«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Catolicismo reacionário

O Deus cruel dos católicos reacionários    

Alberto Melloni*

Para eles, Deus manda seus flagelos para castigar uma
humanidade pecadora que se rebela contra Ele
ALBERTO MELLONI

A vulgaridade de um frade dominicano [o padre Giovanni Cavalcoli] – que, aos microfones da Radio Maria, leu o terremoto [na região central da Itália] como uma punição e foi demitido depois de uma tomada de posição vaticana – abriu uma pequena fresta sobre uma religiosidade integrista, geralmente invisível.

É um subsolo católico opaco e apreensivo, feito de sentimentos reacionários: na era-Francisco, ele é muitas vezes antipapal, desde sempre teologicamente aproximativo.

Volta o refrão do intransigentismo dos séculos XIX-XX: para o qual a modernidade produz rebeliões contra as quais um Deus cruel, irreconhecível para a fé bíblica, reage mandando flagelos pedagógicos.

Esse pensamento antimoderno sempre se dotou de mídias "modernas", como os jornais, os movimentos, o rádio, a TV. No mundo da hipercomunicação, esse poeirada integrista tornou-se mais invisível. Sites e rádios, blogs e mídias sociais espalham medos sob medida:
a) os medos sobre aquilo que é ensinado na escola para os movimentos pró-vida,
b) os dos padres tradicionalistas que dão à xenofobia leguista [da Liga Norte] perfumes de incenso,
c) os do radicalismo "familista" que manifestam para o amor homossexual o ressentimento dos não resolvidos.

Basta ouvir a Radio Maria [clique aqui]: que inculca em doses cotidianas suspeitas e inimizades, com o seu líder, o padre Livio Fanzaga, que, todos os dias, lendo os jornais, explica onde estão os perigos, quem são os adversários e, principalmente, "desmascara" os traidores. Tudo isso intercalado com momentos espirituais – para aqueles que dirigem à noite ou esperam o amanhecer no hospital, o terço ou o ofício divino são melhores do que a rádio das estradas – por trás dos quais se transmite a pretensão de serem os únicos combativos em uma Igreja mole, os únicos fiéis em uma Igreja de covardes, os únicos católicos em uma Igreja de apóstatas.

Os devaneios antibergoglianos [contra o Papa] de Antonio Socci [jornalista e apresentador italiano], lá, não despertam compaixão, mas admiração: a tese do jornalista, nas horas do terremoto, era de que um verdadeiro pontífice consagraria a Itália à Virgem Maria; e que Francisco não tinha feito isso porque era um gesto "católico demais" para um papa que ele considera, grosso modo, como um usurpador.
PADRE LIVIO FANZAGA - Radio Maria (Itália)

É um mundo oposto à autêntica piedade popular: a qual é o modo pelo qual uma comunidade expropriada da liturgia pelo protagonismo clerical encontra espaços e linguagens que nascem daquela intuição crente que a doutrina cristã chama de "sensus fidei".

Neste mundo do meio, em vez disso, o jogo é muito político. Embora ainda não se tornaram a variante católica das Igrejas televisivas estadunidenses – cujo peso eleitoral na eleição estadunidense dessa terça-feira foi bem estimado pelo Pew Centeros fãs dos blogs e das rádios integristas são um potencial político, porque, no mundo dos desafetos políticos, eles representam uma fidelização.

A ameaça contra Renzi pelo encontro "familista" de Adinolfi – que jurava vingança da lei sobre as uniões nas urnas do referendo – era apenas uma dessas possíveis variações. Mas que, amanhã, poderia encontrar convergências inesperadas no "grillismo" [de Beppe Grillo, do Movimento 5 Stelle], cuja cultura, totalmente de direita, não ignora que sempre há um catolicismo oportunista, pronto para "dialogar" com todo poder disposto a ser seu patrono.

O caso de que tenha havido uma reação da Santa Sé (não é habitual que o diretor da política italiana, o Substituto, tome a palavra de modo tão claro e categórico) a uma voz honestamente menor como a do padre Cavalcoli, diz que a Igreja de Bergoglio não subestima aquilo que havia de "político" naquelas palavras.

O fato de que o desastre natural possa dar origem a questões filosóficas já é sabido pela Europa desde 1755, quando o terremoto de Lisboa permitiu que Voltaire polemizasse com os virtuosismos da "teodiceia", que justificava Deus perante as catástrofes do mundo: mas, honestamente, o padre Cavalcoli não está nesse grupo... Ele pertence à deriva que, agitando temas reacionários, fez com que as Igrejas deslizassem para posições perigosas: como as da homônima Radio Maria polonesa, que alarmou até mesmo Bento XVI em 2006, quando os delírios antissemitas dessa emitente foram penalizados, embora sem muito sucesso.

Hoje, com a casa natal de São Bento [Núrsia], padroeiro da Europa, desmoronando enquanto a Europa desmorona, a Santa Sé deu um sinal muito cristão e muito político. Onde desaparece o bom senso humano e o bom coração católico, aninha-se uma necessidade de ódio: que é o ar que se respira neste país dilacerado e vulnerável. Que pensou por muito tempo que podia escolher os seus grandes problemas – o desemprego, a desnatalidade, as migrações, o terrorismo, a crise econômica – e a ordem para enfrentá-los. Em vez de se perguntar quanta humildade e quanta coesão são necessárias para se estar pronto quando o que paira acontece, apresentando ao amanhã a conta de um ontem que já passou.

* ALBERTO MELLONI é historiador especialista em história do cristianismo, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, na Itália.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 9 de novembro de 2016 – Internet: clique aqui.

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