«Daqui a alguns anos estarás mais arrependido pelas coisas que não fizeste do que pelas que fizeste. Solta as amarras! Afasta-se do porto seguro! Agarra o vento em suas velas! Explora! Sonha! Descubra!»

(Mark Twain [1835-1910] – escritor e humorista norte-americano)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 16 de dezembro de 2017

3º Domingo do Advento – Ano B – Homilia

Evangelho: João 1,6-8.19-28

6 Surgiu um homem enviado por Deus; Seu nome era João.
7 Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele.
8 Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz:
19 Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: «Quem és tu?»
20 João confessou e não negou. Confessou: «Eu não sou o Messias».
21 Eles perguntaram: «Quem és, então? És tu Elias?». João respondeu: «Não sou». Eles perguntaram: «És o Profeta?». Ele respondeu: «Não».
22 Perguntaram então: «Quem és, afinal? Temos que levar uma resposta para aqueles que nos enviaram. O que dizes de ti mesmo?»
23 João declarou: «Eu sou a voz que grita no deserto: “Aplainai o caminho do Senhor”.» - conforme disse o profeta Isaías.
24 Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus
25 e perguntaram: «Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?».
26 João respondeu: «Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis,
27 e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias.»
28 Isso aconteceu em Betânia além do Jordão, onde João estava batizando.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

EM MEIO DO DESERTO

Os grandes movimentos religiosos nasceram, quase sempre, no deserto. São os homens e as mulheres do silêncio e da solidão os que, ao ver a luz, podem converter-se em mestres e guias da humanidade. No deserto não é possível o supérfluo. No silêncio somente se escutam as perguntas essenciais. No deserto somente sobrevive quem se alimenta do interior.

No Quarto Evangelho, o Batista fica reduzido ao essencial. Não é o Messias, nem Elias retornado à vida, não é o profeta. É «uma voz que grita no deserto». Não tem poder político, não possui título religioso algum. Não fala a partir do Templo ou da sinagoga. Sua voz não nasce da estratégia política nem dos interesses religiosos. Vem do que escuta o ser humano quando mergulha no essencial.

O pressentimento do Batista pode ser resumido assim: «Há algo maior, mais digno e portador de esperança do que aquilo que estamos vivendo. Nossa vida deve mudar radicalmente». Não basta frequentar a sinagoga aos sábados, de nada serve ler rotineiramente os textos sagrados, é inútil oferecer regularmente os sacrifícios prescritos pela Lei. Não dá vida qualquer religião. Há que se abrir ao Mistério do Deus vivo.

Na sociedade da abundância e do progresso, está se tornando cada vez mais difícil escutar uma voz que venha do deserto. O que se ouve é a publicidade do supérfluo, a divulgação do trivial, o palavrório de políticos prisioneiros de sua estratégia e até discursos religiosos interesseiros.

Alguém poderia pensar que não é mais possível conhecer testemunhas que nos falem a partir do silêncio e a verdade de Deus. Não é assim. Em meio ao deserto da vida moderna, podemos encontrar pessoas que irradiam sabedoria e dignidade, pois não vivem do supérfluo. Gente simples, excepcionalmente humana. Não pronunciam muitas palavras. É sua vida que fala.

Essas pessoas nos convidam, assim como o Batista, a deixarmo-nos «batizar», a submergirmos em uma vida diferente, receber um novo nome, «renascer» para não nos sentirmos produto desta sociedade nem filhos do ambiente, mas filhos queridos de Deus.

FALTAM TESTEMUNHAS DE DEUS

A figura de João Batista, “testemunha da luz”, mais uma vez nos lembra que todo crente, se o é de verdade, é chamado a dar testemunho de sua fé.

“Em nossa Igreja sobram papéis e faltam testemunhas”. Talvez, com estas expressivas palavras, se apontava para um dos mais cruciais problemas do cristianismo atual.

Durante muitos anos, continuou funcionando entre nós os mecanismos que, tradicionalmente, serviam para «transmitir» a fé. Os pais falavam aos filhos, os professores de religião a seus alunos, os catequistas aos catequizandos, os sacerdotes aos leigos.

Não faltaram palavras. Porém, talvez, faltou testemunho, comunicação de experiência, propagação de algo vivido de maneira profunda e íntima.

Durante estes anos, muitos se preocuparam da possível quebra da ortodoxia e do depósito da fé. E precisamos, sem dúvida, cuidar com fidelidade da mensagem do Senhor. Porém, nosso maior problema não é, provavelmente, o depósito da fé, mas sim a vivência dessa fé depositada em nós!

Outros se preocuparam mais em denunciar todo tipo de opressões e injustiças. Por um momento, parecia que por todos os lados surgiam novos “profetas”. E quanta necessidade continuamos a ter de homens de fogo que proclamem a justiça de Deus entre os homens. Porém, com frequência, junto às palavras, faltaram testemunhas cuja vida arrastasse as pessoas.

