«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 20 de agosto de 2017

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora – Ano A – Homilia

Evangelho: Lucas 1,39-56

39 Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia.
40 Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
42 Com um grande grito, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!.
43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
44 Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu».
46 Maria disse: «A minha alma engrandece o Senhor,
47 e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
48 pois, ele viu a pequenez de sua serva, eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
49 O Poderoso fez por mim maravilhas e Santo é o seu nome!
50 Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam.
51 Demonstrou o poder de seu braço, dispersou os orgulhosos.
52 Derrubou os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou.
53 De bens saciou os famintos despediu, sem nada, os ricos.
54 Acolheu Israel, seu servidor, fiel ao seu amor,
55 como havia prometido aos nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre».
56 Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

MARIA É SINAL DE UMA NOVA HUMANIDADE

O Evangelho nos apresenta o cântico de Maria (Magnificat), o qual descreve o programa que Deus tinha começado a realizar desde o começo, que ele prosseguiu em Maria e que cumpre agora na Igreja, para todos os tempos. Pela Visitação que teve lugar na Judeia, Maria levava Jesus pelos caminhos da terra. Pela Assunção, é Jesus que leva a sua mãe pelos caminhos celestes, para o templo eterno, para uma Visitação definitiva. Nesta festa, com Maria, proclamamos a obra grandiosa de Deus, que chama a humanidade a se juntar a ele pelo caminho da ressurreição.

Maria, assunta aos céus, glorificada por Deus, é o sinal que nos é dado, assim como outrora João, na ilha de Patmos, viu uma mulher vestida de sol. Ela é o sinal da humanidade transformada em Cristo, sem violência e sem ódio, garantia de que a energia da ressurreição de Cristo se espalha e se derrama sobre toda a humanidade, mostrando que aquilo que o apóstolo Paulo nos disse na segunda leitura está em pleno andamento: todos em Cristo ressuscitarão.

Assim, a festa da Assunção de Maria, mais do que um acontecimento especial em uma pessoa, diz respeito à vocação de toda a humanidade.

O diálogo das duas mulheres no Evangelho, Isabel e Maria, é o reconhecimento desta mesma humanidade – pobre e frágil humanidade – a este mistério. É a humanidade se engajando nesta energia de salvação e transformação que atinge a todos, desde os nossos ouvidos às nossas entranhas, e nos faz cantar as maravilhas e ações de Deus. No seu cântico, continuando os cantares de outras mulheres, como Miriam, Judite e Ana... Maria exulta de alegria porque a salvação tornou-se mais próxima do que nunca e porque essa salvação se manifestou por meio dela, mulher pobre, humilde serva do Senhor.

Portanto, celebrar a festa da Assunção é reassumir o compromisso com a causa da vida no mundo, cultivando sempre a afeição e a ternura, de modo que cresçam com a luta o homem novo e a nova mulher. Maria é sinal da nova humanidade que começa nas relações, no cotidiano de nossas convivências.

Desse modo, a celebração deste domingo, torna-se a maneira de nos inserirmos no plano da salvação, proclamarmos a fé e cantarmos a alegre ação de graças ao Deus que olhou para a humildade de seus servos e servas.

Fonte: GUIMARÃES, Marcelo; CARPANEDO, Penha. Dia do Senhor:  guia para as celebrações das comunidades. Volume 3: Tempo Comum – Ano A. São Paulo: Paulinas, Apostolado Litúrgico, 2001, páginas 322-323.

sábado, 12 de agosto de 2017

19º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 14,22-33


Depois da multiplicação dos pães,
22 Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões.
23 Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós. A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho.
24 A barca, porém, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário.
25 Pelas três horas da manhã, Jesus veio até os discípulos, andando sobre o mar.
26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: «É um fantasma». E gritaram de medo.
27 Jesus, porém, logo lhes disse: «Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!».
28 Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.»
29 E Jesus respondeu: «Vem!». Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus.
30 Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me!».
31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: «Homem fraco na fé, por que duvidaste?».
32 Assim que subiram no barco, o vento se acalmou.
33 Os que estavam no barco, prostraram-se diante dele, dizendo: «Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!».

ADROALDO PALAORO
Jesuíta

ASSUMIR NOSSAS TORMENTAS

Poderíamos começar nossa reflexão sobre o Evangelho, indicado para a liturgia deste domingo, com estas inquietantes perguntas:
* “Que farias tu se não tivesses medo?
* Que faríamos nós, seguidores e seguidoras de Jesus, se não fôssemos afetados pelo medo?”

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.

Podemos afirmar que o centro dos evangelhos de Marcos e Mateus é uma espécie de relato de navegações e tormentas. Essa recordação de Jesus que acompanha seus amigos no barco e que “acalma” sua vida tormentosa (tormenta de dentro ou de fora?) está no fundo da tradição cristã.

O medo, a angústia, a insegurança, o espanto dos apóstolos, o não saber quê fazer na tormenta, é parte de nossa condição humana. Isso não nos faz menos pessoas, mas nos faz mais próximos, se somos simples e humildes.

Quando lemos com um pouco mais de atenção os capítulos centrais do Evangelho de Mateus passamos a ter convicção de que Jesus está continuamente “passando para outra margem” e convidando seus discípulos a fazerem o mesmo. Poderíamos dizer que o seguimento implica permanente travessia de uma margem à outra. Isto nos move a pensar que esta passagem não é geográfica; nesse deslocamento há algo mais profundo, ao menos um convite à não instalação. Nenhuma margem pode se converter em lugar de “parada”, todas são lugares de passagem.

