«No regime neoliberal da autoexploração a agressão é dirigida contra si mesmo. Esta autoagressividade não converte o explorado em revolucionário, mas em depressivo.»

(Buyng-Chul Han [Seul, 1959] – filósofo e ensaísta sul-coreano, professor da Universidade das Artes de Berlim, Alemanha)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Entenda o processo contra a chapa Dilma-Temer no TSE

Processo contra chapa Dilma-Temer ganhou vulto
com delatores

Marcelo Coelho

Processo contra chapa Dilma-Temer no TSE iniciou com trivialidades
apontadas pelo PSDB, mas ganhou vulto com relato dos delatores 
DILMA  ROUSSEFF & MICHEL TEMER

Quando começou, a ação para cassar a chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral era só "para encher o saco", como disse Aécio Neves (PSDB-MG) em uma de suas apimentadas conversas com o dono da JBS, Joesley Batista.

De fato, quando se lê a argumentação inicial dos advogados, a impressão é de um conjunto de trivialidades, incapazes de tirar o mandato de ninguém.

A coisa tomou outro vulto com o passar do tempo, como se sabe. Mas é bom acompanhar tudo aos poucos.

QUATRO AÇÕES

A coligação "Muda Brasil", encabeçada pelo PSDB, pediu uma abertura de Ação de Investigação Judicial Eleitoral [Aije] em outubro de 2014. Era a Aije 1547, apontando vários indícios de abuso de poder político, em geral bem pouco significativos.

Por exemplo: a reforma de um fogão a lenha para uma eleitora beneficiária do programa "Água Para Todos". Ou um discurso de Dilma Rousseff em rede de rádio e TV, em comemoração ao Dia do Trabalho, que teria tido "propósito eleitoral"; ou o envio de folhetos da candidatura pelos Correios, sem o devido carimbo.

Em dezembro de 2014, o PSDB pediu a abertura de outra ação. Tratava-se da Ação de Investigação Judicial (Aije 1943), que acrescentava novas queixas. Citava coisas como o transporte de eleitores para um comício em Petrolina, com ônibus fretados por uma ONG que recebia verbas do governo. Mas também mencionava a suspeita de propinas na Petrobras.

Em janeiro de 2015, o PSDB entrou com mais duas ações, a Representação 86 e a Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (Aime) 761.

Como todas as reclamações eram parecidas, em março de 2016 os quatro processos viraram um só.

"CAUSAS DE PEDIR"

Longas investigações se desenvolveram para confirmar, ou não, os problemas levantados. No total, eram 23 motivos de queixa, ou, como diz o jargão jurídico, as "causas de pedir".

Estava claro que várias delas eram ridículas. A doação de uma prótese dentária, por exemplo, entrou nessa categoria. Um dente a mais ou a menos não daria a vitória a Aécio.

Só que, como todos sabem, no decorrer das investigações coisa muito mais séria e grave apareceu.

Já em 2014, o PSDB apontava que a chapa Dilma-Temer recebera dinheiro proveniente de corrupção. O primeiro sinal disso, ainda no começo da operação Lava Jato, estava na delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Seguiu-se a conhecida romaria dos envolvidos na Lava Jato. Todos admitiram a realização de licitações fraudulentas na Petrobras, e o uso de dinheiro de propina para financiamento de partidos políticos.

Na última hora, isto é, em março deste ano, juntaram-se os depoimentos do marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, além dos de Marcelo Odebrecht. Como noticiado, admitiu-se que foram feitos pagamentos de R$ 50 milhões em troca de uma medida provisória que aliviava a situação fiscal da empreiteira.

Verdade que a medida foi aprovada antes de 2010, mas o pagamento pelo favor, segundo Odebrecht, só foi solicitado e feito quando se precisou custear a campanha de 2014.

Já seria grave em termos de abuso de poder econômico e político, mas descobriu-se o bastante para preencher centenas de páginas.

O QUE DIZ A DEFESA DE DILMA

Os representantes da ex-presidente argumentam em torno de três pontos principais, além de contestarem os detalhes de cada acusação.

Quanto aos financiamentos de empreiteiras, lembram que a campanha de Aécio foi igualmente beneficiada, nesse aspecto, a disputa eleitoral se deu em termos bastante equilibrados.

Em segundo lugar, alegam que o processo foi mudando de objetivos ao longo do tempo.

As famosas "causas de pedir" oficialmente apresentadas pelo PSDB mencionavam as primeiras revelações da Lava Jato, que versavam sobre propinas ocorridas nos anos de 2012 e 2013. Não seria correto incluir no fim do caminho depoimentos como o de Marcelo Odebrecht sobre financiamentos em 2014.

Ligado a isso, houve um cerceamento do direito de defesa. Os advogados criticam o fato de não ter sido autorizada a convocação de testemunhas como Guido Mantega, que poderiam contradizer os testemunhos colhidos no TSE.

Por fim, não faz sentido, para os advogados, uma ação que visa a impugnar o mandato de Dilma Rousseff, uma vez que este já terminou, com o advento de seu impeachment.

Desses três pontos principais, talvez o mais convincente seja o segundo: é arriscado tomar como verdade absoluta o que se disse em delação premiada. Em tese, enquanto não se encerra o processo da Lava-Jato, não está provada nenhuma das propinas que, no TSE, se tomam como fatos fora de dúvida.

É um beco sem saída processual, por certo, mas sempre se pode argumentar que os ministros do TSE têm poder para formar suas próprias convicções.

O QUE DIZ A DEFESA DE TEMER

Os advogados do atual presidente têm uma tarefa difícil, que é a de separar juridicamente as irregularidades em prol de Dilma dos interesses do próprio Temer em se eleger vice-presidente.

