«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A perigosa febre Bolsonaro

Bolsonaro: de acusado de terrorismo
a fenômeno da internet

Thaís Oyama
Jornalista

O deserto político é tão devastador que até o deputado Jair Bolsonaro, antes
mero peão da direita baixo clero, é estrela da internet e saudado como “mito” 
JAIR BOLSONARO
Deputado Federal pelo PSC do Rio de Janeiro

“Mito, mito, mito!”, gritam em coro cerca de 1000 pessoas assim que o deputado Jair Bolsonaro desponta no saguão do aeroporto de Campina Grande, na Paraíba. Ele ergue os braços. As palmas aumentam: “Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos Bolsonaro presidente do Brasil!”. Abraçado, apalpado, fotografado, beijado e empurrado, o capitão da reserva do Exército, já sem conseguir pôr os pés no chão, vai sendo arrastado pela multidão até o estacionamento do aeroporto. Lá, erguido e carregado nos ombros, termina em cima de um carro de som, microfone na mão. Camisetas visíveis na plateia indicam a presença de alguns grupos: Direita Paraíba, Direita Ceará, Ordem dos Conservadores, Academia de Krav Magá de Campina Grande. Jovens compõem a maioria do público. Muitos são estudantes universitários. Acenam para o visitante e levantam cartazes com os dizeres “Bolsonaro 2018”. Alguns batem continência para o deputado-capitão. [Que diferença dos universitários dos anos 1960 e 1970 no Brasil e no mundo!!!]

De pé no capô do carro, Jair Bolsonaro (PSC-RJ) lança seus gritos de guerra. Abre com refrãos patrióticos: “Este é um brasileiro com o coração verde e amarelo. Se estou aqui é porque acredito no Brasil!”. Ovações. Critica o Estatuto do Desarmamento: “Nós vamos devolver o fuzil para o produtor rural. Cartão de visita para o MST é cartucho 762!”. Mais aplausos. A plateia reproduz o gesto do deputado, que imita um fuzil com as mãos. Bolsonaro prossegue elogiando os militares: “Acabou o discurso da esquerda querendo extinguir a Polícia Militar. E é bom irem se acostumando com um capitão no Planalto”. “Presidente! Presidente!”, responde a multidão. Encerra a fala com seu bordão: “Brasil acima de tudo! Deus acima de todos”. Palmas, gritos, pedidos de selfie (ele atende a todos). Enquanto isso, assume o microfone Eduardo Bolsonaro, também deputado pelo PSC e o terceiro dos cinco filhos de Jair Bolsonaro (motivo pelo qual é chamado pelo pais de “Zero Três”). Aplausos efusivos para ele também. 
JAIR BOLSONARO
Na Paraíba: o deputado imita um fuzil com as mãos, gesto copiado nas ruas e nas redes sociais pelos bolsonaristas
Foto: Jonne Roriz/VEJA

Cenas como a do aeroporto se repetirão ao longo de todo o dia. Na caminhada que Bolsonaro faz pelo centro de Campina Grande e na porta das emissoras de rádio e TV em que dá entrevistas, dezenas de fãs o aguardam, celular em punho, prontos para as fotos. Numa praça, diante de uma passante que chama o deputado de fascista, bolsonaristas aglomerados em torno dela gritam: “Maconheira, maconheira!”. Da mesma forma, o homem que levanta o punho para o grupo dizendo “Não passarão!” ouve de volta: “Comunista, comunista!”. Assessores tentam controlar o assédio ao chefe, que chamam “JB”.

A popularidade de JB é um fenômeno novo até para ele. Em 2010, Jair Messias Bolsonaro era um mero peão do baixo clero na Câmara. O termo define os parlamentares esnobados pelos colegas mais famosos, esquecidos pela imprensa, excluídos das comissões mais importantes da Casa e com nenhum ou quase nenhum projeto aprovado – precisamente o caso de Bolsonaro. Em seu sétimo mandato como deputado federal, ele pôs sua assinatura em pelo menos 180 projetos, mas apenas três viraram lei. Recentemente, conseguiu aprovar sua primeira Emenda Constitucional – a que torna obrigatório o recibo impresso do voto digital (Bolsonaro nunca confiou em urnas eletrônicas). A única marca extraordinária que obteve ao longo de seus mandatos foi a de representações contra ele no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados: quatro, um recorde no órgão. Bolsonaro, até há pouco tempo, era apenas um tipo folclórico no Congresso, um excelentíssimo zé-ninguém.

