«Em terra de Maria-vai-com-as-outras cada um sabe, ou deveria saber, onde sua inteligência o acompanha ou o abandona.»

(Henrique Musashi [44 anos] – poeta e artista cearense)

Quem sou eu

Jales, SP, Brazil
Sou presbítero da Igreja Católica Apostólica Romana. Fui ordenado padre no dia 22 de fevereiro de 1986, na Matriz de Fernandópolis, SP. Atuei como presbítero em Jales, paróquia Santo Antönio; em Fernandópolis, paróquia Santa Rita de Cássia; Guarani d`Oeste, paróquia Santo Antônio; Brasitânia, paróquia São Bom Jesus; São José do Rio Preto, paróquia Divino Espírito Santo; Cardoso, paróquia São Sebastião e Estrela d`Oeste, paróquia Nossa Senhora da Penha. Sou bacharel em Filosofia pelo Centro de Estudos da Arq. de Ribeirão Preto (SP); bacharel em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção; Mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (Itália); curso de extensão universitária em Educação Popular com Paulo Freire; tenho Doutorado em Letras Hebraicas pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, realizo meu Pós-doutorado na PUC de São Paulo. Estudei e sou fluente em língua italiana e francesa, leio com facilidade espanhol e inglês.

domingo, 21 de outubro de 2018

29º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 10,35-45

Naquele tempo:
35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram a Jesus e lhe disseram: «Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir».
36 Ele perguntou: «O que quereis que eu vos faça?»
37 Eles responderam: «Deixa-nos sentar um à tua direita e outro à tua esquerda, quando estiveres na tua glória!»
38 Jesus então lhes disse: «Vós não sabeis o que pedis. Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?»
39 Eles responderam: «Podemos». E ele lhes disse: «Vós bebereis o cálice que eu devo beber, e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado.
40 Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. É para aqueles a quem foi reservado».
41 Quando os outros dez discípulos ouviram isso, indignaram-se com Tiago e João.
42 Jesus os chamou e disse: «Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam.
43 Mas, entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo;
44 e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos.
45 Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos».

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

VOCÊS NÃO PODEM SER ASSIM

No caminho para Jerusalém, Jesus vai advertindo seus discípulos a respeito do destino doloroso que lhe aguarda, bem como, a todos que seguem seus passos. A inconsciência daqueles que o acompanham é incrível. E mesmo atualmente continua se repetindo!

Tiago e João, filhos de Zebedeu, separam-se do grupo e se aproximam sozinhos de Jesus. Não necessitam dos outros. Querem obter os postos mais privilegiados e serem os primeiros no projeto de Jesus, tal com eles o imaginam. O pedido deles não é uma súplica, mas uma ridícula ambição: «Queremos que faças o que vamos lhe pedir». Querem que Jesus coloque-os acima dos demais.

Jesus parece surpreso. «Não sabeis o que pedis». Não entenderam nada a respeito dele. Com grande paciência, convida-os a se perguntarem se são capazes de compartilhar de seu destino doloroso. Quando se inteiram do que acontece, os outros dez discípulos enchem-se de indignação contra Tiago e João. Também eles têm as mesmas aspirações. A ambição divide-os e coloca-os em confronto. A busca de honrarias e protagonismo interesseiros rompem sempre com a comunhão da comunidade cristã. Também hoje. O que pode ser mais contrário a Jesus e ao seu projeto de servir à libertação das pessoas?

O fato é tão grave, que Jesus «reúne-os» para deixar claro qual é a atitude
que deve caracterizar sempre seus seguidores.

Conhecem de sobra como atuam os romanos, «chefes dos povos» e «grandes» da terra: tiranizam os povos, submetem e fazem todos sentirem o peso de seu poder. Pois bem, «entre vós, não deve ser assim».

Entre seus seguidores, tudo deve ser diferente: «Quem quiser ser grande, seja o vosso servidor; e aquele que quiser ser o primeiro, seja escravo de todos». A grandeza não se mede pelo poder que se tem, o cargo que se ocupa ou os títulos que se ostenta. Quem ambiciona estas coisas, na Igreja de Jesus, não se faz maior, mas mais insignificante e ridículo. Na realidade, tal pessoa atrapalha a promoção do estilo de vida desejado pelo Crucificado. Falta-lhe uma característica fundamental para ser seguidor de Jesus.

Na Igreja, todos temos de ser servidores. Não podemos nos colocar na comunidade cristã a partir de cima como superiores, protagonistas interessados, mas a partir de baixo, disponíveis, a serviço e disponíveis a ajudar os demais.

Nosso exemplo é Jesus. Não viveu jamais «para ser servido, mas para servir». Este é o melhor e mais admirável resumo do que ele foi: serviço a todos.

OUTRO CAMINHO

O mais importante na vida não é ter êxito e superar os outros!
O verdadeiramente decisivo é ser AUTÊNTICO e saber CRESCER como SER HUMANO. No entanto, com frequência, equivocamo-nos desde o ponto de partida. Cremos que, para afirmar nossa própria vida e assegurar nossa pequena felicidade e liberdade, devemos necessariamente dominar os demais.

