«O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete.»

(Aristóteles [384 a.C. – 322 a.C.] – filósofo grego, discípulo de Platão)

Quem sou eu

São Paulo, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; estou reiniciando o meu Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Por que somos pobres ? ? ?

Afinal, por que é que o Brasil nunca deixa
de ser pobre?

Felippe Hermes

Porque o único caminho para enriquecer é diluir a concentração
de poder político-econômico. E o que fazemos é justamente o contrário 
Sem esgoto e sem água tratada, boa parte da população brasileira vive sem as mínimas condições de saúde

Mais de 40 milhões de brasileiros moram em residências sem acesso a água potável, mesmo estando no país com as maiores reservas de água doce do mundo. Em um terço dos 1.444 municípios do semi árido nordestino, mais de 10% das crianças sofre de desnutrição – no país que mais produz proteína animal no planeta.

Mergulhando um pouco mais na história brasileira, não é difícil perceber que riquezas naturais e qualidade de vida para a população não são necessariamente coisas que andam lado a lado. Nosso imenso potencial tem feito justamente o contrário, nos ajudando a empacar em uma nada agradável 80ª posição mundial quando o assunto é a riqueza produzida por cada cidadão. Não faz sentido. Lendo a próxima página, no entanto, você vai entender os porquês.

Primeiro, vamos rebobinar a fita da história até o século 17. Na época, o Brasil e as colônias britânicas que viriam a formar os Estados Unidos já representavam polos antagônicos na economia mundial, mas na posição inversa da de hoje. 
No Brasil-Colônia e Império, o país vivia do plantio e colheita de um só produto,
primeiro a cana, depois o café

Por aqui, produzíamos a maior riqueza conhecida na época, a cana de açúcar, que foi capaz de tornar Recife uma das cidades mais ricas do mundo. Nas colônias da América do Norte não havia um clima propício para a cana. A solução, então, foi improvisar. Primeiro, elas se tornaram um grande fornecedor de alimentos e animais de tração para as ilhas caribenhas que disputavam a produção de cana com o Brasil – já que nessas ilhas todo o território se destinava à produção de açúcar.

Aí que as coisas começaram a se desenhar. Enquanto nós e os caribenhos caíamos de cabeça na monocultura de cana, a América do Norte usava o ouro que recebia das Antilhas para criar variedade na agricultura, na pecuária, na pesca. Tudo num círculo virtuoso capaz não só de distribuir melhor a riqueza, como de criar mais riqueza. Da necessidade cada vez maior de barcos de pesca, por exemplo, surgiu uma indústria naval que logo passaria a vender embarcações para as potências europeias.

No Brasil, acontecia justamente o contrário. A cana enriquecia meia dúzia de senhores de engenho, e essa renda permanecia concentrada. Em vez de regar outros setores da economia, acabava reinvestida em mais monocultura. E seguimos assim até o século 20. Agora, o café era a nova cana. Fora isso, pouco havia mudado.

A concentração de renda na economia fomentou a concentração de poder na política. Nisso, a república brasileira consolidou-se como uma sociedade extrativista, na qual esse pequeno grupo se alimentava do poder político para manter inabalado seu poder econômico, dificultando qualquer forma de inovação ou de empreendedorismo.

Lá fora, por outro lado, a diversificação dos negócios diluiu tanto o poder econômico como o político, e a inovação ganhou um papel relevante. “Inovação”, aliás, já virou uma palavra vazia, de tão mal usada. Então vamos aqui para um exemplo clássico. No Brasil, construímos nossas ferrovias com o intuito de escoar o café. Nos Estados Unidos, a malha ferroviária desenvolveu-se num primeiro momento para transportar a produção de alimentos. Num segundo, para escoar petróleo, popularizado por John D. Rockfeller na segunda metade do século 19 (ainda como fonte de energia para lâmpadas de querosene, não para carros). E aí veio uma inovação de fato: tendo de pagar cada vez mais aos donos das ferrovias, John D. Rockfeller decidiu construir oleodutos. Aos donos das ferrovias, coube buscar novos clientes. E aí aconteceu uma inovação ainda mais importante.

As ferrovias acabaram fomentando o comércio à distância, que também estava nascendo no final do século 19. Resultado: cem anos atrás, um americano típico já conseguia mobiliar a casa toda comprando produtos por catálogos, mesmo que morasse em uma cidade afastada. Numa cajadada só, isso bombou a demanda e a oferta de todo tipo de produto. Ou seja: ao mesmo tempo em que atiçava o comércio, isso diluía ainda mais o poder econômico – e, com ele, o poder político.

Como virar o jogo?

Para que a sua economia cresça você precisa unir:
* trabalho (população),
* capital (máquinas, terras, equipamentos) e
* tecnologia (educação).
A concentração de poder econômico e político joga contra os dois últimos fatores. É que ela gera aquilo que o pessoal da economia chama de “instituições extrativistas”. Estamos falando em leis escritas por quem se beneficia dessas mesmas leis, em governos que, via impostos, fazem com que os pobres banquem privilégios dos ricos, em uma educação que só atende um pequeno grupo de privilegiados.

