«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 25 de setembro de 2016

Reforma do Ensino Médio em debate

OUVINDO OS ESTUDANTES

Alunos questionam “falsa liberdade” em reforma
do ensino médio

Leandro Machado

Alguns gostam da possibilidade de escolher disciplinas,
outros criticam a ausência de educação física e artes entre as
disciplinas obrigatórias; outros, ainda, veem uma reforma
muito focada na carreira profissional, esquecendo-se que
a educação deve formar a pessoa como um todo.

Sentada no jardim do colégio, a estudante Anna Romão, 16, diz: "Odeio educação física. Não gosto de fazer exercício". Do lado, a amiga pensa diferente. "Quero fazer faculdade e ter uma academia", fala Letícia Barbosa, 17.

Anna pondera: "Odeio, mas é a única atividade física que pratico. Muita gente da escola faz isso". Anna gosta mais de artes: quer ser jornalista, e, quem sabe, também atriz – faz aula de teatro.

As duas estudam na escola Alexandre Von Humboldt, na Lapa (zona oeste de São Paulo), um dos 532 colégios estaduais com ensino integral no Estado e que tem aulas eletivas, como teatro e artes plásticas. No total, a rede estadual tem 5.100 unidades.

No banco ao lado, outras duas amigas, Amanda Barbosa, 16, e Amanda Albuquerque, 17, concordam: nem todo mundo gosta, nem todos querem fazer algum esporte entre aulas de matemática ou português, mas a tal educação física é importante.

O debate chegou aos pátios e salas de aula de escolas privadas e públicas assim que o governo federal lançou o novo plano de reforma do ensino médio, nesta quinta (22 de setembro).

Pela proposta original, as disciplinas de educação física, artes, filosofia e sociologia passariam a não ser mais obrigatórias. Em meio à repercussão negativa, a gestão Michel Temer (PMDB) voltou atrás nesta sexta (23 de setembro) e deu sobrevida às matérias até o fim das discussões sobre a nova base curricular de ensino.

Enviado ao Congresso como medida provisória, o projeto de reforma visa flexibilizar essa etapa da educação, dando alternativas para o aluno se especializar em cinco áreas:
a) linguagens,
b) matemática,
c) ciências humanas,
d) ciências da natureza e
e) formação profissionalizante.

“ROBOTIZAR”

No jardim do colégio estadual, as quatro alunas discordam do plano – que conheceram pela internet. "Tirar seria péssimo. Você pode não gostar de uma matéria, mas é importante conhecer as coisas que ela trata, até para saber que aquilo existe", afirma Amanda Albuquerque, que sonha em ser médica.

"A filosofia é uma disciplina que abre sua cabeça para o mundo, que faz você se questionar. Não tem como não ter", diz Amanda Barbosa, que quer ser psiquiatra.

"Querem nos robotizar, dizendo 'estude isso e seja um bom profissional'", diz Anna.

As alunas concordam que os estudantes devem ter mais liberdade, com aulas eletivas.


“QUADRADO DA SALA”

Se pudesse escolher, Lívia Menin, 16, do colégio particular Oswald de Andrade (também na Lapa), ficaria com a educação física e com arte – "sempre", afirma.

"São justamente as matérias que te tiram daquele quadrado da sala de aula, com professor na frente falando, e prova", diz ela, que está no segundo ano do ensino médio.

Lívia quer ser "teacher" (professora), como ela costuma dizer. Influência dos seus professores preferidos.

Seu colega de turma, Alex Delouya, 16, gosta da ideia de ter mais autonomia na escolha do que estudar. "Acho interessante [a proposta]", diz.

Mas pondera: "com nossa idade, não sabemos o exatamente o que queremos fazer. Por isso, é bom ter uma panorama de cada coisa", argumenta o estudante. Alex quer ser professor, mas também pensa em cursar cinema.

Na quinta, após o anúncio do governo Temer, os dois alunos do Oswald Andrade decidiram se reunir para discutir o projeto com representantes do grêmio estudantil.