Insatisfeitos por não termos sempre tudo o que queremos, temerosos de perder felicidade, queremos assegurar-nos diante de tudo e de todos, tratando de dominar a situação a partir de uma posição de superioridade e de poder sobre os demais. E assim, tratamos de manipular, de mil maneiras, a quem é mais débil que nós, esforçando-nos por mantê-lo ao serviço de nossas expectativas e interesses.

Basta observar, com atenção, as relações que se estabelecem entre chefes e subordinados, entre poderosos e economicamente fracos, entre professores
e alunos, esposos e esposas.

Pode-se dizer que não conseguimos ser algo, a não ser manipulando, dominando e oprimindo os demais. E, no entanto, segundo sociólogos atuais, este caminho é próprio de neuróticos. Em palavras de  Fritz Perls [psicoterapeuta e psiquiatra alemão: 1893 a 1970 – desenvolveu a Gestalt terapia], «neurótico é todo homem que usa seu potencial para manipular os demais, ao invés dele mesmo crescer».

Este desejo de ser grande, dominando os demais, não provém da força que alguém possui, mas precisamente da debilidade e do vazio pessoal. É um intento equivocado de conseguir, pela força, o que alguém não sabe viver a partir da própria liberdade e capacidade de amar.

O importante, é dar-nos conta de que existem outros caminhos para direcionar nossa vida e sermos autenticamente grandes. Segundo Jesus, aquele que quiser ser grande, tem de renunciar ao seu desejo de poder sobre os outros e aprender, simplesmente, a servir a partir de uma postura de amor fraterno.

Os que aceitam viver a partir da generosidade, do serviço e da solidariedade são pessoas que irradiam uma autoridade única. Não necessitam ameaçar, manipular, subornar nem adular. São homens e mulheres que nos atraem pela sua generosidade e nobreza de vida. Em sua existência resplandece a grandeza do próprio Jesus que «não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos» (Mc 10,45). Sua vida é grande, precisamente, porque sabem dá-la.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fonte: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Exame de Consciência para Adolescentes

 Preparação ao Crisma

1. Minha relação com Deus

* Reservo um ou mais momentos durante o dia para rezar, para conversar com Deus?
* Minha oração é calma ou apressada? Atenta ou distraída?
* Tenho o hábito de ler os Evangelhos ou outras partes da Bíblia diariamente?
* Frequento, todos os domingos, a Santa Missa?
* Vou à Santa Missa de livre e espontânea vontade ou, somente, porque meus pais me pedem ou obrigam?
* Quando estou na Santa Missa, eu presto atenção? Eu rezo e canto? Eu participo, de verdade, da Santa Missa?

2. Minha relação com o Próximo

* Eu respeito e obedeço, de verdade, aos meus pais?
* Eu respeito, sou bom e generoso para com meu(s) irmão(s)?
* Eu respeito, sou bom e generoso para com as pessoas mais idosas?
* Eu respeito, sou bom e generoso para com meus colegas de escola?
* Eu respeito e sou obediente ao(s) meu(s) professor(es)?
* Eu levo a sério os meus estudos, buscando conhecer, ler e aprender sempre mais?
* Eu tenho por hábito xingar, rogar pragas e usar palavras que humilhem as pessoas?
* Eu costumo falar mal das pessoas, espalhar boatos e fofocas?
* Eu costumo zombar, humilhar e desprezar pessoas devido às suas deficiências físicas ou mentais?
* Eu me prevaleço diante dos outros devido à minha superioridade física ou beleza aparente?
* Eu costumo ter inveja das pessoas, devido ao que elas possuem, devido à aparência delas, devido à família delas e assim por diante?

3. Minha relação com o Meio Ambiente

* Eu respeito os animais, as plantas, os rios, os córregos, as flores? Ou será que costumo matar animais, destruir jardins, arrancar árvores e plantas, bem como, sujar as águas somente pelo prazer de fazer isso?
* Eu costumo pichar paredes e muros de escolas, estabelecimentos comerciais e residências?
* Eu tenho por hábito jogar lixo pela rua, pela janela do carro em movimento?
* Eu tenho por hábito jogar lixo no quintal de minha casa ou no quintal dos outros?
* Eu costumo deixar minhas roupas sujas jogadas pelos cantos de minha casa, deixando tudo bagunçado como se minha mãe ou a empregada doméstica fossem escravas ao meu serviço e disposição?
* Eu tenho por hábito contribuir para a limpeza de minha casa, de minha escola e de minha cidade?

Texto de: Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo

sábado, 13 de outubro de 2018

28º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 10,17-27

Naquele tempo:
17 Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele, e perguntou: «Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?»
18 Jesus disse: «Por que me chamas de bom?» Só Deus é bom, e mais ninguém.
19 Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe!»
20 Ele respondeu: «Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude».
21 Jesus olhou para ele com amor, e disse: «Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!»
22 Mas quando ele ouviu isso, ficou abatido e foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.
23 Jesus então olhou ao redor e disse aos discípulos: «Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!»
24 Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: «Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!
25 É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!»
26 Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: «Então, quem pode ser salvo?»
27 Jesus olhou para eles e disse: «Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível».

