«A prática da justiça constitui os SACRIFÍCIOS que fazemos a Deus; o afastamento dos crimes, a forma com que nos RECONCILIAMOS COM DEUS; tirar um homem do perigo que o ameaça é a VÍTIMA MAIS PRECIOSA QUE PODEMOS IMOLAR A DEUS, de forma que, quanto mais se é justo, mais se é religioso»

(Minúcio Félix [viveu entre 150 e 270] – primeiro apologista cristão latino)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Católicos, é hora de agir!

América Latina. Catolicismo em queda livre?

Religión Digital
13-01-2018

Sacudida por numerosos escândalos de pedofilia,
a Igreja católica latino-americana sofre uma queda acentuada,
que nem mesmo Francisco – o primeiro Papa da Pátria Grande – é
capaz de interromper
Romaria de Nossa Senhora Aparecida
Passo Fundo (RS) - 12 de outubro de 2014

Os fiéis que abandonam o catolicismo em debandada vão às igrejas evangélicas ou se lançam nos braços do agnosticismo e do ateísmo.

Até mesmo a imagem do Papa Francisco se deteriorou na América Latina, onde o catolicismo perdeu fiéis diante do auge da religião evangélica e de um acelerado processo de secularização, de acordo com um levantamento realizado pelo Latinobarómetro e apresentado na última sexta-feira em Santiago do Chile.

O estudo mostra a evolução da religião em 18 países latino-americanos entre 1995 e 2017 e é publicado às vésperas da visita que o pontífice fará ao Chile e ao Peru, de 15 a 21 de janeiro.

“O destaque é a forte queda do catolicismo e o forte crescimento daqueles que declaram não ter nenhuma religião, que se dizem agnósticos ou ateus”, disse a diretora do Latinobarómetro, Marta Lagos.

De acordo com o estudo, os latino-americanos avaliam o Papa Francisco com um 6.8, uma nota inferior aos 7.2 que recebeu em 2013, quando assumiu o cargo.

A média 6.8 para a região contém diferenças por países. Aqueles que avaliam mais positivamente o Pontífice são o Paraguai (8.3), o Brasil (8.0) e o Equador e a Colômbia (7.5), ao passo que o Uruguai (5.9) e o Chile (5.3) estão no extremo oposto.

Ao reunir as respostas de acordo com a religião professada pelos inquiridos, os católicos dão nota 7.7 ao Papa, os evangélicos 5.1 e os ateus ou agnósticos 5.3.

Os países onde há mais pessoas que se declaram católicas são o:
* Paraguai (89%),
* o México (80%),
* o Equador (77%),
* o Peru (74%),
* a Colômbia (73%) e
* a Bolívia (73%).
Catedral Metropolitana de Assunção - Paraguai

65% dos entrevistados nos 18 países da América Latina dizem que confiam na Igreja. Os países onde a Igreja tem mais crédito são Honduras (78%), Paraguai (77%) e Guatemala (76%), enquanto no Chile apenas 36% dos cidadãos confiam na instituição. [Leia matéria abaixo que explica essa desconfiança dos chilenos na Igreja Católica]

De acordo com Marta Lagos, o ponto de ruptura no caso chileno é a condenação por abusos sexuais do influente sacerdote Fernando Karadima, que o Vaticano sentenciou em 2011.

Antes que o escândalo fosse descoberto, a confiança dos chilenos na Igreja católica era de cerca de 60%, mas em 2011 caiu fortemente para 38%.

O número de latino-americanos que se declaram católicos caiu de maneira paulatina durante as últimas duas décadas. Se, em 1995, os católicos representavam 80%, essa porcentagem caiu para 59% em 2017, de acordo com a pesquisa.

No extremo oposto, existem sete países onde a Igreja católica já representa menos da metade da população:
* República Dominicana (48%),
* Chile (45%),
* Guatemala (43%),
* Nicarágua (40%),
* El Salvador (39%),
* Uruguai (38%) e
* Honduras (37%).
Procissão de Domingo de Ramos em Honduras - 2015

Em países como Honduras e Guatemala, o declínio acentuado dos católicos está diretamente relacionado ao surgimento das Igrejas evangélicas, que se tornaram o credo majoritário.