Na escola, os estudantes têm opções de caminhos para seguir dentro das matérias obrigatórias. Em educação física, por exemplo, podem optar por cursar aulas voltadas a esportes mais tradicionais (futebol, vôlei, basquete) ou fazer oficinas de capoeira e dança. Porém, eles devem cursar as duas vertentes durante o ensino médio.

“FALSA LIBERDADE”

No Colégio Equipe, tradicional escola particular em Higienópolis (região central), a estudante do terceiro ano Laura Segurado, 17, diz ser totalmente contra o novo plano.

"A proposta parece sedutora, porque dá a entender que os alunos terão mais autonomia de escolha. Porém, é uma escolha dentro de um universo que eles [governo] propõem. A intenção é fazer com que o estudante cada vez mais cedo se prepare para a vida profissional", afirma.

"Educação não é só isso, é uma falsa liberdade. Por que não podemos estudar cultura da América Latina, discutir feminismo, propostas políticas? Esse plano só pensa o sujeito como um profissional, e não como um ser político que se questiona sobre a sociedade."

Laura faz parte do movimento de secundaristas, que no último ano ocupou quase uma centena de escolas estaduais em protesto contra o fechamento de unidades pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB). "Mais uma vez, os estudantes não foram ouvidos, foi na canetada de novo", diz.


Laura pretende ser professora de filosofia – a disciplina que mais gosta na escola.

REFORMAS NO ENSINO MÉDIO
Principais mudanças propostas pela medida provisória do governo Temer

COMO É HOJE
O QUE O PLANO PROPÕE
VANTAGENS
ENTRAVES
Carga horária mínima é de 800 horas anuais (ensino parcial)
Grade será ampliada gradualmente para 1.400 horas anuais (ensino integral)
Há evidências de que a carga expandida melhora o desempenho dos alunos
Modalidade integral requer um bom projeto pedagógico e gastos maiores
Alunos cursam 13 disciplinas obrigatórias nos três anos
Só parte da grade será igual para todos; depois, aluno poderá se aprofundar entre cinco opções: linguagens, matemática, ciências da natureza, humanas e ensino técnico
Flexibilizar a grade dá autonomia e atrai os adolescentes
Oferta de habilitações pode ser desigual entre escolas e redes
Ensino médio é dividido, em geral, em três anos
Escolas poderão adotar sistema de créditos em algumas disciplinas
Medida também dá mais liberdade ao estudante
Mudança depende de uma organização complexa das redes
Professores têm que ser formados na área e passar por concurso
Poderão ser contratados professores sem concurso e apenas com notório saber
Ação ajuda a suprir demanda de professores na ampliação do ensino técnico
Qualidade dos profissionais e do ensino pode diminuir
Educação física e artes eram obrigatórias no ensino infantil e em todo o básico
Disciplinas deixam de ser obrigatórias no
ensino médio ( * )
Mudança diminui o número de disciplinas obrigatórias
Prejudica a formação cultural e a saúde dos estudantes
Governo federal tinha programas menores de incentivo ao ensino integral
União dará aporte financeiro por quatro anos a escola que introduzir ensino integral
Investimento incentiva instituições a aderirem à modalidade
Governo diz que valor respeitará disponibilidade orçamentária, mas vive momento de cortes

(*) – Parece que o governo federal já esteja revendo essa medida e poderá deixar essas disciplinas como obrigatórias. Mas é uma fase de discussão ainda.

Fonte: Folha de S. Paulo – Educação – Sábado, 24 de setembro de 2016 – 02h00 [Horário de Brasília – DF] – Internet: clique aqui.

