«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Compreendendo melhor a “crise” do mundo atual

“A austeridade funciona muito bem para o que foi
desenhada: transferir riqueza de baixo para cima”

Entrevista com Susan George
Filósofa e Analista Política, Presidente de honra da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos (ATTAC)

Marina Estévez Torreblanca
El Diario – Madri (Espanha)
27-01-2017

A tal “crise” econômica não é uma crise, é uma enfermidade que está
sendo fomentada pelas políticas econômicas atuais
SUSAN GEORGE

Em 2018, o movimento ATTAC [Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos] completa 20 anos. Nascido na França como grupo de pressão a favor da introdução de uma taxa nas transações financeiras internacionais (conhecida popularmente como Taxa Tobin), seu propósito é organizar a sociedade civil para “frear a ditadura dos poderes econômicos, exercida através dos mecanismos de mercado”. Em fins de janeiro, Madri acolheu uma reunião da ATTAC Internacional, com a participação de sua presidente de honra e do Transnational Institute de Amsterdã, Susan George. Esta lúcida filósofa e analista política, nascida em Ohio (Estados Unidos), completa 82 anos (desde 1994, possui nacionalidade francesa) e é a autora da célebre distopia O relatório Lugano [edição brasileira: Boitempo Editorial, 2002].

Eis a entrevista.

Como você acredita que as recentes decisões do novo presidente estadunidense Donald Trump, em dinamitar diferentes tratados comerciais internacionais, podem afetar o comércio internacional?

Susan George: Estou encantada com o fato de Trump ter se livrado do Tratado Transpacífico (TTP), e espero que também faça o mesmo com o europeu TTIP [Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento]. Acredito que provavelmente agirá assim, porque disse que quer estabelecer acordos bilaterais. Caso se desfaça destes dois grandes tratados, não acredito que prejudique o comércio mundial em absoluto, porque não se tratava de comércio, mas de dar mais privilégios regulatórios às grandes companhias transnacionais. Caso chegue a acordos bilaterais, pode inclusive ser benéfico. Não digo que todas as decisões econômicas (de Trump) sejam benéficas, mas você me perguntou pelo comércio.

Nos últimos meses, vivemos uma sucessão de vazamentos, como os Papéis do Panamá. Como você enxerga esta nova forma de conhecer os desmandos das empresas para sonegar impostos?

Susan George: É muito boa, os jornalistas realmente estão fazendo seu trabalho. Agora, centenas de milhares de pessoas podem compreender melhor o que significa um paraíso fiscal e como funciona, e como estão roubando dinheiro que pertence aos cidadãos. Por exemplo, na França foi realizado um estudo parlamentar que mostra que entre 60 e 80 bilhões de dólares desapareceram dos fundos do Tesouro. Impostos que não foram pagos porque transferências que teriam que ter sido feitas no país não foram realizadas. A maioria das pessoas não soube destas coisas até que foram publicadas nos jornais. Graças aos vazamentos, como “Os Papéis do Panamá”, muita gente sabe que estão roubando, diretamente, de seus hospitais, de seu transporte público.

Uma das razões da desigualdade é que as multinacionais não estão pagando todos os impostos que deveriam.

Susan George: Tenho um amigo que é fiscal da receita aposentado, e lhe fiz essa pergunta há muitos anos: “As transnacionais estão pagando todos os impostos que devem?”. E me respondeu: “Sempre pagam algo, mas pagam o que querem”. Deveriam dizer em cada país que operam, quais são seus volumes de vendas, quais são seus benefícios, quantas pessoas possuem empregadas, o básico, e então podemos decidir quanto precisam pagar. Não seria tão difícil, resolveria muitas coisas, mas não temos os instrumentos legais adequados para isso. E Trump, provavelmente, irá fazer com que continue sendo assim.

Vários países, entre eles a Espanha, disseram que estariam dispostos a implementar uma taxa às transnacionais financeiras internacionais, uma espécie de taxa Tobin como a que é defendida pela ATTAC. Você considera este cenário possível?

Susan George: Infelizmente, foi a França, meu país, quem evitou que fosse implementada no passado. Mas, parece-me muito positivo que a Espanha tenha se mostrado a favor. Em algum momento, terão que aplicá-la, porque novamente voltamos à questão de que nossas reservas estão sendo roubadas. Assim que as pessoas ficam sabendo, pensam que seu dinheiro pode ser melhor utilizado do que ir para o bolso dos mais ricos do mundo.
Por isso, a informação é tão importante. Quando eu comecei no ativismo e na política, dizíamos “devem sair do Vietnã”. E as pessoas talvez estivessem de acordo, ou talvez não, mas sabiam do que você estava falando. Agora, as respostas são mais longas e complexas. A informação é muito importante e é muito importante seguir repetindo-a.
CÍRCULO VICIOSO DA AUSTERIDADE

Os índices de desigualdade estão crescendo, até mesmo quando nossos governos falam de aumento do PIB. Acredita que é possível dizer que a crise econômica faça parte do passado?

Susan George: É que não acredito que seja uma crise. Uma crise significa algo terminal, significa que você irá se recuperar ou irá morrer, mas não dura nem dez anos. Isto não é uma crise, é uma enfermidade que está sendo fomentada pelas políticas econômicas atuais. Na realidade, a austeridade funciona muito bem para o que foi desenhada: transferir riqueza de baixo para cima. E nos convenceram que é o melhor resultado. [Inclusive aqui no Brasil!]

Qual a sua opinião a respeito da ideia de que o desemprego é criado pelos governos e pelos poderes para manter as pessoas com medo, para que não se rebelem?

