«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Alguns cardeais têm dúvidas sobre a Exortação Pós-Sinodal “Amoris Laetitia”

Cinco dúvidas, quatro cardeais, três certezas

Andrea Grillo*
Blog “Come se non”
14 / 11 / 2016

Ao invés de uma Igreja "de saída", missionária, que se arrisca neste
mundo, os cardeais que escreveram a carta ao Papa parecem
desejar uma Igreja enclausurada

Uma nova carta de quatro cardeais ao Papa Francisco, levantando "dúvidas" sobre a Amoris laetitia.

Para o teólogo italiano Andrea Grillo, "os cardeais que sobem ao primeiro andar se sentam na janela e tentam, de algum modo, fazer com que a Igreja em saída volte a entrar, temem os hospitais de campanha, evitam os campos de refugiados".

A íntegra dessa carta dos quatro cardeais, sob o título Criar clareza: Alguns nós por resolver em "Amoris laetitia" - Um apelo, em português, pode ser lida clicando aqui.
WALTER BRANDMÜLLER
Cardeal alemão, nascido em 1929 - foi presidente do Pontifício Comitê das Ciências Históricas

Eis o artigo:

Depois daqueles escritos durante o Sínodo, mais ou menos clandestinamente, outra carta, sempre com as assinaturas de costume, agora selecionadas [dos cardeais Walter Brandmüller, Raymond L. Burke, Carlo Caffarra e Joachim Meisner]. Mas, desta vez, não são expressados temores ou desejos. Não, esta é uma lista de "dúvidas".

O interessante é que a dúvida não é tanto sobre a Amoris laetitia, mas sobre o desígnio do papa como tal. Mas o efeito, inesperado, é que os quatro cardeais, formulando as suas cinco dúvidas, fazem surgir no povo de Deus três grandes certezas. A partir das suas cinco dúvidas, nascem as nossas três certezas.

A dinâmica eclesial também reserva essas surpresas. Se homens da Igreja experientes, depois de sete meses da apresentação do texto da Amoris laetitia, continuam "não entendendo" – ou não querendo entender – o que mudou e se agarram obstinadamente às suas "evidências suspeitas", tudo isso determina, no corpo eclesial , uma nova consciência, tão radical que se torna certeza. A sua desconfiança em relação à Amoris laetitia nos permite uma nova confiança com o Evangelho. Isso também, de certo modo, é ministério eclesial. 
RAYMOND LEO BURKE
Cardeal norte-americano nascido em 1948, foi Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, no Vaticano
de 2008 a 2014 e, atualmente, é patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta

Certitudo prima – Primeira certeza

Na Igreja Católica, por causa de um histórico fato complexo, mas do qual esses Senhores Cardeais também deveriam ter se dado conta há muito tempo, pode acontecer que se fale uma linguagem que não tenha mais nenhuma referência à realidade. Pode-se falar de sujeitos casados perante a lei como se vivessem "more uxorio" [esposo e esposa] e de "atos intrinsecamente negativos" como se estivessem fora da história.

Na raiz desse mal-estar, está uma falta de reconhecimento da realidade e uma radical pretensão de autossuficiência. De nada vale a experiência: aprenderam a se esconder por trás da couraça de uma "ciência triste", identificada com o Evangelho, e têm a atitude de "defensores do bem das almas". Mas se perdeu o vínculo tanto com as almas quanto com o bem.
CARLO CAFARRA
Cardeal e arcebispo emérito de Bolonha, na Itália, nascido em 1938.
Foi diretor do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família (1981-1995),
Atualmente é membro do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, da Congregação das Causas dos Santos,
do Pontifício Conselho para a Família e da Pontifícia Academia para a Vida

Certitudo altera – Outra certeza

Chegou o tempo em que é preciso escolher entre iniciar processos de conversão ou ocupar espaços de poder. A todo o custo, os quatro signatários consideram que, para um pastor e para um homem da Igreja, não há alternativa. Ele só pode ocupar espaços de poder e jogar bombas de gás lacrimogêneo para impedir a visão do real. E se usa de todos os meios. Principalmente, pretende-se que a Escritura e a Tradição estejam a serviço das operações de "imunização do real" perseguidas ao longo dos últimos 40 anos. O povo de Deus e o magistério eclesial olham para essas tentativas como se olha, com a justa compreensão, para as crianças, que, privadas do seu brinquedo preferido, batem os pés e pedem justiça.
JOACHIM MEISNER
Cardeal alemão, é arcebispo emérito de Colônia, na Alemanha, nascido em 1933.
Atualmente ele é membro dos seguintes dicastérios da Cúria Romana: Congregação para os Bispos, Congregação para o Clero, Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos; do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, da Prefeitura para os Assuntos Econômicos da Santa Sé e do Conselho de Cardeais para o estudo de problemas organizativos e econômicos da Santa Sé.