No Chile e no Uruguai, por outro lado, explica-se pelo aumento da população que não professa nenhuma religião, que se diz ateia ou agnóstica. No Uruguai, este grupo representa 41% da população e no Chile 38%, de acordo com a pesquisa.

Nessa velocidade, dentro de 10 anos, o número de países latino-americanos que terão a religião católica dominante será uma minoria”, disse Marta Lagos.

A diretora do Latinobarómetro acredita que o desencanto geral com a religião católica na América Latina deve-se ao declínio da pobreza e ao surgimento de uma classe média mais individualista que se afasta das instituições.

Marta Lagos destacou que a eleição de Francisco, em 2013, teve um “efeito positivo” no catolicismo e que ele tem o carisma necessário para recuperar uma parte da fé perdida.

Na sua opinião, as visitas que fez na região e a próxima viagem ao Chile e ao Peru refletem a preocupação do pontífice de restaurar a influência que a Igreja perdeu nos últimos anos.

A pesquisa do Latinobarómetro incluiu entrevistas pessoais com 1.200 pessoas de países sul-americanos e do México, e mil da América Central, com uma margem de erro entre 2,8% e 3%.

Traduzido do italiano por André Langer.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 – Internet: clique aqui.

Chile:
A visita de Francisco não consegue entusiasmar
a população

Federico Grünewald
Jornal «La Nación»
14-01-2018

Os organizadores da visita de Francisco cometeram erros visíveis
como excluir grupos de base dos encontros ou pedir dinheiro em empréstimos bancários para financiar o alto custo da visita,
que foi modificada em duas ocasiões
Pe. Mariano Puga - bairro La Legua - Santiago (Chile)

Mariano Puga é um sacerdote chileno que atua em La Legua, um dos bairros mais estigmatizados pela pobreza e o tráfico de drogas de Santiago. Há poucos dias, quando lhe perguntaram que tipo de Igreja o Papa irá encontrar, assim que aterrissar no Chile, nesta segunda-feira, para sua nova visitação regional, ele disse:
«Como a mais sem-graça da história.
É uma Igreja que se esqueceu de Jesus, do Evangelho, e dos pobres».

Hoje, a segunda visita de um Papa ao país - a primeira foi a de João Paulo II, em 1987 - entusiasma pouco ou quase nada os chilenos, que:
* percebem a Igreja como hierárquica e elitista,
* oposta a reformas como o direito ao aborto ou ao matrimônio igualitário,
* com pouca sintonia com os jovens e
* uma credibilidade em xeque devido a dezenas de escândalos de abuso sexual.

De acordo com uma pesquisa feita pelo instituto Latinobarómetro, na região se encontram os chilenos que menos valorizam Jorge Bergoglio (5,3 contra uma média de 6,8, no Chile).

Além disso, os organizadores da visita de Francisco cometeram erros visíveis como:
* excluir grupos de base dos encontros ou
* pedir dinheiro em empréstimos bancários para financiar o alto custo da visita, que foi modificada em duas ocasiões.

De fato, essa foi uma das críticas manifestadas nos panfletos contra a visita papal que apareceram nos últimos dias em Santiago, palco de ataques a paróquias que geraram preocupação nas autoridades e uma atmosfera fria para a visita.

O último erro foi explicado por Paulo Álvarez, um historiador que preside a Comissão de Direitos Humanos de La Legua. Para ver o Papa no Chile, nas três missas abertas e massivas que ocorrerão (em Santiago, Temuco e Iquique), os peregrinos tinham de se registrar pela internet e obter uma entrada gratuita.

«O desejo de censurar, conter e controlar tem sido excessivo e caricaturou a mensagem que Francisco pode nos trazer», expressou Álvarez, que está esperançoso de que o Papa, com seu carisma e seus gestos, finalmente venha a conseguir fazer com que os chilenos se apaixonem.

Chile: atacaram quatro igrejas com bombas caseiras

Anteontem, a comissão organizadora anunciou que em uma das missas, a de Iquique, na Praça Lobito, não serão requisitados os ingressos online, porque a capacidade é para 380 mil pessoas e apenas 150 mil ingressos haviam sido distribuídos. Isso confirmou a indiferença das pessoas para com a Igreja Católica e seu líder máximo.