Mateus realça que Jesus “forçou” os seus discípulos a entrarem na barca. Isto indica que não queriam ir embora e foi necessário obrigá-los a se retirarem dali. Por quê? Sem dúvida, porque ao verem a oportunidade de que o Mestre se convertesse em rei, não queriam perder a ocasião de ter algo de poder, de vaidade, de prestígio. Compreende-se, assim, o mandato de Jesus a passar para a “outra margem”, a deixar de lado as solicitações do ter, do poder... para buscar o caminho do despojamento e da partilha.

A atualidade do relato é patente: quando os discípulos de Jesus não se contentam em ser o que são, mas buscam poder e prestígio, “faz-se noite”, não avançam, a tormenta se amplia, veem em Jesus um fantasma que lhes dá medo, Pedro se afunda...

Seguir Jesus implica estar continuamente passando para a outra margem; passar para o outro diferente, não permanecer fechado em si mesmo. “Passar para o outro” como condição necessária para “passar para Deus”. Aquele que se instala, se perde, envolve-se na tormenta. É preciso buscar sempre novos espaços e novos horizontes. E toda travessia implica “correr riscos”.

Há momentos em que daríamos tudo por uma chance de pedir a Deus para não corrermos riscos. Mas o risco é necessário. É importante poder enfrentar as dificuldades, o desconhecido e o incerto.

As experiências obscuras, as tribulações, as tempestades... são inerentes à fé cristã; estão presentes em todas as pessoas. Mas isso deve nos permitir renovar constantemente uma confiança e uma união com o Senhor na realidade mais cotidiana.

Percebemos que algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças, mas outros preferem correr o risco do “mar agitado” e são capazes de construir o novo. As tempestades, o vento contrário, a escuridão da noite... “agitam a alma dentro de nós”.

Mas como enfrentar as turbulências que são frequentes no nosso processo de amadurecimento?

A sensibilidade, a criatividade, o espírito de iniciativa são nossos maiores aliados.
Para desenvolver ao máximo nossas potencialidades, temos de enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz mergulhar na vida, desenvolver nossas forças, ativar e despertar outras possibilidades escondidas no chão de nossa vida.

Na tradição inaciana “formar-se é provar-se”. Só aquele que é posto à prova em sua fé e em suas convicções, se forma, cresce e amadurece.

Com certeza, muitos de nós já tivemos a experiência de que, quando fomos capazes de superar nossos medos e tomar decisões audazes diante de um futuro incerto, então se despertaram, no nosso eu mais profundo, outros recursos e capacidades que ignorávamos ter; no final, nossa vida se viu enriquecida de uma maneira tal que jamais poderíamos imaginar.

Do meio dos ventos contrários e do mar agitado brota um forte apelo: “Não tenhais medo”. Um apelo com força libertadora; é a força da voz de Alguém cuja presença alavanca o PASSO PARA A TRAVESSIA: o passo da mudança, o passo da audácia de sonhar de novo, o passo para vislumbrar a outra margem...

Com o Senhor Jesus no barco de nossa vida, vamos além, fazemos a travessia... Ele é ao mesmo tempo: mestre, timoneiro, mastro, vela, horizonte, esperança, ar, mar, adorável presença... Salvador...

Os conflitos mais profundos do nosso coração são pacificados com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida...

Por isso, é preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.

É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.

Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Esperança & dúvida, temor & coragem, criatividade & rotina, andam juntas.

Tornamo-nos corajosos quando tomamos a decisão de arriscar.

Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos(as), criativos(as) e audazes seguidores(as) de Jesus.

Quem for medroso e tímido volte para trás (Juízes 7,3)

PARA MEDITAR NA ORAÇÃO:

Para fazer a «travessia da vida» será necessário descobrir:
* Quantos fantasmas há em sua vida que o paralisam, o impedem de avançar, o travam na hora de tomar decisões?
* Quantos fantasmas o impedem crescer, assumir os desafios, ser criativo?
* Numa dimensão mais ampla, quantos fantasmas há na Igreja que não a deixam rejuvenescer-se, que a impedem viver um processo de contínua mudança, que a fazem suspeitar de tudo, que a fazem surda aos chamados de Deus no meio das tormentas da atualidade?

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 11 de agosto de 2017 – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Qual caminho para o catolicismo???

Nesta época secular livro mostra
um caminho para o catolicismo

Michael Sean Winters
National Catholic Reporter
09-08-2017

Igreja, fé, futuro: o que enfrentamos, o que podemos fazer
Pe. LOUIS J. CAMELI

Alguns bispos não param de reclamar sobre a onda de secularismo que está envolvendo os alicerces da Igreja e erodindo a fé católica. Alguns católicos progressistas culpam a própria Igreja pela situação e se recusam a acreditar que ela tenha inimigos reais. Algumas dioceses estão envolvidas no doloroso processo de reorganização das paróquias, enquanto outras não dão conta da construção novas igrejas e até escolas. Há um coro alto e bem financiado contra o Papa Francisco, mas quem frequenta a Igreja ouve sua mensagem e o ama ainda mais por isso.

Como classificar todas essas forças aparentemente centrífugas? Como avaliar a situação da Igreja neste meio cultural e as opções de evangelização? Como canalizar os vários e variados impulsos do Espírito Santo em direção ao renascimento da fé católica?

Essas são grandes questões, e o Pe. Louis Cameli, da Arquidiocese de Chicago, não promete fornecer todas as respostas em seu novo livro Church, Faith, Future: What We Face, What We Can Do (Igreja, fé, futuro: o que enfrentamos, o que podemos fazer, sem versão em português). O que ele consegue, em um volume relativamente pequeno de 104 páginas, é dar um enquadramento claro e bastante persuasivo, bem como uma primeira tentativa de fornecer um GPS eclesiástico que mostre a direção a seguir. Não é uma conquista pequena, e o livro deve chegar às mãos de todo responsável pelo planejamento pastoral, talvez até como objeto de reflexão em alguma convenção presbiteral ou congresso leigo.