Talvez, a primeira coisa que nos falta para que surjam testemunhas vivas é a
“experiência de Deus”.

Karl Rahner [notável teólogo católico alemão do século XX] solicitava, há alguns anos, que “temos de reconhecer, de uma vez por todas, a pobreza da espiritualidade” na Igreja atual.

Sobram-nos palavras e nos falta a Palavra. Transbordamos de ativismo e não percebemos a ação do Espírito entre nós.

Falamos e escrevemos de Deus, porém não sabemos experimentar seu poder libertador e sua graça viva em nós.

Poucas vezes vivemos a acolhida de Deus desde o profundo de nós mesmos e, portanto, raramente chegamos com nossa palavra cristã ao fundo das demais pessoas.

Crentes mudos que não confessam sua fé. Testemunhas cansadas, desgastadas pela rotina ou queimadas pela dureza dos tempos atuais.

Comunidades que se reúnem, cantam e saem das igrejas “sem conhecer àquele que está no meio deles”.

Somente a acolhida interior ao Espírito pode reanimar nossas vidas e produzir entre nós “testemunhas do Deus vivo”.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

CELULARES VICIAM E ADOECEM!

Viciados em telas

André Lopes

Cientistas atestam que a dependência de smartphones afeta a química do cérebro, levando ao desenvolvimento de transtornos como déficit de atenção
DETOX:
Centro de tratamento na Califórnia (Estados Unidos): é preciso desconectar-se na entrada da clínica

Se você não estiver lendo esta reportagem no celular, uma pergunta: onde está ele agora? A questão fez com que o procurasse? Se respondeu “sim”, é provável que, nos próximos minutos, você não consiga se concentrar neste texto. Quando o aparelho fica fora de alcance, um sentimento de ansiedade costuma tomar conta do usuário, bastando porém tê-lo em mãos para o alívio ressurgir. Se isso é comum no seu dia a dia, deve-se acender o sinal amarelo. De acordo com um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Seul, na Coreia do Sul, divulgado no último dia 30 de novembro, a dependência de smartphones já pode ser, sim, chamada de vício. Isso porque seu uso excessivo produz alterações químicas no cérebro, com reações e síndrome de abstinência em moldes semelhantes ao que acontece com dependentes de drogas.

No trabalho sul-coreano, os cientistas usaram um tipo particular de ressonância magnética que analisa a composição química do cérebro para observar hábitos de dezenove adolescentes clinicamente diagnosticados como viciados em celular. Depois, compararam os resultados com os de grupos de jovens que usam o dispositivo mas não eram tidos como dependentes. No estudo também se levou em conta quanto o convívio com a tecnologia afetava o contato com familiares, a produtividade e a forma de lidar com emoções. Num resultado previsível, os adictos apresentaram maiores níveis de depressão, ansiedade, insônia e impulsividade. Mas novidade maior, mesmo, foi a descoberta de como a NOMOFOBIA — eis o termo que descreve a dependência de smartphones — afeta a química cerebral.

Os jovens dependentes apresentaram oscilações na presença dos ácidos gama-aminobutírico, glutamato e glutamina, todos ligados a dois neurotransmissores responsáveis pelo funcionamento da atividade cerebral. Quanto maior o nível de alteração deles, mais grave era o quadro de dependência. Pode-se ter uma sólida dimensão do problema quando se considera que, em países desenvolvidos, 92% dos adolescentes acessam a internet todos os dias, em geral por meio de telefones móveis. Um típico usuário costuma tocar mais de 2600 vezes na tela do celular por dia.
REMBRANDT???
Estudantes parecem preferir a tecnologia à clássica pintura

Esse dispositivo pode dominar a atenção de jovens e crianças mesmo diante das maiores maravilhas do mundo real — a exemplo de obras-primas como A Ronda Noturna, que o holandês Rembrandt (1606-1669) pintou em homenagem aos civis que fiscalizavam as ruas de Amsterdã. Entre 2015 e 2016, viralizou na internet um meme no qual um grupo de estudantes virou as costas para o quadro clássico e ficou fascinado com outra tela — a do próprio celular. Depois que a imagem se espalhou, descobriu-se que o grupo, na verdade, realizava pesquisas ligadas a um trabalho escolar. Mas a cena acabou ficando como o emblema de uma realidade: a capacidade quase infinita dos smartphones de atrair a atenção juvenil mesmo quando os adolescentes estão diante de outras maravilhas do engenho humano.

O uso constante do aparelho prejudica especialmente os jovens, membros de uma geração que nasceu conectada, cuja mente e hábitos ainda estão em formação — podendo influir nos processos de aprendizagem. Adolescentes que usam o aparelho em excesso apresentam tendências maiores a desenvolver:
* déficit de atenção,
* fobia social,
* depressão e
* compulsão para acessar redes sociais.

