«Quem em uma situação como esta, de injustiça social e repressão criminal, escolher o caminho da passividade e erguer a bandeira hipócrita da imparcialidade política torna-se cúmplice do mal.»

(Silvio José Báez – bispo-auxiliar de Manágua, Nicarágua, clamando contra a violência e repressão do governo de Daniel Ortega)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

sábado, 16 de junho de 2018

11º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 4,26-34

Naquele tempo:
26 Jesus disse à multidão: «O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra.
27 Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece.
28 A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga.
29 Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou».
30 E Jesus continuou: «Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo?
31 O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra.
32 Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra».
33 Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender.
34 E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA


O REINO NÃO DEPENDE SÓ DE NOSSO TRABALHO

Poucas parábolas podem provocar maior rejeição em nossa cultura do rendimento, da produtividade e da eficácia como esta pequena parábola em que Jesus compara o Reino de Deus com esse misterioso crescimento da semente, que produz sem a intervenção do semeador.

Esta parábola, tão esquecida hoje, ressalta o contraste entre a espera paciente do semeador e o crescimento irresistível da semente. Enquanto o semeador dorme, a semente vai germinando e crescendo «por si mesma», sem a intervenção do agricultor e «sem que ele saiba como».

Acostumados a valorizar, quase exclusivamente, a eficácia do trabalho e o rendimento das pessoas, esquecemos que o Evangelho fala de fecundidade, não de esforço, pois Jesus entende que a lei fundamental do crescimento humano não é o trabalho, mas a acolhida da graça que vamos recebendo de Deus.

A sociedade atual empurra-nos com tão força para o trabalho, a atividade e o rendimento, que não mais percebemos até que ponto se empobrece a vida quando tudo se reduz a atuar de maneira eficiente e obter o máximo de rendimento em nossa atividade.

De fato, a «lógica da eficácia» está levando o homem contemporâneo a uma existência tensa e agoniada, a uma deterioração crescente de suas relações com o mundo e as pessoas, a um esvaziamento interior e a essa «síndrome de imanência» (Rovira Belloso – teólogo catalão) onde Deus desaparece, pouco a pouco, do horizonte da pessoa.

Porém, a vida não é somente trabalho eficaz e produtividade, mas presente de Deus que se deve acolher e desfrutar com coração agradecido. Além daquilo que é útil ou rentável, o homem, para ser humano, necessita aprender a estar na vida, não só a partir de uma atitude produtiva, mas a partir de uma atitude contemplativa. A vida se transforma e adquire uma dimensão nova e mais profunda quando a pessoa aceita viver a experiência do amor gratuito, criativo e dinamizador de Deus.

O ser humano de hoje necessita educar-se para a contemplação; aprender a viver mais atento a tudo o que há de dom na existência; despertar em seu interior o agradecimento e o louvor; libertar-se da pesada «lógica da eficácia» e abrir em sua vida espaços para o gratuito.

Temos de aprender a agradecer a tantas pessoas que alegram nossa vida e não passar ao largo de tantas paisagens feitas somente para ser contempladas. Somente saboreia a vida como graça aquele que se deixa querer, aquele que se deixa surpreender pelo bem de cada dia, aquele que se deixa agraciar, bendizer e perdoar por Deus.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B – Internet: clique aqui.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Você é, mesmo, convertido(a)?

Muitos cristãos julgam-se convertidos, mas qual
o fundamento para justificar tal convicção?

Orlando Polidoro Junior
Teólogo, pastoralista e bacharel em Teologia pela
Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC-PR

A conversão eleva o ser humano para uma vida repleta de amor em
tudo – tudo é Amor. Mas é o amor que sempre se destaca
na conduta de alguns supostos convertidos?

“Isto vos mando: amai-vos uns aos outros” (Jo 15,17).
“A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,4-7).

Não existe um padrão, um jeito correto ou um planejamento ideal para a conversão, entretanto, este artigo reflete sobre um modelo de conversão embasado nessas duas citações bíblicas.

Dialogar sobre conversão é tratar sobre Deus, é falar da misericórdia e do Amor professado pelo Seu Filho Jesus, sem deixar de reconhecer e suscitar as revelações do Espírito Santo. Deus manifesta a plenitude do Seu Amor em Cristo Jesus, que veio para nos servir – e não para ser servido (cf. Mt 20,28). Seu Evangelho é pura lição de amor ao próximo. Então, ir à missa diariamente ou toda semana, rezar copiosamente, participar de obras de ações sociais [dentro e fora da igreja], doar o dízimo etc., não podem ser consideradas como “atitudes finais que configuram uma ‘verdadeira’ conversão”, desde que, no dia a dia não seja impulsionada por olhares respeitosos e fraternos para com o próximo.

