«Quem em uma situação como esta, de injustiça social e repressão criminal, escolher o caminho da passividade e erguer a bandeira hipócrita da imparcialidade política torna-se cúmplice do mal.»

(Silvio José Báez – bispo-auxiliar de Manágua, Nicarágua, clamando contra a violência e repressão do governo de Daniel Ortega)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

UM ABSURDO ! ! !

O Brasil desperdiça a riqueza de 26,4 milhões
de trabalhadores

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População,
Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE

“O Brasil não tem conseguindo criar empregos formais e de qualidade no padrão necessário, pois fez uma opção pela especialização regressiva, primarizando a economia e aumentando a dependência das commodities. Produzir petróleo, minério e soja não é suficiente para criar empregos decentes para a maioria da população brasileira”
Jovens são os mais atingidos pelo desemprego e subutilização da força de trabalho no Brasil

Os clássicos da economia política nos ensinam que o trabalho é uma indispensável fonte de riqueza das nações. A primeira frase do pioneiro livro de Adam Smith “A Riqueza das Nações”, de 1776, diz: “O trabalho anual de cada nação constitui o fundo que originalmente lhe fornece todos os bens necessários e os confortos materiais que consome anualmente”. Karl Marx (cujo ducentésimo aniversário de nascimento se comemorará em 05/05/2018) reafirmou a teoria do trabalho como a verdadeira fonte de valor e de geração de mais-valia. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) tem como uma das suas bandeiras centrais, atingir e universalizar a meta de: “Pleno Emprego e Trabalho Decente”.

Porém, o Brasil está na contramão da história e mantém fora do círculo de riqueza e bem-estar 26,4 milhões de pessoas, que estavam desempregadas ou subutilizadas no 4º trimestre de 2017, segundo dados da PNAD contínua do IBGE.

O gráfico abaixo mostra a taxa de ocupação e as taxas combinadas de subutilização da força de trabalho no Brasil do Brasil entre 2012 e 2017. Nota-se que a taxa composta de subutilização da força de trabalho (medida mais ampla do desperdício do potencial produtivo do país) era de 20,9% no primeiro trimestre de 2012, caiu para o nível mais baixo de 14,8%, no 3º trimestre de 2014 e subiu durante a recessão econômica, atingindo 22,2% no 4º trimestre de 2016 e alcançando o pico para o fim de ano, de 23,6% no 4º trimestre de 2017.

O incrível é que entre o final de 2016 e o final de 2017 a taxa combinada de subutilização da força de trabalho aumentou, mesmo que a dita retomada da economia. No ano passado, segundo o Banco Central, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), registrou uma expansão de 1,04% na comparação com 2016. Ou seja, o Brasil saiu da recessão, mas o emprego não cresceu e a desocupação (em sua medida mais ampla) aumentou.

É a primeira vez na história brasileira que uma retomada da economia,
depois de uma recessão, trouxe mais desocupação.

A publicação do IBGE explica a metodologia adotada (ver referência abaixo) e, de maneira simplificada, a “Taxa composta da subutilização da força de trabalho” traz no numerador – Subocupados por insuficiência de horas + desocupados + força de trabalho potencial; e no denominador – Força de Trabalho ampliada.

O gráfico abaixo mostra que, para o Brasil, no 4º trimestre de 2017:
* a taxa de desocupação foi de 11,8%,
* a taxa combinada de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas foi de 18%,
* a taxa combinada de desocupação e força de trabalho potencial foi de 17,8% e
* a taxa composta da subutilização da força de trabalho foi de 23,6%.

As mesmas taxas para a região Nordeste foram muito mais altas, sendo que a taxa composta da subutilização da força de trabalho foi de impressionantes 34,6%. Ou seja, mais de um terço dos potenciais trabalhadores do Nordeste não encontram postos de trabalho para contribuir com a riqueza do Brasil. As menores taxas de desocupação encontram-se na região Sul. Evidentemente, a região Sul possui uma renda per capita maior do que a região Nordeste.

A tabela abaixo mostra a taxa composta da subutilização da força de trabalho para as regiões e as Unidades da Federação (UF). A menor taxa é encontrada em Santa Catarina que tinha um desperdício da força de trabalho de 11,3% no 1º trimestre de 2012 e caiu para 10,7% no 4º trimestre de 2017. Já o Piauí tinha uma taxa elevada, de 35,2%, no 1º trimestre de 2012 e subiu ainda mais para 40,7% no 4º trimestre de 2017. Ou seja, de cada 10 potenciais trabalhadores do Piauí, 4 estavam fora do círculo de geração de riqueza. Se a situação geral do Brasil e do Nordeste é crítica, pior ainda é para os JOVENS que apresentam taxas muito mais elevadas.

Portanto, o Brasil não tem conseguindo criar empregos formais e de qualidade no padrão necessário, pois fez uma opção pela especialização regressiva, primarizando a economia e aumentando a dependência das commodities. Produzir petróleo, minério e soja não é suficiente para criar empregos decentes para a maioria da população brasileira. Manter baixas taxas de poupança e altos níveis de endividamento reduz as taxas de investimento e sem renovação da capacidade produtiva é impossível gerar empregos de qualidade. Com o intenso e precoce processo de desindustrialização, as jovens gerações – uma parte daqueles que foram às ruas em junho de 2013 – são as mais prejudicadas.

Políticas de transferência de renda ajudam a minorar os problemas da extrema pobreza, mas unicamente o pleno emprego com trabalho decente poderá fazer o país sustentável em termos econômicos. Somente empregos produtivos geram riqueza. Com a falta de oportunidades decentes no mercado de trabalho, o Brasil está criando uma geração perdida, pois cresce o número de desempregados e o número dos chamados nem-nem-nem (jovens que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego).

Jovens sem perspectiva de melhoria de vida são presas fáceis para o crime e possuem
alta probabilidade de atuarem como atores ou vítimas da violência.

Sem trabalho o Brasil não tem futuro. Em termos populacionais e de estrutura etária, o país vive o seu melhor momento do bônus demográfico. Nunca houve tantas pessoas em idade de trabalhar no país. Mas o desperdício do potencial de 26,4 milhões de trabalhadores é o mesmo que jogar fora nossa janela de oportunidade e manter a população na armadilha da renda média.

Baixe:

Indicadores IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Divulgação Especial Medidas de Subutilização da Força de Trabalho no Brasil, IBGE, RJ, 23/02/2018, clique aqui.

Fonte: EcoDebate – Site de informações, artigos e notícias socioambientais – Segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018 – Internet: clique aqui.

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