«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

LINCHADORES ON-LINE

Jennifer Ann Thomas

Os haters [odiadores], como são chamados em inglês os
promotores da intolerância virtual, ameaçam tragar a internet. A saída:
vigiá-los, puni-los e, por meio de processos na Justiça, tirá-los de circulação

O psicólogo Diego Novak e o chef de cozinha João Paulo Gonçalves atravessaram uma temporada de recuperação numa clínica de tratamento para dependentes químicos no interior de São Paulo. No caso de ambos, a dependência era da internet, tratada como vício. Pior do que isso: Novak e Gonçalves se acostumaram a tirar prazer da prática de desferir comentários agressivos e provocações a partir de perfis on-line, como o próprio nome ou apelido. Nas redes sociais, viraram sinônimo de bestialidade. Na expressão em inglês, adotada universalmente, eles são definidos como haters. Em português, os que odeiam – tudo e todos. Denunciados por uns, aconselhados por outros, tiveram a inteligência de pedir ajuda de psicólogos para escapar da condição estúpida na qual viviam, debruçados em computadores e smartphones, com dedos nervosos e a esgrimir bobagens raivosas. [...]

Há tanta raiva on-line que não seria exagerado dizer que esse comportamento brutal ameaça sufocar a ágora (praça pública como era chamada na Grécia Antiga) democrática que foi erguida com a web e a popularização dos navegadores, nos anos 1990. Soa preciso o que disse Umberto Eco (semiólogo, filósofo e escritor italiano: 1932-2016), para quem as redes sociais hoje dão direito de palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Não faltam indicações de que o ódio está disseminado no ambiente digital – qualquer um que tenha perfil no Facebook (no mundo já são mais de 1,8 bilhão) já notou isso. Nos Estados Unidos, revela um recente levantamento, sete em cada dez adultos relataram ter testemunhado agressões virtuais. Entre adolescentes americanos:
* nove em dez declararam ter experimentado cyberbullying;
* 34% deles diziam ter sido vítimas diretas do ódio, enquanto
* 15% (um índice possivelmente subestimado) admitiram ter agido como haters em algum momento.

No Brasil, uma pesquisa promovida pela agência de publicidade nova/sb, o dossiê “Intolerâncias visíveis e invisíveis no mundo digital”, analisou entre abril e junho de 2016 quase 400.000 menções relacionadas a algum tipo de preconceito no Facebook, Twitter e Instagram. No ranking da intolerância, a liderança ficou com:
* o racismo (97,6% das citações eram negativas); em seguida, muito de perto,
* a ideologia política (97,4%). Na sequência,
* classe social (94,8%),
* aparência física (94,2%) e
* homofobia (93,9%).
Os brasileiros acompanham os movimentos globais. Entre 2006 e 2015, a SaferNet, uma ONG dedicada à defesa dos direitos humanos na internet, recebeu quase 4 milhões de denúncias anônimas envolvendo mais de 600.000 páginas eletrônicas, de 97 países – desse total, pouco mais de 200.000 foram excluídas.

Se o ódio faz parte do cardápio de sentimentos humanos, o que há de novo, agora, na caixa de ressonância que é a internet? É errado dizer que há mais ódio do que nunca, mesmo porque seria impossível medi-lo. Uma hipótese é que a humanidade atingiu um ponto da civilização que permite – aí, sim, de modo inédito – a livre expressão do ódio. Nunca nos comunicamos com tanta facilidade e, no entanto, parece nunca ter havido tanto sofrimento nessa comunicação. “Pessoas mal-intencionadas sempre existiram, a diferença com a internet é que a maldade é amplificada pela abrangência da rede e pelo escudo do anonimato”, disse à nossa revista a advogada americana Andrea Weckerle, fundadora da organização Civilination, dedicada a combater as agressões on-line. “Há os haters que usam nomes reais, e provavelmente são odiosos no cotidiano, mas a possibilidade de ter um perfil falso encoraja quem não diria absurdos a fazê-lo. E cria-se o efeito manada.” Anonimato é um golpe baixo. De acordo com um estudo da consultoria inglesa YouGov, 77% dos usuários de redes sociais acreditam que o anonimato instiga a agressividade on-line.

As empresas donas das redes sociais, a exemplo do Facebook, do Twitter e do Google (proprietário do YouTube), adotaram medidas contra a prática. Passaram a banir usuários e refinar algoritmos com o objetivo de detectar comportamentos hostis e exigir (mesmo que com pouca eficácia) o compartilhamento de dados reais dos usuários. Até agora, tem sido uma luta inglória. O psicólogo americano John Suler, da Universidade Rider, nos Estados Unidos, cunhou o termo “desinibição on-line”.  Para ele, a invisibilidade atrás de uma tela tem a força de mudar posturas – para o bem, sim, multiplicando generosidade e benemerência, mas, sobretudo, para o mal. Na cacofonia da internet, em que todo mundo fala ao mesmo tempo, faz-se ouvir quem grita mais alto – nesse caso, protegidos pelo anonimato, os “odiadores” fazem a festa.

