«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Salvação já

Brasil está se tornando mais plural sob
o prisma religioso

Otavio Frias Filho


Pesquisa Datafolha publicada no Natal reitera que o Brasil está se tornando um país mais plural sob o prisma religioso. Em 1994, quando 75% se declaravam católicos, os evangélicos eram 14%. Agora, católicos são 50% e evangélicos 29%, enquanto outras denominações menores cresceram. A parcela que afirma não ter religião (descrentes somados aos que não seguem nenhum credo coletivo), de 5% em 94, subiu para 14%.

Como acontece quase sempre, o nacional é manifestação de algum processo internacional mais amplo, dado que o evangelismo cresce há décadas na maioria dos países em desenvolvimento, e de modo notável na América Latina, onde se nutre do sedimento cristão depositado em séculos de catolicismo. Recente pesquisa (do Instituto Pew, de 2014) indicou que 19% dos latino-americanos se consideram evangélicos.

O leitor de Max Weber é levado a perguntar se estaria em curso conexão semelhante à descrita em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" (1904/5), ensaio do sociólogo alemão sobre o calvinismo, variante radical da Reforma, o cisma na Europa cristã que em outubro de 2017 completará 500 anos. Vale recapitular os principais passos no desdobramento, algo sinuoso, do esquema explicativo de Weber.

A maior divergência teológica dos calvinistas era que acreditavam a sério na predestinação, ou seja, sendo Deus onisciente, há de conhecer de antemão quem está destinado à salvação e à danação eternas. O católico pode negociar calmamente a própria salvação, melhorando seu placar por meio de boas obras e obtendo, do padre, a absolvição regular dos pecados. O protestante, não. Tal constatação acarreta um súbito terror, um desatino, uma urgência que estão na raiz da ruptura luterana.

Para mitigar a angústia, formulou-se a ideia protestante da vocação, ou seja, a marca inescrutável da graça divina, único caminho para a salvação, estaria estampada num estilo de vida, ao mesmo tempo frugal e produtivo, expresso na dedicação disciplinada a um trabalho útil, não para a existência eterna, mas para a terrena.

Não por acaso, esse estilo é apropriado para colocar em ação as engrenagens do capitalismo:
* Organização metódica,
* trabalho e poupança,
* cálculo racional do interesse próprio,
* até a especialização moderna estariam encapsulados na vocação calvinista.

De forma oblíqua, o propósito de Weber era criticar interpretações mecanicistas da história, entre elas o marxismo.

Sem discordar do primado da instância material sobre a simbólica na conformação dos fenômenos sociais, Weber ressaltava como são quase inextricáveis as mediações entre essas duas dimensões (enfatizando uma complexidade metodológica que Marx professava, talvez sem praticar). Especula-se que o confucionismo, também estudado, aliás, por Weber, estaria em simbiose similar com a revolução capitalista em curso na China.

Pode-se pensar algo parecido para a América Latina?

Ao leitor interessado fica a sugestão de recorrer aos trabalhos dos sociólogos David Martin e Ricardo Mariano; enquanto o britânico acredita na validade parcial do esquema weberiano no contexto latino-americano, o brasileiro a refuta, ressaltando as diferenças entre o calvinismo e a versão hoje predominante, o pentecostalismo, que abrange, em suas numerosas dissidências, 22% da população brasileira [cf.: Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999].

Um dos movimentos periódicos de retorno às origens, típicos da religião, o pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos no final do século 19 e desde então despacha, impulsionadas pela pujança norte-americana, ondas de missionários mundo afora. Trata-se de vertente mística, que celebra a festa de Pentecostes (Atos 2), quando o Espírito Santo teria outorgado aos discípulos de Cristo poderes mágicos de cura e glossolalia (falar línguas).

Ao mesmo tempo, seu enfoque é pragmático, voltado à consecução de objetivos tangíveis como prosperidade, saúde e família. Muitas dessas denominações se estruturam como empresas dedicadas a arrecadar e investir gigantescas quantias extraídas a título de dízimo, estendendo tentáculos a uma vasta gama de negócios, à TV e à política (na atual Câmara dos Deputados, por exemplo, 37% se dizem evangélicos).

Seria simplificador, porém, creditar todo esse processo apenas à manipulação. O pentecostalismo também compele a disciplinas que funcionam como alavanca de ascensão social, enquanto a estrutura das igrejas, sobretudo nas amplas regiões abandonadas pelo poder público, serve como rede de autoajuda.

E quanto ao consumismo, talvez os calvinistas fossem menos ascéticos se vivessem numa sociedade afluente como a nossa. Sua salvação, afinal, já era a deste mundo.

Fonte: Folha de S. Paulo – Ilustríssima/Colunistas – Domingo, 1 de janeiro de 2017 – Pág. 2 – Internet: clique aqui.

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