Herdeiros da Nova e Eterna Aliança, o Santuário Onipresente na alma do cristão ama ao próximo com a si mesmo (cf. Gl 5,14), e adora a Santíssima Trindade (cf. Jo 4,23). Jesus é O Modelo que o fiel busca se aproximar e seguir. É fácil? Não! Mas da parte humana este é o critério da conversão.

Convivendo entre cristãos, católicos e protestantes, é comum ouvir declarações convictas de irmãos que, de alguma forma ou por algum(ns) motivo(s) se julgam e até se declaram convertidos(as). Diante de tal circunstância, glória a Deus passa a ser uma mensagem de retorno cabível e digna para o cristão “merecedor dessa graça”. Porém, o conceito de graça merecida é mais um entre alguns fundamentos mal interpretados, tanto por determinados fiéis, como também por certas denominações religiosas que pregam a ideia de que a conversão não é para qualquer um, e sim, é recebida quase como um prêmio concedido por Deus, mas somente para os puros e justos. Será?
SANTO AGOSTINHO

Para o catolicismo, o protestantismo tradicional e alguns pentecostais, os entendimentos de uma conversão virtuosa contêm princípios equivalentes, entre eles, o de maior relevância é o afastamento do pecado. Partindo desta gênese, pela via da graça santificante o cristão segue O Novo Caminho, e durante o processo de conversão que é contínuo [...], surge uma mudança de conduta – cheia de luz – semelhante à vida e ao amor de Jesus proclamado em Seu Evangelho. Para seguir Jesus é preciso estar preparado(a) para novos desafios e esforços, mas sempre consciente de que serão alcançados e superados pela moção da Santíssima Trindade [Papa Francisco. Evangelii Gaudium]. Pela fé, a graça da conversão promove transmutações no interior/alma do fiel, gerando sentimentos mais puros e justos – dignos do amor de Jesus, O Cristo (cf. 2Cor 5,17).

Mesmo partindo deste entendimento, a capacidade humana para compreender e explicar, com certeza, sobre a conversão em sua totalidade, está limitada até mesmo aos maiores teólogos do mundo em todas as épocas, pois não é possível profetizar o que Deus pensa e nem como e quando sua graça será manifestada. Contudo, os resultados de pesquisas desenvolvidas durante séculos, pelo menos nos dão algumas pistas lógicas para o reconhecimento de conversões analisadas e concebidas como “verdadeiras”, devido ao modelo de vida construído pelo fiel convertido(a), ou seja, modelo exemplar de caridade [amor pleno ao próximo]. Mas certas atitudes de alguns convertidos (as) de nosso relacionamento servem como bons exemplos de caridade?

Quando pela graça, A Santíssima Trindade coloca um filho(a) no caminho inicial da conversão [Ad Gentes], ela é incontestável, por isso, as mudanças de pensamentos e de atitudes refletem intensamente à luz do Senhor – refletem paz, harmonia, respeito e muito amor em tudo. A Trindade transfigura a alma do ser humano.

Em verdade, a questão da conversão é complexa e exige discernimento para que possa ser bem interpretada, visto que, como humanos apegados às doutrinas religiosas, algumas vezes mal compreendidas, defendidas e praticadas sem o uso correto da razão, “bate-se no peito com orgulho” autoafirmando-se convertido(a), até mesmo em relação a alguns tipos de mudanças mais “comuns” como: trocar de igreja ou de religião, parar com algum tipo de vício, parar de praticar alguns atos considerados pecaminosos etc.

Nem cabe comentários quanto ao modelo de conversão visto como mudança de religião ou de igreja. Mas, com certeza, as referências de libertação de vícios e o afastamento de ações destruidoras da paz, independente de uma vida de fé ou não, é pura graça divina. Mas em amplo juízo teológico, estas ações/manifestações também não podem ser consideradas como uma conversão virtuosa/gloriosa, pois um cristão verdadeiramente convertido pelo amor e pela misericórdia da Santíssima Trindade, recebe muito mais do que uma graça/milagre temporal. Recebe gratuitamente, carismas, virtudes, serenidade e dons semelhantes aos de Jesus.

A conversão eleva o ser humano para uma vida repleta de amor em tudo – tudo é Amor. Mas é o amor que sempre se destaca na conduta de alguns supostos convertidos?

Sem julgar e condenar, vale contemplar para poder perscrutar sobre o Evangelho de Jesus; e como aceitamos e convivemos com as supostas conversões de alguns semelhantes.