Certitudo tertia – Terceira certeza

Há já sete meses, iniciou-se o caminho de uma recepção rica e complexa da Amoris laetitia. Os pastores que trazem no coração o bem dos seus fiéis conhecem o caminho, puseram-se a caminho: alguns na frente do povo, para incitar a marcha; alguns no meio do povo, para manter o bom ritmo comum; alguns na retaguarda, para proteger aqueles que tem o passo mais lento. Os pastores sabem onde ficar. Os cardeais que sobem ao primeiro andar se sentam na janela e tentam, de algum modo, fazer com que a Igreja em saída volte a entrar, temem os hospitais de campanha, evitam os campos de refugiados. Sentam na janela e se dizem: "Onde vamos acabar?". E a única resposta é: "É preciso acabar de ir". Ficar. Parados. Surdos. Imunes. Distantes. Indiferentes. Com um sentimento de infinita diferença do mundo estranho. Mas, acima de tudo, de Francisco, papa estranho. Que exala odor de vida. E que ousa não subordinar o Evangelho à lei.

Francisco, a tartaruga de Aquiles e
os quatro cardeais

Andrea Grillo*
Blog “Come se non”
15 / 11 / 2016
Desenho do denominado "Paradoxo da Tartaruga" ou "Aquiles e a Tartaruga".
Tradução:
No alto está escrito em italiano: Na partida...
Embaixo, está escrito: quando Aquiles percorreu... a vantagem (no caso, da tartaruga)

Por trás das opiniões expressadas na carta dos quatro cardeais sobre a Amoris laetitia, não há apenas a longa sombra de uma Igreja paralisada e engomada, mas também uma visão filosófica estática, que nega o movimento e o devir. Eles defendem o ser cristão como algo de estático, caindo ruidosamente nas contradições que Zenão de Eleia, defensor do ser parmenídico, já mostrava com clareza em um famoso "paradoxo", denominado de "Aquiles e a tartaruga". Ouçamo-lo em uma sintética apresentação:

"Aquiles, símbolo de rapidez, deve alcançar a tartaruga, símbolo de lentidão. Aquiles corre dez vezes mais rápido do que a tartaruga e lhe concede dez metros de vantagem. Aquiles corre esses dez metros, e a tartaruga percorre um metro; Aquiles percorre esse metro, a tartaruga percorre um decímetro; Aquiles percorre esse decímetro, a tartaruga percorre um centímetro; Aquiles percorre esse centímetro, a tartaruga percorre um milímetro; Aquiles percorre esse milímetro, a tartaruga percorre um décimo de milímetro, e assim por diante, ad infinitum; de modo que Aquiles pode correr para sempre, sem alcançá-la" (J. L. Borges). 
JORGE LUIS BORGES
Escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino que viveu de 1899 a 1986

Não irá desagradar ao Papa Francisco se eu recordo essa mirabolante retomada do famoso "paradoxo da tartaruga", como escrita por Jorge Luis Borges, o grande poeta argentino, em "Outras inquisições", sob o título "Metamorfose da tartaruga", onde, à sua maneira, ele percorre toda a história das milhares de variações que esse famosíssimo paradoxo de Zenão assumiu na história da nossa cultura. E Borges tira daí uma alta reflexão sobre o tema, fundamental, do regressus in infinitum como argumento filosófico.

Eu pensei nesse belo trecho quando li o texto das cinco dubia [dúvidas] formuladas pelos quatro cardeais. Em todo o texto, aparece de modo evidente uma dificuldade de fundo, que é de caráter estrutural. Ou seja, a projeção sobre a realidade de um "modelo de pensamento" segundo o qual, assim como Aquiles não alcança a tartaruga, assim também a graça não alcança as segundas uniões, por motivos lógicos e ontológicos!

A realidade da experiência não importa nada. Ao contrário, é suspeita. Não importa que, nos fatos, todos os Aquiles alcancem e superem as tartarugas. Não importa que pode haver comunhão nas "famílias ampliadas". Importa apenas um raciocínio lógico, a seu modo convincente, mas incapaz de explicar o real.

Com essa "lógica estática" – rigorosamente contrária ao devir – pensam aqueles que chamam de "coabitantes more uxorio" homens e mulheres regularmente casados perante a lei. Como pretende ter um acesso diferente à realidade – ou seja, unicamente a lei canônica – a posição dos cardeais se emancipa do real complexo e o reconstrói abstrata e assepticamente. Tenta bater o pensamento da complexidade com um simplismo maximalista.

Com esse "argumento ontológico" invertido, dispensam a experiência. Fecham-se na pura autorreferencialidade. Excluem para a Igreja qualquer saída significativa.

Só assim os quatro signatários podem dizer, sem corar, alimentar dúvidas sobre uma impressionante série de abstrações:

a) Como se pode reconciliar com a Igreja quem – segundo eles – não é casado?

b) Como se pode aceitar que seja perdoado um ato “intrinsecamente mau”?

c) Como se pode viver em estado de graça se se vive em estado de pecado?

d) Como se pode desmentir um papa santo como João Paulo II?
ANDREA GRILLO
Teólogo italiano autor dos artigos

Não, de acordo com os quatro cardeais, Aquiles nunca irá alcançar a tartaruga. Ao "estado de pecado" não pode seguir o "estado de graça". Um papa "não santo" não pode contradizer um "papa santo". O mundo e a Igreja "são" e não podem não ser. O devir e o movimento não são e não podem ser. Ou, melhor, são admissíveis apenas em condições rigorosa e imutavelmente estabelecidas pelo papa santo, não pelo não santo. O que foi escrito em 1981 parece se tornar, para eles, "palavra de Deus", "verbo revelado", "verdade imutável", "pedra angular".