Ele começa com uma revisão da literatura para responder a questão “O que podemos esperar?”, a partir de A Era Secular, de Charles Taylor. Faz dez anos que esse livro foi lançado. Naquela época, todo mundo concluiu que Taylor tinha feito um ótimo trabalho. Acho que seria melhor dizer que fez em partes. Atualmente, vivemos uma era secular, mas suspeito que havia mais secularismo em outras épocas do que geralmente admitimos. Considerando Chartres, o grande monumento à Era da Fé, acho que alguns pedreiros que construíram essa obra-prima estavam apenas precisando de um emprego e que algumas pessoas que iam até lá para adorar após sua construção eram mais supersticiosas do que religiosas. Pelo menos Taylor esboçou o secularismo como algo que se desenvolveu ao longo dos séculos, e não quando Barack Obama fez o juramento. Ainda assim, fiquei preocupado por ter começado por Taylor.

Minha preocupação estava deslocada. Cameli ressalta que, mesmo nas “terríveis reviravoltas” da secularização, como no século XX, nada disso “levou a Igreja a condenar o processo. Na verdade, seu ensino autoritário apoia as formas boas e saudáveis de secularização”. A opção por não estabelecer fronteiras rígidas, e ainda menos de separar o joio do trigo precipitadamente, é uma razão fundamental para que sua mente seja tão fértil. Muitos comentaristas clericais estão imersos na escuridão e na desgraça, mas não Cameli. Duas páginas depois de discutir a secularização, ele escreve:

«Muitos de nossos contemporâneos imaginam - e isso provavelmente também se aplica a uma parcela considerável de fiéis - que a Igreja é um reservatório, um lugar de espera e uma instituição essencialmente conservadora».
«Imaginam que a Igreja permanece exclusivamente focada na manutenção de doutrinas, tradições e práticas, e não em mudar o mundo. Essa visão, no entanto, representa uma distorção básica da identidade dos fiéis e da Igreja. Se ela se mantiver fiel a si mesma e caminhar em direção ao futuro, será um agente e instrumento de mudança». Sem a «Opção Bento».

Cameli volta-se ao trabalho de James Davison Hunter sobre como a cultura muda e como a religião e a modernidade interagem. Entre outras coisas, Cameli considera relevante seu argumento de que o ressentimento demonstrado por muitos cristãos diante da cultura secular dominante resulta em “uma incapacidade de oferecer alternativas construtivas e criativas ao que a cultura dominante atual oferece”. No entanto, quero saber mais sobre a afirmação de Hunter de que os cristãos têm razão em dizer que a cultura dominante é muitas vezes “incompatível com a moral e a espiritualidade cristã tradicional”. Se por “moralidade cristã tradicional” ele se refere apenas a proibições sexuais, como muitas vezes é o caso, a crítica cultural cristã é um beco sem saída e não muito cristão. A comercialização de tudo dessa cultura merece ser observado, se assim quisermos. Eu gostaria que Cameli tivesse parado e pensado se realmente o senso mais amplo da incompatibilidade cultural era o cerne da questão.

Ele faz referência ao livro American Grace, de Robert Putnam e David Campbell, e ao trabalho do sociólogo de Notre Dame, Christian Smith, sobre jovens adultos católicos. Considerando os quatro livros, Cameli chega à conclusão que, no futuro previsível, a cultura estadunidense deve ser dominada pelo secularismo que vemos hoje e que a Igreja Católica terá um futuro de declínio. Eu posso discordar um pouco do uso desses textos, mas é revigorante ver alguém reconhecer a realidade e não permitir que ela o faça cair em amargura, futilidade ou queixas maniqueístas contra o secularismo.

O capítulo seguinte levanta e investiga detalhadamente uma questão que já usei de forma casual e retórica: nós, cristãos, não deveríamos esperar o inesperado? Desde os judeus famintos e errantes no deserto, reclamando que queriam voltar para o Egito, até os discípulos no caminho ao Emaús, as Escrituras estão cheias de pessoas cuja falta de fé foi logo contrariada pela intervenção de Deus.

Se os derrotistas de hoje tivessem vivido na França durante a era napoleônica, certamente teriam castigado o Papa Pio VII por não ser mais incisivo. Talvez pensassem que a Igreja estava definitivamente morrendo, mas não teriam previsto o florescimento da espiritualidade que aconteceu na França no século XIX. Outro exemplo: ao falar do poderoso e humanamente surpreendente efeito de Santa Teresa de Lisieux, Cameli afirma: “Ela também transformou o legado jansenista que herdou, com sua ênfase na observância da lei, em um foco singular sobre o primado do amor, o amor de Deus e o amor ao próximo”. Precisamos de sua poderosa intercessão agora, como naquela época, mas quem teria pensado que a frágil criatura, cuja vida terrena não poderia ter sido mais obscura, teria um efeito tão profundo em tantas pessoas no mundo inteiro?

Cameli tem a prudência intelectual e espiritual de perceber que é possível que vejamos “uma Igreja inesperadamente robusta pelas razões erradas”.

