«Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela.»

(Albert Einstein [1879-1955] – físico teórico alemão, um dos mais ilustres cientistas do mundo)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 14 de julho de 2018

15º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Homilia


Evangelho: Marcos 6,7-13

Naquele tempo:
7 Jesus chamou os doze, e começou a enviá-los dois a dois, dando-lhes poder sobre os espíritos impuros.
8 Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura.
9 Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.
10 E Jesus disse ainda: «Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida.
11 Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!»
12 Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem.
13 Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

O QUE DEVEMOS LEVAR

Nós, cristãos, nos preocupamos muito de que a Igreja conte com meios adequados para cumprir eficazmente sua tarefa: recursos econômicos, poder social, plataformas eficientes. Parece-nos o mais normal. No entanto, quando Jesus envia seus discípulos para prolongar sua missão, não pensa no que devem levar consigo, mas precisamente no contrário: o que não devem levar.

O estilo de vida que lhes propõe é tão desafiador e provocativo que logo as gerações cristãs o suavizaram. O que devemos fazer, hoje, com estas palavras de Jesus? Apagá-las do Evangelho? Esquecê-las para sempre? Tratar de sermos fiéis, também hoje, ao seu espírito?

Jesus pede aos seus discípulos que não tomem consigo dinheiro nem provisões. O «mundo novo» que ele busca não se constrói com dinheiro. Seu projeto não o levarão adiante os ricos, mas pessoas simples que saibam viver com poucas coisas porque descobriram o essencial: o REINO DE DEUS e sua JUSTIÇA.

Não levarão sequer sacola, ao estilo dos filósofos cínicos que carregavam uma sacola sobre os ombros, onde guardavam esmolas para garantir seu futuro. A obsessão pela segurança não é boa. A partir da tranquilidade do bem-estar não é fácil criar o REINO DE DEUS como um espaço de vida digna para todos.

Os seguidores de Jesus irão pelo caminho parecidos como as classes oprimidas da Galileia. Não levarão túnica de reserva para proteger-se do frio da noite. As pessoas devem vê-los identificados com os últimos. Caso se distanciem dos pobres, não poderão anunciar a Boa Notícia de Deus aos mais necessitados.

Para os seguidores de Jesus não é ruim perder o poder, a segurança e o prestígio social que tivemos quando a Igreja dominava tudo. Pode ser uma bênção se isso nos conduz a uma vida mais fiel a Jesus. O poder não transforma os corações; a segurança do bem-estar nos distancia dos pobres; o prestígio nos enche de nós mesmos.

Jesus imaginava seus seguidores de outra maneira:
* livres de amarras,
* identificados com os últimos,
* com a confiança posta totalmente em Deus,
* curando os que sofrem,
* buscando para todos a paz.
Somente assim, se introduz no mundo seu PROJETO.

EVANGELIZAÇÃO NOVA

Na Igreja sente-se, hoje, a necessidade de uma nova evangelização. Em que ela pode consistir? Onde pode estar sua novidade? O que temos de mudar? Qual foi, realmente, a intenção de Jesus ao enviar seus discípulos para prolongar sua tarefa evangelizadora?

O relato de Marcos deixa claro que somente Jesus é a fonte, o inspirador e o modelo da ação evangelizadora de seus seguidores. Estes atuarão com sua autoridade. Não farão nada em nome próprio. São «enviados» de Jesus. Não pregarão a si mesmos: somente anunciarão seu Evangelho. Não terão outros interesses: somente se dedicarão a abrir caminhos ao REINO DE DEUS.

A única maneira de impulsionar uma «nova evangelização» é purificar e intensificar esta vinculação com Jesus. Não haverá nova evangelização se não há novos evangelizadores, e não haverá novos evangelizadores se não houver um contato mais vivo, lúcido e apaixonado com Jesus. Sem ele, faremos tudo, menos introduzir seu Espírito no mundo.

Ao enviá-los, Jesus não deixa seus discípulos abandonados a suas forças. Dá-lhes sua «autoridade», que não é um poder para controlar, governar ou dominar os demais, mas sua força para «expulsar espíritos imundos», libertando o povo daquilo que escraviza, oprime e desumaniza as pessoas e a sociedade.

Os discípulos sabem muito bem o que lhes confia Jesus. Nunca o viram governando a ninguém. Sempre o conheceram:
* curando feridas,
* aliviando o sofrimento,
* regenerando vidas,
* libertando de medos,
* contagiando a confiança em Deus.
«Curar» e «libertar» são tarefas prioritárias na atuação de Jesus. Dariam um rosto radicalmente diferente à nossa evangelização.

Jesus envia-os com o necessário para caminhar. Segundo Marcos, somente levarão «bastão, sandálias e uma túnica». Não necessitam de mais nada para serem testemunhas do essencial. Jesus os quer livres e sem amarras; sempre disponíveis, sem instalar-se no bem-estar; confiando na força do Evangelho.

