«Maldito o homem que confia em outro homem, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor! ... Bendito o homem que deposita a confiança no Senhor, e cuja esperança é o Senhor.»

(Bíblia: Jeremias 17,5.7)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Espiritualidade em tempos de crise

Carlos Alberto Libânio Christo
Frade dominicano

Toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança.
Não há nela um único livro que não retrate o conflito histórico
e o embate entre opressores e oprimidos
Grãos de mostarda

O Brasil se parece, hoje, a uma pessoa atropelada por um caminhão e que, apesar de graves ferimentos, escapa viva. Machucados e maculados estão a política, a ética, a cidadania, a representação parlamentar, embora a economia dê sinais de recuperação, malgrado os 14 milhões de desempregados.

Dizia Santo Agostinho que a esperança tem duas filhas diletas: a indignação e a coragem. A indignação, para contestar o que não está bem. A coragem, para mudar a situação.

Frente a tão nefasta conjuntura, associada à crescente violência (homicídios, assaltos, drogas), a nação reage com indignação (em conversas e redes digitais) e apatia (nas ruas e movimentos sociais).

A indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior...

O que isso tem a ver com espiritualidade? Ora, dela depende o nosso ânimo. Quando nos deixamos levar pelo niilismo somos tragados pela inércia e pelo individualismo. Essa indiferença corrói a nossa subjetividade, e objetivamente legitima o poder que nos submete a seus degenerados propósitos.

Toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança. Não há nela um único livro que não retrate o conflito histórico e o embate entre opressores e oprimidos. No entanto, Javé suscita o novo quando em volta tudo parece decrépito: da gestação de Sara, já idosa, à ação libertadora de Moisés contra o faraó em cuja família ele cresceu; da brisa suave de Elias ao pequeno Davi, de quem nada se esperava.

Deus se encarnou em uma conjuntura profundamente conflituosa:
* A Palestina estava submetida pelo Império Romano.
* Herodes promoveu o infanticídio.
* José, Maria e Jesus se refugiaram no Egito.
* João Batista assassinado pelo governador Herodes Antipas.
* Jesus criticado por fariseus e saduceus; expulso da sinagoga; traído por um dos discípulos; preso, torturado e julgado por dois poderes políticos e executado na cruz.
Sua ressurreição, entretanto, comprovou que a justiça prevalecerá sobre a injustiça e a vida sobre a morte.
Jesus conta as parábolas do Reino de Deus

Tempos de crise requerem a espiritualidade do grão de mostarda: pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história. Espiritualidade do tesouro escondido e de quem sabe que vale a pena cavar o terreno até encontrá-lo. Espiritualidade do cego Bartimeu que, por confiar na ação divina, voltou a ver com clareza.

A espiritualidade é uma atitude subjetiva de paciência histórica e atuação confiante para mudar o atual estado de coisas. Não basta o protesto; urge ter propostas. Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida.

A espiritualidade impede introjetar-nos o que ocorre à nossa volta. Não somatizar a realidade circundante. Ao contrário, desse distanciamento brechtiano reunir energias para transformar o velho em novo, o arcaico em moderno, o ceticismo em esperança.

Nos anos de 1960, eu pensava que o meu futuro pessoal haveria de coincidir com o tempo histórico. Hoje, sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

O futuro será sempre fruto do que semearmos no presente. Não há saída pela inesperada irrupção de um avatar político nem pelo retrocesso ao passado.

A espiritualidade em tempos de crise exige cabeça fria, mente alerta, 
coração solícito.
Não se deixar afogar nas marés negativas.

A história está repleta de exemplos de homens e mulheres que tinham tudo para se enclausurar em seus nichos familiares e profissionais e, no entanto, ousaram erguer a bandeira de um futuro melhor: Gandhi, Luther King, Mandela, Chico Mendes, Zilda Arns e a albanesa Anjesé Gonxhe Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá.

Aos olhos de seus contemporâneos, Jesus fracassou. Aos olhos da história, marcou definitivamente a história humana. Porque confiou que a menor das sementes se transforma na mais frondosa árvore.

Fonte: Correio Riograndense – Opinião – 18/09/2018 – 10h21 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Isso é pura loucura!!!

Obscurantismo

Editorial

Sentimento suscitado pelo chanceler Ernesto Araújo em seu
discurso de posse não é outro senão de apreensão
ERNESTO ARAÚJO
Ministro das Relações Exteriores do Brasil

Bem-aventurada será a Nação se o tresloucado discurso de posse do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, ceder à realidade – pois pareceu tratar de outra dimensão – e não se concretizar nisto que vem sendo chamado de “guinada” na política externa brasileira.

De antemão, é importante deixar claro que é próprio da democracia que a política externa de um país reflita as escolhas manifestadas nas urnas. Políticas de Estado são expressões da vontade dos cidadãos, uma vez que o Estado não é um fim em si mesmo. Mas não é disso que se trata. Está-se diante de algo mais profundo do que a mudança de algumas diretrizes que pautam nossas relações externas.

