«Em terra de Maria-vai-com-as-outras cada um sabe, ou deveria saber, onde sua inteligência o acompanha ou o abandona.»

(Henrique Musashi [44 anos] – poeta e artista cearense)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 10 de março de 2018

4º Domingo da Quaresma – Ano B – Homilia

Evangelho: João 3,14-21

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos:
14 Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado,
15 para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna.
16 Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.
17 De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele.
18 Quem nele crê, não é condenado, mas quem não crê, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
19 Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más.
20 Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas.
21 Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

APROXIMAR-NOS DA LUZ

Pode parecer uma observação excessivamente pessimista, porém o certo é que somos capazes de viver longos anos, sem ter a mínima ideia do que está acontecendo em nós. Podemos seguir vivendo dia após dia sem querer ver o que, de verdade, move a nossa vida e quem é que, dentro de nós, toma realmente as decisões.

Não é manifestação de indignidade ou falta de inteligência. O que acontece é que, de maneira mais ou menos consciente, intuímos que olhar-nos com mais luz nos obrigaria a mudar. Mais uma vez cumprem-se em nós aquelas palavras de Jesus: «Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas». Assusta-nos ver-nos tal como somos. Sentimo-nos mal quando a luz penetra em nossa vida. Preferimos continuar cegos, alimentando dia a dia novos enganos e ilusões.

O mais grave é que pode chegar um momento no qual, estando cegos, acreditemos ver tudo com clareza e realismo. Que fácil é, então, viver sem conhecer a si mesmo nem perguntar-se jamais «Quem sou eu?». Crer ingenuamente que eu sou essa imagem superficial que tenho de mim mesmo, fabricada de recordações, experiências, medos e desejos.

Como é fácil, também, crer que a realidade é justamente tal como eu a vejo, sem ser consciente de que o mundo exterior que eu vejo é, em grande parte, reflexo do mundo interior que eu vivo e dos desejos e interesses que alimento. Como é fácil também, acostumar-nos a tratar não com pessoas reais, mas com a imagem ou etiqueta que delas eu mesmo fabriquei.

Aquele grande escritor que foi Hermann Hesse, em seu pequeno livro Creio-me, repleto de sabedoria, escrevia: «O homem que contemplo com temor, com esperança, com cobiça, com propósitos, com exigências, não é um homem, é somente um turvo reflexo de minha vontade».

Provavelmente, na hora de querer transformar nossa vida, orientando nossos passos por caminhos mais nobres, o mais decisivo não é o esforço por mudar. A primeira atitude é abrir os olhos. Perguntar-me sobre o que ando buscando na vida. Ser mais consciente dos interesses que movem minha existência. Descobrir o motivo último de meu viver diário.

Podemos levar um tempo para responder a estas perguntas:
* Por que fujo tanto de mim mesmo e de Deus?
* Por que, em última análise, prefiro viver enganado sem buscar a luz?
Temos de escutar as palavras de Jesus: «quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus».

PERGUNTAS FUNDAMENTAIS

Eliminado aquele Deus «infantil» no qual acreditaram, desde os primeiros anos de sua infância, hoje são muitas as pessoas que não acreditam mais em nada. Não é que rejeitem Deus. É que não sabem o que fazer para encontrar-se com Ele. Surgem, então, perguntas elementares que precisam ser respondidas.

Deve-se fazer algo para crer?
Sim. Não basta uma atitude passiva ou frívola. Tampouco, é suficiente «deixar-se levar» pela tradição religiosa de nossos pais. É necessário buscar um sentido último para o mistério de nossa vida. Porém, o que fazer concretamente? ESTAR MAIS ATENTOS às interrogações, anseios e apelos que brotam constantemente de nosso interior.

Pode-se crer tendo dúvidas?
Sim. Para ser crente [= temente a Deus] não é necessário resolver, com certeza, todas as interrogações e dúvidas que surgem em nosso interior. O decisivo é buscar honestamente a verdade de Deus em nossa vida. Não é mais crente aquele que com mais segurança fala acerca dos «dogmas e da moral», mas quem mais se esforça para VIVER NA VERDADE diante de Deus.

Crer é simples ou complicado?
Crer é tão simples e, ao mesmo tempo, tão complicado como é o viver, o amar ou o ser humano. O próprio do crente é que NÃO SE CONTENTA COM VIVER DE QUALQUER MANEIRA ESTA VIDA TÃO COMPLEXA E ENIGMÁTICA, e que encontra precisamente em sua fé o melhor estímulo e a melhor orientação para vivê-la intensamente.

Pode-se obrigar alguém a crer?
Não. Ninguém pode ser forçado, exteriormente, para que creia. Cada um é responsável pela sua própria vida e pelo sentido que deseje dar à sua vida e ao seu morrer. O que todos podemos fazer é dialogar entre nós, compartilhar e contrastar nossas próprias experiências, e ajudar-nos a ser sempre mais humanos.

Crer não é questão de temperamentos?
Certamente, há pessoas que parecem «alérgicas» a tudo que é religioso e pessoas que tendem a crer facilmente no «invisível». Sem dúvida, a sensibilidade e a estrutura pessoal de cada um podem predispor a adotar uma atitude ou outra na vida. Porém, a fé não é assunto de pessoas «crédulas» ou «sentimentais». TODO HOMEM OU MULHER PODE ABRIR-SE CONFIANTEMENTE AO MISTÉRIO DE DEUS, ainda que cada um o faça a partir de seu próprio temperamento.

Há algum método para aprender a crer?
Se por método entende-se um programa organizado de aprendizagem, como por exemplo, para aprender uma língua, não há métodos nem receitas para garantir a fé.  Porém, a aprendizagem da fé, sim, exige umas atitudes de busca e de honestidade; uma vontade de coerência e fidelidade; a dedicação de um certo tempo.

Em todo caso, devemos escutar com atenção as palavras de Jesus: «quem age conforme a verdade aproxima-se da luz». Todo aquele que enfrenta o seu viver cotidiano com uma atitude de honestidade e verdade interior, não está distante da luz.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B – Internet: clique aqui.

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