A Constituição é explícita ao dizer que a eleição do presidente acarreta a do vice. Quatro governadores (Maranhão, Tocantins, Piauí e Paraíba) perderam seu mandato por abuso de poder e o vice foi junto.

"Mas há possibilidades de ressalvas nesse caso concreto", diz a defesa de Temer. Se o vice abriu sua própria conta de campanha, coisa a que não era obrigado pela legislação, deve-se aceitar que ele não tinha responsabilidades pela conta de Dilma Rousseff.

Por fim, os advogados apelam para a delicada situação do país, pedindo que o TSE leve em consideração argumentos também políticos, e não apenas jurídicos, para salvar o mandato.

INELEGIBILIDADE

No mais, a ex-presidente pode sofrer a pena de inelegibilidade, coisa de que se livrou na decisão do impeachment, uma vez que há depoimentos indicando que ela sabia efetivamente das contribuições da Odebrecht ao "nosso amigo" (referia-se a Mantega, numa conversa com Marcelo).

Quanto a Michel Temer, houve o famoso jantar no Palácio do Jaburu, com Odebrecht, Eliseu Padilha e outros. Pelo testemunho, o vice-presidente retirou-se na hora em que se combinaram R$ 10 milhões de doação; sua participação pessoal nas irregularidades não estaria comprovada.

Desse modo, ainda que ele perca seu mandato pelos abusos cometidos na campanha, a sanção individual de proibi-lo de participar em novas eleições não teria fundamentos mais sólidos.

Fonte: Folha de S. Paulo – Poder – Domingo, 28 de maio de 2017 – Pág. A8 – Internet: clique aqui.

domingo, 28 de maio de 2017

Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 28,16-20

Naquele tempo:
16 Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado.
17 Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram.
18 Então Jesus aproximou-se e falou: «Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.
19 Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
20 e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo».

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

ABRIR O HORIZONTE

Ocupados apenas em conseguir imediatamente um maior bem-estar e atraídos por pequenas aspirações e esperanças, corremos o risco de empobrecer o horizonte da nossa existência perdendo a ânsia de eternidade. É um progresso? É um erro?

Há dois fatos que não é difícil comprovar neste novo milênio em que vivemos desde alguns anos. Por um lado cresce na comunidade humana a expectativa e o desejo de um mundo melhor. Não nos contentamos com qualquer coisa: necessitamos progredir para um mundo mais digno, mais humano e alegre.

Por outro, está crescendo ao mesmo tempo o desencanto, o ceticismo e a incerteza ante o futuro. Há tanto sofrimento absurdo na vida das pessoas e dos povos, tantos conflitos envenenados, como abusos contra o planeta, que não é fácil manter a fé no ser humano.

É certo que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia consegue resolver muitos males e sofrimentos. No futuro se conseguirão, sem dúvida, êxitos ainda mais espetaculares. Ainda não somos capazes de intuir a capacidade contida no ser humano para desenvolver um bem-estar físico, psíquico e social.

Mas não seria honesto esquecer que este desenvolvimento prodigioso nos vai “salvando” apenas de alguns males e apenas de forma limitada. Agora precisamente que desfrutamos cada vez mais do progresso humano, começamos a perceber melhor que o ser humano não pode dar-se a si mesmo tudo o que deseja e procura.

Quem nos salvará do envelhecimento, da morte inevitável ou do estranho poder do mal? Não nos deve surpreender que muitos comecem a sentir a necessidade de algo que não é nem técnica nem ciência, tampouco ideologia ou doutrina religiosa. O ser humano resiste a viver encerrado para sempre nesta condição caduca e mortal. Procura um horizonte, necessita de uma esperança mais definitiva.

Não poucos cristãos vivem hoje olhando exclusivamente para a terra. Ao que parece não nos atrevemos a levantar o olhar mais além do imediato de cada dia. Nesta festa cristã da Ascensão do Senhor, quero recordar umas palavras daquele grande cientista e místico que foi Pe. Teilhard de Chardin: “Cristãos a apenas vinte séculos da Ascensão”. “Que fizestes da esperança cristã?”.

No meio de interrogações e incertezas, os seguidores de Jesus, seguimos caminhando pela vida trabalhados pela confiança e pela convicção. Quando parece que a vida se fecha ou se extingue, Deus permanece. O mistério último da realidade é um mistério de amor salvador. Deus é uma porta aberta à vida eterna. Ninguém a pode fechar.

ANTEGOZO DO CÉU

O céu não pode ser descrito, mas podemos ter um gosto prévio. Não o podemos alcançar com as nossas mentes, mas é impossível não querer isso. Se falamos do céu não é para satisfazer a nossa curiosidade, mas para reavivar nossa alegria e nossa atração a Deus. Se nos lembrarmos dele é para não nos esquecermos do último desejo em nossos corações.

Ir para o céu não é chegar a um lugar, mas entrar para sempre no mistério do amor de Deus. Finalmente, Deus não será mais alguém escondido e inacessível.

Embora possa parecer incrível, podemos conhecer, tocar, degustar e desfrutar do seu ser mais íntimo, de sua mais profunda verdade, bondade e beleza infinita. Deus nos apaixonará para sempre.

Porém, essa comunhão com Deus não será uma experiência individual, solitária, de cada um com o seu Deus.

Ninguém vai ao Pai senão por meio de Cristo. «Nele habita toda a plenitude da divindade corporalmente» (Col 2,9).

Só conhecendo e apreciando o mistério contido neste homem único e incomparável, penetraremos no mistério insondável de Deus. Cristo será nosso «céu». Vendo-o, «veremos» Deus.

