«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Uma rara autocrítica de um empresário

RISCO DE EXTINÇÃO

Entrevista com Philipp Schiemer
Presidente da Mercedes-Benz no Brasil

Marcelo Sakate

Em autocrítica incomum, o presidente da Mercedes-Benz no Brasil
admite que o setor viveu com subsídios, mas reconhece
que é um modelo falido e alerta: a indústria brasileira poderá sumir

O alemão Philipp Schiemer, 52 anos, retornou ao Brasil em 2013 para assumir a presidência da Mercedes-Benz. Naquele ano, o mercado brasileiro era o maior do mundo para a empresa alemã, com vendas anuais de 40.000 caminhões. Agora, a produção nacional encolheu mais de 60% e retrocedeu aos níveis de uma década atrás.

Péssima notícia para Schiemer. Péssima notícia para o Brasil, uma vez que as vendas de caminhões funcionam como um termômetro da economia ao refletir a disposição das empresas de ampliar a capacidade de produção.

Diante desse quadro, o executivo comandou a redução de tamanho da Mercedes brasileira, de 14.000 para 10.900 trabalhadores, e outros 1.400 serão desligados nos próximos dias. “O setor automotivo – e eu não excluo a Mercedes – deveria ter percebido que o modelo de negócios com base em incentivos reflete o Brasil antigo, de mercado fechado, protecionista. Pode funcionar hoje, mas não vai garantir a sobrevivência nem o crescimento da indústria”, diz Schiemer.

Para ele, é preciso repensar o modelo de indústria e, se nada for feito, as consequências serão “dramáticas”. A seguir, a entrevista.

Como o setor de ônibus e caminhões chegou a uma crise tão grave?

Philipp Schiemer: O Brasil cresceu fortemente até 2010, 2011. Com o boom das commodities [produtos agrícolas, minerais e pecuários exportados] e as finanças públicas mais ou menos equilibradas, o governo tinha dinheiro para gastar. Quando veio a crise mundial, o Brasil se saiu muito bem. Ali estava o início dos problemas. Criou-se uma ilusão. Achava-se que o país poderia tudo.
O governo interferiu na economia para recuperar a confiança do setor privado, e deu certo no primeiro momento. Mas esqueceu a regra de que, quando a crise acaba, ele tem de sair e deixar que os negócios funcionem. Passou a acreditar que, quanto mais interferisse no setor privado, melhor seria.
Adotou uma política econômica totalmente errada. Baixou os juros sem fundamento, deu isenção tributária a vários setores. Era possível saber que, em algum momento, aquele modelo de estímulo ao consumo bateria no teto. As pessoas já tinham comprado geladeira e carro e estavam endividadas. O crescimento teria de vir do aumento de produtividade, de incentivos para projetos em infraestrutura, para criar um novo ciclo de investimento e de crescimento.

A indústria automobilística beneficiou-se dos incentivos e agora reclama deles?

Philipp Schiemer: Tínhamos a convicção, naquele momento, de que a ajuda do governo seria o certo. As pessoas podem dizer “a Mercedes também se beneficiou”, e é verdade. Deveríamos ter pressionado o governo por reformas no lugar de incentivos. O setor automotivo – e eu não excluo a Mercedes – precisava ter percebido que aquele modelo de negócios, que ainda é o atual, reflete o Brasil antigo, de mercado fechado, protecionista. Deveríamos ter entendido que não funcionaria mais. Pode funcionar hoje, mas não no futuro. E por quê? Porque hoje o mundo é global, não é mais local.
PÁTEO DA FÁBRICA DA MERCEDES-BENZ EM SÃO BERNARDO DO CAMPO (SP)

Quais são as perspectivas se o país insistir no modelo atual?

Philipp Schiemer: A indústria brasileira corre o risco de ser extinta. Do jeito como as coisas estão, nenhuma indústria – e não apenas o setor automotivo – vai ter futuro no Brasil. Não é possível ser competitivo com um mercado fechado. Com o novo governo, esperamos, será mais fácil conversar do que com o anterior, que era conservador e protecionista. A inflação voltou, os juros tiveram de subir também. Quem vai comprar caminhão ou ônibus com 14% de juros?
Quem faz um investimento? A decisão de compra no nosso setor tem a ver com matemática. É investimento. Vai trazer retorno? Se tenho confiança no futuro, eu invisto. Se não tenho e o investimento é alto, não compro. Com a economia em queda e a desconfiança em alta, como tomar decisões para os próximos três, quatro, cinco anos? É muito difícil.
Em 2011, o mercado de caminhões chegou a ser de 170.000 unidades vendidas em um ano. Agora, está em 50.000. Isso não reflete o potencial do mercado. A idade média da frota de caminhões é vinte anos, enquanto na Alemanha é sete. O mercado é promissor, mas será uma recuperação lenta.

O senhor vem de um país aberto e exportador. Não demorou [demais] a perceber que o modelo de indústria fechada e com base em incentivos pontuais não teria futuro?

Philipp Schiemer: Quando cheguei, em 2013, as medidas do governo já estavam em andamento. As dificuldades do mercado estavam começando. Só depois percebemos que a crise seria longa e duradoura. Desde então, tenho me pronunciado e discutido o assunto dentro e fora da fábrica. O objetivo não é só abordar os problemas do nosso setor, mas de toda a economia brasileira.

O empresário brasileiro compartilha da sua autocrítica segundo a qual os incentivos podem representar a morte a longo prazo?

Philipp Schiemer: Percebemos um início de mudança de pensamento. Sabemos que o modelo atual não tem futuro. O mercado brasileiro tem grande potencial e pode ser ampliado, mas não com a economia fechada. A indústria não consegue viver apenas com o mercado interno.

O que o Brasil deve fazer para acelerar a retomada do crescimento econômico?

Philipp Schiemer: Precisamos de reformas. O ajuste fiscal é primordial. É necessário que a reforma da Previdência seja aprovada rapidamente, para sinalizar que o Brasil é um país confiável para investimentos de longo prazo [neste ponto não há consenso, leia uma outra opinião e análise, clicando aqui]. Isso permitirá reduzir a inflação e as taxas de juros; dessa forma, a confiança do investidor será retomada, o que vai levar ao crescimento da economia e, consequentemente, do mercado de caminhões e ônibus. Os investimentos em infraestrutura também seriam um forte incentivo. 
OPERÁRIOS DA MERCEDES-BENZ EM SÃO BERNARDO DO CAMPO FAZEM MANIFESTAÇÃO
PARA DEFENDER SEUS EMPREGOS

E para aumentar a produtividade industrial?

Philipp Schiemer: Temos de começar pela desburocratização. No Brasil gastamos quatro vezes mais do que na Alemanha para atender às obrigações tributárias, incluindo recursos, tempo e funcionários envolvidos. É ineficiência pura. É preciso atacar o custo Brasil que somos obrigados a carregar. O segundo ponto é discutir como facilitar o acesso das empresas brasileiras a componentes competitivos no mercado. Se consigo importar peças a um preço acessível, meu custo diminui e eu exporto mais. Temos de discutir com o governo e as entidades qual é o futuro. Não é uma discussão fácil. Todas as empresas investiram porque acreditaram, talvez erradamente, no modelo antigo. É necessário abrir o mercado. Penso no exemplo da Embraer. Por que ela funciona? Ela não opera no Brasil? Ela também não tem concorrência internacional? E consegue ser competitiva justamente porque pode importar, não precisa se abastecer de fornecedores locais. Na minha visão, o conceito tem de ser “importar mais para exportar mais”. Mas com tempo de transição para as indústrias se adaptarem.

Não é uma estratégia arriscada?

Philipp Schiemer: As empresas se adaptam rapidamente. As grandes companhias, dentro da fábrica, são competitivas. Com as crises que o país já teve, somos competitivos. Os problemas começam fora da fábrica. Há uma burocracia muito forte, os custos logísticos representam um grande obstáculo, existem as regras de exigência de conteúdo local. Claro que dentro das fábricas é possível melhorar. Mas esse é nosso trabalho do dia a dia. As empresas brasileiras têm condições de competir, mas é preciso que tenham melhores condições para trabalhar.

Os representantes da indústria brasileira defendem o real desvalorizado para ajudar na competitividade. Qual a avaliação do senhor?

Philipp Schiemer: Hoje o maior problema do câmbio é a sua volatilidade. A falta de previsibilidade afeta os planos de qualquer empresa. O câmbio pode ajudar nas exportações, mas o Brasil precisa resolver questões estruturais. A Alemanha consegue exportar mesmo com o euro valorizado, porque os produtos têm tecnologia de ponta e, ao mesmo tempo, custos competitivos, pois os fabricantes podem comprar componentes de qualquer lugar do mundo.

O novo governo entende esses desafios?

Philipp Schiemer: Sou otimista. Quando a gente conversa com pessoas em termos técnicos, a conversa é mais fácil. Quando se põe a ideologia por trás, fica difícil. Temos de colocar os problemas em cima da mesa e discutir como resolvê-los. Minha sensação agora é que as pessoas que fazem parte do novo governo estão mais preocupadas com os problemas do que com a ideologia. O Brasil precisa decidir: queremos seguir o caminho da Venezuela ou da modernidade? O caminho para a modernidade não é fácil, mas as chances de que haja um crescimento sustentável depois são muito grandes, porque o potencial no país é enorme. A situação está tão ruim que, se não forem tomadas providências agora, as consequências serão fatais. Isso é muito claro. A indústria no Brasil está à beira da morte. Talvez nem todos tenham entendido a gravidade da situação, mas a discussão está começando.

A Mercedes ofereceu 100.000 reais a cada funcionário que aceitar desligar-se da empresa voluntariamente. Por que esse valor elevado?

Philipp Schiemer: Entendemos que um acordo é feito entre duas partes e que ambas têm de ceder. Nós acertamos com o sindicato dois pontos que, para nós, são muito importantes. Vamos reduzir o quadro em cerca de 1.400 funcionários com esse programa de demissão voluntária (PDV) e, no ano que vem, não teremos de conceder reajuste salarial.
(O programa teve 1.047 adesões, e a empresa avisou que pretende cortar 370 trabalhadores para atingir a meta, mas o sindicato tenta evitar as demissões.)
Em contrapartida, oferecemos um valor maior a quem entrar no PDV e estabilidade até 2017 a quem ficar. É o acordo dos sonhos? Não. Mas é um acordo possível para as duas partes. Sempre digo que o que pode ser acertado em um acordo é algo bom. E o que pode ser feito por dinheiro é barato. Porque, se acaba em briga, sai mais caro.

Fonte: revista VEJA – Entrevista / Páginas amarelas – Edição 2495 – Ano 49 – Nº 37 – 14 de setembro de 2016 – Págs. 15, 18-19 – Edição impressa.

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