As coisas começaram a mudar no fim de 2010. Naquele último ano do governo Lula, o Ministério da Educação propôs distribuir nas escolas públicas um conjunto de panfletos e DVDs destinado a combater a homofobia. Críticos apelidaram o material de “kit gay”. Diziam que “estimulava o homossexualismo e a promiscuidade”. Bolsonaro assumiu a frente do ataque. Com sua fala peculiar – quanto mais exaltado fica, mais pontua os discursos com impropérios de arquibancada de futebol –, afirmou no Congresso que os autores da ideia eram “mil vezes canalhas”, deveriam deixar as crianças em paz e “queimar suas rosquinhas onde bem entendessem”.

É o deputado quem situa o episódio como ponto de virada na sua carreira política. “A partir daí começou a juntar gente no aeroporto para me ver”. Em poucos anos, ele se tornou um fenômeno na internet. Hoje tem 3,8 milhões de seguidores no Facebook. É um dos políticos mais populares na rede. No ano passado, um único post seu, acompanhado de um vídeo em que ataca o PT, teve 8,2 milhões de acessos e 963.503 comentários e compartilhamentos. A título de comparação, o vídeo mais visto do ex-presidente Lula teve a metade desses acessos e 124.060 compartilhamentos. Outras dezenas de gravações sobre o deputado, essas postadas por seus seguidores, trazem títulos como “Bolsonaro enfrenta sete comunistas e oprime cada um deles”. “Bolsonaro esculacha defensores dos direitos humanos” ou “Os top 10 momentos do Mito” (Bolsonaro diz que o termo com que apoiadores se referem a ele vem de um apelido seu de infância – por ser comprido e ter canelas brancas, diz, era chamado de “Palmito”, ou “parmito”, no sotaque do Vale do Ribeira). Algumas das gravações que circulam na fede mostram discursos, entrevistas e bate-bocas do deputado com colegas. De Jean Wyllys (PSOL-RJ), por exemplo, levou uma cusparada durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff na qual elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-Codi na época da ditadura e torturador catalogado. De Maria do Rosário (PT-RS), tomou um processo no STF pela frase “não te estupro porque você não merece”. No ano passado, como saldo do seu rosário de provocações, tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal por injúria e incitação ao crime.

Na palestra que fez em João Pessoa (Paraíba) no último dia 9, os 900 ingressos disponíveis esgotaram-se meia hora antes de sua chegada. Como em Campina Grande, os jovens dominavam a plateia. A eles, Bolsonaro apresentou seu discurso que mistura fantasias nostálgicas (“no meu tempo, o professor tinha autoridade, as pessoas podiam andar na rua sem ser assaltadas e a família era respeitada”) com opiniões conservadoras banhadas no verniz populista: para toda questão complexa, o deputado tem na ponta da língua uma solução simplista:

* Situação carcerária? Ele resolve o problema com uma cacetada só: “A cadeia está cheia, mas pior que quem está lá dentro é quem está debaixo da terra. Direito do preso é não ter direito”.
* Crise econômica? Fácil. “O Brasil é cheio de riquezas naturais! Basta explorá-las direito”. As reservas de nióbio e o suposto olho grande dos chineses em cima delas é, ultimamente, um dos temas preferidos do deputado.
* Outro, perene, é a defesa da ditadura militar. “Não teve ditadura no regime militar. Ditadura teve só para quem era criminoso, sequestrador, assaltante de banco e terrorista”. Exclui, convenientemente, quem apenas cometeu o crime de pensar diferente. [Não é o primeiro fascista que surge negando aquilo que se passou na história! Há muitos que negam ter havido, por exemplo, o Holocausto, o assassinato em massa de judeus por parte de Hitler!]
Reportagem da revista VEJA de novembro de 1987
na qual aparecem os detalhes de pequenos atentados à bomba planejados, entre outros,
pelo então capitão do Exército, Jair Bolsonaro!
[Clique sobre a imagem para ampliá-la]

Ironicamente, foi uma acusação de terrorismo, em 1987, que catapultou à política o então jovem e desconhecido capitão do Exército Jair Bolsonaro. Em outubro daquele ano, a revista VEJA publicou um relato feito por ele em que confirmava a preparação de um plano batizado de “Beco sem saída”, cujo objetivo era protestar contra os baixos soldos militares por meio da explosão de bombas de baixa potência em banheiros de quartéis. Depois da divulgação da reportagem, Bolsonaro negou a existência do plano, mas um croqui com o planejamento de um dos atentados, feito de próprio punho por ele foi periciado e comprovou sua autoria. O caso foi entregue ao Superior Tribunal Militar, que, contra todas as provas, considerou os testes grafotécnicos inconclusivos e o absolveu. No ano seguinte, Bolsonaro se elegeu vereador pelo Rio. Dois anos depois, tornou-se deputado federal pela primeira vez.