Mas Cristo não será o único mediador da nossa felicidade eterna. Iluminados pelo amor de Deus, todos e cada um de nós, à sua maneira, se converterá em «céu» para os outros.

De nossa limitação e finitude, tocaremos no mistério infinito de Deus saboreando-o em suas criaturas. Desfrutaremos de seu insondável amor, experimentando-o no amor humano. O gozo de Deus nos será presenteado, encarnado no prazer humano.

O teólogo húngaro Ladislau Boros tenta sugerir essa experiência indescritível:

«Sentiremos o calor, experimentaremos o esplendor, a vitalidade, a riqueza transbordante da pessoa que hoje amamos, com a qual desfrutamos e pela qual agradecemos a Deus. Todo seu ser, a profundeza de sua alma, a grandeza de seu coração, a criatividade, a amplitude, a excitação de sua reação amorosa nos serão presenteados».

Que plenitude alcançará em Deus a ternura, a comunhão e o prazer do amor e da amizade que conhecemos aqui. Com que intensidade amaremos, então, aqueles que já tanto amamos na terra.

Poucas experiências nos permitem uma melhor antecipação do destino final a que somos atraídos por Deus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Segunda-feira, 22 de maio de 2017 – 11h07 (Horário Centro Europeu de Verão) – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Secretário da CNBB sugere saída de Temer e diz que Lula não resolve a crise

João Fellet

Bispo afirma que presidente Temer não tem condições éticas
de continuar 
D. LEONARDO ULRICH STEINER

Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Ulrich Steiner avalia não ver condições éticas para a permanência do presidente Michel Temer no cargo após a revelação de detalhes de seu encontro com o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, em março.

Mas ele também acredita que o país não superaria o atual "momento de tensão" com uma eventual candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, devido à "resistência de uma parcela da sociedade à pessoa dele, dadas as contínuas notícias de que estaria implicado na Lava Jato".

Para Steiner, Temer deveria ter denunciado Batista quando, no encontro que os dois tiveram no Palácio do Jaburu, o empresário lhe disse que havia corrompido autoridades para ser favorecido em investigações sobre sua empresa.

No dia 18 de maio, o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou a conversa, gravada por Joesley como parte de seu acordo de delação premiada com a Procuradoria Geral da República. O presidente diz que o áudio foi editado e não tem validade jurídica.

"Se alguém vem e diz que está subornando juiz e o Ministério Público, não é possível que quem está à frente do Estado não se mexa", afirma Steiner, enfatizando se tratar de opinião pessoal sua, e não uma posição oficial da CNBB.

Mas Steiner diz que a nota emitida pela presidência da CNBB no dia 19 de maio, um dia após a divulgação da conversa de Joesley com Temer, com o título "Pela Ética na Política" (dizendo estar acompanhando "com espanto e indignação as graves denúncias de corrupção política acolhidas pelo STF"), foi uma resposta da entidade "para dizer que, para alguém que exerce um cargo público, a idoneidade é tudo".

Principal organização ligada à Igreja Católica no Brasil, a CNBB foi fundada em 1952 e desenvolveu uma forte atuação política. O grupo se tornou uma das principais vozes contrárias à ditadura militar (1964-1985), embora tivesse apoiado o golpe no início. Paralelamente, aproximou-se de movimentos de esquerda e teve influência na fundação do PT.

A CNBB tem mantido postura crítica ao governo Temer e se pronunciado contra algumas das principais propostas do presidente, como o projeto de reforma da Previdência.

Em entrevista à BBC Brasil na sede do órgão, na terça-feira (dia 23 de maio), Steiner diz preferir a realização de eleições diretas numa eventual saída de Temer. Porém, se houver eleição indireta, afirma que a escolha deve ser debatida com a sociedade e não pode ser imposta pelo Congresso ou por grupos "ligados ao mercado", sob o risco de haver uma convulsão social.

Bispo auxiliar de Brasília, Steiner é secretário-geral da CNBB desde 2011, posto que assumiu após atuar na prelazia de São Félix, em Mato Grosso. Catarinense de Forquilha e franciscano da Ordem dos Frades Menores, foi ordenado padre pelo ex-arcebispo de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), seu primo.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil: Como o senhor recebeu a notícia sobre a delação da JBS envolvendo o presidente Michel Temer?

Dom Leonardo Ulrich Steiner: Quase atônito. Nós pensávamos que o pior já tivesse passado. Claro que, de alguém que está há tanto tempo na política e num partido que também vinha sendo acusado na Lava Jato, se podia esperar alguma coisa, mas não nesse montante. Por isso a presidência [da CNBB] tomou a iniciativa de emitir uma nota para dizer que, para alguém que exerce um cargo público, a idoneidade é tudo.

Não estávamos nos referindo apenas ao presidente da República, mas também ao deputado [Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR)] e ao senador [Aécio Neves (PSDB-MG)] envolvidos, e também a outros que agora começam a aparecer com mais nitidez. Talvez seja a continuidade de uma crise que estamos vendo já há um bom tempo no Brasil, que não é uma crise econômico-política, mas uma crise ética.

A coisa pública é tratada como vantagem pessoal, ou como vantagem do partido, de determinados grupos. O que espanta é que falem de bilhões como se fossem mil reais.
MICHEL TEMER (Presidente da República)
"A coisa pública é tratada como vantagem pessoal, ou como vantagem do partido,
de determinados grupos. O que espanta é que falem de bilhões como se fossem
mil reais", disse o secretário-geral da conferência dos bispos

BBC Brasil: Qual o melhor desfecho para o impasse em relação à permanência do presidente no cargo?