Estão sob ataque valores que têm sido o esteio do posicionamento do Brasil
no mundo há sucessivas gerações.

Do que se ouviu durante exasperantes 32 minutos de uma fala obscura, empetecada por suposta erudição e eivada de revanchismo e fundamentalismo religioso, nada há de inspirador. O sentimento suscitado pelo chanceler Ernesto Araújo em seu discurso de posse não é outro senão de apreensão.

Paradoxalmente, o chanceler que propõe uma “reaproximação” do Itamaraty com o povo começou seu discurso citando em grego um versículo do Evangelho de São João: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Araújo também fez recorrentes citações em hebraico e tupi-guarani. Seria apenas pedantismo do diplomata não estivesse ele buscando fazer-se de erudito para demonstrar nada além de submissão. Pois a “verdade” que “libertará” o País, segundo ele entende, não é o interesse nacional, mas a “verdade” de seu chefe. “O presidente Jair Bolsonaro está libertando o Brasil por meio da verdade. Nós também vamos libertar a política externa brasileira, vamos libertar o Itamaraty”, disse Araújo, para quem, como se vê, o presidente, antes de ser Bolsonaro, é Messias.

O novo chefe da diplomacia comete gravíssimo erro ao ignorar deliberadamente que a tradição diplomática do País foi construída muito antes da ascensão do PT ao poder e, uma vez cassada a presidente Dilma Rousseff, tal tradição – baseada:
* no multilateralismo,
* no princípio da não ingerência e
* no respeito aos tratados e leis internacionais
– em boa hora foi retomada pelo governo de Michel Temer. Logo, não há que se falar em “libertação” do Itamaraty do jugo esquerdista. Isso já havia ficado para trás.

Mas não é apenas contra o tal esquerdismo que Ernesto Araújo se insurge. O chanceler é um apaixonado crítico do que chama de “globalismo”. Enquanto estiveram circunscritas a seu blog, as ideias do diplomata não representavam danos potenciais ao País. Agora, como ministro das Relações Exteriores, tudo que Araújo diz, pensa e escreve diz respeito ao interesse nacional. E o Itamaraty não é lugar para experimentos inconsequentes.

O ministro fez questão de deixar clara sua reverência ao presidente Donald Trump, um dos mais ferrenhos críticos do tal “globalismo”. Para Araújo, o presidente dos Estados Unidos é nada menos do que o redentor da cultura ocidental e dos valores judaico-cristãos, que, em sua visão, devem pautar as relações externas do País a partir de agora. O único problema é que o Brasil não é os Estados Unidos, não tem a mesma pujança bélica, política e econômica para sustentar suas bravatas. O alinhamento automático, nas condições descritas, põe o Brasil como foco da chacota internacional, no melhor cenário, ou sob risco de perder significativos mercados, no pior.

[Tanto isso é verdade, que vários membros do alto escalão do governo já estão conversando com o embaixador chinês no Brasil, sem a presença do Ministro das Relações Exteriores! Veja:
«O embaixador da China no Brasil reuniu-se também com os ministros da Secretaria de Governo, Santos Cruz, e da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno. Na quinta, ele esteve com o general Augusto Heleno (GSI). Na agenda oficial do chanceler Ernesto Araújo não consta nenhum encontro dos dois.» Fonte: clique aqui.]
YANG WANMING
Atual Embaixador da China no Brasil

O chanceler cerrou fileiras ao lado da Itália, da Hungria e da Polônia, além dos Estados Unidos, o que poderá gerar sérias consequências para o Brasil, tanto políticas como econômicas.

Mais preocupado em tecer considerações sobre uma “teofobia horrenda”, o “ódio contra Deus”, e em estabelecer correlações estapafúrdias para defender sua visão de mundo, quase nada se ouviu de Ernesto Araújo sobre questões práticas da política externa em sua gestão à frente do Ministério das Relações Exteriores. E o discurso de posse do chanceler deveria ser – como ocorre em qualquer país sério do mundo – uma definição da política externa a ser seguida dali em diante.

O ministro afirmou que o Itamaraty deve “regressar ao seio da pátria amada”, pois “não existe para si mesmo”. É verdade. Mas se deseja “reconectar” diplomacia e sociedade, servirá muito mais ao País se pautar a política externa pelo interesse nacional, e não por esdrúxulas crenças pessoais.

JÁ COMEÇOU O DESASTRE:

Guinada para o retrocesso

Editorial

A tal “guinada” liderada pelo chanceler Ernesto Araújo
tem potencial para acabar de vez com o que ainda resta da
boa reputação do Brasil no mundo civilizado
CONFERÊNCIA DE MARRAKESH
10 a 11 de dezembro de 2018

O sombrio ideário que até agora se afigurava como um prenúncio de retrocesso na política externa brasileira começou a se concretizar em medidas do governo do presidente Jair Bolsonaro. A menos que haja profunda reflexão no Palácio do Planalto e no Itamaraty sobre os seus efeitos nocivos, a tal “guinada” liderada pelo chanceler Ernesto Araújo – que bem poderia ser chamada de “cruzada” – tem potencial para acabar de vez com o que ainda resta da boa reputação do Brasil no mundo civilizado.