Sem recuperar este estilo evangélico, não há nova evangelização. O importante não é por em marcha novas atividades e estratégias, mas desprendermo-nos de costumes, estruturas e servidões que nos estão impedindo de ser livres para contagiar o essencial do Evangelho com verdade e simplicidade.

A Igreja perdeu esse estilo itinerante que sugere Jesus. Seu caminhar é lento e pesado. Não consegue acompanhar a humanidade. Não temos agilidade para passar de uma cultura a outra. Agarramo-nos ao poder que tivemos. Nós nos envolvemos em interesses que não coincidem com o REINO DE DEUS. Nós precisamos de conversão.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Um país sem ética!

O Brasil onde se zomba da ética se coloca
às portas da ditadura

Juan Arias
Jornalista

O emblemático caso de Lula está revelando que o conceito de ética
está desmoronando a ponto de não se saber mais onde
começa a verdade e a mentira
ROGÉRIO FAVRETO
Juiz do Tribunal Regional Federal da 4ª Região - Porto Alegre (RS)

O caso Lula e os últimos acontecimentos em torno da tentativa de libertá-lo da prisão a qualquer preço estão revelando algo mais profundo e grave: que, no Brasil, o espúrio conúbio entre política e justiça está jogando por terra o sentido sagrado da ética, que em suas origens supõe o reconhecimento entre “o bem e o mal”, como já advertia o filósofo Aristóteles. E quando um povo confunde os limites entre o bem comum e o pessoal, quando zomba da ética, coloca-se às portas da ditadura.

Se instituições como a política e a Justiça são concebidas por seus responsáveis como uma confraria de interesses pessoais, à custa das pessoas, é inevitável que surja a tentação de soluções autoritárias para impor e decidir o que é bom e o que é mau, à margem do que a sociedade possa pensar.

E esse é um perigo real hoje no Brasil, onde o emblemático caso de Lula, com tudo o que arrasta de paixões e interesses e que pode condicionar o presente e o futuro do país, está revelando que o conceito de ética está desmoronando a ponto de não se saber mais onde começa a verdade e a mentira, a liberdade e a tirania.

Quando uma sociedade percebe que os principais responsáveis nacionais por lutar pelo princípio da ética – vista como o sal que impede que a democracia apodreça – são os primeiros a pisoteá-la e ajoelhá-la perante seus interesses, não há nada de estranho que ela acabe envenenada, dividida, incrédula e tentada a tomar a justiça nas suas próprias mãos. Nesse ponto, a explosão de violência é inevitável.

Quando magistrados, juízes e políticos (preciso dar nomes?) usam seu poder a favor ou contra os que consideram ser “deles”, em detrimento do princípio de que ela deve ser igual para todos; quando os que nomeiam os cargos consideram normal que os nomeados sejam gratos a esses padrinhos ou ao seu partido, mesmo que à custa de usar dois pesos e duas medidas; quando observamos esse conluio político judicial à custa da sociedade e até da Constituição, não é de estranhar que as pessoas nas ruas vejam isso como um grotesco espetáculo que não corresponde ao peso e à importância de uma sociedade como a brasileira.

Que Lula seja julgado como qualquer outro cidadão, nem com maior nem com menor rigor, já que a lei é igual para todos. Mas que a sociedade sinta de forma palpável que esse rigor da lei serve também com os outros personagens da política. Do contrário, não é de estranhar que acabe convencida de que existem réus de estimação e réus para serem perseguidos.

E quando uma sociedade se sente traída e burlada, não é difícil que caia na tentação de jogar a ética na sarjeta para fazer justiça com as próprias mãos. Pudemos ver isso nos últimos dias, depois da loucura judicial da ordem de domingo do juiz Rogério Favreto de tirar Lula da prisão, e tudo o que isso desencadeou no mundo político e judicial. Um episódio que serve para pôr sobre a mesa a irritação nacional contra as diversas instituições. O eco que isso produziu entre cidadãos de ambos os lados do espectro político foi significativo e aterrador.

a) Por parte da esquerda, os tuítes violentos lançados à sombra do anonimato das redes, como os que diziam: “Eu queria libertar Lula com as minhas mãos, e com as mesmas matar Moro”, ou “Gente, é preciso mandar matar o Moro”.
b) E pela direita, a divulgação do celular do juiz Favreto, que também culminaram em ameaças de morte a ele e à sua família, e até o tuíte do general Paulo Chagas, que, com a cara descoberta, incita à violência contra o juiz que mandou soltar a Lula: “Gauchada!!! O nome dele é Rogerio Favreto. É um desembargador petralha, está de plantão no TRF.4. Será fácil encontrá-lo para manifestar-lhe, com a veemência cabível, a nossa opinião sobre ele e a sua irresponsabilidade. Ele é mais um apaixonado pelo ladrão maior. Conversem com ele”.