Dom Steiner: A CNBB está discutindo essa questão internamente. Não temos ainda uma posição. Estamos nos encontrando com muitas pessoas e vendo qual seria a melhor saída. Várias pessoas têm sugerido eleições diretas para presidente e vice. A questão é: é necessário mexer na Constituição? Como a questão não foi regulamentada ainda, vê-se alguma possibilidade de haver eleições diretas para presidente e vice sem mexer na Constituição.

A outra saída em que se fala mais é do próprio Congresso eleger um novo presidente e um novo vice, no caso de renúncia ou de cassação do atual presidente. Mas penso que é sempre importante passar pelo voto, é sempre importante ouvir a sociedade.

BBC Brasil: O senhor não vislumbra a permanência de Temer no cargo?

Dom Steiner: Por aquilo que ele mesmo tem falado nas entrevistas, não vejo condições éticas de ele continuar. Não se trata apenas do áudio, trata-se de uma questão ética. Se alguém vem e diz que está subornando juiz e o Ministério Público, não é possível que quem está à frente do Estado não se mexa, não denuncie. Isso é gravíssimo.

BBC Brasil: Temer diz que não acreditava que o empresário Joesley Batista estivesse falando a verdade, que as afirmações eram uma "fanfarronice" dele.

Dom Steiner: Pode ser que sejam, mas mesmo assim ele tem de ser investigado. Não se pode ficar quieto. A ética está acima de qualquer outra coisa para o exercício do próprio mandato. Estou falando isso como uma opinião pessoal - a CNBB não discutiu internamente essas questões. Mas o próprio presidente, ao se defender, está dizendo que a situação ficou extremamente frágil para continuar a exercer o seu mandato.

BBC Brasil: É desejável que Temer renuncie?

Dom Steiner: Não tenho como dizer, porque isso é algo que depende da pessoa.
Plenário do Congresso Nacional - Brasília (DF)
"Como podem pessoas que estão tão envolvidas na Lava Jato decidir os destinos da população brasileira?",
disse dom Steiner sobre a votação das reformas no Congresso em meio à crise política

BBC Brasil: Há clima para o avanço das reformas que o governo vinha defendendo?

Dom Steiner: Penso que não. Como podem pessoas que estão tão envolvidas na Lava Jato decidir os destinos da população brasileira? Depois, há a necessidade de maior diálogo com a sociedade em relação, por exemplo, à [reforma da] legislação trabalhista. Sobre a terceirização, não houve diálogo. Sobre a reforma da Previdência, até agora não se mostraram os dados reais. Fala-se em déficit, mas como funciona a Previdência brasileira? É preciso debater muito mais.

Em todas essas questões, sempre se fala num ponto: que é preciso sinalizar ao mercado, que é preciso colocar a economia em ordem. Não se fala em pessoas, não se fala em Brasil. Isso é grave. É uma mentalidade de mercado.

É preciso que o Congresso, diante de uma crise dessas, comece a rever as próprias ações e atitudes para o bem do povo brasileiro, e não para o bem de um determinado grupo. Veja o que está sendo feito em relação à [diminuição das áreas protegidas na] Amazônia. Não é uma questão apenas sobre a preservação da natureza, mas uma questão ética em relação à casa comum, para usar uma expressão do Santo Padre.

BBC Brasil: Uma das principais saídas discutidas seria uma eleição indireta em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ministro Henrique Meirelles ou ex-ministro Nelson Jobim assumiriam a Presidência até próxima eleição. Como enxerga essas hipóteses?

Dom Steiner: Não citaria nomes, mas, se houver uma eleição indireta, é preciso um debate para chegar num consenso de um nome que não esteja ligado a falcatruas, que não esteja ligado a essa questão toda da Lava Jato, que tenha dignidade do cargo e também consiga dialogar e levar o país adiante.

Um partido não vai poder impor um nome, o Congresso Nacional não vai poder impor um nome à sociedade, um pequeno grupo que esteja interessado no mercado não pode impor ao Brasil um presidente. Senão corremos o risco de ter uma convulsão social.

BBC Brasil: Na oposição ao governo, há uma aglutinação em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a expectativa de que ele volte à Presidência numa eventual eleição direta. Como o senhor vê essa movimentação?

Dom Steiner: Quanto ao Lula ser candidato, ele tem esse direito, assim como tem o Fernando Henrique (Cardoso), o (Geraldo) Alckmin, o (Jair) Bolsonaro e outros que estão se propondo a ser candidatos. A dificuldade pessoal que eu vejo é a resistência de uma parcela da sociedade à pessoa dele, dadas as contínuas notícias de que estaria implicado na Lava Jato. E nós não superaríamos esse momento de tanta tensão no Brasil.

Existe uma tensão muito grande, e essa tensão talvez poderia até crescer [se Lula for eleito]. Precisaria haver gestos muito significativos dele para ajudar numa reconciliação da sociedade brasileira.

BBC Brasil: Do ponto de vista ético, Lula teria condições de assumir esse papel?

Dom Steiner: Ele precisaria primeiro mostrar para a Justiça a inocência.
Operação Lava Jato - Polícia Federal em ação
"Lava Jato tem sido importante para o Brasil, mas tem algumas incoerências", disse dom Leonardo Steiner

BBC Brasil: Como o senhor avalia a Operação Lava Jato?

Dom Steiner: Ela tem sido muito importante para o Brasil. Ela tem mostrado onde estamos, esse envolvimento das empresas na política, esse beneficiamento mútuo, um Congresso eleito pelo poder das empresas. Creio que a sociedade brasileira está tomando consciência de que isso não pode continuar assim.