Vamos refletir um pouco sobre dois exemplos considerados como conversões:
1º) refere-se ao cristão ardente na fé, que caminha em intensa sintonia com os sinais da Trindade Santa – e com isso, aos poucos, seu coração vai se transformado para o Bem Maior de Deus.
2º) exemplo é aquele que, caminhando ou não na fé, “do nada”, o(a) filho(a) passa a conviver com a Verdade.
SÃO PAULO

O primeiro exemplo segue o raciocínio cristão que compreende a conversão como um processo de evolução na caminhada de fé, já o segundo parece ser um passe de mágica, mas não é, é pura manifestação da Graça Trinitária [obras do Divino].

É uma ousadia humana querer adivinhar o que Deus pensa e/ou o seu modo de agir, todavia, a Teologia interpreta a conversão como sendo um processo diário na vida do fiel, visto que não pode ser concebida como uma simples chave liga-desliga e tudo resolvido. Contudo, o agir do Deus Trinitário surpreende sempre, da mesma forma que também podemos surpreendê-lo com nosso livre-arbítrio, porém, na vertical há muitas bênçãos e graças recebidas, e uma delas é a caridade, que dignamente o fiel a compartilha com os semelhantes na horizontal – no chão da vida (cf. Tg 2,8).

Comparando os dois exemplos com duas referências de conversões bem tradicionais na história do catolicismo, citamos, Agostinho de Hipona e Saulo de Tarso, pois têm semelhanças racionais. Segundo as Confissões de Agostinho, mesmo com uma vida turbulenta diante do ser cristão em sua época, de perseguidor consciente de Deus por longos anos, só O encontra quando em um determinado momento, ao ouvir a voz de uma criança (Confissões, p. 226), relata que sua conversão [graça] ocorreu ali. Mas como todo processo de conversão, este foi apenas o início de sua virtuosa caminhada de fé que culminou no Doutor da Igreja Católica – Santo Agostinho. Pelas narrativas das Escrituras Sagradas, Saulo, de perseguidor maldoso dos cristãos, diante da narrativa de ter “caído do cavalo” [caiu por terra - cf. At 9,4], aquele foi o ápice de sua conversão [graça], que mais tarde o tornou no iluminado Paulo apóstolo.

Nos dois contextos temos fatos históricos e teológicos, com isso, é preciso discernir sobre os dois acontecimentos, pois têm circunstâncias em comum, e uma grande evidência: Agostinho perseguia um encontro interior com Deus, e Saulo perseguia os cristãos. Mas a Boa-Nova mesmo é que Deus perseguia os dois –, e em Seu momento [kairós], manifestou a graça.

Não existem parâmetros para medição, mas se houvessem, a conversão em seu estado de graça não poderia ser mensurada somente por uma vitória, pois ela superabunda a vida do cristão com valores místicos-divinos-absolutos, suficientes para encher a alma e o coração com O Amor Verdadeiro e transformador, mensurável sim, pelo(a) próprio(a) fiel que recebe os sete dons do Espírito Santo – e os partilha com o próximo – é o agir divino presente entre os homens.

Teologicamente, o entendimento mais ponderado para os dois episódios é o de que aqueles momentos não tenham sido exatamente os das completudes das conversões. Para cada um, aquele foi o momento do encontro; da revelação. Mesmo declarados como tais, tanto Agostinho como Saulo passaram pelo processo evolutivo da conversão, isto é, foram crescendo em graça; foram descobrindo o Amor; foram transformando suas almas para o bem. Saulo, após abrir os olhos para o Senhor, se preparou durante um período aproximado de três anos, para daí sim, como Paulo, sair evangelizando os gentios. Nenhum deles estava pronto/convertido naquele momento.

Infelizmente, presenciamos em alguns irmãos que se autoafirmam convertidos, certas atitudes nada condizentes com os ensinamentos de Jesus. Isto é comum no dia a dia de quem vive em comunidades cristãs. Então fica a reflexão: autoafirmar-se é o suficiente para o Reino, ou somente um coração repleto de caridade representa a plenitude da graça – e é sempre louvável em todas as atitudes para com os semelhantes?

O Pai, O Filho e O Espírito Santo não precisam de nada que se possa oferecer como forma de reconhecimento pessoal. Inspirado em Mateus 7,21, mas sem questionar a entrada no Reino futuro, até mesmo para os que proclamam, na falsidade ou com o coração ardente, Senhor, Senhor, fazer a maior vontade do Pai que está nos céus é respeitar, amar e servir aos irmãos. Adorá-lo em Sua Trindade não é a exigência [livre-arbítrio], mas as benevolências do amor ao próximo são muitas bênçãos, graças e dons recebidos do céu, às vezes não reconhecidos.
PAPA FRANCISCO

Não pela lógica utilizada por alguns, mas com senso teológico é possível relacionar a conversão com a salvação, pois as duas dependem da graça e não de méritos pessoais criados pela mentalidade pelagiana ou semipelagiana, que só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros [cf. Papa Francisco. Gaudete et exultate].