Ao longo de seus 26 anos na Câmara, relatou basicamente matérias sobre porte de arma e direitos de militares. Passou esse período almoçando em restaurantes por quilo, faltando pouco ao trabalho – compareceu a 89 das 94 sessões em plenário em 2016, com duas ausências justificadas – e guardando distância dos colegas de partido. Um vídeo em que o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do mensalão, menciona seu nome como o único deputado do PP a não votar com o governo num projeto que sabidamente envolveu compra de votos é brandido por bolsonaristas como “atestado de idoneidade” de seu líder. O parlamentar saiu do PP em 2015.

Jair Bolsonaro cresceu no vácuo deixado por políticos tradicionais tragados pela Lava-Jato ou simplesmente vitimados pela desmoralização crescente e aparentemente sem fim da categoria. É nesse deserto político que até um aventureiro como ele consegue se destacar. Na semana passada, seu nome apareceu em uma pesquisa de intenção de voto para presidente da República à frente do senador tucano Aécio Neves. Curiosamente, Bolsonaro nunca saiu do lugar onde sempre esteve e segue dizendo as mesmíssimas coisas que dizia quando quase ninguém prestava atenção nele. Não mudou, portanto. Mudaram os brasileiros? Diz ele: “Sinto que as pessoas estão precisando acreditar em alguém”. Sua ascensão mostra como as opções estão ficando precárias. [A descrença e decepção com a classe política favorece políticos do tipo Bolsonaro! É preciso a sociedade reagir e aparecer candidatos mais aceitáveis ao povo!]

OS ABSURDOS DITOS POR JAIR BOLSONARO
(Bolsonaro comenta cinco afirmações atribuídas a ele)

“A PM DEVERIA TER MATADO 1000, E NÃO 111 PRESOS” – sobre o massacre de 1992 no presídio do Carandiru, em outubro de 1997.
“Primeiro, não considero aquilo um massacre, para mim foi legítima defesa. No meu entender, preso só tem um direito, o de não ter direito. Proferi isso, sim, da tribuna da Câmara. Não tenho nenhuma piedade de quem está encarcerado e cometeu todo tipo de abuso e atrocidade contra um cidadão de bem. Não desejo que eles morram. Mas, se morreram 111 ou se viessem a morrer 1000, para mim é a mesma coisa.”

“DEVERIAM SER FUZILADOS UNS 30.000 CORRUPTOS, A COMEÇAR PELO PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE CARDOSO” – dito na TV Bandeirantes, em maio de 1999.
“Foi num momento em que ele – não ‘privatizou’, porque eu sou favorável à privatização – entregou a Vale do Rio Doce. Falei que isso foi um crime de lesa-pátria. Falei isso, sim. Mas quantas vezes até uma mãe fala pro filho: ‘Eu vou te matar’. Força de expressão.”

 “NÃO VOU COMBATER NEM DISCRIMINAR, MAS, SE EU VIR DOIS HOMENS SE BEIJANDO NA RUA, VOU BATER” – comentando a aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo, em maio de 2002.
“Isso não existe. Logicamente, há um constrangimento se você vai a um restaurante e acontece um fato semelhante a esse. É inadmissível num restaurante que um casal de namorados, mesmo heterossexual, pratique certo tipo de intimidade. Agora, falar que eu vou dar pancada, vou dar porrada, eu duvido que alguém apresente um áudio meu falando isso.”

“NÃO TE ESTUPRO PORQUE VOCÊ NÃO MERECE” – para a deputada Maria do Rosário, do PT, em novembro de 2003.
“Estava debatendo o caso Champinha. Eu defendia a redução da maioridade penal e a Maria do Rosário defendia o contrário. Ela não aguentou os meus argumentos, me interrompeu e no fragor do debate falou que eu era estuprador. Daí, virei para ela e proferi essa frase, sim. Eu estava defendendo as mulheres do estupro. Ela, o contrário. Ela defende a ideia de que um estuprador seja punido à luz do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que a gente sabe que não é punição.”

“MULHER DEVE GANHAR SALÁRIO MENOR PORQUE ENGRAVIDA” – em entrevista ao jornal Zero Hora (Porto Alegre), em dezembro de 2014.
“Dei uma entrevista ao Zero Hora, que me pediu para falar por que a mulher ganhava menos que o homem. Pesquisei e a conclusão foi a seguinte: a mulher ganha menos do que o homem tendo em vista um direito trabalhista que ela tem a mais – no caso, a licença-gestante. Então, prefere-se empregar mais o homem ou pagar menos à mulher. Essa não é a minha opinião. É o que dizem as pesquisas e a classe dos empresários. Mas o jornal resolveu pôr isso na minha conta.”

Fonte: Revista VEJA – Edição 2518 – Ano 50 – Número 8 – 22 de fevereiro de 2017 – Págs. 54-59 – Edição impressa.

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