Alguém poderá estranhar que a sociedade se sinta em guerra? Dividida em lados, como quem a governa, quando vê que aqueles em quem deveria confiar para que a deusa da justiça não seja estuprada a colocam aos pés de seus piores interesses?

Até nas guerras, nos campos de batalha, existem entre inimigos certas regras e pausas em que os soldados enfrentados param para conversar e até se confraternizar. Na guerra do Brasil, não parece haver nem momentos de pausa para refletir. Existirá alguém com autoridade e moralidade capaz de erguer a bandeira branca da paz, ou os políticos continuarão aproveitando o descontrole que criaram para continuar pescando nas águas revoltas?

Quando na Espanha, há mais de 40 anos, faleceu o ditador militar Franco, o país, ferido com mais de um milhão de mortos vítimas da guerra civil, estava partido em dois. O então futuro rei Juan Carlos, perante o cadáver do ditador, prometeu: “Serei o rei de todos os espanhóis”. Ali começou a difícil e ainda inacabada reconciliação nacional.

Quando em um país perde-se a medida para distinguir o bem do mal, onde a Justiça pode ter muitas caras e a ética aparece doente e desprezada, a democracia corre perigo de morte e abrem-se as portas dos fantasmas autoritários.

Fonte: El País / Brasil – Opinião – Sexta-feira, 13 de julho de 2018 – 00h03 (Horário Centro-Europeu de Verão) – Internet: clique aqui.

domingo, 8 de julho de 2018

14º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 6,1-6

Naquele tempo:
1 Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam.
2 Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: «De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?
3 Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?» E ficaram escandalizados por causa dele.
4 Jesus lhes dizia: «Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares».
5 E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
6 E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

SÁBIO E CURADOR

Não tinha poder cultural como os escribas. Não era um intelectual com estudo. Tampouco, possuía o poder sagrado dos sacerdotes do Templo. Não era membro de uma família honorável nem pertencia às elites urbanas de Séforis ou Tiberíades. Jesus era um «operário da construção», de uma aldeia desconhecida da Baixa Galileia.

Não havia estudado em alguma escola rabínica. Não se dedicava a explicar a Lei. Não lhe preocupavam as discussões doutrinais. Não se interessou jamais pelos ritos do Templo. As pessoas o viam como um mestre que ensinava a entender e viver a vida de uma maneira diferente.

Segundo Marcos, quando Jesus chegou em Nazaré acompanhado de seus discípulos, seus vizinhos ficaram surpreendidos por duas coisas: a sabedoria de seu coração e a força curadora de suas mãos. Era o que mais atraía as pessoas. Jesus não era um pensador que explicava uma doutrina, mas um sábio que comunicava sua experiência de Deus e ensinava a viver sob o signo do amor. Não era um líder autoritário que impunha seu poder, mas um curador que sanava a vida e aliviava o sofrimento.

Para as pessoas de Nazaré não lhes custou muito desacreditar de Jesus. Neutralizaram sua presença com toda a sorte de perguntas, suspeitas e receios. Não se deixaram ensinar por ele nem se abriram à sua força curadora. Jesus não pôde aproximá-los de Deus, nem curar a todos como havia desejado.

Não se pode entender Jesus a partir de fora. Deve-se entrar em contato com ele. Deixar que vá introduzindo pouco a pouco em nós coisas tão decisivas como a alegria de viver, a compaixão ou a vontade de criar um mundo mais justo. Deixar que nos ensine a viver na presença amistosa e próxima de Deus. Quando alguém se aproxima de Jesus, não se sente atraído por uma doutrina, mas CONVIDADO a viver de uma maneira nova.

Por outro lado, para experimentar sua força salvadora, é necessário deixar-nos curar por ele:
* recuperar pouco a pouco a liberdade interior,
* liberar-nos de medos que nos paralisam,
* atrevermos a sair da mediocridade.

Jesus continua, hoje, «impondo suas mãos». Somente se curam aqueles que creem nele.

A FÉ PODE CURAR

Durante muito tempo o Ocidente ignorou, quase totalmente, o papel do espírito na cura da pessoa. Hoje, pelo contrário, se reconhece abertamente que, grande parte das enfermidades modernas são de origem psicossomática e tem uma dimensão psicossomática.

No entanto, muitas pessoas ignoram que sua verdadeira enfermidade se encontra em um nível mais profundo que o estresse, a pressão arterial ou a depressão. Não se dão conta de que a deterioração de sua saúde começa a gestar-se em:
* sua vida absurda e sem sentido,
* na carência de amor verdadeiro,
* na culpabilidade vivida sem a experiência do perdão,
* no desejo centrado egoisticamente sobre si mesmo ou
* em tantas outras «enfermidades» que impedem o desenvolvimento de uma vida saldável.

Certamente, seria degradar a religião utilizá-la como um de tantos remédios para ter boa saúde física e psíquica; a razão de ser da religião não é a saúde do homem, mas a sua salvação definitiva. Porém, uma vez estabelecido isto, temos de afirmar que a fé possui força sanadora e que acolher Deus com confiança pode ajudar as pessoas a viver de maneira mais sadia.