Em números, a única coisa que favorece esta religião no país são os dados entregues aos jornalistas que cobrirão a visita, indicando que há 13,329 milhões de católicos no Chile, ou seja, 74% da população. A porcentagem contrasta visivelmente com a Pesquisa Bicentenário 2014, que afirma que 59% das pessoas se declararam católicas, e com a pesquisa Latinobarómetro, publicada esta semana, onde o Chile aparece com 45% de católicos, um valor baixo em comparação com outros países da região.

Rodolfo Olivera, pastor da Igreja Luterana de Valparaíso e um dos líderes religiosos que praticam o ecumenismo, disse: «Acredito que as pessoas não criaram uma expectativa com a visita do Papa, como foi criada com João Paulo II, que trouxe uma mensagem de esperança. Francisco deixou de ser crível quando suas ações foram percebidas como orientadas para o acobertamento de padres abusadores», acrescentou.
Pe. Fernando Karadima - ex-pároco de El Bosque em Santiago (Chile) - acusado e condenado por pedofilia

O caso mais grave é o de Fernando Karadima, um sacerdote com influência na elite chilena, no final do século passado, e que está entre os nomes que a ONG Bishop Accountability vinculou a 75 casos de pedofilia no Chile.

Juan Barros, nomeado por Francisco como Bispo de Osorno há três anos, foi mencionado como o protetor de Karadima.

Os católicos querem sua renúncia e formaram o movimento Leigos de Osorno (Laicos de Osorno, NdT), que protestará durante a passagem do papamóvel, em Santiago, porque embora tenha sido censurada a carta divulgada esta semana, em que Francisco recomendava um ano sabático a Barros, o único conteúdo sobre a temática que circulou em 2016 foi um vídeo do Pontífice na Praça de São Pedro. Na gravação ele respondia a alguns peregrinos: «Osorno sofre, sim, por ser tola, porque não abre seu coração ao que Deus diz e se deixa levar pelas mentiras ditas por toda essa gente [...] Pensem com a cabeça e não se deixem influenciar por todas essas pessoas terríveis que armaram a coisa toda».
Dom Juan Barros - Bispo de Osorno (Chile)
Nomeação contestada devido suas ligações com Pe. Fernando Karadima

Outra questão espinhosa: o acesso da Bolívia ao mar

Outro assunto espinhoso para o Papa durante a sua estadia no Chile, que terminará na próxima quinta-feira, é a questão do acesso da Bolívia ao mar. Ele poderia fazer um apelo às autoridades chilenas e bolivianas para que negociem sobre a reclamação marítima de La Paz, segundo especula a imprensa chilena há semanas. A mídia local sustenta que essa é a razão pela qual o governo de Michelle Bachelet evitou convidar formalmente os líderes de países vizinhos antes da chegada de Francisco.

Anteontem, o presidente boliviano, Evo Morales, afirmou através do Twitter que o Papa se comprometeu com a demanda de buscar uma saída ao mar para a Bolívia, durante sua visita ao Chile. "O ex-embaixador argentino no Vaticano, Eduardo Valdés, confirma que o irmão Francisco se comprometeu com a saída ao mar para a Bolívia e buscará um acordo com o Chile. Nossa demanda #MarParaBolivia se fortalece e cresce como o mar que nos foi tirado injustamente", ele escreveu.

Traduzido do espanhol por Henrique Denis Lucas.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 – Internet: clique aqui.

O temor de Papa Francisco

“Tenho medo de uma guerra nuclear.
Estamos no limite”

Andrea Tornielli
Vatican Insider
15-01-2018

Papa Francisco entrega aos jornalistas uma foto chocante
PAPA FRANCISCO
Mostra foto de criança japonesa em Nagasaki, carregando seu irmãozinho morto pela bomba atômica
Interior do avião que o conduzia ao Chile - Segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O Papa Francisco, no voo que o leva ao Chile, presenteia aos jornalistas uma foto chocante e comovente, tirada em Nagasaki após a bomba atômica: ela retrata um menino na fila do forno crematório, aonde deve levar o irmãozinho que traz em suas costas. Bergoglio escreveu como comentário: “O fruto da guerra”.