Mas também a Lava Jato veio demonstrar algumas incoerências. Por que esse alarde no momento de prender pessoas? Quando vão prender, os jornalistas já estão lá. O Ministério Público não precisa disso pra exercer seu trabalho. E a Lava Jato não tomou cuidado em relação às nossas empresas. As nossas empresas envolvidas estão numa situação muito difícil, ao passo que as pessoas envolvidas estão livres e soltas. Então existem algumas dificuldades que precisariam ser discutidas para que a Lava Jato realmente ajudasse, como alguns querem, numa expressão que não é muito feliz, a passar o Brasil a limpo.

BBC Brasil: Como o senhor vê o crescimento de figuras que tentam se projetar como alheias à política tradicional, como o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ)?

Dom Steiner: Com uma dificuldade muito grande. Você certamente acompanhou as eleições nos Estados Unidos e deve estar acompanhando o momento crítico que vive o país. Normalmente os salvadores da pátria não dão certo. Diante do descrédito da política e dos políticos, existe essa tentação de buscar alguém de fora da política para salvar a pátria. Não é o melhor caminho.

Há cada vez mais a necessidade de esclarecer às pessoas a importância da política, mas também a importância de termos no meio político pessoas que tenham condições de governar o país. Normalmente os salvadores da pátria têm um espiritozinho um pouco ditatorial.

BBC Brasil: Tem se falado no prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), e até no apresentador Luciano Huck como figuras que poderiam tentar voos mais altos na política, promover alguma renovação. Que acha dos dois?

Dom Steiner: Não os conheço. Não sei se seriam a solução. Deseja-se que a velha política desapareça, isso é verdade, a gente sente. Mas creio que encontraremos políticos, que possam exercer seu mandato com dignidade e integridade.

BBC Brasil: Recentemente o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão ligado à CNBB, foi alvo da CPI da Funai, que investigou processos de demarcações de terras indígenas. Deputados ruralistas acusaram o Cimi de estimular "demarcações fraudulentas". Como o senhor encarou o processo?

Dom Steiner: A instalação dessa CPI tinha apenas o interesse de encostar na parede diversas entidades que assumiram a causa indígena. Não havia nenhum interesse nessa CPI de realmente defender os povos indígenas. Por que, ao apresentar o relatório, eles não incriminaram nenhum grande fazendeiro?

O Cimi tem feito um trabalho extraordinário. Vivi numa região do Mato Grosso onde tínhamos vários povos indígenas e um trabalho muito importante na área educacional, de saúde, no resgate das tradições, dos rituais. Quando um povo se sente inteiro na sua identidade, ele começa a exigir mais. Ele também cria autoconsciência de que precisa de espaço para viver. A terra para eles não é uma propriedade, a terra é uma casa. E isso incomoda muita gente.

Acho que no futuro [os deputados da CPI] vão se envergonhar do que fizeram, porque não se faz com irmãos o que eles estão fazendo com os índios. E eles não estão por dentro da questão indígena, estão somente interessados na questão das terras. É preciso dizer isso.

Fonte: BBC Brasil – Quarta-feira, 24 de maio de 2017 – 16h23 – Internet: clique aqui.

terça-feira, 23 de maio de 2017

UMA DELAÇÃO ESCANDALOSA

Cinco perguntas sem resposta na delação da
JBS que abalou Brasília

Guilherme Mazui e Fábio Schaffner

Veja cinco mistérios que a Procuradoria-Geral da República
terá de desvendar
WESLEY E JOESLEY BATISTA
Proprietários do Grupo JBS

O Brasil parou às 19h30min de quarta-feira (17 de maio). A divulgação de trechos da delação premiada do dono do grupo JBS, Joesley Batista, comprometia o presidente Michel Temer (PMDB) e o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, principal partido de sustentação ao governo. Na quinta-feira, a retirada do sigilo sobre o processo elevou o cataclismo político ao implicar os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, além de 1.829 políticos de 28 partidos. Algumas questões, contudo, seguem sem resposta.

1 – Onde foi parar o dinheiro entregue a Rocha Loures?

Na conversa de 7 de março no Palácio do Jaburu, Joesley Batista pede ao presidente Michel Temer que designe um interlocutor para resolver pendências no governo. Temer indica o deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) da sua "mais estrita confiança". É Loures quem intermedeia a solução de um problema de Joesley no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), bem como oferece ao empresário que indique nomes para ocupar cargos em órgãos de fiscalização, como a Receita Federal e o Banco Central.

Em troca, Joesley oferece propina. Os termos do negócio foram fechados pelo diretor da JBS, Ricardo Saud: R$ 500 mil semanais durante 20 anos. O primeiro pagamento foi filmado pela Polícia Federal (PF). Rocha Loures recebe o dinheiro em uma mala e a leva para a casa dos pais, em São Paulo. A PF anotou o número de série das cédulas. Não há certeza, porém, se foi instalado um chip na mala, a exemplo do que foi feito na entrega de propina a um primo do senador Aécio Neves.

O maior temor dos assessores de Temer é que o rastreamento do dinheiro acabe comprometendo o presidente. Temer nega ter recebido propina e até agora Rocha Loures não disse o que fez com o dinheiro.

2 – Por que os R$ 2 milhões de Aécio Neves foram parar numa empresa do senador Zezé Perrella?

Ao pedir R$ 2 milhões a Joesley Batista, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que precisava do dinheiro para pagar seu advogado, Alberto Toron. Segundo Joesley, o dinheiro foi pago em quatro parcelas de R$ 500 mil, entregues a um primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, o Fred.