Tais instituições aniquilam a educação e dão um tiro de carabina no empreendedorismo. Ou seja: o capital continua fixo nas mãos da meia dúzia de sempre, além de perdermos a capacidade de produzir tecnologia.

Na prática, isso explica por que um americano médio produz quatro vezes mais riqueza que um brasileiro, ou por que alcançaremos apenas em 2026 a mesma produtividade que cada cidadão americano tinha no início da década de 1960.

Pudera. Em termos proporcionais ao PIB, investimos três vezes menos em educação básica do que a média dos países ricos, ao mesmo tempo em que gastamos mais do que a média em ensino superior. Na prática, seis em cada dez alunos que entrem hoje na Universidade de São Paulo (USP) estão entre os 20% mais ricos da população.

Ainda que de maneira invisível, fomentamos a manutenção da desigualdade e o extrativismo de renda de formas que vão bem além do furto que você sofre todos os dias ao pagar impostos para financiar Joesley Batista e cia.
Colheita de soja - continuamos a ser exportadores de produtos agrícolas e de baixo custo

Vendedores de matéria-prima

Tudo isso ajuda a explicar por que os grandes produtos de exportação do Brasil sejam:
* soja,
* minério de ferro,
* petróleo cru,
* carne,
* café e
* açúcar,
enquanto os dos Estados Unidos são:
* aviões,
* medicamentos,
* circuitos integrados.
Ainda que não nos consideremos mais um país agrário, mantemos instituições idênticas às dos nossos tempos de colônia, moldadas para perpetuar problemas.

Enquanto a nossa EDUCAÇÃO for uma piada;
nossos IMPOSTOS, uma forma de transferir renda dos pobres para os ricos,
e boa parte dos NOSSOS POLÍTICOS, meros capachos de grandes empresas, não vai ter outro jeito: seguiremos na mesma,
como um país desigual que vive para exportar matéria-prima.

Vai um caldo de cana?

Fonte: Super Interessante – Essencial – Edição 378 – Agosto de 2017 – Págs. 12-13 – Internet: clique aqui. 

sábado, 9 de setembro de 2017

23º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 18,15-20

Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos:
15 «Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão.
16 Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.
17 Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão ou um pecador público.
18 Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.
19 De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isto vos será concedido por meu Pai que está nos céus.
20 Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome eu estou ali, no meio deles.»

JOSÉ ANTONIO PAGOLA & JOSÉ MARÍA CASTILLO

SOZINHO, ENTRE OS DOIS

São muitos os fatores que constantemente deterioram nossas relações pessoais dentro da família, entre vizinhos e companheiros de trabalho ou na convivência diária.

A comunicação fica facilmente bloqueada, sobretudo quando constatamos que o outro atuou de maneira injusta ou desleal. Sentimo-nos como que justificados para excluí-lo de nossa aceitação amistosa e fechar-nos em um juízo destruidor.

Posto que o outro atuou mal, não consideramos necessário analisar nossa postura. Parece-nos «normal» retirar nossa amizade e bloquear nosso olhar e nosso coração.

Assim, sem nos darmos conta, nossas relações se empobrecem, afogadas pela decepção, pelas acusações inflexíveis e tantas condenações.

Não é este o caminho correto para crescer. Jesus nos anima a adotar uma postura positiva, orientada para salvar a relação com o irmão, sem buscar seu desprestígio ou sua condenação, mas unicamente o BEM. Surpreendentemente, Jesus indica que é o «ofendido» aquele que deve tomar a iniciativa para facilitar a reconciliação.

Essa postura positiva exige um coração simples e grande, pois se trata de aproximar-nos daquele que agiu mal, sem julgamentos humilhantes nem condenações definitivas, mas movidos pelo desejo interior de paz e de reconciliação sincera.

De pouco serve condenar a partir de uma atitude de superioridade moral ou a partir de uns princípios rígidos e inflexíveis, se falta esta atitude interior de acolhida amistosa.

É necessário escutar o outro sem pressa, dar-lhe possibilidade de «explicar-se», deixar que nos comunique sua maneira de viver e sentir tudo aquilo, sem que se veja humilhado ou rejeitado.

Não basta dizer: «Sim, já lhe conheço», «Para que vamos conversar se tudo continuará igual?», «Como se não soubesse que tipo de pessoa é», «Decepcionou-me para sempre», «Nada mais será como antes».

Todos cometemos falhas e equívocos. Todos temos momentos maus e necessitamos poder começar de novo, contar com uma nova oportunidade. Deve-se seguir crendo no amigo, na esposa, no companheiro ainda que devamos ser críticos para ajudar-lhe a sair de seu erro.

Quantos matrimônios e quantas relações de amizade teriam seguido crescendo se tivesse existido este diálogo clarificador e construtivo «a sós, entre os dois», como diz o Evangelho.
[...]

Lendo os evangelhos de Mateus e Lucas (cap. 3), vê-se que a preocupação central de João Batista era o tema do pecado e a conversão dos pecadores. Porém, lendo os capítulos seguintes dos evangelhos, vê-se logo que as preocupações de Jesus iam por outro caminho.