“Esta imagem – disse –, eu a encontrei por acaso e foi tirada em 1945. É um menino com o seu irmão sobre as costas, morto, que está esperando o crematório em Nagasaki.”

Francisco comentou: “Me comovi muito quando vi isso, então quis escrever: ‘O fruto da guerra’. Eu quis imprimi-la e dá-la, porque uma imagem comove mais do que mil palavras”.

Depois, o papa passou para cumprimentar os jornalistas um a um e ouviu alguém lhe perguntar se tinha medo de uma guerra nuclear: “Sim, realmente tenho medo. Estamos no limite. Basta um incidente. Não se pode fazer com que a situação precipite. Devemos destruir os armamentos nucleares”.
Tradução do cartão que Papa Francisco distribuiu aos jornalistas no interior do avião:
"Uma criança espera sua vez no crematório
para seu irmão morto às suas costas.
É a foto tirada por um fotógrafo norte-americano
Joseph Roger O'Donnell
depois do bombardeio atômico em Nagasaki.
A tristeza da criança somente se expressa em seus lábios mordidos
e cobertos de sangue"

“O fruto da guerra”

Aos jornalistas que o acompanhavam no voo que partiu nessa segunda-feira de Fiumicino, dirigido para Santiago do Chile, primeira etapa da viagem apostólica ao Chile e ao Peru, o papa quis que distribuíssem a foto do menino que, após o bombardeio de Nagasaki, em 1945, carrega sobre as costas o irmãozinho morto, amarrado sobre os ombros, à espera da cremação.

Uma imagem crua, do fotógrafo estadunidense Joseph Roger O’Donnell, que já no fim de dezembro passado o papa quisera distribuir, reproduzida em um cartão e acompanhada das palavras amargas: “O fruto da guerra”. Ao lado, uma legenda em espanhol que enfatizava o desespero do menino expressada “nos seus lábios mordidos e cobertos de sangue”. Por fim, a assinatura autografada “Franciscus”.

Uma mensagem forte do pontífice, para denunciar os resultados devastadores dos conflitos – de todos os conflitos – e a sua preocupação com essa “terceira guerra mundial em pedaços”, que hoje, como ele disse várias vezes, abala o mundo.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 15 de janeiro de 2018 – Internet: clique aqui.

Estamos na contramão!

“O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história da economia”

Regiane Oliveira

As pessoas têm que entender como é séria a redução da indústria de
transformação no Brasil. Nos anos 1980 e 1990, no ponto mais alto da
industrialização, esse setor representou 35% da produção nacional.
Hoje não é nem 12% e está caindo
HA-JOON CHANG
Economista, escritor e professor em Cambridge - Inglaterra

Você se considera de esquerda? Mesmo acostumado a dar entrevistas, essa pergunta ainda faz gaguejar Ha-Joon Chang, professor de economia da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que se tornou conhecido por expor os problemas do capitalismo. “Bem... eu possivelmente sou”, respondeu um pouco reticente o acadêmico, como quem confessasse um pecado.

Para ele, no mundo polarizado de hoje, admitir-se de qualquer tendência ideológica pode significar uma sentença de morte para um potencial diálogo. Além disso, em diferentes países, a percepção de direita e esquerda é diferente. “Na Coreia do Sul e Japão, por exemplo, o tipo de política industrial que defendo é considerada de direita. Já na Inglaterra, onde vivo hoje em dia, é uma política de esquerda”, afirmou o autor sul-coreano do best-seller Chutando a Escada: A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica (Editora Unesp), que veio ao Brasil participar do Fórum de Desenvolvimento, em Belo Horizonte.

Eis a entrevista.

Como a polarização política afeta o desenvolvimento econômico?

Ha-Joon Chang: A polarização é a pior coisa que pode acontecer para a economia. Tudo se torna simbólico. Você começa a se opor a determinada política simplesmente porque ela está associada a um partido de esquerda ou direita. Os debates estão se tornando cada vez mais difíceis. Ambos os lados, ao invés de debater, gritam uns com os outros. Eu gosto de me descrever como um pragmático. Não importa de onde vem determinada política para o desenvolvimento econômico, contanto que ela funcione.