A razão é simples. O “EU” MAIS PROFUNDO do ser humano pede sentido, esperança e, sobretudo, AMOR. Muitas pessoas começam a adoecer por falta de amor. Por isso, a experiência de saber-se amado incondicionalmente por Deus cura. Os problemas não desaparecem. Porém, saber, no nível mais profundo de meu ser, que sou amado sempre e em qualquer circunstância, e não porque eu sou bom e santo, mas porque Deus é bom e me quer, é uma experiência que gera ESTABILIDADE INTERIOR.

A partir desta experiência básica, o crente pode ir curando feridas de seu passado. É bem sabido que grande parte das neuroses e alterações psicofísicas estão vinculadas a essa capacidade humana de gravar e armazenar tudo. O amor de Deus acolhido com fé pode ajudar a enxergar com paz erros e pecados, pode libertar das vozes inquietantes do passado, pode afugentar espíritos malignos que, às vezes, povoam a nossa memória. Tudo fica abandonado confiantemente ao AMOR de Deus.

Por outro lado, essa experiência do AMOR DE DEUS pode curar o viver de cada dia. Na vida tudo é graça para quem vive aberto a Deus; pode-se trabalhar com sentido apesar de não obter resultados; tudo se pode unificar e integrar a partir do amor; a experiência mais negativa e dolorosa pode ser vivida de maneira positiva.

O evangelista Marcos recorda em seu evangelho que Jesus não pôde curar em Nazaré porque a muitos faltava-lhes a fé. Esse pode ser também o nosso caso. Não vivemos a fé com suficiente profundidade como para experimentar seu poder curador.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B – Internet: clique aqui.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Sentimentos determinam a vida humana!

O impacto do sentir

Entrevista com António Damásio
Médico neurocientista português radicado nos Estados Unidos
David Dornsife Professor de Neurociência, Psicologia e Filosofia na University of Southern California [Universidade do Sul da Califórnia] e Professor-Adjunto no Salk Institute

Filipe Vilicic

Um dos cientistas que mais compreendem o cérebro humano argumenta,
em novo livro, que os sentimentos têm papel essencial no progresso,
ou no atraso, civilizatório
ANTÓNIO DAMÁSIO

O neurocientista português António Damásio consagrou-se, em seus 74 anos, como um dos intelectuais que mais compreendem o funcionamento do nosso cérebro. Ao lado da mulher e colega de profissão, a também portuguesa Hanna, de 75 anos, ele chefia o centro de pesquisas de sua área na Universidade do Sul da Califórnia. Em seu primeiro best-seller, O Erro de Descartes (1994), Damásio explorou a ideia de como o conjunto de mente e corpo nos define. Em seu novo livro, A Estranha Ordem das Coisas, lançado em junho no Brasil pela Companhia das Letras, acrescenta outro elemento essencial a essa fórmula: os sentimentos. Na entrevista à VEJA, por telefone, o acadêmico explicou como a raiva, a alegria e outras expressões humanas foram e são motores do processo civilizatório, mesmo que, por vezes, emoções coletivas possam levar a retrocessos. Radicado nos Estados Unidos desde os anos 1970, ele falou em português — mas, em alguns termos técnicos, resvalou no inglês. A seguir, sua entrevista.

Por que, nos últimos anos, pesquisadores como o senhor e o primatólogo holandês Frans de Waal estão levando a ciência a estudar os sentimentos, quando, historicamente, ela analisava mais o intelecto?

António Damásio: São duas as razões. Primeiro, houve no século XX uma tendência intelectualista. Dava-­se valor à razão, mas considerava-se que o afeto era algo que não merecia estudo. Mais que isso, pensava-se na necessidade de suprimir as emoções, pois não valia a pena manifestá-las. Essa filosofia levou ao menosprezo da vida, ou ao menos desse aspecto essencial dela. Hoje compreendemos que o sentimento integra o conjunto de corpo e mente, sendo determinante para tudo o que a humanidade construiu. O segundo motivo para a falta de pesquisas do gênero algumas décadas atrás é técnico: provou-se bem mais complicado explicar nossos afetos do que nossa razão.

Por quê?

Damásio: O intelecto está ligado ao córtex cerebral, cuja estrutura é resultante de uma evolução moderna do cérebro. É simples analisá-lo. Já os sentimentos advêm do tronco do cerebelo, da espiral da medula, dos nervos periféricos, enfim, de uma mecânica cuja origem se confunde com o princípio da evolução dos seres vivos. Essa estrutura, a história de sua formação e como ela age são aspectos muito difíceis de ser estudados. Só agora começamos a desvendá-los. Aposto que nos próximos cinco anos serão publicadas conclusões científicas que vão revolucionar esse entendimento e, logo, o que é ser um humano.

De onde vêm os sentimentos?