Jesus se fez amigos de pecadores, publicanos, pessoas impuras, a ninguém lhe pediu contas por seus pecados. E, se é certo que perseguiram e mataram Jesus, não foi pelos pecados cometidos contra Deus, mas porque se colocou da parte dos que sofrem, ainda que fossem pessoas de má vida e pouco exemplares.

Este evangelho de hoje nos dá a chave: o pecado não é nem uma «culpa», nem uma «mancha», nem uma «ofensa» a Deus. O pecado é o mal que nós fazemos uns aos outros. Por isso, o perdão do pecado se obtém mediante a mútua reconciliação dos que se ofenderam. Se não há perdão mútuo, não há perdão de Deus. [...]

O centro de nossa vida cristã e cidadã está na bondade que chega ao ponto de deixar-se matar para aliviar a dor do mundo [como fez Jesus].

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A – Internet: clique aqui; e CASTILLO, José María. La religión de Jesús: comentario al Evangelio diario – Ciclo A (2013-2014). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2013, páginas 567-568.

Ladrão tem perdão?

Dom Odilo Pedro Scherer
Cardeal-arcebispo de São Paulo (SP)

Sempre é tempo de arrependimento e não é preciso esperar o fim da vida
D. ODILO PEDRO SCHERER

As denúncias de pequenos furtos e roubos de grandes fortunas são de todos os dias. E não é de hoje: a história dos povos registra a ladroagem em todas as épocas, da antiguidade à pós-modernidade. A diferença é que a roubalheira vai ficando mais sofisticada e vai do esconder tesouros em caixas de papelão e malas de viagem a estourar caixas-fortes com dinamites e aplicar golpes pela internet. Há roubo de todo jeito e daria para organizar uma enciclopédia da ladroagem!

Se é verdade que amigos do alheio sempre existiram, isso não torna lícito e aprovado o roubo, que sempre foi e continua a ser considerado um ato desonesto e injusto, além de marcar de maneira negativa a pessoa que o pratica. É feio e vergonhoso ser ladrão e ser chamado de ladrão não é considerado um elogio para ninguém... Talvez, na sociedade dos ladrões, furtos e roubos possam ter algum reconhecimento, mas essa seria uma sociedade inominável e sem reconhecimento meritório.

Por que não abolir de uma vez a lei que proíbe roubar, considerando que essa prática se tornou tão comum e difundida? Que aconteceria se o furto e o roubo deixassem de ser crimes? Tenho a certeza de que uma “sociedade de ladrões” inventaria bem depressa seus códigos éticos e morais para disciplinar tudo... E seriam, com grande probabilidade, bastante rígidos! É estranho: por qual motivo os códigos morais não funcionam bem numa sociedade que pretende estribar-se sobre os valores da justiça, do respeito, da honestidade e da dignidade?

Talvez haja algum problema no compartilhamento da convicção de que roubar não é direito. Falta dizer e ensinar novamente, com todas as letras e em todos os momentos, que não é permitido roubar, que isso é desonesto, injusto e feio, coisa de mau caráter? Antes de chamar a polícia para prender o ladrão, seria preciso que a sociedade se pusesse de acordo para dizer que o roubo é um crime e que o crime não compensa, nem para o ladrão grande nem para o pequeno.

Diante da roubalheira deslavada, a tendência é o fechamento: muros altos, cercas eletrificadas, câmeras de vigilância sofisticadas. Seriam a solução suficiente para prevenir roubos e assaltos, planejados com inteligência criminosa? Basta fazer denúncias, mandar a polícia atrás e torcer para que o ladrão não consiga escapar e fique um bom tempo na cadeia? O que será capaz de dissuadir do caminho da desonestidade?

O ladrão entende que, cálculos feitos, vale a pena arriscar e roubar. Na sua lógica, o crime compensa e, infelizmente, a prática mostra que isso pode ser verdadeiro. Então, seria preciso abalar essa sua certeza, e os motivos para ser honesto devem ser mais fortes que a tentação de roubar. Esses motivos só podem ser passados pela educação para os valores construtivos no convívio social e pela dissuasão, em vista das consequências indesejáveis do crime.

Que motivações fortes seriam capazes de dissuadir alguém de cometer desonestidades? Nos Evangelhos há algumas cenas nas quais Jesus trata pessoalmente com ladrões. Escolhi três casos típicos, com desenvolvimentos e ensinamentos bem diversos.

Zaqueu era funcionário público e recolhia impostos para os romanos, que estavam dominando a Palestina daqueles tempos. Zaqueu era odiado pelos seus compatriotas e nem podia frequentar a sinagoga, sendo considerado um pecador público. Um belo dia, Jesus passou pela sua cidade e o encontrou pela rua. O próprio Jesus chamou Zaqueu e disse que ia hospedar-se em sua casa. Zaqueu sentiu-se valorizado, alegrou-se e recebeu Jesus com festa. O fato foi motivo de escândalo para muitos, que não podiam entender como o Mestre havia escolhido entrar na casa de um pecador, sentando-se à mesa em companhia de pecadores! Mas o corrupto Zaqueu foi logo fazendo sua autodelação:Darei a metade dos meus bens aos pobres e, se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (cf. Lucas 19,8). Sua vida mudou porque alguém tocou na sua consciência. Nem precisou de processos demorados em várias instâncias, cheios de jogos de cena. Zaqueu parou de roubar e reparou a justiça lesada. Bom exemplo a ser seguido!

