«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 17 de dezembro de 2016

4º Domingo do Advento – Ano Litúrgico A – Homilia

Evangelho: Mateus 1,18-24

18 A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento
a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo.
19 José, seu marido, era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar Maria, em segredo.
20 Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse: «José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo.
21 Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados».
22 Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta:
23 «Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel,
que significa: Deus está conosco.»
24 Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa.

Pe. Alberto Maggi
Ordem dos Servos de Maria (OSM)
Biblista e Teólogo

JOSÉ, O JUSTO, PERMITE A NOVA CRIAÇÃO
EM MARIA, SUA ESPOSA

O Evangelho de Mateus começa com a genealogia de Jesus (Mt 1,1-17). Lemos em Mateus:
“Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac ...” e assim por diante, há uma longa série de gerações. Para entender isso, é preciso se contextualizar na cultura hebraica e na língua hebraica da época, onde não existia a palavra “os pais”. Havia um pai, que era aquele que procriava, e a mãe, aquela que simplesmente dava à luz. No nascimento de uma criança não tinha o pai e a mãe que contribuíam com igual participação: a mãe era considerada como uma espécie de incubadora, que só recebia o sêmen de seu marido, e, em seguida, ao seu tempo, o expelia. Em outras palavras, portanto, é um homem que gera um macho.

Pois bem, temos toda a genealogia de Jesus, geração após geração de homens que geram outros homens, até chegarmos ao versículo 16: “Jacó...” - esse Jacó é o pai de José, e portanto, o avô de Jesus - “Jacó gerou José ..." e aqui se poderia esperar, pela quadragésima vez, o verbo gerar: “e José gerou Jesus”. Nada disso! Aqui o evangelista corta essa genealogia: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual foi gerado Jesus, que é chamado Cristo”. Há algo de totalmente novo, há uma novidade incrível: a Maria é atribuído o mesmo verbo “gerar" que se atribuía somente à geração dos homens.

O que quer nos dizer o evangelista? Com Maria, essa tradição nascida nas origens do tempo, e que tem continuado ao longo da história de Israel, se fecha com José. O pai, quando gerava um filho, não só transmitia-lhe a vida física, biológica, mas toda a tradição e espiritualidade do seu povo. Então, todo este precioso capital de história se interrompe com José. Com Jesus, isso mesmo, com Jesus há uma nova criação!

Vamos então ver agora a passagem que a liturgia nos apresenta neste domingo: Mateus, capítulo 1, versículos 18-24: “A origem de Jesus Cristo foi assim”. Literalmente: essa é a “Gênesis” de Jesus Cristo: o evangelista faz referência com a palavra ao primeiro livro da Bíblia. Isso significa que em Jesus há uma nova criação, algo inédito, algo nunca acontecido. “A origem de Jesus Cristo foi assim”. Ou “Esta é a Gênesis de Jesus Cristo”.

“Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José”. Aqui também devemos compreender bem como era a instituição do matrimônio, no tempo de Jesus.

O matrimônio ocorria em duas etapas: a primeira etapa era chamada “núpcias”, e a segunda, um ano depois, era chamado “casamento”. Portanto o matrimônio era dividido em duas etapas. Aqui Maria e José estão na primeira etapa: já estão casados, já são marido e mulher, mas ainda não vivem juntos, na mesma casa.

Portanto, “Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José...”, quer dizer, Maria já era esposa de José. Mas “antes de viverem juntos...” - isto é, antes que eles passassem à segunda etapa, a da coabitação na casa paterna – “... ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo”.

O que o evangelista quer nos apontar com esta afirmação? Primeiro de tudo, ir aos sentidos profundos dos termos: o termo “Espírito”, em hebraico Ruáh, é feminino. Em grego,
Pneuma é neutro. Portanto, o evangelista evita completamente qualquer referência àquelas histórias, que eram frequentes no mundo pagão, de deuses pagãos que se acasalavam com meninas humanas.

Aqui não se trata de um acasalamento de um macho com uma fêmea: por isso, o evangelista usa um termo neutro!

Mas o Espírito Santo o que é? É o poder criativo de Deus. O que é nascido em Maria, é a mesma força que deu origem à criação. No livro de Gênesis, ao qual Mateus se refere: “No princípio, Deus criou o céu e a terra, (...) e o “Espírito (Ruáh) impetuoso de Deus soprava sobre as águas” (Gn 1,1-2). Agora, o Espírito Santo de Deus fez de novo irrupção nessa criatura.

José, seu marido, era justo...” - “Justo” não tinha o nosso atual significado moral, “homem justo” significava observador fiel de todas as regras e prescrições da lei, “...e, não querendo denunciála...”. Já na primeira etapa do matrimônio, o noivo e a noiva eram marido e mulher. Mas o homem se precavia nesta situação, decidindo que, em caso de adultério, a mulher fosse denunciada e apedrejada, segundo a lei.