Damásio: De um processo biológico que se mescla ao sistema formado por corpo e mente. Eles desempenham um papel fundamental no progresso civilizatório. A raiva, a alegria, a tristeza delinearam a cultura, as artes, as guerras, a ciência, a tecnologia, tudo o que nos define. Agora, para entender o contexto, é preciso levar em conta que existem dois aspectos do viver. Um é orgânico, relacionado ao corpo. Daí vêm as emoções. Se o organismo não está saudável, ele manifesta isso externamente. Nota-se quando alguém se mostra feliz ou tomado pela amargura. Por exemplo, se um indivíduo sente uma dor enorme no coração, devido a uma doença cardíaca, seu sofrimento é evidente, de forma objetiva. Já os sentimentos são outra coisa. Eles refletem aspectos internos e estão associados à mente ou, como se definia antigamente, à alma. Por estarem dentro de nós, são subjetivos. Consequentemente, não se exibem em público. Podemos esconder sentimentos, mas não emoções. Funciona assim: meu corpo pode se revelar feliz; mas, internamente, talvez eu me sinta deprimido. Ao mesmo tempo, há momentos em que emoções e sentimentos estão em sincronia. Tudo o que um ser humano faz, individual ou coletivamente, é reflexo de demonstrações emotivas e sentimentais.

Somos seres mais sentimentais do que racionais?

Damásio: Não. Trata-se de uma mistura. O que quero ressaltar é que é preciso compreender que, além da razão, podemos usar os sentimentos a favor do processo civilizatório. Alguns acham que estou diminuindo os seres humanos ao dar a ideia de que as emoções e o sentir nos guiam. Isso porque anteriormente a ciência se apoiava na proposta de que a razão era o que nos separava de outros seres vivos. É uma análise errada. Apresentamos sentimentos de complexidade e dimensão incomparáveis aos de não humanos. É o que nos torna o animal mais especial deste planeta. Meu novo livro é uma tentativa desesperada de mostrar como funcionamos do ponto de vista dos sentimentos, para que possamos dominá­-los em busca de tirar o melhor deles.

Por que o senhor diz que é uma tentativa desesperada?

Damásio: Há muitas mazelas que poderiam ser evitadas pelo maior controle dos sentimentos. Extraindo o melhor deles, podemos construir nossa história, as tecnologias, as ciências e as sociedades culturais.

De que maneira somos superiores aos não humanos, como o senhor define?

Damásio: As emoções estão presentes há bilhões de anos nos seres vivos, mesmo em bactérias. Estas já manifestam fisicamente estados que indicam se estão bem ou mal — sem, no entanto, dominar capacidades mentais. As raízes de nossos sentimentos são fruto de milênios de evolução, que nos levaram de manifestações emotivas primárias a processos elaborados. Isso só foi possível pelo aparecimento do sistema nervoso, e do cérebro, em intrincados organismos multicelulares. Foi quando os humanos progrediram, usando esse avanço como propulsor. Cães, gatos, chimpanzés têm tanto emoções quanto a capacidade do sentir, mas o que acontece conosco é que ligamos isso ao conhecimento acumulado, criando-se assim a humanidade.

Quando nos tornamos seres sentimentalmente evoluídos?

Damásio: No momento em que passamos a nos reunir em torno de fogueiras. Foi aí que compreendemos as vantagens sociais dos sentimentos, como a forma como eles nos ligam em laços familiares.

O senhor aponta os sentimentos como um fator evolutivo, que nos ajuda a sobreviver no mundo. Como explicar, então, que eles nos levem a decisões como o suicídio?

Damásio: Organismos em estado regular de saúde buscam a felicidade, por meio de exibições sentimentais. Às vezes, porém, há falhas no cérebro. A depressão é uma doença desse gênero, que nos leva a decisões nada condizentes com o processo evolutivo, como a de se matar. Pessoas não se suicidam por esporte, mas sim por causa de uma alteração química na mente. É claro que fatores externos pesam também. É por isso que, hoje, com tantas perturbações sociais, o índice de suicídio está aumentando.

Os sentimentos, quando ganham um caráter coletivo nas redes sociais, como o Facebook, têm mais chance de ser deturpados ou adquirir formas extremadas?

Damásio: Sim. A internet tornou mais fácil e rápida a contaminação social nesse sentido. Essa é uma das mazelas que poderiam ser evitadas, como mencionei. Redes sociais têm vantagens, pois agilizam a comunicação. No entanto, permitem que o conhecimento se alastre sem dar abertura para a reflexão. Isso pode gerar reações impulsivas de uma maioria, refletidas em likes e dislikes instantâneos. Esse é um cenário que inevitavelmente arrasta multidões em direção a polos sentimentais. As consequências sociais e políticas dessa rápida adoção do sentimento alheio são perigosas.

Quais seriam esses efeitos?

Damásio: Periodicamente, uma parcela do mundo cede aos sentimentos coletivos, o que leva a extremismos. Assim surgiram o nazismo e o comunismo tal como existiu. O descontrole dos sentimentos coletivos na internet pode levar a autocracias [= poder ilimitado e absoluto].