Para desmistificar qualquer tipo de compreensão que resuma a conversão como um acontecimento único; momento mágico, vamos acompanhar a vida do Maior Homem da história, Jesus, O Cristo. Nascido do ventre de Maria que recebeu o anúncio do anjo, Ele cresceu com esta verdade – e certamente ciente de como foi gerado. Aos doze anos, no templo, mostrou que crescia em graça e sabedoria, porém, somente aos trinta anos iniciou sua vida pública. Com isso, temos um período conhecido como o da vida oculta de Jesus. Não teria sido o tempo necessário para o processo de sua gloriosa e redentora conversão? Mas será que como Divino Ele precisou ser convertido como humano? É necessária muita circunspecção para compreender a comparação dessa indagação.

Gerado, se tornou humano, igual a nós em tudo, menos no pecado. Mesmo sendo o Filho do Homem, não nasceu pronto, passou por um processo como os cristãos também passam. Ao final de Sua Dolorosa Paixão, Cristo Jesus questionou: Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Será que estamos absolutamente convictos de nossas conversões?

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sábado, 9 de junho de 2018 – Internet: clique aqui.

É bom ser vira-lata!

Economista subverte Nelson Rodrigues e defende
o estigma de vira-lata

Antonio Gonçalves Filho

Em “O Elogio do Vira-Lata”, Eduardo Giannetti reúne ensaios que
vão de Mozart à política brasileira
EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA
Economista e escritor mineiro

Vira-lata, sim, para seu governo. É um refrão alternativo do samba Cachorro Vira-Lata, que Carmen Miranda tornou popular em 1937 (“Eu gosto muito de cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão”), mas bem poderia ser um manifesto. No lugar do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, o vira-lata define melhor o que é ser brasileiro, mestiço, sem pedigree. Também por isso o economista e pensador mineiro Eduardo Giannetti resolveu abrir seu novo livro, O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios, justamente com esse “manifesto” em louvor do tipo, acabando definitivamente com o “complexo de vira-lata” denunciado há exatamente 60 anos pelo dramaturgo Nelson Rodrigues. Subvertendo Rodrigues, Giannetti diz, ao contrário, que bom mesmo é ser vira-lata. E explica as razões.

Em entrevista concedida ao Aliás, o economista reforça a conclusão do ensaio inaugural de seu livro: o vira-lata celebra a amizade, o convívio e está sempre pronto para a fruição do momento, rejeitando o culto da pureza racial. Nossa condição de vira-lata, defende Giannetti, “é uma realidade genética atestada”. Somos, justifica o economista, afro-euro-ameríndio descendentes, uma mistura total. O vira-lata do “complexo” batizado por Nelson Rodrigues, porém, sente que isso o transforma em ser inferior.

Há inúmeros exemplos históricos e literários disso, como a negra Angélica do conto Miss Edith e Seu Tio, de Lima Barreto, que Giannetti usa para comentar um perturbador caso de vocação subalterna. Angélica, a faz-tudo de uma pensão carioca do Flamengo, fica radiante com a perspectiva de servir a um casal de estrangeiros caucasianos, até descobrir que “eles (os ingleses) são como nós”. Ou pior. O sentimento de inferioridade do brasileiro em relação ao resto do mundo – especialmente as nações ricas – “é uma realidade incontornável da vida brasileira”.

O vira-lata, conclui Giannetti, “se vê como ele é visto ou imagina ser visto: mal-ajambrado e pé rapado”. E, acima de tudo, não se define pela profissão, como nos países de formação calvinista. Ao suor bíblico, observa o economista, o vira-lata prefere o suor dionisíaco, sem esquecer os milhões de desempregados que vagam pelo país e são jogados involuntariamente para o mercado informal. “Ainda vivemos no Antigo Regime, em que os governantes imaginam que o povo exista apenas para servi-los”. A operação Lava Jato, justifica Giannetti, tornou explícito o patronato político que usa o poder para se perpetuar nele, apertando o pescoço do contribuinte com uma carga tributária insuportável (hoje em torno de 34% do PIB, 10% a mais que a registrada há 30 anos). Esse, aliás, é o tema do terceiro ensaio do livro, que fala da desigualdade social no Brasil.

Mais adiante, na última parte, o leitor vai descobrir a origem de seu interesse pela filosofia social do economista inglês Alfred Marshall (1842-1924), que desistiu de ser ministro anglicano para formular uma política microeconômica cujo enfoque é justamente o capital humano. “O Estado é corporativista, anacrônico, ninguém representa os brasileiros que estão em situação irregular”, analisa Giannetti, defendendo a crença marshalliana no capital humano – a iniciativa, a invenção – como um fator de produção de riqueza.