Outro ladrão viveu pertinho de Jesus. Judas havia sido escolhido para ser um dos apóstolos. Era muito avarento, fingido e sem-vergonha. Judas é o ladrão da consciência calejada, que não se dá conta de sua mesquinhez. Ladrão perigoso, inserido no sistema e na máquina pública, com cara de benfeitor populista, que não perde a chance de passar a mão no patrimônio público. Judas cuidava do caixa-comum do grupo de Jesus com os apóstolos e roubava o que se depunha na bolsa (cf. João, 12,4-8). Sua ganância não encontrou mais limites e ele acabou negociando com os inimigos de Jesus a traição do Mestre, na calada da noite, por umas tantas moedas de prata (cf. Mateus, 26,14-16). O infeliz, quando se viu desprezado pelos comparsas e abandonado à solidão da própria consciência, entrou em desespero e se enforcou. Péssimo exemplo, a não ser imitado por ninguém, nem pela sua vida nem pelo seu fim deplorável!

O terceiro ladrão pode representar uma esperança para os viciados e incorrigíveis amigos do alheio. É conhecido como “o bom ladrão”, não por sua esperteza na roubalheira, mas porque teve uma ideia sensata no extremo da vida. Condenado à morte por suas ações, ele reconheceu que suas façanhas de nada lhe valeram, arrependeu-se e pediu misericórdia a Deus. Jesus viu que sua confissão era sincera e lhe prometeu o paraíso naquela mesma hora (cf. Lucas 23,39-43). Sempre é tempo de arrependimento e não é preciso esperar até o fim da vida. Quanto mais cedo, melhor. Deus pode conceder a vida também ao ladrão arrependido. Sinceramente arrependido e bem confessado! A penitência fica por conta do Estado...

Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Sábado, 9 de setembro de 2017 – Pág. A2 – Internet: clique aqui.

Como lidar com a secura emocional?

Morto por dentro

Anselm Grün
Teólogo, Psicólogo e Escritor alemão
Monge Beneditino – Abadia de Münsterschwarzach

Há pessoas que secaram internamente. Elas não conseguem sentir mais nada. São incapazes de se entusiasmar por alguma coisa. Todos os sentimentos estão ressequidos. Tais pessoas percebemos como mortas internamente. Sem emoções, o ser humano parece morto. Sentimentos conferem vigor o homem. Eles permitem que a vida lhe pareça plena de sentido. Através das emoções, ele percebe a si mesmo. Mas se as emoções secam e murcham, o homem não se sente vivo. Ele se atrofia internamente.

Em aconselhamento espiritual, sempre vejo pessoas que sofrem por sua secura emocional. Elas adorariam sentir. Mas não sentem nada. Não conseguem se alegrar por coisa alguma. Mesmo o luto não é capaz de tocá-las realmente. Às vezes essa insensibilidade emocional é sinal de depressão. Na depressão, a vida afetiva se paralisa. Mas também há secura emocional fora da depressão. Trata-se simplesmente de se estar desconectado das emoções. Os sentimentos são como uma fonte que emana vivacidade. Porém, para algumas pessoas, essa fonte está seca.

Pessoas que sofrem de secura emocional seguem simplesmente levando a vida. Suas vidas não têm altos e baixos, tudo é igual. A vida segue por uma via árida. Também a paisagem é seca. Ali não há nenhum verde pelo qual se alegrar. Tais pessoas invejam as que conseguem se entusiasmar e se alegrar.

No que tange ao outro, são insensíveis. Quando instadas sobre o que sentiram ao se encontrarem com essa ou aquela pessoa, respondem: Nada. São incapazes de sentir como o outro está realmente. Elas apenas ouvem as palavras, mas sequer notam os sentimentos do outro. Isso geralmente leva a conversas que magoam. Elas não querem ferir, mas, do momento que se esquivam, subestimam os sentimentos alheios e a eles reagem laconicamente, por certo que o outro fica ofendido. Ele não sente que é levado a sério com seus sentimentos, simplesmente passaram por cima deles.

Alguns sofrem de secura emocional e se sentem inferiores às outras pessoas. Em contrapartida, outros não querem aceitar sua secura emocional e preferem ferir seus semelhantes. Eles acusam as pessoas de agirem por sentimentalismo barato ou por excitação emocional; chamam o outro de sentimentaloide ou falam depreciativamente sobre tipos emotivos com os quais não se pode conversar razoavelmente. Mas, com isso, elas apenas se desviam da miséria particular em que se encontram devido à sua insensibilidade e secura emocional.

