«A corrupção, como um câncer, está corroendo a vida cotidiana dos povos.»

(Papa Francisco – Mensagem enviada aos bispos da América Latina e Caribe em Assembleia de 9 a 12 de maio de 2017)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

PAPA FRANCISCO E O ISLÃ

Francisco no Egito reforça o eixo Vaticano-Cairo-Teerã para isolar o terrorismo do Califado

Marco Politi
Jornal «Il Fatto Quotidiano»
01-04-2017

O que resta da viagem de Francisco ao Cairo?
E a resposta é: a afirmação de uma forte convergência entre o Vaticano e
o centro mais importante do Islã sunita – a Universidade de Al-Azhar – na
oposição ao desvio do terrorismo jihadista
PAPA FRANCISCO ENCONTRA O IMÃ E LÍDER RELIGIOSO ISLÂMICO EGÍPCIO AHMED AL-TAYEB
Cairo (Egito), 28 de abril de 2017

Francisco não foi ao Egito para fazer uma pregação (às vezes, na mídia, parece que só ele fala como portador de verdade), mas para cimentar um entendimento com o Islã pensante sobre dois pontos-chave:
* a recusa clara da violência homicida envolta em motivos religiosos e
* a afirmação dos direitos de cidadania dos crentes de todas as religiões.

Al-Tayeb, sobre essas questões, não apenas hoje, é explícito, e, não por acaso, o Estado Islâmico [EI] o retrata como um traidor. “Atacar cristãos e os crentes de outras religiões como falsa religiosidade é uma traição dos autênticos ensinamentos do Islã”, defendia ele há dois anos. “Existe um direito original de que Alá dotou o homem: um direito que diz respeito à liberdade e à libertação das constrições e, especialmente, o direito à liberdade religiosa, de credo e de confissão”, declarou ele em fevereiro deste ano. Acrescentando que as “religiões celestes” (os monoteísmos abraâmicos – judaísmo, cristianismo e islamismo) necessariamente devem praticar uma relação de recíproco conhecimento, “cooperação e integração”, pois isso “representa uma exigência religiosa de primordial importância”.

Nessa linha, a viagem de Francisco reforça uma estratégia de isolamento da propaganda jihadista: um fato importante no plano geopolítico. É verdade, o mundo islâmico não está estruturado como o católico. Não existe uma estrutura unitária capaz de ditar regras para todos. Não existe um papa. Cada comunidade tendencialmente segue por conta própria. Com mais razão, é importante amarrar relações e convergências com esses centros, que podem exercer alguma influência.

O Cairo tem um destaque particular para o mundo islâmico sunita. Teerã tem um papel particular no campo islâmico xiita. O Vaticano tem ótimas relações com ambos. Também se pode dizer, à luz dessa viagem, que a Santa Sé, com o Papa Francisco, criou um eixo Vaticano-Cairo-Teerã, que serve de barragem ao maremoto do terrorismo de marca islamita. E, ao mesmo tempo, de baluarte à histeria anti-islâmica, que contamina crescentes grupos sociais e políticos no Ocidente.
PAPA FRANCISCO E PAPA TAWADROS II (LÍDER CRISTÃO COPTA - EGITO)

“Desmascarar, como responsáveis religiosos, a violência que se disfarça de suposta sacralidade... (Proferir) um ‘não’ forte e claro a todas as formas de violência, vingança e ódio cometidos em nome da religião ou em nome de Deus”, é a mensagem central levada por Francisco na sua viagem. O fato de os seus interlocutores estarem na mesma sintonia é um bom sinal no plano político mundial, embora a luta contra o Estado Islâmico e o jihadismo (fenômenos muito modernos e, de fato, nada medievais) requer de todos um fôlego longo e esforços em muitas direções.

O Pe. Samir Khalil Samir, jesuíta, renomado teólogo e islamólogo de origem cairota e professor há mais de uma década no Pontifício Instituto Oriental de Roma, comentava às vésperas da viagem que Bergoglio “vem da Argentina, não conhece o Islã. Ele conheceu em Buenos Aires um imã muito gentil (…) mas a sua ignorância do Islã não favorece o diálogo. Bergoglio disse muitas vezes que o Islã é uma religião de paz, e isso é simplesmente um erro”.

A frase é sintomática do estilo de desprezo com que o papa é tratado por aqueles que não concordam com ele. Na realidade, no Cairo e em outras ocasiões, Francisco está levando em frente uma linha geopolítica iniciada vigorosamente por João Paulo II, que conhecia bem os trechos agressivos e violentos contidos no Alcorão (como, aliás, igualmente na Torá = a Lei judaica), mas considerava um erro fundamental fazer do Islã o “diabo do século XX” e trabalhou sistematicamente pelo diálogo entre cristãos e muçulmanos.

O próprio Bento XVI, depois do dramático deslize do discurso de Regensburg (com erros reconhecidos mais tarde pelo próprio pontífice), defendia a necessidade de “consolidar os laços de amizade e de solidariedade entre a Santa Sé e as comunidades muçulmanas do mundo”. Sem deixar de reiterar, em ocasiões oficiais, “toda a estima e o profundo respeito pelos crentes muçulmanos”.

Bento foi o primeiro papa a rezar em um templo muçulmano, a Mesquita Azul, de Istambul [Turquia]. Assim como João Paulo II, beijou o Alcorão, um gesto que, na época, horrorizou o Pe. Samir, segundo o qual isso tinha provocado um “choque para muitos cristãos no Oriente Próximo”, quase como se isso significasse que “o Alcorão é divino”, o que, segundo o jesuíta, não estava nas intenções de Wojtyla.

Em outras palavras, Francisco está continuando uma estratégia internacional de longo prazo da Santa Sé, estratégia particularmente valiosa em uma fase em que se trata de tirar água cultural dos “peixes” do terrorismo islamita.

Ao mesmo tempo, Francisco reiterou que, na Terceira Guerra Mundial em pedaços, que está em curso, “toda ação unilateral que não inicie processos construtivos e compartilhados é, na realidade, um presente para os defensores dos radicalismos e da violência”. Uma advertência a Washington e a Moscou.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 1 de maio de 2017 – Internet: clique aqui.

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