«Quem em uma situação como esta, de injustiça social e repressão criminal, escolher o caminho da passividade e erguer a bandeira hipócrita da imparcialidade política torna-se cúmplice do mal.»

(Silvio José Báez – bispo-auxiliar de Manágua, Nicarágua, clamando contra a violência e repressão do governo de Daniel Ortega)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

É um absurdo, cuidado ! ! !

Grupos pró-intervenção militar tentam influenciar
rumo de greve dos caminhoneiros

Ricardo Senra

Não se deixe enganar!!!
Não haverá intervenção militar, não haverá soluções violentas!!!
Nossa crise se resolverá com escolhas bem feitas!!!

«Oi, galera. Sou caminhoneiro, estamos juntos aí na greve e estamos fazendo adesivos para colar nos nossos carros, nos dos colegas e nos de todo mundo que apoiar essa greve. Intervenção militar já. Se a gente não tirar esses corruptos do poder, a gente não vai para frente, não
Imagens circulando em grupos de motoristas associam intervenção militar à greve dos caminhoneiros

No vídeo, que se espalha por grupos de caminhoneiros no WhatsApp, o homem manda o recado em frente a uma impressora industrial que mostra centenas de adesivos prontos para serem colados nos vidros dos veículos.

Em outro vídeo caseiro gravado em São Paulo, em meio a uma sequência de caminhões que bloqueavam uma rodovia, um motorista grita: «Representando o caminhoneiro brasileiro, o transportador de carga. Aqui tem brio, aqui tem sangue. (Estamos) parando São Paulo, parando o Brasil e indo para Brasília destituir os três poderes corruptos. Intervenção militar já. O povo está cansado de sustentar estes corruptos. Aqui é patriota

Chegando ao quarto dia, com reflexos em abastecimento e transportes de pelo menos 15 estados, mais o Distrito Federal, a greve organizada por caminhoneiros extrapolou sua pauta inicial, concentrada na exigência da redução nos preços dos combustíveis, e vem ganhando pleitos difusos – incluindo o discurso anticorrupção, que inclui vozes em apoio à intervenção militar, vindo tanto de dentro quanto de fora do grupo.

A BBC Brasil entrou em cinco grupos fechados criados em redes sociais por caminhoneiros para difundir informações sobre a greve. Em todos eles, frases de apoio a militares começaram a ganhar força nos últimos dias.

«As reações à greve dos caminhoneiros, amplamente apoiada pela população, demonstram que o brasileiro está sem paciência alguma com as “autoridades”. As condições são ideais para uma verdadeira revolução que refunde o Brasil. Mas onde está a liderança desse processo? Escrevam no para-brisa dos caminhões e carros. Intervenção militar!», diz uma das mais replicadas.

Em tradicionais grupos militaristas do Facebook, como um chamado «Eu apoio o general Mourão», uma transmissão ao vivo feita em Minas Gerais, na última quarta-feira, mostra um caminhão coberto por uma faixa verde amarela com a frase “Intervenção Já”. "Nós vamos derrubar este governo do crime", diz um dos narradores.

Outro, gravado no Rio Grande do Sul, mostra uma faixa de 60 metros aberta em frente a uma sequência de caminhões estacionados. Eles também pediam o fim do atual sistema democrático no Brasil.

“Liberdade de expressão”

Junto às manifestações políticas radicais e militaristas, grupos ligados aos grevistas também expõem uma escalada de violência nos acampamentos em beiras de estrada.

Em um dos vídeos que circulam nos aplicativos de mensagem, visto pela reportagem no grupo «Família Estradeira», um homem que se apresenta como de Leopoldina (MG) mostra uma pessoa sendo linchada com chutes na cabeça e na barriga após supostamente tentar roubar carga dos caminhões aglomerados em um posto de gasolina.

Um dos motoristas tenta intervir: «Cem homens batendo em um só. Isso é judiar», mas é interrompido. «Ele caiu no chão só, não bagunce o nosso coreto», responde outro.

A BBC Brasil conversou com porta-vozes da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) sobre os discursos pró-intervenção militar em grupos e acampamentos ligados à greve.

«Acredito que a intervenção militar seja uma bandeira levantada por alguns caminhoneiros porque essa pode ser a alternativa que eles veem para sanar esses constantes casos de corrupção no país. Mas não posso dizer que a Abcam apoia a intervenção», avalia Carolina Rangel, porta-voz da associação.

«Se o caminhoneiro X, Y ou Z acredita que a intervenção é o melhor caminho, a gente aceita. A gente não tolhe o direito de manifestação política de ninguém, é liberdade de expressão

Rangel afirma que é «consenso entre as lideranças da Abcam uma insatisfação em relação ao governo, não só este como o anterior».

«Não temos ligação com nenhum partido político, nem com o MST, nem os pró-Lula, nem os Fora Temer. Não temos nenhuma ligação ou envolvimento político dessa natureza. A nossa insatisfação reflete a da população como um todo. Apesar de grande parte dos brasileiros não abastecerem seus carros com diesel, que é o nosso pleito específico, todo mundo está sendo onerado com o aumento dos combustíveis e com a inflação em geral», diz a porta-voz à BBC Brasil.
Pauta inicial reivindicava redução no preço do diesel, mas escalada da greve atraiu outros grupos

Alta no Google

Na manhã desta quinta-feira, «intervenção militar» era a segunda pesquisa mais feita por brasileiros no Google. [Onde é que estamos com a cabeça e a nossa memória histórica?]

Publicações sobre o tema feitas por páginas militaristas chegavam a mais de 20 mil compartilhamentos no Facebook.

Uma delas mostrava um sindicalista ligado a Central Única dos Trabalhadores (CUT) sendo expulso de um acampamento de caminhoneiros em Brasília, enquanto era chamado de oportunista.

«É até bom saber que os caminhoneiros que estão na ponta estão levando a política da Abcam de não ter vínculo com partido político, ou com a CUT, ou o Movimento dos Sem-Terra. Não levantamos nenhuma bandeira, a não ser a do transportador autônomo, que é reduzir impostos e preço do combustível», disse a porta-voz da associação.

Em um dos grupos no Facebook - o «Caminhões Top (Só Elite)» –, um motorista publicou um brasão do Exército e convocou os colegas.