No ano passado, pesquisadores da Universidade de Kaohsiung, em Taiwan, publicaram um trabalho no qual relacionaram a dependência com transtornos mentais. Pela análise do comportamento de 2300 adolescentes, concluiu-se que 10% deles possuíam algum tipo de alteração cognitiva ligada à nomofobia [= vício em smartphones].
ESTÁ NA MENTE:
Jovem chinês, considerado viciado no dispositivo, tem o cérebro analisado em uma clínica de Pequim

Estudos como esse procuram confirmar uma suspeita deste século: será que a ascensão das redes sociais e dos smartphones tem relação direta com o aumento dos casos de depressão e ansiedade entre jovens? Ao longo da última década, o número de crianças e adolescentes americanos internados em hospitais por suspeita de quadros depressivos mais do que dobrou. Em paralelo, a taxa de suicídio entre os indivíduos da mesma geração também cresceu com igual intensidade. Suspeita-se que o isolamento proporcionado pelas novas tecnologias tenha influência no aumento dos índices. Nos Estados Unidos, o tempo médio que os jovens dedicam diariamente ao celular passou de uma hora e meia, em 2012, para duas horas e meia, no ano passado. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, órgão ligado à ONU, considera que a Inglaterra apresenta o cenário mais grave: um em cada três adolescentes já pode ser considerado viciado por ficar on-line mais de seis horas diariamente.

Como saber se um filho ultrapassou os limites? Uma das diferenças entre o uso saudável e a dependência está no nível de inquietação quando o dispositivo não está por perto. “Para os viciados, as manifestações emocionais decorrentes de não poder acessar o aparelho, como quando acaba a bateria, são semelhantes às apresentadas durante casos de abstinência de drogas como álcool. O indivíduo costuma exibir alterações como sudorese, ansiedade, irritabilidade e comportamento agressivo”, explica a psicóloga Sylvia van Enck, pesquisadora do Grupo de Dependências Tecnológicas da Universidade de São Paulo.
EXTREMO:
O inglês Danny Bowman:
a selfie e a tentativa de suicídio

Um caso extremo, e hoje referência para estudos, ocorreu em 2012. O inglês Danny Bowman, então com 16 anos, tentou se matar, segundo ele próprio, por não ter conseguido tirar uma “selfie perfeita”. O rapaz dedicava, à época, dez horas de seu dia em busca das melhores fotos de seu rosto. Durante esse período, ele abandonou a escola, perdeu peso e desfez amizades. A cura só veio com a abstinência forçada: Bowman passou por um duro tratamento que consistia em deixá-lo longe do smartphone.

No Brasil, existem clínicas, como o Instituto Delete, no Rio de Janeiro, que promovem esse tipo de tratamento. A iniciativa segue os passos de países como Estados Unidos, Inglaterra, Japão e China, as principais referências nesse campo de trabalho e onde a nomofobia é tratada como um problema de saúde pública. Na Califórnia, as clínicas especializadas no tratamento contra a nomofobia são cada vez mais populares. No Japão, o Ministério da Educação lançou um projeto nas escolas para oferecer psicoterapia a jovens que se sentem dependentes do celular.

Um aviso, contudo, deve ser feito para todas as idades: é difícil ter noção, sozinho, de quando se está dependente dessas novas tecnologias. Os especialistas indicam uma forma de acender o alerta: note se o uso demasiado do smartphone está interferindo em sua produtividade no trabalho ou no tempo dedicado à família e aos amigos. Se isso estiver acontecendo, é um sinal de que, talvez, as coisas não estejam indo de modo satisfatório. Como em tudo na vida, também para o celular vale o conselho de ouro: use com moderação.
LIBERADO:
Em São Paulo, uso autorizado de celular em sala de aula - funciona?

O celular é posto à prova

Em 2016, a Universidade de Singapura realizou um estudo para avaliar se a inclusão de aparelhos tecnológicos na sala de aula ajudaria ou prejudicaria o desempenho dos estudantes. Os pesquisadores monitoraram o comportamento de cerca de 100 alunos, com idade entre 18 e 29 anos, quando estavam com e sem o smartphone dentro da classe. Aqueles que tiveram o celular removido apresentaram, em testes acadêmicos, notas 17% menores do que os que foram autorizados a portar o dispositivo.

A conclusão dos especialistas: os jovens, hoje, estão tão conectados que forçar um hábito diferente, como ficar off-line, deixa-os demasiadamente ansiosos, a ponto de afetar sua capacidade cognitiva. Como Singapura costuma figurar entre os líderes mundiais em educação, o que só aumenta a credibilidade do trabalho realizado no ano passado, talvez seja realmente positiva a decisão do Estado de São Paulo de liberar o uso de celulares nas salas das escolas públicas.