A Polícia Federal filmou três desses pagamentos. As cédulas foram previamente registradas e as malas tinham chip. Segundo os investigadores, Fred repassou o dinheiro a Menderson Souza Lima, assessor e cunhado do senador Zezé Perrela (PMDB-MG). Sempre seguido pela PF, Menderson fez três viagens de carro a Belo Horizonte levando a propina.

O rastreamento do dinheiro mostra que os recursos foram parar na Tapera Participações Empreendimentos Agropecuários, empresa do filho do senador Gustavo Perrella. Ao prender Menderson, em operação deflagrada na quinta-feira, a PF apreendeu R$ 400 mil na casa dele. Alberto Toron declarou que nunca recebeu o dinheiro de Aécio. Zezé Perrella disse jamais ter recebido dinheiro de Joesley e Alberto Toron e declarou que tampouco foi pago por Aécio.

3 – Lula e Dilma operavam a conta no Exterior mantida por Joesley?

O empresário Joesley Batista disse à Procuradoria-Geral da República (PGR) que mantinha duas contas-correntes no Exterior destinadas aos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. Em 2014, as contas chegaram a ter saldo de US$ 150 milhões. O dinheiro era depositado por Joesley cada vez que ele obtinha êxito ao negociar financiamentos no BNDES.

De acordo com o empresário, o dinheiro não foi usado para pagar despesas pessoais dos petistas, mas sim para manter operações designadas pelo então ministro da Fazenda, Guido Mantega. A eleição de 2014 acabou consumindo todo o montante. De acordo com o delator, Mantega indicou o tesoureiro de campanha, Edinho Silva, como interlocutor. Era Edinho que dizia qual partido deveria receber tal quantia.

— Cada partido vinha e decidia se queria por fora, por dentro, nota fria, dinheiro, caixa 1, caixa 2. Foi até zerar, até acabar. Acabou a da Dilma e acabou a do Lula. Eu avisei quando acabou — disse Joesley aos procuradores.

A documentação de posse da PGR não informa o país nem o banco onde as contas foram abertas. Joesley se comprometeu a entregar um pen drive com todas as operações.

4 – Por que Joesley Batista iria comprar cinco deputados se não mudaria o impeachment?

Na noite do sábado anterior à votação do impeachment na Câmara, Joesley recebeu uma visita surpresa do deputado João Bacelar (PR-BA). O parlamentar pedia um socorro financeiro para evitar a abertura de processo contra Dilma Rousseff. Para tanto, disse que precisava comprar o voto de 30 deputados, ao custo de R$ 5 milhões cada um. Joesley barganhou: disse que só pagaria R$ 3 milhões por deputado, e no máximo a cinco parlamentares. Ou seja, do pedido de R$ 150 milhões, aceitava pagar apenas 10%, R$ 15 milhões.

A questão é que o suborno a cinco deputados não seria suficiente para reverter o placar desfavorável a Dilma. Quando o impeachment foi à votação, 367 parlamentares votaram a favor. O número mínimo de votos exigido para abertura do processo era 342. Somente a compra de 26 deputados, e não cinco, barraria a tentativa de deposição da presidente.

Joesley não explicou aos procuradores por que aceitou pagar por algo que não receberia. Seu depoimento, contudo, dá a impressão de que ele gostaria de enviar um sinal de boa vontade ao governo, demonstrar que estava ajudando, ainda que esse auxílio fosse insuficiente.

5 – Todas as doações da JBS são propina?

Executivo da JBS, Ricardo Saud afirmou na delação que a empresa pagou propina a 1.829 candidatos eleitos, filiados a 28 partidos. No caso do Congresso, o grupo ajudou a financiar um a cada três parlamentares eleitos — 166 na Câmara e 28 no Senado. Saud definiu as doações como "reservatório da boa vontade", que envolve repasses de recursos em doação oficial ou caixa 2.

Em alguns casos, o recurso servia apenas para evitar que os políticos pudessem criar empecilhos aos interesses da empresa. Em outros, exigia a atuação em favor da JBS, com aprovação de projetos e medidas provisórias. Nos futuros pedidos de inquérito sobre as doações, a PGR quer o aval do STF para apurar quais casos tratam de corrupção e quais são exclusivamente caixa 2.

Onyx Lorezoni (DEM-RS) admitiu ter recebido R$ 100 mil de forma clandestina, em espécie, da JBS em 2014. No caso de José Ivo Sartori, Saud afirmou que repassou, por doação oficial, R$ 1,5 milhão à campanha do peemedebista em 2014 a pedido de Aécio Neves, dinheiro que seria da cota de propina do tucano. Sartori nega qualquer irregularidade. Sua campanha recebeu recursos declarados à Justiça Eleitoral, sendo R$ 2,5 milhões, em dois depósitos bancários, e R$ 184.250,00 em despesas pagas.

Fonte: Zero Hora (Porto Alegre – RS) – Política/Terremoto no poder – Terça-feira, 23 de maio de 2017 – 06h42 – Internet: clique aqui.

Coisas estranhas nesta delação

Editorial

A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos
crimes relatados
DELAÇÃO DE JOESLEY E WESLEY BATISTA AO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL (MPF)

O vazamento da delação de Joesley Batista na semana passada deixou uma vez mais o País profundamente consternado, ao envolver em ações criminosas graduados personagens da vida nacional, a começar pelo presidente da República, Michel Temer. Surpreende que denúncias tão graves tenham sido divulgadas – assumindo, assim, ares de veracidade – sem que nada do que delas consta, e tampouco as circunstâncias que envolvem os fatos, tenha sido averiguado previamente. Tal açodamento foi, no mínimo, irresponsável. Haja vista as consequências da divulgação nos campos político, econômico e financeiro.