Ele faz uma pergunta óbvia e desafiadora: o que podemos fazer ao contemplarmos o provável declínio eclesial? Ele inclui uma avaliação importante do “nós”, observando que a Igreja, em todos os momentos, é uma organização, uma comunidade e um movimento. Como bem observa, podemos não fazer nada ou nos tornar uma “Igreja menor e mais comprometida”. Porém, argumenta contra ambas as opções, usando imagens bíblicas para explicar suas fraquezas. Essas mesmas imagens são usadas para defender o esforço de recuperar o dinamismo da Palavra, evangelizando e se deixando evangelizar. É o centro da argumentação em direção ao futuro. Não quero entregar o jogo: os leitores precisam comprar o livro. Só vou deixar com água na boca com um exemplo de sua análise profunda:

«A maioria das pessoas, dentro ou fora da Igreja, enxerga-a como uma comunidade ou instituição que traz algo para o mundo - uma mensagem, um modo de vida, um conjunto de rituais. A dinâmica evangelizadora reformula essa perspectiva. Como Igreja, não vamos ao mundo somente para dar algo, mas, com o mundo, recebemos algo: a palavra de vida. [...] O apelo [do papa Paulo VI] ao diálogo e à reciprocidade com o mundo só faz sentido se entendermos a Igreja e o mundo não como duas forças opostas, mas, em última análise, duas realidades unidas pela palavra geradora de vida de Deus

Essas importantes ideias teológicas aparecem lado a lado com histórias comuns sobre a vida paroquial. Esta combinação resulta em recomendações para os próximos anos da Igreja que não vão nem tanto ao céu nem tanto à terra. Além disso, o livro é acessível ao leitor leigo que deseja saber o papel que pode desempenhar para trazer nova vida à Igreja.

E termina com um posfácio do cardeal Blase Cupich, com uma palestra aos seus sacerdotes ao fazer a arquidiocese se comprometer com a sempre inquietante tarefa de se reorganizar. No texto, fica fácil ver a influência de Cameli, que é delegado da formação de cardeais. Mesmo os bispos que não estão em reestruturação devem conhecer o livro, assim como pastores de todos os tipos. Em última análise, o futuro da Igreja e da humanidade está nas mãos de Deus, mas, como já disse Lionel Trilling, temos a obrigação moral de ser inteligentes. Este livro, repleto de fé, é definitivamente inteligente.

Traduzido do inglês por Luísa Flores Somavilla. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 11 de agosto de 2017 – Internet: clique aqui.

DÁ MEDO DO QUE HÁ POR VIR!

Os invisíveis geram medo

Silvio Caccia Brava
                                                  Diretor do “Le Monde Diplomatique Brasil”

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia no Brasil.
Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas.
No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil.
Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

A situação ainda não está fora de controle, mas há riscos de entrarmos em um período de confrontos e violência muito mais agudos do que vivemos atualmente. O que acontece hoje no Rio de Janeiro é sinal do que vem por aí. Já assusta todo mundo o fato de que o Brasil atingiu a marca recorde de 59.627 homicídios por armas de fogo em 2014, uma alta de 21,9% em comparação aos 48.909 óbitos registrados em 2003, segundo o Mapa da violência divulgado em 2016. [1]

São mais de 160 pessoas assassinadas por dia. Na Síria, por exemplo, em quatro anos de guerra morreram 256 mil pessoas. No Brasil, no mesmo período, quase 279 mil. [2] Não é uma guerra civil declarada, mas este é o país em que os policiais mais matam e mais morrem no mundo. Se de um lado estão os policiais e o Estado, do outro lado quem é o inimigo?

O que as classes dominantes nos querem passar – e para isso se utilizam da TV – é que o confronto se dá entre criminosos, malfeitores, bandidos, vagabundos, narcotraficantes, corruptos e os que defendem a ordem e a lei. Usam para isso programas como Cidade Alerta.

Ao produzir no imaginário dos brasileiros esse tipo de confronto, a TV oculta a pobreza, o desemprego, a falta de oportunidades para os jovens, a precariedade de nosso sistema educacional, a falta de moradia, os reais problemas da grande maioria dos brasileiros e brasileiras. Essa ocultação falseia o diagnóstico. Já que o que aparece na TV sobre os pobres é a perseguição aos bandidos, o imaginário do brasileiro acabou aceitando a percepção do pobre como um ser perigoso, que necessita ser controlado.

Na verdade, trata-se de repressão e controle policial sobre as grandes maiorias empobrecidas, controle que tem como imagem emblemática as Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs – instaladas em favelas do Rio de Janeiro e que, a pretexto de combater o narcotráfico, chegam a impor toque de recolher em certas áreas da cidade. Isso para não falar na política de encarceramento maciço sustentada pelo nosso Judiciário, hoje com mais de 200 mil presos “para averiguação”, em sua maioria jovens e negros, sem nenhuma acusação pesando sobre eles.

Numa sociedade organizada para facilitar os negócios e atender aos interesses das grandes empresas, a imagem construída da sociedade é a de um grande mercado onde se oferecem produtos e serviços para quem tem recursos para comprá-los. CONSUMISMO e PRODUTIVISMO são as molas do que se entende como progresso. A TV aberta é a vitrine desse mercado e se orienta para seduzir as classes médias e impor um padrão de consumo. O pobre, isto é, a grande maioria dos brasileiros, não existe na TV. E se é pela TV que a grande maioria se informa, então os pobres não existem para a sociedade em que vivem. Não se sabe como é a vida nas favelas, como funcionam as escolas públicas, como são as relações de rua e de bairro, o que fazem os jovens da periferia etc.

IGNORAR OS POBRES TEM COMO DUPLO PROPÓSITO IGNORAR SUAS DEMANDAS,
SUAS NECESSIDADES, E MANTÊ-LOS SOB CONTROLE,
DE PREFERÊNCIA ALIMENTANDO UMA SITUAÇÃO DE APATIA.