Os aparelhos estavam proibidos nos colégios paulistas desde 2007. Segundo o governo, decidiu-se reverter a ordem porque a aprendizagem “deve acompanhar o uso de novas tecnologias”. A medida adapta o ensino ao século XXI, tempo em que 95% dos adolescentes levam seus smartphones para a escola e 92% admitem trocar mensagens mesmo durante as aulas.

Apenas dar aval às “novas tecnologias”, no entanto, pode ser uma má escolha. Uma pesquisa da London School of Economics, realizada com 130 000 estudantes, descobriu que o uso de celular sem monitoramento faz com que a nota dos jovens que recorrem ao gadget seja até 14% mais baixa. Outro estudo, desta vez da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, mostrou que a solução para modernizar o ensino, sem fazer com que professores disputem a atenção com os smartphones, pode ser o meio-termo: permiti-los, mas com fiscalização. Uma sugestão é a criação de aplicativos que possibilitem o acesso só para estudar o conteúdo apresentado em classe, e nada mais. Assim, os jovens poderão usar o celular, tal como desejam, mas com objetivo apenas pedagógico.

Fonte: VEJA – Geral / Tecnologia – edição 2560 – Ano 50 – Número 50 – 13 de dezembro de 2017 – Páginas 82 a 85 – Internet: clique aqui.

Houve, sim, diminuição da desigualdade!

Faces da desigualdade no Brasil.
Um olhar sobre os que ficam para trás

Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais
Brasil

Um estudo inédito comprova, a partir de dados concretos
da realidade brasileira, que houve diminuição na
desigualdade social aqui em nosso país

A publicação Faces da Desigualdade no Brasil constitui uma das contribuições ao Programa Agenda Igualdade desenvolvido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, Flacso Sede Brasil, e o Conselho Latino-americano de Ciências Sociais, Clacso, e contou com apoio da Fundação Ford.

As análises abordadas nesta publicação buscam reter parte dos avanços brasileiros na redução das desigualdades durante o período 2002-2015, além da perspectiva de renda. É um olhar para a parte meio cheia do copo.

Os dados sobre o Brasil refletem transformações relevantes ocorridas e partem do reconhecimento que ainda somos um dos países mais desiguais do mundo. Entretanto, se busca refletir sobre as conquistas democráticas alcançadas nos últimos anos, tentando compreender lacunas, limites e desafios que os governos progressistas enfrentaram para avançar na promoção de políticas de redução da injustiça social e das desigualdades estruturais existentes no País e na região.

Dados técnicos da publicação

• Organização, análise dos dados e textos: Tereza Campello
• Coordenação editorial e textos: Monica Rodrigues
• Produção dos dados: Marconi Fernandes de Sousa Allan e Nuno Alves de Sousa
• Projeto gráfico e diagramação: Gabriel Rizzo Hoewell
• Apresentação: Tereza Campello e Pablo Gentili

Clique aqui para baixar a íntegra desse importante estudo

Tereza Campello apresenta estudo “Faces da Desigualdade no Brasil”
em entrevista concedida ao jornalista Luis Nassif,
clique sobre a imagem abaixo para assistir ao vídeo:


Fonte: FLACSO Brasil – Livro – 2017 – Internet: clique aqui.

domingo, 3 de dezembro de 2017

1º Domingo do Advento – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 13,33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
33 «Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento.
34 É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando.
35 Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer.
36 Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo.
37 O que vos digo, digo a todos: Vigiai!'

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

DESEJO DE ALGO NOVO

Há um grito que se repete na mensagem evangélica e se condensa em uma só palavra: «Vigiai!». É uma chamada a viver de maneira lúcida, sem deixar-nos arrastar pela insensatez que parece invadir quase tudo. Um convite a manter desperta a nossa resistência e rebeldia, a não agir como todo mundo, a sermos diferentes, a não nos identificarmos com a mediocridade. Isso é possível?

A primeira coisa, talvez, seja aprender a olhar a realidade com olhos novos. As coisas não são somente como aparecem nos meios de comunicação da sociedade. No coração das pessoas há mais bondade e ternura que aquilo que captamos à primeira vista. Temos de educar o nosso olhar, torná-lo mais positivo e benévolo. Tudo muda quando olhamos as pessoas com mais simpatia, tratando de compreender suas limitações e suas capacidades.

É importante, além disso, não deixar que se apague em nós o gosto pela vida e o desejo daquilo que é bom. Aprender a viver com coração e amar as pessoas buscando o seu bem. Não ceder à indiferença. Viver com paixão a pequena aventura de cada dia. Não nos desinteressarmos pelos problemas das pessoas: sofrer com os que sofrem e alegrar-nos com aqueles que se alegram.