A delação do empresário da JBS é escandalosa, e não apenas pelos crimes relatados. As histórias que a cercam são de enorme gravidade, indicando, no mínimo, o pouco cuidado com que se tratou um material com enorme potencial explosivo para o País.

Em primeiro lugar, causa escândalo o fato de que a principal notícia vazada na noite de quarta-feira passada não foi confirmada e, mesmo assim, o Ministério Público Federal (MPF) não fez qualquer retificação. Foi afirmado que um áudio gravado por Joesley Batista provava que o presidente Michel Temer havia dado anuência à compra do silêncio de Eduardo Cunha e de Lúcio Funaro. Ainda que a conversa apresentada seja bastante constrangedora para o presidente Michel Temer pelo simples fato de ter sido travada com alguém da laia do senhor Joesley Batista, das palavras ouvidas não se comprova a alegada anuência presidencial. Ou seja, aquilo que tanto rebuliço vem causando na vida política e econômica do País desde a semana passada não foi comprovado e, pelo jeito, não o será, pelo simples fato de não existir.

Como o Broadcast – serviço de notícias em tempo real da Agência Estado – revelou no sábado passado, a gravação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer no Palácio do Jaburu não foi periciada antes de ser usada no pedido de abertura de inquérito contra o presidente. Ou seja, nem mesmo essa medida de elementar prudência foi adotada pelo Ministério Público Federal. Em razão de a denúncia envolver altas personalidades, seria crucial dar os passos processuais com extrema segurança, até mesmo para evitar eventual nulidade da ação e consequente impunidade dos eventuais culpados. Tudo indica, no entanto, que o principal objetivo do MPF era obter notoriedade, e não fazer cumprir a lei.

A fragilidade da delação de Joesley Batista não se esgota nesses pontos. De forma um tanto surpreendente, o MPF não apresentou denúncia contra o colaborador, como se a revelação dos supostos crimes cometidos pelo presidente da República e por outros nomes importantes da vida nacional fosse suficiente para remir a pena do criminoso confesso. Trata-se de evidente abuso, a merecer pronta investigação da Justiça. Se, como o MPF denuncia, os crimes foram tão graves e abrangem toda a política nacional, é um grave e escandaloso erro – para dizer o mínimo – conferir perdão a quem os perpetrou e lucrou abundantemente. Note-se que a lei proíbe que se dê imunidade aos líderes de organização criminosa. Não seria essa a função dos senhores Joesley e Wesley Batista nos acontecimentos em questão?

Além disso, até o momento não foi apresentada uma possível razão que justificasse o procedimento seguido pelo MPF e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em relação à delação de Joesley Batista. Como não estava ligado à Operação Lava Jato, o caso deveria ter sido distribuído por sorteio, e não encaminhado diretamente ao ministro Edson Fachin.

A delação de Joesley Batista ainda expõe o Ministério Público em dois pontos muito sensíveis. O delator contou que o procurador Ângelo Goulart Villela, mediante pagamento de R$ 50 mil mensais, era seu informante dentro do MP. Ora, tal fato leva a checar com lupa todos os passos do empresário nesse processo de colaboração. Além disso, um procurador da República, que atuava muito próximo a Rodrigo Janot, deixou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para trabalhar no escritório que negocia com a própria PGR os termos da leniência do Grupo JBS. Tudo isso sem cumprir qualquer quarentena.

Ansiosamente, o País espera que avance o combate à corrupção. Tal avanço deve ser feito, porém, de forma menos descuidada.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Terça-feira, 23 de maio de 2017 – Pág. A3 – Internet: clique aqui.

EVANGELIZAR SEM TEMER PERSEGUIÇÕES

Manifestação do bispo de Jales

Dom Reginaldo Andrietta
Bispo Diocesano

As vozes proféticas não agradam, como Jesus não agradou, sendo
injustamente condenado
D. José Reginaldo Andrietta

Frente aos ataques que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em particular alguns bispos, têm sofrido por causa de seus posicionamentos em defesa do que é justo, hoje, neste país, demonstrando nossa solidariedade, principalmente com os que são vítimas de políticas públicas que lhes retiram direitos, são oportunos alguns esclarecimentos, de modo especial, a respeito da missão profética dos bispos.

O Concílio Vaticano II, na introdução da Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) sobre a Igreja no Mundo Atual, diz que: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”.

Cristo, com seu coração misericordioso, “ao ver as multidões, sentiu grande compaixão, pois estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor (cf. Mt 9,36). Inspirados nele, não somos indiferentes. Manifestamos nossa solidariedade para com o povo que Ele nos confiou, encorajando-o a continuar se organizando, agindo coletivamente e se manifestando de modo pacífico em defesa de seus direitos e de sua dignidade. Não o fazemos por ideologia, senão por amor pastoral.

No entanto, frequentemente, pessoas mal-intencionadas, revestidas até mesmo de religiosidade, dizem aos bispos o que podemos ou não dizer à sociedade, atacando-nos publicamente de maneira grosseira, associando-nos a um ou outro grupo político, pretendendo desacreditar o profetismo nosso e de toda a Igreja. Não faltam os que pretendem nos calar de modo violento, como fizeram com Dom Oscar Romero, Bispo de El Salvador, assassinado em 1980.

As vozes proféticas não agradam, como Jesus não agradou, sendo injustamente condenado. Nem por isso ele deixou de expressar compaixão por seus algozes. “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Assim clamou a Deus, demonstrando a força do amor divino no seu coração humano. Inspirados por este mesmo amor, dizemos como o apóstolo Paulo: “o amor de Cristo é que nos impulsiona” (2Cor 5,14). Por isso, não recuamos.