Susan George: Não sei se é deliberado criar medo. Mas, ouvi uma palestra de Tony Benn (um destacado deputado trabalhista britânico, falecido em 2014) na qual começava dizendo: “o medo é a disciplina da economia capitalista”. É uma maneira muito elegante de afirmar isto. Se os governos apostam nisso, não sei, porque teriam muito mais êxito e seriam reeleitos, caso lutassem contra o tipo de desigualdade que vivemos em nossos países.
Em meados dos anos 1970, na Europa, as rendas do trabalho eram 70% e as do capital 30%. Agora, as rendas do trabalho são 60% e as do capital 40%. Sendo assim, perdeu-se 10% da riqueza no bolso das pessoas. Os 10% do PIB europeu representam algo como 1,6 trilhão. É muito dinheiro que não vai para o consumo e o investimento europeus, e que não pagará impostos por isso.
Desse modo, não é um mistério que nos últimos anos as pessoas tenham menos para gastar, que as pessoas estejam com pouco dinheiro. Então, a pergunta é pertinente: Os governos fazem esta aposta ou não sabem economia? O certo é que há uma economia equivocada (a da austeridade) que se converteu em bíblia. E para convencer [a respeito] dela, há enormes investimentos em think tanks, em livros, artigos, tribunas universitárias, juízes, instituições religiosas.
Gramsci, nos anos 1920, já disse: “você pode ganhar por meio da violência, mas também por meio de suas cabeças. E para fazer isso precisa usar as instituições”. E isso é o que a esquerda não entendeu e a direita, sim. A esquerda acredita que suas ideias são tão esplêndidas que não é necessário defendê-las (somos generosos, somos simpáticos, defendemos os direitos humanos). Contudo, o problema é que a direita conseguiu enfatizar estas questões de modo que disseram às pessoas e lhes convenceram:Se você não possui trabalho e é pobre, a culpa é sua. Você não é organizado e merece o que tem”. Grande parte desta mensagem foi interiorizada.

No que se nota?

Susan George: No momento, há pessoas que estão se rebelando, mas a maioria vota contra seus interesses, vota em Trump. Todo o seu Gabinete provém das grandes empresas. Mas, as pessoas comuns votam assim, acreditam que é por seu interesse. O Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia] é parecido. Acredito que as pessoas comuns têm uma ideia equivocada do que acontecerá lá, porque as leis sociais britânicas são piores que as europeias, ao passo que o salário mínimo, horas extras, em aspectos sociais, vão piorar, mas provavelmente votaram por medo da imigração, ainda que estejam equivocados. [Aliás, o MEDO é um dos maiores e mais utilizados instrumentos da direita mais radical! É o medo do estrangeiro, do desemprego, da competição, da religião diferente etc., que faz votar em candidatos que se apresentam como os "salvadores", aqueles que "resolvem", "mandam e acontece"!]

Traduzido do espanhol pelo CEPAT (com correções efetuadas por Telmo José Amaral de Figueiredo). Acesse a versão original desta entrevista, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 31 de janeiro de 2017 – Internet: clique aqui.

QUEM DEVE SER SACERDOTE?

Aquele que a Igreja escolhe e não quem quer!

José María Castillo
Teólogo espanhol
Religión Digital
29-01-2017

“Muitos se tornam padres para ter um nível de vida melhor,
dignidade ou categoria”
ORDENAÇÃO DE PRESBÍTEROS (PADRES)
Momento do canto da Ladainha de Todos os Santos

Do jeito que as coisas aconteceram, no momento em que vivemos, o futuro da Igreja dá o que pensar. Porque dá a impressão de que a Igreja, assim como está organizada e como funciona, tem cada dia menos presença na sociedade, menos influxo na vida das pessoas e, portanto, um futuro bastante problemático e muito incerto.

Cada dia há menos sacerdotes, cada semana ficamos sabendo de conventos que fecharam para se transformarem em hotéis, residências ou monumentos meio arruinados. A progressiva diminuição nas práticas sacramentais é alarmante. Mais da metade das paróquias católicas de todo o mundo não tem pároco ou o tem apenas nominalmente, mas não de fato. [Contudo, há uma enorme concentração de padres em alguns centros urbanos mais desenvolvidos e abastados! A carência se dá mais no interior, zonas rurais e regiões mais pobres das periferias urbanas!]

Há poucos dias, o Papa Francisco dizia em uma entrevista: “O clericalismo é o pior mal que a Igreja pode ter, quando o pastor se torna um funcionário”. E é verdade que há padres que entraram no seminário ou foram a um convento, porque não queriam passar a vida como uns “Zé Ninguém” que não têm nenhuma importância na vida. Isto acontece mais do que imaginamos.

Mas, embora se trate de pessoas generosas e decentes, como não vão acabar sendo meros “funcionários” indivíduos que, para cumprir com suas obrigações, têm que ir de um lado para o outro, sempre com pressa, sem poder atender de maneira tranquila a ninguém? E conste que me limito a recordar apenas esta causa de que na Igreja haja tantos “clérigos funcionários”.

Não quero entrar na raiz profunda do problema, que não é outra senão a quantidade de indivíduos que se fazem padres porque, no fundo, o que querem é ter um nível de vida, uma dignidade ou uma categoria que não correspondem nem com o projeto de vida que nos é apresentado pelo Evangelho, nem com o que deles espera e necessita a Igreja.

Além disso – e isto é o mais importante –, é a Igreja uma mera empresa de “serviços religiosos”? Como pode a Igreja ser isso se pretende manter viva a memória de Jesus de Nazaré, que foi assassinado pelos homens do sacerdócio e do Templo, os mais estritos representantes dos “serviços religiosos”? [Interessante observar, o quanto o sacerdócio cristão atual acabou se assemelhando ao sacerdócio levítico do Antigo Israel: mais preocupado com o culto, com as rubricas e a forma do que com a misericórdia e a justiça!]