Pois bem, José está num profundo dilema, e este drama, nos livros apócrifos, de modo especial no “Protoevangelho” de Tiago, é expresso de forma muito eficaz. De fato, José afirma: “se eu esconder o erro de minha esposa, vou me encontrar na luta contra a lei do Senhor”. Portanto, José se defronta com uma tragédia: ele é um observador fiel da lei, a lei exige que ele denuncie a mulher e assim iria fazer apedrejar a mulher adúltera infiel. Mas José não pode fazer isso!

“José resolveu abandonar Maria, em segredo”. Outra tradução: “...pensava em deixá-la sem ninguém saber”. Uma espécie de repúdio! O repúdio era muito simples naquela época, era uma folha de papel onde o marido escrevia simplesmente: “você, a começar de hoje, não é mais minha esposa. Entregava esse papel à esposa que devia ir embora. Os motivos da rejeição eram numerosos, e, por isso, não havia nenhum problema. Era exatamente isso que José estava pensando de fazer.
"O SONHO DE JOSÉ"
Pintura a óleo realizada por Gaetano Gandolfi (1734-1802),
por volta do ano 1790
(Coleção particular)

“Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe, em sonho, e lhe disse...”. É a primeira vez que no Evangelho de Mateus, aparece a expressão “anjo do Senhor”. Deus, na cultura judaica, estava longe dos seres humanos, e, quando Ele devia intervir na vida dos homens, nunca se apresentava com sua divindade, pessoalmente, mas através dessa fórmula que é “o anjo do Senhor”. “O anjo do Senhor” não significa um anjo enviado por Deus, mas é a presença do próprio Deus quando entra em contato, em comunicação com os humanos.

E por que em sonho? O sonho: no Livro dos Números (12,6) se diz “se há um profeta entre vós, eu, Javé o Senhor, me manifestarei a ele em uma visão, eu vou falar com ele em sonho”. Javé, de fato, fica longe dos homens, e não se manifesta a eles diretamente, mas apenas através o sonho.

Esse “anjo do Senhor” - aqui é a primeira vez - aparece três vezes neste evangelho, e sempre para defender a vida. Aqui Deus comunica vida, em seguida aparecerá para defender a vida das tramas assassinas de Herodes, e, depois, na ressurreição, para confirmar que a vida, quando ela provém de Deus, é indestrutível.

“E lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Eis aqui a garantia de Deus: Maria não é uma adúltera, não traiu José, mas nela criou-se algo novo, é uma nova criação que em Maria toma forma. “Ela dará à luz...” - literalmente, “parirá” - um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”.

Aqui o evangelista faz uma conexão entre o nome de Jesus e salvar o povo dos seus pecados. Isso, na nossa língua portuguesa, não se pode entender, mas na língua hebraica sim: Jesus, em hebraico, é “Jeshuá”; o verbo salvar, no tempo futuro é “Joshuá”. Portanto, em hebraico há um jogo de palavras: “tu lhe darás o nome de “Jeshuá” (Jesus), Ele, de fato, “Joshuá”, salvará o seu povo dos seus pecados.

Em português, teríamos que expressar tudo isso assim: ele será chamado “Salvador”, pois ele “salvará” o seu povo dos seus pecados. Mateus é o único evangelista que, na Ceia do Senhor, acrescenta as palavras que o sangue de Jesus é “derramado por vós e por todos para remissão dos pecados” (26,28). Os pecados não são as culpas, as falhas dos homens. O pecado é o passado negativo, é o passado não conforme ao desejo de Deus.

“Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta...”: referência ao sétimo capítulo de Isaías, versículo 14, onde o profeta falava ao rei Acaz, anunciando-lhe o nascimento de um filho, o futuro rei Ezequias: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel que significa: Deus está conosco”. Aqui é o ponto aonde o evangelista queria nos levar, é o fio condutor principal de toda a sua teologia, de todo o seu evangelho. A grande novidade que o próprio Jesus vai trazer: o Deus que se fez gente, que significa “Deus conosco”. Por que fio condutor?

Porque aparece aqui no começo, voltará perto da metade do evangelho, e depois, no final desse evangelho, com as palavras de Jesus: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Essa é a novidade que Jesus nos traz: um Deus não distante, mas um Deus conosco. Então, se Deus está conosco, já não é um Deus que devemos procurar, mas um Deus que deve ser acolhido, e, com Ele e como Ele, ir ao encontro das pessoas. Enquanto, antes, a humanidade vivia para Deus, era orientada a Deus, e tinha come objetivo encontrar Deus, agora a humanidade com Jesus vive de Deus, e, com Ele e como Ele, leva essa onda de amor a todas as criaturas.

“Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa”. Portanto, José é apresentado como “o justo”, no verdadeiro sentido, isto é, aquele que, mesmo indo para além da tradição das prescrições da lei, está em sintonia com a Palavra de Deus e a observa, mesmo quando ela vai contra seus costumes e regras religiosas. Mas, graças à omissão do cumprimento da lei, o Espírito Santo abre uma brecha e pode formar-se uma nova vida, a vida de Jesus.

Traduzido do italiano por Pe. Bartolomeo Bergese, Diocese de Pesqueira – PE (Brasil).

Fonte: Centro Studi Biblici “G. Vannucci” (Montefano/MC – Itália) – Português – Homilias – Internet: clique aqui.

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