“A representação de si, neste contexto, é decisiva. Aqueles que não têm nome não podem se nomear, não podem existir enquanto pessoas e não podem agir coletivamente. Se tivermos essa preocupação no espírito, compreenderemos melhor o interesse dos dominantes de fazer desaparecer do campo das representações certas categorias sociais e de querer que outras ocupem todo o espaço, pois aqueles que se tornaram invisíveis aos olhos dos outros se tornaram também invisíveis para si mesmos. Ao contrário, as categorias sociais superexpostas, supervisíveis, podem fazer crer que a representação de si mesmas é a única realidade social efetiva. Assim se constrói o imaginário social coletivo e a ideia que cada um faz de si mesmo.” [3]

Não basta dizer que a solução para a violência presente na sociedade não é o encarceramento maciço nem o assassinato em massa, como vem sendo feito com os jovens negros da periferia. Soa quase impossível nesse cenário polarizado identificar as causas da violência com a falta de políticas públicas que ofereçam às maiorias as mínimas condições de vida, especialmente nas grandes cidades. A juventude que tem perspectivas de futuro (de emprego, moradia, mobilidade, saúde, educação) não adere à violência, à criminalidade.

As políticas do atual governo cerceiam o futuro de nossa juventude ao impor profundos cortes nas políticas sociais. É um ataque aos direitos humanos, aos direitos sociais, uma violência deliberada sobre a vida das maiorias.

Nessas condições, a única maneira de essas maiorias se tornarem visíveis para o conjunto da sociedade e verem suas necessidades e demandas inscritas na agenda política nacional é por meio da mobilização social, do protesto, da pressão sobre o sistema político.

Se essa pressão vai se radicalizar e assumir formas violentas ninguém sabe, mas parece que somente dessa forma, somando as demandas de diferentes grupos sociais em um movimento amplo de protesto e questionamento da ordem estabelecida, é que o povo sai do anonimato, pode se reconhecer na sua existência, nas suas demandas, tornar-se ator político, apresentar-se para o conjunto da sociedade em toda sua potência. E é disso que as classes dominantes têm medo.

N O T A S

1. Julio Jacobo Waiselfisz, Mapa da violência 2016, Flacso Brasil.
2. G1, Jornal Nacional, 28 out. 2016.
3. Jean-Luc Mélenchon, L’Ère du peuple [A era do povo], Fayard/Pluriel, Paris, 2017, p.89.

Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil – Editorial – Ano 11 – Número 121 – Agosto 2017 – Internet: clique aqui.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O futuro está no prato

Felipe Souza
Greenpeace
09-08-2017

Documentário aborda questões sobre consumo, fome no mundo, obesidade, desperdício de alimentos e traz a mensagem de que podemos salvar o planeta através da comida


Nesta terça-feira (8 de agosto), no Cine Sala São Paulo, foi exibido o documentário “Fonte da Juventude”, do diretor Estevão Ciavatta. O filme questiona a forma de consumo dos alimentos e aborda exemplos de que é possível começar uma mudança significativa no mundo por meio da alimentação.

Segundo relatório feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o número de pessoas afetadas pela fome no mundo é de 108 milhões, enquanto 41 mil toneladas de alimento são desperdiçada por ano só no Brasil.

Para o diretor, o longa tenta mostrar para o mundo que é possível comer bem. “É para sensibilizar, um filme propositivo, que complexifica os desafios do ambiente alimentar do Brasil e traz soluções encontradas por brasileiros de diferentes classes sociais”, disse Ciavatta em debate após a exibição.

Para a apresentadora e chef de cozinha Bel Coelho, o maior desafio está na EDUCAÇÃO. “O movimento de mudar a alimentação no Brasil está com as crianças. São elas que vão aprender e levar para casa e para seus familiares”, defendeu ela.

No Brasil, mais da metade da população está com sobrepeso [gorda]. Um estudo divulgado pelo Ministério da Saúde revelou que o número de pessoas acima do peso no país cresceu 26,3% nos últimos dez anos. Em 2016, os obesos representavam 53,8% da população.

Gerd Sparovek (ESALQ/USP), também presente no debate, acrescentou que a abordagem do cineasta é muito necessária e sincera: “O filme fez a mágica de mostrar tudo. Mostrou a aldeia, quem produz e o pequeno produtor”.

Há vinte anos o Greenpeace questiona o modelo agrícola praticado no Brasil. Para Marina Lacôrte, da campanha de Agricultura e Alimentação, o documentário instiga a população a continuar cobrando do governo e seus representantes. “O filme mostra o quão sério é a questão da alimentação no Brasil e o quanto estamos colocando em risco a saúde das nossas crianças”.

O filme estará disponível para estudo e pode ser solicitado para uso acadêmico. Acesse o site e veja como solicitar o documentário. Veja os 4 episódios, clicando sobre cada uma das imagens abaixo:


Fonte da Juventude - Documentário

Direção e roteiro: Estevão Ciavatta
Produção executiva: Susana Campos e Denise Chaer
Direção de fotografia: Dudu Miranda e Alexandre Ramos
Imagens aéreas: Fernando Acquarone
Imagens adicionais: Carlos Nascimento
Direção de produção: Fabio Bruno
Assistência de direção e pesquisa: Raquel Valadares
Assistentes de produção: Renata Carpenter e Antonio Arraes
Finalização: Daniel Sandes e Pedro Mundim
Montagem: Bernardo Pimenta
Trilha sonora: Maravilha 8
Videografismo: Superuber
Realização: Pindorama Filmes e Novos Urbanos

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 10 de agosto de 2017 – Internet: clique aqui.

Como lidar com o sentimento de vazio?