Já sei que estas perguntas nos trazem um problema que a teologia cristã não resolveu. Mas, há coisas que a Igreja tinha muito claro, em tempos já muito distantes, e que hoje seria muito bom recuperar. Refiro-me concretamente a dois assuntos capitais: a “vocação” ao ministério pastoral e a “perpetuidade” deste ministério.

A VOCAÇÃO

Entende-se por “vocação” um “chamamento”, um chamado. Por isso dizemos que vai ao seminário ou entra no noviciado quem se sente “chamado” para isso. Mas, chamado por quem? Há séculos se vem dizendo que o bispo “ordena sacerdote” a quem é “chamado por Deus”. Mas é claro que ocorreria a qualquer um perguntar: e por que será que agora ocorre a Deus chamar menos pessoas precisamente nos países mais necessitados de bons párocos, teólogos, etc.? Não. Hoje, não há quem acredite no fato de que a vocação é um chamado de Deus. Então...?
YVES CONGAR (1904-1995)
Frade dominicano francês, considerado um dos maiores eclesiólogos do século XX,
escolhido Cardeal pelo Papa João Paulo II, em 1994.

O melhor historiador da teologia da Igreja, Yves Congar, publicou em 1966 um memorável estudo (Ordinations “invictus, coactus”, de l'Eglise antique au canon 214. Revue des Sciences Philosophiques et Théologiques 50, p. 169-197) documentado até o último detalhe, no qual ficou demonstrado que a Igreja, desde as suas origens até o século XIII, não ordenava (sacerdote ou bispo) quem queria ser ordenado e alcançar a dignidade que isso levava consigo, mas a quem não queria.

A vocação não era vista como um chamamento de Deus, mas da comunidade cristã, que escolhia e nomeava a quem a assembleia considerava o mais capacitado para o cargo. É o que se vinha fazendo nas primeiras “igrejas” já desde a missão de Paulo e Barnabé, que designavam “votando com a mão levantada” – cheirotonésantes – (At 14,23) os ministros de cada comunidade.

Será que não chegou a hora de modificar a atual legislação canônica, para recuperar as surpreendentes intuições organizativas que a Igreja viveu nas suas origens?

A PERPETUIDADE

Desde a Idade Média tardia vem se repetindo na teologia que o sacramento da ordem “imprime caráter”, um “sinal espiritual e indelével”, que marca o sujeito para sempre (Concílio de Trento, sessão VII, cânon 9. DH 1609). O concílio não pretendeu, neste caso, definir uma “doutrina ou dogma de fé”. Porque o tema do “caráter” foi introduzido na teologia pelos escolásticos do século XII. E, em definitiva, a única coisa que se via como certa é que há três sacramentos – batismo, confirmação e ordem –, que só podem ser administrados uma vez na vida, ou seja, são irrepetíveis, como indica o citado cânon de Trento.

O importante aqui é saber que durante o primeiro milênio a Igreja ensinou e praticou de maneira insistente o que repetiram e exigiram os concílios e sínodos de toda a Europa. A saber: os clérigos, inclusive os bispos, que cometiam determinadas faltas ou escândalos (detalhados pelos concílios), eram:
* expulsos do clero,
* eram privados do ministério,
* perdiam os poderes conferidos pela ordenação sacerdotal e, em consequência,
* ficavam reduzidos à condição de leigos.

Este critério se repetiu tantas vezes, durante mais de 10 séculos, que a Igreja se comportava, naqueles tempos, como qualquer outra instituição que se propõe ser exemplar. Os responsáveis, que não são exemplares, não são transferidos para outras cidades ou trancados em um convento. Eram postos com os pés na rua. E que se busquem a vida, como qualquer outro funcionário, que não cumpre com suas obrigações.

Se a Igreja quer realmente acabar com os clérigos funcionários e com os clérigos escandalosos não pode depender dos juízes e tribunais civis. A própria Igreja deve tirar a chamada “dignidade sacerdotal” aos “inescrupulosos”, aos “espertinhos”, aos “aproveitadores”, que se servem da fé em Deus, da memória de Jesus e de seu Evangelho, para desfrutar de um respeito ou de uma dignidade que, na realidade, não tem nem merecem.

Traduzido do espanhol por André Langer. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias  – Terça-feira, 31 de janeiro de 2017 – Internet: clique aqui.

Reforma da Previdência, como?

“Esta não é a reforma da Previdência de que
 a gente necessitaria”

Entrevista com Rosa Maria Marques
Economista e Professora da PUC-SP

Caio Cigana

Para Rosa Maria Marques, é um erro implantar uma regra geral que não
considera as desigualdades de condições dos trabalhadores
ROSA MARIA MARQUES

Tema que vai afetar a vida de milhões de trabalhadores nas próximas décadas, a reforma da Previdência enviada para o Congresso pela gestão de Michel Temer ainda deve render muita controvérsia. A previsão do Planalto é de que os parlamentares terminem de votar a proposta até o final do terceiro trimestre deste ano. As modificações nas regras das aposentadorias são consideradas essenciais pelo governo para o equilíbrio das contas públicas no futuro devido ao envelhecimento da população brasileira.

A proposta, entretanto, também é alvo de uma série de críticas. Especialista no tema, Rosa Maria Marques, professora titular do Departamento de Economia e do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUC-SP e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP), é uma das vozes contrárias ao conteúdo.

Para Rosa, é um erro implantar uma regra geral que não considera as desigualdades de condições dos trabalhadores do Brasil. Outro problema apontado pela economista é o foco excessivamente centrado na diminuição dos gastos, sem pensar uma forma de ampliar a base de arrecadação. Trabalhadores com maior renda, avalia ela, garantirão a tranquilidade na aposentadoria com a previdência privada. Os menos abastados, por outro lado, sofrerão mais as consequências da reforma.