Desde o Consenso de Washington, no final da década de 1980, muitos países pobres abraçaram as recomendações internacionais para propagar o livre comércio como uma das formas de combater a miséria e se desenvolver. Como você avalia o resultado dessa medida?

Chang: Hoje, quando olhamos para os países ricos, em sua maioria, eles praticam o livre comércio. Por isso, é comum pensarmos que foi com esta receita que eles se desenvolveram. Mas, na realidade, eles se tornaram ricos usando o protecionismo e as empresas estatais. Foi só quando eles enriqueceram é que adotaram o livre comércio para si e também como uma imposição a outros Estados. O nome do meu livro, Chutando a escada, faz referência a um livro de um economista alemão do século XIX, Friedrich List, que foi exilado político nos Estados Unidos em 1820. Ele critica a Inglaterra por querer impor aos Estados Unidos da América (EUA) e à Alemanha o livre comércio. Afinal, quando você olha para a história inglesa, eles usaram todo o tipo de protecionismo para se tornar uma nação rica. A Inglaterra dizendo que países não podem usar o protecionismo é como alguém que após subir no topo de uma escada, chuta a escada para que outros não possam usá-la novamente.

Como se deu o desenvolvimento dos países ricos na prática?

Chang: Estes países cresceram com base no que Alexander Hamilton [1789-1795], primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos [que estabeleceu os alicerces do capitalismo norte-americano], defendeu como o argumento da indústria nascente. Do mesmo jeito que mandamos nossas crianças para a escola ao invés do trabalho quando são pequenas, e as protegemos até elas crescerem, os Governos de economias emergentes têm que proteger suas indústrias até que elas cresçam e possam competir com as indústrias de países ricos. Praticamente todos os países ricos, começando pela Inglaterra no século XVIII, Estados Unidos e Alemanha, no século XIX, Suécia no começo do século XX, além de Japão, Coreia do Sul e Taiwan... todos estes países se desenvolveram usando protecionismo, subsídios estatais, controle do investimento direto estrangeiro, e em alguns casos, até mesmo empresas estatais.

Como esse passado dialoga com as medidas atuais de austeridade, que se tornaram fetiche em todo mundo como promessa de crescimento?

Chang: A receita de austeridade usada na Grécia é a mesma tentada na América Latina, na África e em alguns países da Ásia nas décadas de 1980 e 1990, e que criou desastrosos resultados econômicos. Investir em política de austeridade é contraproducente. As pessoas que defendem esse tipo de política entendem que, quando você tem uma grande dívida pública, um jeito de reduzir essa dívida é cortar os gastos do Governo a fim de reduzir o déficit fiscal. Mas um jeito melhor de reduzir o déficit é fazer a economia crescer mais rápido. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha tinha uma dívida mais de 200% de seu PIB [Produto Interno Bruto], mas sua economia estava crescendo rápido. E depois de algumas décadas, isso deixou de ser um problema. Hoje, a Inglaterra tem tentado uma política de austeridade, mais amena que a da Grécia, é verdade, mas também sem sucesso em reduzir o déficit público proporcionalmente a renda nacional. Isso porque o PIB está crescendo muito lentamente. Se você corta os gastos, seu endividamento pode ficar um pouco menor, mas a renda precisa crescer.

O país corre o risco de ficar estagnado?

Chang: Exatamente. O que é incrível é que essa política vem sendo usada várias vezes, como no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, e nunca funcionou. Albert Einstein falava que a definição de loucura é fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes. O problema é que muitos economistas que defendem essas medidas, quando sua teoria não funciona, culpam a realidade. Como se a teoria nunca estivesse errada.

Você é bastante crítico da desindustrialização dos países emergentes. Por que é tão ruim ser dependente das commodities?

Chang: As pessoas têm que entender como é séria a redução da indústria de transformação no Brasil. Nos anos 1980 e 1990, no ponto mais alto da industrialização, esse setor representou 35% da produção nacional. Hoje não é nem 12% e está caindo. O Brasil está experimentando uma das maiores desindustrializações da história, em um período muito curto. O país tem que se preocupar. E eu não estou dizendo nada de novo. Muitos economistas latino-americanos já levantavam o problema da dependência de commodities primárias na década de 1950 e 1960. Quando você é dependente de commodities primárias [produtos de origem animal como carnes; vegetal, como açúcar, soja e café; mineral, como ferro, manganês, bauxita etc.] há uma tendência de que o preço dos produtos caia no longo prazo em comparação com os produtos manufaturados.
Além disso, os países dependentes de commodities não conseguem controlar seu destino.

Por exemplo?

Chang: Quando alguém inventa uma alternativa para o seu produto, isso pode devastar o valor de sua economia. A indústria brasileira de borracha foi um grande hit até que os americanos e russos inventaram a borracha sintética nos anos 1930 e 1940. Quando os alemães inventaram a chamada síntese de Haber-Bosch para a produção de amônia, a ser usado na fabricação de fertilizantes, Chile e Peru, que costumavam ganhar muito dinheiro exportando o fertilizante natural guano, que foi o mais valioso fertilizante nos século XIX, tiveram anos de estagnação econômica. Isso sem contar o potencial lento de crescimento das commodities e relação a outras indústrias, como a de tecnologia.

Mas o caso do Brasil não seria diferente, já que o país investe em tecnologia na área agrícola, e não só extração de commodity?

Chang: Para ser justo, eu sei que o Brasil tem tido algum sucesso na área agrícola, como produzir soja no Cerrado, que é uma região muito árida, onde tradicionalmente esta espécie não cresceria. É realmente impressionante. Mas quando você se especializa em soja você não pode aumentar sua produtividade da mesma forma que um país especializado em alta tecnologia, que pode aumentar sua produtividade em 20%, 30% ao ano. Sinceramente, o Brasil é um dos países que parece estar voltando no tempo no seu desenvolvimento econômico.

Como você avalia o papel do Estado neste cenário?

Chang: Ao contrário de outros países em desenvolvido, o Brasil tem a habilidade de fazer as coisas acontecerem por meio da intervenção governamental. A Embraer, por exemplo, é uma empresa de economia mista. A agricultura no Cerrado é subsidiada com recursos do governo. Em vários setores, o país já mostrou que quando quer fazer uma coisa, ele consegue. Infelizmente, os responsáveis por fazerem as políticas públicas parecem que perderam o rumo. Eles basicamente desistiram do modelo de desenvolvimento econômico por meio de um upgrade [atualização] na economia, com investimento em indústrias de alta tecnologia.

Onde você acha que a política pública falhou?

Chang: Eu conheci vários empresários irritados em São Paulo, pois as pessoas no Governo não parecem estar preocupadas com o declínio da indústria manufatureira no país. Sei que muitos economistas defendem que não importa se você está exportando soja ou aviões, desde que esteja fazendo dinheiro. E, no curto prazo, isso pode até ser verdade. Mas no longo prazo, é muito ruim para a economia. Além disso, as políticas macroeconômicas têm sido muito ruins para o setor industrial, especialmente a alta taxa de juros, uma das maiores do mundo.

No Governo Dilma, vários setores receberam subsídio e mesmo assim, os empresários não pareciam estar satisfeitos. O que faltou?

Chang: O Governo de Dilma canalizou vários subsídios em alguns setores em particular. Mas isso só foi necessário por conta da política de alta taxa de juros, uma vez que as companhias brasileiras não conseguem competir no mercado global de outra forma. Não sei todos os detalhes. Mas sei que houve erros, corrupção. As metas governamentais também foram determinadas de forma equivocada... sempre privilegiando a estabilidade macroeconômica. Já o declínio da indústria não foi considerado um problema. Focou em ações como Bolsa Família, mas sem prestar atenção em dar um upgrade na economia.

A Coreia do Sul pode ser considerada um exemplo de economia que conseguiu dar esse upgrade?

Chang: Depende de qual Coreia do Sul que estamos falando. A Coreia do Sul depois da crise asiática de 1997 abraçou o neoliberalismo, não tanto como os países da América Latina, mas desregulamentou o mercado financeiro e alavancou políticas industriais. O resultado é que uma economia que costumava crescer 6%, 7%, 8% até 1990, agora está sofrendo para crescer 3%. Isso porque as mudanças que criaram líderes globais na área industrial, automotiva e eletrônica, também produziram baixo crescimento, falta de trabalho e não impediram que estas indústrias migrassem para outros países. E mesmo assim, não tivemos o colapso industrial que se vê no Brasil.

Qual foi o papel da educação no crescimento da Coreia do Sul?

Chang: No começo, a educação teve um papel muito importante. Até os anos 1980, era possível alguém de uma família pobre se tornar juiz, governador ou cirurgião. Infelizmente, a partir dos anos 1990, tivemos um sobreinvestimento em educação, com o crescimento dos negócios privados. Tínhamos o maior investimento em educação do mundo. Mas hoje, considerando o valor que estamos investindo, e o tempo que os estudantes estão gastando para conseguir suas qualificações... o sistema se tornou bem ineficiente. A mobilidade social caiu muito nos últimos anos, porque as políticas educacionais deixaram de ser coordenadas com políticas industriais.

Você comenta que estamos entrando no fim da abordagem neoliberal ao desenvolvimento. O Brexit seria um exemplo desse começo do fim?

Chang: Poderia ser. Mas temos que considerar que há três tipos de pessoas que votaram pelo Brexit. Um deles são os liberais que votaram para se livrar das regulamentações impostas pela União Europeia. Há ainda o grupo anti-estrangeiros e anti-imigração. E um terceiro grupo, os trabalhadores no Norte da Inglaterra, que já foi o centro produtor do país, e que experimentou uma desindustrialização massiva. Estas pessoas perderam seus trabalhos, e agora culpam trabalhadores da Polônia, Romênia e Hungria pela sua sorte. Podemos dizer que é o começo do fim no sentido em que isso aconteceu com a insatisfação que muitas pessoas têm com a globalização e o livre comércio.

Há algum lugar onde estaria sendo gestada uma solução para o modelo de desenvolvimento econômico dos países?

Chang: Cingapura é hoje o exemplo mais bem sucedido de um país com desenvolvimento pragmático e não ideológico. Quando lemos sobre Cingapura nos jornais The Wall Street Journal e na revista The Economist sempre ouvimos falar da política de livre comércio e o acolhimento positivo que o país tem com o investidor estrangeiro. O que é verdade. Mas não se fala que 90% das terras do país são de propriedade do Governo; 85% das casas são de propriedade do governo; e 22% do PIB é produzido por empresas públicas. Eles têm um modelo pragmático de economia, que mistura elementos do capitalismo de livre mercado e do socialismo. Eles não são capitalistas, nem socialistas. São pragmáticos. Uma de minhas frases favoritas é de Deng Xiaoping, o ex-líder Chinês: “Eu não ligo se o gato é preto ou branco, contanto que seja bom em pegar ratos”. Isso é o pragmatismo.

Eis as obras de Ha-Joon Chang já publicadas no Brasil:

1. Chutando a escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. São Paulo: Unesp, 2004.

2. Maus samaritanos: o mito do livre-comércio e a história secreta do capitalismo. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008. (Esgotado – encontrável em sebos)

3. 23 coisas que não nos contaram sobre o capitalismo: os maiores mitos do mundo em que vivemos. Como reconstruir a economia mundial. São Paulo: Cultrix, 2013.

4. Economia: modo de usar. Um guia básico dos principais conceitos econômicos. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015.

Fonte: El País – Brasil / Economia – Domingo, 14 de janeiro de 2018 – 18h49 (Horário Centro Europeu) – Internet: clique aqui.

domingo, 14 de janeiro de 2018

FRANCISCO ENTRE NÓS!

Com aceno a indígenas, papa inicia no Chile
sexta visita à América Latina

SYLVIA COLOMBO

Papa Francisco peregrina uma semana entre o Chile e o Peru
Visita desafiadora sob vários aspectos
Homem limpa escultura de mapuche diante de cartaz com o papa Francisco em Temuco, no Chile

Em sua sexta visita à América Latina, onde já foi a Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai, Cuba, México e Colômbia, o papa Francisco desembarcará nesta segunda (15 de janeiro) no Chile e seguirá dia 18 para o Peru, onde ficará até dia 21.

Entre as várias atividades tradicionais, como encontros com chefes de Estado e missas para multidões, há ao menos duas que são inusitadas.

No Chile, o papa se encontrará dia 17, na cidade de Temuco, com representantes da etnia MAPUCHE. A escolha chama a atenção porque ativistas desse grupo indígena estão em pé de guerra com o Estado tanto no Chile como na Argentina, realizando atos pacíficos e, em alguns casos, cometendo atentados para reivindicar soberania ou terras que julgam lhes terem sido roubadas no século 19.

Já no Peru, Francisco também vai se reunir com representantes indígenas  — entre eles os da Nación Q’ero, considerados descendentes dos incas — no dia 19, em Puerto Maldonado.

Nenhuma dessas comunidades é católica — a maior parte da população indígena do continente foi dizimada na colonização, quando a Igreja Católica atuou ao lado de espanhóis e portugueses.

Segundo o bispo peruano David Martínez Aguirre, que acompanhará o papa na visita, a mensagem que o pontífice quer passar é que os indígenas «são minorias que devem ser levadas em conta», pois podem trazer «outras direções à humanidade».

Francisco também fará referência ao abuso da exploração de recursos naturais na região Amazônica, defendendo que aqueles que vivem da floresta «não devem apostar num benefício imediato».

A ida a Puerto Maldonado é um primeiro passo para o planejamento de um Sínodo de Povos Amazônicos, que o pontífice quer realizar, ainda sem data certa, em localidades da região que se estende por Colômbia, Brasil e Peru.

Além da defesa dos recursos naturais, a Igreja se preocupa com a expansão das igrejas evangélicas na região.
Avião preparado para conduzir Papa Francisco em seus deslocamentos pelo Chile

POLÍTICA

No dia seguinte ao seu desembarque em Santiago, o papa se encontrará, no palácio de La Moneda, com a presidente Michelle Bachelet.

Há expectativa de que ele cite os reiterados pedidos da Bolívia por um acesso ao mar. Na segunda metade do século 19, depois de uma guerra com o Chile da qual o Peru também participou, a Bolívia perdeu 400 km de costa e 120 mil km de território.

Os chilenos dizem que não há volta atrás nessa questão, uma vez que os dois países assinaram um tratado em 1904 estabelecendo a fronteira como é hoje. Morales, porém, usa a saída ao mar de bandeira e recurso eleitoral.

Há duas semanas, o papa recebeu o presidente boliviano em Roma e se mostrou solidário à reivindicação.

Ainda em Santiago, Francisco rezará uma missa no parque O'Higgins, para cerca de 500 mil pessoas. Também neste dia, visitará uma prisão feminina na capital chilena. A última atividade no país será a missa na cidade costeira de Iquique, no norte.

A visita causou polêmica entre os não católicos, uma vez que o governo declarou feriado nas cidades por onde o religioso passará. Pesquisa do instituto Cadem mostra que 54% dos entrevistados se opõem à declaração de feriado por violar o princípio de que o Estado chileno é laico.
Praça de Puerto Maldonado - na amazônia peruana, onde Papa Francisco
provavelmente se encontrará com indígenas

PERU

Em Lima, o papa se encontrará com o presidente Pedro Pablo Kuczynski e rezará uma missa na base aérea de Las Palmas, para a qual são esperadas 1,4 milhão de pessoas.

Além de Puerto Maldonado e Lima, o pontífice ainda irá, no Peru, a Trujillo, onde igualmente rezará uma missa para 1 milhão de pessoas.

Ali, visitará um dos bairros atingidos pelas chuvas trazidas pelo fenômeno El Niño, que deixaram mais de 11 mil famílias locais desabrigadas.

ROTEIRO DO PAPA

CHILE
15/janeiro
Papa chega a Santiago

16/janeiro
Encontra-se com a presidente, celebra missa e visita prisão feminina

17/janeiro
Viaja a Temuco, no centro-sul do país

18/janeiro
Vai a Iquique, no norte, e depois a Lima, no Peru

PERU
18/janeiro
Chegada em Lima

19/janeiro
Encontra-se com o presidente; depois viaja a Puerto Maldonado, perto da fronteira com o Brasil

20/janeiro
Visita Trujillo, no litoral

21/janeiro
Em Lima, reza última missa antes de voltar para Roma

Fonte: Folha de S. Paulo – Mundo – Domingo, 14 de janeiro de 2018 – 02h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.