Durante discussões, pessoas insensíveis sequer percebem as emoções que movem os outros. À medida que argumentam unicamente com imparcialidade, suscitam raiva e incompreensão no outro. Junto a tais pessoas, os outros não encontram ouvidos para seus sentimentos, anseios e desejos. Para o mundo exterior, na maioria das vezes, essas pessoas secas e insensíveis aparentam ser fortes. Elas não dão valor às suas emoções.

Porém, na realidade, elas, de fato, assemelham-se a androides sem alma. Ninguém procura sua companhia. E, assim, elas caem em isolamento. De vez em quando, as pessoas insensíveis sentem sua solidão. Então, eu procuro chamar-lhes a atenção para esse sentir; elas devem investigar em si mesmas esse sentimento de solidão. Desse modo, elas então ao menos vivenciam um sentimento. Ou eu deixo que percebam dentro de seu corpo: Como parece a secura emocional? Ela também é um sentimento; também posso reconhecer e sentir a insensibilidade.

Quando alguém sofre por causa de sua secura emocional, ele sente alguma coisa. Eu procuro, então, aproximá-lo desse sentimento. Em seguida, ele reconhece que não existe ninguém que não tenha sentimentos; eles talvez estejam apenas embotados, sem viço, mas, ainda assim, capazes de serem encontrados por debaixo da superfície árida.

É necessário atenção e cautela para se descobrir os sentimentos velados sob a pétrea camada de sentimentos reprimidos. Os sentimentos querem ser desvelados. Eu procuro sentir-me em meu íntimo, ao mesmo tempo que abro passagem nessa camada dura, a fim de atravessá-la, para, enfim, tocar os sentimentos que jazem sob ela. Desse modo, eles podem aflorar vagarosamente. E, em meio a um campo seco, começarão então a desabrochar vigorosamente os primeiros botões dos sentimentos e, novamente, eles me restituirão a vida.

Fonte: GRÜN, Anselm. Pequena Escola das Emoções: como os sentimentos nos orientam e o que anima nossa vida. Tradução de Bianca Wandt. Petrópolis (RJ): Editora Vozes, 2016, páginas 190-193.

domingo, 27 de agosto de 2017

População rejeita e desaprova autoridades

Onda de rejeição alcança até ministros do Supremo

Daniel Bramatti e Gilberto Amendola

Repúdio ao Executivo e Legislativo chega ao Judiciário,
revela pesquisa Ipsos; apenas Moro e Joaquim Barbosa
mantêm índice elevado, apesar de queda de aprovação
GILMAR MENDES - Ministro do Supremo Tribunal Federal e Presidente do Supremo Tribunal Eleitoral

A onda de rejeição a políticos e autoridades públicas já não se limita ao governo e ao Congresso e chegou com força ao Poder Judiciário e ao Ministério Público. Pesquisa Ipsos mostra que, entre julho e agosto, houve aumento significativo da desaprovação a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Até o juiz Sérgio Moro enfrenta desgaste: apesar de seu desempenho ainda ser majoritariamente aprovado pela população, sua taxa de rejeição está no nível mais alto em dois anos.

A pesquisa avaliou a opinião dos brasileiros sobre 26 autoridades de distintas esferas de poder, além de uma celebridade televisiva, o apresentador de TV Luciano Huck. Quase todos estão no vermelho, ou seja, são mais desaprovados do que aprovados. As exceções são Huck, Moro e o ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa. Os dois últimos são responsáveis pelos julgamentos dos dois maiores escândalos de corrupção do País: mensalão e Operação Lava Jato.

Para Danilo Cersosimo, um dos responsáveis pela pesquisa, o aumento do descontentamento com o Judiciário pode estar relacionado “à percepção de que a Lava Jato não trará os resultados esperados pelos brasileiros”. Outros levantamentos do Ipsos mostram que o apoio à operação continua alto, mas vem caindo a expectativa de que a força-tarefa responsável por apurar desvios e corrupção na Petrobrás provoque efeitos concretos e mude o País. “Há uma percepção de que a sangria foi estancada, de que a Lava Jato foi enfraquecida”, disse Cersosimo.

Na lista de avaliados pelo Ipsos estão três dos 11 atuais integrantes do Supremo: Cármen Lúcia, a presidente; Edson Fachin, relator dos casos relacionados à Lava Jato; e Gilmar Mendes, principal interlocutor do presidente Michel Temer no Tribunal. Os três enfrentam deterioração da imagem.

Além de Moro e Fachin, há na lista outros dois nomes relacionados à Lava Jato: o do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o do procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da operação em Curitiba. Eles também sofrem desgastes.
EDSON FACHIN - Ministro do Supremo Tribunal Federal e Relator da Lava Jato

Líder

No STF, a pior situação é a de Gilmar: no último mês, sua taxa de desaprovação subiu de 58% para 67%. Desde abril, o aumento foi ainda maior: 24 pontos porcentuais.