«Temos uma grande chance em nossas mãos de aproveitar esta greve para pedir intervenção militar, nova constituinte, e novas eleições sem os comunistas, e junto com esta intervenção a caçada a todos estes ladrões que estão no governo (...) O Exército entraria em ação em uma semana, vejam, podemos estar a uma semana do fim desta roubalheira toda, está em nossas mãos, quem apoia compartilha e curte

A reação de apoio impressiona: «A situação que o Brasil está hoje era para o Exército já ter tomado de conta dos poderes», dizia um. «A nossa bandeira jamais será vermelha.»

De outro lado, alguns dos usuários tentavam demover os militaristas: «Militar no poder nunca mais», «Eles são só come e dorme, não vão resolver nada, não se iludam», reagiram alguns – logo classificados como comunistas e com palavrões pelos demais.

Na página «Adeptos da INTERVENÇÃO CONSTITUCIONAL DAS FFAA», criada há pelo menos dois anos para apoiar militares, a greve dos caminhoneiros se transformou no principal assunto desde o início da semana.

«Os caminhoneiros podem mudar o rumo do país. Eles são a nossa voz, a voz dos intervencionistas», diz um dos membros. [Isso é o que eu chamo de manipulação de um movimento!!!]

Governo em alerta

A força da mobilização dos caminhoneiros em quase todo o país pareceu surpreender ao próprio governo federal.

Após declararem que os efeitos da greve não seriam tão profundos, ministros como Eliseu Padilha (Casa Civil), Carlos Marun (Secretaria de Governo) e Valter Casimiro (Transportes) receberam organizações ligadas à categoria.

Antes do encontro, o próprio presidente Michel Temer discutiu o assunto com Padilha e com o ministro da Fazenda, Eduardo La Guardia, além do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, e os instruiu a pedir uma trégua de três dias aos caminhoneiros para que pudesse ser encontrada uma solução.

Os comentários de Temer repercutiram mal nos grupos de caminhoneiros. «Não tem trégua. Ladrão!».

Não há uma organização que possa ser apontada como líder da paralisação. A proposta de greve começou a circular de forma espontânea em redes sociais e grupos de Facebook e WhatsApp de caminhoneiros, como os acessados pela reportagem.

Além da Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam), uma das principais entidades envolvidas é a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que congrega a maioria dos sindicatos de motoristas autônomos, e a União Nacional dos Caminhoneiros do Brasil (Unicam).

O movimento acabou engrossado pelos caminhoneiros de frota também – isto é, por aqueles que são contratados, com carteira assinada, por transportadoras.

«Começou com os autônomos. Mas como a situação está ruim para todos, as empresas (e os motoristas contratados por elas) também aderiram. E aí surgem várias associações, várias pessoas querendo representar. Tem também alguns que são pré-candidatos (às eleições de 2018)», diz o caminhoneiro Ivar Schmidt, um dos principais líderes dos protestos de caminhoneiros de 2015, que afirma não estar à frente das movimentações atuais.

Fonte: BBC Brasil – Quinta-feira, 24 de maio de 2018 – Internet: clique aqui.

País está cavando o fundo do poço da depressão

João Sicsu

Com crescimento pífio da economia,
Brasil tem hoje características semelhantes àquelas que a
economia norte-americana enfrentou durante os anos 1930

O Brasil mergulhou em uma profunda recessão nos anos de 2015 e 2016, perdeu mais de 8% do tamanho do seu PIB [a soma de tudo aquilo que o país produz em um ano]. O desemprego disparou, são quase 14 milhões de desocupados. A falta de demanda por produtos e serviços é prolongada. A taxa de crescimento dos investimentos é negativa desde 2014. O país tem características semelhantes àquelas que a economia norte-americana enfrentou durante os anos 1930.

Taxas de crescimento, positivas ou negativas, baixas e voláteis, são também uma característica das economias em depressão. Um pibinho é esperado para ser divulgado na próxima semana. Os viúvos da “recuperação” já estão lamentando o acidente que será anunciado.

O crescimento pífio de 1%, de 2017, não pode ser considerado uma recuperação, nem sequer, como querem crer os mais otimistas apoiadores do governo, que foi o início de uma recuperação lenta. Não existe recuperação com taxas pífias associadas a taxas de crescimento negativas do investimento.

Para sair de uma depressão, um país deve buscar:
a) a eliminação das causas recessivas primárias e, em paralelo,
b) deve ser lançado um programa de recuperação dos investimentos privados a partir do
c) lançamento de um programa de investimentos públicos.
Isso é bem conhecido.

Como disse o Prêmio Nobel,  Paul Krugman: “na Grande Depressão, os líderes tinham uma desculpa, ninguém realmente compreendia o que estava acontecendo nem sabia como resolver a situação. Os líderes de hoje não têm essa desculpa. Temos tanto o conhecimento quanto as ferramentas para acabar com esse sofrimento”.

No Brasil, as causas primárias recessivas permanecem. O mix de políticas econômicas contracionistas com contenção/limitação de gastos públicos e juros elevados não mudou. A crise política não dá sinais de arrefecimento, muito ao contrário. A Operação Lava Jato continua contribuindo para a sua manutenção e agudização. [Isso já não é consenso, mas uma visão do autor deste artigo!]

A Petrobras e cadeias produtivas associadas entram em nova crise. Ambas já tinham sofrido com ações da Operação Lava Jato e com decisões do governo, como por exemplo, o fim da política de conteúdo nacional para a produção de embarcações, navios e plataformas – o que gerou prejuízos aos empresários e desemprego para milhares de trabalhadores.

Não há sentido social nas medidas adotadas pelo governo. Vejamos. Uma economia sofre choques, por exemplo: climáticos, que quebram safras ou sofre choques na taxa de câmbio e nos preços de produtos internacionalizados devido a movimentos especulativos ou episódios externos que não são possíveis de serem controlados ou, sequer, previstos.

Governos socialmente responsáveis adotam medidas para amenizar choques se e quando ocorrerem. Por exemplo, podem diminuir a velocidade e a intensidade dos movimentos de capitais especulativos para impedir variações abruptas da taxa de câmbio. Podem também aplicar políticas de desenvolvimento tecnológico para a indústria e a agricultura visando à autossuficiência de produtos internacionalizados, como o petróleo.