Direcionar-se ao essencial da vida

Anselm Grün
Teólogo, Psicólogo e Escritor alemão
Monge Beneditino – Abadia de Münsterschwarzach

Vinculam-se à experiência de vazio as mais diferentes vivências e juízos, bem como, características emocionais contrastantes. Há o espanto, diante do franco abismo do nada, ou o sentimento de tédio, mas também a experimentação da serena abertura para o mistério. Tal experiência pode ser compreendida enquanto meta de um caminho espiritual, porém, em outras culturas, ela pode ter significados bastante distintos.

No budismo, a meta do caminho espiritual consiste em atingir o vazio interior. Nesse caso, o vazio tem um significado positivo. Vazio quer dizer que estou livre de meus próprios desejos, livre das ideias criadas acerca de mim mesmo e de Deus. Esse vazio é a condição para se abandonar em Deus completamente. Também Mestre Eckhart [1260-1328], poeta e místico cristão alemão, fala sobre esse vazio enquanto lugar onde Deus pode estar em nós. Não é o espaço em que mobilizamos Deus para nossa felicidade, e, sim, onde deixamos que Deus seja Deus. E esse é o lugar onde nos tornamos vazios de nós mesmos, onde nos libertamos do ego, e que Deus também ainda gostaria de ganhar para si. No vazio, não temos nada nas mãos. À medida que nos tornamos vazios de Deus, também experimentamos a abertura para o Deus que se oferece a nós por misericórdia.

Por outro lado, quando falamos sobre o sentimento de vazio, em nossa linguagem corriqueira, queremos dizer outra coisa. Trata-se do sentimento de que tudo é vazio, de que nosso coração está vazio, de que não sentimos mais nada. Não conseguimos ficar alegres nem sentir tristeza. Todos os nossos sentimentos parecem estar mortos. Não vemos nenhum sentido em nossa vida. Nada nos entusiasma. Tudo tem um caráter insosso e monótono. Nós apenas atuamos, mas, por detrás de qualquer ocupação, abre-se um enorme vazio que nos amedronta e nos impele a preenchê-lo com cada vez mais atividades. Quando, no silêncio, olhamos para dentro de nosso coração, estacamos num espaço vazio. E esse vazio nos intimida. O melhor é fugir desse lugar. Ele é insuportável.

O refúgio nas atividades em excesso devido ao trabalho também provoca um vazio interior. Igualmente muitos experimentam esse vazio durante as orações. Tudo que até agora guardavam em seu coração, está vazio. Quando meditam, não sentem mais nada. Um homem me contou eu sumiram todas as experiências boas: nos cursos de que participou, o sentimento de ser sustentado na meditação, a alegria durante a celebração da missa; tudo isso desapareceu. Tudo que sente é estar vazio de Deus. E ele sofre com esse vazio.

Numa conversa com uma mestra zen sobre espiritualidade cristã e budista, discuti com ela a respeito das experiências que temos em meditação nessas duas vertentes. Expliquei a ela que medito com a Oração de Jesus. A palavra conduz-me – como dizem os monges primitivos – ao mistério sem palavras de Deus. Mas esse espaço de silêncio é, para mim, um espaço de amor. Então ela disse: «Amor é muito desgastante». Perguntei o que ela experimentava então: «Vazio». Respondi: «Vazio é frio demais». Fomos nos aproximando no desenrolar da conversa. Ela havia confundido amor com um sentimento. Se preciso ter sempre intensos sentimentos, durante a meditação, isso é de fato desgastante. Para mim, amor é uma característica do ser, uma fonte de amor que emana do fundo de minha alma. Quando mergulho nesse espaço de amor, sinto-me seguro, apoiado, acolhido e amado.

Como podemos interligar essas duas experiências de vazio?
Se me sinto vazio interiormente, não luto contra isso. Permito o vazio. Ele me mostra que, no momento, nada me completa, nem o trabalho, nem as relações com pessoas queridas que, vida de regra, são importantes para mim. Elas não preenchem esse vazio interior. Até o reconhecimento ou o afeto das pessoas não suplanta esse vazio. Quando rezo, sinto um vazio. Permito esse sentimento de vazio. Eu digo: Nada me satisfaz. No momento não tenho nada que pudesse preencher esse vazio: nem amor, nem música, nem sucesso ou bens materiais, sim, nem mesmo a oração ou a missa. Tudo em mim é vazio. Não sinto nada.

Quando permito esse sentimento, o vazio que parece ser tão opressivo subitamente pode se transformar num vazio que me abre para o mistério de Deus. No vazio nada trago nas mãos. Assim, no vazio, posso abrir-me ao Deus inconcebível. O vazio me mostra que nada terreno é capaz de preencher esse vão em meu interior. Só Deus. Mas não o meu Deus pessoal, Ele não preenche meu vazio com bons sentimentos. Pelo contrário, no vazio liberto-me justamente de todas as ideias que criei de Deus e de mim mesmo e me entrego ao Deus, para além do vazio, ao Deus sobre o qual nada mais posso dizer, mas apenas calar. O vazio que mal posso suportar, portanto, se transforma num vazio que me conduz às dimensões mais profundas do ser, que me leva ao essencial, à minha natureza para além de cada imagem e ao Deus que excede qualquer ideia.