Zero Hora: A reforma da Previdência, da forma como está sendo proposta, é dura demais, ou justa e necessária?

Rosa M. Marques: Não é a reforma de que a gente necessitaria. Porque o nosso sistema previdenciário, em razão das particularidades do Brasil, do nosso mercado de trabalho, não é uma proteção social comparável à de outros países, porque deixa 50% da força de trabalho de fora. Se fosse para fazer uma reforma no sentido de ampliar a proteção social, teríamos de construir um outro desenho que não tivesse, necessariamente, como fonte de financiamento a contribuição dos salários junto ao mercado formal. Ela é dura porque modifica muito em relação ao sistema atual.

O que está sendo proposto é uma reforma comparável ao que a ditadura fez nos anos 1970, quando unificou os institutos e criou o regime geral. Antes, tinha as caixas, depois os institutos e cada um concedia uma série de benefícios, inclusive com serviços à saúde, que tinha a ver com a capacidade de organização e arrecadação de cada grupo de trabalhadores. A ditadura acaba com isso e unifica. Agora, se propõe algo no sentido da harmonização entre os diversos regimes. Começam a desaparecer as diferenças entre o trabalhador do mercado formal, coberto pelo regime geral, e os regimes próprios de servidores.

Isso é ruim?

Rosa M. Marques: É um problema porque você está tratando de maneira igual o trabalhador do setor privado e do setor público. Se estivermos atentos à ideia do servidor público enquanto "servidor", lá dos primórdios da formação do Estado, havia um sentido de diferenciação exatamente para ele não ficar sujeito às mazelas da economia, a ser demitido a qualquer momento. Ele teria uma renda garantida durante toda a sua vida, ativa e inativa.

Agora, simplesmente se diz que é tudo igual, que a atividade pública é igual à privada. Há toda uma discussão de Estado por trás da proposta. Os servidores em 2003 perderam a integralidade, mas perderam aqueles que passaram a entrar. O que é proposto agora é diferente. Há aquele critério de idade, de 50 anos para homens e para 45 mulher, mas todos os demais entram em uma nova regra.
TRABALHO RURAL
Está sendo equiparado ao urbano na reforma proposta pelo governo Temer!

Como avalia a idade mínima?

Rosa M. Marques: De fato, a população brasileira está envelhecendo e em uma velocidade maior do que em outros países. Mas isso é normal. Se fôssemos olhar apenas por aí, teríamos todas as justificativas para estabelecer um critério de idade pesado. Antes da fórmula 85/95, estavam se aposentado em média com 54 anos, mesmo com o fator. O que está sendo proposto é um aumento de 11 anos. O problema é que o Brasil não pode ser comparado com outros países, por ser muito desigual.

Quando propõem que o trabalhador rural acompanhe o urbano, se pressupõe que as condições de trabalho e de vida são iguais. Da mesma forma, homens e mulheres. A maioria das mulheres tem dupla jornada de trabalho. É uma proposta sem olhar para qual povo será aplicada. E a ênfase está na redução da despesa, e não no aumento da receita, embora tenha uma mudança, com as exportações passando a contribuir. A proposta vai no sentido mais fácil. O que deveria ser feito é um novo arranjo de financiamento, como ocorre em alguns países — era sobre a contribuição dos salários e passa a ser mais sobre a renda. Do jeito que está sendo feito, quem vai pagar a conta são os trabalhadores. [Como sempre, neste injusto e desigual país!]

Para se aposentar com o benefício integral, seria preciso ter 49 anos de contribuição. Muitos terão de trabalhar com mais de 70. Como vê essa questão?

Rosa M. Marques: Essa mudança de regra proposta vai afetar, excluindo quem ganha um salário mínimo, muitas pessoas. Porque vis a vis com a regra atual, que é a fórmula 85/95, piora muito o benefício médio recebido. Em relação ao fator, não altera tanto. Mas o proposto é um pouco pior que o fator. E a consequência disso é que determinado setor dos trabalhadores vai ser incentivado a complementar a sua aposentadoria mediante a previdência privada. Não todos, mas os trabalhadores com maior renda.

Terão de se aposentar antes, com benefício menor?

Rosa M. Marques: Sim, com benefício menor, e alguns casos vão entrar na previdência privada. Essa proposta é extremamente favorável aos fundos de pensão abertos.
MERCADO FINANCEIRO
Poderia ser uma das fontes de recursos para a Previdência Social, mas o governo não parece disposto a isso!

Qual seria a saída para reverter o déficit da Previdência, se é que a senhora entende que existe déficit, ou para fazer o sistema ser sustentável?

Rosa M. Marques: Essa questão é muito polêmica porque, do ponto de vista da Constituição de 1988, não posso analisar a Previdência isoladamente. Ela faz parte da seguridade social, que é superavitária. Receitas maiores do que despesas. Na seguridade social estão previdência, assistência, saúde. Só que não é mais assim que é visto desde a Lei de Responsabilidade Fiscal, que analisa a Previdência isoladamente. E aí surge déficit. De fato, estamos vivendo mais. Então, temos de mudar a forma de financiamento. E insisto: que não se fundamente apenas sobre a taxação do trabalho. Por que não entrar o [setor] financeiro, que é a grande fonte de enriquecimento do capitalismo contemporâneo?

De que fontes, por exemplo?

Rosa M. Marques: Os fluxos de capital vinculados a títulos públicos ou de empresas, de ações, derivativos. Hoje, o volume desse capital corresponde a 10 vezes o PIB mundial. E no Brasil é bastante expressivo também. No caso da renda, temos a experiência francesa. Mas a proposta de que o financeiro também financie não é minha. É uma discussão europeia. Mas isso só seria possível por meio de um arranjo nacional. E é claro que esses setores não querem financiar. Por isso optaram pela despesa. Imagina propor aumento de imposto agora?