Nas últimas décadas, o mercado de câmbio de moeda estrangeira se tornou cada vez aberto aos movimentos de especuladores. Isso é grave, mas já estava aí. Contudo, o Brasil fez descobertas extraordinárias de reservas de petróleo. Se tornou potencialmente autossuficiente e, em consequência, poderia administrar no mercado doméstico o preço de um produto internacionalizado.

Em meio a uma grave crise econômica com características de uma depressão, o governo adotou uma série de medidas para tornar a produção e os preços domésticos dos combustíveis comandados pelo preço internacional do petróleo e, portanto, também pelas variações cambiais.

O preço internacional do petróleo subiu e a taxa de câmbio se elevou. Os preços dos combustíveis que são bens-intermediários dispararam. Há inflação de custos que se tornaram insuportáveis. Caminhoneiros estão parando o país. O temor cresce. A crise política se agrava. O governo está paralisado. Não é capaz nem de eliminar as causas primárias da crise econômica nem de lançar um amplo programa de recuperação. A profundidade do poço aumenta e o sofrimento será prolongado.
JOHN MAYNARD KEINES
Economista britânico nascido em 1883 e falecido em 1946

Fiquemos com duas lições de John Maynard Keynes dadas durante a Depressão dos anos 1930. Ele sentenciou “... todos os governos têm grandes déficits [em uma forte contração econômica].” Portanto, a questão não é a existência de déficits públicos, mas sim onde deveriam ser utilizados os recursos tomados emprestados para cobrir esses déficits. Disse ele: “é muito melhor ... que os empréstimos sejam tomados para financiar obras públicas ... que para o propósito de pagar seguro-desemprego”.

A segunda lição é de ousadia e criatividade. Keynes via nas obras públicas uma atividade que empregava muito trabalho e que melhorava a qualidade de vida da sociedade. Então propôs: “... por que não demolir inteiramente o sul de Londres de Westminster a Greenwich, e fazer um bom trabalho aí – colocando para morar nessa área, próxima do trabalho, uma população muito maior que a atual, em edifícios muito melhores e com todas as facilidades da vida moderna e, ao mesmo tempo, provendo milhares de metros de praças e avenidas, parques e espaços públicos, tendo, quando tudo finalizado, alguma coisa exuberante aos olhos, e ainda conveniente e útil para a vida humana como um monumento do nosso tempo? Isso empregaria homens? Com certeza, empregaria!”.

Fonte: Carta Capital – Economia – Quinta-feira, 24 de maio de 2018 – 14h50 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.

sábado, 19 de maio de 2018

Todos os bispos chilenos apresentam sua renúncia ao Papa

Jesús Bastante
Religión Digital
18-05-2018

Estourou a bomba. Imediata, determinante.
Todos os bispos chilenos em bloco apresentaram ao Papa Francisco sua renúncia, após a reunião mantida com ele em Roma por conta do escândalo de abusos sexuais e acobertamento na Igreja chilena.
Uma decisão que não tem precedentes na história da Igreja
Bispos do Chile durante o encontro com Papa Francisco
Vaticano: 14 a 17 de maio de 2018

Em um comunicado, que a Conferência Episcopal chilena acaba de tornar público, dizem os bispos: “queremos pedir perdão pela dor causada às vítimas, ao Papa, ao povo de Deus e ao país por nossos graves erros e omissões”.

A nota agradece “as vítimas por sua perseverança e sua coragem, apesar das enormes dificuldades pessoais, espirituais, sociais e familiares que precisaram enfrentar, tantas vezes em meio à incompreensão e os ataques da própria comunidade eclesial”.

“Queremos anunciar que todos os bispos presentes em Roma, por escrito, colocamos nossos cargos nas mãos do Santo Padre, para que livremente decida a respeito de cada um de nós”, conclui o comunicado.

Agora, é Francisco que deverá decidir se aceita ou não a renúncia, e em que condições. Mas, o que ninguém duvida é que a revolução começou. A renúncia acontece depois que foi publicada a carta que o Papa lhes entregou, na terça-feira passada, e na qual demonstra sua “VERGONHA” pelo acobertamento sistemático dos abusos, assim como lhes acusa de destruir evidências de crimes sexuais, de pressionar os advogados da Igreja para reduzir as acusações e de “grave negligência” na proteção dos menores, diante dos sacerdotes pedófilos.

Uma das vítimas de Karadima, o jornalista Juan Carlos Cruz, nesta manhã, já afirmava:
espero que todos renunciem e se comece a reconstruir a Igreja do Chile com pastores de verdade e não com estes bispos corruptos, que cometem e acobertam crimes, conforme diz o documento”.
JUAN CARLOS CRUZ
Uma das pessoas vítimas de abuso sexual por parte de um sacerdote católico chileno

Eis a declaração dos bispos chilenos:

Após três dias de encontros com o Santo Padre, e de muitas horas dedicadas à meditação e à oração, seguindo suas indicações, nós, Bispos do Chile, desejamos comunicar o seguinte:

Em primeiro lugar, agradecemos ao Papa Francisco por sua escuta de pai e sua correção fraterna. Mas, especialmente, queremos pedir perdão pela dor causada às vítimas, ao Papa, ao Povo de Deus e ao país por nossos graves erros e omissões.

Obrigado também a Dom Scicluna e ao Rev. Jordi Bertomeu por sua dedicação pastoral e pessoal, assim como pelo esforço investido nas últimas semanas para tentar curar as feridas da sociedade e da Igreja de nosso país.

Obrigado às vítimas, por sua perseverança e sua coragem, apesar das enormes dificuldades pessoais, espirituais, sociais e familiares que precisaram enfrentar, tantas vezes em meio à incompreensão e os ataques da própria comunidade eclesial. Mais uma vez, imploramos seu perdão e sua ajuda para continuar avançando no caminho da cura e cicatrização das feridas.

Em segundo lugar, queremos anunciar que todos nós, bispos presentes em Roma, por escrito, colocamos nossos cargos nas mãos do Santo Padre para que livremente decida a respeito de cada um de nós.

Colocamo-nos a caminho, sabendo que estes dias de honesto diálogo foram um marco dentro de um processo de mudança profunda, conduzida pelo Papa Francisco. Em comunhão com ele, queremos restabelecer a justiça e contribuir na reparação do dano causado, para voltar a impulsionar a missão profética da Igreja no Chile, cujo centro sempre deve estar em Cristo.

Queremos que o rosto do Senhor volte a resplandecer em nossa Igreja e nos comprometemos com isto. Com humildade e esperança, pedimos a todos que nos ajudem a percorrer este caminho.