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista e Teólogo espanhol

O QUE NOS FALTA

Um homem aproxima-se de Jesus. É rico: não tem problemas materiais. É bom: sua consciência não lhe acusa de nada. No entanto, ele está agitado. Vem «correndo», apressado pela sua inquietação. «Ajoelha-se» diante de Jesus como último recurso, e lhe faz uma só pergunta: o que tenho de fazer para evitar que a morte seja o final de tudo?

Jesus lhe recorda os mandamentos. Segundo a tradição judaica, os mandamentos são o caminho da salvação. Porém, omite aqueles que se referem a Deus: «amarás a Deus», «santificará suas festas»... Somente lhe fala dos que pedem não fazer dano às pessoas: «não matarás», «não roubarás»... Em seguida, acrescenta, por sua conta, algo novo: «não prejudicarás ninguém», não privarás aos outros o que lhes deve. Isso é a primeira coisa que Deus quer.

Ao ver que o homem cumpriu tudo isso desde pequeno, Jesus «olhou para ele». O que lhe dirá é muito importante. Jesus sente carinho por ele. É um bom homem. Jesus convida-lhe a segui-lo até o final: «Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres... Depois vem e segue-me!».

A mensagem de Jesus é clara:
* Não basta pensar na própria salvação; deve-se pensar nas necessidades dos pobres.
* Não basta preocupar-se com a vida futura; deve-se preocupar-se com os que sofrem na vida atual.
* Não basta não prejudicar aos outros; deve-se colaborar no projeto de um mundo mais justo, tal como Deus o quer.

Não é isto que falta aos fiéis satisfeitos do mundo atual, que desfrutamos do nosso bem-estar material enquanto cumprimos nossos deveres religiosos com uma consciência tranquila?

O rico não esperava a resposta de Jesus. Buscava luz para a sua inquietação religiosa, e Jesus lhe fala dos pobres. «Ficou abatido e foi embora cheio de tristeza». Preferia seu dinheiro; viveria sem seguir Jesus. Talvez esta seja a postura mais generalizada entre os cristãos de hoje. Preferimos nosso bem-estar. Desejamos ser cristãos sem «seguir» a Cristo. Sua abordagem está além de nós. Põe-nos tristes porque, no fundo, desmascara a nossa mentira.

JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo espanhol

IGUALDADE COM LIBERDADE

Este relato do homem rico, que pretendeu seguir Jesus sem deixar de ser rico, deve ter impressionado muito as primeiras comunidades cristãs. Prova disso é que os três evangelhos sinóticos deixaram-nos a recordação detalhada desse episódio (Mc 10,17-39; Mt 19,16-30; Lc 18,18-30).

Um episódio no qual fica patente que, a juízo de Jesus, a pretensão de estar próximo de Jesus mantendo, ao mesmo tempo, as propriedades, os bens, a abundância das muitas posses e os muitos caprichos, isso é um projeto contraditório, impossível. Porque em semelhante projeto pretende-se harmonizar duas coisas irreconciliáveis, contraditórias uma com a outra, a «proximidade de Jesus» e a «posse de bens». Querer ter essas duas coisas juntas, isso é simplesmente impossível.

Não nos enganemos. Não há razão ou argumento que possa justificar a presença, em uma mesma vida, de Jesus e da riqueza. O primeiro passo, que deve dar quem desejar estar com Jesus, é o passo do que é rico e passa a não ser rico.

Por que é assim? Por que esta colocação tão contundente? Não é preciso ser muito esperto para ver com clareza que isto tem de ser assim. De forma que, aqui, não cabe escapatória. Por quê? A resposta é tão clara quanto dura. Por sentido comum, pela razão mais elementar, a propriedade individual dos bens deste mundo não se pode antepor às necessidades fundamentais das grandes maiorias dos seres humanos. Se este critério não se mantém firme, a «Lei da Selva» termina por impor-se e destrói a convivência humana.

O mais forte impõe-se e manda e mata e devora o mais fraco. A convivência se converte em violência, e a violência acaba destroçando a todos. É o que estamos vendo e vivendo, agora mesmo, em nosso mundo. No qual, 2% dos habitantes do planeta dominam, mandam, usam e abusam, não somente dos bens da terra, mas inclusive do futuro da terra mesma. Enquanto que os demais aguentam e calam-se, ansiando parecer a quem os está destroçando.

Isso tem solução? O problema está em que, na sociedade, a «igualdade» e a «liberdade» não se podem unir nem são harmonizáveis, a não ser que se introduza um princípio e uma convicção que intervenha como um princípio externo interiorizado por todos (ou, ao menos, por uma importante maioria). Esse princípio pode ser o Evangelho que nos deixou Jesus. Se na sociedade se privilegia a liberdade, o peixe grande come o peixe pequeno. E se quisermos, a todo custo, ter igualdade, isso somente pode-se conseguir mediante uma ditadura que controle todas as liberdades. Ser livres e ser iguais, ao mesmo tempo e respeitando as diferenças, isso não é possível se semelhante utopia não se programa a partir dos critérios (por exemplo) que propôs Jesus e que ele próprio viveu.