“As pessoas não aceitam mais a legitimidade da tributação governamental quando nossos indicadores de educação e saúde são desprezíveis e metade da população não tem coleta de esgoto”, diz, citando o slogan que deflagrou a Revolução Americana no século 18: “Nenhuma taxação sem representação”. Evoque-se que esse slogan nasceu do sermão de um pastor em 1750, não da boca de um político.

Giannetti, que usa a palavra transcendental inúmeras vezes nos 25 textos de seu livro (publicados entre 1989 e este ano), fala sobre suas outras crenças, especialmente na segunda das três partes do livro:
1ª parte do livro: dedicada a problemas brasileiros,
2ª parte: sendo uma coletânea de dispersos literomusicais e a
3ª parte: terceira, um painel da filosofia econômica do professor, conselheiro da candidata à presidência Marina Silva.

No campo musical, sua preferência converge para o período barroco, mais particularmente para compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). “A vida oprime, o som liberta”, escreve, revelando que ouvir a Partita II de Bach, constitui para ele, “a experiência religiosa por excelência”. Giannetti tinha 16 anos quando a ouviu pela primeira vez, graças a um amigo de escola. Sem conhecer teoria ou ler uma partitura, o economista desenvolveu um gosto musical bem acima da média, falando com desembaraço sobre os concertos para piano de Mozart e as obras litúrgicas de Bach. “Mozart não tem a elevação espiritual de Bach, mas gosto muito do classicismo austríaco do século 18 (ele é um profundo estudioso do Iluminismo), sentindo na obra de Mozart a crença numa ordem cósmica que nos transcende.”
AGOSTINHO DA SILVA (1906-1994)
Poeta e ensaísta português

Ainda na segunda parte de O Elogio do Vira-Lata, Giannetti trata de um tema cultural de suma importância: a filosofia do poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), autor de uma biografia de referência sobre Pasteur e dois livros sobre Fernando Pessoa. Giannetti escreveu uma introdução à edição brasileira das obras do filósofo lusitano, reproduzida em seu livro. Nele, o economista destaca o ativismo de Agostinho da Silva, incapaz de contemplar o mundo sem ter a vontade de interferir nele. Tanto é verdade que, durante os anos que morou no Brasil (de 1947 a 1969), ele ajudou a fundar a Universidade Federal de Santa Catarina, além de participar da criação da Universidade de Brasília.

Agostinho era um grande crítico do laicismo da sociedade contemporânea. Mas o “tom por vezes messiânico” de sua mensagem, alerta Giannetti, não obscurece a “justeza de seu argumento”. A transformação proposta pelo filósofo português não passa por uma revolução política, mas espiritual. Em épocas de crise como a atual, a leitura de Agostinho é recomendada com entusiasmo pelo autor brasileiro, que ficou estarrecido com as faixas pedindo intervenção militar durante a recente greve dos caminhoneiros. Comparando a paralisação de 2018 às manifestações de 2013, ele diz que o governo “agiu de forma atabalhoada em ambos os casos”, lembrando que, cinco anos atrás, o secretário de Dilma Roussef, Gilberto Carvalho, chegou a declarar que “o povo estava sendo ingrato” com o governo, como se a população devesse assumir o papel de vassalo do Estado. Não é esse, definitivamente, o Brasil que Giannetti quer.

L I V R O

Título: O ELOGIO DO VIRA-LATA E OUTROS ENSAIOS
Autor: Eduardo Giannetti
Editora: Companhia das Letras (São Paulo)
Preço: R$ 64,90
Páginas: 348

Fonte: O Estado de S. Paulo – Suplemento ALIÁS/Cultura – Domingo, 10 de junho de 2018 – Pág. E3 – Internet: clique aqui.

Pode-se viver no caos?

“Aprender a viver no caos pode não ser tão nocivo”

Manuel Castells
Sociólogo e referência em teoria da comunicação,
é professor emérito da Universidade da Califórnia em Berkeley

O texto abaixo integra “Ruptura”, novo livro do sociólogo espanhol
que a Zahar lança neste mês. Nele, o autor sustenta que a
antiga ordem político-institucional foi superada e afirma que
aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo

No lo que pudo ser:                                                                                             Não o que pude ser:
es lo que fue.                                                                                                                           é o que fui.
Y lo que fue está muerto.                                                                               E o que fui está morto.
  Octavio Paz, “Lección de Cosas”, 1955
MANUEL CASTELLS
Sociólogo espanhol

Em tempos de incertezas costuma-se citar Gramsci quando não se sabe o que dizer. Em particular, sua célebre assertiva de que a velha ordem já não existe e a nova ainda está para nascer. O que pressupõe a necessidade de uma nova ordem depois da crise.

