«Quem em uma situação como esta, de injustiça social e repressão criminal, escolher o caminho da passividade e erguer a bandeira hipócrita da imparcialidade política torna-se cúmplice do mal.»

(Silvio José Báez – bispo-auxiliar de Manágua, Nicarágua, clamando contra a violência e repressão do governo de Daniel Ortega)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 5 de novembro de 2017

Solenidade de Todos os Santos – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 5,1-12a

Naquele tempo:
1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se,
2 e Jesus começou a ensiná-los:
3 «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.
5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
12a Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus.»


Todos Santos e Todos Pecadores

Para Deus, todos somos iguais, não há possível distinção. Que sentido há, então, marcar as diferenças entre uns e outros? A festa de «Todos os Santos», entendida como diferença de perfeição entre os seres humanos não tem muito sentido. Por isso mudei o título e coloquei: «Todos santos»; ainda que pudesse também ter posto «Todos pecadores» e seria exatamente igual, com certeza. Para Deus não há diferença alguma, porque nos ama a todos pelo que Ele é.

Se por santo entendemos um ser humano perfeito, significa admitir que já chegou à sua plenitude e, portanto, teriam acabado suas possibilidades de crescer. Porém, seu verdadeiro ser e, portanto, a sua perfeição, nada tem a ver com sua biologia ou com sua moralidade. A essa parte de nosso ser não afetam as limitações, sejam de qualquer tipo de ordem. É uma realidade que permanece sempre intacta. Descobrir, viver e manifestar esse verdadeiro ser, é o que poderíamos chamar SANTIDADE.

Quando cremos que para ser santo devemos anular os sentidos, reprimir os sentimentos, esmagar a inteligência e submeter a vontade, estamos exigindo de nós mesmos a mais torpe desumanidade. A plenitude do humano somente se alcança no divino, que já está em nós. Viver o divino que há em nós é a meta do humano. O verdadeiro santo não é o perfeito. O santo jamais descobrirá que o é. Por favor, que ninguém caia na tentação de aspirar à «santidade». Aspirai somente ser cada dia mais humanos, manifestando o AMOR que é Deus e está em vós.

Quando colocamos a santidade no extraordinário, saímos do marco de referência evangélico. Se crermos que santo é aquele que faz o que ninguém é capaz de fazer, ou deixa de fazer o que todos fazemos, já teremos caído na armadilha do ideal de perfeição grega, que durante séculos nos foi vendida como cristã. Quando um jovem diz a Jesus: «Bom Mestre». Jesus lhe responde: «Por que me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus!» (Mc 10,18). O que Jesus teria respondido se lhe tivesse chamado santo?

Todos somos santos, porque nosso verdadeiro ser é o que há de Deus em nós; mesmo que a imensa maioria não tenha descoberto isso ainda, e desse modo, tampouco podemos manifestar o que somos. Somos santos pelo que Deus é em nós, não pelo que nós somos para Deus. A crença generalizada de que a santidade consiste em exibir as virtudes morais, não tem nada a ver com o Evangelho. Recordemos o que disse Jesus: «As prostitutas e os pecadores vos precederão no Reino de Deus» (Mt 21,31). Para Jesus, é santo aquele que descobre o amor que chega a ele sem mérito algum de sua parte. A perfeição moral é consequência da santidade, não sua causa.

Devemos ter muito cuidado na hora de falar dos santos como «intercessores». Se por isso pensamos em um Deus que somente atende aos pedidos de seus amigos ou daqueles que são «recomendados», estamos ridicularizando Deus. Jesus diz em João 16,26-27: «não será necessário que eu interceda perante o Pai por vós, porque o próprio Pai vos ama». Não nos cansamos de dizer: Deus não nos ama porque somos bons ou por recomendação de um daqueles que o é, mas porque Ele é amor.

Pode-se entender a intercessão de uma maneira aceitável. Se descobrimos que essas pessoas que tomaram consciência de seu verdadeiro ser, são capazes de tornar Deus presente em tudo aquilo que fazem, podem ajudar-nos a descobri-lo e, portanto, podem aproximar-nos de Deus. Descobrir que eles confiaram em Deus apesar de seus defeitos, anima-nos a confiar mais em nós. Isso não somente valeria para os que convivem com eles, mas para todos aqueles que, depois de sua morte, tiveram notícia de «sua vida e milagres». Seria o caminho mais fácil para que crescesse o número dos «conscientes».
[...]
As bem-aventuranças nos revelam o verdadeiro rosto do «santo».
Quem é feliz? Quem é bem-aventurado?
Felicitar alguém porque é pobre, porque chora, porque passa fome, porque é perseguido, seria um sarcasmo para o comum dos mortais. Sobretudo, se o enganamos com a promessa de que o serão no além. Ter reservado a palavra «bem-aventurado» para os que morreram, é uma manipulação do Evangelho inaceitável. Aqui embaixo, o feliz é o rico, o poderoso, o que pode consumir de tudo sem fazer nada. Essa escala de valores é interrompida pelo Evangelho.

As bem-aventuranças não podem ser entendidas racionalmente, nem se podem explicar com argumentos. Quando Pedro se pôs a repreender Jesus porque não entendia sua morte, Jesus lhe respondeu: «Tu pensas como os homens, não como Deus» (Mt 16,23). Somente entrando na dinâmica da transcendência, podemos descobrir o sentido das bem-aventuranças. Somente descobrindo o que há de Deus em mim, poderei dar-me conta do verdadeiro valor. Para que uma pessoa seja feliz, temos de dar-lhe aquilo que considera o valor supremo para ela. Tenha o que tiver, se não o percebe como valor absoluto, não lhe fará feliz.

As bem-aventuranças não são um «sim» de Deus à pobreza e ao sofrimento, mas um estrondoso «não» de Deus às situações de injustiça, assegurando aos pobres o máximo que poderiam esperar, o amor que é Deus. N’Ele os pobres podem esperar, ter confiança. Não para um futuro distante, mas já, aqui e agora. Pode ser bem-aventurado o que chora, porém jamais aquele que faz chorar. Pode ser feliz o que passa fome, porém não aquele que tem culpa pela fome dos demais. Buscar a salvação nas seguranças terrenas é a melhor prova de que não se descobriu o amor de Deus. Ainda que nas piores circunstâncias imagináveis, as possibilidades de ser, ninguém pode lhe tirar.

Na celebração deste dia, não devemos pensar nos «santos» canonizados, nem nos que desenvolveram virtudes heroicas, mas em todos os homens e mulheres que descobrem a marca do DIVINO neles, e essa descoberta lhes conduz a maior HUMANIDADE. Não se trata de celebrar os méritos de pessoas extraordinárias, mas de reconhecer a presença de Deus, que é o único SANTO, em cada um de nós. O mérito será sempre de Deus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Fé Adulta – Acesso em: 04/11/2017 – Internet: clique aqui.

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