A Organização das Nações Unidas (ONU) foi comunicada oficialmente pelo governo brasileiro, na terça-feira passada, de que o País está fora do Pacto Global pela Imigração, ao qual o Brasil havia aderido no dia 10 de dezembro do ano passado.

A saída do pacto, por si só muito ruim para o País e, principalmente, para os cerca de 3 milhões de brasileiros que vivem no exterior – mais que o dobro do número de imigrantes estrangeiros que vivem aqui –, é ainda pior pela razão alegada pelo governo: o pacto violaria a soberania nacional.

A defesa da soberania nacional foi uma das bandeiras de nossa campanha e será uma prioridade do nosso governo. Os brasileiros e os imigrantes que aqui vivem estarão mais seguros com as regras que definiremos por conta própria, sem pressão do exterior”, escreveu o presidente Jair Bolsonaro no Twitter.

Em primeiro lugar, caso o presidente da República estivesse tão preocupado com a soberania nacional não teria sequer aventado a possibilidade de ceder uma porção de nosso território para uma base militar dos Estados Unidos no País, como o fez em entrevista ao SBT. Em segundo lugar, o chamado Pacto de Marrakesh não viola a soberania nacional. Aliás, diga-se que a decisão de aderir ao pacto foi um ato soberano do Estado brasileiro, então representado pelo ex-chanceler Aloysio Nunes.

O Pacto de Marrakesh foi aprovado por 160 das 195 nações que fazem parte da ONU. No início de dezembro, o ex-chanceler Aloysio Nunes foi enfático ao defender a adesão do Brasil. “Eu o aprovei porque ele simplesmente contém recomendações de cooperação internacional para combater a migração irregular e conferir tratamento digno aos migrantes, entre os quais cerca de 3 milhões de brasileiros que vivem no exterior”, disse o ex-ministro das Relações Exteriores. É exatamente disso que se trata. O título integral do acordo fala por si só: Pacto Global da ONU para Migração Segura, Ordenada e Regular.
ALOYSIO NUNES
Ministro das Relações Exteriores do Brasil - presente à Conferência de Marrakesh

Ao contrário do que dizem seus críticos, o pacto não propugna a abertura irrestrita de todas as fronteiras das nações signatárias a todo e qualquer imigrante. O documento é taxativo ao afirmar o “direito soberano dos Estados de determinar suas próprias políticas de migração e suas prerrogativas para governar a migração dentro de sua jurisdição, em conformidade com as normas do direito internacional”. Vale dizer, o Pacto de Marrakesh é um conjunto de propostas para que as nações lidem melhor com o aumento do fluxo migratório que tem sido observado em função de crises econômicas, guerras, perseguições étnicas e religiosas, etc.

O impressionante número de nações subscritoras, por sua vez, também é eloquente sinal da oportunidade de um acordo que se presta a lidar com um problema gravíssimo que, sim, é uma questão que deve ser enfrentada como um desafio global, e não um problema restrito a determinados países, como crê o chanceler Ernesto Araújo.

O pacto se coaduna com os princípios da Constituição e, em especial, com a Lei n.° 13.445/2017, a Lei da Migração. Ademais, os princípios e garantias que regem a política migratória brasileira estão de acordo com seus termos.

Ou seja, negar o acordo firmado soberanamente pelo Brasil, para além do embaraço,
é o mesmo que negar o que determina uma lei aprovada pelo Congresso Nacional
e sancionada pelo presidente da República.

Somos uma Nação forjada pelo trabalho incansável de brasileiros e estrangeiros que aqui convivem em harmonia poucas vezes vista em outros países. Aqui prevalece o espírito de tolerância. Não é republicano encabrestar uma história secular de acolhimento e multiculturalismo em função do viés ideológico do governo de turno.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Pág. A3 – Segunda-feira, 7 de janeiro de 2019 – Internet: clique aqui; e Quinta-feira, 10 de janeiro de 2019 – Internet: clique aqui.

Batismo do Senhor – Ano C – Homilia

Evangelho: Lucas 3,15-16.21-22

Naquele tempo:
15 O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias.
16 Por isso, João declarou a todos: «Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo.
21 Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu
22 e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz:
«Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista e Teólogo espanhol

UM BATISMO NOVO

 O Batista fala de maneira muito clara: «Eu vos batizo com água», porém isto só não basta. Há que se acolher em nossa vida a outro mais forte, pleno do Espírito de Deus: «Ele vos batizará com o Espírito Santo e fogo».

São muitos os «cristãos» que permaneceram na religião do Batista. Foram batizados com «água», porém não conhecem o batismo do «espírito». Talvez, a primeira coisa que todos nós necessitamos seja deixar-nos transformar pelo Espírito que mudou totalmente Jesus. Como é sua vida depois de receber o Espírito de Deus?