Como controlar isso?

Damásio: Com a disseminação de conhecimento. É necessário fazer um esforço para ensinar as pessoas, desde a infância, a lidar com os próprios sentimentos. Existem expressões do tipo que devem ser tidas como positivas ou negativas. Se compreendermos quais situações provocam efeitos ruins, como a raiva, evoluímos e combatemos tanto o que ocorre hoje com o radicalismo na internet quanto o que pode culminar em ditaduras.

Como implementar esse ensino?

Damásio: É preciso vontade social e política. Ocorre que, por nossa biologia, é natural manifestar sentimentos como o ódio, que levam a conflitos danosos. Deveríamos implementar nas escolas a educação ligada à inteligência emocional, para mostrar as vantagens consequentes dos bons sentimentos e da contenção dos ruins. A esperança é, com isso, criar condições para uma vida melhor, em busca do progresso civilizatório. Pelo ponto de vista da ciência, um começo poderia ser a instituição de aulas ligadas a sentimentos, como as de técnicas de meditação.

E se nada for feito?

Damásio: Se não tomarmos ciência de nossas atitudes emocionais, é inevitável a repetição da história. Nosso corpo e nossa mente estão programados para a reprodução do que sempre fizemos. Temos de ser racionais em relação a isso. Hoje, a falta, para uma maioria, de conhecimento histórico, sentimental e do estado atual do mundo pode conduzir, mais uma vez, ao surgimento de governos autoritários, ao aumento do terrorismo, ou seja, às manifestações culturais provenientes dos sentimentos negativos.

De que maneira os sentimentos coletivos radicalizados, como acontece no Brasil de hoje, podem guiar os votos em uma eleição presidencial?

Damásio: Os sentimentos nos levam em direção a situações que achamos que serão mais favoráveis a nós, com menor sofrimento. Quando há a convicção de que um candidato pode nos levar a essa felicidade, o impulso é apoiá-lo. Trata-se, porém, de uma situação enganosa. É preciso racionalizar na hora de votar. Olhar para os fatos, não para o discurso, e ter perspectiva histórica para avaliar se determinado político — e não quero citar nomes — não adota comportamentos que tendem a levar a atrocidades, como ocorreu com o nazismo.

Se progredimos cultural e cientificamente, também podemos evoluir em nossos sentimentos?

Damásio: O leque de emoções com que trabalhamos é o mesmo desde os primórdios. Já com os sentimentos, avançamos em como lidar com eles. Aprendemos a ser menos violentos do que há 1000 anos. Também evoluímos em nossa bondade, o que deu origem a movimentos que pregam a paz. Mas há riscos novos. Por exemplo, estamos desenvolvendo inteligências artificiais capazes de simular emoções, mas não de sentir de verdade, justamente por não terem vida. Isso pode acabar na fabricação de monstros que nos veem como ameaças.

Fonte: revista VEJA – Edição 2589 – ano 51 – nº 27 – 4 de julho de 2018 – Págs. 13-15 – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Uma terrível divisão em nossa Igreja

A 30 anos do cisma lefebvriano:
um jogo duplo na Cúria Romana

Andrea Grillo
Teólogo italiano
Professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma,
do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e
do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua

Tradicionalistas sem tradição!!!
Aqueles que atribuem ao sucessor de Lefebvre* o papel de
“defensor da tradição” manifestam que estão totalmente
desorientados sobre a história dos últimos 50 anos e que
não têm o mínimo senso da tradição que caminha e que se cura
BERNARD FELLAY é um bispo católico suíço, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.
Foi ordenado válida mas ilicitamente por Marcel Lefebvre em 1988.
Aos 21 de janeiro de 2009, o Santo Padre Bento XVI revogou a excomunhão através da Congregação para os Bispos

Com uma entrevista concedida ao Tagespost no dia 28 de junho passado, Bernard Fellay responde a perguntas bem formuladas sobre os 30 anos de experiência do cisma lefebvriano.

Muitas respostas fotografam com muita precisão o nível de distância e de hostilidade dos lefebvrianos em relação ao catolicismo romano, assim como ele se desenvolveu no Concílio Vaticano II em diante.

Gostaria de me deter apenas sobre algumas dessas respostas, que são singularmente úteis para se falar não tanto dos lefebvrianos, mas sim dos seus interlocutores na Cúria Romana e do seu jogo perigoso e duplo. Cito uma série de respostas de Fellay, às quais faço seguir meus breves comentários.