Somente uma firme e compartilhada convicção de «fé laica» pode ser a raiz e o caminho que nos leve a poder viver em uma sociedade «livre» e «igualitária». Isso é o que quis e propôs Jesus com sua vida e o seu Evangelho. Por isso, converter o Evangelho em religião, isso é, não somente deformar o Evangelho, mas, além disso, distrair e tranquilizar o povo para que tudo siga como está. Ou seja, o maior desastre.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui; José María Castillo. La religión de Jesús: comentarios al evangelio diario – ciclo B (2017-2018). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2017, páginas 364-365.

domingo, 7 de outubro de 2018

Ele é o cara?!

Bolsonaro não é um absurdo. Ao contrário:
é um espelho fiel do Brasil

Adriano Silva*
Editor
ADRIANO SILVA

Bolsonaro nos representa. Somos todos Bolsonaro. Bolsonaro é uma expressão genuína do pensamento e do sentimento médio dos brasileiros.

Somos um povo violento. Um povo macho, valente, que gosta de resolver de modo sumário, no braço – ou no pau, na faca, na bala. Um povo prático, que prefere fazer a planejar, estudar ou pensar. Estamos no ramo da bravata e da intimidação, e não do diálogo ou da reflexão.

Somos o país que mais mata no mundo. Em número absolutos, ninguém assassina tanto quanto nós: praticamos 62 000 homicídios por ano. Em torno de 13% dos assassinatos do planeta acontecem no Brasil. Na média ponderada, somos o 11º país que mais manda semelhantes para a cova, com 30,5 homicídios por 100 mil habitantes. Em termos de linchamento, produzimos um por dia. Esse é o verdadeiro esporte nacional. O autêntico jeitinho brasileiro. The real Brazilian Way.

Bolsonaro tem razão. Bolsonaro é o cara. O nosso cara. A nossa cara.

A polícia brasileira é a que mais mata no mundo. São mais de 5 000 homicídios perpetrados pelo Estado todo ano. Não por acaso, 80% dos brasileiros têm medo da sua própria polícia. Ao mesmo tempo, somos também o país que mais mata policiais. Em torno de 500 policiais são assassinados todo ano.

Bolsonaro não é uma surpresa. Nem uma excrescência. Bolsonaro é um espelho fiel. Uma consequência previsível, senão óbvia, da nossa:
* cultivada ignorância,
* da nossa intolerância,
* da nossa insensibilidade,
* do nosso descaso com o lugar onde vivemos,
* do nosso egoísmo atroz,
* da nossa absoluta falta de solidariedade com os demais.

Bolsonaro é o presidente mais parecido com o Brasil. (Qualquer teste de DNA revelaria a inegável consanguinidade.) O candidato que melhor entende o país. Que melhor ouve e reproduz a voz rouca das ruas. Bolsonaro é o governante dos sonhos da maioria dos brasileiros.

O Brasil registra 60 mil estupros todo ano. Estima-se que só 10% dos casos sejam denunciados – então estamos falando em mais de meio milhão de vítimas (e de algozes) de violência sexual. Metade das vítimas são crianças de até 13 anos. São quase 30 estupros por 100 mil habitantes. Em termos de violência doméstica, são mais de 220 mil casos registrados por ano – estima-se, aqui também, que a grande maioria dos casos seja silenciado dentro de quatro paredes.

Vai que é sua, Bolsonaro. É sua – mais do que de qualquer outro candidato, por óbvio merecimento – essa imensa nau de insensatos, sempre à deriva, sempre navegando para trás ou para o fundo. O Brasil está contigo, Bolsomito. Arrasa. Arrebenta. Detona.

Quem não estiver contigo é minoria. E as minorias que se cuidem. Que se explodam. Os incomodados que se retirem. Aqui é Brasil. Ame-o ou deixe-o. [Bordão dos tempos da ditadura militar no Brasil!]

* ADRIANO SILVA fundador e Diretor da The Factory. Editor (publisher) do Projeto Draft e Curador da Academia Draft. Fundador da Spicy Media – trouxe o Gizmodo, o Jalopnik e o Kotaku ao Brasil. Chefe de Redação do Fantástico, na TV Globo. Diretor do Núcleo Jovem da Editora Abril. Diretor de Redação da Superinteressante, lançou Vida Simples, Mundo Estranho e Aventuras na História. Editor Sênior da Exame e Diretor de Marketing do Grupo Exame, também na Editora Abril. MBA pela Universidade de Kyoto, no Japão. Graduado em Comunicação Social, pela UFRGS. Autor da trilogia O Executivo Sincero (“O Executivo Sincero – Revelações subversivas, surpreendentes e inspiradoras sobre a vida nas grandes empresas”, 2014, “Ansiedade Corporativa – Confissões sobre estresse e depressão no trabalho e na vida”, 2015, e “Dono do Próprio Nariz – Reflexões para quem sonha com um vida sem chefe nem crachá”, 2016, todos pela Editora Rocco ), além de “Treze Meses Dentro da TV – Uma aventura corporativa exemplar”, 2017, também pela Rocco.