Jesus distancia-se do Batista e começa a viver a partir de um horizonte novo. Não se deve viver preparando-se para o juízo iminente de Deus. É o momento de acolher a um Deus Pai que busca fazer da humanidade uma família mais justa e fraterna. Quem não vive nesta perspectiva, não conhece jamais o que é ser cristão.

Movido por esta convicção, Jesus deixa o deserto e dirige-se para a Galileia para viver próximo aos problemas e sofrimentos das pessoas. É aí, em meio à vida, onde se tem de sentir Deus como «algo bom»: um Pai que atrai todos a buscar juntos uma vida mais humana. Quem não sente Deus assim, não sabe como vivia Jesus.

Jesus abandona também a linguagem ameaçadora do Batista e começa a contar parábolas que jamais haviam ocorrido a João. O mundo deve saber quanto é bom este Deus que busca e acolhe sempre seus filhos perdidos porque somente quer salvar, não condenar. Quem não fala esta linguagem de Jesus, não anuncia sua boa notícia.

Jesus deixa a vida austera do deserto e dedica-se a fazer «gestos de bondade» que o Batista jamais havia feito. Cura enfermos, defende os pobres, toca os leprosos, acolhe à sua mesa os pecadores e prostitutas, abraça crianças da rua. O povo tem de sentir a bondade de Deus em sua própria carne. Quem fala de um Deus bom e não faz os gestos de bondade que fazia Jesus desacredita a sua mensagem.

EU SOU AMADO

Diz Henri Nouwen [1932-1996: teólogo, padre e escritor holandês radicado nos Estados Unidos e Canadá] em um de seus escritos que os homens e mulheres de hoje, seres repletos de medos e insegurança, necessitam mais do que nunca ser abençoados. As crianças necessitam da bênção de seus pais e estes necessitam da bênção de seus filhos.

O escritor recorda com emoção a primeira vez que, em uma sinagoga de Nova York, foi testemunha da bênção de um filho judeu por seus pais: «Filho, aconteça o que te acontecer na vida, tenhas êxito ou não, chegues a ser importante ou não, gozes de saúde ou não, recorda sempre quanto te amam teu pai e tua mãe».

O ser humano contemporâneo ignora o que é a bênção e o sentido profundo que encerra. Os pais não mais bendizem os seus filhos. As bênçãos litúrgicas perderam seu sabor original. Não se sabe mais o que é a bênção nupcial. Esqueceu-se que «bendizer» (do latim benedicere) significa literalmente «falar bem», dizer coisas boas a alguém. E, sobretudo, dizer-lhe o nosso amor e o nosso desejo de que seja feliz.

E, no entanto, as pessoas necessitam ouvir coisas boas. Há entre nós demasiada condenação. Há muitos que se sentem amaldiçoados em vez de abençoados. Alguns se maldizem, inclusive, a si mesmos. Sentem-se maus, inúteis, sem valor algum. Sob uma aparente arrogância, esconde-se, com frequência, um ser inseguro que, no fundo, não aprecia a si mesmo.

O problema de muitos não é se amam ou não amam, se creem em Deus ou não creem. O problema deles é que eles não se amam. E não é fácil desbloquear esse estado de coisas. Amar-se a si mesmo quando um sabe como é, pode ser das coisas mais difíceis.

O que muitos necessitam escutar hoje no íntimo de seu ser é uma palavra de bênção. Saber que são amados apesar de sua mediocridade e seus erros. Porém, onde está a bênção? Como alguém pode estar seguro de que é amado?

Uma das maiores desgraças do cristianismo contemporâneo é ter esquecido, em boa parte,
esta experiência nuclear da fé cristã:
«Eu sou amado, não porque sou bom, santo e sem pecado,
mas porque Deus é bom e me ama de maneira incondicional e gratuita em Jesus Cristo».

Sou amado por Deus agora mesmo, tal como sou, antes que comece a mudar.

Os evangelistas narram que Jesus, ao ser batizado por João, escutou a bênção de Deus: «Tu és meu Filho, o amado». Também a nós essa bênção de Deus sobre Cristo nos alcança. Cada um de nós pode escutá-la no fundo de seu coração: «Tu és meu filho amado».

Isso também será a coisa mais importante deste ano. Quando as coisas ficarem difíceis e a vida parecer insuportável, lembre-se sempre de que você é amado com amor eterno.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo C (Homilías) – Internet: clique aqui.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Um Cristo “suave”

Papa: «Atenção aos falsos profetas que te propõem um Cristo “suave”, sem muita carne»

Giada Aquilino

Em sua homilia da Missa matutina na Casa Santa Marta,
o Papa Francisco lembra que Deus se fez “concreto, nascido de uma mulher concreta, viveu uma vida concreta, 
morreu de uma morte concreta,
e nos pede que amemos aos irmãos e irmãs concretos”
PAPA FRANCISCO
celebrando a Santa Eucaristia na Capela Santa Marta - Vaticano

Os mandamentos de Deus são “a concretude”: é este o ‘critério' do cristianismo, não as “belas palavras”. A afirmação é do Papa Francisco em sua homilia da Missa matutina celebrada na Casa Santa Marta, depois da pausa pelas festas natalinas.