Mas não se contempla a hipótese do caos. Aposta-se no surgimento dessa nova ordem de uma nova política que substitua a obsoleta democracia liberal que, manifestamente, está caindo aos pedaços em todo o mundo, porque deixa de existir no único lugar em que pode perdurar: a mente dos cidadãos.

A crise dessa velha ordem política está adotando múltiplas formas:
* A subversão das instituições democráticas por caudilhos narcisistas que se apossam das molas do poder a partir da repugnância das pessoas com a podridão institucional e a injustiça social;
* a manipulação midiática das esperanças frustradas por encantadores de serpentes;
* a renovação aparente e transitória da representação política através da cooptação dos projetos de mudança;
* a consolidação de máfias no poder e de teocracias fundamentalistas, aproveitando as estratégias geopolíticas dos poderes mundiais;
* a pura e simples volta à brutalidade irrestrita do Estado em boa parte do mundo, da Rússia à China, da África neocolonial aos neofascismos do Leste Europeu e às marés ditatoriais na América Latina.

E, enfim, o entrincheiramento no cinismo político, disfarçado de possibilismo realista, dos restos da política partidária como forma de representação. Uma lenta agonia daquilo que foi essa ordem política.

De fato, a ruptura da relação institucional entre governantes e governados cria uma situação caótica que é particularmente problemática no contexto da evolução mais ampla de nossa existência como espécie no planeta azul. Isso no momento em que se questiona a habitabilidade deste planeta a partir da própria ação dos humanos e de nossa incapacidade de aplicar as medidas corretoras, de cuja necessidade estamos conscientes.

E no momento em que nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico entra em contradição com nosso subdesenvolvimento político e ético, pondo nossas vidas nas mãos de nossas máquinas.
 
E em que as condições ecológicas nas megalópoles, que concentram uma proporção crescente da população mundial, podem provocar, e de fato provocam, pandemias de todo tipo, que se transformam em mercado para as multinacionais farmacêuticas, esse malévolo poder que raptou e deformou a ciência da vida para seu exclusivo benefício.

Um planeta no qual a ameaça de um holocausto nuclear continua vigente pela loucura de endeusados governantes sem controle psiquiátrico. E no qual a capacidade tecnológica das novas formas de guerra, incluída a ciberguerra, prepara conflitos possivelmente mais atrozes do que os vividos no século 20. Sem que as instituições internacionais, dependentes dos Estados, e portanto da pequenez de objetivos, da corrupção e da falta de escrúpulos daqueles que os governam, sejam capazes de pôr em prática estratégias de sobrevivência para o bem comum.

A ruptura da mistificação ideológica de uma pseudorrepresentatividade institucional tem a vantagem da clareza da
consciência a respeito de que mundo vivemos.

Mas nos precipita na escuridão da incapacidade de decidir e atuar porque não temos instrumentos confiáveis para isso, particularmente no âmbito global em que pairam as ameaças sobre a vida.

A experiência histórica mostra que do fundo da opressão e do desespero surgem, sempre, movimentos sociais de diferentes formas que mudam as mentes e, através delas, as instituições. Como aconteceu com o movimento feminista, com a consciência ecológica, com os direitos humanos.

Mas também sabemos que, até agora, as mudanças profundas demandaram uma substituição institucional a partir da transformação das mentes. E é nesse nível, o político-institucional propriamente, que o caos continua imperando. Daí a esperança, abrigada por milhões, de uma nova política.

Contudo, quais são as formas possíveis dessa nova política? Não estaríamos diante do velho esquema da esquerda, de esperar a solução mediante o aparecimento de um novo partido, o autêntico transformador que finalmente seja a alavanca da salvação humana? E se tal partido não existir? E se não pudermos recorrer a uma força externa àquilo que somos e vivemos para além de nossa cotidianidade?

Qual é essa nova ordem que necessariamente deve existir e substituir aquilo que morre? Ou será que estamos numa situação historicamente nova, na qual nós, cada um de nós, devemos assumir a responsabilidade de nossas vidas, das de nossos filhos e de nossa humanidade, sem intermediários, na prática de cada dia, na multidimensionalidade de nossa existência?

Ah, a velha utopia autogestionária. Mas por que não? E, sobretudo, qual é a alternativa? Onde estão essas novas instituições dignas da confiança de nossa representação?

Auscultei muitas sociedades nas duas últimas décadas. E não detecto sinais de nova vida democrática por trás das aparências.

Há projetos embrionários pelos quais tenho respeito e simpatia, sobretudo porque me emocionam a sinceridade e a generosidade de tanta gente. Mas não são instituições estáveis, não são protopartidos ou pré-Estados. São humanos agindo como humanos.

Utilizando a capacidade de autocomunicação, deliberação e codecisão de que agora dispomos na Galáxia Internet. Pondo em prática o enorme caudal de informação e conhecimento de que dispomos para gerir nossos problemas. Resolvendo o que vai surgindo a cada instante. E reconstruindo de baixo para cima o tecido de nossas vidas, no pessoal e no social.