Todavia, muitas pessoas lidam com seu vazio de maneira diferente. Elas preenchem seu vazio com muitas atividades. Alguma coisa sempre tem de estar acontecendo, eu preciso estar sempre ocupado para não sentir o vazio interior. Entretanto, essa fuga do próprio vazio, em algum momento, acaba levando ao estresse. A pessoa precisa estar constantemente fazendo alguma coisa, envolvida com novas atividades, a todo instante, para tapar o vazio interior. Blaise Pascal [filósofo, físico e matemático francês que viveu de 1623 a 1662] enxergava isso com clareza:

«Nada é tão insuportável ao homem como estar em pleno repouso, sem paixão, sem ocupação, sem diversão, sem aplicação. Ele sente, então, o seu nada, o seu abandono, a sua insuficiência, a sua dependência, a sua impotência, o seu vazio. Sem moderação sairão do fundo da sua alma: o cimento, a melancolia, a tristeza, a aflição, a raiva e o desespero».
ANSELM GRÜN

Mas o vazio não se deixa abafar. Quando estou sozinho, deitado na cama, ele reaparece. Ou então, quando viajo sozinho de trem, ele ressurge. O sentimento de vazio também tem um sentido. Devo me familiarizar com meu sentimento de vazio e perguntar-lhe o que está querendo me dizer. Ele então me conduzirá ao essencial de minha vida. Bastante coisa me parecerá vazia quando atingir a verdade de minha vida através do meu vazio; ele me ensina a descobrir o verdadeiro gosto pela vida e a ser diligente em meu viver.

E o vazio me conduz ao inconcebível mistério de Deus, que por mim não se deixa compreender, mas quer reinar em mim.

Fonte: GRÜN, Anselm. Pequena Escola das Emoções: como os sentimentos nos orientam e o que anima nossa vida. Tradução de Bianca Wandt. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 2016, páginas 207-212.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A quem serve o Governo brasileiro???

1º Exemplo:
Em três meses, governo perdoa quase R$ 30 bilhões dos bancos

Igor Carvalho
Central Única dos Trabalhadores
07-08-2017

Em 90 dias, o governo de Michel Temer garantiu o perdão da dívida de aproximadamente R$ 30 bilhões do Bradesco, Itaú e Santander

“É uma grande preocupação nossa, esse discurso das reformas Tributária e da Previdência, de que os culpados pela dificuldade de orçamento e receita são os trabalhadores. Esse montante perdoado, ajudaria a pagar, inclusive, o alegado déficit da Previdência”, afirmou o presidente da Contraf-CUT, Roberto von der Osten.

SANTANDER e ITAÚ tiveram suas dívidas perdoadas no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). O primeiro teve seu caso analisado pelo órgão no dia 20 de julho e viu perdoada a dívida de R$ 338 milhões com o Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e CSLL. As dívidas eram referentes ao processo de aquisição do Sudameris, em 2003.

O ITAÚ acumulava R$ 25 bilhões de dívidas com a Receita Federal do processo de aquisição do Unibanco. Em audiência no dia 10 de abril, o Carf decidiu perdoar os impostos milionários da transação.

A operação para perdoar a dívida do BRADESCO foi ainda mais escusa. O governo, através da Ativos, empresa controlada pela Banco do Brasil, uma empresa pública, se propôs para comprar a dívida de R$ 4 bilhões em carteiras de crédito vencidas do banco privado.
ROBERTO VON DER OSTEN

Roberto von der Osten mostrou preocupação com a benevolência do governo com os banqueiros. “Com o perdão da dívida, o governo mostra que um setor da economia brasileira pode fazer o que quiser que não pagará pela conta”, afirmou o dirigente, que deve anunciar uma reação dos trabalhadores às medidas.

“Nós devemos lançar uma campanha contra o perdão de dívida de grandes devedores. Estamos reunidos e nesta semana ainda teremos uma resolução sobre como reagiremos à esse perdão de dívida”, encerrou Osten.

2º Exemplo:
Empresas de mineração retiram bilhões do Brasil sem pagar devida tributação

Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)
Brasília – DF
28-07-2017

O relatório “Subfaturação no Setor de Mineração no Brasil Evade US$ bilhões do Orçamento Público” foi produzido pela Rede Latino-Americana sobre Dívida, Desenvolvimento e Direitos (Latindadd) em conjunto com o Instituto de Justiça Fiscal do Brasil (IJF).

A Rede Latino-Americana sobre Dívida, Desenvolvimento e Direitos (Latindadd), em conjunto com o Instituto Justiça Fiscal do Brasil, elaborou estudo que analisa os fluxos financeiros ilícitos no setor de mineração no Brasil, encontrando evidências de como as empresas extrativas aplicam práticas de evasão fiscal e remetem os lucros para territórios com baixa ou nenhuma carga tributária.

Entre as principais conclusões, eles disseram: “Na verdade, os poucos estudos sobre o tema sobre o caso do Brasil indicam que a fuga de capitais e a faturação comercial são um grande problema para o país. Este achado é corroborado pelos resultados deste estudo, que encontrou grandes perdas com a fuga de capitais ainda que incidindo sobre a exportação de um único produto”.

“Estima-se que o subfaturamento nas exportações de minério de ferro produziram a fuga de US$ 39,1 bilhões (de dólares!) entre 2009 e 2015, uma perda média de mais de US$ 5,6 bilhões por ano. Ao valor subfaturado foi associada uma perda de receitas fiscais de US$ 13,3 bilhões para o mesmo período, o que representa uma perda média anual de US$ 1,9 bilhão.”
RODOLFO BEJARANO

Este estudo foi apresentado por Rodolfo Bejarano, coordenador da pesquisa na LATINDADD, ao participar na Mesa Redonda sobre Tributação Internacional, realizada no início de julho, em Cartagena, Colômbia, evento organizado pelo Centro Interamericano de Administrações Tributárias (CIAT).

A preparação do estudo foi patrocinado pela Transparência Coalizão Financeira (FTC) e o apoio da Tax Justice Network na América Latina e no Caribe. O estudo foi desenvolvido pelo Instituto Justiça Fiscal.