Rezando para que os santos, que são - disse - “os loucos da concretude”, nos ajudem a “caminhar” por este caminho e a “discernir” as coisas concretas “que o Senhor quer” a respeito das “fantasias” e ilusões dos “falsos profetas”, o Pontífice reflete sobre a Primeira Carta de São João Apóstolo: tudo o que pedimos, o recebemos de Deus, “de fato” - explica o Papa - para que observemos seus mandamentos e façamos o que lhe agrada.

Uma porta aberta

O acesso a Deus é, portanto, “aberto”, afirma o Papa, e a “chave” é precisamente a sugerida pelo apóstolo: crer “no nome de seu Filho Jesus Cristo” e amar-se “uns aos outros”: só assim podemos pedir “o que queremos”, com “coragem”, “com ousadia”, acrescenta Francisco.

Crer que Deus, o Filho de Deus, veio da carne, se fez um de nós. Isto é fé em Jesus Cristo: um Jesus Cristo, um Deus concreto, que foi concebido no ventre de Maria, que nasceu em Belém, que cresceu como um menino, que fugiu para o Egito, que voltou a Nazaré, que aprendeu a ler com seu pai, a trabalhar, a seguir em frente e logo a pregar... concreto: um homem concreto, um homem que é Deus, mas homem. Não é Deus disfarçado de homem. Não. Homem, Deus que se fez homem. A carne de Cristo. Esta é a concretude do primeiro mandamento. O segundo é também concreto. Amar, amar-nos uns aos outros, amor concreto, não amor de fantasia:

‘Te amo, ah quanto te amo’ e logo com minha língua te destruo, com as fofocas...
Não, não, isto não. Amor concreto.

Ou seja, os mandamentos de Deus são concretos e o critério do cristianismo é a concretude, não as ideias e as belas palavras... Concreto. E este é o desafio”.

Vigilância espiritual

O apóstolo João, “apaixonado pela encarnação de Deus”, evidencia o Papa, exorta a pôr a prova os espíritos, ou seja, explica que quando surge “uma ideia sobre Jesus, sobre as pessoas, sobre fazer algo, sobre o pensar que a redenção está por aí”, essa inspiração deve ser “provada”. A vida do cristão, acrescenta o Pontífice, é basicamente concreta na fé em Jesus Cristo e na caridade, mas também é “vigilância espiritual”.

“A vida do cristão é concreta na fé em Jesus Cristo e na caridade, mas também é uma luta, porque sempre tem ideias ou falsos profetas que te propõem um Cristo 'suave', sem muita carne e o amor ao próximo é um pouco relativo... Sim, estes estão do meu lado, mas aqueles, não...”.

Os falsos profetas

A exortação do Pontífice é, portanto, a crer em Cristo “encarnado”, a crer no amor “concreto” e a discernir, segundo a grande verdade da Encarnação do Verbo e do amor concreto, se os “espíritos” - “ou seja, a inspiração” - procedem “verdadeiramente de Deus”, porque “muitos falsos profetas vêm ao mundo”: o diabo, reitera o Papa, trata sempre de “nos distanciar de Jesus, de permanecer em Jesus”, por isto é necessária a “vigilância espiritual”.

Além dos pecados cometidos, reflete o Pontífice, o cristão “ao final do dia deve tirar dois, três, cinco minutos” para se perguntar o que aconteceu em seu “coração”, que inspiração ou talvez inclusive que “loucura do Senhor” lhe veio à mente: porque “o Espírito às vezes nos empurra à loucura, mas à grande loucura de Deus”.

Como por exemplo, assinala o Papa, aquela de um homem - presente na Missa de hoje - que “há mais de 40 anos deixou a Itália para ser missionário entre os leprosos” no Brasil ou aquela de Santa Francisca Cabrini que sempre esteve “a caminho” para “curar os migrantes”. O convite é, portanto, a “não ter medo” e a discernir.

“Quem pode me ajudar a discernir? O povo de Deus, a Igreja, a unanimidade da Igreja, o irmão, a irmã que têm o carisma de nos ajudar a ver com clareza. Por isso é importante que o cristão tenha uma conversa espiritual com pessoas de autoridade espiritual. Não é necessário ir ao Papa ou ao bispo para ver se o que sinto é bom, mas há muita gente, sacerdotes, religiosos, leigos, que têm esta capacidade de nos ajudar a ver o que aconteceu em meu espírito para não cometer erros. Jesus teve que fazer isto no início de sua vida quando o diabo o visitou no deserto e lhe propôs três coisas, que não estavam de acordo com o Espírito de Deus e Ele rejeitou o diabo com a Palavra de Deus. Se isso aconteceu com Jesus, acontece conosco também. Não ter medo”.

Disciplina da Igreja

Por outro lado, reflete o Papa Francisco, já no tempo de Jesus “havia pessoas de boa vontade”, mas que pensavam que o caminho de Deus era “outro”: o Papa cita os fariseus, os saduceus, os essênios, os zelotes, “todos tinham a lei em suas mãos”, mas nem sempre escolheram os melhores caminhos. O chamado é, portanto, à “mansidão da obediência”.