Fonte: Linkedin – Segunda-feira, 24 de setembro de 2018 – Internet: clique aqui.

sábado, 6 de outubro de 2018

27º Domingo do Tempo Comum – Ano B – Homilia

Evangelho: Marcos 10,2-16

Naquele tempo:
2 Alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher.
3 Jesus perguntou: «O que Moisés vos ordenou?»
4 Os fariseus responderam: «Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la».
5 Jesus então disse: «Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento.
6 No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher.
7 Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne.
8 Assim, já não são dois, mas uma só carne.
9 Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe!»
10 Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto.
11 Jesus respondeu: «Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira.
12 E se a mulher se divorciar de seu marido e casar com outro, cometerá adultério».
13 Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam.
14 Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: «Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas.
15 Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele».
16 Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos.

JOSÉ MARÍA CASTILLO
Teólogo espanhol

NÃO SE TRATA DE DIVÓRCIO, MAS DE DIREITOS

O tema do divórcio se colocava no judaísmo, nos tempos de Jesus, de forma muito distinta de como se coloca em nosso tempo. O direito de divorciar-se era exclusivamente da parte do homem. Os casos nos quais a mulher poderia requerer o divórcio eram muito escassos e de difícil aplicação.

E, para complicar mais as coisas, o rabino Hillel interpretava a lei de Moisés (Dt 24,1) de forma que qualquer coisa que desagradasse ao marido, dava-lhe o direito de repudiar a sua mulher. Além disso, o texto do Deuteronômio deve ser lido completo, uma vez que o texto inteiro (Dt 24,1-4) considera abominável que o marido da divorciada case-se novamente com ela, caso ela tenha tido um segundo marido. Era um problema de «pureza ritual», não de indissolubilidade matrimonial [cf.: Joel Marcus. Mark 8-16: a new translation with introduction and commentary. Yale University Press, 2009. The Anchor Yale Bible Commentaries 8].

A pergunta dos fariseus não era a pergunta pelo divórcio, tal como agora se coloca, mas a pergunta pela desigualdade de direitos entre o homem e a mulher. Isto é, os fariseus perguntavam se os privilégios do homem eram praticamente ilimitados, como defendia a escola teológica de Hillel. Pois bem, é isso que Jesus não tolera. A desigualdade de direitos está diretamente contra o Evangelho. Ademais, deve-se recordar que os cristãos, pelo menos até o século VIII, casaram-se como todos os cidadãos do Império [cf.: Josef Duss-von Werdt – psicólogo e teólogo suíço]. E quanto à indissolubilidade, o papa Gregório II, em 726, permite o divórcio, como consta em uma carta do próprio papa (cf.: Migne, PL 89, 525).

Jesus argumenta – em prol da igualdade de direitos – recorrendo ao projeto original de Deus: que o homem e a mulher não são dois, mas uma só carne, ou seja, se fundem em uma unidade que é tanto como dizer uma perfeita igualdade em dignidade e direitos, por mais que sejam patentes as diferenças. A diferença é um fato. A igualdade é um direito.

Portanto, deduzir deste evangelho aquilo que Jesus não pretendeu dizer, uma vez que nem lhe perguntaram, é manipular (por ignorância) o que disse Jesus.

JOSÉ ANTONIO PAGOLA
Biblista e teólogo espanhol

ACOLHER OS PEQUENOS

O episódio parece insignificante. No entanto, contém um fundo de grande importância para os seguidores de Jesus. Segundo o relato de Marcos, alguns procuram aproximar de Jesus umas crianças que estão por perto. A única coisa que pretendem é que aquele homem de Deus lhes possa tocar para comunicar-lhes algo da sua força e da sua vida. Ao que parece, era uma crença popular.

Os discípulos aborrecem-se e procuram impedir. Pretendem levantar um muro em torno de Jesus. Atribuem-se o poder de decidir quem pode chegar até Jesus e quem não pode. Interpõem-se entre ele e os mais pequenos, frágeis e necessitados daquela sociedade. Em vez de facilitar o seu acesso a Jesus, obstaculizam-no.

Esqueceram-se do gesto de Jesus que, uns dias antes, colocou no centro do grupo uma criança para que aprendessem bem que são os pequenos aqueles que hão de ser o centro de atenção e cuidado dos seus discípulos. Esqueceram-se de como o abraçou diante de todos, convidando-os a acolher em seu nome e com o seu mesmo carinho.

Jesus indigna-se. Aquele comportamento dos seus discípulos é intolerável. Aborrecido, dá-lhes duas ordens: «Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais». Quem os ensinou a atuar de uma forma tão contrária ao Seu Espírito? São, justamente, os pequenos, fracos e indefesos, os primeiros que hão de ter aberto o acesso a Jesus.

