«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Como lidar com o ciúme?

Feridas de minha história de vida

Anselm Grün
Monge, psicólogo, teólogo e escritor alemão

Quando paro de valorizar o ciúme e de me desvalorizar, porque sou
ciumenta(o), então, é comum que possa reconhecer os motivos de meu ciúme

A citação é de Goethe: «O ciúme é uma paixão que procura com ardor o que causa dor». É, portanto, o ciúme uma força que nos impulsiona. Porém, quando nos deixamos dominar por essa paixão, ela faz com que entremos em sofrimento. E se ela possuiu um caráter doentio, compulsivo-obsessivo, então ela gera sofrimento para nós e para aqueles de quem sentimos ciúmes.

Muitas vezes o ciúme tem a ver com inveja. É quando, por exemplo, dizemos que alguém está com inveja daquele que estaria no centro das atenções. Mas, no sentido estrito, costumamos compreender o ciúme no âmbito do amor ou com vistas a uma relação. Alguns psicólogos também falam em «inveja de relacionamentos».  Por detrás disso, está o medo de ter de dividir a atenção de alguém com uma outra pessoa «a quem não devemos a honra». Ou tememos perder, por completo, a atenção de uma pessoa amada; a mulher tem ciúme de seu marido, que é idolatrado por outras mulheres; o homem tem ciúmes de sua mulher, porque outros homens a admiram e falam sobre sua beleza.

Queiramos ou não, o ciúme surge dentro de nós. Não raro é somente a imaginação, que se distancia da realidade e tudo deforma. Por causa disso, alguns são impulsionados a condutas irracionais, por vezes, até a assassinato. Por assim dizer, são pessoas possuídas pelo ciúme. Outras(os) não querem ser ciumentas(os). Sua razão lhes diz que não há motivos para que elas tenham ciúmes. E no caso de um ideal de amor que deixa o parceiro e a parceira livres, para essas, o ciúme é, de fato, uma fraqueza.

Mas o ciúme geralmente não é movido por argumentos racionais. Ele simplesmente surge em nosso interior. Uma mulher me relatara que se aborrecia demais por causa de seu ciúme. Em casa, ela imaginava que uma das secretárias tomava seu marido ou então o seduzia. A mulher sempre fazia cena de ciúmes para o marido. Apesar de saber que pode confiar nele, esse sentimento corrosivo sempre surge em seu interior. Ela mesma sabe que, com isso, prejudica a si e a seu casamento. Mas quando está sozinha em casa, fica imaginando o que acontece no escritório de seu marido. Ela simplesmente não consegue «desligar» essas fantasias. Elas se instalam em seu corpo.

Não faz sentido apenas reprimir ou simplesmente racionalizar o ciúme. Ele sempre voltará a aparecer. É mais razoável começar a dialogar com ele. Em vez de me deixar destruir pelas fantasias de ciúme, procuro, ativamente, refletir sobre cada uma delas até que se esgotem: Se tudo que fantasio vier mesmo, o que acontecerá então? Tudo estará acabado realmente? Ou então isso tudo me obriga a me voltar para mim, a entrar em contato com o mais íntimo de mim e dizer para mim mesma: Eu não sou só a mulher desse homem. Eu também sou eu mesma. Eu tenho dignidade. Isso me doeria, mas nem tudo depende desse homem. Em vez de lutar contra a fantasia, eu a permito, confronto-me, reflexivamente, com suas possíveis consequências e, desse modo, consigo chegar novamente a esse caminho de volta a mim mesma, ao meu verdadeiro eu.

Quando paro de valorizar o ciúme e de me desvalorizar, porque sou ciumenta(o), então, é comum que possa reconhecer os motivos de meu ciúme. Normalmente eles estão na minha história de vida: Um dia me decepcionei no amor e fui ferida(o), isso faz de mim uma pessoa desconfiada e ciumenta. Tenho medo de perder quem amo para outra mulher, para outro homem. Temo, então, ficar sozinha, ter meu amor ferido. Em diálogo com meu ciúme, posso indagá-lo sobre o que ele está querendo me dizer: Talvez ele me diga que urge uma mudança na relação ou que eu mesma(o) devo mudar. Eu também posso perguntar-lhe qual é o ciúme mais profundo que se esconde nele. Então certamente o ciúme me dirá: Eu gostaria que esse(a) homem(mulher) amasse só a mim, que eu tivesse meu(minha) marido(esposa) só para mim, que pudesse ter certeza absoluta de que ele(ela) ama só a mim.
Anselm Grün é da Ordem de São Bento.
Nasceu em 14 de janeiro de 1945 em Junkershausen, Alemanha.
Integra a Abadia de Münsterschwarzach e é autor de aproximadamente 300 livros com foco na espiritualidade.
Dos seus livros, mais de 15 milhões de cópias foram vendidas em 30 idiomas.
São mais de 100 livros traduzidos no Brasil, sendo 90 lançados pela Editora Vozes.

À medida que eu encaro minhas necessidades, descubro que elas são irreais. Eu não posso aprisionar meu(minha) marido(esposa) para que ele(ela) olhe apenas para mim. Ele(ela) sempre terá de lidar com outras(os) mulheres(homens). Tudo que posso fazer é aceitar sempre o meu ciúme como um convite a confiar que meu(minha) marido(esposa) me ama e, ao mesmo tempo, a compreendê-lo como expressão de meu grande amor por ele(ela). O ciúme me mostra o quanto amo meu(minha) marido(esposa). Quando assumo isso, não lutarei contra o meu ciúme, mas, sim, me deixarei convidar a sentir o meu amor pelo meu(minha) marido(esposa) e a ser grata(o) por ele. Desse modo, não continuo me torturando. À medida que permito o ciúme e com ele entro em diálogo, lentamente ele vai se transformando em confiança e amor cada vez mais profundo.

Quando meu ciúme me remete às feridas de minha história de vida, então, tomo-o como oportunidade para analisar minhas feridas e apresentá-las a Deus. Eu não me condeno por causa de meu ciúme. Eu me aceito com minhas feridas, com minhas decepções. Quando o ciúme aparece, eu paro de ficar imaginando em minúcias o que meu marido ou minha mulher poderiam pensar ou fazer, como ele ou ela reagiriam a outra mulher ou a outro homem. Eu dou sinal verde para o ciúme e, em meio a esse sentimento, posso, por exemplo, fazer a Oração de Jesus: «Jesus Cristo, Filho de Deus Pai, tende piedade de mim». Se fizer essa oração durante um tempo, o ciúme será transformado e eu passarei a lidar com ele de modo mais misericordioso. Uma outra maneira é apresentá-lo a Deus, imaginando que seu amor penetre meu ciúme e minhas feridas e cure-os, enfim.

Traduzido do alemão por Bianca Wandt.

Fonte: Pequena Escola das Emoções: como os sentimentos nos orientam e o que anima nossa vida – Livro de: Anselm Grün – Publicado pela Editora Vozes (Petrópolis – RJ) em 2016 – Págs. 56-60.

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