Por outro lado, pode ser decisivo dar sua verdadeira importância a esses pequenos gestos que, aparentemente, não servem para nada, porém sustentam a vida das pessoas. Eu não posso mudar o mundo, porém posso fazer que junto de mim a vida seja mais amável e leve, que as pessoas «respirem» e se sintam menos sozinhas e mais acompanhadas.

É tão difícil, então, abrir-se ao mistério último da vida que as pessoas de fé chamam «Deus»? Não estou pensando em uma adesão de caráter doutrinal a um conjunto de verdades religiosas, mas nessa busca serena da verdade última e nesse desejo confiante de amor pleno que, de alguma maneira, apontam para Deus. À medida que os anos passam, tenho a impressão de que as pessoas se tornam mais profundamente crentes e, ao mesmo tempo, têm cada vez menos «crenças».

DEUS INTERESSA?

Não é fácil celebrar nos dias de hoje o Advento. Como desejar, pedir ou esperar a vinda de Deus em meio a uma sociedade onde, ao que parece, Deus já não mais interessa? Mais que falar de um Deus que vem (adveniens), não deveríamos refletir sobre um Deus que se distancia, se oculta e se faz cada vez mais estranho?

Em muitos ambientes, Deus foi se reduzindo a uma recordação do passado. Já não se fala mais dele nos lares. Em muitas consciências, Deus não é senão uma sombra pouco agradável. Inclusive, não poucos daqueles que se dizem crentes, apenas o invocam. A atitude mais generalizada é uma indiferença cada vez mais fria e que constitui, segundo o teólogo e pensador Joseph Moingt [padre jesuíta francês, 102 anos], «a experiência cultural mais cruel da morte de Deus».

Ao que parece, Deus hoje não atrai nem preocupa. Não suscita inquietação nem alegria. Simplesmente, deixa indiferentes as pessoas. A vida humana pode transcorrer tranquilamente, sem que ninguém sinta falta dele! Porém, é verdade que o homem não necessita de Deus?

Desde o século dezoito, foi-se difundindo a ideia de que a ciência e a técnica iriam livrar o homem de tudo aquilo que a religião não o tinha conseguido libertar: a fome, as guerras, a pobreza ou a tirania. A fé em Deus parecia condenada a desaparecer como algo próprio de uma fase de ignorância e obscurantismo da história da humanidade.

Hoje, quando já ultrapassamos o ano dois mil, um fato parece inquestionável: os grandes problemas, longe de desaparecer, cresceram ameaçadoramente. A culpa não é da ciência nem da técnica, que tornaram possíveis êxitos admiráveis. O que está mal é o homem que utiliza esse poder científico e tecnológico. E o certo é que nem a ciência nem a técnica tornam o homem nem mais sábio nem melhor.

Chegou o momento de fazer-se uma pergunta simples, mas radical: O que pode tornar mais humanos os homens e as mulheres de hoje? O que pode dar sentido, orientação ética e esperança a seus esforços?

Certamente, Deus não é necessário para fundamentar a ciência nem para desenvolver a técnica. Deus não é a resposta a nossas perguntas científicas nem a solução mágica para nossos problemas.

Porém, Deus, crido e acolhido como Criador e Pai, pode ser o melhor estímulo para viver com sentido, o melhor impulso para atuar de maneira responsável, o horizonte mais válido para viver com esperança.

Porém, não podemos ser ingênuos. Vinte séculos de cristianismo põem diante de nossos olhos um fato que não podemos esconder. Tampouco, a religião faz automaticamente os cristãos mais humanos que as demais pessoas. Somente um Deus acolhido de forma responsável no fundo do coração pode transformar o ser humano. Por isso, os cristãos celebram o Advento.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Quem ensina o racismo às crianças?

Nós mesmos, ué

RITA LISAUSKAS*

Com a gente, claro, óbvio, com as mesmas pessoas que
as ensinam a comer e a andar
Vídeo com teste aplicado no México sobre racismo entre crianças
Tradução: "Bem, eu sou um pouco como este"

No mês das mães deste ano, eu participei de um evento sobre maternidade e havia, no palco, várias mulheres brancas, formadoras de opinião (sabe-se Deus o que isso significa), falando sobre os desafios da maternidade moderna ou coisa que o valha. Eu, na plateia, estava sentada a duas ou três cadeiras de uma mãe que era negra. Lá pelas tantas, quando abriram o debate para perguntas, essa mulher contou que sua filha de pouco mais de 4 anos tinha acabado de ser matriculada na escola e estava sofrendo o pão que o diabo amassou. Nos primeiros anos em casa, ao lado da família, sempre ouviu o quanto era especial, o quanto seus cabelos crespos eram lindos mas, na escola, ouvia o oposto de crianças da mesma idade. Os coleguinhas de classe diziam que ela era feia. Que seu cabelo era horrível. O que adianta proteger e fortalecer a autoestima da minha filha se o mundo lá fora é assim, tão cruel com as meninas negras?, perguntou às ‘formadoras de opinião’, surpresas por terem sido retiradas a fórceps daquele mundo lavanda da maternidade perfeitinha, onde estavam prontas para falar sobre tudo que não incluísse esse assunto tão urgente.