Por isso, acrescenta o Papa, “o povo de Deus sempre avança na concretude”, na caridade, na fé, na Igreja: e isto - assinala o Pontífice - “é o sentido da disciplina da Igreja”: quando a disciplina da Igreja está na concretude “ajuda a crescer”, evitando assim “as filosofias dos fariseus ou dos saduceus”. É Deus, conclui o Papa Francisco, que se tornou “concreto, nascido de uma mulher concreta, viveu uma vida concreta, morreu de uma morte concreta, e nos pede que amemos os irmãos e irmãs concretos”, ainda que “alguns não sejam fáceis de amar”.

Fonte: Vatican News – Papa Francisco – Missa – Santa Marta  Segunda-feira, 7 de janeiro de 2018 – Internet: clique aqui.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Revisar o celibato obrigatório

Cardeal alemão pede uma revisão do celibato obrigatório: “A verdade não é eterna”

Cameron Doody
Religión Digital
05-01-2018

“Creio que já chegou a hora de nos comprometer a abrir o caminho da Igreja à renovação e à reforma”, afirma o cardeal Reinhard Marx
CARDEAL REINHARD MARX
pregando na Catedral de Munique, onde é bispo

São importantes na Igreja o desenvolvimento de programas anti-pederastia “e sua melhora, prevenção e revisões independentes, mas é preciso algo mais”. Algo como a reavaliação do celibato sacerdotal obrigatório. Esta é a opinião do cardeal Reinhard Marx, que, à luz do “fracasso” que revelou o escândalo de abusos em várias partes do mundo, voltou a defender que a Igreja “evolua” na disciplina sexual que requer do clero.

Creio que já chegou a hora de nos comprometer a abrir o caminho da Igreja à renovação e à reforma”, proclamou o cardeal Marx em sua homilia na Missa de Ano Novo na catedral de Nossa Senhora, em Munique, de acordo com o que foi publicado por CNS.

A evolução na sociedade e as demandas históricas tornaram evidentes a necessidade de renovação e as tarefas necessárias para empreendê-la”, explicou o arcebispo de Munique e Freising. O também presidente da Conferência Episcopal alemã enfatizou em seu sermão que as medidas que a Igreja adotou até aqui como resposta à crise de abusos não são suficientes e que fazem falta “adaptações da doutrina” para realmente combater o problema.

Estas modificações da tradição, argumentou o cardeal Marx, também são necessárias para que a Igreja seja fiel ao mandato de abertura ao mundo que empreendeu no Concílio de meados do século passado. “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está seguindo em frente, nem está sendo entendido em sua profundidade”, defendeu, acrescentando que “temos que trabalhar nisso”.

A verdade não é eterna. Podemos reconhecê-la mais profundamente no caminho compartilhado da Igreja, apontou ainda o cardeal, colaborador próximo do Papa Francisco em seu “gabinete” de cardeais assessores, conhecido como C6. Marx acrescentou que é seu “dever como sacerdote e bispo” adotar novas posturas sobre esta e outras questões de atualidade eclesial. Como também é dever de todos os católicos, que devem “deixar para trás categorias como esquerda e direita, liberal e conservador, para nos centrar no caminho do Evangelho em um ponto concreto no tempo”.

Viramos para uma nova maneira de pensar”, animou o cardeal aos fiéis reunidos na missa, recordando-lhes que “arriscar” seu pensamento “é importante ao final de um ano e o começo de um ano novo” e os encorajando a “não se esconder na retórica do passado”.

Naturalmente nos mantemos em uma grande tradição, mas esta não é uma tradição completa. É um caminho para o futuro”, continuou, advertindo os paroquianos que o ano de 2019 da Igreja seguirá cheio de “inquietude e oposição”, por isso faz mais falta do que nunca “um novo pensamento.

É que este ano promete ser um ano de mudanças para a Igreja alemã, especialmente porque os bispos organizaram para sua plenária desta primavera um debate sobre o celibato sacerdotal obrigatório como resposta direta à crise de abusos, o qual contará com a intervenção de profissionais de várias disciplinas, tanto de dentro como de fora da Igreja.

Este debate se produzirá em meio a uma forte polêmica na Alemanha pela questão da disciplina do celibato, que se encontra cada vez mais no olho do furacão, não só pela pressão da mídia secular, como também pela influência do protestantismo. Até tal ponto que em novembro último o Comitê Central de Católicos Alemães (Zentralkomitee der deutschen Katholiken) votou por uma ampla maioria contra a norma eclesiástica.

Traduzido do espanhol por Graziela Wolfart. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Domingo, 6 de janeiro de 2019 – Pág. A3 – Internet: clique aqui.