OUVINDO OS ESPECIALISTAS

Desafio de plano de ensino médio é ter
professor qualificado, diz especialista

Paulo Saldaña

É importante os Estados da Federação terem autonomia para a
implementação dessa reforma, mas o sucesso dependerá de
atenção à formação de professores 
RICARDO HENRIQUES

Para Ricardo Henriques, 55, superintendente do Instituto Unibanco, a flexibilização que o novo modelo de ensino médio, apresentado nesta quinta (22 de setembro), vai abrir é um ponto de partida para que haja clareza para enfrentar outros problemas da educação brasileira.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Henriques ressalta a importância de que os Estados tenham autonomia para implementação. Mas, para ele, o processo não será "trivial" e o sucesso dependerá de atenção na formação de professores.

Qual o papel da Base Nacional Comum nesse processo?

Ricardo Henriques: Sem a base, a arquitetura não funciona. Tem que estar tudo muito claro [as competências esperadas]. Mas agora aumenta o foco no ofício do professor. Associar conteúdo com boas práticas de ensino passa a ser mais fundamental, porque sai da ideia do conhecimento genérico.

Se os alunos têm dificuldades em matemática, quem vai escolher se aprofundar na disciplina? Essa abertura não pode intensificar o problema?

Ricardo Henriques: Isso tem que ser construído ao longo do tempo e vai bater nos professores. O trabalho pedagógico na sala, os coordenadores, vão ter que se posicionar acerca do valor dos conteúdos. A matemática tem que sair da figura de hoje, de letrinhas, números e equações, e caminhar para o entendimento do que ela é e significa.

Mas isso já não deveria ocorrer hoje?

Ricardo Henriques: Não acontece porque hoje se aprende um pouquinho de um montão de coisa. O novo modelo vai ajudar isso. É muito mais importante dominar alguns conhecimentos básicos muito bem e depois se aprofundar, ao invés de ter uma camadinha superficial sobre tudo. Mas o desafio recai também sobre a implementação. Como mobilizar esse mundo possível para motivar os próprios professores?

Há críticas de que a flexibilização não vai resolver o ensino médio com a manutenção de problemas estruturais, como infraestrutura das escolas, lotação de salas. Como ela se relaciona com esse contexto?

Ricardo Henriques: É obvio que o desafio é a harmonia em todas as organizações. A ideia de querer resolver tudo antes não faz sentido, mas resolver o problema de identidade da etapa é pré-condição para outras mudanças. Certamente, na medida em que isso começa a ser implementado, abre para que novos desafios sejam enfrentados de forma clara.

As escolas particulares também deverão seguir a nova norma. O que esperar?

Ricardo Henriques: Acredito que não haverá tendência de aumentar o abismo, ao contrário. A tendência é reduzir as desigualdades aumentando a capacidade de permanência de conjunto maior de jovens.

RAIO-X

Nome: Ricardo Henriques
Idade: 55 anos
Carreira: Economista, é superintendente do Instituto Unibanco. Já comandou a secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC e foi secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento Social.

Fonte: Folha de S. Paulo – Educação – Sexta-feira, 23 de setembro de 2016 – 14h45 [Horário de Brasília – DF] – Internet: clique aqui.

Reforma não resolve problemas que desembocam
no ensino médio

Sabine Righetti

Se o aluno carregar déficits de anos anteriores – o que tem acontecido –,
não haverá disciplina opcional que o segure na escola. Ele vai desistir.
SABINE RIGHETTI

Uma das principais bandeiras do governo Michel Temer (PMDB), a reforma do ensino médio pode melhorar um pouco a situação de quem está na última etapa da educação básica. Não resolve, porém, os déficits educacionais que despontam no ensino médio.

A proposta visa:
a) ampliar a carga horária e
b) flexibilizar o currículo, criando uma série de disciplinas optativas.
c) Também substitui as atuais 13 disciplinas rígidas por quatro grandes áreas do conhecimento e mais ensino técnico.

É uma aproximação do Enem (Exame Nacional do Exame Médio) – que, sob Temer, volta a ser coordenado por Maria Inês Fini, criadora da prova no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Flexibilizar a grade e ter disciplinas optativas dá autonomia aos alunos e funciona bem em países desenvolvidos, como nos Estados Unidos.