Seguindo a recomendação do Santo Padre, imploramos a Deus que nestas difíceis e esperançosas horas, nossa Igreja seja protegida pelo Senhor e a Virgem do Carmo.

Bispos da Conferência Episcopal do Chile, em Roma

Dura carta de Papa Francisco aos bispos do Chile,
confessando sua “vergonha” com a “perversão”
da Igreja do país

S. Rodríguez
La Tercera
18-05-2018

Em um documento entregue aos religiosos chilenos,
o Pontífice fez um diagnóstico da instituição eclesiástica nacional
pelos casos de abusos em seu interior
 
PE. JORDI BERTOMEU & DOM CHARLES SCICLUNA
enviados por Papa Francisco para investigar a situação da Igreja no Chile em relação aos abusos
sexuais, de autoridade, de consciência e outros mais
“No último dia 8 de abril, domingo da Misericórdia, enviei uma carta os convocando a Roma para dialogar sobre as conclusões da visita realizada pela Missão especial, com a finalidade de ajudar a encontrar luz para tratar adequadamente de uma ferida aberta, dolorosa e complexa, que há muito tempo não para de sangrar na vida de tantas pessoas e, portanto, na vida do Povo de Deus”.

Assim começa o documento de 10 páginas que o Papa Francisco leu e entregou, na terça-feira passada, aos 34 bispos chilenos, no início do encontro que terminou ontem [dia 17 de maio], no Vaticano. Este texto, que o Canal 13 teve acesso e divulgou, contém fortes críticas ao presente da Igreja chilena, em particular ao desempenho dos bispos, e foi o material que todo o Episcopado teve que ler e analisar, para depois refletir com o Pontífice.

O texto, redigido pelo próprio Francisco, tem sua gênese no relatório entregue pelo arcebispo de Malta, Charles Scicluna, a respeito dos abusos cometidos por alguns sacerdotes e os erros das autoridades da Igreja local no processo de investigação e punição.

O documento adverte que a Igreja chilena experimentou “uma transformação em seu centro”. E argumenta esse ponto destacando que esta instituição “se ensimesmou de tal forma que as consequências de todo este processo tiveram um preço muito alto: seu pecado se tornou o centro da atenção. A dolorosa e vergonhosa constatação de abusos sexuais contra menores, de abusos de poder e de consciência por parte de ministros da Igreja, assim como a forma em que estas situações foram abordadas, deixa em evidência esta mudança de centro”.

No texto, o Papa aponta que “nunca um indivíduo ou um grupo ilustrado pode pretender ser a totalidade do Povo de Deus e menos ainda se acreditar a voz autêntica de sua interpretação”. E alude, com o termo “psicologia de elite”, ao que vive a hierarquia da Igreja chilena: “Acaba gerando dinâmicas de divisão, separação, círculos fechados que desembocam em espiritualidades narcisistas e autoritárias, nas quais, no lugar de evangelizar, o importante é se sentir especial, diferente dos outros”.

O Pontífice pede para se gerar “dinâmicas eclesiais”, “promover a participação e missão compartilhada de todos os integrantes da comunidade”.

Também critica diretamente “a atitude” de alguns bispos diante dos “acontecimentos presentes e passados”, e aborda o tema de eventuais remoções apontando para o funcionamento da estrutura: “Os problemas que hoje são vividos dentro da comunidade eclesial não se solucionam somente abordando os casos concretos e os reduzindo a remoção de pessoas. Isto – digo claramente – é necessário fazer, mas não é suficiente, é preciso ir além”.

Um ponto relevante do documento está na nota de rodapé, onde o Papa se refere aos “males”.

Nesta parte, diz que seus enviados especiais (Scicluna e Bertomeu) confirmaram que a alguns religiosos, expulsos de sua ordem “por causa da imoralidade de sua conduta e após se ter minimizado a absoluta gravidade de seus fatos criminosos (...), teriam sido confiados cargos diocesanos ou paroquiais que implicam um contato cotidiano e direto com menores de idade”.

E se detém em três situações:
* A primeira são os defeitos no modo de receber as denúncias.
* A segunda é que lhe causa “perplexidade e vergonha” a existência de pressões, inclusive com queima de documentos, por parte daqueles que conduziam as investigações.
* E a terceira é constatar que, “no caso de muitos abusadores, já foram detectados graves problemas neles em sua etapa de formação no seminário ou noviciado. Constam nas atas da Missão especial graves acusações contra alguns bispos e superiores, que teriam confiado tais instituições educativas a sacerdotes suspeitos de homossexualidade ativa”.
PAPA FRANCISCO

Esta é a íntegra da carta de Papa Francisco
(Original espanhol)

El pasado 8 de abril, domingo de la Misericordia les envié una carta convocándolos a Roma para dialogar sobre las conclusiones de la visita realizada por la "Misión especial" que tenía como cometido ayudar a encontrar luz para tratar adecuadamente una herida abierta, dolorosa y compleja que desde hace mucho tiempo no deja de sangrar en la vida de tantas personas, y por tanto, en la vida del Pueblo de Dios.

Una herida tratada hasta ahora con una medicina que, lejos de curar parece haberla ahondado más en su espesura y dolor. Debemos reconocer que se realizaron diversas acciones para tratar de reparar el daño y el sufrimiento ocasionados, pero tenemos que ser conscientes que el camino seguido no ha servido de mucho para sanar y curar. Quizás por querer dar vuelta la página demasiado rápido y no asumir las insondables ramificaciones de este mal; o porque no se tuvo el coraje para afrontar las responsabilidades, las omisiones, y especialmente las dinámicas que han permitido que las heridas se hicieran y se perpetuaran en el tiempo; quizá por no tener el temple para asumir como cuerpo esa realidad en la que todos estamos implicados, yo el primero, y que nadie puede eximirse desplazando el problema sobre las espaldas de los otros; o porque se pensó que se podía seguir adelante sin reconocer humilde y valientemente que en todo el proceso se habían cometido errores.

En este sentido, escuchando el parecer de varias personas y constatando la persistencia de la herida, formé una comisión especial para que, con gran libertad de espíritu, de modo jurídico y técnico pudiese brindar un diagnóstico lo más independiente posible y ofrecer una mirada limpia sobre los acontecimientos pasados y sobre el estado actual de la situación.