A razão é muito profunda pois obedece aos desígnios do Pai: «o Reino de Deus é dos que são como elas». No Reino de Deus e no grupo de Jesus, os que incomodam não são os pequenos, mas os grandes e poderosos, os que querem dominar e ser os primeiros.

O centro da sua comunidade não tem de estar ocupado por pessoas fortes e poderosas
que se impõem aos outros desde cima.
Na sua comunidade necessitam-se homens e mulheres que procurem
o último lugar para acolher, servir, abraçar e bendizer
os mais fracos e necessitados.

O Reino de Deus não se difunde com a imposição dos grandes, mas a partir do acolher e defender os pequenos. Onde estes se convertem no centro da atenção e cuidado, aí está chegando o Reino de Deus, a sociedade humana que quer o Pai.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: José María Castillo. La religión de Jesús: comentarios al evangelio diario – ciclo B (2017-2018). Bilbao: Desclée De Brouwer, 2017, página 356; Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Bizkaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Como evangelizar os JOVENS hoje?

Na questão juvenil está em jogo o futuro da Igreja

Entrevista com Armando Matteo
Padre, teólogo e professor extraordinário de Teologia Fundamental na
Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma (Itália)

Iacopo Scaramuzzi
Vatican Insider
10-03-2018

Vivemos em uma sociedade que fala muito dos jovens
apenas para deixá-los de fora
PE. ARMANDO MATTEO

Desde a primeira publicação em 2009 do livro La prima generazione incredula [A primeira geração incrédula, em tradução livre], um pequeno grande livro sobre a “difícil relação entre os jovens e a fé”, o padre Armando Matteo, professor extraordinário de Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, dedica à questão juvenil na Igreja uma reflexão viva e não desprovida de saudáveis provocações.

A atual pastoral juvenil “não consegue gerar novas pessoas que creem”; os adultos, buscando uma eterna juventude, parecem ter renunciado à “transmissão da fé”; assiste-se a um “eclipse do cristianismo doméstico”; e, para responder a essas mudanças, é preciso reconhecer que “o cristianismo que herdamos não é a única possibilidade de cristianismo”; é oportuno que a Igreja “faça dieta” e é necessário “repensar” a sua presença na sociedade. De modo que, no fim, seja possível responder à pergunta sobre “por que continuar sendo cristãos depois que se deixa de ser criança”.

Em suma, este Sínodo “é mais importante do que os anteriores”, afirma o teólogo ao Vatican Insider, porque, “sem restabelecer as relações com o mundo juvenil, a Igreja corre o risco da implosão”.

Eis a entrevista.

Começou nessa quarta-feira, 3  de outubro, o Sínodo dos bispos. Na sua opinião, o que os jovens têm a dizer à Igreja e o que a Igreja tem a dizer às novas gerações?

Armando Matteo: Os jovens mandam uma mensagem clara: lutamos para unir o nosso crescimento, o nosso caminho rumo à idade adulta e a experiência religiosa. Há um forte desinteresse pela experiência cristã. Ao mesmo tempo, emergem também um pedido de ajuda: a nossa sociedade tende a condenar os jovens a um destino de marginalização, e eles pedem para ser ajudados a entender melhor como a religião cristã pode servir para a vida adulta. A Igreja, por sua vez, sem restabelecer as relações com o mundo juvenil, corre o risco da implosão:
* caem as vocações,
* muitas pessoas decidem não recorrer mais ao casamento religioso,
* as nossas comunidades não têm o espírito, o entusiasmo das forças juvenis.
Nesse sentido, penso que, nas intenções do Papa Francisco, está a vontade de se pôr em diálogo e à escuta. É a primeira vez que a Igreja faz isso desse modo. Eu acrescentaria que não são muitos os que entenderam na Igreja que esse Sínodo seja fundamental, mais importante do que os celebrados no passado. Está em jogo o interesse de gerações inteiras, além do destino da Igreja. O tema dos jovens diz respeito a todos.

Pode-se dizer que, para o Papa Francisco, abordar a questão juvenil é também um modo para propor, através do olhar dos jovens, a necessidade de uma reforma da Igreja?

Armando Matteo: A dificuldade atual que os jovens têm para crer nos diz que tudo o que fazemos, a pastoral juvenil, não consegue gerar novas pessoas que creem, põe em crise o caráter materno da Igreja. E isso está no coração do Papa Francisco. Por isso, para gerar novas pessoas que creem, o papa exorta a uma reforma missionária da Igreja. Se a Igreja deve ser o lugar onde as pessoas se encontram com Jesus e vivem uma vida plena, isso não está mais acontecendo, e o universo juvenil devolve isso de um modo muito forte. As pesquisas a esse respeito são claras.

O último estudo, publicado pelo Instituto Toniolo em meados deste ano, registrava que, na Itália, existe uma faixa realmente ampla da população juvenil que viveria tranquilamente sem religião. O documento preparatório do Sínodo também sublinha que a maioria aprende a viver sem Deus e sem Igreja, não porque não têm a chance de encontrá-la, mas porque atualmente o modo de apresentar Jesus e a experiência da fé não desencadeia aquele interesse real nas novas gerações. Isso certamente requer mudanças.