Quais as chances da proposta passar no Congresso da forma que está?

Rosa M. Marques: Acho que será aprovada. Mas é claro que, passando pelo Congresso, algumas modificações deverão ser feitas. Centrais sindicais, mesmo as que apoiam o governo Temer, têm dito que 65 anos não dá. Então, se alguma modificação vai ocorrer, é por aí. Mas será muito pequena. Porque, senão, desestrutura o desenho que fizeram. Talvez uma pequena diferença entre homem e mulher.

Fonte: Jornal “Zero Hora” (Porto Alegre, RS) – Política – Segunda-feira, 30 de janeiro de 2017 – 02h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Uma Igreja encarnada no mundo

A velha guarda da Igreja Católica sacudida
por Papa Francisco

Joanna Moorhead
Jornal “The Guardian” – Londres (Inglaterra)
27-01-2017

O que Francisco fez é isto:
substituiu o catolicismo vinculado a regras, tradicional, inflexível
por aquilo que podemos chamar de um cristianismo instintivo 
MATTHEW FESTING E PAPA FRANCISCO
Festing era o grão-mestre dos Cavaleiros de Malta

A Igreja na fila para distribuir preservativos[1], dizem as manchetes. Na verdade, essa fila nada tem a ver com camisinhas. As profilaxias em questão, que poderiam ou não ser distribuídas em um projeto social levado a cabo sob os auspícios de uma antiga ordem católica, são apenas o gatilho para uma disputa que é mais importante do que o certo e o errado nos métodos contraceptivos, tema com o qual a Igreja tem se debatido há mais de meio século.

O problema real em xeque, que resultou na saída do grão-mestre dos Cavaleiros de Malta[2], é a questão mais relevante de toda a Igreja Católica: Qual o jeito certo de representar o ensinamento de Cristo no mundo de hoje?

Em uma extremidade, temos Matthew Festing, ex-leiloeiro de 67 anos, em seu traje vermelho claro com detalhes dourados. Ele representa a Igreja Católica de antigamente, a Igreja em que as normas eram ditadas do alto e aceitas pelos que abaixo se encontravam. A Igreja que ele amava, e que adoraria ainda fazer parte, era a Igreja da década de 1950, no último alvoroço da instituição que foi suplantada pelo Vaticano II e pelo liberalismo dos anos 1960. Até onde lhe diz respeito, a Igreja Católica é uma instituição imutável cujos membros, uma vez casados, permanecem casados até a morte e que, caso queiram limitar o tamanho da família, devem assim fazer empregando somente métodos naturais de contracepção.

Na outra extremidade, temos o homem que, nos últimos quatro anos, se tornou num rock star da política mundial: o Papa Francisco, jesuíta de 80 anos, vestindo uma batina branca, surgido das sombras para se tornar um dos líderes mundiais mais autênticos, respeitados e impressionantes da nossa época.

“Eu gosto do papa”, disse uma muçulmana que conheci recentemente. Ela gosta dele, o ama; o mundo gosta dele.

É dentro de sua própria Igreja que os inimigos mortais do ex-Jorge Bergoglio o espreitam.

São pessoas como o cardeal Raymond Leo Burke, arquiconservador americano que se pôs ao lado de Festing com respeito à distribuição de preservativos e que se tornou o ponto focal das esperanças dos fiéis que estão profundamente consternados com o que consideram um liberalismo impossível do Papa Francisco.
RAYMOND LEO BURKE
Cardeal norte-americano arquiconservador que tem se oposto ao Papa Francisco

No ano passado, Francisco emitiu um documento chamado Amoris Laetitia [Exortação Apostólica Pós-Sinodal “A Alegria do Amor”], que deixou Burke e seus aliados cambaleando: a eles, parece que o documento compromete o pecado cardeal de deixar em aberto a questão sobre se um católico divorciado e recasado pode receber novamente a Comunhão.

O que Francisco parece dizer é: sejamos realistas; as pessoas se divorciam e se casam o tempo todo, inclusive os católicos. Nem todos os católicos divorciados e recasados são o diabo encarnado. Então, sim – eles (ou elas) podem muito bem ter condições de comungar. Vamos deixar essa decisão a eles, depois de uma conversa com um padre ou o bispo local?

Para você e para mim, trata-se simplesmente de uma pequena peça de senso comum eclesiástico, a emanar de um minúsculo Estado soberano de onde, há bastante tempo, não saem muitos exemplos de senso comum. Mas, para Burke e Festing, trata-se praticamente uma heresia.

Para eles, regras são regras e não podem simplesmente ser quebradas. Um Burke incandescente tentou distrair Francisco desafiando-o a definir exatamente o que ele quer dizer em Amoris Laetitia.

Até agora, Francisco fez duas coisas:
1ª) ignorou Burke, o que, sem dúvida, irritou ainda mais o americano. A aproximação a Festing parecia um outro modo de conseguir atacar Francisco, mas não deu certo.
2ª) Francisco interveio, e Festing se viu forçado a renunciar. O placar está 2 a 0 a favor da Argentina.

O Vaticano é, como todo analista católico sabe, um viveiro de problemas, escândalos e situações espinhosas. Mas o que importa aqui – o que realmente importa – é que Francisco transformou a Igreja Católica de um modo verdadeiramente fundamental, e a transformou para sempre. É isso o que pessoas como Festing e Burke percebem, e é por isso que estão acabando sem nada para desafiá-lo. Porque o que Francisco fez é isto: substituiu o catolicismo vinculado a regras, tradicional, inflexível por aquilo que podemos chamar de um cristianismo instintivo.