Este tiempo que se nos ofrece es tiempo de gracia. Tiempo para poder, bajo el impulso del Espíritu Santo y en clima de colegialidad, dar los pasos necesarios para generar la conversión a la que el mismo espíritu nos quiere llevar. Necesitamos un cambio, lo sabemos, lo necesitamos y anhelamos. No solo se lo debemos a nuestras comunidades y a tantas personas que han sufrido y sufren en su carne, los dolores provocados, sino que pertenece a la misión y a la identidad misma de la Iglesia el espíritu de conversión. Dejemos que este tiempo sea tiempo de conversión.

"Es necesario que él crezca y que yo disminuya" (Jn 3,30). Con estas palabras el último de los grandes profetas, Juan el Bautista, hablaba a sus discípulos cuando, escandalizados, le hacían ver que había alguien que hacía lo mismo que él. Juan consciente de su identidad y misión - él no era el Mesías, pero había sido enviado antes que él (vv.28) - no vaciló en darles una respuesta clara y sin ningún tipo de ambigüedad.

Con este trasfondo de profecía e inspirado en las palabras de este profeta me gustaría dar el "puntapié inicial" para la reflexión fraterna con ustedes durante estos días.

1. Es necesario que él crezca...

Quizás no haya mayor alegría para el creyente que compartir, testimoniar y hacer visible a Jesús y a su Reino. El encuentro con el Resucitado transforma la vida y hace que la fe se vuelva alegremente contagiosa. Es la semilla del Reino de los Cielos que espontáneamente tiende a compartirse, a multiplicarse y que, como a Andrés, nos lleva a correr hacia nuestros hermanos y decir: "hemos encontrado al Mesías" (Jn 1,41). Un Mesías que siempre nos abre horizontes de vida y esperanza. El discípulo se deja lanzar hacia esta aventura por la acción del Espíritu para hacer crecer y esparcir la vida nueva que Jesús nos ofrece. Esta acción no la podemos identificar nunca con proselitismo o conquista de espacios, sino como la invitación alegre a la vida nueva que Jesús nos regala. "Es necesario que Él crezca" es lo que palpita en el corazón del discípulo porque experimentó que Jesucristo es oferta de vida buena. Sólo Él es capaz de salvar.

La Iglesia en Chile sabe de esto. La historia nos dice que supo ser madre que engendró a muchos en la fe, predicó la vida nueva del Evangelio y luchó por esta cuando se veía amenazada. Una Iglesia que supo dar "pelea" cuando la dignidad de sus hijos no era respetada o simplemente ninguneada. Lejos de ponerse ella en el centro, buscando ser el centro, supo ser la Iglesia que puso al centro lo importante. En momentos oscuros de la vida de su pueblo, la Iglesia en Chile tuvo la valentía profética no sólo de levantar la voz, sino también de convocar para crear espacios en defensa de hombres y mujeres por quienes el Señor le había encomendado velar; bien sabía que no se podía proclamar el mandato nuevo del amor sin promover mediante la justicia y la paz el verdadero crecimiento de cada persona (1). Así podemos hablar de Iglesia profética que sabe ofrecer y engendrar la vida buena que el Señor nos ofrece.

Una Iglesia profética que sabe poner a Jesús en el centro es capaz de promover una acción evangelizadora que mira al Maestro con la ternura de Teresa de Los Andes y afirmar: "¿Temes acercarte a él? Míralo en medio de su rebaño fiel, cargando sobre sus hombros a la oveja infiel. Míralo sobre la tumba de Lázaro. Y oye lo que dice Magdalena: mucho se le ha perdonado, porque ha amado mucho. ¿Qué descubres en estos rasgos del Evangelio sino un corazón dulce, tierno, compasivo, un corazón en fin de un Dios?" (2).

Una Iglesia profética que sabe poner Jesús en el centro es capaz de hacer fiesta por la alegría que el Evangelio provoca. Como señalé en Iquique, pero que bien podemos extender a tantos lugares del norte al sur de Chile, la piedad popular es una de las riquezas más grandes que el pueblo de Dios ha sabido cultivar. Con sus fiestas patronales, con sus bailes religiosos - que se prolongan hasta por semanas - con su música y vestidos logran convertir a tantas zonas en santuarios de piedad popular. Porque no son fiestas que quedan encerradas dentro del templo, sino que logran vestir a todo el pueblo de fiesta (3). Y así se queda un entretejido capaz de celebrar alegre y esperanzadamente la presencia de Dios en medio de su pueblo. En los santuarios aprendemos a hacer una Iglesia de cercanías, de escucha, que sabe sentir y compartir una vida tal cual se presenta. Una Iglesia que aprendió que la fe sólo se transmite en dialecto y así celebra cantando y danzando "la paternidad, la providencia, la presencia amorosa y constante de Dios" (4).

Una Iglesia profética que sabe poner a Jesús en el centro es capaz de engendrar en la santidad a un hombre que supo proclamar con su vida: "Cristo vaga por nuestras calles en la persona de tantos pobres, enfermos, desalojados de su mísero conventillo. Cristo, acurrucado bajo los puentes, en la persona de tantos niños que no tienen a quien llamar ‘padre’, que carecen hace muchos años del beso de la madre sobre su frente... ¡Cristo no tiene hogar! ¿No queremos dárselo nosotros?... ‘Lo que hagan al más pequeño de mis hermanos, me lo hacen a Mí, ha dicho Jesús" (5); ya que "si verdaderamente hemos partido de la contemplación de Cristo, tenemos que saberlo descubrir sobre todo en el rostro de aquellos con los que Él mismo ha querido identificarse" (6).

Una Iglesia profética que sabe poner a Jesús en el centro es capaz de convocar para generar espacios que acompañen y defiendan la vida de los diferentes pueblos que conforman su vasto territorio, reconociendo una riqueza multicultural y étnica sin igual por la que es necesario velar. A modo de ejemplo señalo las iniciativas promovidas especialmente por los obispos del sur de Chile durante la década del 60-70 impulsando los mecanismos necesarios para que el Pueblo Mapuche pudiera vivir en plenitud el arte del buen vivir - del que tanto tenemos que aprender -. Acciones fuertes que generaron estructuras en favor de la defensa de la vida invitando al protagonismo responsable de una fe encarnada, transformadora; esa fe que sabe hacer vida la llamada del Concilio que nos recuerda que "los gozos y las esperanzas, las tristezas y las angustias de los hombres de nuestro tiempo, sobre todo de los pobres y de cuantos sufren, son a la vez gozos y esperanzas, tristezas y angustias de los discípulos de Cristo. Nada hay verdaderamente humano que no encuentre eco en su corazón" (7).