Na realidade, embora proponham um catolicismo bastante distante do Concílio Vaticano II, os setores que poderiam ser definidos como fundamentalistas, realidades eclesiais que apresentam uma fé fortemente identitária, têm uma notável atração também entre os jovens...

Armando Matteo: Foi Zygmunt Bauman quem identificou esse estranho paradoxo, essa heterogênese dos fins: uma mentalidade líquida produz “conselheiros capazes”, pontos de referência extremamente sólidos, graníticos. Um certo fundamentalismo é uma espécie de derivado da cultura contemporânea. A ampliação das opções, o fato de que cada sujeito deve responder por si mesmo, porque não há mais morais compartilhadas, leva uma parte da população a dar confiança novamente a tradições culturais, políticas, mas também religiosas que se apresentem mais fortes, mais claras.

Certamente, essa abordagem, as ideias superclaras e superdistintas, tem uma certa atratividade, mas eu não acho que seja a melhor resposta, até porque a atitude do enrijecimento é sempre uma estratégia de fôlego curto, e a espécie humana não age assim. As reviravoltas epocais são dolorosas, mas sempre há a capacidade de se adaptar. O cristianismo, na sua melhor tradição, vive de acordo com a lógica da encarnação e, portanto, não teme pôr em discussão esse modelo de fazer Igreja, de apresentar o Evangelho, de celebrar os sacramentos, na escuta constante da palavra do Evangelho, mas também da história dos seres humanos.

Parece-me que esse seja o apelo do Papa Francisco quando diz para estar à escuta dos pobres, que, além disso, podem ser, por exemplo, os casais de divorciados em segunda união, mas também, como disse recentemente o cardeal Gualtiero Bassetti, o mundo juvenil. Um ponto delicado é o esforço da comunidade eclesial para entrar em acordo com o convite do Papa Francisco a uma saída missionária. Uma dificuldade talvez aumentada também pela grande longevidade que existe no Ocidente, razão pela qual as comunidades nunca estão totalmente vazias e, por assim dizer, custamos a sentir a falta dos jovens que faltam. Estamos nos acostumando um pouco a aguentar.

Abrindo o pré-Sínodo, o papa usou palavras muito bonitas quando disse aos jovens: nós estamos aqui não porque queremos a todo o custo ter jovens, mas porque sabemos que uma comunidade sem jovens é incompleta, falta-nos uma parte de acesso ao mistério divino. Toda mudança, toda reforma requer algum sofrimento, e não podemos pensar em levar a termo uma Igreja verdadeiramente missionária sem passar também por um processo de morte e ressurreição.

Para citar Benedetto Croce, deixar morrer aquilo que está morto e promover aquilo que está vivo. O cristianismo que herdamos, enfim, não é a única possibilidade de cristianismo: é uma possibilidade, formada ao escutar as exigências de outra época, mas hoje não funciona mais. Na exortação Evangelii gaudium, o Papa Francisco diz isso claramente, a pastoral juvenil não responde mais porque as mudanças em curso são inúmeras. Esse não é o problema, o problema é quando falta a disponibilidade de mudar.

No seu livro “A primeira geração incrédula”, você defende que a reforma se realiza quando a Igreja “faz dieta” e repensa também a “geografia da salvação”: pode nos explicar isso?

Armando Matteo: Nós viemos de uma cultura em que o elemento religioso não estava apenas presente, mas era até promovido nas famílias e nas dinâmicas sociais, e isso favoreceu o fato de que a Igreja pudesse se ocupar de muitas outras coisas. A Igreja se ocupou de escolas, hospitais, formação política, teatro: quase não há âmbito humano com o qual a Igreja não se ocupou. E sempre pôde delegar a geração da fé às famílias, às mães e às avós, às escolas, ao próprio contexto cultural.

Hoje, encontramo-nos com um corpo eclesial mastodôntico, cada paróquia se ocupa de inúmeras coisas, mas é cada vez mais difícil fazer o que se deve fazer, isto é, gerar novas pessoas que creem em Cristo. Hoje, assistimos àquilo que eu chamo de eclipse do cristianismo doméstico: em casa, reza-se muito pouco, não se lê o Evangelho, o coração dos adultos deslocou-se para muitas outras coisas, e isso pede um maior compromisso para concentrar as próprias energias na geração para a fé, para repensar os processos de iniciação à fé de um modo diferente, para fazer isso mais a sério.

O mesmo vale para a geografia: na Itália, na Europa, quando o ser humano era naturalmente cristão, todos os bairros, todas as pequenas localidades nas montanhas ou no campo tinham a sua paróquia. Hoje, isso não é mais permitido, vivemos novos fenômenos de urbanização, é preciso tomar consciência de que o número de sacerdotes diminuiu ou envelheceu. Hoje, há uma dispersão de energias eclesiais enormes, ligadas a um mundo que não é mais aquele em que nasceram. Se o objetivo prioritário é o de ajudar os adultos a recuperar o interesse pela religião, é preciso também reescrever a nova geografia da presença cristã. Isso também é muito difícil.