Francisco não se incomoda tanto com os regulamentos; preocupa-se é com o tomar o caminho que ele crê que o homem/Deus que ele segue, Jesus Cristo, teria tomado. Divórcio, um segundo casamento, métodos contraceptivos – essas coisas não são o que mantém Francisco acordado à noite.

A presidência de Trump, a crise de refugiados e a guerra na Síria provavelmente são o que o mantém desperto. É por isso que o mundo gosta dele. E é por isso que ele é tão perigoso à antiga ordem da Igreja Católica. Pode muito bem haver mais terremotos por vir na Itália, e não de um tipo geológico apenas.

Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.
BARÃO ALBRECHT VON BOESELAGER
Ex-grão-mestre da Ordem de Malta

N O T A S

[ 1 ] – Essa manchete apareceu em jornais da Europa depois que Albrecht von Boeselager, uma figura sênior na Ordem de Malta, acusado de apoiar uma organização na distribuição de preservativos em Myanmar [país da Ásia] foi demitido de suas funções. O grão-mestre da Ordem, Matthew Festing, alegou que esse ato de demissão foi apoiado pela cúpula da Igreja Católica, mas o principal diplomata do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, disse a Festing, posteriormente, que o Papa não queria que ninguém fosse demitido.

[ 2 ] – A Ordem de Malta ou Cavaleiros de Malta era denominada, em suas origens, de Ordem do Hospital de São João em Jerusalém, o que também explica qual era a sua tarefa inicial: a de acompanhar as Cruzadas, a partir de Jerusalém, organizando hospitais. Os membros da ordem eram religiosos e cavaleiros. Militares, porque eram cavaleiros armados com espadas. Religiosos, porque faziam votos de castidade, pobreza e obediência. Em 1314, a Ordem dos Templários foi dissolvida, e grande parte das suas propriedades foi conferida aos Hospitalários, precursores dos Cavaleiros de Malta. A Soberana Ordem Militar de Malta foi reconhecida como ordem religiosa pelo Vaticano – foi refundada em 1803, pelo Papa Pio VII, depois novamente confirmada por Leão XIII –, mas também é considerada um Estado por mais de 80 países. Ela goza ainda de um lugar de “observadora” na Organização das Nações Unidas (ONU). Atualmente, sua atividade é gerir hospitais, centros médicos, ambulatórios, instituições para idosos e deficientes, em uma centena de países do mundo. Oferecer assistência às vítimas de lepra. Embora o orçamento da ordem não seja público, pensa-se que o financiamento provém de membros e de doações privadas, além das atividades médicas. Eles também são apoiados pela Comissão Europeia e por organizações internacionais (Fonte: Agostino Paravicini Bagliani, medievalista, clique aqui).

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 30 de janeiro de 2017 – Internet: clique aqui.

PÓS-VERDADE, O QUE É?

Para entender a pós-verdade

Thomaz Wood Jr.
Professor da FGV

Dois livros do século 20, contundentes e proféticos, ajudam a desvendar
a sociedade da imagem e do espetáculo do século 21
THOMAZ WOOD JR.

O ano de 2016 foi profícuo em análises sobre a natureza ficcional da política contemporânea. A revista britânica The Economist partiu do óbvio: políticos sempre contaram mentiras. O problema é que agora eles parecem estar abandonando inteiramente o lastro da verdade. [“Pós-verdade”, no fundo, é uma expressão mais elegante para “mentira”, mesmo!]

Megan Garber, escrevendo para a revista norte-americana The Atlantic, relembrou oportunamente a obra clássica de Daniel J. Boorstin, publicada em 1962 – The Image: A guide to pseudo-events in America [trad. livre: A Imagem: Um guia para pseudoeventos na América – há edições somente em inglês e francês]. Ao analisar o avanço da fotografia, do cinema, da tevê e da propaganda, o historiador alertou que a nossa sociedade estava substituindo a realidade por eventos dramatizados e trocando heróis por celebridades. [Que profetismo! Como isto é verdadeiro hoje!]

Boorstin observou que o dia a dia passou a ser habitado por pseudoeventos, acontecimentos não espontâneos que guardam uma relação ambígua com a realidade e são criados com o propósito específico de seduzir ou manipular a audiência. Pseudoeventos são mais dramáticos e atraentes que eventos espontâneos. 

A imagem, seja um filme, uma foto ou uma notícia, é um simulacro da realidade, produzida para ser mais dramática e sedutora do que o fato. A imagem não é necessariamente uma mentira, mas pode ser. O notável é que o lastro do fato é pouco relevante.
Há edições desta obra somente em inglês e francês
Em inglês está disponível em e-book

O escritor italiano Umberto Eco certa vez observou que em um passeio pela reconstituição do Delta do Mississippi, em um dos parques temáticos Disney é possível ver mais jacarés do que no ambiente natural original e isso torna o fato de serem mecânicos completamente secundário.

Outra obra profética do século XX foi La Société du Spectacle [Trad. livre: A Sociedade do Espetáculo – edição brasileira: Contraponto Editora, 1997], do pensador francês Guy Debord. O livro foi publicado em 1967, cinco anos após o de Boorstin. A espetacularização, para Debord, é consequência da evolução das condições de produção, que quebra a unidade de vida, extraindo as imagens e agrupando-as em uma grande e única corrente.

O espetáculo produz uma representação superior ao mundo real. Cria-se dessa forma um mundo à parte, onde a relação entre os indivíduos é mediada por imagens.