Una Iglesia profética que sabe poner a Jesús en el centro con sinceridad es capaz - como supo mostrarnos uno de Vuestros pastores - de "confesar que, en nuestra historia personal, y en la historia de nuestro Chile, ha habido injusticia, mentira, odio, culpa, indiferencia. [Y los invitaba a ser] sinceros, humildes y decir al Señor: ¡hemos pecado contra ti! Pecar contra nuestro hermano, el hombre y la mujer, es pecar contra Cristo, que murió y resucitó por todos los hombres. ¡Seamos sinceros, humildes!: ¡Pequé Señor contra ti! ¡No obedecí a tu Evangelio!" (8). La conciencia consciente de sus límites y pecados la hace vivir alerta ante la tentación de suplantar a su Señor. Y así podríamos seguir enumerando muchos fermentos vivos de Iglesia profética que sabe poner a Jesús en el centro. Pero la invitación más grande y fecundamente vital - como lo he querido subrayar en la reciente Exhortación Apostólica recordando a Edith Stein - nace de la confianza y convicción que: "en la noche más oscura surgen los más grandes profetas y los santos; sin embargo, la corriente vivificante de la vida mística permanece invisible. Los acontecimientos decisivos de la historia del mundo fueron esencialmente influenciados por almas sobre las cuales nada dicen los libros de historia. Y cuáles sean las almas a las que hemos de agradecer los acontecimientos decisiones de nuestra vida personal, es algo que sólo sabremos el día en que todo lo oculto será revelado" (9). El Santo pueblo fiel de Dios, desde su silencio cotidiano, de muchas formas y maneras sigue haciendo visible y testimonia con "testaruda" esperanza que el Señor no abandona, que sostiene la entrega constante y, en tantas situaciones sufriente de sus hijos. El Santo y Paciente Pueblo fiel de Dios sostenido y vivificado por el Espíritu Santo es el mejor rostro de la Iglesia profética que sabe poner al centro a su Señor en la entrega cotidiana (10). Nuestra actitud como pastores es aprender a confiar en esta realidad eclesial y a reverenciar y reconocer que en un pueblo sencillo, que confiesa su fe en Jesucristo, ama a la Virgen, se gana la vida con el trabajo, (tantas veces mal pagado), bautiza a sus hijos y entierra a sus muertos; en ese pueblo fiel que se sabe pecador pero no se cansa de pedir perdón porque cree en la misericordia del Padre, en ese pueblo fiel y silencioso reside el sistema inmunitario de la Iglesia.

2. Y que yo disminuya.

Duele constatar que, en este último periodo de la historia de la Iglesia chilena, esta inspiración profética perdió fuerza para dar lugar a lo que podríamos denominar una transformación en su centro. No sé qué fue primero, si la pérdida de fuerza profética dio lugar al cambio de centro o el cambio de centro llevó a la pérdida de la profecía que era tan característica en Ustedes. Lo que sí podemos observar es que la Iglesia que era llamada a señalar a Aquél que es el Camino, la Verdad y la Vida (Jn 14,6) se volvió ella misma el centro de atención. Dejó de mirar y señalar al Señor para mirarse y ocuparse de sí misma. Concentró en sí la atención y perdió la memoria de su origen y misión (11). Se ensimismó de tal forma que las consecuencias de todo este proceso tuvieron un precio muy elevado: su pecado se volvió el centro de atención. La dolorosa y vergonzosa constatación de abusos sexuales a menores, de abusos de poder y de conciencia por parte de ministros de la Iglesia, así como la forma en que estas situaciones han sido abordadas (12), deja en evidencia este "cambio de centro eclesial". Lejos de disminuir ella para que apareciesen los signos del Resucitado el pecado eclesial ocupó todo el escenario concentrando en sí la atención y las miradas.

Es urgente abordar y buscar reparar en el corto, mediano y largo plazo este escándalo para restablecer la justicia y la comunión (13). A su vez creo que, con la misma urgencia, debemos trabajar en otro nivel para discernir cómo generar nuevas dinámicas eclesiales en consonancia con el Evangelio y que nos ayuden a ser mejores discípulos misioneros capaces de recuperar la profecía.

Esa vida nueva que el Señor nos dona implica recuperar la claridad del Bautista y afirmar sin ambigüedad que el discípulo no es ni será jamás el Mesías. Esto nos lleva a promover una alegre y realista conciencia de nosotros mismos: el discípulo no es más que su Señor. Y por esto mismo, en primer lugar, tenemos que estar atentos a todo tipo o forma de mesianismo que pretenda erguirse como único intérprete de la voluntad de Dios. Muchas veces podemos caer en la tentación de una vivencia eclesial de la autoridad que pretende suplantar las distintas instancias de comunión y participación, o lo que es peor, suplantar la conciencia de los fieles olvidando la enseñanza conciliar que nos recuerda que "la conciencia es el núcleo más secreto y el sagrario del hombre, en el que está solo con Dios, cuya voz resuena en lo más íntimo de ella" (14).

Es clave recuperar una dinámica eclesial capaz de ayudar a los discípulos a discernir el sueño de Dios para sus vidas, sin pretender suplantarlos en tal búsqueda. En los hechos, los falsos mesianismos pretenden cancelar esa elocuente verdad de que la unción del Santo la tiene la totalidad de los fieles (15). Nunca un individuo o un grupo ilustrado puede pretender ser la totalidad del Pueblo de Dios y menos aún creerse la voz auténtica de su interpretación. En este sentido debemos prestar atención a lo que me permito llamar "psicología de elite" que puede traslaparse en nuestra manera de abordar las cuestiones. La psicología de elite o elitista termina generando dinámicas de división, separación, “círculos cerrados” que desembocan en espiritualidades narcisistas y autoritarias en las que, en lugar de evangelizar, lo importante es sentirse especial, diferente de los demás, dejando así en evidencia que ni Jesucristo ni los otros interesan verdaderamente. (16) Mesianismo, elitismos, clericalismos, son todos sinónimos de perversión en el ser eclesial; y también sinónimo de perversión es la pérdida de la sana conciencia de sabernos pertenecientes al santo Pueblo fiel de Dios que nos precede y que - gracias a Dios - nos sucederá. No perdamos jamás la conciencia de ese don tan excelso que es nuestro bautismo.