A primeira pegou o microfone e disse àquela mãe coisas no estilo o-que-não-mata-fortalece, sua-filha-vai-ser-uma-guerreira-como-você  enquanto as duas outras, em seu socorro, soltavam algumas frases soltas no mesmo estilo ‘não-importa-o-que-os-outros-pensam-o-que-importa-o-que-você-carrega-no-coração’, para a incredulidade da mãe e vergonha alheia de muitas, que não sabiam onde enfiar a cara e ficavam procurando o botão eject na cadeira onde estavam sentadas.

Minutos depois, pedi a palavra e, tentando me desculpar, joguei uma pergunta à audiência: Não seríamos nós os responsáveis pelo inferno que vivia essa criança? Nós, os pais e mães das crianças brancas com as quais ela convive? Não teria sido com a gente que elas teriam aprendido a dizer tamanhas aberrações às crianças negras? Ou será que meninos e meninas já saem da maternidade classificando “cabelo bom”, “cabelo ruim”, “nariz bom”, “nariz ruim”? Não precisamos prestar atenção, dobrar o cuidado, perceber que fomos nós que ensinamos às crianças a tratar mal aquela menina na escola?, perguntei.

Silêncio.

Todos logo fizeram aquela cara de ‘não, eu não faço isso’, e a prosa mudou de rumo, né, vamos falar outra coisa.

Corta para semana passada.

Thaís Araújo, a atriz, disse mais ou menos o mesmo que aquela mãe no evento de dia das mães, só que com outras palavras e em um TEDx São Paulo**. Ela comentou que a cor do filho “é aquela que faz com que as pessoas atravessem a rua”. Também não foi compreendida, mas foi logo classificada de “mimizenta” e vitimista pelas redes sociais, sempre elas. Os adultos brancos, aqueles que dizem sempre “não, nada a ver esse papo de racismo”  logo se uniram para desqualificar a fala da Thaís, fazendo memes para ridicularizar sua afirmação.  Alguma reflexão sobre o assunto ou mea-culpa? Não, nenhuma, não somos racistas, ora, ora, somos uma nação miscigenada, blá, blá, blá, whiskas sachê.

Corta para alguns dias atrás.

Uma mulher que se diz socialite (o que é socialite, afinal?) grava um vídeo praticando o crime de racismo. Repete aquelas coisas todas que a menina do início do post ouve todos os dias na escola, mas para outra menina negra: Titi, filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank. No vídeo, a tal mulher chama a criança de “macaca”. Disse que a guria é “horrorosa”, porque tem “cabelo de pico de palha”. Termina dizendo que é “sua opinião” e que não tem medo da polícia e nem da Justiça. Não tem que ter medo mesmo, estamos no País da impunidade.

Mas agora me diz uma coisa: onde você acha que as crianças aprendem a ser racistas?

Com a gente, claro, óbvio, com as mesmas pessoas que as ensinam a comer e a andar. Com as mesmas pessoas que, ao se deparar com um negro bem-vestido no elevador, “estranham” e verbalizam esse “estranhamento” (???) na frente dos filhos. Com as mesmas pessoas que atravessam a rua ao ver um negro bem-vestido ou mal-vestido, vai quê, né, tem cara de ladrão! Com os telejornais que sempre tratam o negro como “traficante” e o traficante branco como “adolescente classe média da zona sul”. E com as novelas, que sempre colocam os negros como serviçais.

Sabe de quem é a culpa? Nossa. De mais ninguém. Duvida? Assista a esse experimento sobre racismo feito com crianças mexicanas e comece a pensar sobre as respostas. Dois bonecos, um branco e outro negro, são colocados em frente a crianças de diferente raças. Uma entrevistadora questiona as crianças, uma a uma: “Qual boneco é bonito? E qual é feio?” Elas elegeram os bonecos negros como “feios”, “perigosos” e “não confiáveis”. Quando eram perguntadas o por quê de tal escolha, não conseguiam dizer. Alguém passou esse conceito para as crianças. Adivinham quem? Sim. Nós.
 
Rita Lisauskas tendo seu mais recente livro em mãos: "Mãe Sem Manual"
Clique sobre a imagem para assistir ao vídeo:


* RITA LISAUSKAS é jornalista e escritora. Autora do “Mãe Sem Manual”, Editora Belas Letras, é também colunista da Rádio Eldorado. É mãe do Samuel e madrasta do Raphael e do Lucca.
** O TEDxSãoPaulo tem como objetivo disseminar ideias e compartilhar experiências inspiradoras para gerar discussões profundas e reflexões entre os participantes. O TEDxSãoPaulo tem licença de TED, uma organização sem fins lucrativos, que tem a missão de promover ideias. Hoje, as palestras TED, ou TEDTalks, são referência mundial e vistas por milhões de pessoas no mundo todo.