O espetáculo, ainda segundo Debord, manifesta-se na mídia de notícias, na propaganda, nas atividades culturais e nas interações pessoais. O espetáculo é uma narrativa totalizante que justifica, legitima e celebra o sistema. Toda a sociedade e os fenômenos sociais estão baseados e são permeados pelo espetáculo

O habitante da sociedade do espetáculo é o espectador, ser que não vive, apenas contempla. Ele é eterno coadjuvante, pressionado a encontrar o seu papel e a desempenhá-lo. O espetáculo fornece o roteiro, o ato e a fala, e ainda avalia o desempenho, de acordo com critérios de excelência em representação.

O próprio espetáculo determina o que são necessidades e desejos válidos e adequados. No espetáculo, o indivíduo sem individualidade procura conforto para suas necessidades e seus desejos. É atendido pela experiência de emoções tão fortes quanto rasas.

A sociedade da imagem e do espetáculo, da pós-verdade, é uma estrutura disciplinadora, habitada por voyeurs que espiam obsessivamente a si mesmos e uns aos outros, produzindo e assimilando imagens. [Basta conferir o sucesso que já fez, ou ainda faz, programas televisivos como Big Brother Brasil, A Fazenda e outros semelhantes]

Nas telas das tevês, dos computadores e dos telefones celulares, o espectador-voyeur penetra no mundo do personagem-voyeur. Voyeurs são espias e objetos de espia. Tudo que era diretamente vivido, como observou Debord, foi reduzido a mera representação.

A imagem e o espetáculo avançam. O cinema já teve o monopólio de imagens. Hoje divide espaço com outros canais de produção e geração de imagens, como a tevê e a internet. O fluxo imagético não tem início nem fim.

A imagem não representa mais nada em especial, ela existe por e para ela mesma. Tem a finalidade de saciar uma demanda ansiosa por entretenimento e por emoções. E a sociedade a produz e consome, em notáveis ritos de auto-hipnose.

O cinema, a tevê e a internet passaram a permitir um prodígio: viver em um mundo no qual o simulacro tem mais valor do que a realidade. Medimos a realidade por sua contraparte virtual. O risco para uma sociedade maciçamente orientada para e pela imagem é a perda da noção de realidade ou, ainda pior, a perda da preocupação com a perda da noção de realidade.

Fonte: CartaCapital – Sociedade/Opinião – Quarta-feira, 25 de janeiro de 2017 – 00h21 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

Um alerta aos pais e educadores!

Maconha e cigarro cedo

Jairo Bouer
Psiquiatra

Quem usa a droga antes dos 14 anos tem pior performance
em testes cognitivos na vida adulta 

Novos estudos divulgados na última semana sugerem a necessidade de uma atenção redobrada com a idade em que os jovens estão começando a usar maconha e com o uso de cigarros pelas adolescentes grávidas.

O primeiro trabalho mostra que adolescentes que iniciam o consumo de maconha antes dos 14 anos têm pior performance em testes cognitivos quando atingem o início da vida adulta, aos 20. Eles também apresentam pior memória de curto prazo e maior probabilidade de abandonar a escola. Em contrapartida, os jovens que entram em contato com maconha a partir dos 17 anos não apresentaram essas alterações.

Estatísticas recentes revelam que o consumo de maconha entre os jovens tem aumentado em boa parte do mundo ocidental. Um terço deles teria a primeira experiência com a droga antes dos 15. Mesmo nos países que legalizaram a maconha, ela é proibida antes dos 18, da mesma forma que o cigarro.

Os pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá, acompanharam cerca de 300 garotos entre os 13 e os 20 anos. Desses, 43% experimentaram maconha em algum ponto da vida, a maioria apenas algumas vezes ao ano. Para os especialistas, as dificuldades cognitivas podem estar associadas tanto aos efeitos da droga como a mecanismo sociais, uma vez que, abandonando a escola ou tendo mais dificuldade para aprender, os jovens perderiam oportunidades de desenvolver toda sua capacidade intelectual. As informações foram divulgadas pelo jornal britânico Daily Mail.

Os cientistas lembram que é importante trabalhar dentro de uma perspectiva realista, ou seja, de que muitos jovens vão entrar em contato com maconha em algum ponto da vida, e que uma minoria terá problemas concretos. A atenção deve ser maior com aqueles que usam com maior frequência, em maior quantidade e com os que começam muito cedo. Na pesquisa, os que começaram aos 17 tiveram desempenho cognitivo semelhante ao dos que nunca experimentaram a droga.

O que vale para outras drogas também vale, provavelmente, para maconha. A fase antes dos 15 é muito importante para a formação da rede de neurônios, que vai determinar nossa capacidade intelectual. Nesse sentido, eventuais impactos negativos da droga no sistema nervoso central podem ser mais “poderosos” nesse momento.

Além disso, essa é uma fase crucial (tanto do ponto de vista biológico como emocional) para a determinação do padrão de uso da droga, que pode ser eventual ou frequente – neste caso, com maior risco de abuso. Não é à toa, por exemplo, que quase 90% dos fumantes de cigarro na vida adulta começaram antes dos 15 anos. 
ADOLESCENTE FUMANDO CIGARRO ELETRÔNICO

Adolescentes grávidas

Por falar em cigarro, nova pesquisa divulgada nos Estados Unidos revela aumento de 19% no número de adolescentes grávidas que fumam. Para os cientistas, a causa seria a maior regulação na venda de cigarros eletrônicos antes dos 18 anos. Sem alternativas para “largar” o cigarro tradicional, as garotas continuariam a fumar mesmo durante a gestação.

Em geral, ao engravidar, mulheres adultas e adolescentes tentam abandonar o cigarro. Mas, desde 2010, a tendência de aumento no número de garotas fumantes tem se intensificado, o que coincide com o maior controle na venda dos dispositivos alternativos de liberação de nicotina.