El reconocimiento sincero, orante e incluso de muchas veces dolorido de nuestros límites es lo que permite a la gracia actuar mejor en nosotros, ya que le deja espacio para provocar ese bien posible que se integra en una dinámica sincera, comunitaria, y de real crecimiento (17). Esta conciencia de límite y de la parcialidad que ocupamos dentro del pueblo de Dios nos salva de la tentación y pretensión de querer ocupar todos los espacios, y especialmente un lugar que no nos corresponde: el del Señor. Solo Dios es capaz de la totalidad, sólo Él es capaz de la totalidad de un amor exclusivo y no excluyente al mismo tiempo. Nuestra misión es y será siempre misión compartida. Como les dije en el encuentro con el clero en Santiago: "la conciencia de tener llagas nos libera de volvernos autoreferenciales, de creernos superiores. Nos libera de esa tendencia prometeica de quienes en el fondo sólo confían en sus fuerzas y se sienten superiores a otros" (18).

Por ello, y permítanme la insistencia, urge generar dinámicas eclesiales capaces de promover la participación y misión compartida de todos los integrantes de la comunidad eclesial evitando cualquier tipo de mesianismo o psicología-espiritualidad de elite. Y, en concreto, por ejemplo, nos hará bien abrirnos más y trabajar conjuntamente con distintas instancias de la sociedad civil para promover una cultura anti-abusos del tipo que fuera.

Cuando los convoqué a este encuentro los invitaba a pedir al Espíritu el don de la magnanimidad para poder traducir en hechos concretos lo que reflexionemos. Los exhorto a que pidamos con insistencia este don por el bien de la Iglesia en Chile. Recibí con cierta preocupación la actitud con la que algunos de Ustedes, Obispos, han reaccionado ante los acontecimientos presentes y pasados. Una actitud orientada hacia lo que podemos denominar el "episodio Jonás" - en medio de la tormenta era necesario tirar fuera el problema (Jonás 1,4-16) (19) - creyendo que la sola remoción de personas solucionaría de por sí los problemas (20). Así pasa al olvido el principio paulino: "si el pie dijera: ‘Como no soy mano, no formo parte del cuerpo, ¿acaso por eso no seguiría siendo parte de él?" (21). Los problemas que hoy se viven dentro de la comunidad eclesial no se solucionan solamente abordando los casos concretos y reduciéndolos a remoción de personas (22); esto - y lo digo claramente - hay que hacerlo, pero no es suficiente, hay que ir más allá. Sería irresponsable de nuestra parte no ahondar en buscar las raíces y las estructuras que permitieron que estos acontecimientos concretos se sucedieran y perpetuasen (23).

Las dolorosas situaciones acontecidas son indicadores de que algo en el cuerpo eclesial está mal. Debemos abordar los casos concretos y a su vez, con la misma intensidad, ir más hondo para descubrir las dinámicas que hicieron posible que tales actitudes y males pudiesen ocurrir (24).

Confesar el pecado es necesario, buscar remediarlo es urgente, conocer las raíces del mismo es sabiduría para el presente-futuro. Sería grave omisión de nuestra parte no ahondar en las raíces. Es más, creer que sólo la remoción de las personas, sin más, generaría la salud del cuerpo es una gran falacia. No hay duda que ayudaría y es necesario hacerlo, pero repito, no alcanza (25), ya que este pensamiento nos dispersaría de la responsabilidad y la participación que nos corresponde dentro del cuerpo eclesial.

Y allí donde la responsabilidad no es asumida y compartida, el culpable de lo que no funciona o está mal siempre es el otro (26). Por favor, cuidémonos de la tentación de querer salvarnos a nosotros mismos, salvar nuestra reputación ("salvar el pellejo"); que podamos confesar comunitariamente la debilidad y así poder encontrar juntos respuesta humildes, concretas y en comunión con todo el Pueblo de Dios. La gravedad de los sucesos no nos permite volvernos expertos cazadores de "chivos expiatorios". Todo esto nos exige seriedad y co-responsabilidad para asumir los problemas como síntomas de un todo eclesial que somos invitados a analizar y también nos pide buscar todas las mediaciones necesarias para que nunca más vuelvan a perpetuarse. Sólo podemos lograrlo si lo asumimos como un problema de todos y no como el problema que viven algunos. Solo podremos solucionarlo si lo asumimos colegialmente, en comunión en sinodalidad.

Hermanos, no estamos aquí porque seamos mejores que nadie. Como les dije en Chile, estamos aquí con la conciencia de ser pecadores-perdonados o pecadores que quieren ser perdonados, pecadores con apertura penitencial. Y en esto encontramos la fuente de nuestra alegría. Queremos ser pastores al estilo de Jesús herido, muerto y resucitado. Queremos encontrar en las heridas de nuestro pueblo los signos de la Resurrección. Queremos pasar de ser una Iglesia centrada en sí, abatida y desolada por sus pecados, a una Iglesia servidora de tantos abatidos que conviven a nuestro lado. Una Iglesia capaz de poner en el centro lo importante: el servicio a su Señor en el hambriento, en el preso, en el sediento, en el desalojado, en el desnudo, enfermo, en el abusado... (Mt 25,35) con la conciencia de que ellos tienen la dignidad para sentarse a nuestra mesa, de sentirse "en casa", entre nosotros, de ser considerados familia. Ese es el signo de que el Reino de los Cielos está entre nosotros, es el signo de una Iglesia que fue herida por su pecado, misericordiada por su Señor, y convertida en profética por vocación (27). Hermanos, las ideas se discuten, las situaciones se disciernen. Estamos reunidos para discernir, no para discutir.

Renovar la profecía es volver a concentrarnos en lo importante; es contemplar al que traspasaron y escuchar "no está aquí ha resucitado" (Mt 28,6); es crear las condiciones y las dinámicas eclesiales para que cada persona en la situación que se encuentre pueda descubrir al que vive y nos espera en Galilea.

Francisco

NOTAS:

(1) Cfr. BEATO PABLO VI, Evangelii Nuntiandi, 29.

(2) Santa Teresa de Los Andes, diarios y cartas, 373.376.