O descontentamento com Gilmar cresceu ao mesmo tempo em que ele ficou mais conhecido: até maio, mais da metade da população (53%) não sabia dele o suficiente para opinar. Agora, esse índice caiu para 30%. Já a taxa de aprovação se manteve praticamente estável, oscilando em torno de 3%. A avaliação crítica é maior nas faixas mais escolarizadas: chega a 80% entre os brasileiros com curso superior, e é de 50% entre os sem instrução.

Nos últimos meses, Gilmar, que também preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se notabilizou por constantes e duras críticas ao que classifica como abusos na atuação do Ministério Público Federal em grandes investigações no País, incluindo a Lava Jato. O ministro protagonizou embates com o procurador-geral da República e chegou a chamar Janot de “desqualificado”.

Na pesquisa Ipsos, o chefe do Ministério Público Federal – que vai deixar o cargo em breve – teve seu desempenho reprovado por 52% dos entrevistados. A avaliação favorável ficou em 22%.
CÁRMEN LÚCIA - Presidente do Supremo Tribunal Federal

Evolução

Cármen Lúcia teve aumento de 11 pontos porcentuais em sua taxa de desaprovação entre julho e agosto, de 36% para 47%. Já sua aprovação está em 31% – queda de cinco pontos porcentuais em um mês e de 20 pontos desde janeiro. A avaliação favorável de Fachin caiu, em um mês, de 45% para 38%, enquanto a desfavorável subiu de 41% para 51%.

Conhecido por sua atuação no julgamento de acusados no escândalo da Lava Jato, Moro, titular da 13.ª Vara Federal de Curitiba, tem seu desempenho aprovado por mais da metade da população (55%). Sua taxa de desaprovação, porém, subiu nove pontos porcentuais no último mês, de 28% para 37% – o ponto mais alto na série histórica do Ipsos, que teve início em agosto de 2015.
Clique sobre a imagem para ampliá-la e ler melhor

Lava Jato afeta avaliação, afirmam especialistas

Gilberto Amendola

Julgamento de políticos, defesa de interesses próprios e relação
com opinião pública influem em resultado de pesquisa
MARIA DO SOCORRO BRAGA - Cientista Política da UFSCAR

A pesquisa Ipsos mostrou que o desgaste não é mais exclusividade dos Poderes Executivo e Legislativo. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também já são vistos com desconfiança por parte da população. Para a cientista política Maria do Socorro Braga, a avaliação negativa de nomes como Gilmar Mendes, Cármen Lúcia e Edson Fachin é resultado da Operação Lava Jato.

“Eles são avaliados por atitudes e decisões tomadas nesse âmbito ou envolvendo personagens que estão sendo julgados pela operação. A opinião pública está muito sensível a esses desdobramentos”, disse. “Toda e qualquer impressão de impunidade recai sobre os ministros”, afirmou a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo - Campus de São Carlos (UFSCAR).

A sensação da opinião pública, segundo a pesquisadora, é de que os ministros do Supremo atuariam de forma corporativista, decidindo questões do próprio interesse, como o aumento de vencimentos do Judiciário.
MARCO ANTÔNIO TEIXEIRA - Cientista Político da PUC-SP

Comparação

O também cientista político Marco Antônio Teixeira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), disse que os ministros mal avaliados também sofrem com uma possível comparação com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, juiz de primeira instância.

“Joaquim Barbosa e Sérgio Moro encarnaram de alguma forma um certo ativismo político que agradou à opinião pública”, afirmou. “A sociedade deseja um Supremo que se oponha à classe política, mas Cármen Lúcia e Fachin têm posicionamentos mais moderados. Já Gilmar Mendes demonstra outro lado, aquele em que o Supremo está muito próximo de alguns grupos políticos”, disse Teixeira.
CLÁUDIO COUTO - Cientista Político da FGV

Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirmou que a “boa avaliação alcançada pelo STF no passado estava mais relacionada à espetacularização dos julgamentos transmitidos pela televisão do que por qualquer atração autêntica pelas figuras”. “Nesse ambiente do espetáculo, é natural que juízes como Joaquim Barbosa e Sérgio Moro apareçam travestidos de ‘juízes justiceiros’.”

Já para o professor de Direito Constitucional Oscar Vilhena, também da FGV, é preciso cautela ao avaliar a performance de ministros e juízes na pesquisa. “A qualidade de um juiz não pode ser mensurada pela popularidade nem pela impopularidade. Às vezes, aplicar a lei é impopular. Não se pode avaliá-los pela mesma régua da política.”

Fonte: O Estado de S. Paulo – Política – domingo, 27 de agosto de 2017 – Pág. A4 – Internet: clique aqui e aqui.

sábado, 26 de agosto de 2017

21º Domingo do Tempo Comum – Ano A – Homilia

Evangelho: Mateus 16,13-20

Naquele tempo:
13 Jesus foi à região de Cesareia de Filipe e ali perguntou a seus discípulos: «Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?».
14 Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas.»
15 Então Jesus lhes perguntou: ,E vós, quem dizeis que eu sou?».
16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.»
17 Respondendo, Jesus lhe disse: «Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu.
18 Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la.
19 Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus;
tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus.»
20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

QUE MISTÉRIO CRISTO TRAZ CONSIGO?