Os pesquisadores das universidades americanas de Princeton e de Cornell revisaram dados de 550 mil nascimentos fornecidos pelo Centro Nacional de Estatísticas em Saúde (NCHS) e informações dos Centros de Controle de Doenças (CDC) sobre as leis regulando a venda dos dispositivos eletrônicos.

Apesar de polêmicos, uma vez que ainda não estão claros os efeitos negativos dos cigarros eletrônicos para a saúde e para a gravidez, trabalhos sugerem que eles podem ser menos nocivos do que os cigarros tradicionais. É bom lembrar que nos últimos anos houve um aumento expressivo no uso dessas fontes alternativas de nicotina, principalmente entre os mais novos: 9 milhões de americanos e 2,5 milhões de britânicos já usam os dispositivos eletrônicos. Em 2014, eles ultrapassaram o número de usuários de cigarro tradicional nesses países. As informações são também do jornal Daily Mail. No Brasil, esse uso é ainda bem mais modesto.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Metrópole – Domingo, 29 de janeiro de 2017 – Pág. A21 – Internet: clique aqui.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Antes da reforma da Previdência é preciso...

Abrir a caixa preta

Amir Khair

Há que se fazer auditoria no sistema de projeções de receitas
e despesas previdenciárias 
PRECISAMOS, DE FATO, DE UMA REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL???

O governo afirma que se não for feita nova reforma da Previdência Social (PS) não será possível no futuro garantir o pagamento dos benefícios previdenciários. Afirmar só não basta. Precisa provar, expondo as premissas e memórias de cálculo como determina a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Onde está o engano

Da mesma forma que se discute a questão fiscal no País de forma enganosa ao não considerar juros no cálculo do déficit público, é enganoso tratar as contas da PS considerando como receita apenas a proveniente das empresas e dos trabalhadores, omitindo a do governo como estabelece a Constituição.

Pela Constituição a PS é parte integrante de um amplo sistema de proteção social ao cidadão – denominado Seguridade Social – junto com os direitos à saúde, à assistência social e ao seguro-desemprego. Foi inspirado no modelo tripartite adotado em grande parte dos países desenvolvidos, no qual trabalhadores, empregadores e Estado são igualmente responsáveis pelo financiamento das políticas públicas que integram seus sistemas nacionais de proteção.

Na Europa em 2015, segundo a Eurostat, o financiamento da Seguridade teve a seguinte participação: governo 45%, empregadores 35%, trabalhadores 18% e outros 2%. O caso extremo é o da Dinamarca, onde o governo participou com 75,6% do total das receitas. No Brasil gira no entorno de 50% desde 2009.

Nossa Constituição estabelece no artigo 195 as seguintes fontes de financiamento da Seguridade Social:
a) contribuições previdenciárias dos empregados e das empresas sobre a folha de salários ou sobre a receita bruta;
b) Contribuição Social sobre o Lucro Líquido das Empresas (CSLL);
c) Contribuição Social Para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), cobrada sobre o faturamento;
d) Contribuição para o PIS/Pasep para financiar o Programa de Seguro-desemprego e os programas de desenvolvimento do BNDES, cobrados sobre o faturamento;
e) contribuições sobre concurso de prognósticos e;
f) receitas próprias do Tesouro Nacional.

Para o governo poder cumprir a sua parte, foram criadas a Cofins e a CSLL.

Há superávit na Seguridade Social

A não contabilização da contribuição do governo como receita da Previdência é que é considerado enganosamente como déficit da Previdência em afronta grosseira à Constituição.

Estudos realizados pela Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip) revelam que a Seguridade Social sempre foi superavitária. Nos últimos 12 meses encerrados em novembro, o “déficit” de R$ 140 bilhões na PS foi coberto com folga com as contribuições acima apontadas de R$ 363 bilhões mais do que suficientes para custear R$ 123 bilhões com saúde e desenvolvimento social, com superávit de R$ 123 bilhões:
    363 bilhões (recursos oriundos das fontes da Seguridade Social)
– 140 bilhões (suposto “déficit” da Previdência Social em 2016)
123 bilhões (custo com saúde e desenvolvimento social)
= 100 bilhões – superávit!

Outro grave erro do governo é não considerar o impacto do salário mínimo na arrecadação. Enxergam apenas o impacto na despesa com a área social.

Cerca de 48 milhões de pessoas têm no salário mínimo referência para a determinação de seus rendimentos, dos quais 23 milhões são beneficiários do INSS. Além disso, os pisos da assistência, Previdência e seguro-desemprego beneficiam outros segmentos populacionais pobres.
AMIR KHAIR
Engenheiro e mestre em finanças públicas pela
EAESP/FGV, foi secretário de Finanças da
Prefeitura de São Paulo (1989/92).
Atualmente é consultor na área fiscal,
orçamentária e tributária

O salário mínimo irriga e amplia o consumo impulsionando o crescimento econômico e, por decorrência, a geração de empregos e toda a arrecadação.

Segundo a Anfip, o salário mínimo influencia mais as receitas previdenciárias do que as despesas. Entre 2003 e 2014 o aumento real do salário mínimo elevou as despesas da PS em R$ 46 bilhões (a mais do que se tivesse sido corrigido pelo INPC), mas alavancou as receitas em R$ 52,5 bilhões deixando um saldo favorável de R$ 6,5 bilhões. Isso sem contar o impacto nas outras receitas públicas.

Por último, há que se fazer auditoria independente no sistema de projeções de receitas e despesas previdenciárias para certificar se são tecnicamente confiáveis. Não eram quando foram testadas no Fórum da Previdência em 2007. Em questões que afetam dezenas de milhões de pessoas a cidadania exige. Está na hora de abrir a caixa preta da Previdência.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Economia & Negócios – Domingo, 29 de janeiro de 2017 – Pág. B4 – Internet: clique aqui.