Utópico? Utópico é pensar que o poder destrutivo das atuais instituições pode deixar de se reproduzir em novas instituições criadas a partir da mesma matriz. E, já que a destruição de um Estado para criar outro leva necessariamente ao Terror, como já aprendemos no século 20, poderíamos experimentar e ter a paciência histórica de ver como os embriões de liberdade plantados em nossa mente por nossa prática vão crescendo e se transformando.

Não necessariamente para constituir uma ordem nova. Mas sim, quem sabe, para configurar um caos criativo no qual aprendamos a fluir com a vida, em vez de aprisioná-la em burocracias e programá-la em algoritmos. Dada nossa experiência histórica, aprender a viver no caos talvez não seja tão nocivo quanto conformar-se à disciplina de uma ordem.

L I V R O

Título: RUPTURA
Autor: Manuel Castells
Tradução: Joana Angélica D'Avila Melo
Editora: Zahar
Preço: R$ 39,90 (152 págs.)

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 4 de junho de 2018 – Internet: clique aqui.

Obra inédita de Freud

Manuscrito de Freud faz leitura psicanalítica
inédita da figura de Cristo

Alexandre Socha

Texto feito em parceria com embaixador americano tem como
pano de fundo o messianismo na política
O psicanalista SIGMUND FREUD posa para o escultor Oscar Nemon, em Viena, em 1931
Foto: Associated Press

O espólio de Sigmund Freud (1856-1939) parece às vezes inesgotável. De tempos em tempos surge algo até então desconhecido: rascunhos, cartas, passagens, apêndices etc. Tais achados despertam interesse por revelarem rastros da construção de um dos principais edifícios conceituais do século 20. Poucos, no entanto, são tão relevantes como o manuscrito encontrado pelo historiador Paul Roazen em 2004.

Em meio a uma série de documentos do embaixador americano William C. Bullitt (1891-1967), Roazen encontrou 24 páginas escritas em alemão gótico com a caligrafia de Freud, além de extensa missiva que comprova sua autoria.

Após publicação em diversas línguas, o texto aparece agora pela primeira vez em português, em edição bilíngue e traduzido diretamente do original pela psicanalista Elsa Vera Kunze Post Susemihl no livro "Manuscrito Inédito de 1931" (Blucher).

Por seu valor histórico, as páginas já teriam lugar garantido na estante freudiana, por trazerem novas evidências para um dos capítulos mais obscuros da produção de Freud: sua colaboração com o diplomata em um livro sobre Thomas Woodrow Wilson (1856-1924), 28º presidente dos Estados Unidos.
WILLIAM C. BULLITT

A importância do manuscrito, porém, transcende esse contexto, entre outros motivos, por conter uma leitura psicanalítica inédita do simbolismo da figura de Jesus Cristo.

Sua origem remete à participação desastrosa de Wilson no fracasso do Tratado de Versalhes (1919). Embora proclamasse trazer à Europa a paz definitiva, o americano logo cedeu às exigências revanchistas dos países aliados na dissolução dos impérios centrais, criando condições para o surgimento de regimes totalitários e a eclosão da Segunda Guerra.

Em ensaio publicado no livro "O Momento Supremo", Stefan Zweig descreve as expectativas messiânicas que o encobriam: "Wilson, como outro Moisés, daria aos povos enlouquecidos pela guerra as tábuas de uma nova lei. Em poucas semanas seu nome havia adquirido um significado religioso, redentor".

Filho e neto de pastores presbiterianos, Wilson designava-se eleito por Deus para o cargo que ocupava. Acreditava-se em missão para salvar a humanidade, levando a paz perpétua a toda a Europa. Porém, nunca havia saído de seu país, não falava língua estrangeira e exibia um desconhecimento geográfico e político constrangedor.

Freud o comparava ao "deplorável benfeitor que quer devolver a visão a um paciente, mas não conhece a estrutura do olho e esqueceu-se de aprender os métodos cirúrgicos necessários".

Bullitt e Freud já contavam uma década de amizade quando, em 1930, o diplomata mencionou sua intenção de escrever um livro sobre o tema. Ele havia integrado a delegação americana na conferência de paz; foi um crítico contumaz do seu desenlace e, principalmente, do papel desempenhado por Wilson.

A proposta interessou Freud, e o fato de Bullitt possuir farta documentação e testemunhos diretos sobre um estadista de tamanho vulto no cenário mundial certamente soou atraente.

Em pouco tempo um primeiro esboço do livro foi elaborado. O projeto, entretanto, foi bruscamente interrompido quando Bullitt se recusou a incluir passagens escritas por Freud e a divergência virou impasse.