Tenha acesso a este estudo, clicando aqui

3º Exemplo:
Plano B para Reforma da Previdência pode afetar trabalhadores mais pobres

Leonardo Sakamoto

O governo federal não precisa do apoio de 308 votos de deputados federais para aprovar a parte da Reforma da Previdência que causará o maior impacto entre os trabalhadores mais vulneráveis. Enquanto a imposição de uma idade mínima de 65 anos, para homens, e 62, para mulheres, depende de emenda ao artigo 201 da Constituição Federal, outras mudanças propostas podem ser desmembradas e passar como leis complementares ou ordinárias, apresentadas na forma de medidas provisórias pelo Palácio do Planalto.

Caso o clima político continue instável (a Procuradoria-Geral da República ainda está analisando o encaminhamento de uma nova denúncia contra Michel Temer), e a garantia de apoio de 308 deputados federais se torne tarefa literalmente custosa, o governo já sinalizou o desmembramento da proposta, buscando aprovar mudanças que demandem maioria absoluta ou simples.

De acordo com Diego Cherulli, vice-presidente da Comissão de Seguridade Social da Ordem dos Advogados do Brasil-DF e diretor de assuntos parlamentares do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário, dentre essas mudanças está o aumento da carência de 15 para 25 anos.

“A classe média não tem problema de jubilação do benefício. O pobre tem”, afirma Cherulli, referindo-se à necessidade de alcançar esse período de contribuição para poder pedir a aposentadoria. Para os mais pobres, a idade mínima já existe no Brasil uma vez que eles não conseguem se aposentar por tempo de contribuição (35 anos, homens, 30 anos, mulheres). “Esse pessoal vai acabar perdendo o que contribuiu e tendo que procurar o Benefício de Prestação Continuada [sigla: BPC, o salário mínimo concedido a trabalhadores idosos pobres], que pode ser menor que a pensão que ele teria direito a receber.”

Hoje, é necessário um mínimo de 180 contribuições mensais (15 anos) para poder se aposentar por idade (65, homens, 60, mulheres). Com a reforma, o número salta para uma carência de 300 contribuições (25 anos). Como explicado acima, isso não afeta diretamente os extratos superiores da classe média, que já contribuem por mais tempo ao sistema, mas a faixa de trabalhadores mais pobres que, contudo, não entram nas categorias de pobreza extrema, beneficiadas diretamente pelo BPC.

Esse plano de contingência, que já estaria sendo discutido de acordo com fontes no governo ouvidas por este blog, é criticado por especialistas. “Esse plano B é viável. Mas atinge uma gama da população que deveria ser protegida e não garante a segurança que o governo espera”, afirma Ivandick Rodrigues, professor de Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie e ex-presidente da Comissão de Previdência Complementar do Instituto dos Advogados Previdenciários. “Porque da mesma forma que é fácil mudar uma lei ordinária ou complementar hoje, também será fácil voltar atrás no futuro, o que não garante a segurança jurídica para relações previdenciárias.”

“A depender da estratégia e da proposta do governo, os projetos teriam que ser apresentados por lei complementar à Constituição, o que demanda maioria absoluta [ou seja, 257 votos na Câmara], ou lei ordinária, que demanda maioria simples [ou seja, maioria dos presentes em sessões deliberativas com, pelo menos, 257 parlamentares]”, explica Marcus Barberino, juiz do Trabalho da 15a Região e com atuação em casos envolvendo grandes empresas, terceirização ilegal e fraudes previdenciárias.

Ao mesmo tempo, as regras para aposentadoria de trabalhadores rurais da economia familiar, extrativistas, pescadores, coletoras de babaçu, entre outros, também podem sofrer mudanças através de projetos de lei e não por propostas de emenda à Constituição. Nesse sentido está a mudança de 15 anos de comprovação de trabalho (com arrecadação de imposto previdenciário no momento da venda da produção) para 15 anos de comprovação de contribuição, com pagamento mensal de carnê. O que, dada as condições de vulnerabilidade social desse grupo, inviabilizará sua aposentadoria – conquistada cinco anos antes do restante dos trabalhadores urbanos e rurais, segundo a Constituição.

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a maioria dos trabalhadores (52%) já se aposentaram por idade até 2014. Outros 18% por invalidez e 1% por acidentes. A modalidade de aposentadoria por tempo de contribuição (com um mínimo de 35 ou 30 anos) representa 29%. E dados da própria Previdência Social apontam que 79% dos trabalhadores que se aposentaram por idade apenas no ano de 2015 contribuíram menos de 25 anos. Sendo que 13,9% (entre 21 e 24 anos), 31% (entre 16 e 20 anos) e 34% (15 anos).

O mesmo Dieese afirma que, em 2014, a média de contribuição foi de 9,1 meses a cada ano. Porque a rotatividade do mercado de trabalho e a informalidade são grandes. Ou seja, para cumprir 15 anos de contribuição, considerando essa média de nove meses de contribuição a cada 12, uma pessoa precisa, na prática, de 19,8 anos para se aposentar. Subindo para 25 anos de mínimo, o tempo de contribuição efetivo terá que ser de 33 anos.

O problema é que, nas regiões mais pobres do país, a informalidade ultrapassa os 70%.
Isso não afeta tanto os servidores públicos, com estabilidade. O aumento na idade mínima de 65 e 62 anos para a maioria dos servidores que ingressaram na carreira até 2003 faz parte da proposta do relator da reforma na Câmara, Arthur Maia (PPS-BA).

Fontes: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 8 de agosto de 2017 –Internet: clique aqui; aqui; blog do Sakamoto – Segunda-feira, 7 de agosto de 2017 – 11h39 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.