«Somente a turba e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo. As massas precisam ser ganhas por propaganda.»

(Hannah Arendt [1906-1975] – filósofa alemã de origem judaica, uma das mais influentes do séc. XX)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 21 de abril de 2018

4º Domingo de Páscoa – Ano B – Homilia

Evangelho: João 10,11-18

Naquele tempo, disse Jesus:
11 «Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
12 O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa.
13 Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.
14 Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem,
15 assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas.
16 Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
17 É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente.
18 Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi do meu Pai».

ENZO BIANCHI
Monge, teólogo e biblista italiano
Fundador da Comunidade de Bose – Itália

JESUS, O PASTOR SANTO, BELO E BOM

Nos trechos do Evangelho que a Igreja (depois daqueles sobre as manifestações do Ressuscitado) nos propõe para o Tempo Pascal, sempre tirados do quarto Evangelho, é o Jesus Cristo ressuscitado que fala à sua comunidade, revelando sua identidade mais profunda, identidade que vem de Deus, seu Pai.

O Senhor vivo para sempre está mais do que nunca autorizado a se apresentar com o Nome próprio de Deus: “Eu sou” (Egó eimi – em grego). Quando Moisés pedira a Deus que lhe falava da sarça ardente para lhe revelar seu Nome, Deus respondera: “Eu sou” (Ex 3,14), Nome inefável, nome indizível inscrito no tetragrama YHWH.

O Cristo vivo se revela, portanto, como “Eu sou” e especifica: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,35); “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8, 12); “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10,7); “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25); “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); “Eu sou a videira” (Jo 15, 5).

No nosso trecho, depois de ter se apresentado como a porta do redil, Jesus declara por duas vezes: “Eu sou o pastor bom e belo” (kalós – grego), resumindo em si a imagem de todos os pastores dados por Deus ao seu povo (Moisés, Davi, os profetas), mas também a imagem de Deus mesmo, invocado e louvado como “Pastor de Israel” (Sl 80,2), dos crentes nele.

Jesus tinha evocado várias vezes a imagem do pastor e do rebanho por ele apascentado (cf. Mt 9,36; 10,6; 15,24 etc.), mas agora, com essa revelação, ele fala de si mesmo, proclama-se Messias e Enviado por Deus para conduzir a humanidade à vida plena, tendo vindo “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

O bom pastor versus o pastor assalariado/funcionário

O bom pastor é o oposto do pastor assalariado, que faz esse ofício apenas por ser pago, que olha para a recompensa pelo trabalho, mas que, na verdade, não ama as ovelhas: estas não lhe pertencem, não são destinatárias do seu amor e não importam nada para ele. Prova disso é o fato de que, quando o lobo chega, ele abandona as ovelhas e foge: quer salvar a si mesmo, não as ovelhas que lhe são confiadas!

Quem é o pastor mercenário ou assalariado? É um funcionário, é aquele que cumpre a tarefa pelo salário que recebe ou simplesmente porque ser pastor é considerado uma honra que lhe provoca reconhecimento e também lhe dá glória. Mas é preciso dizer: o pastor assalariado é facilmente reconhecível no cotidiano, porque está longe das ovelhas e não as ama. Basta-lhe governá-las!

Pelo contrário, o amor do bom pastor pelas suas ovelhas provoca até que ele se exponha, deponha sua vida pela salvação delas. Ele não só gasta a sua vida estando no meio das ovelhas, guiando o rebanho, conduzindo-o a pastos onde ele possa se saciar; mas também pode acontecer que a ameaça à vida do rebanho se torne ameaça à própria vida do pastor. Este é o momento em que o bom pastor se revela.

Essa solidariedade, esse amor, porém, só são possíveis se o pastor não é apenas um assalariado, mas também se conhece as suas ovelhas com um conhecimento particular que o leva a discernir e a reconhecer a identidade de cada uma delas: um conhecimento penetrante que é gerado pela proximidade, pela assídua custódia do rebanho.

O bom pastor ser faz próximo

Sim, a primeira qualidade do pastor autêntico é a proximidade às ovelhas: ele está com elas noite e dia, nos desertos e nos prados, debaixo do sol e debaixo da chuva. O Papa Francisco falou de “proximidade da cozinha”, isto é, de estar lá onde “se cozinham” as coisas decisivas, aquelas que importam para cada ovelha, para cada rebanho; ele falou de um pastor que deve ter “o cheiro das ovelhas” sobre ele. Imagens fortes, que indicam a urgência de que os pastores não estejam acima nem às margens, mas “no meio”, em plena solidariedade com as ovelhas.

O bom pastor conhece e se deixa conhecer

Jesus tenta explicar essa comunhão recíproca evocando até mesmo o conhecimento entre ele e o Pai, que o enviou e do qual tenta realizar a vontade dia após dia: “Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai”.

