«Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.»

(Albert Einstein [1879-1955] – físico teórico alemão, um dos mais ilustres cientistas do mundo)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 29 de abril de 2018

A VIDA ATRIBULADA DE ADÃO E EVA

Antonio Gonçalves Filho

Stephen Greenblatt está publicando no Brasil seu livro
«Ascensão e Queda de Adão e Eva»
 
STEPHEN GREENBLATT
No prólogo de seu livro Ascensão e Queda de Adão e Eva, o teórico e crítico literário norte-americano Stephen Greenblatt pergunta por que uma história que ocupa pouco mais de uma página e meia da Bíblia “se impõe com tanta eficiência e tanta facilidade”. Ele mesmo responde: “Porque nós a ouvimos quando crianças e nunca mais a esquecemos”. Greenblatt não só não a esqueceu como decidiu escrever um livro sobre nossos parentes mais distantes, concluindo que o primeiro casal da humanidade “é o epítome do nosso poder de contar histórias”.

Greenblatt conversou por telefone com a reportagem do Aliás, esclarecendo que seu ensaio sobre Adão e Eva não pretende ser um manifesto anticlerical ou um resumo de como essa história foi absorvida pela cultura judaica, muçulmana e cristã. Antes, é um estudo sobre como ela foi interpretada por homens religiosos como o bispo africano Santo Agostinho, que deu à história um peso ligado ao sexo e ao pecado, ou por escritores como Milton, autor de O Paraíso Perdido, que fez do texto bíblico um pretexto para discutir valores humanos. Ou ainda por artistas como o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), o mais popular entre os renascentistas nórdicos, que revolucionou a arte europeia ao criar, em 1507, um Adão inspirado no Apolo Belvedere e uma Eva cercada por quatro bichos que representam a ideia medieval dos quatro temperamentos humanos.

Assim como Dürer deixou o espírito científico de lado para definir esses temperamentos por figuras de animais que cercam Eva no jardim do Éden (um gato colérico, um coelho sanguíneo, um melancólico alce e um fleumático boi), Greenblatt argumenta que a literatura parece ter melhores ferramentas para explorar a história bíblica que a ciência.
"Adão e Eva" de Albrecht Dürer (1471-1528)

As fontes literárias analisadas por Greenblatt são inúmeras. “Para mim, essa história de Adão e Eva se parece com um conto de Kafka”, diz ele, definindo a narrativa bíblica como paradoxal. Em seu livro, ele começa com mitos sumérios que remetem à história do paraíso perdido, como o épico Gilgamesh, que trata igualmente de iniciação sexual e da aceitação da mortalidade, e termina com uma pesquisa sobre chimpanzés em Uganda.

“Mas, no lugar de mitos mesopotâmicos, o que nós herdamos foi o Gênesis”, observa o crítico, que se ocupa demoradamente no estudo de Agostinho sobre o primeiro livro da Bíblia. Foi por meio dele, argumenta Greenblatt, que a história de Adão e Eva “deixou de ser alegoria pura para se transformar em verdade literal”. Com Agostinho, conclui o autor, a queda do casal se torna a fonte do pecado original, projetando a própria luta do santo para manter a castidade e resgatar o estado de inocência do jardim do Éden.

Greenblatt não despreza o viés psicanalítico ao falar também de John Milton. Após descrever a rebelião dos anjos liderados por Lúcifer, que por isso perdeu o paraíso, Milton entra na vida dos pais da humanidade e, segundo Greenblatt, projeta uma visão do Éden que nem passou pela cabeça de Agostinho – o crítico vê no poema sinais de um erotismo incontrolado. “Parece claro que Milton imaginava o paraíso como um lugar em que Adão e Eva praticavam sexo desenfreadamente”. O que era um casal idílico, que só teria descoberto o sexo depois da queda, vira um casal de uma carnalidade extremamente real.

No cerne da história bíblica, continua Greenblatt, está “a escolha de comer o fruto proibido”, uma rebelião contra um poder que ele não hesita em chamar de “tirânico” – “que espécie de Deus proibiria suas criaturas de conhecer a diferença entre o bem e o mal?”, pergunta o crítico no prólogo, transferindo a responsabilidade da incômoda questão para os céticos que a Igreja perseguiu por tal ousadia. O Iluminismo, conclui Greenblatt, amplificou as vozes dissonantes desses céticos, entre os quais ele inclui Darwin e o escritor norte-americano Mark Twain. Em 1906, Twain, num sarcástico exercício de imaginação literária, publicou Os Diários de Eva, em que a primeira mulher conta como foi criada, explorou o Éden com Adão e dele foi expulsa com o companheiro. Na época do seu lançamento, o livro de Twain, que trazia 55 ilustrações do casal como veio ao mundo, foi considerado “pornográfico” por uma biblioteca americana.

Greenblatt cita ainda o livro de Saramago, Caim, como um dos seus preferidos sobre o Gênesis. E não esquece Spinoza, que, ao contrário de Agostinho, não acreditava ser a natureza humana corrompida a ponto de impedir a reconquista do paraíso. Eva foi frequentemente acusada de ludibriar o primeiro homem – em um livro recentemente lançado, O Martelo das Feiticeiras, dois frades dominicanos do século 15 acusam a mulher, e não o diabo, de ter enganado o homem e provocado a ruína humana, lembra Greenblatt. A história bíblica, enfim, antecipou temas contemporâneos como transgressão, diferença sexual e exílio. Há autores, entre eles uma freira do século 17, Arcangela Tarabotti, que condenou a difamação de Eva como um exemplo de “tirania patriarcal”?

O crítico americano não chega a tanto. Diz que Eva, antes de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “não entendia que estava sendo dominada por Adão, o que só veio a compreender depois de transgredir”. Greenblatt foi observar a vida dos chimpanzés num parque em Uganda e topou com inocentes vivendo no jardim do Éden. “Os chimpanzés têm algo de Adão e Eva antes da Queda”, afirma. “Embora não saibam a diferença entre o bem e o mal, em contrapartida são livres e sem culpa”, conclui.

Greenblatt lança lá fora, no próximo dia 8, mais um livro sobre Shakespeare, sobre quem escreveu o antológico Como Shakespeare se Tornou Shakespeare. Em Tyrant, o autor analisa os personagens mais doentios do bardo, de Coriolano a Ricardo III, passando por Macbeth, para entender a obsessão tirânica pelo poder na Inglaterra.

L I V R O

Título: Ascensão e Queda de Adão e Eva
Autor: Stephen Greenblatt
Tradutor: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras (São Paulo)
Páginas: 392
Preço de capa: R$ 69,90

Fonte: O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 29 de abril de 2018 – Pág. E3 – Internet: clique aqui.

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