Fonte: ESTADÃO.COM.BR – blog Rita Lisauskas – Terça-feira, 28 de novembro de 2017 – 08h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

Cidades que excluem

O desmaio do menino de Brasília expôs os
equívocos da política urbana

Nabil Bonduke*

O caso de Gabriel, que desmaiou de fome em uma escola de Brasília, revelou para o grande público, com crueldade, o que já sabíamos: os governos, pressionados pelo setor imobiliário, repetem os equívocos da política urbana
Após desmaiar de fome, o menino Gabriel, de 8 anos, volta com o pai à escola no Cruzeiro, em Brasília. Garoto de 8 anos foi para a escola em Brasília,
distante a 30 km de casa, sem comer. E esmoreceu.

Foto: ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Em 1978, a socióloga Lícia do Prado Valladares publicou um clássico sobre o programa de remoção de favelas da zona sul do Rio de Janeiro, nos anos 1960, que deslocou milhares de famílias para conjuntos habitacionais, financiados pelo BNH, localizados a 30 km do local onde moravam.

"Passa-se Uma Casa" mostrou que famílias removidas vendiam as novas casas e retornavam para favelas, onde tinham expedientes de sobrevivência. Carlos Nelson, arquiteto defensor da urbanização de favelas, disse: "A favela não é um problema, é uma solução".
Direito a habitação, aprendeu-se, não podia se limitar a oferecer uma moradia, um teto. Tinha que garantir acesso à cidade, aos serviços públicos e a condições de obter trabalho e renda. Aprendeu-se?

O caso de Gabriel, que desmaiou de fome em uma escola de Brasília, revelou para o grande público, com crueldade, o que já sabíamos: os governos, pressionados pelo setor imobiliário, repetem os equívocos da política urbana.

Removida de uma ocupação situada no Noroeste (Plano Piloto), a família do menino saiu de um barraco de madeira de um cômodo, que só tinha energia elétrica à noite, para um apartamento de 46 m², com dois quartos, subsidiado pelo Minha Casa, Minha Vida.

Maravilha! Para o Paranoá Parque, situado a 21 km da Esplanada dos Ministérios, foram deslocadas 6.000 famílias, muitas provenientes de ocupações retiradas de áreas nobres.

A falta de equipamentos sociais, inexistentes no local e insuficientes em Paranoá, cidade satélite de Brasília, é apenas uma face do problema, que com o tempo poderá ser superada.
A questão estrutural é a segregação territorial, que gera bairros-dormitórios afastados da cidade.

"O governo deu apartamentos do Paranoá, mas tirou nossas oportunidades", afirmou uma moradora.

Muitos estão desempregados devido ao custo do vale-transporte: são necessárias quatro conduções para chegar aonde tem emprego. A família de Gabriel, que trabalhava com reciclagem, ficou sem renda para complementar o Bolsa Família. Novas despesas, como condomínio e taxas, passaram a ser exigidas.

No Noroeste, como na zona sul do Rio, jorram oportunidades. Mas foi destinado a empreendimentos privados de alta renda, em uma urbanização sofisticada. Por isso, os pobres foram removidos.

Podia ser diferente. As terras do Distrito Federal foram estatizadas, nos anos 1950, para implantar a nova capital. Pertencem à Terracap, empresa do GDF. Em vez de deslocar os moradores para longe, o governo poderia ter destinado áreas inseridas na cidade para habitação social.

Mas optou por reproduzir uma lógica de exclusão urbana e de política habitacional que gera dramas como o vivido por Gabriel.

* NABIL BONDUKI é arquiteto e urbanista, é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP). Em São Paulo, foi vereador, relator do Plano Diretor Estratégico e secretário municipal de Cultura. É autor de 12 livros.

Fonte: Folha de S. Paulo – Colunista – Terça-feira, 28 de novembro de 2017 – 02h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Igreja contra a reforma da Previdência

Bispo recomenda “levante popular pacífico”
contra reforma da Previdência

Rede Brasil Atual

Política de Pilatos: governo Temer “lava as mãos” na responsabilidade do Estado em proteger os vulneráveis
DOM REGINALDO ANDRIETTA

Para o bispo de Jales (região sudeste de São Paulo, a cerca de 580 quilômetros da capital), Dom Reginaldo Andrietta, a proposta de reforma da Previdência que o governo Temer quer ver votada ainda neste ano "reduz direitos constitucionais e ameaça a vida de milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres".

Ele afirma que os argumentos do alegado déficit no sistema das aposentadorias são falsos e enganadores, e defende um levante popular pacífico, com a distribuição de "santinhos" contra parlamentares que votarem a favor da reforma.