Portanto, a tartaruga da verdade nunca será alcançada pelo modernismo de Aquiles. A Igreja permanecerá firme na sua autossuficiência autorreferencial. Non prevalebunt [não prevalecerão]. Esse é o preço alto demais que os quatro cardeais pagaram a uma teoria inadequada. Um defeito de experiência os torna substancialmente cegos. E o devir parece não ter força alguma justamente com eles.

* ANDREA GRILLO, católico leigo italiano casado, é teólogo e professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma; do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona; e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

Ambas matérias foram traduzidas do italiano por Moisés Sbardelotto. A versão original do primeiro artigo, é encontrável aqui; o original do segundo artigo, é acessível aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 16 de novembro de 2016 – Internet: clique aqui; Quinta-feira, 17 de novembro de 2016 – Internet: clique aqui.

Os quatro cardeais parecem se esquecer de algo fundamental:
Nenhum documento doutrinal do magistério da Igreja definiu como “doutrina de fé divina e católica” a indissolubilidade do matrimônio cristão

José María Castillo
Teólogo católico espanhol
Religión Digital
15-11-2016
JOSÉ MARÍA CASTILLO

Fala-se nestes dias de alguns cardeais que andam inquietos com a possível permissividade do Papa Francisco, quando se trata de tolerar que pessoas casadas, divorciadas e recasadas recebam a sagrada comunhão. Pode o Papa permitir isso?

Se for de ajuda para esses cardeais, e muitas outras pessoas, terem mais dados sobre o assunto, me pareceu que pode ser útil recordar o seguinte: a Igreja, durante séculos, admitiu o divórcio em determinados casos.

Por exemplo, o Papa Gregório II, no ano de 726, respondeu a uma consulta que lhe fez o bispo São Bonifácio: o que deve fazer o marido cuja mulher ficou doente e, em consequência, não pode lhe dar o débito conjugal? [Manter relações sexuais com ele, por exemplo] Resposta do Papa: “Seria bom que tudo continuasse igual e houvesse por parte (do marido) a continência. Mas, como isso é de homens grandes, quem não puder se conter, que se case novamente, mas que não deixe de ajudar economicamente a mulher que adoeceu e não ficou excluída por culpa detestável” (Jacques Paul Migne. Patrologiae Cursus Completus. Series Latina – sigla PL 89, 525).

Fará bem ter presente que esta prática esteve em vigor durante séculos, já que no século XI ela volta a se repetir no Decreto de Graciano (Cf. J. Gaudemet, O vínculo matrimonial: incerteza na Alta Idade Média, recolhido por R. Metz – J. Sclick, Matrimonio y Divorcio, Salamanca, 1974, p. 102-103). É importante, neste assunto, o estudo de M. Sotomayor, Tradición de la Iglesia con respecto al divorcio - Notas históricas: Proyección 28 (1981) p. 55.

Além disso, o fato de que o divórcio era uma prática admitida naqueles séculos consta claramente em uma resposta do Papa Inocêncio a Probo (PL 20, 602-603). E ainda, outro dado: no século VIII, sabe-se com segurança que o Direito Eclesiástico Bizantino, tal como o testifica Leão o Isáurico, indica uma série de casos (e circunstâncias) em que a Igreja admitia sem dificuldades a separação matrimonial dos esposos (Ennio Cortese, Le Grandi Linee della Storia Giuridica Medievale, Roma 2008, 173-175).

É verdade que o Concílio de Trento, na sessão 24, can. 5, anatematiza quem disser que “o vínculo do matrimônio pode ser dissolvido” (Enchiridion symbolorum. Ed. Heinrich Denzinger; Peter Hünermann – sigla DH 1805). Mas, quando se fala de “anátemas” na doutrina de Trento, é fundamental ter presente que isso não significa nada mais que uma decisão disciplinar. Não se trata de uma questão dogmática, como já analisou minuciosamente e com toda a documentação pertinente o prof. P. F. Fransen, concordando com o estudo magistral de A. Lang, Der Bedeutungswandel der Begriffe fides und haeresis (cf. Münchener theologische Zeitschrift 4 (1953) p. 133-146).

E, sobretudo, sabe-se que nenhum documento doutrinal do magistério da Igreja definiu como “doutrina de fé divina e católica” a indissolubilidade do matrimônio cristão. Portanto, tudo o que se fala sobre este assunto pertence ao âmbito disciplinar, não dogmático.

Se a Igreja durante muitos séculos admitiu sem problemas que a sua fé seja tocada pela possibilidade de dissolução do matrimônio, em casos justificados, corresponde ao poder disciplinar do Papa decidir se as pessoas divorciadas e recasadas podem ou não comungar. Não há razões, portanto, para se angustiar com a decisão que tenha tomado, ou possa tomar, o Romano Pontífice.

Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 17 de novembro de 2016 – Internet: clique aqui.

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