem guerras, terrorismo e violências. A paz que invocamos, a partir de Assis, não é um simples protesto contra a guerra, nem é sequer «o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de acordos econômicos, mas o resultado da oração» [João Paulo II, Discurso, Basílica de Santa Maria dos Anjos, 27 de outubro de 1986, 1: Insegnamenti IX/2 (1986), 1252]. Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas.

Diversas são as nossas tradições religiosas. Mas, para nós, a diferença não é motivo de conflito, de polêmica ou de frio distanciamento. Hoje não rezamos uns contra os outros, como às vezes infelizmente sucedeu na História. Ao contrário, sem sincretismos nem relativismos, rezamos uns ao lado dos outros, uns pelos outros. São João Paulo II disse neste mesmo lugar: «Talvez nunca antes na história da humanidade, como agora, o laço intrínseco que existe entre uma atitude autenticamente religiosa e o grande bem da paz se tenha tornado evidente a todos» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 6: o. c., 1268). Continuando o caminho iniciado há trinta anos em Assis, onde permanece viva a memória daquele homem de Deus e de paz que foi São Francisco, «uma vez mais nós, aqui reunidos, afirmamos que quem recorre à religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda» [João Paulo II, Discurso aos Representantes das Religiões, Assis, 24 de janeiro de 2002, 4: Insegnamenti XXV/1 (2002), 104], que qualquer forma de violência não representa «a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição» [Bento XVI, Intervenção na jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo, Assis, 27 de outubro de 2011: Insegnamenti VII/2 (2011), 512]. Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa; não a guerra!

Hoje imploramos o santo dom da paz. Rezamos para que as consciências se mobilizem para defender a sacralidade da vida humana, promover a paz entre os povos e salvaguardar a criação, nossa casa comum. A oração e a colaboração concreta ajudam a não ficar bloqueados nas lógicas do conflito e a rejeitar as atitudes rebeldes de quem sabe apenas protestar e irar-se. A oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória: não a tranquilidade de quem esquiva as dificuldades e vira a cara para o lado, se os seus interesses não forem afetados; não o cinismo de quem se lava as mãos dos problemas alheios; não a abordagem virtual de quem julga tudo e todos no teclado dum computador, sem abrir os olhos às necessidades dos irmãos nem sujar as mãos em prol de quem passa necessidade. A nossa estrada é:
* mergulhar nas situações e dar o primeiro lugar aos que sofrem;
* assumir os conflitos e saná-los a partir de dentro;
* percorrer com coerência caminhos de bem, recusando os atalhos do mal;
* empreender pacientemente, com a ajuda de Deus e a boa vontade, processos de paz.

Paz, um fio de esperança que liga a terra ao céu, uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer Perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa Acolhimento:
* disponibilidade para o diálogo,
* superação dos fechamentos, que não são estratégias de segurança,
* mas pontes sobre o vazio.
Paz quer dizer Colaboração:
* intercâmbio vivo e concreto com o outro,
* que constitui um dom e não um problema,
* um irmão com quem tentar construir um mundo melhor.
Paz significa Educação:
* uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão,
* a adquirir a cultura do encontro,
* purificando a consciência de qualquer tentação de violência e rigidez, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano.

Nós aqui, juntos e em paz, cremos e esperamos num mundo fraterno. Desejamos que homens e mulheres de religiões diferentes se reúnam e criem concórdia em todo o lado, especialmente onde há conflitos. O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio. Que os crentes sejam artesãos de paz na invocação a Deus e na ação em prol do ser humano! E nós, como Chefes religiosos, temos a obrigação de ser pontes sólidas de diálogo, mediadores criativos de paz. Dirigimo-nos também àqueles que detêm a responsabilidade mais alta no serviço dos povos, aos líderes das nações, pedindo-lhes que não se cansem de procurar e promover caminhos de paz, olhando para além dos interesses de parte e do momento: não caiam no vazio o apelo de Deus às consciências, o grito de paz dos pobres e os anseios bons das gerações jovens. Aqui, há trinta anos, São João Paulo II disse: «A paz é um canteiro de obras aberto a todos e não só aos especialistas, aos sábios e aos estrategistas. A paz é uma responsabilidade universal» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 7: o. c., 1269). Irmãs e irmãos, assumamos esta responsabilidade, reafirmemos hoje o nosso sim a ser, juntos, construtores da paz que Deus quer e de que a humanidade está sedenta.
CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO

APELO A FAVOR DA PAZ

Homens e mulheres de diferentes religiões, congregamo-nos, como peregrinos, na cidade de São Francisco. Aqui em 1986, há trinta anos, a convite do Papa João Paulo II, reuniram-se Representantes religiosos de todo o mundo, pela primeira vez de modo tão participado e solene, para afirmar o vínculo indivisível entre o grande bem da paz e uma autêntica atitude religiosa. Daquele evento histórico, teve início uma longa peregrinação que, tocando muitas cidades do mundo, envolveu inúmeros crentes no diálogo e na oração pela paz; uniu sem confundir, gerando amizades inter-religiosas sólidas e contribuindo para extinguir não poucos conflitos. Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo. E todavia, nos anos intercorridos, ainda muitos povos foram dolorosamente feridos pela guerra. Nem sempre se compreendeu que a guerra piora o mundo, deixando um legado de sofrimentos e ódios. Com a guerra, todos ficam a perder, incluindo os vencedores.

Dirigimos a nossa oração a Deus, para que dê a paz ao mundo. Reconhecemos a necessidade de rezar constantemente pela paz, porque a oração protege o mundo e ilumina-o. A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso.

Colocamo-nos à escuta da voz dos pobres, das crianças, das gerações jovens, das mulheres e de tantos irmãos e irmãs que sofrem por causa da guerra; com eles, bradamos: Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes.

Imploramos aos Responsáveis das nações que sejam desativados os moventes das guerras:
* a ambição de poder e dinheiro,
* a ganância de quem trafica armas,
* os interesses de parte,
* as vinganças pelo passado.

Cresça o esforço concreto por remover as causas subjacentes aos conflitos:
* as situações de pobreza,
* injustiça e desigualdade,
* a exploração e
* o desprezo da vida humana.

Abra-se, finalmente, um tempo novo, em que o mundo globalizado se torne uma família de povos. Implemente-se a responsabilidade de construir uma paz verdadeira, que esteja atenta às necessidades autênticas das pessoas e dos povos, que impeça os conflitos através da colaboração, que vença os ódios e supere as barreiras por meio do encontro e do diálogo. Nada se perde, ao praticar efetivamente o diálogo. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz; a partir de Assis, renovamos com convicção o nosso compromisso de o sermos, com a ajuda de Deus, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade.

Fonte: A Santa Sé – Papa Francisco – Discursos – Setembro de 2016 – Terça-feira, 20 de setembro de 2016 – Internet: clique aqui.

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