«E vós, quem dizeis que eu sou. Cada um deve responder a essa pergunta. Não basta continuar repetindo fórmulas e tópicos sobre Jesus. É necessário um esforço para intuir, cada vez melhor, que mistério se encerra neste homem no qual, nós que acreditamos, descobrimos como em nenhum outro lugar, o rosto vivo de Deus.

Assinalarei alguns aspectos que destacam hoje os pesquisadores e especialistas sobre Jesus.

Jesus foi um profeta que comunicou às pessoas uma experiência única e original de Deus, sem desfigurá-la com os medos, ambições e fantasmas que as religiões costumam projetar sobre a divindade.

Para Jesus, Deus é amor compassivo. A compaixão é a maneira de ser de Deus, sua primeira reação diante do ser humano e diante da criação inteira. Por isso, Jesus fala, atua, vive e morre movido pela compaixão.

Jesus somente viveu para implantar no mundo aquilo que ele chamava de «o Reino de Deus». Foi seu grande sonho. A paixão que animou sua vida inteira. Queria ver realizado entre os homens o projeto de Deus: uma vida mais digna e feliz para todos, agora e para sempre.

Jesus não se dedicou a organizar uma religião mais perfeita, desenvolvendo uma teologia mais precisa sobre Deus ou uma liturgia mais digna. O que lhe preocupou de verdade, foi a felicidade das pessoas. Por isso, entregou-se a eliminar o sofrimento e a lutar contra tudo o que prejudica ou permite a humilhação das pessoas.

Jesus amou os mais pobres e indefesos da sociedade. Muitos outros fizeram isso também antes e depois dele. O mais surpreendente é que, acima dos pobres, Jesus não amou nada mais que a eles, nem sequer a religião, a lei ou as tradições mais veneráveis.

Quem é este homem que, além de viver somente para a felicidade dos outros, atreveu-se a sugerir que Deus se parece com ele, pois somente quer e busca uma vida mais digna e feliz para todos?
Que mistério se encerra nele?

Para intuir algo sobre isso, nada melhor que seguir seus passos.

Quem segue a Jesus, aproxima-se sempre mais de seu mistério. Encontra-se com um homem movido somente pelo AMOR, sintoniza-se com ele, começa a entender a vida a partir de outra perspectiva e pergunta-se que mistério há neste ser humano que não vive para si mesmo, mas para os outros. Surpreende-se perante sua LIBERDADE inaudita, busca segui-lo em seu «caminho de VERDADE» e se pergunta onde está a origem última dessa segurança misteriosa que o leva a colocar a lei, o culto e a religião a serviço do ser humano.

O que mais nos aproxima do mistério de Cristo não é confessar rotineiramente as grandes fórmulas cristológicas, mas buscar segui-lo dia a dia, abrindo-nos ao seu Espírito e sintonizando-nos com seu estilo de viver.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo A (Homilías) – Internet: clique aqui.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PALAVRAS NECESSÁRIAS PARA OS TEMPOS DE HOJE

«Os cristãos são pessoas de primavera e não de outono,
de esperança e não de tristeza»

Iacopo Scaramuzzi
Vatican Insider
23-08-2017

“A esperança cristã baseia-se na fé em Deus que sempre cria novidades
na vida dos seres humanos, na história e no cosmos.
Nosso Deus é o Deus das novidades, porque é o Deus das surpresas.”
PAPA FRANCISCO

“Eu cumprimentei alguém de Barcelona: quantas notícias tristes vêm dali... Eu cumprimentei uma pessoa do Congo: quantas notícias tristes vêm de lá, para citar apenas dois de vocês que estão aqui. Procurem pensar nos rostos das crianças atemorizadas pela guerra, no choro das mães, nos sonhos estraçalhados de muitos jovens, nos refugiados que enfrentam viagens terríveis e são explorados tantas vezes...”.

Durante a Audiência Geral desta quarta-feira, 23 de agosto, o Papa, que depois da catequese rezou também pelos mortos, feridos, familiares e pelos que perderam as casas no terremoto que sacudiu a ilha de Isquia, na Itália, convidou os fiéis para lerem, “não de maneira abstrata, mas após terem lido uma notícia de nossos dias”, a passagem da Bíblia em que Deus afirma: “Eu faço novas todas as coisas” (Ap 21,5). Porque “a grande visão da esperança cristã” baseia-se em que “nós temos um Pai que sabe chorar, que chora conosco”, “um Pai que nos espera para nos consolar, porque conhece os nossos sofrimentos e preparou para nós um futuro diferente”, um “Deus das novidades e das surpresas”. E o cristão, disse Francisco, “é uma pessoa mais de primavera, que espera o fruto, que espera a flor, que espera o sol”, do que uma pessoa “de outono”, que olha para baixo, “como os porcos”, sempre “amargurado, com a cara de pimenta em vinagre”.