1. A missa reformada

Fellay expressa opiniões sobre a missa resultante da Reforma litúrgica tão carregadas de preconceitos e tão injustos a ponto de clamar por vingança ao céu. Eis um primeiro trecho em que ele se expressa sobre o Concílio Vaticano II e sobre a reforma da missa:

«As reformas que se seguiram demonstraram isso mais claramente do que o próprio Concílio. O problema se condensou sobre a nova missa. Em Roma, disse-se ao arcebispo Lefebvre aut aut: “Se o senhor celebrar a nova missa, está tudo bem”. Os nossos argumentos contra a nova missa não importavam nada. Enquanto isso, o missal de Paulo VI foi composto com a colaboração de teólogos protestantes. Se somos forçados a celebrar essa missa, então realmente surge um problema. E nós fomos levados a fazer isso.»

É evidente que a incompreensão da missa resultante da Reforma Litúrgica leva a uma incompreensão radical do Concílio e do caminho de recompreensão do mundo moderno realizado pelo próprio Concílio. Fellay desacredita o Concílio e a Reforma Litúrgica. Com quem expressa essas opinião não se começa nem a discutir. Ele excomunga a si mesmo, pelos argumentos que utiliza.

2. Summorum pontificum

A propósito da ruptura e do papel que o cardeal Ratzinger teve no caso em 1988, Fellay diz:

«(Ratzinger) não entendeu como eram profundas as razões do arcebispo e a desorientação dos fiéis e dos padres. Muitos não aguentavam mais escândalos e desconfortos pós-conciliares, e também o modo em que a nova missa era celebrada. Se o cardeal Ratzinger tivesse nos compreendido, ele não teria agido assim. E acho que ele se arrependeu. Por isso, como papa, tentou reparar os danos com o motu proprio e remover a excomunhão. Somos-lhe realmente gratos pelas suas tentativas de reconciliação. »

Essas palavras, que Fellay obviamente carrega com um tom totalmente particular, também revelam um dos equívocos mais insidiosos que estão por baixo de todos esses casos. A simples possibilidade de que o texto do Summorum pontificum tenha sido entendido como uma espécie de “ressarcimento do dano” e de “condição” para o acordo realmente parece ser uma gravíssima responsabilidade. Da parte dos lefebvrianos, pela incompreensão da reforma, e da parte de Bento XVI, pela relativização e pela banalização da própria reforma.

Depois de 30 anos daquele cisma, não há razões para manter ainda um paralelismo entre formas diferentes e contraditórias do mesmo rito, que não se fundamentam nem teologicamente, nem juridicamente, nem liturgicamente.
MARCEL LEFEBVRE [1905-1991]
Foi um arcebispo católico francês que se notabilizou pela resistência às reformas da Igreja Católica instauradas pelo Concílio Vaticano II. Foi uma personalidade controversa e um dos promotores do "movimento" tradicionalista católico. É sobretudo conhecido pela fundação da Fraternidade Sacerdotal de S. Pio X, que se dedica à formação de padres e ao apostolado na forma pré-conciliar.

3. As condições pedidas por Roma para o acordo

Mas talvez o texto mais surpreendente e preocupante seja aquele que Fellay dedica às demandas romanas para se chegar a um acordo. Eis as suas palavras:

«Nós devemos questionar certos pontos do Concílio. Os nossos interlocutores em Roma nos disseram: os pontos principais – liberdade de consciência, ecumenismo, nova missa – são problemas em aberto. Trata-se de um progresso incrível. Até agora se dizia: vocês devem obedecer. Agora, os colaboradores da Cúria dizem: vocês deveriam abrir um seminário em Roma, uma universidade para a defesa da tradição. Não é mais tudo preto e branco.»

É inevitável que Fellay demonstre um certo entusiasmo. Se Roma, sem qualquer responsabilidade, levasse a pensar, mesmo que apenas remotamente, que liberdade de consciência, ecumenismo e nova missa possam ser “variáveis não necessárias” da identidade católica, é claro que, para os lefebvrianos, seria um verdadeiro triunfo. Eles não teriam qualquer dificuldade para se reconciliar com uma Roma que se tornou, repentina e improvisadamente, lefebvriana.

Mas quem pode ter dito a Fellay aquelas palavras irresponsáveis, senão algum membro da Comissão Ecclesia Dei? E não será o caso de submeter esses oficiais a uma verificação, pelo menos em relação à tradição católica assim como o Concílio Vaticano II a projetou? Será que os membros dessa comissão, na fúria de celebrar com o rito antigo, se descobriram mais apaixonados pelo Concílio de Trento do que pelo Concílio Vaticano II? Aqueles que atribuem ao sucessor de Lefebvre o papel de “defensor da tradição” manifestam que estão totalmente desorientados sobre a história dos últimos 50 anos e que não têm o mínimo senso da tradição que caminha e que se cura.

Não deixaremos a “monsenhorzinhos” romanos sem verdadeira cultura eclesial e analfabetos em liturgia e em teologia conciliar a faculdade de liquidar a Reforma Litúrgica, o ecumenismo e a liberdade de consciência por um prato de lentilhas.

Sobre esse ponto, Roma só pode ser rigorosamente intransigente. Para permanecer aberta ao Espírito Santo. E para isolar definitivamente todos aqueles que querem reduzir a Igreja a um museu.