Paulo escreve a Timóteo, bispo de Éfeso, dizendo: “Proclame a Palavra, insista no tempo oportuno e inoportuno” (2Tm 4,2). Agrade ou desagrade, nossa missão de bispos é de educar, ensinar e orientar. Por isso nos manifestamos, sem nos considerar perfeitos e sem impor verdades, afinal Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A ele servimos, colocando-nos a serviço do bem comum, a partir dos mais necessitados, sinalizando o Reino de Deus por ele anunciado e inaugurado.

Evangelizar é nossa missão. Nós a realizamos em sintonia com Cristo que aplicou a si as palavras do profeta de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor (Lc 4,18-19)”. Deus nos dê a graça de testemunhar essa missão libertadora de Cristo, sem temer perseguições.

Fonte: Diocese de Jales – Palavra do Bispo – Quinta-feira, 18 de maio de 2017 – Internet: clique aqui.

domingo, 21 de maio de 2017

6º Domingo da Páscoa – Ano A – Homilia

Evangelho: João 14,15-21

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos:
15 Se me amais, guardareis os meus mandamentos,
16 e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco:
17 o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece.
Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós.
18 Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós.
19 Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis.
20 Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós.
21 Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

OUTRO DEFENSOR

A verdade é que os humanos são bastante complexos. Cada indivíduo é um mundo de desejos e frustrações, ambições e medos, dúvidas e interrogações. Frequentemente não sabemos quem somos nem o que queremos. Desconhecemos até para onde está se movendo a nossa vida. Quem nos pode ensinar a viver de maneira correta?

Aqui não servem as colocações abstratas nem as teorias. Não basta esclarecer as coisas de modo racional. É insuficiente ter diante de nossos olhos normas e diretrizes corretas. O decisivo, mesmo, é a arte de atuar dia a dia de maneira positiva, sadia e criadora.

Para um cristão, Jesus é sempre seu grande mestre de vida, porém não o temos mais ao nosso lado. Por isso, adquirem tanta importância estas palavras do Evangelho: «eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco: o Espírito da Verdade».

Necessitamos de alguém que nos recorde a verdade de Jesus. Se a esquecermos, não saberemos quem somos nem o que somos chamados a ser. Desviaremos do Evangelho novamente. Defenderemos em seu nome causas e interesses que têm pouco a ver com Jesus. Acreditamos na possessão da verdade ao mesmo tempo em que a desfiguramos.

Necessitamos que o Espírito Santo ative em nós a memória de Jesus, sua presença viva, sua imaginação criadora. Não se trata de despertar uma recordação do passado: sublime, comovente, íntima, porém recordação. O que o Espírito do ressuscitado faz conosco é abrir nosso coração ao encontro pessoal com Jesus como alguém vivo. Somente esta relação afetiva e cordial com Jesus Cristo é capaz de transformar-nos e produzir em nós uma maneira nova de ser e de viver.

O Espírito é chamado no Quarto Evangelho de «Defensor» ou «paráclito» porque nos defende do que nos pode destruir. Há muitas coisas na vida das quais não sabemos nos defender por própria conta. Necessitamos luz, fortaleza, contínuo alento. Por isso, invocamos o Espírito. É a melhor maneira de nos colocarmos em contato com Jesus e vivermos protegidos daquilo que nos pode desviar dele.

VIVER NA VERDADE

Jamais os cristãos se sentiram órfãos. O vazio deixado pela morte de Jesus foi preenchido pela presença viva do Espírito do Ressuscitado. Este Espírito do Senhor preenche a vida daquele que crê. O Espírito da verdade que vive conosco, está em nós e nos ensina a arte de viver na verdade.

Aquilo que caracteriza a vida de uma pessoa que crê de verdade não é a ânsia de prazer nem a luta pelo êxito nem sequer a obediência estrita a uma lei, mas a busca alegre da verdade de Deus sob o impulso do Espírito.

A pessoa que verdadeiramente crê não cai no legalismo nem na anarquia, mas busca com o coração limpo a verdade. Sua vida não está programada por proibições, mas é animada e impulsionada positivamente pelo Espírito.

Quando vive esta experiência do Espírito, aquele que crê descobre que ser cristão não é um peso que oprime e atormenta a consciência, mas é deixar-se guiar pelo amor criador do Espírito que vive em nós e nos faz viver com uma espontaneidade que nasce não de nosso egoísmo, mas do amor. Uma espontaneidade na qual alguém renuncia a seus interesses egoístas e confia à alegria do Espírito. Uma espontaneidade que é regeneração, renascimento e reorientação contínua para a verdade de Deus.

Esta vida nova no Espírito não significa unicamente vida interior de piedade e oração. A verdade de Deus que produz em nós um estilo de vida novo confrontado ao estilo de vida que surge da mentira e do egoísmo. Vivemos em uma sociedade onde:
* à mentira chama-se diplomacia,
* à exploração chama-se negócio,
* à irresponsabilidade chama-se tolerância,
* à injustiça chama-se ordem estabelecida,
* à sensualidade chama-se amor,
* à arbitrariedade chama-se liberdade,
* à falta de respeito chama-se sinceridade.

Dificilmente esta sociedade pode entender ou aceitar uma vida modelada pelo Espírito. Porém, é este Espírito que defende aquele que crê e lhe faz caminhar para a verdade, libertando-se da mentira social, da farsa e da intolerância de nossos egoísmos.

Diz-se que o cristão é um soldado submetido à lei cristã. É mais exato dizer que o cristão é um «artista». Uma pessoa que, sob o impulso criador e alegre do Espírito, aprende a arte de viver com Deus e para Deus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.