O Papa Francisco pediu aos bispos italianos que repensem o número de dioceses e, portanto, de pastorais diocesanas, de paróquias... Mas sabemos que esse pedido encontrou resistências. Inevitavelmente, toda mudança envolve sofrimentos. Mas é necessário repensar a presença da Igreja não mais dispersa a esmo, como é atualmente, mas em função desse propósito primordial, a geração da fé. [Isto é fundamental! Proposta na direção certa!]

Mas o que os bispos do Sínodo podem fazer em três semanas para resolver problemas tão grandes, epocais? Agora, foi publicado um de seus livros, “Tutti giovani, nessun Giovane” [Todos jovens, nenhum jovem, em tradução livre] (Ed. Piemme), no qual você denuncia a “dificuldade de ser jovem”. Em que sentido?

Armando Matteo: O Sínodo poderia ser uma boa oportunidade para demarcar algumas coisas, tentar fazer um diagnóstico um pouco compartilhado. Acima de tudo, a parte jovem do mundo, tanto no Ocidente quanto em outros lugares, custa a viver a própria idade da vida. Deveria herdar o mundo na idade de máxima potência, de máxima energia, para melhorá-lo, e, em vez disso, defronta-se com gerações adultas que seguram tudo nas mãos ou, melhor, que continuam dizendo aos jovens: “Nós não precisamos de vocês, nós é que queremos ficar jovens”. Isso produz uma paralisia da confiança.

Os adultos, que deveriam ser aqueles que arrastam os jovens para a vida, na realidade atuam como contenção, apagamento das paixões. Há um grande desconforto, um grito de justiça dos jovens, porque, quando os adultos não são adultos, os jovens não podem ser jovens. O Sínodo, portanto, acima de tudo, pode servir para se concentrar no fato de que nós, adultos, somos o problema, e os jovens são o recurso.

Em segundo lugar, é preciso trabalhar mais a sério com os adultos. É preciso ativar uma pastoral da segunda idade, porque, com os adultos que vivem uma “religião da juventude”, interrompeu-se a transmissão da fé. Não podemos falar de jovens sem levar em conta que os jovens têm o seu olhar nos adultos, se não nos interrogarmos sobre como os adultos vivem e transmitem a sua fé.

E, em terceiro lugar, seguindo a Gaudete et exsultate do Papa Francisco, é preciso recuperar a dimensão alegre da fé: crer para viver com mais alegria a nossa vida humana; vai-se à missa para viver uma experiência de festa e de alegria. Por último, no meu último livro, digo provocativamente que o Sínodo também poderia ser o lugar de onde a Igreja sai com uma proposta um pouco estranha, talvez: deixar de falar de “jovens” referindo-se a pessoas com mais de 30 anos. Uma operação de limpeza linguística que pode corresponder a uma limpeza mental que possa pôr as gerações nos eixos. As gerações são os jovens e os adultos, e os adultos ajudam os jovens a tomar o seu lugar, a herdar o mundo.

O Sínodo sobre os jovens ocorre em um momento em que a Igreja é abalada pelo novo surgimento dos abusos sexuais: um motivo de afastamento dos jovens da Igreja?

Armando Matteo: A questão da relação dos jovens com a Igreja é a única questão real que temos. Por isso, esse Sínodo, embora se desenvolva não sob as condições mais favoráveis por causa do surgimento desses escândalos e de fortes divisões na Igreja, ainda é uma grande bênção. Provavelmente é mais a ativação de um processo do que a palavra definitiva. De todos os modos, seria uma oportunidade perdida não o fazer. Ainda é preciso dizer que, bem antes dessa situação de escândalo, poucos haviam se entusiasmado com esse Sínodo, os meios de comunicação também não pareciam muito atentos... porque vivemos em uma sociedade que fala muito dos jovens apenas para deixá-los de fora. É claro que os escândalos não ajudam.

A principal virtude do mundo juvenil hoje é a autenticidade, e é claro que onde quer que surjam manchas há decepção. Os jovens sentem imediatamente, com alergia, com repugnância, esses fatos. Também é preciso dizer, porém, que as investigações feitas, pelo menos na Europa, registram que o ponto mais problemático, pelo qual não desperta um real interesse dos jovens pelas coisas da Igreja e da fé, não é o escândalo.

Eu acho que o ponto-chave continua sendo o fato de que há uma faixa muito grande da população adulta que pôs no coração um monte de coisas e retirou Deus, a Igreja, a oração, Jesus Cristo, e, por isso, não testemunhou nas relações educacionais o porquê de permanecer cristãos depois que se deixa de ser criança.

Essa me parece ser a verdadeira questão.

Traduzido do italiano por Moisés Sbardelotto, com algumas correções pontuais feitas por Telmo José Amaral de Figueiredo. Acesse a versão original, clicando aqui.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 5 de outubro de 2018 – Internet: clique aqui.