"Que tal, então, levantarmo-nos em respeito às pessoas idosas de hoje e de amanhã? (...) David venceu Golias com uma simples funda. A força dos fracos está nas ações simples e contundentes", diz o prelado em artigo publicado na semana passada no site da Diocese de Jales.

Segundo o bispo, a igreja é clara na defesa de um sistema de proteção social assegurado pelo Estado, "que não esteja submetido à lógica mercantil", de modo a garantir a preservação de direitos dos mais pobres.

Sobre o suposto déficit, o religioso ressalta dados apresentados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Previdência, que apresentou relatório que identificou que as contas das aposentadorias estão no azul. "Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade superavitária. Causa espanto um dos argumentos utilizados pelo presidente da República para essa reforma, que o brasileiro daqui a pouco viverá 140 anos."

Também em esforço para barrar a proposta de reforma da Previdência do governo Temer, as nove centrais sindicais do país decidiram convocar uma greve nacional para o próximo dia 5 de dezembro. Em nota, as centrais afirmam que a proposta "acaba com o direito à aposentadoria dos trabalhadores brasileiros", e mandam recado aos parlamentares: "Não mexam nos direitos!".

Confira o artigo:

Proteção social sem lógica mercantil

O projeto de Reforma da Previdência Social será votado na Câmara dos Deputados tão logo se concluam as negociações do executivo com o legislativo, na forma de “compra de votos” por meio de cargos e emendas parlamentares. Este projeto reduz direitos constitucionais e ameaça a vida de milhões de brasileiros, de modo especial os socialmente vulneráveis.

A Constituição de 1988, ainda em vigor, assegurou um sistema avançado de proteção social, conquistado a duras penas pela classe trabalhadora no bojo das lutas pela redemocratização do Brasil. A classe dominante jamais aceitou esse e outros avanços que, em última instância, apenas asseguram as bases para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.

O congelamento por 20 anos dos gastos com programas sociais e a recente reforma trabalhista ferem gravemente nossa “Constituição Cidadã”. Agora, a Proposta de Emenda Constitucional 287, que reforma a Previdência Social, se for aprovada, dificultará o acesso à aposentadoria de milhões de trabalhadores, especialmente rurais, reduzirá drasticamente o acesso ao Benefício de Prestação Continuada, que é o benefício assistencial ao idoso e à pessoa com deficiência, e cortará pela metade as pensões de viúvas e viúvos.

Os argumentos utilizados para essa reforma previdenciária são enganadores. O déficit alegado é falso. Essa constatação foi feita pela própria Comissão Parlamentar de Inquérito, constatando que a Previdência Social é, na realidade, superavitária. Causa espanto um dos argumentos utilizados pelo Presidente da República para essa reforma, que o brasileiro daqui a pouco viverá 140 anos.

Nossa Lei Magna está sendo, assim, mutilada. Em consequência, os pobres, já crucificados, estão sendo ainda mais sacrificados com o desmonte descarado do sistema de proteção social. Instaura-se a barbárie. Perde-se a civilidade. O governo de plantão quer que o Estado adote a política de Pilatos. Este “lavou as mãos” na condenação de Jesus. Trata-se da política do “Estado Mínimo” que se exime de sua responsabilidade de proteger, sobretudo, os mais desvalidos.

O grau de respeito à dignidade humana de uma nação deve ser também medido por seu sistema de proteção social. A Doutrina Social da Igreja é clara na definição do papel do Estado de salvaguardar os direitos, sobretudo, dos mais pobres, garantindo, por exemplo, acesso a um sistema de proteção social que não esteja submetido à lógica mercantil. Afinal, proteção social deve ser comprada?

Um sinal muito particular de respeito humano é a proteção às pessoas idosas, a ser garantida, especialmente, por uma aposentadoria justa. Clamam aos céus o desprezo sofrido por elas. O Salmo 79,1 traduz, sabiamente, o clamor do idoso: “Não me rejeites na minha velhice; não me desampares quando forem acabando as minhas forças”. O livro de Levítico 19,32 exorta: “Levante-se diante de uma pessoa de cabelos brancos e honre o ancião!”

Que tal, então, levantarmo-nos em respeito às pessoas idosas de hoje e de amanhã? Que seja um “levante popular”, evidentemente pacífico. Que tal, por exemplo, distribuirmos ostensivamente, “santinhos” com nomes, fotos e partidos políticos dos legisladores que votarem a favor dessa reforma da previdência, denunciando-os em seus “currais eleitorais”? David venceu Golias com uma simples funda. A força dos fracos está nas ações simples e contundentes.

Jales (SP), 23 de novembro de 2017

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano de Jales


Fonte: Rede Brasil Atual – Cidadania – Segunda-feira, 27 de novembro de 2017 – 10h44 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui