«Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.»

(Albert Einstein [1879-1955] – físico teórico alemão, um dos mais ilustres cientistas do mundo)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 11 de agosto de 2018

19º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: João 6,41-51

Naquele tempo:
41 Os judeus começaram a murmurar a respeito de Jesus, porque havia dito: «Eu sou o pão que desceu do céu».
42 Eles comentavam: «Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e sua mãe?
Como então pode dizer que desceu do céu?» 
43 Jesus respondeu: «Não murmureis entre vós.
44 Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia.
45 Está escrito nos Profetas: “Todos serão discípulos de Deus.” Ora, todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído, vem a mim.
46 Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
47 Em verdade, em verdade vos digo, quem crê, possui a vida eterna.
48 Eu sou o pão da vida.
49 Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram.
50 Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá.
51 Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo».

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista e Teólogo espanhol

ATRAÍDOS PELO PAI A JESUS

Segundo o relato de João, Jesus repete, cada vez de maneira mais aberta, que vem de Deus para oferecer a todos um alimento que dá vida eterna. O povo não pode continuar escutando algo tão escandaloso sem reagir. Conhece seus pais. Como pode dizer que vem de Deus?

A reação do povo não pode nos surpreender. É razoável crer em Jesus Cristo? Como podemos crer que, nesse homem concreto, nascido pouco antes de morrer Herodes, o Grande, e conhecido por sua atividade profética na Galileia dos anos trinta, encarnou-se o Mistério insondável de Deus.

Jesus não responde a suas objeções. Vai diretamente à raiz de sua incredulidade: «Não murmureis entre vós». É um erro resistir à novidade radical de sua pessoa, obstinando-se em pensar que já sabem tudo acerca de sua verdadeira identidade. Indicará a eles o caminho que podem seguir.

Jesus pressupõe que ninguém pode crer nele se não se sente atraído por sua pessoa. Está certo. Talvez, a partir de nossa cultura, entendemos melhor isso hoje. Não é fácil crer em doutrinas ou ideologias. A fé e a confiança despertam em nós quando nos sentimos atraídos por alguém que nos faz bem e os ajuda a viver.

Porém, Jesus adverte-os de algo muito importante: «Ninguém pode aceitar-me se o Pai, que me enviou, não lhe concede-o». A atração para Jesus é o próprio Deus que produz. O Pai, que lhe enviou ao mundo, desperta nosso coração para que nos aproximemos de Jesus com alegria e confiança, superando dúvidas e resistências.

Por isso, temos de escutar a voz de Deus em nosso coração e deixar-nos conduzir por ele a Jesus. Deixar-nos ensinar, docilmente, por esse Pai, Criador da vida e Amigo do ser humano: «Todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído, vem a mim».

A afirmação de Jesus é revolucionária para aqueles judeus. A tradição bíblica dizia que o ser humano escuta, em seu coração, o chamado de Deus para cumprir fielmente a Lei. O profeta Jeremias havia proclamado assim a promessa de Deus: «Eu porei minha Lei dentro de vós e a escreverei em vosso coração».

As palavras de Jesus nos convidam a viver uma experiência diferente. A consciência não é só o lugar recôndito e privilegiado no qual podemos escutar a Lei de Deus. Se, no íntimo de nosso ser, nos sentimos atraídos pelo bom, pelo belo, pelo nobre, pelo que faz bem ao ser humano, pelo que constrói um mundo melhor, facilmente nos sentimos convidados por Deus a sintonizar com Jesus.

APRENDER DE DEUS

Em um episódio referido somente pelo quarto evangelista [João], Jesus se defende das críticas que se lhe fazem com estas palavras: «Todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído, vem a mim», e cita uma frase que pode ser lida no livro de Isaías: «Todos serão discípulos de Deus».

A ideia de «aprender de Deus» e ser como ele é estava muito enraizada em Israel. De fato, esta exigência radical estava formulada no velho livro do Levítico com estas palavras: «Sede santos como eu, o Senhor vosso Deus, sou Santo» (Lv 19,2).

Os judeus entendiam esta santidade como uma «separação do impuro». Esta maneira de entender a «imitação de Deus» gerou em Israel uma sociedade discriminatória e excludente onde:
* se honrava os puros e se menosprezava os impuros e pecadores,
* valorizava-se os homens e se suspeitava da pureza das mulheres,
* convivia-se com os sadios, porém se fugia dos leprosos.

No interior desta sociedade, Jesus introduz uma alternativa revolucionária: «Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso» (Lc 6,36). A primeira qualidade de Deus é a COMPAIXÃO, não a santidade. Quem deseja ser como é Deus, não tem que viver «separando-se» dos impuros, mas amando a todos com amor compassivo.

Por isso, Jesus iniciou um estilo de vida novo, inspirado somente no AMOR. Tocava os leprosos, acolhia os pecadores, comia com os publicanos [cobradores de impostos] e prostitutas. Sua mesa estava aberta a todos. Ninguém era excluído porque ninguém está excluído do coração misericordioso de Deus.

Não basta ser muito religioso, mas ver a que nos conduz a religião.
Não basta crer em Deus, mas saber em qual Deus cremos.

O Deus misericordioso no qual creu Jesus, não conduz jamais a atitudes excludentes de desprezo, intolerância ou rejeição, mas a atitudes que atraem uma vida de acolhida e hospitalidade, de respeito e de perdão. Não devemos nos enganar. De Deus não se aprende a viver de qualquer maneira. Ele somente ensina a AMAR.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O que tem importância não aparece!!!

Nenhum candidato fala daquilo que
realmente importa

Telmo José Amaral de Figueiredo
Presbítero Diocesano de Jales – SP
Biblista e Teólogo

Há um acobertamento do estupro coletivo do Brasil pelas corporações
que tomaram o Estado de assalto
TODOS, NO BRASIL, QUEREM MAMAR NA PORCA DO ESTADO:
EMPRESÁRIOS querem facilidades, crédito privilegiado, impostos baixos ou nulos;
a ELITE DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS quer salários de marajá, aposentadorias integrais;
quem ESTÁ DE FORA, quer entrar e QUEM ENTRA não quer sair!!!

Tomo a liberdade de fazer, abaixo, um recorte de algumas notícias e comentários surgidos na imprensa brasileira nos últimos tempos.

Faço isso com o intuito de oferecer aos meus leitores uma ideia daquilo que, de fato, deveria merecer a atenção e preocupação dos atuais candidatos à Presidência da República do Brasil, assim como, dos candidatos a Deputado Federal, Senador, Deputado Estadual e Governador.

Contudo, não se ouve nenhum deles abordar, com profundidade e seriedade, nenhum desses assuntos que passarei a destacar logo abaixo.

Comecemos pelo mais imoral de todos eles:

«Com escandaloso desprezo pelo interesse público, juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram por 7 votos a 4 [votaram contra: Cármen Lúcia, Celso de Mello, Rosa Weber e Edson Fachin] propor a elevação de seus próprios salários de R$ 33.761 para R$ 39.293,32, com “modestíssimo reajuste” – palavras do ministro Ricardo Lewandowski – de 16,38%. Enquanto isso, 13 milhões de desempregados tentam sobreviver de qualquer jeito e formam filas de milhares de pessoas em busca de uma ocupação. No Executivo, ministros das pastas econômicas batalham para conter o déficit federal no limite de R$ 159 bilhões, neste ano, sem devastar os gastos com educação e saúde e sem abandonar outras despesas obrigatórias. [...]
O impacto do aumento pretendido é de R$ 3,87 milhões adicionais para os gastos do STF em 2019, com efeito cascata de R$ 717,1 milhões para todo o Judiciário. Mas o efeito geral será muito maior, porque a elevação do teto salarial terá consequências em todo o serviço público. Já se estima um aumento de despesas de R$ 1,4 bilhão para o governo central e de R$ 2,6 bilhões para as administrações estaduais» (Fonte: clique aqui].

É isso mesmo que você leu!!!
São 4 bilhões de reais a mais de gastos, somente com folha de pagamento, de uma categoria já privilegiada e condizentemente remunerada dentre os servidores públicos. Enquanto há um estouro das contas do Governo Federal da ordem de 159 bilhões de reais!!! A dívida do governo é um dos principais motivos da taxa de juros ser tão alta no Brasil! Afinal, para financiar sua dívida, o Governo Federal lança títulos financeiros no mercado, oferecendo altos rendimentos, a fim de atrair os especuladores, sejam eles privados ou empresas, como os bancos. Ganhando horrores com os títulos do governo, por que os bancos se preocuparão em reduzir seus juros para as empresas e pessoas físicas tomadoras e necessitadas de crédito???

São esses funcionários do Estado que, tanto na ativa quanto na aposentadoria, oneram as contas e tornam o Estado brasileiro um refém deles! Jamais sobra dinheiro para investir em Educação; Saúde; infraestrutura ferroviária, rodoviária e fluvial. Somos um país que trabalha para manter uma casta de privilegiados, verdadeiros «marajás».
ALGUNS MINISTROS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF):
(Da esquerda para a direita):
Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski

Você acha que estou exagerando? Então, veja só isto:

«O déficit acumulado pela previdência do setor público de 2001 a 2015 foi de R$ 1,3 trilhão para atender 1 milhão de aposentados! O déficit da previdência privada, atendendo a 33 milhões de aposentados, no mesmo período, foi de R$ 450 bilhões. A média das aposentadorias do setor privado é de R$ 1,5 mil. No setor público, a média [das aposentadorias] é de:
* R$ 9 mil no Poder Executivo, o pedaço do marajalato mais sensível ao voto,
* de R$ 25 mil no Legislativo,
* R$ 29 mil no Judiciário e
* acima de R$ 30 mil no Ministério Público» (Fonte: clique aqui).

Caríssimo(a) leitor(a) e contribuite do fisco brasileiro, você tinha conhecimento destes números? Saiba que não existe país no mundo todo em que o Estado pague o absurdo de 25 mil a mais de 30 mil reais (cerca de 6.600 a 7.900 dólares ou mais) para aposentados! Isto somente acontece aqui, no Brasil. Um país com enorme desigualdade social e uma capacidade incrível de transferir renda dos mais pobres, que se aposentam com cerca de 1 mil e 500 reais, para os mais ricos!

E observe que, a causa real do déficit da Previdência Social brasileira, não é as aposentadorias dos trabalhadores da iniciativa privada, mas daqueles do setor público (Governos Federal e Estadual):
* 1 milhão de aposentados do Estado provocam um déficit de 1 trilhão e 300 bilhões de reais!!!
* Enquanto que, 33 milhões de aposentados do setor privado provocam um déficit de 450 bilhões de reais.
Essa realidade faz com que, a maioria dos Estados do Brasil gaste mais com o funcionalismo aposentado do que com aquele na ativa! Se alguma reforma deve ser feita na Previdência Social, esta deve começar, sem dúvida alguma, pelas aposentadorias do setor público. E nenhum, repito, nenhum candidato faz referência a isto!


Outro aspecto fundamental para haver um desenvolvimento brasileiro que se sustente no tempo, não dependendo, apenas, de fatores externos e sazonais, é a questão da PRODUTIVIDADE. Aqui há aqueles que põem a culpa mais sobre o trabalhador brasileiro pouco qualificado e pouco preparado para realizar suas funções, outros, enxergam problemas de ordem mais estrutural. Vejamos, então:

«Segundo dados da consultoria internacional Conference Board, a produtividade do trabalhador brasileiro equivale a 25% da produtividade do trabalhador americano. Os Estados Unidos são usados como a base de comparação entre os países pela entidade, mas têm uma produtividade menor do que a da Noruega, por exemplo. [...] Segundo Otto Nogami, professor de economia do Insper, “não se pode analisar apenas o indivíduo”. Para calcular a produtividade de cada país a Conference Board compara dados do Produto Interno Bruto - a soma de todas as riquezas produzidas por um país - com o número de trabalhadores empregados. A capacidade de trabalho é um dos fatores que influenciam essa produção total, mas fatores que não têm nada a ver com o trabalhador também pesam. Se trabalhasse sob as mesmas condições de um trabalhador americano - como infraestrutura de transporte e tecnologia - é provável que o brasileiro produziria bem mais do que o que consegue produzir no Brasil, diz. [...] Um dos fatores que determinam a baixa produtividade do brasileiro é a tecnologia defasada em relação a países mais competitivos, como os Estados Unidos. Ou seja, se um trabalhador dispõe de instrumentos melhores, acaba sendo mais produtivo. [...] A falta de infraestrutura afeta a eficiência dos negócios e a produtividade do trabalhador de forma indireta. [...] O país fica na 116º posição entre 189 países analisados pelo relatório Doing Business 2016, do Banco Mundial, que leva em consideração dados de 2015. Ele analisa o ambiente de negócios a partir da facilidade de abrir empresas, obter alvarás de construção e conseguir crédito, por exemplo. Isso significa gasto de recursos com atividades que não aumentam o Produto Interno Bruto e, consequentemente, não têm impacto positivo na produtividade do trabalho. [...] Outro fator frequentemente destacado quando se fala da baixa produtividade brasileira é a baixa qualificação do trabalhador.  “O analfabetismo funcional [capacidade de reconhecer letras e números, mas incapacidade para compreender textos simples e realizar operações matemáticas elaboradas] é alto. O trabalhador tem dificuldade em ler um manual, por exemplo. E não tem domínio sobre ferramentas de planejamento e cálculo que poderiam fazer com que seu trabalho rendesse mais. Ao não conseguir dominar isso, fica na base da tentativa e erro, que consome um tempo danado.”, diz Marisa Pereira Eboli, especialista em gestão da Universidade de São Paulo. Segundo a professora, ter uma base ruim em cálculo e leitura torna mais difícil para o trabalhador brasileiro se atualizar durante a sua carreira, algo necessário conforme a mudança de tecnologia se torna mais constante» (Fonte: clique aqui).
O Brasil está se desindustrializando - estamos retornando ao período Colonial!
É cada vez menor a sua participação na riqueza do país e sua competitividade internacional!

Por estes e outros motivos é que:

«Um produto feito no Brasil é 30% mais caro do que o mesmo produto feito nos Estados Unidos ou na Alemanha, países com os quais a indústria brasileira compete e que têm várias subsidiárias no País. O estudo comparativo do custo Brasil foi feito pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Juros altos, burocracia e carga tributária estão entre os fatores que tiram a competitividade da indústria brasileira» (Fonte: clique aqui).

A violência é outro tema preocupante para todos. O brasileiro comum sente, na pele, o drama de viver sempre com medo, sempre esperando algo ruim acontecer-lhe, sempre na defensiva, sempre fechado em sua própria casa, sempre aguardando com «o coração na mão» o filho, a filha, o neto, a neta, o sobrinho, a sobrinha chegar em casa depois de ir à escola, especialmente, à noite. Se esse brasileiro, então, for muito humilde, morador de favela (Opa! Deve-se dizer «comunidade»), negro, negra, jovem do sexo masculino, então, corre ainda mais risco de morrer vítima da violência. Veja só isto:

«Em 2016, pela primeira vez na história, o número de homicídios no Brasil superou a casa dos 60 mil em um ano. De acordo com o Atlas da Violência de 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o número de 62.517 assassinatos cometidos no país em 2016 coloca o Brasil em um patamar 30 vezes maior do que o da Europa. Só na última década, 553 mil brasileiros perderam a vida por morte violenta. Ou seja, um total de 153 mortes por dia. [...]
Os homicídios, segundo o Ipea, equivalem à queda de um Boeing 737 lotado diariamente. Representam quase 10% do total das mortes no país e atingem principalmente os homens jovens: 56,5% de óbitos dos brasileiros entre 15 e 19 anos foram mortes violentas. O número de mortes violentas é também um retrato da desigualdade racial no país, onde 71,5% das pessoas assassinadas são negras ou pardas. [...]
Dentre os afetados pela crescente no número de homicídios no Brasil, um grupo de destaca: o dos jovens. Representando 53,7% das vítimas totais no país (ou seja, 33.590 óbitos), eles ainda são majoritariamente homens. Mais especificamente, 94,6% deles são homens» (Fonte: clique aqui].

Essa violência que torna o Brasil um dos lugares com mais assassinatos do mundo, ganhando, até mesmo, de países em guerra, tem várias causas. Contudo, seguramente, uma das principais é a escandalosa desigualdade social que existe por aqui! Pasme:

«Quase 30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, a maior concentração do tipo no mundo. É o que indica a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty. [...]
O Brasil também se destaca no recorte dos 10% mais ricos, mas não de forma tão intensa quanto se observa na comparação do 1% mais rico. Os dados mostram o Oriente Médio com 61% da renda nas mãos de seus 10% mais ricos, seguido por Brasil e Índia, ambos com 55%, e a África Subsaariana, com 54%» (Fonte: clique aqui).

Você não entendeu mal! É isso mesmo! No Brasil há a maior concentração de renda do mundo! Onde o 1% mais rico tem quase 30% da renda produzida no país. E os 10% mais ricos detêm 55% de toda a riqueza nacional! Ora, em um país assim, salta aos olhos a seguinte desigualdade social:

1) Favelização: «As primeiras favelas brasileiras surgiram no século XIX, após a abolição da escravatura, de forma que os escravos foram segregados da população branca, os quais permaneceram em zonas de risco, ou seja, próximos aos morros, córregos, etc. Contudo, o termo “favela” surge no contexto da Guerra de Canudos (1896 a 1897), para se referir ao “Arraial de Belo Monte”, que existia no “Morro da Favela”... De acordo com pesquisas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-2010), o Brasil apresenta 6.329 favelas em todo o país, sendo que 6% da população vive em moradias irregulares, processo comum nos grandes centros (maiores capitais) como São Paulo, Rio de Janeiro, Belém, Salvador, Recife e São Luís... 11% da população de São Paulo vivem em favelas, enquanto 22% da população do Rio de Janeiro habitam tais moradias» (Fonte: clique aqui).

2) Fome e subnutrição. «O retorno ao mapa da fome da ONU, que ronda o Brasil, foi tema de aula inaugural nesta segunda-feira da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz). Na avaliação dos participantes, o país pode sim retornar ao vergonhoso mapa: de 2014 a 2016, o número de pessoas em extrema pobreza no Brasil saltou de 5.162.737 para 9.972.090» (Fonte: clique aqui).

3) Falta de saneamento básico: metade da população brasileira, ainda, não tem o esgoto de sua residência coletado, sendo que o esgoto tratado não atinge nem metade daquele que é recolhido; quase 20% da população brasileira ainda não possui água tratada em casa! (Fonte: clique aqui). Esta triste realidade é um dos fatores mais importantes para que haja tanta doença no Brasil que já foi extinta em países mais desenvolvidos. E onera, em muito, os gastos do Estado com a saúde da população!

4) Ensino de baixa qualidade: «Mais de 70% dos alunos brasileiros entre 15 e 16 anos não alcançam sequer o nível básico de proficiência em Matemática, isto é, são incapazes de resolver problemas simples envolvendo números» (Fonte: clique aqui). E tem mais: «Dados do Pisa, prova feita em 70 países, foram divulgados nesta terça; Brasil ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática» (Fonte: clique aqui). No Brasil, de hoje, finge-se que se ensina e finge-se que se aprende!

5) Menos formação: «Apenas 14% dos adultos brasileiros chegaram ao ensino superior, percentual considerado baixo se comparado à média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 35%» (Fonte: clique aqui). Isso é importante porque: «Os baixos índices de acesso à universidade refletem nos salários. Hoje, trabalhadores com nível superior no Brasil ganham mais do que o dobro do que aqueles com ensino médio completo. O valor também tende a ser quatro vezes maior para quem tem mestrado ou doutorado em comparação a quem tem apenas o ensino médio, segundo o relatório» (Fonte: clique aqui).

6) Desemprego: prejudica muito mais os que já são mais pobres. «A taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui os desempregados, pessoas que gostariam de trabalhar mais e aqueles que desistiram de buscar emprego, bateu recorde no primeiro trimestre, chegando a 24,7%, informou nesta quinta (17/05/2018) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ao todo, são 27,7 milhões de pessoas nessas condições, o maior contingente desde o início da série histórica, em 2012. Destes, 13,7 milhões procuraram emprego mas não encontraram» (Fonte: clique aqui).

7) Precariedade na saúde pública: isso é sentido por toda a população de mais baixa renda. A falta de medicamentos essenciais, a demora para realizar exames, a falta de leitos nos hospitais, a falta de médicos especialistas, a demora no agendamento de cirurgias, o custo elevado dos medicamentos etc. A população vive uma eterna Via-Sacra em busca de cuidados para a sua saúde!

8) Precariedade no transporte público: o rendimento, a produtividade, o desempenho de uma pessoa que necessita passar de duas até quatro ou cinco horas no interior de um ônibus, metrô ou trem superlotados é bem inferior àqueles de uma pessoa que não passa por essa verdadeira «maratona» todos os dias! Sem falar, que sobra para esta pessoa muito mais tempo para dedicar-se ao estudo, ao lazer, à sua família etc. O governo, ao invés de investir pesado na solução que seria o metrô para as cidades de grande porte, o que faz? Veja só: «as obras da Linha 6 - Laranja do Metrô de São Paulo serviram para abastecer o esquema de propina da Odebrecht para influenciar políticos e financiar o caixa dois de campanhas eleitorais. Nas delações, os executivos da Odebrecht citaram que o dinheiro desviado do Metrô beneficiou o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o ministro Gilberto Kassab (PSD). O projeto da linha tem 15 estações e 15 km de extensão e ligaria o Centro à Zona Norte de São Paulo. O contrato para a construção, uma Parceria Público Privada estimada em R$ 9 bilhões, foi assinado no final de 2013, mas as obras estão totalmente paralisadas desde 2016 por falta de financiamento» (Fonte: clique aqui). E até conserto de trens tem maracutaias: «O Ministério Público do Estado de São Paulo divulgou na tarde desta terça-feira, na capital paulista, o relatório de um ano e meio de investigações que apontam superfaturamento de quase R$ 1 bilhão em contratos para reforma de trens da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô-SP)» (Fonte: clique aqui).

9) Falta de acesso à cultura: «A população mais favorecida tem mais oportunidade para usufruir de uma variedade alargada de atividades. São exemplos viagens, concertos e visitas a museus e exposições. Esses acessos, infelizmente, são restringidos a uma grande parte da população brasileira. Isso porque certas atividades têm um grande peso no orçamento de uma família e, assim, entram na lista das prioridades menores, que acabam não sendo usufruídas. Acontece que essas atividades aumentam a qualidade de vida das pessoas, além de que alarga o seu nível cultural» (Fonte: clique aqui).
ESTAÇÃO DA CPTM - SÃO PAULO - LOTADÍSSIMA!!!
Cena muito comum e cotidiana!!!

Há uma outra realidade que não é enfrentada com a devida urgência e seriedade, a violência brutal praticada contra mulheres no Brasil. Violência que não é de hoje, mas integra uma cultura extremamente machista, misógina e autoritária que, ainda, existe em nosso país. Vejam só:

«Segundo o anuário da violência, divulgado ontem (09/08/2018), 2017 registrou um recorde de assassinatos no País, com impressionantes sete mortes de homens e mulheres por hora. Por hora! Mas os dados sobre as vítimas mulheres têm um lado particularmente assustador. Foram 221 mil casos de violência doméstica no ano, 60 mil estupros e 4,5 mil assassinatos. O que que é isso, minha gente? Estão tratando as mulheres como coisa para usufruir e jogar fora a qualquer hora! E justamente quando a Lei Maria da Penha – um marco no combate à violência contra a mulher – completa 12 anos. Como “comemoração”, vimos, além do crime bárbaro e nojento do Paraná, uma onda de feminicídios e o cotidiano de mortandade de mulheres no Rio, nas demais capitais e no interior do País afora» (Fonte: clique aqui).

E o pior, é que existe toda uma cumplicidade, uma indiferença de nossa sociedade para com esse tipo de violência. Confira:

«Mas, duro mesmo, é a complacência da própria sociedade. Não sai da minha cabeça como nenhum vizinho, vizinha, porteiro, ninguém ouviu os gritos de desespero da Tatiane Spitzner? Ela apanhou no carro, entrando no prédio, dentro do elevador, tentou escapar num andar, foi empurrada no seu próprio andar. E ninguém percebeu ou ouviu em nenhum minuto?
Há poucos anos, eu estava no salão quando a cabeleireira chamou a secretária: “Olha! Ele está dando nela de novo!”. A sequência de sopapos e chutes, num quarto do outro lado da rua, era acompanhada com uma espécie de torcida: “Ih! Agora foi na cara”, “Caiu, ela caiu!”. Ficaram as duas se distraindo com a cena, enquanto as clientes olhavam placidamente, lavavam as mãos.
Diante da minha perplexidade, reagiram com duas máximas que rondam a sociedade: 1) “Eu não vou me meter em briga de marido e mulher”; 2) “Se ela vive apanhando e continua com ele é porque gosta”» (Fonte: clique aqui).
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER - ÚLTIMOS DADOS (2017)

Eu sei que me excedi neste artigo!
Escrevi demais!
Porém, a minha intenção é ajudar você a perceber o quanto é importante se interessar por política e pela vida econômica e social de seu país!
É de fazer pena (e medo!), a expressão que se ouve muito frequentemente pelas ruas brasileiras: «Eu não estou nem aí pra política! Não me interesso por nada disso! Afinal, nada vai mudar, mesmo! Todo político é igual! Tudo ficará como sempre foi!»

Esse derrotismo, essa visão pessimista e fatalista é o que mais agrada e faz a alegria dos maus políticos, daqueles que não querem que o povo se envolva nas atividades deles! As pessoas não percebem que é de propósito que se fala tão mal dos políticos, pois isso faz todos se contagiarem com uma espécie de «alergia» contra aqueles que atuam no Congresso Nacional (deputados federais e senadores), nas Assembleias Legislativas (deputados estaduais), nas Câmaras de Vereadores, na Presidência da República, nos Governos estaduais e assim por diante.

Comece a acompanhar melhor aquilo que o seu, o meu, o nosso representante faz com o mandato que lhe demos e que, agora, lhe daremos novamente! Pois, ninguém faz nada de graça para ninguém! Você, eu, nós devemos cobrar ações e atitudes dos políticos que elegemos! Isso vale e é igual para qualquer país do mundo, não somente o nosso.

Jales (SP), 10 de agosto de 2018.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Católico é contra a pena de morte

Papa Francisco incentiva católicos a se oporem ativamente à pena de morte

Thomas Reese
Religion News Service
07-08-2018

O Papa Francisco decidiu mudar o catecismo da Igreja Católica
para esclarecer a oposição da Igreja à pena de morte
PAPA FRANCISCO

Ao incluí-la no catecismo, o Papa garante que o ensinamento da Igreja contra a pena capital se espalhará por toda a Igreja.

Mas Francisco vai além de simplesmente ensinar que a pena de morte é errada. Ele está comprometendo a Igreja a trabalhar com determinação para a abolição da pena de morte em todo o mundo. Embora muitos países já tenham feito isso, ele enfrentará forte oposição nos Estados Unidos, onde 54% da população apoiou a pena capital, de acordo com o Pew Research Center, e 39% se opuseram a ela em 2018.

Entre os católicos, a maioria também é pró pena de morte (53% a favor, 42% contra). Uma maioria de católicos brancos (57%) apoia a pena de morte, mas eles são menos favoráveis do que os evangélicos brancos (73%) e protestantes brancos (61%).

Será interessante ver se Francisco conseguirá modificar esses números.

O ensinamento da Igreja sobre a pena de morte vem evoluindo nos últimos 25 anos, especialmente desde que o catecismo foi publicado pela primeira vez. A primeira edição reconheceu que a pena capital havia sido aprovada pela Igreja durante séculos. De fato, papas executaram criminosos nos Estados Papais antes que a Itália os assumisse em 1870.

São João Paulo II, que era papa quando o catecismo de 1992 foi publicado, não gostava da pena de morte e gostaria de a ver encerrada. Mas alguns no Vaticano estavam preocupados sobre como a Igreja explicaria sua mudança no ensino. Como resultado, João Paulo II fez o catecismo dizer que a pena de morte só era permitida «se esta for a única forma possível de defender efetivamente vidas humanas contra o injusto agressor». O catecismo cita João Paulo, que afirmou que os casos que exigem a execução do ofensor «são muito raros, se não praticamente inexistentes».

Francisco deu o passo final e disse que esses casos de exceção são inexistentes. A pena capital deve terminar.

A hierarquia está sempre preocupada em como explicar a mudança na Igreja porque, no passado, a Igreja se orgulhava de ser imutável. No caso da pena capital, João Paulo e agora Francisco argumentaram que as circunstâncias mudaram - há outras maneiras de proteger o público - e, portanto, a pena de morte não é mais necessária e deve ser abolida.

Além disso, ambos pensaram que era uma afronta à dignidade humana. Como João Paulo II escreveu: «Nem mesmo um assassino perde sua dignidade pessoal, e o próprio Deus se compromete a garantir isso». A nova versão do catecismo afirmará que «a dignidade da pessoa não está perdida mesmo após a prática de crimes muito graves». O respeito pela vida humana inclui a vida dos criminosos.

Outra razão para a oposição é que a Igreja sempre espera que um pecador se arrependa e peça perdão. Uma execução corta o tempo disponível para o pecador se arrepender.

Os bispos dos Estados Unidos, agora, vão adicionar oposição à pena de morte a suas outras questões de lobby. Essa lista já inclui posições controversas, como o apoio à reforma abrangente da imigração, assistência médica universal e programas para ajudar os pobres e sua oposição à proibição muçulmana, ao aborto e ao casamento gay.

Assim como alguns políticos católicos divergiram dos bispos sobre essas questões, certamente haverá alguns que se oporão ao apelo dos bispos para a eliminação da pena de morte. Uma das coisas interessantes sobre os bispos é que eles deixam as duas partes políticas desconfortáveis.

Enquanto a discussão da pena de morte for conduzida em abstrato, ela pode permanecer bastante acadêmica. Mas uma vez que se concentrem em um criminoso individual, as paixões se inflamam. Se o criminoso é um assassino em série, um assassino estuprador ou alguém que tenha atirado em crianças em idade escolar, o apelo dos bispos por clemência enfrentará feroz oposição.

No passado, alguns bispos se opuseram à execução de criminosos específicos em seus estados e pediram aos governadores que comutassem suas sentenças para prisão perpétua. Agora podemos esperar que todos os bispos participem desses esforços, e também podemos esperar oposição vocal. Esta é uma luta que os bispos não vão ganhar a menos que seu povo se junte a eles. [Afinal, o desejo de vingança do povo deve ser maior que o de Justiça verdadeira e autêntica? A vida humana é sempre sagrada ou não?]

Traduzido do inglês por Victor D. Thiesen. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 8 de agosto de 2018 – Internet: clique aqui.

Cuidado, eleitor ! ! !


A democracia ferida pelos eleitos

Roberta Paduan e Edoardo Ghirotto

Os regimes livres não morrem mais a golpe de bazuca.
O ataque é insidioso e tanto mais eficiente em países
polarizados e em crise política e econômica como o Brasil
STEVEN LEVITSKY

O cientista político Steven Levitsky, autor do livro Como as Democracias Morrem, a ser lançado em português em setembro pela Editora Zahar, escrito em conjunto com o também cientista político Daniel Ziblatt, falou a VEJA sobre os riscos envolvidos na eleição de políticos autoritários, entre os quais inclui o deputado Jair Bolsonaro, que, segundo ele, “rejeita as regras do jogo democrático”.

O que tem minado os pilares da democracia? 

Steven Levitsky: Até os anos 1990, a forma dominante era o golpe militar, como aconteceu no Brasil, em 1964. Mas, com o fim da Guerra Fria, as democracias passaram a ser desmanteladas por políticos eleitos, que chegam ao poder prometendo destruir a classe política. É preciso preocupar-se quando cidadãos começam a expressar sua desconfiança das instituições democráticas e de políticos democratas, ou quando um candidato que abertamente rejeita as normas democráticas cresce. Também é preocupante se a polarização, geralmente entre a esquerda e a direita, chega a um nível em que um lado começa a identificar o outro como seu inimigo ou como uma ameaça existencial. Vimos isso na Venezuela, com Hugo Chávez, no Peru, com Alberto Fujimori, e, mais recentemente, em países como Hungria, Polônia e Turquia.

Como perceber que uma democracia está em risco? 

Levitsky: A morte se dá de formas diferentes. Mas um fator preponderante é a eleição de uma figura política que, às vezes, tenta se diferenciar da política tradicional e não tem compromisso pleno com os valores democráticos. Tais políticos parecem democratas, e em algum momento o foram, porque venceram eleições. Em 2011, mais de dez anos depois de Hugo Chávez ter chegado ao poder, a maioria dos venezuelanos ainda acreditava que estava vivendo numa democracia, porque o governo havia sido eleito.
JAIR BOLSONARO
Exemplo de autoritário que rejeita as regras do jogo democrático - exalta a ditadura

É possível identificar um AUTORITÁRIO antes de elegê-lo? 

Levitsky: Não há fórmula exata. Em alguns casos, como o do húngaro Viktor Orbán, que teve comportamento bastante democrático no passado, o autoritarismo apareceu apenas quando ele chegou ao poder. Mas era possível dizer que o argentino Juan Perón era autoritário antes de ele assumir. O mesmo pode ser dito de Chávez, Recep Erdogan, da Turquia, além de Rafael Correa, do Equador. É possível dizer isso também de Jair Bolsonaro, que é candidato no Brasil. Esse tipo de candidato dá mostras, por exemplo, de que:
* rejeita as regras do jogo democrático;
* põe em dúvida o processo eleitoral, como se estivesse dizendo que só perderá se o pleito for fraudado;
* tenta deslegitimar oponentes e a imprensa, por não aceitar críticas; e
* apoia ou não condena a violência contra seus opositores.
Bolsonaro, por exemplo, exaltou repetidamente a ditadura durante sua carreira, apoiou violações de direitos civis e abusos de direitos humanos, incluindo o uso de tortura. [Alguém, ainda, duvida do autoritarismo dele?!]

A democracia brasileira está em risco? 

Levitsky: Ela é uma das mais fortes e estáveis da América Latina. Mas, desde a redemocratização, é a primeira vez que apresenta uma combinação terrível de crise econômica e política, além de polarização crescente entre direita e esquerda. E, para completar, há o surgimento de um candidato autoritário.

A democracia vive uma crise global? 

Levitsky: Acho exagero dizer isso. A maioria das democracias continua sobrevivendo. Não estamos assistindo a um colapso. Mas vejo razões para alarme. Nota-se o crescimento de forças nos Estados Unidos e na Europa que não estão comprometidas com a manutenção da democracia. Nos anos 1990, se em algum lugar o Exército tomasse o poder ou tentasse destruir instituições, a comunidade internacional responderia de forma veemente, o que levaria ao isolamento desse país. Hoje, há uma permissividade maior. Quando os militares tomam o controle, como vimos em Honduras, por exemplo, encontram um cenário internacional muito mais permissivo do que há alguns anos. O mundo está menos empenhado em manter um projeto global de democracia.

A ERA DOS AUTOCRATAS

Em Como as Democracias Morrem, Levitsky e Ziblatt descrevem os autocratas modernos e como eles minam regimes democráticos:

Vladimir Putin, Rússia
O líder russo usou acusações de ordem financeira para perseguir empresários simpáticos à oposição, deixando partidos adversários sem recursos, o que levou muitos à extinção. Também prendeu o dono de uma rede de TV independente e condicionou sua liberação à entrega do canal.

Donald Trump, EUA
Iniciou o mandato, em 2017, lançando ataques verbais contra oponentes, chamou a imprensa de “inimiga do povo”, questionou a legitimidade de juízes e intimidou diretores de serviços de inteligência que conduziam investigações contra ele, incluindo o próprio FBI, a polícia federal americana.


Recep Erdogan, Turquia
Processou um conglomerado de mídia simpático a opositores, de forma que os proprietários foram obrigados a desfazer-se de boa parte dos veículos para pagar uma multa de 2,5 bilhões de dólares. Após perder a maioria no Parlamento, ampliou seus poderes no governo, sob a justificativa de que o país enfrentava uma crise de segurança.

Rafael Correa, Equador
Classificou a imprensa de “grave inimigo político” que “precisa ser derrotado” e mandou prender jornalistas. Em 2011, ganhou 40 milhões de dólares em um processo contra o jornal El Universo, que o chamara de ditador. Decidiu perdoar os proprietários, mas a ameaça de processos milionários amenizou o tom das críticas a seu governo.

Viktor Orbán, Hungria
Depois de conquistar dois terços do Parlamento, usou a maioria para reescrever a Constituição e as leis eleitorais. As mudanças viabilizaram o aumento do número de assentos do partido governista. Também limitou a propaganda eleitoral e deu a aliados cargos que anteriormente gozavam de autonomia.

Fonte: VEJA – Brasil/Política – Edição 2594 – Ano 51 – Nº 32 – 8 de agosto de 2018 – Págs. 41-42 – Internet: clique aqui.