Pode ser uma forma de segurar na escola quem conseguiu passar bem pelo chamado ensino fundamental 2 – aquela fase da escola em que os estudantes (pré-adolescentes) começam a ter um monte de docentes e de disciplinas. Não resolve, no entanto, o problema de quem chega ao ensino médio com dificuldades.

Se o aluno carregar déficits de anos anteriores – o que tem acontecido –, não haverá disciplina opcional que o segure na escola. Ele vai desistir.

É especialmente no fundamental 2 que o aluno começa a derrapar nas notas. O Ideb 2015 (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), principal referência de qualidade da educação, mostra que as notas começam bem nos primeiros anos escolares, mas despencam a cada nova série.

No fundamental 1, houve um crescimento de 5,2 para 5,5 entre 2013 e 2015 – alcançando a meta do Ideb de 2017.

Já no fundamental 2, apesar do avanço de 4,2 para 4,5, a nota segue fora da meta de 4,7 do ano passado – e mais distante ainda daquela de 2017 (5).

Mais: no Brasil, o aluno corre o risco de escolher apenas as disciplinas com as quais tem um pouco de afinidade e pode deixar de lado aquelas em que ele tem dificuldade. Com isso, pode terminar a escola com uma defasagem gigantesca – e sem condições de competir, com igualdade, por vaga no ensino superior.

Ser "protagonista do seu percurso", como prega o ministro Mendonça Filho ao falar de escolha das disciplinas, é uma ideia tentadora. Vale lembrar, no entanto, que adolescentes ainda não têm condições psicológicas nem fisiológicas para decidir sozinhos.

A parte cerebral responsável pelo planejamento de longo prazo, por exemplo, só amadurece por volta dos 24 anos. A escolha de disciplinas e o planejamento de estudos, portanto, devem ser feitos com orientação e mentoria. Isso vai acontecer de maneira efetiva ou os alunos ficarão soltos à própria sorte?

A possibilidade de abrir mão de educação física da grade também pode ter resultado desastroso. Há estudos em várias áreas do conhecimento que mostram que os esportes, além de melhorar a autoestima, essencial na escola, aprimora a capacidade de concentração e memorização.

Alguns especialistas chegam a recomendar redução de horas de estudos e aumento de horas de esportes – prática bastante adotada na Finlândia, um dos países-modelo em educação no mundo, inclusive durante os rigorosos invernos daquele país.

Alguém, aliás, consultou os estudantes sobre isso?

Hoje, o ensino médio encontra meninos e meninas desanimados e com dificuldades nas aulas, que vão ficando mais complexas. É um convite para a evasão escolar. Na prática, metade de quem começa a estudar no Brasil não termina o ensino médio.

Se as disciplinas do ensino médio continuarem separadas da realidade do aluno, com professores exaustos, em aulas antiquadas no formato giz e lousa – e se a opção de ensino integral apenas ampliar a quantidade de horas dessas disciplinas conservadoras –, o estudante acabará largando a escola do mesmo jeito.

RAIO-X

Nome: Sabine Righetti
Idade: 35 anos
Carreira: é jornalista pela Unesp e especialista em jornalismo científico, mestre e doutoranda em política científica pela Unicamp. Foi repórter por cinco anos na Folha de S. Paulo, escrevendo sobre ciência e educação. Hoje, mantém o blog Abecedário, colabora com reportagens para o jornal e organiza o RUF (Ranking Universitário Folha), uma proposta inédita de classificação do ensino superior brasileiro. É pesquisadora e docente na pós-graduação do Labjor/Unicamp e associada ao LEES (Laboratório de Estudos sobre Ensino Superior) da Unicamp.

Fonte: Folha de S. Paulo – Educaçã0 – Quinta-feira, 22 de setembro de 2016 – 20h15 [Horário de Brasília – DF] – Internet: clique aqui.

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