Felizmente, aos poucos a vida dos valentões do computador tende a ficar complicada. O contra-ataque é complexo e depende de uma infinidade de variáveis. Mas a Justiça começa a falar alto também – embora engatinhe, dada a novidade de um tema recentíssimo, que ainda pede jurisprudência. Uma lei de 2012, apelidada de Carolina Dieckmann, pune quem invade computadores e smartphones atrás de nus alheios. Ela leva o nome da atriz, que, naquele ano, teve 36 fotos íntimas espalhadas pela rede. Na esteira da lei Carolina, com o Marco Civil de 2014, foi possível tipificar outros crimes cibernéticos relacionados ao comportamento dos haters. Agora, as pessoas que se sentirem ofendidas por um deles pode registrar queixa (em, no máximo, cinco meses depois da agressão) e ter direito a indenizações que, nos casos de injúria e difamação, variam de 5000 reais a 200.000 reais. “Quando a internet surgiu, as pessoas ainda receavam ser agressivas em público”, diz o advogado e professor de direito digital do Insper, de São Paulo, Renato Opice Blum. “Atualmente, as decisões judiciais já levam em conta não só o autor de um crime como também quem o compartilhou”.

O combate é árduo. Embora seja razoavelmente fácil tirar do ar imagens de nudez, por meio de notificação extrajudicial, ataques como os de racismo e homofobia pressupõem um processo devidamente instaurado no Poder Judiciário. O problema: os estragos são muito mais velozes do que a tramitação de processos. “Temos aí um retrocesso”, diz o advogado Anderson Schreiber. “As notificações são sempre mais ágeis, e as empresas gestoras das redes teriam de se mexer, tirando os impropérios do ar com celeridade. Hoje, elas se escondem numa suposta defesa da liberdade de expressão dos usuários.” Não há notícia de um cidadão preso por disseminar o ódio na internet. [...]


As novíssimas gerações nasceram nesse ambiente e nunca conheceram outro modo de viver. Há pouco mais de dois anos, quando tinha 15 anos, a estudante L.P. protagonizou um caso delicado. Ela foi mentora de um grupo de cinco meninas que, intencionalmente, cometeu cyberbullying contra uma colega de turma, no Colégio Objetivo de São Bernardo do Campo, em São Paulo. As agressões criticavam o cabelo, a roupa e mesmo o caderno escolhido pela vítima, tudo com o objetivo de humilhá-la. “Os posts mais pesados com esse teor repercutiram no Facebook, no perfil de outros alunos. Fazíamos o que fazíamos só para chamar atenção”, disse à nossa revista. A história repercutiu junto a professores e pais de alunos e L.P. recorreu a uma psicóloga. Depois do acompanhamento clínico, percebeu o erro e se constrangeu – a ponto de mudar de colégio para dar fim ao problema. “De início, ela enxergava a situação como normal, apenas uma provocação inocente”, diz a terapeuta Rachel Fischetti, que atende L.P. [...]

Relatos como esse começaram a despertar a sociedade para o problema. Em 2010, o universitário americano Tyler Clementi, de 18 anos, cometeu suicídio após descobrir que seu colega de quarto na faculdade havia transmitido, ao vivo, um encontro sexual que ele teve com outro garoto. A onda de reações homofóbicas no Twitter levou Clementi à depressão e, em seguida, à morte. Em resposta ao ocorrido, criaram-se leis federais nos Estados Unidos para tornar obrigatórias aulas contra o cyberbullying nas escolas. [...]
TYLER CLEMENTI
Suicídio após cyberbullying

Segundo um estudo publicado em 2014 por pesquisadores de três universidades canadenses, os haters agem como agem por apresentar sinais (mesmo sutis) de psicopatia, maquiavelismo e sadismo. De acordo com a pesquisa, 5,6% de todos os usuários da internet se encaixam entre os odiadores. Parece pouco? Na rede, isso representa um exército de quase 200 milhões de pessoas. A consultoria inglesa YouGov aposta que a situação pode ser ainda mais grave. Se forem considerados os haters menos violentos – aqueles que espalham fofocas, xingam opositores políticos, mas não chegam ao extremo de clamar pela morte de alguém –, a porcentagem poderia chegar a 28% de todos os conectados. [...]

O que motiva os praticantes do ódio é justamente o prazer de observar a repercussão de seus comentários e a sensação de que, por meio deles, formam opinião – seja num círculo restrito de amigos, seja numa rede social como o Facebook.

A respeito dos haters convém sugerir o que recomendam os zoológicos em relação aos animais: não os alimente. Desprezá-los é muitas vezes o melhor caminho, embora seja conveniente revelar as histórias de agressões, à guisa de denúncia, como fazem as pessoas ouvidas ao longo desta reportagem. [...]

A mentira... é a antessala do ódio – uma não vive sem o outro, embora seja bom perceber as diferenças. É possível apenas mentir sem exalar raiva (alô, pós-verdade!), e, no entanto, a lorota tem poder destrutivo de potência semelhante. Uma pesquisa de 2016 da Universidade de Warwick, na Inglaterra, estudou como 330 rumores tomaram corpo no Twitter. Entre os resultados, o levantamento mostrou que somente depois de catorze horas as notícias falsas começaram a ser desmentidas, embora nenhum desmentido tenha o alcance das certezas absolutas iniciais. Além disso, 82% dos adolescentes não sabem distinguir uma notícia falsa de uma real, de acordo com um estudo da Universidade Stanford. [...]

Nas palavras do filósofo de origem polonesa Zygmunt Bauman, morto há um mês, as redes sociais permitem às pessoas se fecharem em “zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco da própria voz, onde a única coisa que veem é o reflexo da própria cara”. Bauman lembra ainda que a internet oferece serviços “muito prazerosos, mas que são uma armadilha”. A principal delas: o ódio. Encurralá-lo será a saída para tornar mais respirável o ar nas redes.

Fonte: Revista VEJA – Edição 2515 – Ano 50 – Número 5 – 1º de fevereiro de 2017 – Págs. 78-87. Edição impressa.

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