No entanto, se eu tivesse que considerar cuidadosamente a mesa das negociações com Fellay, francamente não saberia para que lado da mesa deveria olhar com maior preocupação.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui (Come se non – 03/07/2018).

* IMPORTANTE: para saber mais detalhes da separação e rompimento com a Igreja Católica promovida pelo ex-arcebispo Marcel Lefebvre, clique aqui e leia, na íntegra, esse ótimo artigo.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 3 de julho de 2018 – Internet: clique aqui.

terça-feira, 3 de julho de 2018

O perigo do WhatsApp

Editorial

WhatsApp segue um território livre para os sensacionalistas e teóricos da conspiração que buscam, no mínimo, a admiração de seus amigos ou familiares

O Reuters Institute Digital News Report 2018, relatório anual elaborado pelo Reuters Institute For The Study of Journalism, em parceria com a Universidade de Oxford, traz dados preocupantes sobre o comportamento dos brasileiros no ambiente digital, no que concerne à informação.

Durante todo o mês de janeiro e o início de fevereiro deste ano, o Reuters Institute For The Study of Journalism realizou uma pesquisa online com 74.000 pessoas em 37 países, incluindo o Brasil, sobre seus meios preferidos para leitura de notícias, a confiança que depositam nos ditos veículos tradicionais de informação, o apoio que dão a ações governamentais para combate às chamadas fake News [notícias falsas], além de outras questões relevantes para a compreensão da importância da atividade jornalística hoje.

Mais da metade dos brasileiros que têm acesso à internet (52%) prefere o Facebook para se informar sobre fatos relevantes da vida nacional e do mundo. O número ainda é bastante expressivo, mas o resultado de 2018 representa uma queda de 5% em relação ao ano passado.

Quando comparados os resultados das pesquisas feitas entre 2014 e 2018, é possível observar que as redes sociais estão em queda como meio preferencial de consumo de notícias. Tanto o Facebook como o Twitter experimentaram um período de crescimento entre 2014 e 2016; a partir de então, deu-se um declínio até o atual platô de estagnação. Do total de consultados pelo Reuters Institute For The Study of Journalism este ano, 36% disseram usar o Facebook para se informar, enquanto apenas 11% preferem o Twitter. O contrário é observado em relação ao WhatsApp, que, em média, registrou crescimento de 15% entre 2014 e 2018 nos 37 países onde a pesquisa foi realizada.

No Brasil, cerca de 48% dos respondentes em 2018 disseram usar o WhatsApp para se informar, um crescimento de 2% em relação ao ano passado.

Com base nas respostas dadas pelos consultados, o Digital News Report 2018 revela que o Facebook se tornou uma rede social tão vasta e heterogênea que as pessoas simplesmente não se sentem mais confortáveis em compartilhar informações pessoais naquela plataforma e tampouco confiam no conteúdo que trafega pela rede. Este poderia ser um dado auspicioso caso a opção não fosse o WhatsApp, que é tão ou mais descontrolado do que o Facebook no que tange à confiabilidade das notícias que circulam por lá.

Quando instados a dar suas percepções sobre as marcas Facebook e WhatsApp, os respondentes se referiram ao primeiro como uma rede social “egocêntrica”, “assustadora”, “multifacetada”, “genérica” e voltada para os que passam por “crises de meia-idade”. Já o WhatsApp é percebido como mais “amigável”, “divertido”, “agregador”, “honesto”, “discreto” e “confiável”.

Paradoxalmente, a pesquisa revelou que os brasileiros são os mais preocupados com a disseminação de fake news no ambiente digital, sobretudo por se tratar de ano eleitoral. Quando solicitados a dizer o grau de concordância com a afirmação “Estou preocupado sobre o que é real ou falso na internet”, 85% dos brasileiros consultados concordaram com a assertiva. Para ter uma ideia, este porcentual é de 64% nos Estados Unidos de Donald Trump e a campanha que seu governo faz contra os veículos de informação que ousam apresentar dados contrários aos interesses do governo.

Se a confiabilidade das informações no ambiente digital é um valor importante para os brasileiros, o que circula pelo WhatsApp deve ser recebido com a devida cautela.

Se redes como o Facebook têm sido fortemente cobradas, inclusive por órgãos de governo, a reforçar os mecanismos de identificação de postagens falsas, o mesmo não ocorre com o WhatsApp, que segue um território livre para os sensacionalistas e teóricos da conspiração que buscam, no mínimo, a admiração de seus amigos ou familiares, ainda que isso ocorra à custa da disseminação de informações falsas ou descontextualizadas. Ao contrário do Facebook, o WhatsApp ainda conta com o anonimato que oferece menor risco a quem divulga notícias que se provam falsas.

Fonte: O Estado de S. Paulo – Notas e Informações / Opinião – Domingo, 1 de julho de 2018 – Pág. A3 – Internet: clique aqui.