Ideologia, palavra de moda

Editorial

O governo Bolsonaro não precisa ter vergonha de ser de direita.
Mas deve evitar a todo custo a radicalização.
É esse o traço que desvia para os caminhos do arbítrio 
e da supressão das liberdades

Em seu discurso no plenário do Congresso, Jair Bolsonaro prometeu que “o Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas”. Não foi uma menção aleatória. Presente desde a campanha eleitoral, a tal batalha contra as ideologias agora ocupa parte substancial das preocupações do novo governo. As ideologias tornaram-se o grande inimigo a ser vencido.

Em primeiro lugar, chama a atenção o tratamento impreciso do termo ideologia. O presidente Jair Bolsonaro e seus adeptos usam a palavra ideologia para se referir a todo pensamento alheio que difere do seu. Ideologia seria toda ideia que eles acham equivocada. No parlatório do Palácio do Planalto, Bolsonaro prometeu, por exemplo, “acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais”. Também se referiu ao “grande desafio de enfrentar (...) a ideologização de nossas crianças”. Não se sabe bem a que se referia.

O emprego abusivo do termo ideologia remete à ideia de que o novo governo seria isento ideologicamente. Os adversários é que teriam ideologia, isto é,
manifestariam uma visão enviesada e corrompida da realidade.

O governo Bolsonaro atuaria noutra dimensão, não ideológica. No entanto, o que se vê no bolsonarismo, a despeito desse discurso de aparente neutralidade, é uma atuação acentuadamente ideológica. É claro que toda ação política está ancorada num determinado conjunto de ideias, valores, opiniões e crenças a respeito do Estado, da sociedade e das pessoas. São justamente essas características que o bolsonarismo evita definir quando se refere às suas qualidades. Mas quando a ideologia é a do adversário, ela é definida como socialismo, esquerdismo, etc., como se essas variedades da política fossem irremediavelmente incompatíveis com o exercício democrático. Esse viés demanda atenção e cuidados, uma vez que ele conduz, por definição, à prática autoritária.

E a tal “ideologia” do bolsonarismo acaba sendo o elemento definidor de tudo o que na administração da coisa pública acaba sendo nocivo. Na escolha de vários ministros, por exemplo, mais do que a experiência ou a capacidade técnica, o que importou foi o compartilhamento de ideias e opiniões - a tal “ideologia”.

Caso esdrúxulo ocorreu na Casa Civil. Sem apresentar nenhuma razão técnica, o ministro Onyx Lorenzoni exonerou todos os 320 funcionários com cargos comissionados de sua pasta. Disse que estava fazendo a “despetização” do governo, admitindo, portanto, que agia com critérios ideológicos. [Sem falar que o PT deixou o poder há mais de dois anos, pois quem exercia a Presidência da República era Michel Temer, do MDB-SP]. A “despetização” do governo é tão nefasta quanto a “petização”, pois a administração pública não deve se pautar por questões ideológicas, e sim por critérios de ordem técnica e ética.

A ideologia também serviu de critério prioritário em algumas manifestações do novo governo sobre política internacional. Por razões ideológicas, alguns países foram excluídos do convite para a cerimônia de posse do presidente Bolsonaro. Já em outros casos, a ideologia foi motivo de atitudes que claramente contrariam o interesse nacional, como o anúncio de uma possível mudança da embaixada brasileira em Israel.

Essa extremada ideologização do governo Bolsonaro contraria parte significativa das propostas feitas pelo próprio governo na área econômica, jurídica e administrativa. Se o presidente Jair Bolsonaro não atalhar o quanto antes essa atuação baseada em critérios ideológicos, muito rapidamente haverá conflito entre as áreas do governo. Por exemplo, as reformas econômicas demandam critérios técnicos em sua aprovação e implantação. Não há eficiência administrativa que resista à conferência de carteirinha partidária. Ou não se faz a abertura comercial do País se a principal preocupação na área internacional for atender a demandas de ordem religiosa de apoiadores do governo.

O governo Bolsonaro não precisa ter vergonha de ser de direita. Mas deve evitar a todo custo a radicalização. É esse o traço marcante que desvia o conservadorismo - e também o progressismo - para os caminhos tortuosos e sombrios do arbítrio e da supressão das liberdades. Lembre-se o presidente Jair Bolsonaro que, no dia de sua posse, assumiu o compromisso de “construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações – Domingo, 6 de janeiro de 2019 – Pág. A3 – Internet: clique aqui.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Solenidade da Epifania do Senhor – Ano C – Homilia

Evangelho: Mateus 2,1-12

1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém,
2 perguntando: «Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo».
3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de Jerusalém.
4 Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer.
5 Eles responderam: «Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta:
6 “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”».
7 Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido.
8 Depois os enviou a Belém, dizendo: «Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo».
9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino.
10 Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande.
11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra.
12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

RELATO DESCONCERTANTE

Diante de Jesus pode-se adotar atitudes muito diferentes. O relato dos magos nos fala da reação de três grupos de pessoas:
a) Pagãos que o procuram, guiados pela pequena luz de uma estrela.
b) Os representantes da religião do Templo, que permanecem indiferentes.
c) O poderoso rei Herodes que somente vê nele um perigo.