“A esperança cristã baseia-se na fé em Deus que sempre cria novidades na vida dos seres humanos, na história e no cosmos. Nosso Deus é o Deus das novidades, porque é o Deus das surpresas”, explicou o Papa na continuação de seu ciclo de catequese dedicado à esperança cristã. “Não é cristão caminhar cabisbaixo, como fazem os porcos, sem levantar os olhos para o horizonte”.
Audiência Papal na Sala Paulo VI - Vaticano

“Eu faço novas todas as coisas”

“Procurem meditar – propôs o Papa aos fiéis que se encontravam na Aula Paulo VI – esta passagem da Sagrada Escritura não de uma maneira abstrata, mas após terem lido uma notícia de nossos dias, após terem visto o telejornal ou a primeira página dos jornais onde há tantas tragédias, onde aparecem notícias tristes com as quais todos corremos o risco de nos acostumar. Eu cumprimentei alguém de Barcelona: quantas notícias tristes vêm dali... Eu cumprimentei uma pessoa do Congo: quantas notícias tristes vêm de lá, para citar apenas dois de vocês que estão aqui”.

“Procurem pensar – prosseguiu o Papa – nos rostos das crianças atemorizadas pela guerra, no choro das mães, nos sonhos estraçalhados de muitos jovens, nos refugiados que enfrentam viagens terríveis e são explorados tantas vezes... A vida, infelizmente, também é isso. Às vezes, se poderia dizer que é sobretudo isso. Pode ser. Mas – prosseguiu – há um Pai que chora lágrimas de infinita piedade por seus filhos. Nós temos um Pai que sabe chorar, que chora conosco. Um Pai que nos espera para nos consolar, porque conhece os nossos sofrimentos e preparou para nós um futuro diferente. Esta é a grande visão da esperança cristã, que se dilata sobre todos os dias da nossa existência, e que quer nos erguer”.

“Deus não quis nossas vidas equivocadas, obrigando-se a si mesmo e a nós a duras noites de angústia”, continuou Francisco. “Ele nos criou porque nos quer ver felizes” e “nós acreditamos e sabemos que a morte e o ódio não são as últimas palavras pronunciadas sobre a parábola da existência humana”.

Ser cristãos, disse Francisco, “implica numa nova perspectiva: um olhar cheio de esperança. Alguns acreditam que a vida resume todas as suas felicidades à juventude e ao passado, e que viver é um lento decair. Outros mais consideram que nossas alegrias são apenas esporádicas e passageiras, e que na vida humana está inscrita o sem sentido. Esses que, diante de tantas calamidades, dizem que a vida não tem sentido”.

“Mas nós cristãos – continuou Francisco – não acreditamos nisso. Acreditamos, ao contrário, que no horizonte do homem há um sol que ilumina eternamente. Acreditamos que os nossos dias mais belos ainda estão por vir. Somos mais pessoas de primavera do que de outono. Eu gostaria de perguntar, e cada um responde em seu coração: sou um homem, uma mulher, uma criança de primavera ou de outono? A minha alma está na primavera ou no outono? Não nos meçamos em nostalgias, arrependimentos e queixas: sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos. Sou uma pessoa de primavera, que espera o fruto, a flor, o sol, ou uma pessoa de outono, que está sempre cabisbaixa, amargurada, como já disse outras vezes: com cara de pimenta em vinagre”. O cristão sabe que o Reino de Deus “está crescendo como um grande campo de trigo, embora haja no seu meio a cizânia, problemas, fofocas, guerras, doenças... mas o trigo cresce. E, no final, o mal será eliminado”.

O futuro, concluiu o Papa, “não nos pertence” e na hora da morte, em que após a morte estaremos com o Senhor, “será bonito descobrir nesse instante que não perdemos nada, nenhum sorriso e nenhuma lágrima. Por mais longa que tenha sido a nossa vida, nos parecerá ter vivido em um sopro. E que a Criação não parou no sexto dia do Gênesis, mas que continuou, incansável, porque Deus sempre se preocupou conosco. Até o dia em que tudo se cumprir, na manhã em que se extinguirem as lágrimas, no mesmo instante em que Deus pronunciar sua última palavra de bênção: “Eu faço  novas todas as coisas”. Sim, nosso Pai é o Deus das novidades e das surpresas. E nesse dia nós estaremos verdadeiramente felizes, e choraremos? Sim, mas de alegria”.

Depois da catequese, o Papa recordou e externou sua proximidade a “todos os que sofrem por causa do terremoto que, na segunda-feira à noite, sacudiu a ilha de Isquia. Rezemos pelos mortos, pelos feridos, pelos respectivos familiares e pelas pessoas que perderam suas casas”. Entre os fiéis presentes, Francisco deu a bênção à Polônia, recordando que no sábado e no domingo, no santuário nacional em Jasna Gora, celebra-se a solenidade de Nossa Senhora de Czestochowa e o terceiro centenário da coroação de sua milagrosa estátua. Também saudou um grupo de estudantes universitários espanhóis que cantaram um canto coral: “Eu pensava que na Universidade de Salamanca só ensinavam a estudar nos livros, mas cantam bem, parabéns!”

Traduzido do italiano por André Langer. Acesse a versão original deste artigo, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 24 de agosto de 2017 – Internet: clique aqui.