(3) Cfr. Homilía y saludo final en la Santa Misa de la Virgen del Carmen y Oración por Chile, campus Lobito-Iquique, 18 de enero de 2018.

(4) Evangelii Nuntiandi, 48; CELAM, Puebla, 400.454; CELAM, Aparecida, 99b. 262-265: EG, 122.

(5) SAN ALBERTO HURTADO, Cristo no tiene hogar, Meditación en un retiro a señoras el 16 de octubre 1944.

(6) SAN JUAN PABLO II, Novo Millennio ineunte, 49.

(7) CONCILIO VATICANO II, Gaudium et Spes, 1.

(8) Cardenal Silva Henríquez, Reconciliación de los chilenos, Homilía al terminar el Año Santo, 24 de noviembre de 1974.

(9) Verborgenes Leben Und Epiphanie: GW XI, 145.

(10) Cfr. Gaudete et Exsultate, 6-9.

(11) "Tu fama se extendió entre las naciones, porque tu belleza era perfecta gracias al esplendor con que yo te había adornado - oráculo del Señor. Pero tú te preciaste de tu hermosura y te aprovechaste de tu fama". Ez 16,14-15b.

(12) Es sintomático notar en el informe presentado por la "Misión especial" que todos los declarantes, incluso los miembros del Consejo Nacional para la Prevención del Abuso de Menores de Edad y Acompañamiento de las Víctimas, han señalado la insuficiente atención pastoral prestada hasta el momento a todos los que se han visto envueltos, de un modo u otro, en una causa canónica de delicta graviora.

(13) Cfr. Carta a los señores Obispos de Chile tras el informe de S.E. Mons. Charles J. Scicluna, 8 de abril de 2018.

(14) CONCILIO VATICANO II, Gaudium et Spes, 16.

(15) Cfr. Concilio Vaticano II, Lumen Getium, 12.

(16) Cfr. Evangelii Gaudium, 94.

(17) Cfr. Gaudete et Exsultate, 52.

(18) Encuentro con los sacerdotes, religiosos/as, consagrados/as y seminaristas, Santiago de Chile, 16 de enero de 2018.

(19) El mismo Jonás se hace cargo de que la tormenta fue provocada por no asumir la misión que le correspondía y que para liberarse de ella debían tirarlo al mar. vv 12: "levántenme y arrójenme al mar y el mar se les calmará. Yo sé muy bien que por mi culpa les ha sobrevenido esta gran tempestad".

(20) "Muerto el perro se acabó la rabia". Igualmente se podría hablar del "síndrome Caifás": conviene que un solo hombre muera por el pueblo.

(21) 1Cor 12,12.

(22) Porque no se trata solamente de un caso en particular. Son numerosas las situaciones de abuso de poder, de autoridad; de abuso sexual. Y eso incluye el tratamiento que hasta ahora se ha venido teniendo de los mismos.

(23) A modo de ejemplo, en el informe presentado por la "Misión especial" muchos de los entrevistados en Sotero Sanz sostienen que parte de la fractura profunda en la comunión eclesial se arrastraría en el clero desde el mismo Seminario, viciando lo que deberían ser las relaciones fraternas presbiterales y haciendo partícipe a los fieles de estas divisiones y fracturas, que termina por dañar irremediablemente la credibilidad social y el liderazgo eclesial de los presbíteros y de los obispos.

(24) En el informe de la "Misión especial" mis enviados han podido confirmar que algunos religiosos expulsados de su orden a causa de la inmoralidad de su conducta y tras haberse minimizado la absoluta gravedad de sus hechos delictivos atribuyéndolos a simple debilidad o falta moral, habrían sido acogidos en otras diócesis e incluso, en modo más que imprudente, se les habrían confiado cargos diocesanos o parroquiales que implican un contacto cotidiano y directo con menores de edad.

(25) Nuevamente, en ese sentido, me gustaría detenerme en tres situaciones que se desprenden del informe de la "Misión especial": 1. La investigación demuestra que existen graves defectos en el modo de gestionar los casos de delicta graviora que corroboran algunos datos preocupantes que comenzaron a saberse en algunos Dicasterios romanos. Especialmente en el modo de recibir las denuncias o notitiae crimini, pues en no pocos casos han sido calificados muy superficialmente como inverosímiles, lo que eran graves indicios de un efectivo delito. Durante la Visita se ha constado también la existencia de presuntos delitos investigados solo a destiempo o incluso nunca investidos, con el consiguiente escandalo para los denunciantes y para todos aquellos que conocían las presuntas víctimas, familias, amigos, comunidades parroquiales. En otros casos, se ha constado la existencia de gravísimas negligencias en la protección de los niños/as y de los niños/as vulnerables por parte de los Obispos y Superiores religiosos, los cuales tienen una especial responsabilidad en la tarea de proteger al pueblo de Dios. 2. Otras circunstancia análoga que me ha causado perplejidad y vergüenza ha sido la lectura de las declaraciones que certifican presiones ejercidas sobre aquellos que debían llevar adelante la instrucción de los procesos penales o incluso la destrucción de documentos comprometedores por parte de encargados de archivos eclesiásticos, evidenciando así una absoluta falta de respeto por el procedimiento canónico y, más aún, unas prácticas reprobables que deberán ser evitadas en el futuro. 3. En la misma línea y para poder corroborar que el problema no pertenece a solo un grupo de personas, en el caso de muchos abusadores se detectaron ya graves problemas en ellos en su etapa de formación en el seminario o noviciado. De hecho, constan en las actas de la "Misión especial" graves acusaciones contra algunos Obispos o Superiores que habrían confiado dichas instituciones educativas a sacerdotes sospechosos de homosexualidad activa.

(26) Eco de esa actitud paradigmática que nos recuerda Gn 3,11-13: "Acaso has comido del árbol que yo te prohibí". El hombre respondió: "La mujer que pusiste a mi lado me dio el fruto y yo comí de él". El Señor Dios dijo a la mujer: "Cómo hiciste semejante cosa". La mujer respondió: "La serpiente me sedujo y respondí". En criollo nos recuerda la actitud del niño que mira a sus padres y dice: "Yo no fui".

(27) Cfr. Encuentro con los sacerdotes, religiosos/as, consagrados/as y seminaristas, Santiago de Chile, 16 de enero de 2018.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sábado, 19 de maio de 2018 – Internet: clique aqui; aqui e aqui.