Os magos não pertencem ao povo eleito. Não conhecem o Deus vivo de Israel. Não sabemos de sua religião nem de seu povo de origem. Somente que vivem atentos ao mistério que está presente no cosmos. Seu coração busca a verdade.

Em algum momento, creem ver uma pequena luz que aponta para um Salvador. Necessitam saber quem é e onde está. Rapidamente se põem a caminho. Não conhecem o itinerário exato que deverão seguir, porém, em seu interior, arde a esperança de encontrar uma Luz para o mundo.

A chegada deles à cidade santa de Jerusalém provoca um choque geral. Convocado por Herodes, se reúne o grande Conselho dos «sumos sacerdotes e escribas do povo». Sua atuação é decepcionante. São os guardiões da verdadeira religião, porém não buscam a verdade. Representam o Deus do Templo, porém vivem surdos ao seu chamado.

Sua segurança religiosa os cega. Sabem onde há de nascer o Messias, porém nenhum deles se dirigirá a Belém. Dedicam-se a dar culto a Deus, porém não suspeitam que seu mistério seja maior que todas as religiões, e possui seus próprios caminhos para encontrar-se com todos seus filhos e filhas. Nunca reconhecerão Jesus.

O rei Herodes, poderoso e brutal, somente vê em Jesus uma ameaça ao seu poder e crueldade. Fará tudo que for possível para eliminá-lo. A partir do poder opressor somente se pode «crucificar» a quem traz libertação.

Enquanto isso, os magos prosseguem sua busca. Não caem de joelhos perante Herodes: não encontram nele nada digno de adoração. Não entram no grandioso Templo de Jerusalém: o acesso lhes é proibido. A pequena luz da estrela os atrai para o pequeno povoado de Belém, distante de todo centro de poder.

Ao chegar, a única coisa que veem é o «menino com Maria, sua mãe». Nada mais. Um menino sem esplendor nem poder algum. Uma vida frágil que necessita do cuidado de uma mãe. É suficiente para despertar nos magos a adoração.

O relato é desconcertante.

A este Deus, escondido na fragilidade humana,
não o encontram os que vivem instalados no poder ou
fechados na segurança religiosa.

Deus revela-se àqueles que, guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser humano na ternura e na pobreza da vida.

Tradução do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

O QUE SIGNIFICAM O OURO, INCENSO E MIRRA?

O Papa São Gregório Magno († 604), em uma de suas homilias, oferece uma interpretação completa do que sejam esses presentes. Primeiro, ele recorre a uma explicação literal, dizendo para que servem o ouro, o incenso e a mirra:

«Os magos tinham ouro, incenso e mirra: o primeiro, evidentemente, corresponde a um rei; o incenso é usado no sacrifício a Deus; a mirra, por fim, embalsama os corpos dos mortos

Depois, ele dá o sentido alegórico e místico dessa passagem, explicando aquilo em que devemos crer:

«Os Magos que adoram o Cristo também O proclamam com presentes místicos: que Ele é rei, com o ouro; que é Deus, com o incenso; e que é mortal, com a mirra. De fato, são muitos os hereges que acreditam em Deus, mas de modo algum acreditam que Ele reina em todos os lugares. Esses certamente lhe oferecem incenso, mas o ouro não querem ofertar. São muitos também os que O estimam como rei, mas O negam enquanto Deus. Esses, como se pode ver, oferecem-Lhe ouro, mas o incenso não querem ofertar. Há muitos, enfim, que O exaltam tanto como Deus como quanto rei, mas negam que Ele tenha assumido a carne mortal. Esses oferecem-Lhe muito ouro e incenso, mas a mirra da mortalidade assumida não querem ofertar.

Nós, ao contrário, ao Senhor que nasce ofereçamos ouro, a fim de confessarmos que Ele reina onde quer que seja; ofereçamos incenso, para crermos que aquele que apareceu no tempo é o Deus que existe antes dos tempos; e ofereçamos mirra, para crermos que também assumiu a nossa carne mortal aquele em cuja divindade impassível acreditamos.»

Por fim, São Gregório faz uma interpretação moral dessa passagem, mostrando como também nós podemos ofertar ao Menino Jesus ouro, incenso e mirra:

«Porém, no ouro, no incenso e na mirra, outras coisas se pode entender. O ouro, por exemplo, designa a sabedoria, que Salomão atesta quando diz: “Desejável tesouro se encontra na boca do sábio” (Pr 21,20). Pelo incenso se exprime aquilo que a força da oração incendeia diante de Deus, como atesta o Salmista: “Seja elevada diante de tua presença a minha oração como incenso” (Sl 140,2). Na mirra, enfim, vai figurada a mortificação da nossa carne, de onde a Santa Igreja dizer de seus servidores fiéis, até a morte, que “suas mãos destilaram mirra” (Ct 5, 5).»

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo C (Homilías) – Internet: clique aqui; Equipe Christo Nihil Praeponere – 07 de janeiro de 2016 – Internet: clique aqui.