Há, nessas palavras de Jesus, a essência do cuidado pastoral: um conhecimento penetrante recíproco entre pastor e ovelha. O pastor não só conhece as ovelhas uma a uma, em uma relação pessoal e em um vínculo de amor, mas também as ovelhas conhecem o pastor, sua vida, seu comportamento, seus sentimentos, suas ansiedades e suas alegrias.

Porque o pastor é seu vizinho, seu próximo. As ovelhas não conhecem apenas a voz do pastor que ouvem quando ele as chama, mas também conhecem sua presença, às vezes silenciosa, mas que sempre lhes dá segurança e paz.

Tal conhecimento-comunhão certamente é o mesmo vivido por Jesus nos seus dias terrenos, dentro de sua comunidade, com seus discípulos e suas discípulas; mas também é uma comunhão que transcende os tempos, pois será vivida na história entre o Ressuscitado e aqueles que ele atrair para si, chamando-os de outros redis.

Tendo vindo para todos, não só para Israel, e querendo levar a todos à plenitude da vida, Jesus é consumido pelo desejo de que haja um único rebanho sob um pastor e que todos os filhos de Deus dispersos sejam reunidos (cf. Jo 11,52). Precisamente no evento da cruz, se manifestará a glória de Jesus como glória de quem amou até a morte e, então, elevado da terra, ele atrairá todos para si (cf. Jo 12,32) e dará início à reunião dos povos ao seu redor, até o cumprimento escatológico [= do fim dos tempos], quando “o Cordeiro será seu pastor” (Ap 7,17).

Jesus não é um pastor como os pastores de Israel, mas, precisamente por ser “a luz do mundo” (Jo 8,12) e “o Salvador do mundo” (Jo 4,12) – tendo Deus amado o mundo (cf. Jo 3,16) –, ele também é o pastor de toda a humanidade, como Deus foi confessado e testemunhado.

Depois dessa autorrevelação, eis outras palavras com que Jesus expressa sua intimidade, sua comunhão com Deus: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente”.

Por que o Pai ama Jesus? Porque Jesus realiza sua vontade, aquela vontade que é amor até o dom da vida. Em Jesus, há esse amor “até o extremo” (em grego: eis télos: Jo 13,1), até o dom da vida, justamente, e há a fé de poder recebê-la novamente do Pai.

Preste-se atenção aqui à tradução, que pode comprometer o sentido das palavras de Jesus. Jesus não diz: “O Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois retomá-la novamente”, mas sim “para recebê-la novamente” (o verbo lambáno, no quarto Evangelho, sempre significa “receber”, não “retomar”). A oferta da vida por parte de Jesus está no espaço da fé, não da asseguração antecipada!

O mandamento do Pai é que ele gaste, ofereça a vida; e a promessa do Pai é de que, assim, ele poderá recebê-la, porque “quem perder sua vida a encontrará novamente, mas quem quiser salvá-la, a perderá” (cf. Mc 8,35 e par.; Jo 12,25). Ninguém tira a vida de Jesus, ninguém a rouba, e sua morte não é nem um destino (uma necessidade) nem um acaso (deu tudo errado...): não, trata-se de um dom feito na liberdade e por amor, um dom do qual ele foi consciente ao longo de toda a sua vida, dizendo todos os dias o seu “sim” ao amor.

Nas palavras de Jesus, o Pai aparece como a origem e o fim de toda a sua atividade: dele vem o mandamento, que nada mais é do que o mandamento de amar, vivido por Jesus na sua descendência como Palavra feita carne (cf. Jo 1,14) e na sua vida humana no mundo. E a morte de Jesus não é apenas o termo do êxodo deste mundo, mas é um ato consumado (“Está consumado!”: Jo 19,30), o termo último do fato de ele viver o amor ao extremo.

Jesus dá a sua vida até a morte, mas não com o desejo de recuperar a vida como prêmio, de retomá-la como um tesouro que lhe cabe ou como um mérito pela oferta de si mesmo, mas sim na consciência de que o Pai lhe dá e que ele a acolherá porque “o amor basta ao amor” (Bernardo de Claraval). Jesus não deu a vida por razões religiosas, sagradas, mistéricas, mas porque, quando amamos, somos capazes de dar aos amados a nós mesmos, tudo o que somos.

No túmulo de um cristão do fim do século II, um certo Abércio, lemos a seguinte inscrição: “Sou o discípulo de um pastor santo que tem olhos grandes; seu olhar alcança a todos”. Sim, Jesus é o pastor santo, bom e belo, com olhos grandes, que alcançam a todos, até a nós, hoje. E, por esses olhos, nos sentimos protegidos e guiados.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 20 de abril de 2018 – Internet: clique aqui.

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