A retomada ocorreria anos mais tarde, durante o exílio do psicanalista em Londres. Adoecido e abatido por inúmeras perdas, ele aceitou a edição, com exclusão dos trechos controversos.

A publicação de "Thomas Woodrow Wilson: Um Estudo Psicológico" deu-se em 1966, alguns anos após a morte da viúva de Wilson, conforme havia sido acordado entre Bullitt e Freud à época da produção — já que a obra continha passagens que poderiam afetar sua vida pessoal.

Segundo pesquisas realizadas por Roazen e outros, o manuscrito encontrado em 2004 é justamente o texto de Freud recusado por Bullitt, destinado a ser o primeiro capítulo da obra sobre Wilson. Em comparação com a versão de 1966, são páginas inteiras suprimidas, além de numerosas alterações que deformaram a proposta original.
THOMAS WOODROW WILSON
28º Presidente dos Estados Unidos de 1913 a 1921
 

Não por acaso o livro foi recebido com reservas e cercado de desconfiança no meio psicanalítico. Levantaram-se dúvidas sobre a participação de Freud e sobre a natureza de sua colaboração. No entanto, o manuscrito de 1931 comprova que o psicanalista não estava tão alheio ao projeto quanto se pensou.

Nele, Freud oferece uma exposição clara de sua teoria, com um encadeamento sistemático de ideias e conceitos. O texto pode ser considerado uma boa introdução ao seu pensamento.

Preparando terreno para os capítulos seguintes (como enfatiza: um estudo psicológico, e não uma psicanálise de Wilson), o autor traça linhas gerais que convergem em uma investigação cuidadosa do complexo de Édipo, na qual relaciona conflito entre tendências masculinas e femininas, Jesus Cristo, cristianismo e homossexualidade.

Cabe lembrar que Freud se refere a componentes do psiquismo e da libido, não se reduzindo a mero determinismo biológico.

É provável que aí esteja o principal motivo para a divergência com Bullitt — cristão fervoroso e pouco propenso a polêmicas que afetassem sua carreira diplomática —, mas é preciso também cogitar alguma relutância do próprio Freud em ver tais ideias publicadas.

Embora já houvesse abordado inúmeras vezes o tema da religião, e até de modo mais contundente, o começo dos anos 30 era um momento particularmente delicado para atrair a antipatia católica. Freud esperava que a Igreja, sua velha inimiga, pudesse barrar a barbárie que se aproximava. Como se sabe, a instituição nada pôde frente ao avanço nazista, que ironicamente trazia em suas bandeiras a inscrição "Gott mit uns" (Deus está conosco).

As reflexões do manuscrito de 1931, embora toquem na pedra fundamental do cristianismo, têm como pano de fundo o estudo sobre a personalidade de Thomas Woodrow Wilson. No interesse de Freud pelo presidente sobressai não tanto o caso clínico, mas a dimensão política e social que representou.

O livro escrito com Bullitt, em que pese seus muitos defeitos, pode ser lido como a tentativa de apreender o gradual enlouquecimento de um estadista em pleno exercício de suas funções, encenando suas neuroses num palco mundial.

A certeza de uma predestinação divina que caracteriza o messianismo político realça o sentimento de estar em posse da única verdade possível e de que seus atos são sempre corretos, visto que orientados por Deus.

O messianismo latente do "God Bless America" e a luta conflagrada entre bem e mal absolutos parecem se conjugar facilmente a um conservadorismo belicoso e à exaltação de uma figura autoritária, ainda que esta possa ser uma paródia de autoridade, como à que nos remete Donald Trump.

Talvez não precisemos olhar para o quintal do vizinho para enxergar tal fenômeno. Algumas ideias de Freud se prestam a transposições entre uma psicologia individual e uma psicologia das massas. Também aqui podemos tomá-las como um instrumental reflexivo para os diversos fanatismos de aspiração messiânica que vemos em nossa conjuntura política, cada vez mais carregada de ares evangélicos, bem como um antídoto aos fanatismos que habitam o foro íntimo de cada ser humano.

Algumas das concepções de Freud talvez tenham sido consideradas por Bullitt inconvenientes ou excessivas ao puritanismo do leitor americano de seu tempo. Frente ao que vivemos em nosso cenário político e cultural, resta saber como elas serão hoje recebidas.

L I V R O

MANUSCRITO INÉDITO DE 1931
Autor: Sigmund Freud
Editora: Blucher
Tradução: Elsa Vera Kunze Post Susemihl
Preço: R$ 40 (120 págs., edição bilíngue)

Fonte: Folha de S. Paulo - Ilustríssima – Sábado, 9 de junho de 2018 – 02h00 (Horário de Brasília – DF) – Internet: clique aqui.